Em Caminho – O Caminho do Coração

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Prólogo

I. Enquadramento global da experiência

1. O Caminho do Coração como missão

2. O Caminho do Coração como um processo

3. Passos – Tríades – Pausas

4 Práticas fundantes do Caminho

5. Passos da oração com a Palavra

6. Passos da releitura espiritual

II. Dinâmica espiritual da experiência

1. Passo um

2. Passo dois

3 Passo três

4. Primeira pausa

5. Passo quatro

6. Passo cinco

7 Passo seis

8 Segunda pausa

9. Passo sete

10. Passo oito

11 Passo nove

12 Colheita final

III. Ajudas Metodológicas

1 Sobre o processo

a. Tríades. Passos. Pausas.

b. Extensão temporal

c Experiência espiritual

d Modo de presencialidade

e. Materiais de apoio

2. Sobre os caminhantes

3. Sobre os facilitadores

a Papel do facilitador

b. Objetivação da experiência

c. Sugestões para o uso dos livros

4. Sobre o futuro

a. Recursos disponíveis

b Com outros em comunidade

c Formação e acompanhamento

IV. Fundamento na espiritualidade do Coração de Jesus

1 O Caminho do Coração atualiza a devoção ao Coração de Jesus

2. Dimensão apostólica da espiritualidade do Coração de Jesus

3 Conclusões

Anexos esquemáticos

PRÓLOGO

Quando, em maio de 2020, a Rede Mundial de Oração do Papa lançou a plataforma digital de "O Caminho do Coração", poucos poderiam imaginar a magnitude da jornada que estávamos prestes a iniciar. Naqueles dias, enquanto dávamos os últimos retoques no design gráfico dos 11 livros em espanhol, estava nascendo algo mais do que uma simples coleção de textos: iniciava-se uma nova etapa no processo de refundação da obra Este momento representou um ponto de inflexão na missão de divulgar a maneira específica de viver a Espiritualidade do Coração de Jesus que a Rede de Oração propõe: O Caminho do Coração O convite para vivenciar essa experiência espiritual espalhou-se como as ondas de um lago, alcançando progressivamente mais e mais pessoas, transcendendo fronteiras.

A equipa internacional viu-se então diante de um duplo desafio: por um lado, animar e coordenar propostas formativas para que diretores, coordenadores e equipes nacionais vivenciassem em primeira pessoa esse itinerário, para que pudessem oferecê-lo nos seus países; por outro, iniciar o delicado processo de tradução e adaptação para outros idiomas Durante 2020 e 2021, fomos testemunhas de como essa semente começava a germinar em diferentes terrenos. As experiências foram-se multiplicando: desde encontros de um dia até ciclos de 14 sessões quinzenais, tanto online quanto presenciais Pessoas de diversos países, principalmente de língua espanhola, começaram a percorrer este caminho, rezar com ele, encarná-lo no seu cotidiano, deixando-se transformar pelo Senhor a cada passo.

Como um Pentecostes, as primeiras traduções para o inglês, francês, português e italiano abriram novos horizontes. Os retiros e workshops também começaram a florescer nesses idiomas, e logo o caminho foi traduzido também para japonês, filipino e outras línguas, cada uma trazendo os seus matizes únicos para essa experiência universal

O ano de 2022 representa outro marco significativo, com o lançamento da primeira formação para formadores em espanhol. Esta iniciativa respondia a uma necessidade crescente: dotar de ferramentas aqueles que sentiam o chamamento para partilhar esse caminho com outros, preparando-os para serem facilitadores e acompanhantes treinados e sensíveis.

Desde então até hoje, temos sido testemunhas de um crescimento contínuo, passo a passo, tanto no número de pessoas que vivenciam a experiência, como naquelas que se preparam para a partilhar com outros Os materiais foram sendo adaptados e enriquecidos nas experiências propostas, respondendo às necessidades específicas de cada contexto. É precisamente essa releitura do processo que nos levou a confirmar a necessidade do livro que agora tem nas suas mãos.

Este Livro 12 nasce da experiência viva desses anos. Surge da necessidade de sistematizar o que aprendemos, de organizar os conteúdos que demonstraram ser particularmente valiosos para uma compreensão mais profunda do caminho Não é um manual rígido, mas sim um companheiro de viagem, um "kit de ferramentas" flexível e adaptável, que pode ser utilizado de acordo com as necessidades específicas de cada contexto e grupo.

Ao longo de seus capítulos, este livro tece uma rede de conexões: com a história da devoção ao Coração de Jesus, com a tradição espiritual que nasce dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio e com as experiências práticas de diversos grupos ao redor do mundo. Desde as referências históricas até às ajudas metodológicas, cada seção foi pensada para apoiar e enriquecer a tarefa de quem acompanha outros nesse caminho espiritual

O Capítulo Um aprofunda o Caminho do Coração como um todo, explicando o seu sentido, estrutura e práticas fundamentais

No Capítulo Dois, são expostas as dinâmicas espirituais internas de cada passo do caminho, incluindo algumas pausas necessárias e as conexão entre cada uma delas

O Capítulo Três oferece ajudas metodológicas para os facilitadores, para ajudar à experiência do Caminho do Coração.

O Capítulo Quatro apresenta uma síntese histórico-espiritual da conexão entre o Caminho do Coração e a tradição espiritual da Rede Mundial de Oração.

No final, poderá encontrar um apêndice com quadros que ilustram a narrativa do livro.

O conteúdo deste livro não pretende esgotar as possibilidades de cada um dos temas abordados, mas sim despertar inspiração e servir de apoio a quem deseja acompanhar essa experiência Cada pessoa que facilite e acompanhe este caminho está convidada a construir uma proposta adaptada à realidade concreta em que se encontra.

Além disso, aqueles que desejarem aprofundar algum dos temas ou abordagens tratados nestas páginas poderão fazê-lo por meio dos 11 livros publicados do Caminho do Coração e dos materiais elaborados durante o processo de recriação da Rede Mundial de Oração do Papa, disponíveis online.

Oferecemos este material com a esperança de que seja uma ajuda valiosa para propor o Caminho do Coração, inspirando e facilitando a missão de compartilhá-lo e acompanhar novos caminhantes. E ousamos sonhar que, num futuro não muito distante, estas páginas sejam enriquecidas com novas propostas e frutos, colhidos das experiências de quem leva esse itinerário para contextos diversos, adaptando-o criativamente às circunstâncias de pessoas, tempos e lugares.

Sempre que é vivido, sempre que é oferecido, sempre que uma pessoa ou grupo o percorre, o Caminho do Coração mostra ser um caminho vivo, porque existe em constante diálogo com a realidade do nosso tempo. Que este livro seja uma luz que ilumine o seu caminho enquanto acompanha outros nesta bela aventura espiritual

Bom caminho...

1. O Caminho do Coração como missão de compaixão pelo mundo

O Caminho do Coração é um processo mistagógico e catequético que estrutura uma experiência espiritual. É um caminho de encontro com Cristo que convida a uma amizade pessoal e profunda com Ele, para colaborar na Sua missão de compaixão pelo mundo Ajuda a sintonizar o nosso coração com o Coração de Cristo, a cultivar sentimentos e atitudes mais parecidos com os d'Ele, e, a partir desse encontro transformador, entrar na Sua missão de compaixão.

O Caminho do Coração atualiza a devoção ao Coração de Cristo a partir de uma perspetiva apostólica e apresenta de maneira coerente o tesouro do Apostolado da Oração à luz dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola.

A espiritualidade do Coração de Jesus é o fundamento espiritual da nossa missão, e o Caminho do Coração é a nossa maneira específica de vivê-la, por isso é o itinerário de formação da Rede Mundial de Oração do Papa.

O Caminho do Coração ajuda o caminhante a perceber os desafios do mundo com os olhos de Jesus Cristo, para mobilizar-se todos os meses, em docilidade ao Espírito Santo, através da oração e do serviço, pelos desafios da humanidade e pela missão da Igreja

Este programa de formação ajuda-nos a entrar na vida e missão da Rede Mundial de Oração do Papa. É o fruto de uma década de trabalho da equipe internacional, através do amadurecimento na oração e de diversas experiências no âmbito de retiros espirituais É antes de tudo uma experiência espiritual que se vive pessoalmente e com outros numa dinâmica de retiro espiritual fechado ou na vida cotidiana, em forma de workshops, jornadas, online ou presencialmente

Os Estatutos da Rede Mundial de Oração do Papa dizem no artigo 4 que, através do Caminho do Coração, «a vocação missionária do batizado é despertada, permitindo-lhe colaborar em sua vida cotidiana com a missão que o Pai confiou ao Seu Filho ( )» E depois continua: «O Caminho do

Coração, este itinerário espiritual estruturado pedagogicamente, visa uma identificação com o pensamento, a vontade e os projetos de Jesus. Assim, o batizado coloca-se em condições de acolher e servir ao Reino de Deus, motivado pela compaixão segundo o estilo do Filho de Deus Esse caminho torna-o disponível para a missão da Igreja.» (Art. 5)

2. Apresentação geral de sua estrutura

O Caminho do Coração é um processo, uma sequência encadeada de diferentes momentos e elementos que o configuram como um todo. Não é uma sucessão de palestras sobre espiritualidade; também não é um conjunto de experiências isoladas sobre espiritualidade É um itinerário espiritual

Está estruturado numa sequência de nove etapas, apresentadas de maneira articulada, sequenciada e coerente. Uma etapa pressupõe a anterior e abre a próxima. Essas nove etapas também encontram correspondência na tradição das primeiras nove sextas feiras do mês, próprias da Espiritualidade do Coração de Jesus, entendidas como um caminho transformador de amizade com o Senhor por meio da comunhão sacramental e da oração.

Nove meses, nove etapas, nove passos Nove como número de plenitude, completude ou totalidade. Processo como sequência transformadora, de crescimento e amadurecimento, para dar à luz uma nova vida. Convida a viver um itinerário rumo a um novo nascimento, a uma nova vida o mais próxima possível do Coração de Jesus; com o Seu estilo, com os Seus sentimentos, segundo o Seu modo de proceder O Caminho do Coração ajuda a nascer para a vida do Espírito.

As 9 etapas do Caminho do Coração chamamos de "passos" porque trata-se de um caminho a percorrer Em relação à experiência de "caminho", diremos por agora que, embora tenha um sentido de marcha geral em direção "adiante", não é uma experiência linear. Podemos dizer que é mais semelhante a um processo "helicoidal", como as hélices de um helicóptero ou a forma de uma mola colocada na posição horizontal Por vezes, parece que anda para trás mas, no movimento helicoidal, para trás torna-se depois em marcha para a frente.

