Amir Haddad: uma utopia representada

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AMIR HADDAD

SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO

Administração Regional no Estado de São Paulo

Presidente do Conselho Regional

Abram Szajman

Diretor Regional

Luiz Deoclecio Massaro Galina

Conselho Editorial

Carla Bertucci Barbieri

Jackson Andrade de Matos

Marta Raquel Colabone

Ricardo Gentil

Rosana Paulo da Cunha

Edições Sesc São Paulo

Gerente Iã Paulo Ribeiro

Gerente Adjunto Francis Manzoni

Editorial Clívia Ramiro

Assistente: Maria Elaine Andreoti

Produção Gráfica Fabio Pinotti

Assistente: Ricardo Kawazu, Thais Franco

AMIR HADDAD

a utopia representada

thiago sogayar bechara

06 CURRÍCULO E PREMIAÇÕES

110 DEPOIMENTOS

194 HOMENAGEM A JOEL DE CARVALHO

198 O TEATRO E A CIDADE – O ATOR E O CIDADÃO

206 CORDEL DO PRÍNCIPE FERREIRO

210 ANEXOS

CURRÍCULO E PREMIAÇÕES

AMIR NO TEATRO:

Direções e supervisões

TEATRO AMADOR

1957

CÂNDIDA, de Bernard Shaw. Direção: Amir Haddad. Elenco: Alzira Cunha, Sônia Ferreira, Renato Borghi, entre outros. Auditório do Colégio São Bento, São Paulo. Foi o embrião do Teatro Oficina.

1958

A PONTE, de Carlos Queiroz Telles. Direção: Amir Haddad. Cenários: José Carlos Belluci. Elenco: Albertina Oliveira Costa, Marcus Vinicius, Caetano Zammataro Netto, Alzira Cunha, Dora Miari, Luis Roberto Fortes, Sônia Ferreira e Moracy do Val; e VENTO FORTE PARA UM

PAPAGAIO SUBIR, de José Celso Martinez Corrêa. Direção: Amir Haddad. Cenários: José Carlos Belluci. Elenco: Albertina Oliveira Costa, Marcus Vinicius, Caetano Zammataro Netto, Alzira Cunha, Dora Miari, Luiz Roberto Salinas Fortes, Sônia Ferreira e Moracy do Val. Teatro Novos Comediantes, São Paulo. De 28 a 30/10. Foi a estreia do Teatro Oficina amador.

Prossegue hoje o i Festival de Teatro Amador pela tV. Tem sequência com a apresentação da peça de José Celso Martinez Corrêa […] que será encenada pelo conjunto amador denominado “Oficina”. Como das vezes anteriores, essa produção de Oscar Nimitz e Antunes Filho, que é supervisionada por Cassiano Gabus Mendes, promete ser bastante interessante, devendo atrair as atenções pela sua originalidade e pela sua consistência. […]

É necessário destacar que o grupo “Oficina” é um dos mais novos, surgido recentemente em nossa capital, formado em sua maioria de estudantes universitários. […] É justo, portanto, que se aguarde para logo mais, pelo Canal 3, novo êxito desse elenco teatral amador.1

1962

OS FUZIS DA SENHORA CARRAR, de Bertolt Brecht. Direção: Antonio Ghigonetto. Supervisão da direção (não assinada): Amir Haddad. Montagem amadora com jovens atores; entre eles, alunos do Mackenzie. Ensaios em fins de 1961 para apresentações no iV Festival Nacional de Teatro de Estudantes, promovido por Paschoal Carlos Magno. Elenco: Sérgio Mamberti, Cecília Carneiro, Yara Amaral, Emílio Di Biasi e outros. Teatro da Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Estreia: de 13 a 21/01/1962.

1962-3

NA UNivERsiDADE DO PARá, EM BEléM

AUTO DA BARCA DO INFERNO, de Gil Vicente. Direção: Amir Haddad;

OS FUZIS DA SENHORA CARRAR, de Bertolt Brecht. Direção: Amir Haddad;

O DILETANTE, de Martins Pena. Direção: Maria Sylvia Nunes.

Repertório do 2º semestre do Serviço de Teatro da Universidade. As direções foram feitas em conjunto pelos professores de interpretação (Amir Haddad), expressão corporal (Yolanda Amadei) e dicção (Carlos de Moura).

1 Diário da Noite, São Paulo, 17 dez. 1958, apud Vento forte para um papagaio subir, cartaz para o I Festival de Teatro Amador.

O INGLÊS MAQUINISTA, de Martins Pena.

Direção: Amir Haddad;

O VELHO DA HORTA, de Gil Vicente. Direção: Amir Haddad;

O DELATOR, de Bertolt Brecht. Direção: Amir Haddad. Elenco: Daniel Carvalho;

CAMINHO REAL, de Anton Tchekhov.

Direção: Amir Haddad.

1964

Na Universidade do Pará, Belém

A HISTÓRIA DO ZOO, de Edward Albee. Direção: Amir Haddad. Com o grupo A Equipe.

FESTIVAL SHAKESPEARE. Direção: Amir Haddad. Belém do Pará.

Em 1964, promoveu-se o Festival Shakespeare, sem dúvida a mais completa contribuição que se fez no Brasil às comemorações do iV Centenário; cenas de Sonhos de uma noite de verão; Otelo; Hamlet; A megera domada; A tempestade; Ricardo III; Macbeth; e O mercador de Veneza; recital de sonetos, cantos e danças da Renascença, conferências e projeções de filmes tirados de peças de Shakespeare.2

TEATRO PROFissiONAl

1959

A INCUBADEIRA, de José Celso Martinez Corrêa. Direção: Amir Haddad. Assistência de direção: Moracy do Val. Cenário: Acácio Assunção.

Figurinos: Dora Miari. Elenco: Etty Fraser, Olympio Pereira de Souza/Edzel Brito, Renato Borghi, Maria Alice Almeida, Dora Miari, Jairo Arco e Flecha/

Paulo Afonso, José Haroldo Silveira, Marco Antonio Rocha, Clovis Besnos. Estreia no Centro Acadêmico Xi de Agosto da Faculdade de Direito de São Paulo em setembro. Estreia profissional do Teatro Oficina, de 5 a 9/9, no Teatro de Arena. Participou do ii Festival de Teatro de Estudante, em Santos (Prêmio Globo para Amir Haddad). A peça foi apresentada também no Grande Teatro Tupi, São Paulo, em 19/10

AS MOSCAS, de Jean-Paul Sartre. Direção e cenários: Jean-Luc Descaves. Produção e assistência de direção: Amir Haddad (Teatro Oficina) e Léo Reisler. Figurino: Thamar de Letay. Pantomima das Moscas: Aida Solon. Elenco: Alzira Cunha, Arabela Bloch, Carlos Queiroz Telles, Clélia Miari, Dora Meirelles, Edzel Brito, Jairo Arco e Flexa, Lúcia Dutra, Adelaide Braga Brasil, Moracy do Val, Homero Capozi, Paulo Afonso Fumes, Léo Reisler, Olga Pagura, Luis Vergueiro, Itoby Corrêa Jr., Rubens Josué, Antônio Carlos, José Olavo e Silvia Portoalegre. Teatro de Alumínio. Teatro das Bandeiras, de 1º a 15/12/1959, no Festival de Teatro Amador Franco-Brasileiro.

A ÚLTIMA FOLHA, de O. Henry. Direção: Amir Haddad para o Grande Teatro Tupi, exibida em 14/12/1959. Adaptação para tV de Zezi Ghizlder. Produção: Adhemar Guerra. Elenco: Glória Menezes, Alzira Cunha, Jairo Arco e Flexa.

1960

CONCHA E CAVALO MARINHO, teleteatro de Carlos Queiroz Telles. Direção: Amir Haddad. Produção: Armando Bógus. Elenco: Armando Bógus, Irina Greco, Rosamaria Murtinho “e outros nomes bem conhecidos do nosso mundo teatral”, segundo o jornal Última Hora do Paraná, no Grande Teatro Tupi, São Paulo.

2 Van Jafa, Teatro na Universidade do Pará, Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 26 jul. 1967, caderno 2.

A ILHA NUA, comédia de J. R. Sousa. Direção: Amir Haddad. Cenário: Darcy Penteado. Produção de Irene de Bojano e Felipe Carone. Com o Pequeno Teatro de Comédia (Ptc). Elenco: Irene de Bojano, Célia Biar, Maurício Barroso, Sérgio Marques, Walter Negrão, Sérgio Albertini, Marina Freire, Francisco Martins e outros. Estreia: 19/04/1960, em benefício dos flagelados de Orós (patrocinada pelo Clube da Lady na apresentação inaugural), Teatro Maria Della Costa, São Paulo.

O MENINO DE OURO, de Clifford Odets. Tradução: Elizabeth Kander. Direção de Amir Haddad (Grupo Teatral da Juventude). Cenografia: Acácio Assunção. Elenco: Adélia Vitória, Waldemar Markievicz, Boris Cipkus, Julio Lerner, Marcos Grawendo, José Serber, Norman Roitburd, Ersth Netto, Amália Zeitel, Clovis Beznos, Henry Ejchel, Samuel Ejchel, Waldemar Repende, Josef Bermann, Isaac M. Wasserman, Carlos Bianco, Isidoro Brochsztain. Inauguração do Teatro de Arte Israelita Brasileiro – Taib. Estreia: 27 a 31/10/1960.

