FOTO: EDUARDO ALONSO
“Há livros que encantam pela história que contam. Outros, pelas palavras que o compõem. Em Depois da chuva, Maria Clara Mattos consegue satisfazer o leitor pelos dois motivos — e ainda nos brinda com uma declaração de amor à Literatura e ao Personagem, com o brilho e a força dos grandes escritores.” Martha Mendonça Escritora e jornalista
Se a vida é a ficção que existe entre a verdade e a mentira, será que um escritor pode roubar a alma de uma pessoa?
ISBN: 978-85-8235-363-9
mcmacaia.blogspot.com mcmmariaclaramattos @MCMacaia 9 788582 353639
Depois da chuva
Janeiro, cidade em que nasceu em 1968. É escritora, roteirista, tradutora e atriz. Para o teatro, traduziu a peça Sex, Drugs, Rock & Roll, de Eric Bogosian; adaptou e dirigiu O conto da ilha desconhecida, de José Saramago. Traduziu livros de Nora Roberts, Robin Pilcher e Marian Keyes, entre outros best-sellers. Fez parte da equipe de redatores dos programas Tapas e beijos, na Rede Globo; Quase anônimos, Cilada e Alucinadas, no Multishow; As canalhas, no GNT; e Nem vem que não tem, na Fox. Tem contos publicados na revista americana de pulp fiction Out Of The Gutter, na revista literária Flaubert, duas crônicas na Revista Tempo e foi colunista convidada da Revista O Globo. Seu primeiro romance, O céu pode esperar mais um pouquinho (Editora Dublinense), foi finalista do Prêmio Açorianos de Literatura 2013, na categoria Narrativa Longa.
M a r i a C l a r a M at t o s
Maria Clara Mattos mora no Rio de
Laura gostava de chuva... a garoa era reconfortante. Sua vida era perfeita como um lago de águas calmas: ela era uma editora consagrada, tinha um marido amoroso e uma filha carinhosa e esperta. Mas quando Edgar apareceu em seu escritório com um semblante misterioso e o manuscrito de uma história ruim, ela sentiu que uma tempestade estava prestes a começar. Algo nele era tão desconcertante que Laura não conseguiu dispensar aquele arremedo de escritor. Edgar estava no olho do furacão. Era um cara viajado, interessante, falava vários idiomas, mas não estava preparado para ser pai nem para a aspereza de um casamento sem afinidades. Ele nunca se sentiu atraído pela trivialidade de uma vida cotidiana, mas tampouco lhe interessava a ideia de ser trocado, de ver sua mulher se apaixonar por um exemplar corriqueiro de terno e gravata, e testemunhar a aproximação entre sua filha e um pai que não era ele. Decidiu que não aceitaria isso de mãos atadas. Foi numa avenida com jeito de encruzilhada que eles se encontraram. Que se olharam, mas não se viram. Mas foi na Literatura que eles se perceberam, se descobriram... E quando duas vidas se cruzam no meio de uma tarde chuvosa, o amor pode vir de onde a gente menos espera. Mas o que acontece quando o amor acaba? Quando cada esquina é uma possibilidade de encontro e cada curva é uma chance de recomeço, como saber qual caminho seguir?
Maria Clara Mattos
Depois da chuva
“Depois da chuva é delicioso! Bom de ler num dia nublado e ficar com saudades dos personagens mesmo antes de o livro acabar!” Bel Kutner Atriz “Maria Clara Mattos transforma o que parecia ser uma simples história de amor em algo bem mais interessante. O livro é sobre paixão, escrita, superação e sobre os personagens que criamos em nossas próprias vidas.” Gisele Eberspächer Blog Vamos falar sobre livros? “Simplesmente impactante. Maria Clara Mattos escreveu um livro brilhante, gostoso e certeiro, que rompe os limites da ficção. Escrita humana, personagens palpáveis, ritmo saboroso e um enredo que vai surpreender você. ‘O coração tem vida própria’, diz um personagem — eu afirmo que este romance tem várias.” Alex Sens Autor de O frágil toque dos mutilados (Autêntica Editora) “Depois da chuva é um romance interessado nas particularidades do ato de escrever, no quebra-cabeça da construção do texto, na relação do autor com seu ofício. O texto, gostoso, fluente, não tem paralelepípedos entre as vírgulas. Pode ser lido como um sofisticado jogo literário ou como uma soap opera pronta para ser roteirizada para a TV.” Joaquim Ferreira dos Santos Escritor e jornalista
Maria Clara Mattos
Depois da chuva
APRESENTAÇÃO por Joaquim Ferreira dos Santos
Literatura nunca é exatamente o que se está lendo, porque muitas vezes, principalmente nos melhores livros, chega um momento em que você já não está lendo mais coisa alguma. Você é tomado pela certeza de que entrou fisicamente nas páginas. Deixou de ler para se intrometer na vida alheia, nas sensações de outrem — de preferência em livros sem palavras como “outrem”. Os personagens também aproveitaram a confusão para saírem do papel, talvez viverem a vida de leitor e se revoltarem contra a autoridade do escritor. Os heróis e os vilões passam a andar serelepes pela cozinha do leitor, esparramam-se pelo sofá e vão se refestelando pelos cantos da intimidade recém-adquirida, página após página, todos encarregados de colocar caraminholas no lado esquerdo do cerebelo de todos nós. A eles, sirvo o melhor café da casa, feito pelas mãos hábeis de Tia Nastácia. Ofereço madeleines. Os cronópios a tudo assistem.