Também ajuda pensar a marcha do processo como uma escada em espiral, que desenha o mesmo movimento helicoidal, mas neste caso seria de forma

vertical. O caminhante vai ganhando em “profundidade” ou em “altura”, passando pelos mesmos lugares, de tal modo que poderia parecer-lhe que a “paisagem do caminho” é idêntica, embora diferente, pois passa pelo mesmo lugar, mas com profundidades ou alturas diferentes

Isto introduz-nos à ideia de “repetição”. Ou seja, a proposta deste processo leva consigo a experiência da “repetição”, semelhante à dinâmica dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola Ou seja, volta-se sobre dinâmicas, temas, frutos que, embora aparentemente sejam os mesmos, essencialmente não o são, pois tratando-se de uma experiência, trará sempre alguma novidade. O caminhante, embora “passe” pelo mesmo tema, já não será o mesmo, pois o próprio caminho o transforma Isso fará com que a experiência seja diferente, pois a acolherá de maneira diferente.

3. Passos – Tríades – Pausas

Como já dissemos, o caminho está desdobrado em passos, cada um dos quais possui uma dinâmica interna própria. Poderíamos dizer que, por um lado, cada passo se abre e fecha sobre si mesmo, e que, por outro lado, o seu fechamento abre o caminho para o passo seguinte

Os passos 1, 2 e 3 formam a primeira tríade. Os passos 4, 5 e 6 formam a segunda tríade. Os passos 7, 8 e 9 formam a terceira tríade. Ao final de cada tríade há uma pausa, que também pode ser entendida como uma “ponte” entre a tríade que se fecha e a que começa Cada tríade também tem uma dinâmica espiritual própria, e o seu fechamento permite abrir a dinâmica da tríade seguinte.

Quem dá e acompanha a experiência do Caminho do Coração deve ter muito em conta a estrutura e a organização de todo o percurso, pois funciona como um mapa de rota para desenhar e propor o itinerário espiritual. No entanto, olhando da perspetiva de quem faz o caminho, a dinâmica interna, a sequência e a concatenação das etapas, são vividas, mas não pensadas Não se trata de um saber intelectual Os caminhantes não a conhecem a priori, nem precisam necessariamente de as conhecer. Apenas de as viver, fazendo a experiência e, pouco a pouco, conforme necessário, ir conhecendo a estrutura como fruto das “objetivizações ou devoluções” feitas por quem dá e acompanha o processo

Quem dá e acompanha o Caminho do Coração não deve apenas conhecer a experiência com “a cabeça”, como resultado de um processo intelectual, mas especialmente deve ter feito uma experiência pessoal de caminho Pois, na vida espiritual, comunicamos uma experiência: a do encontro com Cristo ressuscitado.

4. Práticas

fundantes do Caminho do Coração

O Caminho do Coração, como itinerário de encontro com o Senhor, baseia-se em duas práticas fundantes: a oração à luz da Palavra de Deus e a releitura ou exame espiritual

Ouvir o Senhor e permanecer na Sua Palavra é o fundamento do Caminho do Coração. Ao longo dos nove passos do Caminho do Coração, os caminhantes são convidados a tornarem-se amigos de Jesus, a ouvi-Lo, a vê-Lo agir, a estar com Ele durante o dia e a vigiar com Ele durante a noite, até conhecerem o Seu Coração e decidirem-se por Ele. Somente o Evangelho revela quem é Jesus Cristo, por isso o caminhante é convidado a meditar e contemplar a Palavra O Evangelho é o próprio Jesus

Além da meditação e da contemplação das Sagradas Escrituras, o Caminho do Coração convida, a cada dia, a praticar a releitura espiritual, também chamada de Exame, que é uma maneira de reconhecer a presença do Senhor na vida cotidiana. A releitura espiritual diária ajuda o caminhante a ajustar seu coração ao Coração do Senhor, reconhecendo a Sua presença no que vive cada dia, estando atento à voz do Senhor nos acontecimentos. É a prática que ajuda os caminhantes a distinguir e escolher os caminhos que abrem para a vida, e a rejeitar os que fecham e conduzem à morte Pois este itinerário é também um caminho de combate espiritual, que, na sua dinâmica global, propõe conhecer e praticar a dinâmica do discernimento para evitar as armadilhas do inimigo e acolher a proposta de Vida que o Senhor faz, deixando-se transformar desde o coração A prática da releitura espiritual é a base do discernimento espiritual, para que o caminhante se deixe conduzir pelo Espírito do Senhor e escolha segundo o Coração de Jesus, nas pequenas e grandes decisões de cada dia

A oração à luz do Evangelho e a prática da releitura espiritual podemos dizer que são fundantes pelo menos em dois sentidos:

Em primeiro lugar, ambos os elementos devem ser apresentados e propostos no início do caminho como práticas próprias deste itinerário, apresentando a sua metodologia e sentido. Os caminhantes devem viver a experiência de orar com a Palavra e praticar a releitura espiritual para se poderem colocar em disposição e movimento.

Em segundo lugar, esses dois elementos atravessam toda a experiência, o que significa que, em cada passo, eles estão presentes. Quem dá o Caminho do Coração deve propô-los permanentemente aos caminhantes. Por isso mesmo, os nove passos sugerem diversas práticas de releitura ao final de cada livro, assim como textos bíblicos particularmente iluminadores para cada etapa. A Palavra ilumina e dá fundamento a cada um dos passos, e a releitura espiritual é a base para a prática do discernimento espiritual. Por isso, é fundamental que os caminhantes orem com a Palavra e pratiquem a releitura espiritual na experiência de cada passo.

Encarnar essas duas práticas fundantes não é um fim em si mesmo, mas um meio para o fortalecimento da vida espiritual das pessoas, além dos limites deste itinerário espiritual Aprender a reler a vida e conhecer o Senhor nos Evangelhos são como pilares da vida espiritual do discípulo que decide seguir a Cristo, pois ajudam a conhecê-Lo e familiarizar-se com Ele no seu itinerário vital e, a partir dessa experiência de vida, reconhecê-Lo na vida cotidiana A experiência de encontro com Jesus Ressuscitado na Palavra (orar à luz da Palavra) ecoa e fala na vida cotidiana do discípulo (releitura espiritual).

5. Passos da oração com a Palavra

Há muitos modos de orar com a Palavra de Deus. A lectio divina é uma tradição antiga da Igreja, e diversos modelos podem ajudar a encontrar proveito espiritual Aqui, propomos algumas orientações inspiradas na experiência de Santo Inácio de Loyola. São apenas indicações para que o caminhante se disponha ao encontro com o Senhor. Cabe a cada um ver, à luz da sua experiência, o que o ajuda ou não É preciso ajudar o caminhante a encontrar o que mais lhe convém

Dispor o corpo e o coração. Ou seja, cuidar do tempo que será dedicado à oração, perguntando-se qual é o melhor momento do dia que permite algumas condições mínimas de concentração Definir previamente uma duração razoável, de acordo com o que se busca e deseja; não se trata de criar um feito que se torne insustentável. Pensar no lugar mais adequado para o recolhimento.

Antecâmara da oração O caminhante pode começar a sua oração lendo lentamente o texto que irá meditar, recordando-o e preparando-se. Depois, busca uma posição corporal que o ancore no presente, consciente de como isso influencia sua interioridade. Apresenta-se ao Senhor com calma, talvez fazendo o sinal da cruz, e entra no silêncio do coração, não com esforço, mas acolhendo esse silêncio que desperta a presença divina. Pede ao Senhor o dom de estar plenamente orientado para Ele, imagina o lugar da cena evangélica e formula um pedido de graça conforme o que deseja viver na sua relação com Deus Sem pressa, permanece no que lhe concede o gosto espiritual, deixando que o encontro com o Senhor guie sua oração.

Meditação. Depois começa a meditação, recordando o texto das Escrituras, uma história que não vem dele, mas lhe é dada Busca captar o significado dessa história, não para adquirir conhecimento, mas para descobrir como participa dela e como ela fala sobre sua própria vida. Permite que o meditado ressoe em seu interior, tocando seu coração mais do que seu intelecto. Esses momentos não são rigidamente separados, pois o objetivo não é acumular sabedoria, mas abrir-se a uma transformação interior que permita olhar para sua vida com novos olhos.

Saída Ao finalizar o tempo de meditação, dedica um momento para falar com o Senhor como um amigo fala com outro, compartilhando o que a meditação colocou no seu coração. Este diálogo surge depois de ter tomado tempo para ouvir, e pode concluir com as palavras de Jesus: “Pai nosso”. Depois, durante alguns minutos, revisita o vivido: observa como realizou a meditação (lugar, duração, postura) e se as orientações o ajudaram a fazer-se presente diante do Senhor ou se precipitou no texto. Reflete sobre o que experimentou, perguntando-se se recebeu o que pediu ou se o seu desejo mudou, e o que descobriu sobre si mesmo, sobre o mundo e sobre Deus. Finalmente, toma nota do seu estado interior alegria, paz, vazio, etc para reconhecer como o Espírito do Senhor o guia dia após dia.

6. Passos da releitura espiritual

A releitura espiritual é, antes de tudo, um espaço de oração com o Senhor

Existem três tempos que ajudam a entrar no “abc” do discernimento: agradecer, constatar, escolher o amanhã.

Agradecer. É o fruto relacionado com o fundamento de todo o Caminho do Coração Agradecer humaniza, ordena a vida interior, afetiva, e orienta o coração do caminhante para a vida

Constatar. Algumas pessoas têm a tendência, ao examinar o dia, de fazer uma lista de pecados ou erros, como se fosse uma inquisição interior. Essa não é a atitude pedida pela releitura e pelo verdadeiro sentido do exame espiritual Ela busca constatar o pecado, a fragilidade, o que separa do Amor: aquilo que conduz à morte. Não para despertar o julgamento do caminhante, mas para aprender com sua própria experiência o que é obstáculo à Vida e o afasta de Cristo Também para tomar consciência daquilo que produz atos, palavras e decisões desordenadas, de modo que, com base nessa constatação e a partir de um arrependimento sincero, possa aprender a escolher a vida.