POR AMOR TAMBÉM SE MATA, de Sam Ross. Direção: Amir Haddad. Coordenação: Walter Negrão. Produção de Armando Bógus. Elenco: Irina Grecco, Tarcísio Meira, Cecília Carneiro, Alceu Nunes, Rubens Campos e Armando Bógus (participação especial). Grande Teatro Tupi, São Paulo, em 12/12/1960

1960-1

SE MEU APARTAMENTO FALASSE (APARTAMENTO INDISCRETO), comédia de Claude Magnier. Tradução: Renato Alvim e Gert Meyer. Direção: Amir Haddad. Espetáculo realizado após manifesto assinado por grande parte da classe teatral para que o Teatro Bela Vista fosse devolvido pela Justiça à Cia. Nydia Licia. Elenco: Nydia Licia, Berta Zemel, Ada Hell, Tarcísio Meira, Célia Biar, Wanda Kosmo, Marina Freire e Luciano Gregori.

Teatro Bela Vista, São Paulo. Estreia: 20/10/1960 Estreou também no Teatro Independência de Santos, em 06/03/1961

ABC DO MAR, de Waldyr de Andrade Kopezky (teatralização de uma lenda de Iemanjá). Direção: Amir Haddad. Com a Cia. Nydia Licia. Elenco: Nydia Licia e Sebastião Campos nos papéis principais. Teatro Bela Vista. (Amir Haddad não tem certeza se o espetáculo chegou de fato a estrear, apesar de as divulgações indicarem ser esta a primeira encenação dele após ser contratado como diretor da Cia. Nydia Licia).

1961

QUARTO DE DESPEJO, adaptação de Edy Lima para o livro homônimo de Carolina Maria de Jesus. Direção: Amir Haddad. Assistência de direção: Eduardo Coutinho. Coprodução da Cia. Nydia Licia com o Teatro da Cidade (fundado por Edy Lima, Amir Haddad e Antônio Abujamra). Direção de cena: Franco Assis. Cenário: Cyro del Nero. Execução do cenário: Arquimedes Ribeiro. Música: Carolina Maria de Jesus. Direção de produção: Rubens Jacob. Assistente de produção: J. A. Ultriartt. Contrarregras: Samuel Azevedo e Alberto Nuzzo. Maquiagem: Dr. N g. Payot. Elenco: Ruth de Souza, Cici Pinheiro, Durval Moraes, Francisca Lopes, Jean Thuret, Irene dos Santos, Terezinha de Melo, Marina Luiza, Izaura Bruno, José Francisco, Adelaide Braga, Aparecida Rocha, Célia Biar (atriz convidada), Yvan de Oliveira, Guedes de Souza, Jocir Rodrigues, Penha Marise, Walter Teixeira, Fernando dos Santos, Gilberto de Oliveira, Wolney de Assis, Humberto José, Dina Machado, Nilda Maria, Cristina dos Santos, Aparecida dos Santos, Lauro Bretanha, Maria Helena Soares, Roberto Segreti, Luiz Victor, Oliani, Izabel Moura, Ivany Guimarães, Lincoln Neves, Iracema Ferrari, Rosires Rodrigues, Marcia Ribeiro, Irene dos Santos, Ronei Nogueira, Ary Toledo, Alceu Nunes, Guedes de

Souza, Maurício Nabuco, Franco Assis, Zé Luiz

Pinho, João Carlos Ferrari, Romildo Rodrigues e Orivaldo Serqueira. Estreia: 20/04/1961

Quatro horas da madrugada, ponto de catadores de papéis na rua Brigadeiro Tobias, São Paulo. Uma negra franzina, olhar triste, chegou de mansinho e descansou um velho saco de estopa. Outras negras a olharam de alto a baixo e disseram, quase a uma só voz: “Aqui não: o ponto é nosso!” A negra […] não teve outro remédio senão erguer-se e recomeçar a caminhada. […] Terminou encontrando um “ponto” de gente mais camarada, apesar de alguns olhares desconfiados e das palavras duras de uma negra velha que separava restos de comida dos papéis amarrotados: “Cada vez tem mais gente e menos papel pra catar”. A recém-chegada teve vontade de sair correndo. Mas deixou-se ficar, calada, engolindo em seco. O dia foi imenso, feio, carregado de frases e de gestos tristes – vividos integralmente porque a negra franzina de olhar triste era […] Ruth de Souza […].3

1964

O PATINHO TORTO OU OS MISTÉRIOS DO SEXO, de Coelho Netto. Direção: Antônio Ghigonetto. Supervisão de direção (não assinada): Amir Haddad. Com o Grupo Decisão. Elenco: Sérgio Mamberti, Emílio de Biasi, Suely Franco e outros. Temporada no Rio de Janeiro e em São Paulo.

1964-5

CAMILA, de Arthur Laurents e Jerome Lawrence. Tradução: Edgard Gurgel Aranha e Nydia Licia.

Direção: Amir Haddad. Com a Cia. Nydia Licia. Cenografia: Guido Maroni. Elenco: Nydia Licia, Dina Sfat, Altair Lima, Gil Ayres Pereira, Ivan José, Ivone Hoffmann, Maria Célia Camargo, Marina Freire, Nilson Condé e Rodrigo Santiago. Teatro Bela Vista, São Paulo.

Em 1965, dirigida por Amir Haddad, [Dina Sfat] aparece em Camilla. “Era peça de um norte-americano muito chato. Mas a experiência valeu pelo trabalho com Amir.”4

1966

RECEITA DE VINICIUS, seleção da poesia e da prosa de Vinicius de Moraes por Paulo Mendes Campos. Direção: Amir Haddad. Produção: Grupo O Círculo/Maria Pompeu. Direção musical: Roberto Nascimento. Música: Vinicius de Moraes e Baden Powell. Cenário: Clovis Bueno. Músicos: Roberto de Oliveira (violão), Jorge Arena (tumbadora), Balu (flauta) e Dório Ferreira (contrabaixo). Elenco: Kleber Macedo, Maria Pompeu, Shulamith Yaari, Paulo Porto, Taiguara e Antero de Oliveira. Teatro Miguel Lemos, Rio de Janeiro. Estreia: 23 a 30/04/1966

VERDE QUE TE QUERO VERDE: HISTÓRIA DE UMA PAIXãO, de Federico García Lorca (trechos das obras Bodas de sangue; A casa de Bernarda Alba; O retábulo de Don Cristóbal; Dona Rosita Solteira e Mariana Pineda, além de poemas e canções). Traduções: Walmir Aiala, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade e Marcos Konder Reis. Direção: Amir Haddad. Coordenação dos textos: Amir Haddad e Aldomar Conrado. Direção musical: Heitor Argôlo. Trilha sonora e arranjos:

3 Audálio Dantas e George Torok, Ruth virou Carolina: Quarto de despejo: no teatro, todo o sofrimento vivido por favelados, O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 6 maio 1961

4 Maurício Gomes Leite, Meu nome é Dina Sfat, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1º fev. 1968, caderno B, p. 5 Para ver fotos da encenação, consultar: Antonio Gilberto, Dina Sfat: retratos de uma guerreira, São Paulo: Imprensa Oficial, 2005, p. 30 e 111.

Isaac Karabtchevsky. Cenografia: Clovis Bueno. Figurino: Maria Augusta Dias Teixeira. Preparação física: Luís Maria Olmedo. Grupo Maria Fernanda. Elenco: Maria Fernanda, Isolda Cresta, Paulo Padilha, Roberto de Cleto e Rofran Fernandes. A lista dos músicos que tocaram no espetáculo está ilegível na fonte consultada, podendo ser deduzidos os nomes de Martin de Bilbao (guitarrista gitano) e do quarteto Dircéa de Amorim (soprano), Mário Tolla (tenor), Maria Izabel de Souza (contralto) e Jayme Schuves (baixo). Teatro da Praça (futuro Glaucio Gill). Estreia: 05/05/1966, depois de a data original de estreia, 28 de abril, ter sido adiada.

O Teatro Maria Fernanda inaugura sua temporada de 1966 com um espetáculo-homenagem a García Lorca […] O diretor Amir Haddad e o dramaturgo Aldomar Conrado são responsáveis pela seleção […] que abrange cartas, conferências, composições musicais, poemas e trechos de peças propriamente ditos ao lado de poemas sobre o poeta que no seu conjunto oferecem uma fisionomia biográfica […]. Haddad tem sua segunda direção entre nós. Procede de São Paulo, onde integrou o movimento inaugural do Teatro Oficina, sendo um dos fundadores […].5

O REFÉM, de Brendan Behan. Tradução: Amir Haddad e Lafayette Galvão. Direção: Amir Haddad. Com o grupo Pequeno Teatro Musicado. Coreografia: Sandra Dicken. Elenco: Marília Pera, Betty Faria, Gracindo Jr., Ary Fontoura, Cazarré Filho, Lafayete Galvão, Afonso Stuart, Dudu Barreto Leite, Nestor Montemor, Iara Sarmento e

outros. Teatro do Rio, Rio de Janeiro. Estreia prevista para outubro de 1966, mas não há confirmação de que tenha entrado em cartaz, embora tenha sido ensaiada.

