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RELATÓRIO FINAL DE ESTÁGIO EM RESIDÊNCIA PÓS-DOUTORAL

Residente: MARÍLIA DE ABREU MARTINS DE PAIVA

Registro acadêmico: 2024678364

Supervisora: Profa. Dra. Mônica Correia Baptista

Título do Projeto: Contribuições da Biblioteconomia para a Bebeteca UFMG

Período do estágio: 01/03/2024 a 31/12/2024

1 – INTRODUÇÃO

A residência pós-doutoral configurou-se como uma oportunidade de dar sequência aos estudos que vinha realizando, nos últimos anos, acerca das bibliotecas escolares. O interesse pelatemática bibliotecasparacriançasveiodapercepçãodaemergência dotema nas políticas públicas brasileiras e da lacuna sobre esse tipo de biblioteca na área da Biblioteconomia e Ciência da Informação. Minha inserção na Faculdade de Educação (FAE/UFMG) já havia iniciado em disciplinas que fiz durante minha formação no mestrado e doutorado em Ciência da Informação. Posteriormente, cerca de um ano antes do estágio pós-doutoral, passei a me interessar pelos documentos publicados no contexto do Grupo de Pesquisa Leitura e Escrita na Primeira Infância (LEPI), e, posteriormente, em momentos de formação do Programa Bebeteca.

Assim, ao propor meu projeto de estágio pós-doutoral pretendia me apropriar dos referenciais teóricos da área dos livros e da literatura para a primeira infância, ao mesmo tempo trazer as contribuições da Biblioteconomia para a existência das bibliotecas para a primeira infância, dentro ou fora de instituições de educação infantil.

Já nas primeiras aproximações com a Bebeteca da FAE, compreendi que seria uma pesquisa-ação, pois seria necessário, além da pesquisa e estudo bibliográfico, compreender as formas de seleção, catalogação, indexação, ordenação e mediação do acervo infantil nessa Biblioteca específica. Tais temas, processos técnicos muito caros à atuação bibliotecária, tem, em bibliotecas para crianças, certa negligência no campo da Biblioteconomia. Por outro lado, estudos baseados na infância e na literatura podem desconsiderar contribuições importantes da Biblioteconomia para a constituição de acervos e bibliotecas. Além disso, o acervo literário para crianças, diferente dos acervos para outras faixas etárias, sempre depende de um mediador, seja um familiar, professor ou outro que se relacione com a criança. Dessa forma, as questões da Biblioteca para

crianças ora se voltam para os usuários finais (as crianças), ora precisam se voltar para os mediadores.

O grupo de pesquisa “Leitura E Escrita Na Primeira Infância” (LEPI), coordenado pela Supervisora Profa. Mônica já pesquisa sobre o tema, do ponto de vista da Educação e da Literatura, e nossa contribuição visa contribuir para soluções conjuntas com as teorias, processos e instrumentos da Biblioteconomia.

Assim, o estágio pós-doutoral configurou-se uma pesquisa de imersão nas atividades do Programa deextensão“Bebeteca: uma biblioteca paraa primeira infância” (Siex 500338), que tem por objetivo principal “Potencializar a formação de docentes e de demais profissionais da Educação para atuarem como mediadoras e promotoras de leitura junto a crianças de zero a seis anos de idade ou para realizarem pesquisas acerca da relação entre a pequena infância e a literatura” (Siex) e envolve vários projetos e ações vinculadas. Assim, a pesquisa caracterizou-se por uma pesquisa-ação, em que “é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou resolução de problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos no modo cooperativo ou participativo” (Thiollent, 1985, citado por Gil, 2008, p.30).

Como se pode verificar nas atividades elencadas no campo 2 deste Relatório, a pesquisadora de fato participou cotidianamente das ações da Bebeteca, tanto as internas e de estudo, quanto as externas, de comunicação com o público de fora da Universidade, como é característico da extensão. Em todas essas oportunidades foi possível compreender as questões que se apresentavam problemáticas, e as formas de solução delase a construção de novos conhecimentos, a partir da interaçãoprática,iluminada pela teoria da Educação e da Biblioteconomia. Ou seja, a pesquisadora esteve totalmente envolvida com as questões de toda a equipe do Programa, desde o planejamento até avaliação das ações.