Escolher o amanhã. Com esta experiência que o caminhante faz, ele é convidado pelo Espírito a rejeitar o que é morte na sua vida, separação do Senhor e dos irmãos, acolhendo o que o abre à vida que Deus lhe oferece. Essa releitura conduz à vida cotidiana, a uma verdadeira “vigilância do coração”, conforme o ensino da tradição monástica

Dinâmica geral da experiência

Os três primeiros passos são chave neste processo do Caminho do Coração, no qual o caminhante se vai abrindo cada vez mais, com maior liberdade, para uma chamada gratuita por amor e tornando-se disponível para responder a essa convite.

Para que a disponibilidade, que é a base da resposta a esse encontro de amor, seja despertada, é necessário um processo que ocorre no tempo, ou seja, é preciso um percurso que torne possível o encontro, a chamada e a resposta.

Embora saibamos que tudo o que é vida nasce do amor e aponta para o amor, existimos num mundo quebrado, um mundo onde esse amor que funda tudo às vezes não é fácil de reconhecer e descobrir. E, no meio desse mundo quebrado, nem sempre é fácil ouvir o chamamento à amizade, e a abertura à resposta encontra obstáculos.

Por isso, esse percurso começa pelo reconhecimento da existência desse amor que sustenta tudo, e como encontra um acolhimento frágil no coração de cada um e na dinâmica do mundo. O caminhante vai percorrer nos três primeiros passos a dinâmica do amor em que se funda a sua vida, experimentando a tensão entre a gratuitidade do Amor infinito, as buscas inquietas de seu coração e a sua existência num mundo quebrado

Passo Um

O primeiro passo no Caminho do Coração, “No princípio, o Amor”, será uma oportunidade para que o caminhante se adentre no coração de Deus, para fundar a sua experiência espiritual no Seu Amor e não nos seus santos propósitos ou nas expectativas que possa ter de “obedecer” ao plano divino Existem muitas falsas imagens de Deus que não foram cristianizadas. Por isso, é fundamental que toda a experiência comece por ser fundamentada no Amor. A dinâmica do Passo Um consiste no reconhecimento de um amor concreto, real e vivido, que o caminhante possa perceber na sua própria história pessoal A conexão com o amor concreto do Senhor, reconhecido na sua história pessoal, naquilo que o caminhante vive, faz brotar o milagre da confiança amorosa na Sua vontade, que se recebe com gratidão. Esta experiência pode transformar tudo

Este primeiro passo e pedra angular deste caminho convida o caminhante a "reconhecer" como o amor é uma força concreta e palpável na sua vida. Não é teórico nem genérico, mas pessoal, com nomes próprios e apelidos O amor concretiza-se em pessoas reais que estão presentes na vida, em rostos, em acontecimentos que aconteceram em lugares e momentos precisos com pessoas que o caminhante deve ser capaz de identificar e nomear.

Este passo não "fala" sobre o amor, nem convida a uma dinâmica que "explique" o que é o amor. O núcleo deste passo é que o caminhante possa reconhecer, através de experiências, pessoas, acontecimentos, situações, encontros reais e concretos da sua vida, que o amor tem configurado sua existência Não lhe deu apenas ser, mas sustenta-o e fá-lo crescer E, reconhecendo esse amor, sinta-se convidado a agradecer.

O passo inicial é crucial, pois marca o início do caminho e a base da primeira tríade. Onde tudo se funda. É essencial que as pessoas tenham uma experiência concreta de reconhecimento do amor nas suas vidas para avançar para os próximos passos Sem essa experiência, o caminho torna-se frágil e carece de uma base sólida.

Passo Dois

O segundo passo no Caminho do Coração, “O coração humano inquieto e necessitado”, será uma oportunidade para ajudar o caminhante a entrar no seu próprio coração, a partir da sua experiência pessoal, com suas luzes, mas também com as suas sombras e feridas, com o seu pecado e miséria, tendo já experimentado o amor que o precede (o Coração de Deus). Após experimentar o primeiro passo, impõe-se naturalmente o fato de que, diante de tanto amor, se torne evidente a pobreza da resposta pessoal do caminhante A experiência de todos é que vivemos num mundo fundado pelo amor, mas onde os vínculos livres que geramos o ameaçam, questionam, negam ou adoçam para poder manipulá-lo.

Neste momento do caminho, ajudamos o caminhante a olhar não para as tensões de seu coração, os desejos de amar e corresponder, mas para a fragilidade da sua resposta a tanto amor. O passo dois convida a olhar para o pecado de uma perspetiva saudável, libertadora, que foca na responsabilidade pelo dom da nossa liberdade em relação ao amor

Aqui, aquele que acompanha começa a ajudar o caminhante a conhecer melhor as primeiras regras de discernimento2 , partindo da experiência do caminhante As regras de discernimento serão luzes para iluminar a experiência Para que o coração se ajuste ao Coração de Jesus é necessário descobrir melhor o que é a vida interior, as alternâncias entre consolação e desolação, e saber interpretá-las.

Não há discernimento possível sem atenção à própria vida afetiva, ou seja, à dimensão relacional que todo ser humano encarna, consigo mesmo, com Deus e com todo o criado distinto de si

Quem faz esta experiência vai aprendendo a reconhecer que a vida interior é um combate espiritual entre dinâmicas que nos abrem à vida e outras que nos fecham, levando-nos por caminhos de morte. O acompanhante ajuda a perceber como o que vive, os encontros, os eventos, afetam e geram movimentos internos, emoções. Acordar para a própria vida interior é o primeiro passo na vida espiritual, ou seja, a vida segundo o Espírito Santo.

2 Livro de Exercícios Espirituais de Santo Inácio, do nº 313 ao nº 336 É importante conhecer o significado e a aplicação destas regras

Passo Três

O passo três do Caminho do Coração, “Em um mundo sem coração”, convida o caminhante a entrar no coração da humanidade, para se conectar com sua dolorosa busca no meio de um mundo quebrado, cheio de contradições que muitas vezes se entrelaçam com as suas esperanças e escolhas, encorajando-o nessa missão de compaixão a uma abertura mais consciente e solidária, um amor ativo ao estilo de Jesus, partindo do coração da Trindade.

O passo três convida não só a contemplar o mundo a partir da perspetiva de seu dinamismo de vida e morte, mas também a que o próprio caminhante reconheça como se posiciona e toma decisões em resposta a essa dinâmica. É um passo de fechamento, que leva com sua própria dinâmica interior à conclusão da primeira etapa do caminho.

Este bloco de três passos pode ser descrito como o dinamismo do amor Criador, que brota do Coração do Pai. Durante este primeiro bloco, o caminhante experimenta a tensão entre o amor que o precede e também o reconhecimento de sua fragilidade para responder, sendo testemunha das consequências do amor e do dinamismo de Vida e Morte no seu coração, bem como o seu reflexo no mundo.

Fechamento da Tríade - A Primeira

Pausa

Três palavras são importantes de se ter em mente ao fechar a primeira tríade, sem avançar imediatamente para a segunda (que começa com o passo 4), para ajudar as pessoas que estamos acompanhando a aprofundar o percurso feito: detenção, silêncio, intermédio.

Metodologicamente, é importante reservar um momento para interromper o processo e olhar para trás A imagem de uma “ponte” no caminho ajuda a ilustrar este momento. Um lugar ao qual "subimos", tomando uma certa distância, observando o percurso já realizado para revisitar o coração, aprofundar as experiências, descansar e fazer uma pausa Depois, olhar o futuro com esperança, a fim de avançar para o passo 4

Ao olhar para trás e revisitar o que já foi feito, as pessoas também perceberão coisas que passaram despercebidas e que agora podem ser reconhecidas Outras coisas que foram abordadas rapidamente podem ser vistas com mais profundidade nesta pausa. É importante propor um tempo claro de pausa para rever todo o caminho feito até aqui.

O fechamento da tríade é também o encerramento da dinâmica proposta até o momento, que tem sido centrada na experiência pessoal do Amor criador do Pai, no modo como as pessoas acolhem e semeiam esse amor no mundo, bem como na fragilidade dos vínculos entre nós e com a Criação.

Passo Quatro

O Passo Quatro do Caminho do Coração, “O Pai envia o Seu Filho para salvar”, marca o início da segunda tríade. Neste passo, o acompanhante deve perceber que quem está a viver o Caminho do Coração já fez a experiência de ser salvo por Cristo, ou ao menos alguma experiência que possa recordar e que impacta o seu coração, reconhecendo nela que Cristo o salvou.

O caminhante aproxima-se desta nova tríade, de uma maneira suave e consistente, do centro do encontro com Jesus, que o chama pelo seu próprio nome para “estar com Ele e ser enviado” a compartilhar a missão de libertação (Mc 3, 13-15), compaixão e serviço diante do sofrimento humano.

E para quem se abre a essa verdade, ajudado pela graça de Deus, é concedido passar da consciência de uma vida quebrada a uma verdadeira experiência de salvação (Cfr. Dinâmica interna do passo 4). Assim, a meditação sobre a kenosis ou “abaixamento” de Jesus (Cfr Flp 2, 5-11) no sentido de que Ele não se apegou à Sua condição divina, tornando-se servidor e o último entre os homens é o eixo central deste passo, pois ajuda o caminhante a entrar na dinâmica do Coração de Deus, contemplando o modo como Jesus entende o poder: não como uma autoafirmação de superioridade, mas como uma auto doação de si mesmo que traz salvação A ideia fazer com que o caminhante perceba, desde o início, que Jesus não veio para condenar, mas para salvar. Este passo procura que o caminhante se sinta salvo, sustentado, regressando ao caminho por Jesus, convidando-o a meditar e contemplar o Senhor nos Evangelhos, a perceber Seu modo de proceder, e como Ele se aproxima daqueles que sofrem necessidades. A

meditação do Evangelho, conforme proposta nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, será usada para que o caminhante ore com as potências da alma (memória, entendimento e vontade), orientadas para o encontro pessoal com Jesus, que coloca a pessoa de pé, a põe em movimento, e lhe permite ouvir o Seu chamamento.

Passo Cinco

No Passo Cinco, ”Chama-nos seus amigos", o caminhante aprofunda sua caminhada a partir do primeiro encontro com Cristo que o salva, indo em direção a uma relação mais forte de amizade A proposta é continuar a aprender sobre Seu estilo de vida, desde como nasce até como conversa, como Se relaciona com os outros, por que chora, sorri, sonha e ama. Sempre com base nos Evangelhos

Neste passo, é altamente recomendável que se faça um convite sério a ler um Evangelho completo. A sugestão é ler o Evangelho de Marcos, por duas razões A primeira é porque, embora comece com o relato do batismo e, ao contrário de Lucas e Mateus, não apresente uma narrativa sobre a “vida oculta” de Jesus, é, por outro lado, o mais breve e fácil de ler. A segunda razão é que, por ser o mais antigo, ele está mais diretamente conectado com os relatos dos “dizeres e feitos de Jesus” que circulavam nas primeiras comunidades (o que se conhece como “Fonte Q”), sem tantos acréscimos interpretativos teológicos que surgiram posteriormente.