AS CRIADAS, de Jean Genet. Tradução: Pontes de Paula Lima. Direção: Martim Gonçalves; e A FILOSOFIA DA LIBERTINAGEM, de Marquês de Sade. Tradução e adaptação: Aldomar Conrado. Direção: Amir Haddad. Assistente de direção: André Valli. Com o Grupo 3. Cenários e figurinos: Carlos Vergara e Roberto Franco. Coreografia: Esther Ferrando. Elenco Genet: Érico de Freitas, Carlos Vereza e Labanca. Elenco Sade: Monah Delacy, Érico de Freitas, Thais Moniz Portinho e Labanca. Teatro Carioca, Rio de Janeiro.

1967

O CORONEL DE MACAMBIRA, de Joaquim Cardozo. Direção: Amir Haddad. Música: Sérgio Ricardo (27 composições). Coreografia: Iolanda Amadei. Figurinos e cenografia: Sarah Feres. Máscaras: Valter Bocci. Iluminação: José Carlos Reis. Artesanato em couro: Ney Matogrosso, Ricardo e Sérgio Matar. Grupo Tuca Rio. Elenco: Renata Sorrah, Roberto Bomfim, Mônica Arruda, Márcia Fiani e outros. Teatro República, Rio Janeiro. Estreia: 04/05/1967 Teatro Ginástico, Rio de Janeiro, até 02/07/1967. Excursão por Brasília, Teatro Nacional, Sala Martins Pena, de 19 a 27/07/1967

Além dos ensaios propriamente ditos, o grupo está realizando […] uma série de pesquisas, dividida em quatro partes: sociologia do Nordeste, orientada por Colmar Mangueira; crítica literária, orientada por Luís Costa Lima; música, orientada por Sérgio Ricardo; e

5 Van Jafa, Lançamento: Verde que te quero verde: hoje no Teatro da Praça, Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 5 maio 1966, caderno 2, p. 2.

folclore, com orientação de Maria Helena Silveira. […].6

“Sem alterar a estrutura da dança tradicional”, diz o diretor Amir Haddad, “Joaquim Cardozo utiliza uma linguagem difícil para padrões pseudoculturais urbanos, mas que se identifica profundamente com as plateias populares.” Para Haddad, trata-se de uma peça “de esperança e muito amor, sobre um caminho e não sobre um lugar a chegar. Repete-se o ciclo da paixão. A morte do boi, seguida do esquartejamento, é uma comunhão. O boi ressuscita com a chegada de dois personagens que passaram pela peça – o soldado e a aeromoça (que desce do céu para acompanhar os personagens)”, explica o diretor. […] Presente a alguns ensaios e vários espetáculos, Joaquim Cardozo acompanhou de perto a produção e se entusiasmou com a disposição dos jovens atores universitários. “Algumas vezes ele modificou o texto quando encontrávamos dificuldades e apoiou tudo o que fizemos”, conta Haddad. “Chegamos a acrescentar uma parte final, elaborada em conjunto. É um homem extraordinário que ama seu país e não se descuida”. 7

1967-8

DOR DE COTOVELO, show de Cleber Santos. Direção: Amir Haddad. Produção: Maria Pompeu. Com o Grupo 3. Elenco: Maria Pompeu, Fernando Lébeis etc. Rui Bar Bossa, Rio de Janeiro.

[…] E Dor de cotovelo é igualmente o show mais aguardado da temporada e que debutará em

noite de terça no Rui Bar Bossa. E a coisa está pintando pra divertida, de vez que será uma mútua e chorosa gozação. […] E no espetáculo produzido por Maria Pompeu, com texto de Cleber Santos e direção de Amir Haddad, vai ter de tudo [...] Até mesmo receitas para a tal “Dor de cotovelo”. Receitas essas das quais uma será cedida graciosamente por esta vossa escriba. Então, estamos combinados: partamos todos para uma cotovelada-amiga.

E não esqueçam de pedir ao garção […] o drinque que lhe será também graciosamente ofertado: “Cotoveleiro-amigo”.8

1968

O APOCALIPSE OU O CAPETA EM CARUARU, de Aldomar Conrado. Direção: Amir Haddad. Com o Grupo 3/Maria Pompeu. Cenários e figurinos: Joel de Carvalho e Colmar Diniz. Trilha sonora: Geraldo Azevedo. Elenco: José Wilker, Renata Sorrah, Carlos Vereza, Roberto Bomfim, Clarita de Moura, Maria Pompeu, Thelma Reston, Adamastor Câmara, Creusa de Carvalho, Érico de Freitas, Maria Esmeralda Forte, Rafael de Carvalho, Helena Velasco e Simão Khouri (ao todo, 14 artistas que interpretaram 26 personagens). Teatro Nacional de Comédia, Rio de Janeiro. Estreia: 13/03/1968, depois de uma angustiante espera da liberação da censura por parte dos produtores.

OS FANTÁSTIKOS, dramaturgia de Tom Jones. Direção: Amir Haddad. Cenografia: Campelo Neto. Música: Harvey Schmidt. Elenco: Moacir Franco, Silvia Massari, Luiz Carlos Clay, Nestor Montemar, Lafayete Galvão, Kleber Afonso e

6 Tuca-Rio vai estrear, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2 mar. 1967, Panorama do Teatro, caderno B, p. 3

7 Departamento de Pesquisa, Joaquim Cardozo: a construção arquitetônica da poesia, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16 mar. 1971, caderno B, p. 1

8 Liliana Renata, Cotovelos e receitas, A luta democrática, Rio de Janeiro, 28-9 jan. 1968, seção O show de toda gente, caderno 2, p. 5.

Rogério Cardoso. Teatro das Nações e Teatro Bela Vista, São Paulo, em 23/05/1968.

NUMÂNCIA… OU FICAR A PÁTRIA LIVRE, de Miguel de Cervantes. Adaptação e direção: Amir Haddad. Grupo Teatro Experimental (que comemorava seus dez anos de atividade, tendo sido o primeiro grupo a lançar Beckett no Brasil, com Fim de jogo). Cenário e figurino: Joel de Carvalho. Elenco: Jonas Bloch, Jota Dângelo, Neusa Rocha, Lenice de Almeida, Helvécio Ferreira, José Ribeiro, João Marcos, Lígia Lira, Mamélia Dorneles, Regina Reis, Guido de Almeida, Eduardo Rodrigues, Arildo José, Carlos Alberto Ratton, José Amorim, Sérgio Bini e os meninos Afonso, Márcia, Nena, Vanda e Tinin. Teatro Marília, Belo Horizonte, a convite do grupo. Estreia: 19/09 a 20/10/1968

Um dos mais interessantes e belos espetáculos até hoje realizados no Brasil pela jovem corrente […] teatro de invenção está atualmente em cartaz […]. O Teatro Experimental da capital mineira […] contratou o diretor profissional […] Amir Haddad […] para a realização cênica da tragédia Numância, de Cervantes. O próprio Haddad encarregou-se da adaptação do texto, a começar pelo título […]; os impraticáveis excessos alegóricos do original foram reduzidos […] e a intrincada ação foi tornada mais clara […]. Mas não houve, praticamente, uma adaptação no sentido de atualização do texto ou introdução de elementos inexistentes no original. A história do cerco da heroica cidade ibérica de Numância pelo poderoso exército romano fornecia a Haddad, tal como estava, margem suficiente para uma encenação […] engajada na

sua essência política […] na linha das pesquisas anteriormente empreendidas [incluindo a participação do público e integração entre palco e plateia] […]. O diretor serve-se do texto sem maior cerimônia para dar seu próprio recado político e estético – mas não volta o espetáculo contra o texto e sim amplia seu sentido, eliminando-lhe o caráter de relato de um determinado caso histórico para conferir-lhe a grandeza de uma situação […] cuja atualidade […] é crucial. […]. O grupo dirigido por Jonas Bloch e Jota Dângelo já tem temporada marcada no Teatro Castro Alves em Salvador e estuda a possibilidade de mostrar a tragédia de Cervantes também ao público carioca em janeiro de 1969. 9

A plateia de Belo Horizonte está dando uma verdadeira consagração a Numância…, com a sala sempre lotada em todas as sessões.