Concomitantemente, sob a supervisão da professora Dra. Mônica Correa Baptista, foi-se orientando o referencial teórico sobre os temas relacionados, e sobretudo a partir dos Cadernos de formação do Curso “Leitura e escrita na Educação Infantil” (LEEI), direcionado a profissionais da Educação Infantil - em desenvolvimento em todo Brasil.

Frente à característica da pesquisa realizada, aproveito para registrar, em tempo, meus agradecimentos a toda equipe do Programa Bebeteca. Desde à coordenação, na pessoa da Profa. Lais Caroline (FAE/UFMG); às voluntárias, na pessoa da Profa. aposentada da Prefeitura de Belo Horizonte, Ana Cláudia; e às bolsistas, que listo nominalmente: Emmanuelle,Júlia Graziela,Júlia Maria,Milena e Steffany.E porúltimo,masnãomenos importante, minha supervisora, Profa. Mônica. Todas essas mulheres e mais de uma dezena de outras da equipe da Bebeteca, demonstraram grande dedicação de seu tempo, energia e vida ao Programa. São profissionais que se envolvem no trabalho com inteligência, estudo e amor, desenvolvendo ações de forma vigorosa, criteriosa, revolucionária e amorosa. Registro sumariamente aqui o que nenhum relatório poderia comportar: um agradecimento a tudo que aprendi com elas.

REFERÊNCIAS

BEBETECA: uma biblioteca para a primeira infância. Registro Siex nº 500338. Disponivel no sistema de Informação da Extensao da Universidade Federal de Minas Gerais.

GIL, Antonio Carlos. Pesquisa-ação e pesquisa participante. In: GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas da pesquisa social. 6ed. São Paulo: Atlas, 2008. P.30-31.

2 – ATIVIDADES REALIZADAS CONFORME O PLANO DE ESTUDOS

Em paralelo aos estudos baseados na Bibliografia exposta no Plano de Estudos, ampliada pelasindicaçõesda Supervisora e pelasquestõeslevantadasnasaçõesda Bebeteca,foram realizadas uma série de atividades, em diferentes formatos. Todas elas contribuíram para a ampliação das questões relacionadas às bibliotecas para crianças - que por um lado mereciam a indicação de soluções já consagradas da Biblioteconomia e por outro demostravam como as profissionais da educação as resolviam, dentro da prática docente em instituições de educação infantil ou em pesquisas acadêmicas.

Separamos as atividades em algumas categorias, para melhor compreensão:

2.1 Presença na Bebeteca

O Projeto “Conheça a Bebeteca”, a ser implementado em 2025, tem por objetivo potencializaro espaço da Bebeteca comolocal de visitaçãoe fruiçãoliterária pelopúblico interno da UFMG. Considera-se que a Bebeteca existe não só para guardar e preservar o acervo, mas para ser local de experiência, reflexão e ação em torno de livros, literatura e infância.

Nessa proposta propõe-se manter a Bebeteca aberta ao público em dias e horários predeterminados, a serem estabelecidos semestralmente; formar permanentemente as bolsistas e voluntárias do Programa Bebeteca, para atendimento ao público e manutenção do espaço dentro dos padrões de organização da biblioteca; fomentar a visita de alunos e turmas dos cursos da UFMG, em especial dos cursos de Pedagogia, Biblioteconomia, Letras, Licenciaturas, etc.; e consolidar o espaço da Bebeteca na agenda de locais abertos ao público dentro da Universidade.

A Bebeteca tem seu espaço aberto em horários semanais predeterminados a cada semestre, em compatibilidade com horário de aulas das bolsistas do Programa. Eu estive presente em dezenas desses momentos, sempre junto com uma das bolsistas da Bebeteca. Nessas oportunidades recebemos indivíduos, grupos e famílias com ou sem crianças. As crianças frequentam a Bebeteca obrigatoriamente na companhia de seus responsáveis.