Em termos de caminhada, o foco do Caminho do Coração vai se delineando cada vez mais como um caminho de disponibilidade apostólica. Não é só uma intimidade com o Senhor, mas uma decisão de amor que exige determinação, e um seguimento mais próximo a Ele. Neste passo, o caminhante abre-se à contemplação de Jesus, ouvindo-O e vendo-O agir, até chegar ao momento de ouvir Sua voz chamando e determinando-se a segui-Lo

Passo Seis

O Passo Seis, “Habitados por Cristo”, conduz o caminhante a entrar ainda mais profundamente na relação pessoal com Jesus Cristo, o Ressuscitado Essa maior profundidade na relação com o Senhor prepara o coração da pessoa para ouvir a Sua voz no meio de tantas outras. É o último passo da segunda tríade, o ponto de maior profundidade na dinâmica interna deste caminho, onde o caminhante permanece na contemplação do Senhor, aprofundando o conhecimento da Sua pessoa, aprendendo com o Seu estilo de vida, com as decisões que Ele toma.

Esse passo propõe ao caminhante que esteja completamente atento ao Senhor, aprendendo com Ele, firmando um vínculo, deixando-se impregnar pelo Seu modo de proceder. Por outras palavras, é um estar “de coração a coração” com Jesus

Fechamento da Tríade – A Segunda Pausa

Novamente, no Caminho do Coração, é hora de fazer uma pausa, uma pausa para voltar a passar pelo coração a dinâmica geral vivida neste segundo bloco do caminho Uma ponte para olhar, descansar e recomeçar

Para entender o sentido dessa segunda pausa, é importante parar e considerar: qual foi a experiência espiritual vivida nesta segunda tríade? Do passo quatro ao seis, o caminhante percorre um caminho que vai cada vez mais em profundidade e proximidade com Jesus, pedindo e desejando familiaridade com o Senhor, conhecendo o Seu modo de ser e agir. A pessoa que vive este itinerário não pode entrar no passo sete enquanto não tiver vivido essa dinâmica em profundidade

Somente a partir desse encontro pessoal, do coração transformado, nasce o desejo de seguir a Jesus Cristo, vivendo segundo o Seu estilo, e de se colocar ao serviço da Sua missão de compaixão, oferecendo a vida junto a Ele Só assim o caminho que se abre na terceira tríade, e que coloca o caminhante “em saída e regresso” à sua realidade, será realmente o altar da sua entrega, onde sua missão se encarna como experiência de amor pelo Senhor e pelos irmãos

Se a dinâmica interna da segunda tríade foi fraca, se esse encontro com o Senhor não aconteceu, é aconselhável não avançar, esperar, dar tempo e repetir os momentos que forem necessários para favorecer a experiência Caso contrário, corre-se o risco de que o caminhante permaneça à superfície e não entre na experiência do passo sete e oito, e os compromissos que assumir “para se entregar à missão” se tornem num exercício voluntarista ou, ao menos em parte, centrado em si mesmo e complacente

É essencial que aquele que segue o itinerário do Caminho do Coração possa dispor-se a esse encontro, sem querer forçar, nem reclamar ou exigir, mas

deixando o tempo necessário para se deixar encontrar gratuitamente. É uma experiência íntima que não pode ser controlada, apenas disposta e reconhecida quando é dada Para os acompanhantes, isso exige um profundo respeito pelo processo da pessoa, favorecendo e deixando tempo para que o Senhor a encontre e lhe fale.

Essa segunda pausa é um convite a que o caminhante olhe a dinâmica dos próprios desejos, que vão saindo do ciclo da autorreferencialidade e passam a centrar-se cada vez mais no Senhor. Tentamos ajudá-lo a perceber-se a si mesmo e o que deseja, identificando e nomeando os desejos, reconhecendo o que se moveu no seu interior e para onde esses movimentos o estão conduzindo O encontro com o Senhor, o acolhimento da Sua amizade e a disposição de passar tempo com Ele, não deixam a pessoa como ela estava no início do caminho. E esta pausa é o momento de fazer essa releitura espiritual.

Esta pausa pode ser um bom momento para que o acompanhante da experiência também tenha um tempo de encontro pessoal com o caminhante para verificar e confrontar a sua experiência. Uma conversa em chave de acompanhamento para ajudar e orientar o andamento do processo, se for conveniente

Passo Sete

O Passo Sete, “Damos a vida com Ele”, ajuda o caminhante a entrar na experiência da vida eucarística, da entrega na cotidianidade, no meio do que ele vive. A união com Jesus, que o caminhante aprofunda na tríade anterior (bem expressa na doxologia da Oração Eucarística: “ … por Cristo, com Cristo e em Cristo…”), vai-se tornando gradualmente numa identificação com Seu modo de proceder, de viver, de conversar, de sonhar o mundo

Neste passo, o caminhante faz a experiência de que o modo de Jesus é um reflexo de como Deus Se quis revelar a nós: como auto doação, como um dar-Se Não apenas “dar coisas” (a vida, o carinho, a família, a mensagem, um modelo…), mas sobretudo dar-Se a Si mesmo em Seu Filho, e este, na Sua vida humana entregue até o fim. O centro deste passo está na experiência da dimensão sacrificial que é própria do amor (de uma mãe, de um pai, de um amigo, de um filho, num namoro ), porque é também reflexo do amor de Deus, que é intrinsecamente oblativo (que se dá), e não possessivo (que retém).

Ao contemplar o Mistério Pascal, não nos concentramos apenas na paixão e na morte, mas procuramos ler toda a experiência amorosa de Cristo sob essa chave, como fizeram os próprios Evangelistas, entendendo Seu sacrifício em conexão com a totalidade da Sua vida e ressurreição. O caminhante entra nesse mistério de entrega ou oferecimento de Jesus Cristo (já vislumbrado na própria Encarnação), levado à plenitude na manifestação da Sua vocação, no como e com quem Ele tratava, nos lugares que escolhia para habitar, no modo como enfrentava a dificuldade e a ameaça de morte, a maneira como

foi assassinado e, sobretudo, como viveu tudo isto desde a fé. Finalmente, sendo ressuscitado pelo Pai, esse “modo” é ratificado. Não é, então, apenas uma ação louvável que nos “ganhou” a salvação, mas uma disposição permanente que nos mostra o modo mais humano de viver

O mistério pascal expressa-se na Eucaristia. O caminhante, neste passo, faz a experiência de aprender a “morrer para viver” (partir-se e repartir-se), o que nem sempre é algo dramático, mas é de alguma forma um paradigma vital O caminhante ver-se-á neste passo diante da disjunção da vida cristã, que não busca evitar a dor a todo o custo, mas abraçar o amor em todas as circunstâncias, assumindo a dor que chega como consequência da decisão de amar Ser com Jesus o pão que se parte e reparte Essa é a chave O caminhante começa a tornar-se consciente de que se quiser amar, no meio do mundo, isso implicará algumas renúncias, más interpretações, desprezos, desvantagens, talvez desconfortos, e, nesse sentido, cruzes; um “partir-se”. E embora saibamos que há mais alegria em dar do que receber, que a dinâmica do oferecimento vital gera maior paz e sentido, isso não diminui em nada a profundidade da dor, que permanece como um mistério sagrado. Não é uma dor “escolhida ou buscada”, mas aceite como consequência de querer ser fiel às decisões tomadas, em fidelidade ao amor

Passo Oito

O Passo Oito, “Uma missão de compaixão”, conduz o caminhante a uma síntese onde a missão já não é apenas fruto do entusiasmo de se saber chamado, mas uma identificação profunda com Jesus e com a Sua causa, disposição a assumir, na medida de suas forças, tudo o que isso implica Esta é a maneira real de concretizar na sua vida o desejo de entrega que experimentou no passo sete.

A missão de compaixão é, ao mesmo tempo, um dom e uma tarefa Para ser compassivo, não basta simplesmente decidir sê-lo; primeiro, recebe-se como um dom-enviado, pois é um compromisso que envolve toda a existência. Ou seja, a missão advém ao caminhante do próprio Senhor. Mas, ao mesmo tempo, não acontece sem uma escolha pessoal, livre para se deixar enviar a cada dia, em cada circunstância. Essa escolha só se torna verdadeira a partir da experiência do Ressuscitado. E essa experiência não depende do caminhante. Não é principalmente ele quem vai ao encontro de Jesus, mas Jesus Ressuscitado que se manifesta vitoriosamente e o enche de uma verdadeira alegria, que torna concreto o seu vínculo de amor Essa é a experiência que acompanhamos neste passo.

Este passo tem seu centro na missão, uma missão de compaixão Mas o que significa compaixão? Compadecer-se é um critério de ação, de conduta, não se resume à sensibilidade. A compaixão, “sofrer-com” (cum-patire), é a capacidade de reconhecer o sofrimento do outro, em termos de empatia e escuta, sem julgar, conduzindo o caminhante a agir para aliviar o sofrimento

Não é um sentimentalismo. Um bom exemplo dessa dinâmica é a história do Bom Samaritano (Lucas 10, 25-37).

Jesus Cristo convida o caminhante a olhar o mundo com os Seus olhos, a sentir compaixão desde as entranhas, a comover-se, e a decidir trabalhar e colaborar com Ele na missão que recebeu de Seu Pai, uma missão de compaixão pelos mais vulneráveis e frágeis. Ele é o enviado, é quem “primeirea” a missão; o caminhante colabora com Ele.

Neste ponto da caminhada, já existe um caminho feito com o Senhor, o que permite ao caminhante perceber o convite para a missão. Agora, falta concretizá-la, fazer dela uma realidade na sua própria história, colocando em prática esse critério de ação, que é a compaixão Trabalhar pelos outros, servir e doar-se, cada um onde for convidado a concretizar a missão: em relação consigo mesmo, com o Senhor, com os irmãos e com toda a criação. Essa concretização histórica procura “trazer à realidade”, com pequenos passos possíveis, as moções que o caminhante foi recebendo ao longo do caminho, para que não fiquem apenas em bons desejos, mas se tornem ação concreta.