A montagem é uma das mais caras já realizadas em Minas.10

1968-9

INSPETOR, VENHA CORRENDO! Comédia policial de Pedro Paulo Veiga Pereira e Pernambuco de Oliveira (P. V. Oliver – conforme apareceu em alguns jornais). Direção: Amir Haddad. Assistência de direção: Alvim Barbosa. Produção: Orlando Miranda e Pedro Paulo Veiga Pereira. Figurino: Olavo Saldanha. Cenário: Pernambuco de Oliveira. Elenco: Glauce Rocha, Paulo Araújo, Paulo Padilha, Napoleão Moniz Freire, Iracema de Alencar, Mário Lago, Alvim Barbosa, Celso Cardoso, Jorge Cherques, Orlando Miranda e Nelson Mariani. Teatro Princesa Isabel. Estreia: 10/12/1968. Estreia de 1969: 10/01, em benefício do Lions Club do Leblon, até dia 15/02/1969

9 Yan Michalski, Minas experimenta com Cervantes, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 out. 1968.

10 João Eustáquio, A boa arte dos mineiros, Manchete, Rio de Janeiro, 9 nov. 1968, n. 864.

[Diz Amir Haddad em reportagem:] Quando fui convidado pelos produtores, aceitei de pronto. Era uma experiência totalmente nova para mim e, ao mesmo tempo, uma pausa, um descanso. Depois da estreia, volto a trabalhar junto à Comunidade, grupo do qual faço parte. […] A história é simples: uma rica senhora inglesa é assassinada e no local se encontram todos os seus possíveis herdeiros, fora a criadagem (é claro que existe um mordomo). Todos são suspeitos, o problema é descobrir qual o verdadeiro culpado. […] É uma peça típica de temporada de verão. […].11

“Quando saí do Teatro Princesa Isabel, após ter assistido à Inspetor, venha correndo!, um denso fog envolvia as ruas de Copacabana. Meu primeiro impulso foi o de felicitar os autores […] e o diretor Amir Haddad por terem conseguido realizar, com tamanha autenticidade, esse extremamente londrino suplemento atmosférico à sua comédia policial brasileira passada na Inglaterra. […] [Mas] Pedro Veiga e Pernambuco de Oliveira perderam, com uma espécie de complexo de inferioridade cultural, a chance de abrir caminho para um gênero que nos faz muita falta: uma peça policial brasileira, passada no Brasil. […] Se [os autores] deixaram de explorar uma mina […], o diretor deixou de explorar outra: um policial inglês escrito por brasileiros não pode deixar de ser um atraente convite a uma gozação em regra de estilo, do clima e dos personagens clássicos do gênero […].12

1969

A CONSTRUÇãO, a partir do texto de Altimar Pimentel. Direção: Amir Haddad (Prêmio Molière). Grupo A Comunidade. Trilha sonora:

Aylton Escobar. Dinâmica corporal: Nelly Laport. Cenário: Joel de Carvalho, Colmar Diniz e Jorge Gomes. Figurinos: Dolores Paixão. Iluminação: José Carlos Reis. Elenco: Jacqueline Laurence, Carmen Silvia Murgel, Rubens Araújo, Norma Dumar, Eva Christian, Duse Naccarati, Hélio Guerra, Conceição Tavares, Geraldo Torres, Colmar Diniz, João Siqueira, Jorge Gomes, Mário Jorge, Marta Satamini, Janete Chermont, Luis Alberto Conceição, Anamaria de Morais, Marcos Batalha, Raimundo Alberto e Paulo César de Oliveira. Estreou no Museu de Arte Moderna (MaM), do Rio de Janeiro, em 25/06/1969 e ficou em cartaz até o fim de julho.

É muito difícil avaliar a qualidade do texto de Altimar Pimentel baseando-se apenas no espetáculo da Comunidade […]. E, no entanto, esse texto deu margem à criação de um espetáculo totalmente anticonvencional que alcança uma dimensão artística absolutamente insuspeitada na leitura da peça, e que nunca poderia ter sido atingida numa encenação mais acadêmica. Diminuído por uma montagem que o relega a um plano secundário […], o texto recebe, paralelamente, uma inesperada e paradoxal consagração como ponto de partida e roteiro para uma obra autônoma que o transcende de longe: a encenação de Amir Haddad. Altimar Pimentel escreveu uma curiosa e pitoresca história sobre um fenômeno eminentemente regional: os romeiros que vão a Juazeiro cultuar a memória de Padre Cícero e pedir a esse santo uma série de milagres são vítimas de um golpe tramado por um falso beato […].

11 Um susto inglês escrito em português, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8-9 dez. 1968, caderno B, p. 7.

12 Yan Michalski, Scotland Yard, Posto Dois, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 23 dez. 1968.

CLIMA ANTES DA AÇãO – Amir inverteu, de saída, a ordem de importância dos fatores: a trama deixa de ser o centro de interesse e passa a ser um mero pretexto; o clima deixa de ser um pano de fundo e transforma-se na razão de ser e no protagonista do espetáculo. É claro que, para que tal inversão pudesse ser sustentada durante as duas horas do espetáculo, o clima precisa ser […] estendido bem além dos limites dentro dos quais o autor o havia confinado. O diretor consegue essa expansão de duas maneiras: eliminando do ambiente original suas características folclórico-regionais, para substituí-las por uma síntese crítica de um aspecto global da realidade brasileira, e ampliando a intensidade do clima para um grau de constante paroxismo. Surge, assim, uma visão crítica do nosso subdesenvolvimento, de uma violência que talvez só encontre sua semelhante em todo o panorama contemporâneo da arte brasileira nos filmes de Glauber Rocha, com os quais (e principalmente com O dragão da maldade) o espetáculo possui, aliás, evidentes afinidades. […] nenhum espectador, por mais obtuso que seja, deixará de perceber que não é só de Juazeiro de que se trata […]. Apesar […] de terminar com a palavra esperança, o retrato que A construção oferece da vulnerabilidade do nosso povo é imensamente deprimente. […].13

[…] Sem ser unânime, a eleição de Amir Haddad como o diretor do ano [Prêmio Molière de 1969] foi também tranquila. Em duas ocasiões anteriores fui voto vencido ao apontar Fauzi Arap, que este ano apareceu como o único concorrente de Amir; mas desta vez, por mais

que admirasse a encenação de O assalto, minha preferência, como a da maioria dos meus colegas, pertenceu ao diretor de A construção, pelo notável fôlego, inventividade e calor que ele imprimiu ao seu trabalho […].14

CHÁ E SIMPATIA, de Robert Anderson. Direção: Amir Haddad. Assistência de direção: Geraldo Torres. Produção: Renato Aurélio Pedrosa.

Cenário: Luciano Trigo e Colmar Diniz. Figurino: Colmar Diniz. Elenco: Tereza Rachel, Mário Jorge, Paulo Padilha, Claudio Viana, Fernando Rapsold, Francisco Hosanan, Rogério Fróes, Rubens Araújo e Yumara Rodrigues. Teatro Copacabana e Teatro Maison de France, Rio de Janeiro (novembro e dezembro de 1969; completou 100 representações com imenso êxito), Teatro Guaíra, Curitiba (a convite do governador Paulo Pimentel).

1970

AGAMÊMNON, de Ésquilo. Tradução: Mário da Gama Curi. Direção: Amir Haddad. Com o grupo a Comunidade (Teatro de Invenção).

Cenário: Joel de Carvalho (Prêmio Estadual de Teatro). Preparação vocal: Glorinha Beuttenmüller. Dinâmica corporal: Nelly Laport. Ambientação sonora: Cecília Conde. Elenco: Carmem Silva Murgel, Creusa de Carvalho, Maria Esmeralda Forte, Jacqueline Laurence, Rubens Araújo, Mário Jorge, Luiz Armando Queiroz, Duse Naccarati, Marta Sattamini, Colmar Diniz, Marco Mirelli, Hélio Guerra, Luis Alberto Conceição, Paulo César de Oliveira, Lucia Lima, Conceição Tavares e Geraldo Torres. MaM do Rio de Janeiro.

FIM DE JOGO, de Samuel Beckett. Tradução: Amir Haddad, Sergio Britto e João Marschner. Direção:

13 Yan Michalski, Os tapumes derrubados de “A construção” (I), Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1º jul. 1969, caderno B.

14 Idem, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 10 mar. 1970.

Amir Haddad. Cenários e figurinos: Joel de Carvalho (Prêmio Estadual de Teatro). Trilha sonora: Geraldo Torres. Elenco: Sergio Britto (Prêmio Estadual de Teatro), Zilka Salaberry, Fábio Sabag e Napoleão Moniz Freire (que estreou o papel inicialmente anunciado como sendo de Rodolfo Arena). Pré-estreia: 28/09/1970, no Teatro Municipal de Niterói. Teatro do Senac Copacabana (inauguração do espaço dirigido por Sergio Britto).

Estreia: 02/10/1970. Para 07/10, estava prevista sessão beneficente para o Instituto Paissandu, como informou o JB de 30/09/1970

[…] O úNico absurdo: teNtar eXPlicar –Amir Haddad, o diretor, fornece sua interpretação do texto: “Perguntaram a Beckett quem era Godot. Ele respondeu: ‘Se eu soubesse, teria dito na peça’. Fim de jogo é uma história simples […]. O mundo lá fora parece ter acabado. Mas que mundo? A peça se passa dentro ou fora das pessoas? […] Um velho chora. Isso significa que está vivo. A desgraça é muito cômica, só que não rimos mais. Nos acostumamos a ela”.15

No hall do novo Teatro Senac […] uma exposição sobre teatro do absurdo prepara o espectador para o espetáculo […] dirigido por Amir Haddad, [e] produzido por Sergio Britto […] [segundo o qual:] “No momento em que o teatro vive um caos de opiniões e rumos, o teatro do absurdo – Beckett principalmente – representa a mistura de valores tão próxima do nosso momento. […]

Fim de jogo é uma agonia que começa na primeira palavra e termina (ou não) na última. Estou certo de que o público entenderá”. […]

O diretor […] [comenta]: “Esta é a primeira vez que dirijo um texto deste tipo. Interessava fazer porque [não tenho] nenhum preconceito estético. Acho que esta inflação de textos de absurdo só corresponde à proximidade cada vez maior entre eles e à realidade de nossos dias. […]. E não foi por outra razão que a nossa montagem é totalmente realista” [...].16

DEPOIS DO CORPO, de Almir Amorim. Direção: Amir Haddad. Assistência de direção: Eid Ribeiro. Com o grupo A Comunidade. Dinâmica corporal: Nelly Laport. Cenografia: Colmaz Diniz e Joel de Carvalho (Prêmio Estadual de Teatro). Trilha sonora: Geraldo Torres. Elenco: Maria Esmeralda Forte, Rubens Araújo, Mário Jorge. Estreia: 04/12/1970. MaM do Rio de Janeiro. Teatro de Bolso.