No primeiro semestre os horários eram: terça-feira à noite; quinta-feira à tarde; e sextafeira de manhã. Depois da greve, passou a ficar aberta segunda-feira à tarde; terça-feira à

noite e quinta-feira de manhã. No segundo semestre, com a chegada de mais duas bolsistas, a Bebeteca passou a ficar aberta cinco vezes por semana, 3 horas por dia

Em alguns momentos, com agendamento, recebemos turmas de Biblioteconomia, Pedagogia, Licenciatura em artes. Cotidianamente recebemos estudantes, sobretudo de Pedagogia, para conhecer e conversar sobre livros e literatura infantil. Até mesmo atendemos professoras do Centro Pedagógico, para conversa sobre o tema. Essa programação foi tão interessante que em 2025 a atividade de abertura da Bebeteca será registrada como ação de extensão vinculada ao Programa Bebeteca, com o nome “Conheça a Bebeteca”.

Dias presenciais na Bebeteca, juntamente com a bolsista do dia ou noite:

Março: dia 22.

Abril:dias2,4,5,9,11(turmadeBiblioteconomia)e12(turmadeLicenciaturaemArtes) Greve dos docentes da UFMG: de 15/04 a 15/06.

Junho: 18, 19, 24

Julho: 1, 2, 9, 10, 11, 15, 29, 30 (turma de Pedagogia)

Agosto: 12, 13, 19, 21, 27, 29

Setembro: 20, 26, 27, 30

Outubro: 1, 2, 14, 29, 31

Novembro: 6, 18, 22, 26

2.2 Formações na Bebebeteca

Participação como aluna e como parte da equipe organizadora:

• 02/04 a 14/05 - curso "Narrativas e Narradores: escolhas e mediações de leitura através dos tempos”. Carga Horária: 30 h.

• 28/08 - Oficina "A leitura na creche: desafios e possibilidades", Carga Horária: 3 h.

• 22/08 - Encontro "Temas sensíveis: a morte na literatura infantil", Carga Horária: 2 h.

• 03/12 – Encontro “Tertúlia” (Siex 400127) na Bebeteca. Atividade Acadêmica Complementar (AAC) para o noturno, prevista do calendário UFMG.

Participação como aluna das formações:

• 05/09 - Oficina "A concepção de criança nos e dos livros". Carga Horária: 2 h.

• 07/11 - Evento “A hora da história na FaE: O que tem nesta Bebeteca?” (Siex 403304): encontro com o autor Nelson Cruz e sua obra. Carga Horária: 2h.

• 28/08 – Evento de formação “Literatura na creche”. Carga horária: 3h.

• 05/09 – Oficina “O que tem nessa Bebeteca” (Siex 403304), com a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)

• 18/09 - Oficina “O que tem nessa Bebeteca” (Siex 403304), com turma do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Pelotas.

• 09/10 – Evento “Você leria para bebês?”, do projeto “Tertulinha” (Siex 401137)

2.3 Atividade com grupo de crianças na Bebeteca:

No dia 24/10 foi desenvolvida uma ação do projeto “Tertulinha” (Siex 401137), da qual também participei: dezenas de crianças do Maternal 3, da Escola Casa da Gente, foram recebidas alternadamente em diferentes espaços da FAE, para exploração e mediação de histórias e livros. Uma situação prática de mediação e do uso do espaço e do acervo literário, que expôs muitas situações importantíssimas relacionadas à proposta do estágio pós-doutoral.

2.4 Formação a partir da Bebeteca

A Bebeteca também tem ações de formação à distância, como a que já estava em curso quando iniciei o estágio pós-doutoral. Tão logo iniciado o estágio passei a participar. 19/03/2024 – “Formação Literatura e Primeira Infância”, para as professoras e ADIs (Auxiliar de Desenvolvimento Infantil) da Creche e Pré-escola Periperi em Salvador/BA (CECIP/Urban95).

A Bebeteca foi demandada pela Secretaria Municipal de educação (SMED) da Prefeitura de BeloHorizonte (PBH)e planejouumcursode formaçãoespecialmente paraa Gerência da Bibliotecas (GERBI). O curso, da qual fiz parte desde o planejamento e atuei como formadora, teve como público-alvo dezenas de bibliotecários da rede municipal de ensino, que recentemente passaram a atender também a Educação Infantil. Foram 6 encontros, com os seguintes temas:

25/9: Primeira infância e literatura infantil

02/10: Múltiplas infâncias na literatura infantil

16/10: A formação de acervos: qualidade

13/11: A formação de acervos: bibliodiversidade

27/11: Mediação de leitura literária

11/12: Caminhos possíveis para leitura literária em instituições de educação infantil

2.5 Estudos na Bebeteca

Dentro das atividades da Bebeteca, acontecem encontros de estudo e formação para a própria equipe, a partir de leituras teóricas prévias. Além dos estudos autônomos do estágio pós-doutoral, participei dos seguintes encontros:

19/09: Estudodov.1da coleção“Cadernos hexágono” – Livro “No labirinto da palavra: guia de viagem”, de Arianna Squilloni.