Passo Nove

O Passo Nove do Caminho do Coração,“Uma rede mundial de oração e serviço atenta às necessidades da humanidade ” , é a projeção do percurso para a vida cotidiana. A experiência do Caminho do Coração é um itinerário espiritual para transformar a vida concreta; não para ser um parêntese ou a fuga de um momento específico, embora seja um momento forte na vida espiritual do caminhante.

A missão orada e discernida passa agora para uma disposição contínua que, de forma integrada e fundamental, é vivida ao lado de outros em comunidade. Embora seja um caminho pessoal com Jesus, não é um processo individual. Essa distinção é importante, pois o Caminho do Coração não é uma receita de autoajuda para sermos melhores pessoas, mas um caminho na Igreja (a comunidade dos batizados) para o serviço da missão de compaixão pelo mundo que Jesus nos confia.

Esta rede (família ou comunidade) mundial de oração é formada por aqueles que, mediante o oferecimento diário de suas vidas, se tornam disponíveis para colaborar na missão de compaixão de Cristo Ressuscitado, em qualquer situação ou estado de vida em que se encontrem.

O chamamento à missão que o Senhor faz ao caminhante é o fogo que o constitui apóstolo, enviado do Coração do Pai ao coração do mundo Assim, o que nos une é Jesus, chamando-nos e convocando-nos para uma missão

comum. O que nos une não são nossas afinidades pessoais, um carisma específico, a nossa amizade ou homogeneidade sociocultural, mas a pessoa de Jesus no seu centro mais íntimo: o Seu Coração

O passo nove é o último passo da terceira tríade, que é o bloco de saída. O caminhante prepara-se para voltar ao mundo e compartilhar com os outros o que viu e ouviu neste caminho. É o bloco que o prepara para a missão de forma concreta, para a entrega, para uma missão de compaixão vivida em comunidade. “Uma entrega à missão de compaixão vivida em rede, em comunidade”.

Este momento pode ser acompanhado com a apresentação das diferentes modalidades de participação e pertença à Rede Mundial de Oração do Papa. É a oportunidade de ajudar o caminhante a meditar sobre a sua forma de “ser Igreja” e “sentir com e na Igreja”. É o passo que abre à reflexão sobre a missão vivida em comunidade

Fechamento da Tríade – Colheita Final

Chegados ao Passo Nove, os caminhantes encerram a terceira tríade e também o itinerário. É sempre conveniente dedicar um tempo de qualidade para fazer um bom fechamento que permita reconhecer, nomear e colher as graças recebidas. Deve-se procurar que não seja apenas mais uma experiência espiritual, mas que ajude a reconhecer com a maior clareza possível como o Senhor falou durante todo o caminho.

Conforme o formato da proposta (online, presencial, em retiro ou workshop, em poucos dias ou vários), será também a forma como se proporá o tempo de colheita. O importante neste tempo é que as pessoas fechem o caminho e se abram para viver as graças na sua vida cotidiana. A colheita expressar-se-á em desejos, movimentos internos, novas ideias, clarezas renovadas, novas formas de estar, de olhar ou de fazer as coisas, renovação de vínculos, relançamento de projetos… Serão variadas as formas em que as pessoas poderão reconhecer os modos como o Senhor falou ao seu coração.

É possível que o encerramento deste processo absorva também o fechamento da terceira tríade, sem necessidade de fazer uma pausa específica para isso. No entanto, também se pode dedicar um tempo específico para encerrar a tríade que tem como eixo a entrega à missão em comunidade, e depois adicionar uma conclusão do processo completo. O importante é que o processo seja encerrado e se faça uma releitura que permita identificar, nomear e agradecer os dons recebidos.

Algumas ajudas metodológicas

Vamos agora ver algumas recomendações que podem orientar a planificação de uma experiência do Caminho do Coração Pequenas adições ao caminho que podem ajudar a tirar maior proveito da experiência.

1. Sobre o processo

Tratando-se de uma experiência processual e não de uma sucessão de palestras de espiritualidade, a metodologia deve prestar atenção especial à experiência do processo, e que se possa perceber esse processo, reconhecendo-o e verbalizando-o.

Por isso, é muito útil utilizar recursos didáticos que ajudem a perceber o processo, que o tornem visível ou palpável para o caminhante, que deem a ideia de um caminho que vai sendo construído à medida que é percorrido. Por exemplo, um desenho ou uma composição que se vá integrando ou completando a cada passo com uma consigna; a construção de um caminho com um coração a cada passo ou com as imagens sugeridas nos livros Sinais, símbolos, letras, números, fotos, palavras que mostram o caminho que o caminhante está a percorrer. As possibilidades são numerosas; o objetivo é que as pessoas percebam que estão a avançar no caminho, que estão caminhando

O processo geralmente tem um traço ou um fio mais ou menos visível que vai dando unidade ao que está a ser vivido e que o caminhante deve poder reconhecer Por exemplo: uma mesma maneira de fazer a releitura em cada passo, uma palavra mnemônica que ajude a percorrer o processo de releitura, uma sequência que se repete à medida que se avança, começar ou terminar cada passo da mesma maneira, um ícone que funcione como denominador comum ao longo do caminho, uma cor ou uma música que, ao

ser vista ou ouvida, evoque esse fio que vai “costurando” as experiências que o caminhante percorre.

Enfim, o processo precisa ser vivido e reconhecido pelo caminhante, e para isso devem ser direcionados os recursos metodológicos da proposta.

1.a Tríades. Passos. Pausas

Ao projetar a proposta, é importante que quem acompanha tenha diante de si o caminho completo e conheça a dinâmica global, a que corresponde a cada tríade, a cada passo e ao sentido das pausas. No momento de montar uma proposta ou preparar um encontro, insistimos em que se tenha especialmente em mente o esquema para orientar o passo e a dinâmica interna dos passos e das tríades apresentadas nos livros seja para dar todo o percurso ou apenas uma parte dele. Esses elementos ajudam a centrar e focar, sem nos perdermos na abundância dos temas e entradas que são propostos nos livros

Ou seja, a proposta deve estar centrada no essencial de cada passo, no fruto que se espera receber, na palavra-chave que articula o passo e na dinâmica interna que o caracteriza seja para uma proposta mais extensa no tempo ou para uma mais reduzida, pois os temas e as atividades devem ser orientados para afirmar os elementos que são propostos no esquema para o passo. Esses elementos são critérios para discernir que entrada se escolhe usar, que atividade se prepara, que música ou imagem é mais adequada.

1.b Extensão temporal

As propostas do Caminho do Coração admitem diversas modalidades de extensão temporal. Podem ser experiências fechadas, como retiros, por exemplo, de dois ou três dias Também podem ser jornadas de algumas horas ou de um dia inteiro Pode-se ainda propor uma experiência com encontros semanais ou quinzenais durante alguns meses, nos quais os caminhantes participem de um encontro e depois mantenham um ritmo de oração dentro da sua vida cotidiana, aprofundando o tema proposto. Esta enumeração é apenas exemplificativa, haverá muitas possibilidades que precisam ser adaptadas à realidade concreta de quem faz a experiência e àquelas que a acompanham.

O importante é que o processo se inicie e termine com um sentido e um desenho que favoreça o fruto e a graça. Deve-se evitar a tentação de apresentar uma sequência desconexa de temas de espiritualidade retirados do Caminho do Coração, sob o pretexto de que o tempo é curto

Por exemplo, poderia ser dado o Caminho do Coração em quatro etapas: um bloco de duas introduções e um bloco para cada uma das tríades. Essa forma de seccioná-lo, pausá-lo e agrupá-lo responde bem à dinâmica interna do caminho, sem forçá-la. Também poderia ser proposta a experiência em 5 encontros: uma introdução, o desenvolvimento das três tríades (uma por encontro) e um encontro de colheita final.

Outra possibilidade é dar o Caminho do Coração como um retiro de um dia com espaços de oração pessoal, grupos pequenos para partilha, ajudados por facilitadores de grupo que tenham vivido a experiência e fechando com uma colheita final O desenho dependerá das circunstâncias de tempo, lugar e pessoas.

1.c Experiência espiritual

O Caminho do Coração é, antes de tudo, uma experiência espiritual, por isso quem acompanha a experiência organiza e prepara a proposta para que as pessoas que farão o caminho entrem numa verdadeira experiência espiritual.

Trata-se de passar da cabeça ao coração, não tanto de entender com ideias, mas de adquirir uma compreensão mais ampla que abrange a dimensão afetiva da pessoa, com os seus sentimentos, desejos, ideias e, em muitos casos, também com o seu corpo como caixa de ressonância da experiência.

Ter isto em consideração ajuda a discernir melhor os meios que escolhemos ao propor a experiência Por exemplo, ao propor o Passo um, trata-se mais de que o caminhante reconheça o amor que o sustenta desde o início do que dar boas explicações sobre o tema do amor. Não se trata de explicar como é a experiência do amor, mas de fazer com que a pessoa experimente o reconhecimento do amor na sua vida e o possa nomear

Outro ponto importante é que o caminhante deve poder reconhecer a experiência e expressá-la de alguma forma: nomeá-la, descrevê-la, colocá-la por palavras, desenhá-la, cantá-la, dançá-la Não é um exercício apenas

intelectual, mas que compromete outras dimensões de sua existência. Por isso, ajuda propor elementos que despertem e envolvam os sentidos.

Pode favorecer a experiência de reconhecimento do que se busca (seja a experiência de amor, dor, pecado, tensões, encontro, amizade, entrega, missão, etc.) apoiar-se em algo fora de si mesmo, por exemplo, uma história real, vídeo, canção, relato ou conto, poema, etc. Para de seguida voltar, como num espelho, a luz que foi reconhecida fora sobre a própria vida do caminhante.

Neste sentido, a inclusão de elementos que despertem os sentidos, como os que enumeramos anteriormente e outros que possam ser convenientes, deve estar orientada a ajudar o caminhante a entrar na experiência e dispor-se a receber o fruto do passo, evitando sempre que esses recursos sejam um estímulo decorativo ou de simples preenchimento.

Também pode ajudar que os caminhantes expressem e compartilhem o que estão a viver em pequenos grupos, fazendo trabalhos grupais com uma consigna que os conduza a colocar em comum a experiência. Esta é uma maneira de viver a experiência pessoal do caminho, mas em comunidade

1.d Modo de presencialidade

A experiência pode ser realizada de modo presencial ou online. A frequência e a duração de cada encontro podem ser ajustadas conforme a quantidade de participantes e o conteúdo da proposta O intervalo entre cada encontro deve ajudar a manter o ritmo e a perceção do processo, de modo que a experiência não se dilua. O caminhante deve ser capaz de manter a memória do que vive para continuar a construir o processo. Se o intervalo entre um encontro e outro for muito longo, será mais difícil manter o sentido de unidade.