Um detalhe curioso: o diretor […] deixou o espetáculo pronto há 10 dias para atender a um compromisso de trabalho em Brasília, onde está dirigindo um curso intensivo de teatro. Na [sua] ausência, os próprios intérpretes ensaiam diariamente para manter a forma e dar os últimos retoques na realização.17

1970-2

A DAMA DO CAMAROTE, vaudeville de Djalma Castro Viana. Direção: Amir Haddad. Produção e remontagem: Mauro Gonçalves, Elza Gomes, Hildegard Angel, Otacílio Coutinho e Alfredo Murphy. Trilha sonora: Geraldo Torres. Cenário: Joel de Carvalho (Prêmio Estadual de Teatro). Elenco: Regina Rodrigues, Mauro Gonçalves, Otacílio Coutinho, Eni Ribeiro, Henriqueta Brieba, Ribeiro Fortes e Paulo Ramos. Teatro

15 Solidão a quatro: Fim de jogo, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 28 set. 1970, caderno B, p. 4

16 Fim do jogo começa teatro, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 19 out. 1970, caderno B, p. 6

17 Comunidade, provável amanhã, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1 º dez. 1970 , seção Do teatro, caderno B, p. 3.

Fonte da Saudade (inauguração do espaço).

Estreia carioca: 30/07/1970. Além das estreias em 07/07/1972, no Teatro Nacional de Comédia, e em 10/08/1972 em Belém do Pará, o espetáculo fez temporadas no Teatro Maison de France e Teatro de Bolso (Rio de Janeiro), entre outras cidades, como Recife (Teatro Santa Isabel), Brasília, Vitória, Goiânia, Belo Horizonte, São João del Rei, Divinópolis, Sete Lagoas, Ouro Preto, Juiz de Fora, Sabará, Florianópolis, no Teatro Álvaro de Carvalho (tac), Curitiba e Porto Alegre.

[O] autor de A dama do camarote, em cartaz no Teatro Maison de France, revê sua peça inicialmente escrita em um ato e montada pela primeira vez em 1952, achando excelentes as adaptações feitas pelo diretor Amir Haddad. Ator, várias peças escritas, pioneiro de radioteatro no Brasil, Castro Viana lembra o tempo de um teatro antigo, sem o palavrão que não aceita, o tempo das companhias teatrais, que também naquela época levavam seus espetáculos para os jardins do Campo de Santana. […].18

Embora a época fosse a atual, o diretor Amir Haddad […] colocou a peça em seu devido lugar: o começo do século, após o consentimento do autor. Esse fato fez com que os acontecimentos se tornassem imediatamente mais verossímeis […]. O assunto é a família, ou melhor, a base dela; o matrimônio e as atribulações a que está sujeito. […]19

A dama do camarote […] fez grande sucesso ao ser montada no Teatro Fonte da Saudade, com

direção de Amir Haddad. Um ano depois, completou 573 apresentações no Teatro Maison de France e no Teatro de Bolso. Em seguida, fez uma bem-sucedida tourné por várias cidades do Brasil. Agora a peça será remontada – estreia sexta-feira no Teatro Nacional de Comédia –com um novo elenco. “Não estou remontando A dama do camarote”, afirma Amir Haddad.

“Mauro Gonçalves é quem fez os ensaios; minha direção se restringe a um trabalho de supervisão semanal. […] Muitas pessoas se perguntam e me perguntam por que, depois de quebrar a relação rígida entre palco e plateia, com o Grupo Comunidade, montei a peça

A dama do camarote, que não tem um conteúdo crítico evidente. Em primeiro lugar, há o problema de sobrevivência; depois, sempre foi um trabalho útil, como pesquisa de linguagem, aprofundado em O marido vai à caça. […].20

1971-2

O MARIDO VAI À CAÇA, comédia em três atos de Georges Feydeau. Tradução: Mário da Silva Britto. Direção e adaptação: Amir Haddad (Prêmio Molière). Cenários e figurinos: Joel de Carvalho. Música: Geraldo Torres. Produção: Sergio Britto Produções Artísticas. Elenco: Fernanda Montenegro, Sergio Britto, Ítalo Rossi, Labanca, Jacqueline Laurence (Prêmio Governador do Estado – Melhor Coadjuvante, papel da porteira, velha senhora que Amir adaptou para ser uma mulher jovem), Luiz Armando Queiroz, Augusto Olímpio, Maria Helena Pader, José Carlos e Luiz Augusto. Teatro Senac, Rio de Janeiro. Um mês antes da primeira pré-estreia, em 07/06/1971, nada menos que outras seis já estavam vendidas.

18 Castro Viana: o tom certo aos 70 anos, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20-1 dez. 1970

19 TAC reabre no dia 1º para apresentar A dama do camarote, O Estado de Florianópolis, 18 mar. 1971, p. 3.

20 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2 jul. 1972.

“Prognóstico de sucesso”, como anunciava o JB 21 O espetáculo atingiu mais de 200 representações até o final de sua temporada [...].

[…] uma bela lição de como ler entre as linhas. O espetáculo é sem dúvida muito diferente de tudo o que o autor poderia ter imaginado; e, no entanto, tudo aquilo que Feydeau disse ou insinuou na sua peça […] está presente no palco com cristalina clareza. […] Num momento em que os autores do passado costumam ser desmistificados pelos encenadores, Amir Haddad trata Feydeau com a maior simpatia e solidariedade: ele desmistifica, isso sim, todo o mecanismo de censura e autocensura que impedia Feydeau, há 80 anos, de dizer francamente aquilo que as suas peças sugerem de maneira disfarçada e indireta. […] [Trata-se] de uma farsa aparentemente inócua e vazia […]: já o espetáculo é uma contundente crítica à hipocrisia da convivência familiar […]. Todo mundo […] só pensa em tapear os outros em proveito próprio […]. A única preocupação é com as aparências: qualquer um dos personagens venderia a alma ao diabo.22

No artigo de ontem, constatamos a identidade de pensamento entre o texto de Feydeau […] e a empostação do espetáculo de Amir Haddad. Parece-me importante acrescentar logo que o diretor soube construir a sua contundente demonstração crítica sem prejudicar em nada o potencial meramente cômico […] da obra. A inventividade e a verve […] da direção […]

são irresistíveis. O desafio da precisão e da dinâmica, características de Feydeau, é abertamente aceito pelo encenador, que coloca no palco um permanente fogo de artifício de movimentos, gags, efeitos cômicos obtidos através de inflexões, pausas, bruscas mudanças de tom [etc.] […] Embora o espetáculo contenha apenas uma ou duas ceninhas de dança, toda a sua concepção visual parece, por assim dizer, dançada […]. Fernanda Montenegro tem aqui um dos seus desempenhos mais ricos e amadurecidos. […].23

1971

O CASO DO VESTIDO, de Carlos Drummond de Andrade. Direção: Amir Haddad. Coreografia: Rolf Gelewak. Elenco: alunos de Teatro e Dança no 5º Festival de Inverno de Ouro Preto (30 de junho a 31 de julho). Apresentação: 29/07/1971.

No exercício final das aulas do professor Amir Haddad, os alunos improvisam livremente sobre o poema O caso do vestido […]. E, de repente, entre estertores rituais do grupo, ao som de música sertaneja mineira, aparece uma imagem única para representar a mãe e as filhas, personagens do poema: uma mulher subjugada por uma canga, envolta em farrapos. Impossível a tradução verbal, mas o símbolo fala mais alto. E ninguém encomendou nada: foram os jovens que falaram.24

21 Yan Michalski, Jornal do Brasil , Rio de Janeiro, 14 maio 1971 , nota Feydeau, seção Do teatro, caderno B, p. 3

22 Yan Michalski, O marido caçador de aparências [I], Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16 jun. 1971

23 Ibidem.

24 Paulo Afonso Grisolli, A necessidade de falar, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 5 ago. 1971 . [N.A.]: O autor era então editor do caderno B, seção de cultura do jornal.

1972-3

TANGO, de Slawomir Mrozek. Tradução: Hélio Bloch. Direção: Amir Haddad. Cenário: Pernambuco de Oliveira (em montagem posterior, cenografia e figurino foram de Joel de Carvalho).

Produção: Tereza Rachel. Elenco: Tereza Rachel, Sergio Britto25, Roberto Bomfim, Renata Sorrah, Elza Gomes, Sadi Cabral, Ari Coslov.