10/10: Estudo do v. 2 da coleção “Cadernos hexágono” – Livro “Páginas mudas, livros eloquentes”, de Ana G. Lartitegui.

06/11: Estudo do livro “Poder, voz e subjetividade na literatura infantil”, de Maria Nikolajeva. Com a participação da Profa. Heloísa Matos Lins, da Unicamp.

21/11: Estudo do v. 3 da coleção “Cadernos hexágono” – Livro “Isto não é uma novela gráfica, é um cachimbo”, de OllalaHernández Ranz.

2.6 Intercâmbio

Em 2024 a Bebeteca iniciou um intercâmbio Brasil-Argentina, para troca de experiências e estudos com um grupo das profissionais do curso de Terapia Ocupacional da Universidad Nacional Del Litoral (Argentina). As professoras coordenam o Projeto de extensão social e cultural “Lora Pandora”, dentro do Coletivo Infâncias Diversas. O Projeto visa promover mediações de leitura acessíveis para crianças com diferentes formas de neurodivergência. Foram 3 encontros online, das quais participei de todos:

12/08, 07/10, 04/11

2.7 Reuniões de planejamento e avaliação de atividades da Bebeteca

Durante o período de pós-doc, para total compreensão das ações que envolvem estudo, pesquisa e formação, também participei efetivamente de encontros de planejamento e avaliação das ações. No segundo semestre passei a compor a coordenação do Programa.

Março:

15/03 – 1ª reunião com a coordenação da Bebeteca

Abril:

08/04 – Encontro presencial para abertura de caixas de livros, apreciação e análise de sua qualidade, baseada nos aspectos intrínsecos do livro e da bibliodiversidade da coleção.

22/4 – Reunião com relatos LEEI e avaliação do curso para professoras de Salvador/BA.

Maio:

28/05 – Reunião do Colegiado da Bebeteca

Junho:

17 e 24 – Reuniões da Coordenação da Bebeteca

24 – Visita à casa das Infâncias, para onde será transferida a Bebeteca em 2025.

26 – Reunião sobre catalogação e indexação do acervo da Bebeteca.

Julho:

5, 1,15, 29 (seleção de bolsistas edital “Democratizar”), 31 – Reuniões da Coordenação da Bebeteca

Agosto:

8 – Reunião projeto “O que tem em nessa Bebeteca (Siex 403304)

12, 19, 26, - Reuniões da Coordenação da Bebeteca

13 – Reunião sobre critérios de Bibliodiversidade.

Setembro:

2, 23, 30 – Reuniões da Coordenação da Bebeteca.

Outubro:

3, 31 – Reuniões de planejamento do projeto “O que tem em nessa Bebeteca (Siex 403304)

14, 21, 28 – Reuniões da Coordenação da Bebeteca.

23, 27 – Reuniões de planejamento do projeto “Nana, neném: entre livros, histórias e canções” (Siex 403271)

Novembro:

04 – Reunião sobre publicação do 2º volume de Indicações da Bebeteca, a ser publicado em 2025.

04, 25 – Reuniões da Coordenação da Bebeteca.

Dezembro:

2, 9- Reuniões da Coordenação da Bebeteca.

5 – Encontro presencial na Bebeteca sobre escolha de livros de qualidade para a infância. 20 – Reunião da equipe da Bebeteca para avaliação final das atividades de 2024 e confraternização.

2.6 Atividades relacionadas ao ensino

19/3/2024: Aula inaugural, no espaço da Bebeteca, da disciplina optativa “Literatura e educação infantil”,docursode Pedagogiada FAE/UFMG, ministrada pela Profa.Mônica Correia Baptista. 3h. Participação como ouvinte.