1.e Materiais de apoio

É importante que quem participa do Caminho do Coração tenha uma versão da Bíblia na sua língua nativa, para aceder diretamente o Evangelho e outros trechos das Sagradas Escrituras a partir da sua própria experiência de oração.

Além disso, é essencial que o caminhante tenha um caderno de notas, onde possa escrever, pintar ou desenhar; ou seja, um registo pessoal do seu processo, ao qual poderá recorrer sempre que desejar Este caderno será especialmente útil para a prática da releitura ou exame diário

Também é recomendado que os participantes tenham materiais para orar, ler, meditar ou conversar acerca do tema do encontro. Estes podem ser textos extraídos dos livros ou outros materiais adequados (canções, vídeos, poemas, textos bíblicos), que ajudem a trabalhar o tema abordado no encontro.

1.f Experiência de oração

A experiência é centrada na oração, ou seja, no encontro com o Senhor Portanto, é necessário que o design da experiência proponha momentos de oração pessoal, até mesmo guiada, para que os participantes possam replicar e expandir esses momentos na sua vida cotidiana, entre um encontro e outro Isso não deve ser dado como garantido

O Caminho do Coração é formativo, mas não é um curso de espiritualidade; é um itinerário baseado na oração pessoal. As orientações fornecidas devem propor diferentes modos de orar com a Palavra, meditar, contemplar, orações vocais, lectio, procurando oferecer o tipo de oração que mais ajude na experiência. Para aqueles que já realizaram os Exercícios Espirituais de Santo Inácio, também poderão ser sugeridos os modos de oração dessa experiência.

Da mesma forma, os encontros em grupo devem propor a prática de oração pessoal com a Palavra e a releitura espiritual, para que os caminhantes façam a experiência, aprendam e pratiquem, transformando-a num hábito. Por exemplo, cada encontro pode começar com a releitura do encontro anterior, relembrando como viveram o período entre os encontros, refletindo sobre as ressonâncias de orar com algum texto da Palavra. Em resumo, viver o Caminho do Coração como estilo de vida exige a prática diária da releitura espiritual e da oração com a Palavra

2. Sobre os caminhantes

O design da proposta deve considerar a idade, a experiência espiritual e as buscas das pessoas que fazem a experiência A proposta para líderes paroquiais adultos que vêm de grupos do Apostolado da Oração será diferente da proposta d’ O Caminho do Coração para um acampamento de animadores ou monitores do Movimento Eucarístico Juvenil, para uma comunidade estabelecida de Adoradores ou músicos, ou para uma experiência aberta entre pessoas que não se conhecem.

Também é importante prever momentos de acompanhamento do grupo e das pessoas Às vezes, é conveniente dividir grupos maiores em pequenas comunidades, onde um facilitador ajuda a compartilhar a experiência espiritual de maneira periódica. Também podem ser oferecidas oportunidades de acompanhamento individual da experiência Recomenda-se que, no final da segunda tríade, haja um momento de acompanhamento individual com os caminhantes para avaliar o progresso do seu processo.

3. Sobre os

facilitadores

3.a Papel do facilitador

A pessoa que acompanha a experiência d’ O Caminho do Coração é aquela que organiza as atividades para que os caminhantes possam vivenciá-las O facilitador ajuda, facilita e cria condições para que as pessoas sigam a proposta. Os meios escolhidos para ajudar os caminhantes devem ser os mais adequados às circunstâncias das pessoas, dos tempos e dos locais.

Diferentes recursos podem fazer parte dessa abordagem, desde que ajudem a atingir o objetivo. Dessa forma, não há meios fixos, mas sim meios que se adequam à experiência concreta. Por exemplo, nalguns casos pode ser conveniente propor o tema com vídeos, noutros com um texto do Evangelho ou com uma imagem Noutros ainda, a música pode ser útil, enquanto noutros a dança, a pintura ou as artes manuais podem ter lugar na experiência; e noutros, apenas os textos bíblicos podem ser utilizados.

É importante evitar propor estímulos excessivos ou falar demasiado sobre os temas. O que importa não é a proposta em si, que é apenas um meio. O facilitador não é o foco, ele é alguém que ajuda o caminhante a encontrar-se com o Senhor ao longo deste caminho. O que importa é que o caminhante vivencie a experiência, e todos os meios escolhidos devem ser os mais adequados para esse fim Mesmo que metodologicamente a proposta seja perfeita, se não ajudar, não cumprirá seu objetivo e deve ser descartada. A principal tarefa é disponibilizar o que mais ajuda Isso sempre será o mais bonito e o melhor.

Deve-se ser prudente e evitar cair na tentação de explicar excessivamente, mas sim introduzir o tema de forma ajustada, sem substituir a tarefa própria do caminhante, que precisa de dar de si mesmo para desvelar, descobrir e refletir sobre o tema, conforme suas possibilidades Além disso, é importante evitar a tentação de assumir o papel de mestre que ensina, e, em vez disso, ser companheiros de caminho, já tendo vivido a experiência, ajudando o caminhante a seguir, fornecendo o que mais o ajuda e removendo obstáculos do processo, orientando a marcha e corrigindo rumos quando necessário

3.b Objetivação da experiência

É de grande utilidade que o dispositivo proposto preveja momentos para verbalizar a experiência, colocando palavras no processo espiritual, pois isso ajuda o caminhante a olhar para seu próprio processo, a organizá-lo através do discurso e a descobrir novas luzes. Falar sobre o processo ajuda a ordenar e ajustar o que se vive.

No entanto, não se trata de qualquer tipo de fala, mas apenas de palavras que conduzam a um aproveitamento maior da experiência. Por isso, é importante que o facilitador forneça diretrizes claras sobre o momento de partilha da experiência, seja em grupos pequenos ou maiores. Convém oferecer instruções sobre o que deve ser partilhado, em que momentos e como fazê-lo. Por exemplo, se deve escrever, desenhar, se é apenas para falar, quando falar e por quanto tempo, etc. Isso ajuda a ordenar e diminui a dispersão individual e grupal.

Após ouvir as partilhas, é importante dedicar um tempo para refletir sobre o que foi ouvido e devolvê-lo ao grupo. Isso ajuda as que pessoas se sentam ouvidas e acolhidas. Não é recomendável encerrar o momento de partilha sem uma simples devolução Esse momento é uma objetivação da experiência, que ajuda a visibilizar os frutos, corrigir rumos, resumir, normalizar e incentivar a caminhada.

3.c Sugestões para o uso dos livros

Os livros da coleção O Caminho do Coração são uma caixa de ferramentas para o facilitador da experiência. Eles são usados tanto para ajudar na oração pessoal, como matéria de oração durante a experiência, mas principalmente como guia de conteúdos para quem facilita o processo Portanto, devem ser utilizados somente na medida em que ajudam o caminhante.

Uma compreensão clara do esquema de orientação de cada passo é essencial para quem prepara a experiência, pois ajuda a identificar os marcos importantes do caminho, fornece a orientação geral e serve como critério de discernimento para a escolha dos materiais adequados a cada passo. Também pode ser útil que quem faz a experiência da primeira tríade conheça os livros, juntamente com o marco referencial e, sobretudo, a dinâmica interna, pois eles estabelecem e fundamentam as pedras angulares para a continuação do itinerário

Isso não significa que o caminhante precise ler os textos literalmente, mas é importante que o que está expresso nos livros seja o fio condutor da experiência da primeira tríade, principalmente se forem caminhantes iniciantes À medida que o caminho avança, o facilitador poderá escolher outras entradas dos livros para apresentar o tema de cada passo. O conteúdo dos livros pode ser complementado com outros materiais, como vídeos, textos, músicas, etc , evitando-se o excesso de material

3.d Sugestões para os momentos de pausa

Há três ideias que podem ajudar nos momentos de pausa após cada bloco, pois estes poderiam ser interpretados apenas como uma interrupção do caminho, e não como um espaço também espiritual para refletir sobre o vivido: parar, silêncio e tempo intermédio.

Parar é essencial n’O Caminho do Coração para romper com a rotina (inclusive a das nossas práticas espirituais) e ouvir a fonte que dá vida: Deus. É um ato de liberdade que permite discernir o que vivemos, afastando-nos dos impulsos e aproximando-nos do Espírito Santo. Parar não é um fim em si mesmo, mas uma preparação para o encontro com o Senhor, que nos espera dentro da nossa vida cotidiana.

O silêncio também é chave para ouvir o que normalmente passa despercebido, desde os pequenos ruídos até a voz de Deus em nosso interior Implica calar tanto os ruídos externos quanto a agitação interior, permitindo que o caminhante entre num diálogo profundo com o Senhor Esse silêncio não é um tempo vazio, mas um espaço fértil para a ação do Espírito.

O tempo intermédio entre os momentos formais de oração e as atividades diárias também é significativo. Assim como na parábola do semeador, a semente cresce sozinha se lhe derem espaço. Esse tempo livre não requer ações específicas, mas sim uma atitude de confiança e abertura para que a Palavra semeada no coração dê frutos, sem se preocupar com o controle de seu crescimento.

Por fim, é importante ajudar o caminhante a manter vivo o seu desejo de viver plenamente O Caminho do Coração Através da releitura espiritual diária, ele pode verificar se a sua forma de viver está alinhada com os passos do itinerário, confiando que o Senhor atua no seu coração, mesmo no meio das ocupações diárias.

4. Sobre o

futuro

Os caminhantes regressam à sua vida cotidiana Como ajudá-los a manter o impulso e manter acesa a chama da experiência? Nesta etapa, assim como ao longo do processo, podemos buscar ajuda nas Intenções de oração mensais do Papa e nos materiais oferecidos pela Rede Mundial de Oração Este é um momento especialmente animado pelo Espírito Santo, que é o motor da nossa missão.

Orar e discernir a vontade do Coração de Jesus no dia a dia não é uma tarefa fácil Depois de ser acompanhado num itinerário espiritual tão intenso, muitas vezes o desencanto ou a frustração surgem. O caminhante sai cheio de propósitos que às vezes se tornam difíceis de manter. E, como em qualquer relacionamento entre corações, entre pessoas, é necessário cultivá-lo, passar tempo juntos: partilhar a vida cotidiana Caso contrário, a relação torna-se fria (pelo menos da nossa parte) podendo tornar-se distraída ou utilitária.