Substituições posteriores: Jaime Barcelos, Consuelo Leandro, Francisco Dantas, Ivan Setta, Vinicius Salvatore e Selma Caronezzi. Teatro Carlos Gomes, Vitória. Pré-estreia em 07 e 08/04/1972 (após a qual continuaram os ensaios para a estreia carioca). Teatro Tereza Rachel, Rio de Janeiro. Temporada de 19/04 a 31/10/1972. Teatro Paiol, Curitiba. Estreia: 07/03/1973.

Para essa encenação brasileira foi usada a tradução feita por Hélio Bloch da adaptação francesa da qual Laurent Terzieff foi diretor e intérprete. Amir Haddad explica de que maneira: “Tivemos dificuldade em usá-la porque a imposição de nosso espetáculo é muito inclinada para a farsa. A montagem francesa era muito mais séria, mais levada para o pesado, para a discussão filosófica. E achei que o brasileiro não aguentaria cinco minutos dessa discussão […]. Acho que na origem, também, a peça não pretendia essa forma. A matéria é pesada, o conteúdo da maior seriedade, mas tratado de maneira leve. Durante os ensaios fomos descobrindo de que modo aquela matéria podia ser tratada em farsa. E depois, em contato com o público em Vitória, onde Tango estreou, vimos que só era possível. O público ri do começo ao fim.

Não sei até onde percebe a profundidade da peça. […] Como experiência, para mim, foi muito parecido com Fim de jogo, […] me obrigando a uma disciplina. […].

“[…] O europeu já está calejado, sofrido demais, então é cínico. A decadência deles é grande, já conseguem rir com facilidade disso.

Para a gente, a matéria é nova. Os europeus conseguem botar humor em cima do trágico. E a peça discute muito se a tragédia existe ou não existe e acaba chegando à conclusão de que a única coisa que acaba existindo é a farsa.

Mesmo que seja uma farsa deprimente. […]

Isso é uma visão de um continente dilacerado, arrebentado por séculos e séculos de guerra […].

Para nós, da América Latina, as coisas ainda estão sangrando demais […] para a gente poder rir com facilidade. […] Para o europeu, [o personagem do artista] é facilmente reconhecível. Para o europeu, ele é o João Grilo de A compadecida. A gente saca na hora o João Grilo, aquele rapaz esperto que se vira feito louco para sobreviver e que precisa de uma ordem mística ou mágico-religiosa para vencer a realidade […]. É um texto de discussão política. Um texto de um socialista que já dançou o tango. Então ele pode falar. […]” […] “O autor não explica nada [finaliza Amir]. Está lá e você entende. Se não quiser, divirta-se com a situação, que é engraçada. […] É um longo espetáculo. Uma peça para quem gosta de teatro. Europeu gosta de teatro. […]

São três atos. Passados numa casa que não tem janelas, tem portas. Um microcosmo. Que pode ser em qualquer lugar”.26

25 Ver autobiografia de Sergio Britto , O teatro & eu, para mais informações sobre Tango, bem como os demais espetáculos dirigidos por Amir em que Britto tomou parte como ator e/ou produtor (Fim de jogo; O marido vai à caça e Festa de aniversário).

26 Celina Luz, Um tango internacional, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22 abr. 1972, caderno B, p. 5.

1973

FESTA DE ANIVERSÁRIO (FELIZ ANIVERSÁRIO), de Harold Pinter. Tradução: Bárbara Heliodora. Direção: Amir Haddad. Produção: Sergio Britto e Adaury Dantas. Cenário e figurinos: Joel de Carvalho. Elenco: Renata Sorrah, Claudio Marzo, Roberto Bomfim, Sergio Britto, Elza Gomes e Afonso Stuart. Teatro Senac. Estreia: 31/01 a 05/04/1973

CEMITÉRIO DE AUTOMÓVEIS, colagem de textos de Fernando Arrabal. Adaptação e direção: Victor Garcia, de 1968. Produção: Ruth Escobar. A peça foi levada para Portugal no verão de 1973, em cuja ocasião Amir Haddad foi convidado por Ruth para supervisionar a direção de palco da montagem lusitana, ocorrida num terreno em Cascais, na avenida da República, todas as noites, às 21h45, onde se armou um galpão.27 Segundo a biografia de Ruth Escobar escrita por Álvaro Machado, “a liberação de Cemitério… [foi feita com uma] ressalva importante: a peça deveria ser encenada apenas na vila balneária de Cascais”28 .

1974

SOMMA OU OS MELHORES ANOS DE NOSSAS VIDAS, espetáculo experimental. Idealizado e dirigido: Amir Haddad. Música: Ricardo Pavão. Cenário e figurino: Joel de Carvalho. Iluminação: Jorginho de Carvalho. Coreografia: Nelly Laport. Preparação corporal: Angel Vianna. Elenco: Amir Haddad, Ângela Valério, Haylton Farias, Luís Joseli, Maria Esmeralda, Thaia Perez, Marisa Short, Reinaldo Machado, Vera Setta, Ivo Fernandes, Toninho Vasconcellos, Duca Rodrigues, Zeca Ligiero, Ricardo Pavão. Coordenação de produção e administração: Ivo Fernandes. Teatro João

Caetano, Rio de Janeiro. Temporada: 13 a 30/06/1974 (terça a domingo). Peça suspensa pela censura cerca de um mês após a estreia.

1974-5

LADIES NA MADRUGADA, de Mauro Rasi e Vicente Pereira. Direção: Amir Haddad. Produção: Ney Matogrosso. Elenco: Duze Nacaratti, Rubens Araújo, Patricio Bisso, Luiz Carlos Góes, Lenah Ferreira, Davi Pinheiro. Teatro Treze de Maio, São Paulo. Estreia: 08/1974

1975-6

VAGAS PARA MOÇAS DE FINO TRATO, de Alcyone Araújo. Direção: Amir Haddad. Assistência de direção: Haylton Faria. Produção: Tarcísio Meira e Glória Menezes. Cenário e figurino: Maurício Sette. Sonoplastia: Chico Livio. Elenco: Glória Menezes, Yoná Magalhães, Renata Sorrah. Teatro Treze de Maio, São Paulo. Estreia: 03/07/1975 Teatro da Galeria, Rio de Janeiro. Estreia: 1º/10/1975. Em 1976, Glória Menezes e Renata Sorrah são substituídas por Maria Fernanda Meireles e Débora Duarte, respectivamente.

1975

SÓ DÓI QUANDO RI. Ricardo Pavão, Ricardo Leoni, Ângela Vianna, Hugo Braule, Magnus, Roberto Leite, Boldrini, Walter Jr. e Miguel Gianesi, músicos e solistas do espetáculo Só dói quando ri, produção de Amir Haddad, estrearam anteontem na Faculdade de Niterói e seguem por um circuito off de outras faculdades e colégios. Uma das letras do show: “Tem dias que a gente/ acorda se sentindo/ morando num tempo sem futuro/ num lugar/ aonde tiraram tudo e deixaram

27 Ruth Escobar apresenta Cemitério de Automóveis: espectáculos todas as noites… Cascais. [s.l.; s.n.], Lisboa: 1973. [Tip. Anuário]. 1 cartaz: color.; 82 x 56 cm. Disponível na Biblioteca Nacional de Portugal.

28 Álvaro Machado, [...] metade é verdade: Ruth Escobar, São Paulo: Edições Sesc, 2021, p. 361.

o resto/ da festa que se deu ontem/ uma sujeira, um entulho/ um lugar/ com um sol mais escuro.29

1976

DÁ UMA ENTRADINHA RÁPIDA SÓ PARA VOCÊ

SACAR COMO ESSE HOMEM ME AMA, comédia de Luiz Carlos Góes, originalmente chamada As oprimidas. Direção: Amir Haddad. Duas peças em um ato: Marilda, a oprimilda e Virtuosa e bela, sensata é ela. Com o grupo Teatro Mágico. Produção: Jaci Carvalho. Colaboração: Milon Dutra. Cenário e figurino: Maurício Sette. Iluminação: Jorge de Carvalho. Trilha sonora: Haylton Faria. Elenco: Vera Setta, Rubens Araújo, Luiz Carlos Góes e Ivo Fernandes. Teatro Nacional de Comédia. Estreia: 13/04 a 06/1976.

[…] O Teatro Mágico […] com esse trabalho presta uma homenagem a Joel de Carvalho […].30 […] em produção do Teatro Mágico e com direção de Amir Haddad, [a peça] ganhou a concorrência para a utilização do Teatro Nacional de Comédia, de abril a junho, derrotando 11 outros candidatos. […].31

1979

MEU COMPANHEIRO QUERIDO, baseada no livro então recém-liberado pela censura Inventário de cicatrizes, do preso político Alex Pollari. Direção de Amir Haddad. Roteiro: Stepan Nercessian e Roberto Nascimento. Música: Roberto Nascimento. Iluminação: Jorge de Carvalho. Elenco: Stepan Nercessian e Roberto Nascimento. Teatro da Casa do Estudante Universitário, Rio de Janeiro. Estreia: 13/06/1979

1980

FUNDAÇãO DO GRUPO TÁ NA RUA

1980-99

HOMENS E MULHERES: A ÓPERA. Direção: Amir Haddad. Criação coletiva do grupo Tá na Rua. Antologia musical a partir do cancioneiro popular brasileiro com temáticas em torno das questões entre os gêneros.

Anos 1980 (sem datas precisas)

CORAÇãO MATERNO Encenações da célebre canção de Vicente Celestino. Direção: Amir Haddad. Criação coletiva do grupo Tá na Rua.