16/07/2024: Palestra “A biblioteca e as crianças menores de seis anos” em turma OPT1 da disciplina optativa “Literatura e educação infantil”, do curso de Pedagogia da FAE/UFMG, ministrada pela Profa. Mônica Correia Baptista. 4h. Participação como palestrante.

18/07/2024: Palestra “A biblioteca e as crianças menores de seis anos” em turma OPT3 da disciplina optativa “Literatura e educação infantil”, do curso de Pedagogia da FAE/UFMG, ministrada pela Profa. Mônica Correia Baptista. 4h. Participação como palestrante.

2.8 Atividades relacionadas às políticas públicas para a educação infantil

Durante o estágio havia estímulo para que participássemos de diversas atividades relacionadas aos direitos das crianças, sobretudo relacionados a educação, cultura, livros e literatura.

26/03/2024: Audiência pública Audiência Pública n° 1/2024 - Edital PNLD - Educação Infantil, para “definição das especificações técnicas do Edital de Convocação para o Programa Nacional do Livro PNLD – Educação Infantil para o ciclo 2026-2029”. Carga horária: 2h

2.9 Outros cursos

Além dos cursos ofertados pela Bebeteca, houve estímulo à participação em cursos de temas congêneres. Nesse escopo, fiz o seguinte curso: 13/03/2024 a 03/04/2024 – Curso “Fenomenologia da criança e uso criativo de diários de bordo”. Carla horária: 8h.

2.10 Conversas com bibliotecários

Para trocar ideiasa respeitodascaracterísticas sui generis da Bebeteca,dentro doSistema de Bibliotecas da UFMG (BU/UFMG), tivemos encontros com a bibliotecária Rosana Aparecida Alves Reis, do Centro Pedagógico (CP), com o bibliotecário Albert Michel da Silva Torres, da Faculdade de Educação (FAE) e com as bibliotecárias Sindier Antonia Alves e Izabel Antonina de Araújo Miranda, respectivamente ex-diretora e atual diretora do Sistema BU/UFMG.

RESULTADOS PARCIAIS E/OU CONCLUSIVOS

O objetivo proposto para o estágio foi: “Propor uma contribuição por meio dos conceitos e instrumentos da biblioteconomia, à organização, acesso e mediação de obras para a primeira infância”. A Biblioteconomia propõe uma mediação por meio de processos sociais e técnicos, de modo a permitir o acesso e uso dos bens culturais, notadamente os livros.

Diversas questões biblioteconômicas são colocadas quando se fala em bibliotecas para crianças, mas a pesquisa na Bebeteca levou a se considerar, em primeiro lugar, duas premissas: a literatura como arte e a concepção de criança. Destacamos os processos da Biblioteconomia que devem revistos ou mais bem qualificados para esse tipo de biblioteca, a partir de tais premissas, dentro do que foi desenvolvido no estágio pósdoutoral.

A primeira delas é a seleção dos livros: foi possível elencar as diversas características a serem consideradas qualificadoras de livros de qualidade. Longe de ser uma lista rígida de pontos, trata-se de um conjunto de características relacionadas aos aspectos da obra como arte: texto, forma e tema. A apreciação das obras para seleção deve levar em conta como a criança é concebida pelos livros e, por outro lado, como o livro pode diversificar as experiências das crianças

Além desse aspecto de cada livro individualmente, é necessário pensar no desenvolvimento da coleção, levando-se em conta o aspecto da bibliodiversidade, isto é,qualavariedadeearepresentatividadede tiposegênerosdiscursivos,formatos,autoria, temas, épocas, gêneros textuais, editoras, autores, ilustradores, estilo, linguagem, espaço geográfico, graus de complexidade etc. Apenas no quesito autoria, por exemplo, poderíamos ainda desenvolver: origem geográfica e étnica, gênero, faixa etária dos autores. O mesmo ainda se poderia dizer da variedade dos personagens: humanos, animais, vegetais, minerais, fantásticos? A bibliodiversidade é a diversidade cultural, social, política, estética, aplicada ao livro, que permite a diversificação das vozes, das línguas, das formas, dos temas. Além disso a coleção também deve incluir obras ficcionais(prosa,poesiaeteatro)enãoficcionais(informativos)eaindaumanuanceentre esses dois tipos. Uma coleção bibliodiversa permite a ampliação de repertório emocional, estético e de conhecimento das crianças.