4.a Recursos disponíveis

Como sustentar uma vida espiritual no meio da vida cotidiana sem a ajuda constante do nosso acompanhante ou de momentos formais de oração que o caminhante vivenciou ao percorrer os nove passos? A oração de discernimento, iluminada pela Palavra de Deus de cada dia, e a releitura espiritual ou Exame cotidiano são as maneiras próprias pelas quais a pessoa pode projetar a experiência d’ O Caminho do Coração

Os três momentos de oração do dia propostos pela Rede Mundial de Oração podem ser de grande ajuda. O oferecimento diário e a leitura da Palavra

todas as manhãs serão a chave para preparar o caminhante, de forma consciente e ativa, para viver o dia a dia em união com o Coração de Jesus e em perspetiva de missão O exame à tarde será um momento frutífero para manter "os olhos fixos em Jesus" (Hb 12, 1-2), nos seus critérios e modo de proceder, unindo também o que o caminhante faz a uma intenção de oração maior que é proposta pelo Papa a cada mês. Já a releitura ou exame espiritual à noite permitirá olhar com olhos agradecidos, humildes e generosos para o dom do amor de Deus, reconhecendo os seus dons e convites, pedindo perdão pelas faltas e olhando para o que vem a seguir, alinhando os seus desejos com os de Jesus.

Outras ajudas concretas: Um altar no quarto Um caderno espiritual Alguma imagem que conecte com aquilo que viveu n’ O Caminho do Coração. O rosário. ClickToPray.

4.b Com outros em comunidade

Viver em comunidade é difícil mas é algo que nos faz ser quem somos E a celebração da Eucaristia em comunidade é talvez a experiência mais concreta que pode ajudar o caminhante a sentir-se parte do Corpo. "A Igreja faz a Eucaristia e a Eucaristia faz a Igreja", como disse um teólogo do século XX Todos somos importantes nela porque somos membros desta família dos batizados.

A celebração e expressão litúrgica, mesmo com todas as suas falhas e particularidades, continua a ser para a nossa experiência cristã “fonte e cume” (Lumen Gentium 11) da vida e da atividade da comunidade de Jesus.

A participação na Rede de Oração do Papa inclui nossa pertença à Igreja Católica. Estar vinculado à realidade eclesial mais próxima será sempre importante para aqueles que vivem O Caminho do Coração

Uma segunda maneira de construir comunidade é vinculando-se, de alguma forma, à Rede Mundial de Oração, que oferece muitas possibilidades. Para os que se desejam envolver ainda mais, é importante tomar parte nas propostas e canais da Oficina Nacional, seja para participar de modo pessoal, nalgum grupo paroquial de oração, no Apostolado da Oração, no MEJ ou noutra comunidade que participa ou pertence à Rede de Oração. Para algumas

pessoas, esse maior compromisso poderá expressar-se por meio de uma Aliança pessoal com Jesus ou consagração.

4.c Formação e acompanhamento

O Caminho do Coração é agora vivido no dia a dia, mas isso não significa que não seja possível ter uma experiência forte que ajude o caminhante a realinhar os passos deste itinerário espiritual, ao estilo de um retiro. Assim como acontece com os Exercícios Espirituais de Santo Inácio, é possível participar d’ O Caminho do Coração várias vezes e em diversas modalidades

Com tudo isso, é importante que aqueles que se sentiram chamados a serem formadores passem pela experiência dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, de acordo com as modalidades oferecidas no seu país São essas pessoas que, como formadores, provavelmente continuarão a nutrir e iluminar a experiência já vivida n’ O Caminho do Coração, compreendendo melhor as dinâmicas internas que precisam de acompanhar e cuidar nos outros caminhantes

Também é importante passar pela experiência da Formação para Formadores d’ O Caminho do Coração, nas diversas modalidades que oferece a Rede de Oração, para sistematizar as ferramentas e a pedagogia desse itinerário.

Além disso, tanto para quem vive O Caminho do Coração quanto para os que o acompanham em grupos, é importante considerar um acompanhamento pessoal formal que ajude, ao longo dos anos, a confrontar os processos e a desmascarar os enganos do mau espírito. Se durante a experiência não houve acompanhamento pessoal, este pode ser um momento importante para propor àqueles que necessitam a possibilidade de aceder a este ministério da Igreja de maneira adulta e comprometida.

Fundamento na espiritualidade do Coração de Jesus

Partimos de duas afirmações:

1. O Caminho do Coração atualiza a devoção ao Sagrado Coração de Cristo a partir de uma perspetiva apostólica e apresenta de maneira coerente o tesouro do Apostolado da Oração (hoje, Rede Mundial de Oração do Papa) à luz dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola.

2. A espiritualidade do Coração de Jesus é o fundamento espiritual da nossa missão, e O Caminho do Coração é a nossa maneira específica de vivê-la Por isso, lhe chamamos: itinerário espiritual de formação

Vamos agora explorar o que queremos dizer quando fazemos essas afirmações. Uma primeira síntese histórica ajudar-nos-á a encontrar a conexão entre O Caminho do Coração e a espiritualidade do Coração de Jesus, que é o seu fundamento. Esta síntese tem como objetivo também fornecer alguns elementos de interpretação que ajudam a ampliar o escopo de referência deste itinerário a partir de seus fundamentos.

1. O Caminho do Coração atualiza a devoção ao

Coração de Jesus

A devoção ao Coração de Jesus, como expressão de uma espiritualidade centrada na pessoa de Jesus Cristo, tem uma longa história. Ela foi sendo adaptada ao longo dos séculos conforme os contextos históricos e sociais, manifestando-se em diversas formas e linguagens O Evangelho de São João fala do "coração transpassado de Jesus" (Jo 19, 34), expressão que os primeiros Padres da Igreja aprofundaram amplamente, e a mística medieval interpretou como a ferida que manifesta a profundidade do amor de Deus. Nos séculos mais recentes, as expressões mais conhecidas são aquelas mediadas pelas revelações a Santa Margarida Maria Alacoque no século XVII e o culto posterior ao Sagrado Coração no século XIX inscrito dentro de uma perspetiva apostólica graças ao Apostolado da Oração , assim como as revelações da Divina Misericórdia a Santa Faustina Kowalska no início do

século XX. A Rede Mundial de Oração do Papa, como recriação do Apostolado da Oração, é uma dessas inculturações.

O Magistério da Igreja também nos fala dessa espiritualidade nas encíclicas sobre o Sagrado Coração, como a de Pio XII em 1956, Haurietes aquas, e Dives in Misericordia de São João Paulo II (1980). O Papa Francisco também publicou recentemente a carta encíclica Dilexit Nos (2024).

A Companhia de Jesus tem estado vinculada a essa espiritualidade do Coração de Cristo desde seus primórdios, principalmente devido à experiência espiritual de Santo Inácio de Loyola e a sua contemplação dos mistérios da vida de Jesus nos Exercícios Espirituais, mas também devido ao seu ministério de oração e serviço apostólico, entendido como colaboração na missão de compaixão pelo mundo. Assim, a sua espiritualidade cristocêntrica e perspetiva missionária, ajudam a compreender com maior clareza o fato de que a Rede Mundial de Oração do Papa esteja confiada como obra pontifícia aos jesuítas

O Apostolado da Oração, na sua origem como missão espiritual que mais tarde tomou a forma de associação de fiéis, foi fundado em 1844 numa casa de formação de estudantes jesuítas no sul da França Logo, a conexão com a devoção ao Coração de Jesus tornou-se o fundamento da sua ação apostólica, que se espalharia por todo o mundo, sempre sob a orientação da Companhia de Jesus.

De fato, foi com a ajuda de São Cláudio La Colombière, jesuíta, que Santa Margarida Maria Alacoque pôde divulgar a profundidade da misericórdia do Coração de Jesus. Ele foi seu acompanhante espiritual, com quem confrontou as revelações Além disso, durante sua última visão em 1688, reconhecida pela Igreja, o Senhor confiou às Irmãs da Visitação e aos Padres da Companhia de Jesus a missão de transmitir a todos a experiência e a compreensão do mistério do Sagrado Coração.

Quase duzentos anos depois, em 1883, a Companhia de Jesus aceitou oficialmente esse “suave encargo" (munus suavissimum) de praticar, promover e propagar a devoção ao Coração de Jesus, por meio do decreto 46 da 23ª Congregação Geral. Em 1915, o decreto 21 da 26ª Congregação Geral afirmaria que “o Apostolado da Oração é um meio muito bom para fazer progredir essa devoção.”

A partir do final do século XX, os jesuítas impulsionaram uma renovação da espiritualidade do Coração de Jesus, buscando refundar o Apostolado da Oração Já o próprio P Pedro Arrupe SJ, Superior Geral da Companhia de Jesus (1965-1983), afirmou numa carta enviada a todos os jesuítas em 1972, na qual consagrava toda a Companhia ao Coração de Jesus: "Este meio do Apostolado da Oração, que tanto ajudou o povo de Deus, pode hoje, validamente renovado e adaptado, prestar um serviço novo e ampliado, quando se percebe tanto a necessidade de criar grupos apostólicos de oração e de compromisso espiritual sério."

O Papa João Paulo II, em 1986, confirmou a Companhia de Jesus na missão que recebeu de Cristo para divulgar a devoção ao Seu divino Coração, assim como o meio privilegiado que escolheu para cumprir essa missão: o Apostolado da Oração, com estas palavras: “Peço que façam todos os esforços possíveis para cumprir sempre melhor a missão que o próprio Cristo lhes confiou, a difusão do culto do Seu Coração divino”

Outros Superiores Gerais da Companhia de Jesus mais recentes também responderam a esse convite. O P. Peter-Hans Kolvenbach SJ (1983-2008) lembrou nos seus escritos sobre o Coração de Cristo que a Companhia desejou "vincular solenemente a promoção da devoção ao Coração de Jesus ao Apostolado da Oração." O P. Adolfo Nicolás SJ (2008-2016) foi quem impulsionou a recriação do Apostolado da Oração na Rede Mundial de Oração do Papa, e, portanto, a atualização do seu fundamento espiritual: a espiritualidade do Coração de Cristo O P Arturo Sosa SJ, atual Superior Geral da Companhia de Jesus, renovou a consagração da Companhia ao Coração de Jesus no dia 31 de julho de 2022, festa de Santo Inácio, e participou da redação dos Estatutos definitivos da Rede Mundial de Oração do Papa, publicados pela Secretaria de Estado do Vaticano em julho de 2024

Esses estatutos afirmam que o seu “fundamento é a espiritualidade do Coração de Jesus, que é claramente exposta no Documento de Recriação do Apostolado da Oração, intitulado 'Um caminho com Jesus em disponibilidade apostólica' (Roma, 3 de dezembro de 2014), e que oferece ao discípulo de Jesus um caminho para garantir que seu sentir e agir se identifiquem com o Coração de Cristo, numa missão de compaixão pelo mundo” (Estatutos, 2).