[4|5]
Eu sempre tive dificuldade em entender rótulos do tipo “realismo mágico” ou “literatura fantástica” — como se pudesse haver outra escrita artística. Depois da chuva começa com uma cena do mais puro hiper-realismo no cenário carioca, a do encontro de um casal na calçada tumultuada da Casa e Vídeo de Ipanema. É uma história de amor, mas não se deixe enganar pelo vai e vem das paixões que Maria Clara Mattos narra em estilo suave, em períodos curtos que deixam o leitor respirar e ter fôlego para agradecer tanta leveza. Os personagens são intelectualizados, com citações e cenários cultos, na roda viva entre a Zona Sul e o fim de semana na Serra, embora Macaia saiba que isso não quer dizer nada. Na hora da felicidade, do encontro das almas gêmeas, ou da tristeza, quando se percebe que elas não são tão unha e carne assim — nesses momentos, sejamos ricos ou favelados, todos nos comportamos com a mesma falta de hierarquia social. Melosamente românticos, como num fotograma da revista Sétimo Céu, ou desesperadamente vingativos, como num sambacanção de Lupicínio Rodrigues. Somos todos iguais nessas noites. Quando o casal deixa de circular pela calçada pop da Avenida Visconde de Pirajá, Maria Clara Mattos faz com que ele rume por becos com outra luz que não o neon sentimental. A realidade urbana vista por ela passa a brincar com os fios de imaginação, mergulha em aquedutos construídos sob meias verdades e meias mentiras, estradas que vão dar no outro mundo de interesses da
escritora: a literatura e o que ela esconde sob as anáguas de suas palavras. Será que um escritor é capaz de “roubar a alma de uma pessoa de carne e osso” e transformar em história? Por que os personagens são tão reais enquanto a gente escreve? Depois da chuva, um romance interessado nas particularidades do ato de escrever, no quebra-cabeça da construção do texto, na relação do autor com seu ofício, poderia receber o carimbo de metalinguagem — é um livro sobre livros —, mas um palavrão desses seria injusto. O texto, gostoso, fluente, não tem paralelepípedos entre as vírgulas. Pode ser lido como um sofisticado jogo literário ou como uma soap opera pronta para ser roteirizada para a TV. Antônio Maria, o escritor fino das noites sentimentais de Copacabana, gostaria de ler. Ele dizia que o homem só tinha duas missões importantes neste vale de lágrimas: “escrever com dois dedos e amar com a vida inteira”. Depois da chuva fala das delícias e dificuldades de se realizar essas duas mágicas — e o resultado é muito bom. A propósito, Maria Clara Mattos tecla com seis dedos.
[6|7]
O rosto de um homem é sua biografia. O rosto de uma mulher é sua obra de ficção. Oscar Wilde
Cinco e quarenta e cinco da tarde e ela está em frente à Casa e Vídeo. Cinco e quarenta e cinco da tarde e chove torrencialmente e é hora do rush na cidade maravilhosa e ela está em frente a uma loja de departamentos que já foi um cinema e não é mais. Já foi um cinema e não é mais, e ela também parece já ter sido alguma coisa. A falta de passado no rosto dela faz com que ele interrompa tudo, até o pensamento. Alguma coisa no cabelo dela invade os olhos dele. Alguma coisa nos olhos dela move a história dele. Ele se pergunta se falta na vida daquela mulher colher de pau, frigideira, panela de pressão ou tábua de passar. Qualquer coisa que uma loja de utensílios resolva. Alguma coisa falta. Ele conhece os pedaços em branco. Coisas que a vida leva nos acidentes de percurso. Mesmo. Acidentes e de percurso. Cinco e quarenta e cinco da tarde e ele acha que ela não sabe o que está fazendo ali. Pensa que ela não existe. É um fantasma. Mas quando alguém fala com ela, quando
[ 12 | 13 ]
ela vê as pessoas indo e vindo dos bancos, supermercados, colégios, empregos, cartórios — os olhos cheios de vazio —, ele sabe que algum instinto sádico — que quer a vida mesmo com a morte por dentro — faz com que ela continue ali. Aqui. Cinco e quarenta e cinco da tarde — talvez quarenta e sete agora — e ele vê que a echarpe dela escorrega do pescoço pro ombro, do ombro pro chão, do chão pra poça, e ela não percebe. Nem a chuva ela percebe. Ele toca no ombro dela e estende a echarpe. “É sua?” Ela pega o pedaço de pano dizendo “obrigada”, mas não se mexe. Ele enxerga o vinco na testa dela, o chão nos olhos, o opaco na voz, a distância entre as sobrancelhas, o centímetro do nariz até a boca, a mão levando o cabelo pra trás da orelha. Uma fração de segundo. Ele registra, redige, recorta. Já viu aquele rosto? O tempo parado, o tempo daquilo que não existe. Uma buzina desesperada faz tudo ficar real de repente e ela enrola a echarpe molhada no pescoço, abaixa a cabeça e sai andando. Quando ele quer perguntar o nome dela, já é tarde demais. O corpo vivo só por fora daquela mulher já está distante do homem morto por dentro, parado na calçada. Uma senhora de camisa xadrez se aproxima dela. Ele não ouve o que dizem, mas vê que a mais velha abraça a mais nova. A mulher da echarpe até chega a olhar pra trás, mas um vendedor de guarda-chuvas de arco-íris invade a paisagem. É como se ela estivesse dentro e fora da imagem. Como se fosse real e de mentira. Ao mesmo tempo. Dentro dele.
www.editoragutenberg.com.br twitter.com/gutenberg_ed www.facebook.com/gutenberged