Um terceiro processo, a catalogação, também deve se atentar a certas especificações que normalmente não são necessárias a descrição do item bibliográfico no catálogo da biblioteca. Especificações e detalhamentos sobre o tema, enredo, autoria do texto e das imagens, formatos(incluindotamanhoe detalhesgráficos) sãoúteisna descriçãode obras de uma biblioteca para crianças, pois qualquer um dessas informações pode ser desejável ou necessária para se escolher um livro para uma mediaçãoespecífica, seja em instituição de educação infantil ou fora dela.

A classificação, que agrupa os itens dentro da coleção a partir de um único aspecto e os coloca próximos, pode ser bastante complexa em coleções de obras para crianças. O tema geral, ficcional ou não, muitas vezes pode ser bastante subjetivo numa obra de qualidade. Por outro lado, é inafastável a necessidade de agrupar fisicamente os itens sob alguma de suas características. Nas obras de literatura adulta e até mesmo juvenil, em geral a classificação da literatura, por exemplo, se dá a partir da nacionalidade do autor: brasileiro, angolano etc. Contudo, as obras para crianças têm mais autores envolvidos (texto, ilustração, projeto gráfico), cuja hierarquia é difícil ou impossível de se determinar.Assim,emboraaclassificaçãodispendamuitotempo,em geral,notratamento documental dentro da Biblioteconomia, parte de suas limitações podem ser resolvidas pela indexação.

A indexação, que vem a ser a representação temática das obras, também requer uma especificidade maior numa biblioteca para crianças. A maioria dos instrumentos de controle de vocabulário é destinada a obras não ficcionais para adultos. Para literatura, e sobretudo para o público de crianças até 6 anos, os instrumentos desse tipo são raríssimos e parciais. Sobre esse tema específico é preciso muita pesquisa, reunindo pesquisadores de Educação e Biblioteconomia, entre outras áreas, para se construir um vocabulário que seja amplo e ao mesmo tempo detalhado, que possa representar a diversidade temática de obras literárias. A própria questão de se indexar obras literárias é um tema na Biblioteconomia, mas a pesquisa na Bebeteca demonstrou que a indexação é muito útil para o acervo de bibliotecas para crianças, principalmente porque, em geral, o mediador adulto sempre tem uma intenção na escolha. Intenção esta que se encontra descrita por meio da catalogação (descrição material), na classificação (agrupamento) e, principalmente, na indexação (descrição temática).

Outro processo que requer adaptações do modo mais tradicional utilizado na Biblioteconomia é a ordenação. Sem dúvida é fácil perceber que a tradicional colocação doslivrosem determinada ordem nasprateleiras,com a lombada à mostra, é inviávelpara o interesse das crianças. Contudo essa ordenação é fundamental, pois permite a rápida e precisa localização dos itens bibliográficos a partir do catálogo. Entendemos que a coleção de uma biblioteca para crianças tenha por base a ordenação clássica, a partir da classificação, mas que parte do acervo seja sempre retirada dessa ordem, e colocada em móveis próprios em que possam estar de capa à mostra, acessíveis às crianças, com certa ordenação mais intuitiva, de acordo com os propósitos dos mediadores para uma certa ocasião, semana, projeto. Passado o período, os livros voltarão à ordenação clássica na estante, e outros serão colocados à disposição e na disposição de uso das crianças.

Por último, mas não menos importante, trataremos da difusão e mediação, tema sempre caro à Biblioteconomia. Esse foi o aspecto que teve maior contribuição da Educação na pesquisa, pois encerra o objetivo de todos os processos técnicos vistos anteriormente, no caso de biblioteca para crianças. Em primeiro lugar, práticas de leitura são sociais e são os adultos que começam a mediar as relações das crianças com os livros A mediação é um lugar de interseção entrea obra (textoverbal,textoimagético, projetográfico),oleitor mediador e os leitores ouvintes (em ambos: corpo, voz, gestos, expressões faciais e corporais, afeto, raciocínio, experiências, memórias e emoções). É um lugar de encontro,

mas também de tensão, pois não há fórmula, controle ou segurança de sucesso. É uma construção que se baseia em conhecimentos acumulados, mas, por ser baseado na comunicação e condição humanas, há um espaço infinito tanto de incompreensão quanto de sintonia. O lugar de maior prazer possível, mas também do fracasso iminente. Em várias experiências e relatos durante o estágio aprendemos umas com as outras que a mediação também é um momento de atenção e escuta, por parte do adulto, e as crianças, de uma hora para outra, se tornam as protagonistas do processo, e isso, sim, é um sucesso para o mediador.