[O] clássico do cancioneiro popular constituiu-se como peça fundamental do repertório do grupo durante a intensa fase de experimentação de rua, no início dos anos 1980. A encenação desta música em diversas apresentações de rua permitiu o desenvolvimento de reflexões temáticas sobre o sentimento do homem brasileiro e contribuiu para a pesquisa sobre a construção de uma dramaturgia a partir de materiais não dramáticos. 32

AS “MÁSCARAS” DO TÁ NA RUA. Números diversos de improviso. Direção: Amir Haddad. Criação coletiva do grupo Tá na Rua.

Foram números livres desenvolvidos a partir das características pessoais e da experiência dos atores que compunham a formação original do grupo. Sempre com muito humor e com uma margem enorme para o improviso e a participação da plateia, as “máscaras”

29 Tárik de Souza, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 28 set. 1975, caderno B, p. 11

30 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 fev. 1976

31 Ibidem.

32 Ibidem.

permitiram o desenvolvimento de uma nova linguagem atorial a partir da apresentação das “especialidades” dos atores: O homem-que-coça-o-saco, a mulher-que-sofre, a mulher-que-grita-rodopia-e-cai, o cigano-que-salta, o negro etc. (Acervo Tá na Rua).33

1981

HOMEM COM H, show de Ney Matogrosso. Roteiro: Ney Matogrosso e Amir Haddad. Direção: Amir Haddad. Cenário e figurinos: Marcos Flaksman. Coreografia: Ciro Barcellos. O show contou com bailarinos e músicos. Fez temporada de dois meses e meio no Canecão, Rio de Janeiro; 22 apresentações lotadas no Anhembi, São Paulo; e outras cidades como Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Fortaleza e Recife.

FAMÍLIA TÁ NA RUA. Direção: Amir Haddad. Criação coletiva do grupo Tá na Rua. Ruas da cidade do Rio de Janeiro.

Um grupo de teatro tenta apresentar seu espetáculo na rua, mas os atores, que são todos da mesma família, começam a brigar, demonstrando todas as contradições deste núcleo social da classe média, como o sexo forçado entre os irmãos e a índia-empregada-adotada, a mãe superprotetora, o pai omisso, o filho preferido, a filha rebelde, a santinha e educada etc.34

1982

A MULHER QUE BEIJOU O JUMENTO PENSANDO QUE ERA ROBERTO CARLOS, a partir do texto do cordelista Dílson Silva. Direção: Amir Haddad. Grupo Tá na Rua. Ruas da cidade do Rio de Janeiro.

33 Ibidem.

34 Ibidem.

35 Ibidem.

Espetáculo representativo das pesquisas do grupo sobre as possíveis dramaturgias para espaços abertos. Com humor popular, o texto discute as relações entre cultura popular e cultura de massa a partir da história da moça que beijou o jumento pensando que era o cantor Roberto Carlos. Este texto compõe o material de pesquisas do grupo desde sua formação.35

ENTRA TUDO: VARIEDADES TÁ NA RUA. Direção: Amir Haddad. Criação coletiva do grupo Tá na Rua. Teatro da Casa do Estudante Universitário, Rio de Janeiro. Estreia: 02/08/1982.

O acontecimento marcante da semana é a visita de Ionesco, cujo único desdobramento cênico é, porém, a apresentação especial de A lição, às 17h de hoje, no Teatro Delfin, na presença do autor. Mas a semana terá também outros acontecimentos fugazes, um dos quais previsto para esta noite no Teatro da ceu onde o grupo Tá na Rua (que agora se subintitula mais pomposamente Instituto de Pesquisas sobre o Ser Humano e seu Teatro) estará mostrando, a título excepcional, Entra tudo: variedades Tá na Rua, uma síntese das várias atividades que o grupo vem desenvolvendo há alguns anos, abrangendo os jogos das ruas, as improvisações das oficinas, os trabalhos de textos das aulas e ensaios, as dramatizações de músicas e narrativas etc. Além de mostrar o trabalho bastante pioneiro que o grupo vem realizando, a apresentação de hoje propõe-se a levantar fundos que permitam a ida do diretor Amir Haddad a um Encontro de Teatro Latino-

-Americano a ser realizado em Nova Iorque, para o qual foi convidado […].36

AMAR À TONA Grupo Tá na Rua. Coordenação: Amir Haddad. Teatro da Casa do Estudante Universitário, Rio de Janeiro. Estreia: 20/12/1982

1982-3

MATO GROSSO, show de Ney Matogrosso. Direção: Amir Haddad. Figurinos: Markito. Cenário: Marcos Flaksman. Arranjos: Piska. Figurinos: Claudio Tapeceiro, Luís de Almeida e Markito. Programação visual: Carlos Vergueiro. Máscara: Sérgio Oliveira. Banda: Piska (guitarra), Pedrão (baixo), Sérgio Della Mônica (bateria), Chacal e Sérgio Boré (percussão), Itacir Jr. e Nonô (sopro), Paulo Esteves (teclado), Paulo Garfunkel (flauta), Lino (saxofone) e Donald (trompete). Estreia no Canecão do Rio de Janeiro. Excursionou por São Paulo, Fortaleza, Recife, Salvador, Vitória, Belo Horizonte, Campo Grande, Cuiabá, Acre, Rondônia, Manaus, Belém, São Luís, Teresina, Imperatriz, Brasília, Curitiba, Londrina, Campinas, Bauru, Presidente Prudente, Rio Preto e Uberlândia. Posteriormente, o espetáculo fez turnê internacional, passando por Lisboa, Paris, Frankfurt, Roma, Israel e Suíça, no Festival de Montreux.

Hoje, às 22h, Ney Matogrosso inicia mais uma curta temporada no Canecão (somente até o próximo dia 7) […]. Dirigido pelo mesmo Amir Haddad […] Matogrosso mostrará basicamente as composições do seu último lP […]. Ocupando toda a extensão do palco, o nome Matogrosso (não é alusão ao estado de nascimento […]), do cenário simples de Marcos Flaksman, cresce com a iluminação criada por Amir. De uma

abertura no meio do cenário […] Ney surgirá com um visual “chocante” […]. A segunda parte é mais romântica, com luz suave. […] Mas é na terceira e última, com uma roupa das mais bonitas […] que o espetáculo mostrará o cantor em seu melhor momento. […] O diretor […] em seu segundo trabalho […] com o cantor (já haviam [também] trabalhado anteriormente em teatro) define a atual montagem como “um show que vai mais longe do que o outro”. “O anterior […] era uma revisão […]. E qualquer pessoa que faz um balanço vai adiante. Quando nos reunimos pela primeira vez, não tínhamos a menor ideia do espetáculo, tínhamos somente um disco: Matogrosso, nosso ponto de partida para um espetáculo alegre.” […] Procurando sempre colocar um elemento de teatro, Amir usou desta vez três máscaras esculpidas em madeira, que conseguem bom efeito quando Ney canta Debaixo dos panos. […].37

1982-3

BAR DOCE BAR. Texto, interpretação e direção: Pedro Cardoso e Felipe Pinheiro. Supervisão (direção de harmonia): Amir Haddad. Música: Tim Rescala. Teatro Cândido Mendes, Rio de Janeiro.

1983

ISTO É ABOIO, XOTE, XAXADO E BAIãO, show de Carmélia Alves, com texto e roteiro do jornalista Carlos Alberto Silva. Direção: Amir Haddad. Com o cantor e compositor Jonga. Teatro Ipanema, Rio de Janeiro. Viagens posteriores para outros estados, como Pernambuco.38 É às 21h de hoje. Neste mesmo horário, até

36 Yan Michalski, Ionesco e outros, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2 ago. 1982

37 Diana Aragão, Ney Matogrosso no Canecão: além do musical, um visual chocante, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20 out. 1982.

38 Diário de Pernambuco, Recife, 7 jun. 1983, Variedades, caderno Diversões, p. B2.

domingo, continua a pequena temporada de Isto é aboio, [xote,] xaxado e baião. Também poderia ser Veja tudo isso. É show de Jonga, organizado artista que há muito luta para mostrar seu rural estilo, e a veterana Carmélia Alves. Na televisão e no palco permanece a mesma. Estão no Teatro Ipanema e a direção é de Amir Haddad. Depois de muito estar na rua, seu grupo teatral entra em casa para rara experiência que é a responsabilidade em shows. […].39

A COMÉDIA DO CORAÇãO, do poeta, jornalista e dramaturgo Francisco de Paulo Gonçalves (1897-1927). Direção coletiva do grupo Hombu, sob coordenação de Sérgio Fidalgo. Supervisão: Amir Haddad. Cenografia: Sérgio Fidalgo e Carlos Veiga. Cenotécnico: Oracy Flores. Figurino: Carlos Veiga. Direção musical: Ian Guest. Música: Beto Coimbra, Ian Guest e Paulo Gonçalves. Preparação corporal: Graciela Figueiroa, Regina Vaz e Debbie Growald. Desenho de luz: Jorge de Carvalho. Realização: Grupo Hombu. Elenco: Silvia Aderne, Regina Linhares, Sérgio Fidalgo, Tarcísio Ortiz, Ângela de Castro, Fernanda Caetano e Ivanir Calado. Duração: 2h 10min (dois intervalos). Teatro Glauce Rocha, Rio de Janeiro. Temporada: 11/10 a 31/12/1983