Assim, ao reunir essa história, reconhecemos que a Rede Mundial de Oração do Papa, obra pontifícia confiada à Companhia de Jesus, tem claramente

como fundamento espiritual a espiritualidade do Coração de Jesus, vivida como um caminho de amizade com o Senhor e serviço à Sua missão, segundo a pedagogia d’ O Caminho do Coração

2. Dimensão apostólica da espiritualidade do

Coração de Jesus

A intuição da oração apostólica, que dará origem ao Apostolado da Oração, encontra as suas raízes no P. François-Xavier Gautrelet, jesuíta francês, a 3 de dezembro de 1844, dia da festa de São Francisco Xavier, no contexto do século das missões Na casa de formação de Vals-près-le-Puy, ao observar jovens entusiasmados pelos relatos missionários, especialmente de Madurai, na Índia, ele convidou-os a ser missionários na sua vida cotidiana. Ele disse: "A vossa missão está aqui, nos vossos estudos e nas coisas simples do dia a dia. Cumprindo-as com disponibilidade à vontade de Deus, já são apóstolos que ajudam toda a Igreja."

Essa proposta simples e profunda ressoou imediatamente no desejo desses jovens jesuítas como um meio concreto de participar agora da missão de Cristo, enquanto continuavam sua formação, aprofundando a sua disponibilidade. Esta intuição espiritual encontrou eco em muitos leigos, desejosos de contribuir para o impulso missionário do seu tempo.

Cinco anos depois, o P Gautrelet formalizou esta intuição fundando oficialmente o Apostolado da Oração (1849) em Toulouse, França. Com a chegada do P. Henri Ramière SJ, que fora um de seus alunos, como sucessor na direção do Apostolado da Oração, a obra realmente passa para outro nível O P Henri Ramière SJ articula a missão do Apostolado da Oração com a devoção ao Coração de Jesus, numa perspetiva decididamente missionária e, em 1861, lança a publicação da revista Mensageiro do Coração de Jesus, ainda vigente em muitos países

O P. Henri Ramière SJ inscreve formalmente o Apostolado da Oração na dinâmica do Coração de Jesus. A oração de oferecimento não estará apenas ligada à oferta dos estudos, ao trabalho e às atividades, mas estará ligada a uma intenção de oração pela missão da Igreja, uma oração de intercessão unida ao Coração de Jesus e à sua missão de compaixão pelo mundo.

Entende-se como oferta da vida pela missão da Igreja.

Assim, na publicação do Mensageiro do Coração de Jesus, começa-se a convidar as pessoas a orar pelas intenções do Coração de Jesus Uma mudança importante ocorre em 1879, quando, a partir de então, as intenções de oração são formuladas todo mês pelo Papa (Leão XIII) e confiadas ao Apostolado da Oração. Assim, o P. Ramière torna mais evidente que essa oração é apostólica e aberta ao mundo, por meio da qual os fiéis se unem ao Coração de Jesus, ao serviço de sua missão

Ao inscrever mais claramente o oferecimento diário numa perspetiva apostólica, Ramière cria simultaneamente uma rede (ou “liga”, como ele chamava) de oração unida ao Coração de Jesus Assim, ele também mostra que não é apenas a oração que é apostólica ou missionária, mas toda a nossa vida. O que ele chama de “oração e zelo” (significando atenção, diligência, compromisso), hoje chamamos de “oração e serviço”, porque a verdadeira oração dispõe-nos à ação, abre-nos aos outros e ao mundo. Através da oração de oferecimento, tornamo-nos disponíveis para a missão de Cristo Assim, a oração de oferecimento diário, unida a uma intenção de oração, conduz-nos a essa atitude interior de disponibilidade para a missão.

3. Síntese

Como afirmam os Estatutos, a Rede Mundial de Oração do Papa oferece aos católicos um caminho espiritual chamado O Caminho do Coração que integra duas dimensões: (a) a compaixão pelo mundo e pelos seres humanos e (b) a comunhão com a missão do Filho: “Através deste caminho espiritual, animado e coordenado pela RMOP, a vocação missionária dos batizados é despertada novamente, permitindo-lhes colaborar na sua vida cotidiana com a missão que o Pai confiou ao Seu Filho Assim, colocam-se interiormente à disposição do chamamento de Deus, através de Seu Espírito Santo, que interpela e guia cada coração e cada consciência humana em direção ao bem” (Estatutos, 4).

Hoje podemos dizer, em sintonia com as intuições fundacionais, que a Rede Mundial de Oração do Papa é “uma rede de corações unidos ao Coração de Jesus”, que promove a oração apostólica pelas intenções de oração do Santo Padre, composta por grupos e pessoas de diversos carismas, na qual se vive O Caminho do Coração como itinerário espiritual que nos ajuda a configurarmo-nos com Cristo e colaborar na Sua missão.

1. Passos – Tríades – Pausas

O Caminho do Coração está dividido em etapas, cada uma com sua própria dinâmica interna. Poderíamos dizer que cada etapa se abre e se fecha sobre si mesma e, ao mesmo tempo, o seu encerramento abre caminho para a etapa seguinte

As etapas 1, 2 e 3 formam a primeira tríade.

ANEXOS ESQUEMÁTICOS

Os passos 4, 5 e 6 formam a segunda tríade.

Os passos 7, 8 e 9 formam a terceira tríade.

No final de cada tríade há uma pausa, que também pode ser entendida como uma «ponte» entre a tríade que termina e a que começa Cada tríade também tem uma dinâmica espiritual própria e o seu encerramento permite abrir a dinâmica da tríade seguinte.

2. Esquema geral do caminho e palavra-chave

O esquema é completado num itinerário coerente nos seus blocos ou tríades e em cada etapa ou passo. Cada passo possui uma palavra-chave «ordenadora», uma pista que ajuda a «focar» no ponto central do mesmo Esta palavra-chave serve também como critério de discernimento para a conceção da proposta pedagógica e para a seleção das dinâmicas e materiais a utilizar. Se ajudar, na formação também podem ser utilizados «verbos-chave», «frases-chave» e outros recursos orientados para o mesmo fim de «ajudar a focar» Deixamos um exemplo em que a palavra-chave foi enriquecida em função do contexto da formação que era oferecida. Ver também esquema 3.

3. Esquema que reflete o caminho que o caminhante percorre, cada vez com maior profundidade

O passo 6 é o ponto mais profundo de maior intimidade e encontro com o Senhor.

4. Dinâmica trinitária do caminho

Sempre tendo presente que estas são apenas algumas conexões teóricas orientadas a suscitar um maior aprofundamento espiritual, e não paralelos teológicos estritos (nem muito menos excludentes), é possível também abordar O Caminho do Coração a partir de uma perspetiva trinitária, considerando cada uma das tríades separadamente nos seus passos internos e, ao mesmo tempo, todo o percurso de forma mais global

A primeira tríade convida-nos a centrar-nos no Amor, que é a própria essência de Deus. Em termos gerais, pode associar-se ao PAI, que nos fala diretamente ao coração numa linguagem que podemos compreender, de modo concreto e experiencial, na nossa própria história pessoal (“o meu coração”).

Além disso, dentro desta tríade, podemos contemplar uma dinâmica trinitária: o Pai é o fundamento de todo o amor gerador (Passo 1), que se autocomunica entregando-Se plenamente a nós como Seus filhos e filhas muito amados O Filho representa a exteriorização encarnada desse amor, que se faz presente na humanidade e palpita no seu devir histórico (Passo 2), assumindo a vulnerabilidade da nossa própria natureza, simbolizada no coração O Espírito Santo reflete este coração em expansão, que geme com dores de parto em toda a criação enquanto anseia pela plenitude da redenção (Passo 3), indicando-nos o amor do Amado, do qual tantas vezes nos alienamos num mundo descorajado

A segunda tríade liga-nos ao Mistério da Salvação, oferecido e revelado por meio de Jesus Cristo. Esta tríade pode associar-se à missão do FILHO, que vem trazer-nos vida em abundância Nesta etapa do caminho, apresenta-se-nos Jesus, as Suas opções e sentimentos, revelando-nos o amor humano e divino do Seu Sagrado Coração (“o Seu coração”).

Também aqui é possível aprofundar em chave trinitária: o Pai, no Seu amor infinito, envia o Seu Filho único para a redenção do género humano (Passo 4), perdoando os nossos pecados e abrindo-nos as portas da salvação O Filho vem ao nosso encontro e convida-nos a uma relação de amizade e de colaboração apostólica (Passo 5), interpelando a nossa liberdade a acolher a Sua chamada e a partilhar a vida com Ele. É o Espírito Santo quem nos transforma interiormente, identificando-nos com Cristo e com os Seus sentimentos (Passo 6), permitindo-nos ser habitados por Ele e pelo Seu modo de proceder.

A terceira tríade leva-nos a integrar a experiência cristã na vida quotidiana, animados pelo Espírito de Deus É precisamente o ESPÍRITO SANTO quem nos reúne como “filhos e filhas no Filho” e nos constitui como comunidade, reflexo do vínculo relacional intratrinitário (“os nossos corações”).

Dentro desta tríade, também podemos identificar referências trinitárias: integrar a vontade amorosa do Pai no meio de um mundo ferido implica participar no mistério pascal (Passo 7). A obediência de Jesus exprime-se através da nossa vida eucarística: somos partidos e repartidos com Ele, somos o Seu Corpo Místico Assim, o Pai continua a alimentar o mundo É o Filho, Jesus Ressuscitado, quem nos torna participantes da Sua missão de compaixão na vida quotidiana (Passo 8), transformando os nossos critérios e atitudes a partir dos nossos contextos concretos. Por fim, a ação do Espírito Santo liga-nos como uma verdadeira rede universal (Passo 9), unindo diversos carismas e mobilizando-nos, através da oração e do serviço, para enfrentar os desafios da humanidade numa missão comum.

5. Desdobramento da dinâmica interna do caminho

Apresentamos esquematicamente a dinâmica interna de cada passo, que é o ponto de partida do passo, a questão geral que move o caminhante a alcançar a graça ou o fruto que lhe é concedido. Assim também a seguir, a dinâmica interna de cada tríade como eixo transversal que é descida do título do passo.

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