Uma questão não propriamente biblioteconômica, mas sempre do interesse da Biblioteconomia são os móveis e a ocupação do espaço (layout) em uma biblioteca, seja de qual tipo for. A distribuição do espaço físico prevê uma exploração e ocupação possível, e, portanto, também sua limitação. Até mesmo uma forma de apropriação e aprendizagem.Esse tema já foi tratadonaBiblioteconomia,comalgunspoucostrabalhos. Embora não tenha sido muito desenvolvido no estágio opôs-doutoral, sem dúvida foi muito demandado desde que se começou o processo de planejamento para a mudança da Bebeteca da sala da FAE para a Casa das Infâncias.

O tema mais interessante, contudo, foi uma questão até então impensada, que surgiu durante o estágiopôs-doutoral e está relacionado à prosaica “papeleta” que as bibliotecas em geral envolvem no tratamento documental dos livros: etiqueta na lombada, código de barras, carimbos, papeleta de lembrete de data de empréstimo. Todos esses materiais, que tem sua utilidade afirmada em centenas de anos de prática em bibliotecas, se chocam muitas vezes com a materialidade do livro para crianças: ocultam um detalhe gráfico, interrompem uma ilustração, mutilam uma bela capa ou folha de rosto, ou mesmo uma artística folha de guarda.

Enfim, o estágio pós-doutoral também atingiu os objetivos acadêmicos, na medida em que permitiu:

- o aprofundamento dos conhecimentos sobre a potencialidade de tratamento dado às obras destinadas às infâncias, por parte da Biblioteconomia.

- a análise de materiais e metodologias sobre literatura infantil e mediação, e a participação em práticas realizadas dentro do grupo de pesquisa e do programa de extensão.

- o estreitamento de vínculos pessoais e institucionais entre ECI e FAE, ampliando o diálogo entre a Biblioteconomia e a Educação, na perspectiva da integração de conhecimentos visando a dar soluções para problemas sociais. Nesse caso, sobretudo nos aspectos relacionados à universalização do acesso ao mundo da cultura letrada e do conhecimento, e especificamente, na formação do leitor.

4 – DESDOBRAMENTOS DAS ATIVIDADES PREVISTAS NO PLANO DE

ESTUDOS

4.1 Coorientação

Coorientação da dissertação “O direito à literatura na educação infantil: espaços do livro e da leitura para crianças de zero a seis anos no município de Guanhães”, da mestranda

Hevila Christie Pereira Santos, pelo Mestrado Profissional Educação E Docência (Promestre/FAE/UFMG).

Qualificação em 25/10/2024

Previsão de Defesa final: 1º semestre 2025.

4.2 Participação em eventos da área da Educação

30/10 a 01/11/2024 - XV Jogo do Livro: A literatura infantil e juvenil e o universo da tradução. Local: FAE/UFMG. Participação: Apresentação de trabalho. Anais no prelo.

Trabalho: Obras traduzidas nas listas dos melhores livros da revista crescer: 2006/2024, em coautoria com Beatriz Rosa Pereira.

Resumo: Estudo bibliométrico das obras traduzidas incluídas ao longo dos 15 anos da Lista dos melhores livros para crianças da revista Crescer. As listas anuais, publicadas desde 2006, elencam uma seleção de livros publicados no Brasil, em língua portuguesa. O tema se insere no eixo temático “Literatura e história”, ao apresentar esse produto cultural, produzido por pessoas “competentes” (na visão de Chauí) sob demanda de uma instituição que pode ser inscrita na cadeia mediadora do livro, leitura e literatura: uma revista brasileira não especializada. O propósito do trabalho é verificar, na lista supracitada, em suas edições, ano a ano, quantas e quais foram as obras e autores mais traduzidos. Foram 594 livros listados desde 2006, quando houve a primeira lista, estabelecendo um Cânone dos melhores livros para crianças já publicados no Brasil. Dos 55 títulos “exemplares” dessa primeira lista, constam 33 títulos de 23 autores brasileiros e 22 títulos de 21 autores estrangeiros. Dentro dessa lista, ainda foram selecionados os “10 mais”, o suprassumo da literatura para crianças publicada no Brasil. Neste subgrupo, são 7 obras de 6 autores brasileiros (4 mulheres e 2 homens) do século XX; e 3 obras de 4 autoresestrangeiros(autoria dupla dosirmãosGrimm),clássicosdo séculoXIX: Contos de Andersen, Alice no país das maravilhas e Contos de Grimm. Após um estudo bibliométrico de todas as listas de 2006 a 2024, ficou demonstrado uma maioria de obras brasileiras em todos os anos, numa média geral de 55%. Os países que têm mais obras na lista são, na ordem: EUA, Reino Unido, França, Alemanha e Itália.

12/11 a 14/11/2024 – XXII Encontro Redestrado Brasil: “Direito à educação e valorização docente: prioridade nacional”. Local: FAE/UFMG. Participação: Apresentação de trabalho e Coordenação de sessão de trabalho. Coautoria com: Dalgiza Andrade Oliveira (e Jacyara Kalina Themistocles da Silva. Anais no prelo.

Trabalho: Políticas públicas para bibliotecas escolares: impactos e desafios na rede pública de ensino do Brasil!

Resumo: A biblioteca escolar, apesar da existência de uma Lei Federal (Lei 12.244/2010) e de sua atualização mais de uma década depois (Lei 14.837/2024), segundo os censos educacionais, ainda inexiste em grande parte das instituições de ensino do Brasil. Pesquisasdemonstramque,mesmoondeexistem,muitasvezes,nãocumpremparâmetros mínimos já estabelecidos pela Ciência da Informaçãoe Biblioteconomia, em documentos nacionais e internacionais. A inexistência ou deficiência de requisitos mínimos em bibliotecas escolares das diversas redes públicas de ensino tem impacto nas formas de

contratação e condições de trabalho de profissionais dentro das escolas e, possivelmente, nos resultados escolares dos estudantes. Para subsidiar futuras pesquisas acadêmicas e políticas públicas, considerando a constituição sui generis do Estado brasileiro, objetivase, nesteestudo, proporrequisitosmínimosparaasredesde bibliotecasescolares,osquais podem contribuir para a criação de um instrumento de avaliação delas. Serão feitos estudos bibliográficos e documentais, com uma abordagem qualitativa. A pesquisa, em fase seminal, espera apresentar uma ferramenta mínima que ajude a qualificar a organização de redes de bibliotecas escolares dentro das respectivas redes de ensino, sobretudo as municipais e estaduais. A partir de estudos já realizados, entende-se que parâmetros para cada biblioteca em particular não se tornaram efetivos para medir o impacto dessas instituições na qualidade do ensino. O instrumento a ser construído pretende ter o potencial de tornar o diagnóstico e o planejamento de políticas públicas para bibliotecas escolares mais objetivo e factível para gestores e profissionais.

4.3 Desdobramentos em curso e/ou futuros

- Participaçãoemeventosde Biblioteconomia/Ciência dainformaçãoe da Educação,para discussão sobre os resultados e considerações teóricas da pesquisa

- Publicação de artigo, com coautoria com a supervisora do estágio pós-doutoral, na área da Biblioteconomia/Ciência da Informação e na área da Educação, com os resultados e considerações teóricas da pesquisa: “Aspectos biblioteconômicos a serem considerados para a criação de Bebetecas e Bibliotecas para instituições de educação infantil” e “Bibliotecas de educação infantil: considerações sobre as práticas e processos biblioteconômicos”.

- Contribuição para a criaçãode um projeto“Conheça a Bebeteca” (implantadoem 2025), a partir das experiências de presença com bolsistas em horários pré-programados do espaço da Bebeteca.

- Oferta de disciplina com conteúdo sobre bibliotecas para a primeira infância, na Escola de Ciência da Informação, a ser ofertada pela pesquisadora.

Belo Horizonte, 05 de fevereiro de 2025.

Assinatura da residente

Assinatura da Professora Supervisora do Estágio

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