Uma vez escolhida A comédia do coração [conta Sérgio Fidalgo], procuramos Amir Haddad e lhe expusemos o nosso problema [de querer um diretor, ao mesmo tempo que o grupo buscava que a concepção geral do espetáculo continuasse sendo coletiva]. Ele respondeu logo: “Mas é exatamente isto o que eu quero”. Estava criada, assim, a função de supervisor, que Amir já havia experimentado em 1982

(com o nome de diretor de harmonia), em Bar doce bar (e no momento repete com o mesmo grupo em A porta, com estreia para breve), mas que parece assumir uma dimensão maior em A comédia do coração. Para Amir, ela atende a solicitações profundas: “Há muito eu tinha vontade de participar de novo da elaboração de um espetáculo. Meu último trabalho como diretor é de 1976. […] O trabalho de rua, que não comporta a função de diretor, tem sido tão absorvente que até agora não nos permitiu criar, como pretendíamos, também outro tipo de espetáculos. Ora, o teatro é uma coisa muito viva dentro de mim, e eu sentia saudade da minha atividade de criador de espetáculos. Mas ao mesmo tempo não me via trabalhando como diretor no sentido tradicional […], nas condições que o esquema do mercado impõe, com pouco tempo de ensaios, dentro de um modelo autoritário, com toda a concepção da encenação saindo de uma só cabeça. Isto seria para mim um retrocesso, já que vivo contestando e discutindo essa noção de autoria do espetáculo. Então, nestes últimos anos, só consegui matar saudades do palco dirigindo dois shows de Ney Matogrosso, onde esses problemas não se colocavam […]”.40

WILL, coletânea de textos e sonetos de William Shakespeare. Tradução: Flávia Maria Samuda. Roteiro e direção: Felipe Pinheiro. Supervisão da direção: Amir Haddad. Música e direção musical: Tim Rescala. Figurinos: Silvia Sangirardi. Iluminação: Luiz Paulo Nenen. Preparação corporal: Cláudio Gaya. Elenco: Angela Rebello, Ariel Coelho, Cristina Gomes, Deni Bloch, Elisa

39 Maria Helena Dutra, Vai do aboio a Rogéria, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 27 maio 1983

40 Yan Michalski, Com A comédia do coração o Hombu quer conquistar a plateia adulta, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 out. 1983.

Ventura, Laura Vivacqua, Mário Diamante, Ricardo Cardoso e Roberto Jabor. Teatro dos 4.

A primeira impressão ao entrar no Teatro dos 4 para assistir à Will – coletânea de textos shakespearianos sobre alguns casais da sua dramaturgia – é extremamente favorável. A excelente música de Tim Rescala, que mistura sonoridade contemporânea com toques elizabetanos, recebe os espectadores que veem ainda envolvidos por uma ambientação repleta de significados (tochas iluminam as laterais da plateia e no palco um dispositivo cênico, um poster de Shakespeare e luz suave, criam a ilusão da arquitetura elizabetana) […].41

A PORTA, texto e direção: Pedro Cardoso e Felipe Pinheiro. Supervisão: Amir Haddad. Direção musical e música original: Tim Rescala. Iluminação: Aurélio de Simoni e Luiz Paulo Nenen. Elenco: Pedro Cardoso, Felipe Pinheiro, Tim Rescala, Oscar Bolão, Gilberto Márcio, Luiz Paulo Nenen e Ronaldo Diamante. Teatro dos 4, Rio de Janeiro. Estreia: 17/10 a 20/12/1983.

1984-5

EXTREMOS, de William Mastrosimone. Tradução e adaptação: Carlos Eduardo Dolabella. Direção: Amir Haddad. Elenco: Pepita Rodrigues, Carlos Eduardo Dolabella, Elizabeth Hartmann, Beth Goulart, Yolanda Cardoso, Annamaria Dias. Teatro da Lagoa, Rio de Janeiro. Estreia: 06/1984 Em 1985, temporada em São Paulo.

Os que ainda não assistiram a Extremos, que está comemorando 150 representações no

Teatro da Lagoa (Rio), não precisam se assustar. A violência, […] habilmente dirigida por Amir Haddad, não dá o tom do espetáculo, onde o que predomina mesmo é o humor.42

1984

ENTRA TUDO (VARIEDADES TEATRAIS), colagem de Amir Haddad e grupo Tá na Rua. Dramaturgia coletiva. Direção: Amir Haddad. Integrou o projeto “Novos Rumos, Novas Caras”, criado por Amir no Teatro Villa-Lobos. Ocorreu nos dias 23 e 24/10/1984. Em 06/11, houve mesa-redonda no âmbito do mesmo projeto, em que Amir participou ao lado de Luís Antônio Martinez Corrêa, Paulo Reis, Alcione Araújo e João das Neves. Coordenação da mesa: Yan Michalski.

MORRER PELA PÁTRIA, de Carlos Cavaco. Direção: Amir Haddad. Tá na Rua. Integrou o projeto “Novos Rumos, Novas Caras”, criado por Haddad. Cenografia: Sérgio Silveira. Figurinos: Lucy Mafra. Sonoplastia: Ricardo Pavão. Iluminação: Charles Duclos. Elenco: Amir Haddad, Ricardo Pavão, Sérgio Luz, Lucy Mafra, Artur Faria, Ana Carneiro, Marilena Ribas e Betina Waissman. Teatro Villa-Lobos, Rio de Janeiro. Estreia: 15/11/1984. Foi encenada por mais de três anos.

Escrito em 1936, o texto é baseado na ideologia integralista, vertente brasileira do nazifascismo atuante na década de [19]30 [e que] discute a suposta “ameaça comunista” que pairava sobre o Brasil a partir da perspectiva de uma família de classe média. Este texto foi um material fundamental na pesquisa empreendida por Amir Haddad desde a década de [19]70, visando ao desmonte da linguagem teatral tradicional e

41 Macksen Luiz, Sonoridade contemporânea com toques elisabetanos, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 3 dez. 1983, caderno B, p. 5.

42 Manchete, Rio de Janeiro, 10 nov. 1984, n. 1699.

das estruturas autoritárias reproduzidas pelos coletivos de trabalho.43

O elenco do Teatro Mágico, que, sob a orientação de Amir Haddad, vem se dedicando há vários meses a uma ampla pesquisa de linguagem teatral usando como ponto de partida a peça Morrer pela pátria, de Carlos Cavaco, incorporou agora no seu projeto o estudo do texto de Galileu Galilei, de Brecht. O grupo, que teve recentemente roubada uma eletrola essencial às suas atividades, e que constituía seu único objeto de valor material, solicita aos amigos doação de outra eletrola, “suficientemente velha para dela se desfazerem e suficientemente nova para que possamos dela fazer uso”, e reitera o antigo pedido de doação de móveis e objetos usados […] com características da década de [19]30.44

Entre as estreias, o esperadíssimo Morrer pela pátria, projeto acalentado por Amir Haddad há mais de dez anos. As três estreias da semana começam exatamente no mesmo dia: quinta-feira. Morrer pela pátria […] inicia a temporada no Teatro Villa-Lobos […].45

Morrer pela pátria é um texto inédito e a única peça integralista para teatro de que se tem conhecimento. […]. Não escapam, também, o preconceito contra os judeus, a crítica moral do capitalismo, o nacionalismo exacerbado, a xenofobia. Nada disso é tratado em cena com irreverência ou de forma crítica. Até porque,

como acredita Haddad, o conteúdo ideológico do integralismo revela muito do pensamento de direita brasileira hoje. “Estou tratando a sério porque este pensamento é sério e, a nível de sentimento, ainda está muito arraigado. A gente vai revelar para o público, para quem se identifica e para quem não se identifica, esta ideologia em profundidade e não como discurso racional.” O texto está sendo trabalhado desde 1975 (“é […] nosso antimodelo”) […] e isso […] foi feito com todo o respeito, observando cada vírgula mesmo nos momentos em que o consideravam absurdo ou ridículo. […] Amir aceita que Morrer pela pátria possa gerar reações […].46 Mas lembra que seu grupo trabalha na rua e, muitas vezes, [têm de fazer] afirmações com as quais não concordam [por questão de linguagem]. Nem por isso deixaram de sair, no comício das diretas, [fantasiados] “de família real”. Ele era o rei e passou todo o tempo na frente da passeata mandando que os manifestantes voltassem para casa. “Tá na hora da novela. Tá na hora de servir o jantar.” “Podem ir embora que eu resolvo tudo num instante”, insistia para uma plateia que ou ria, entendendo “o lado lúdico”, ou queria bater-lhe. Como aquela mulher que tentou acertá-lo com a sombrinha sob a alegação de que política é coisa sagrada […] “É provocante mas não provocador porque revela estas contradições. E até as nossas, pois, quando fomos para a rua, também gostaríamos de estar em casa vendo tV, esperando o jantar, deixando o resto para o rei resolver. Nós também temos nossa preguiça de lutar pelas diretas.” […]

43 Fonte: https://teatroderuaeacidade.blogspot.com/2016/07/dramaturgia-contemporanea-teatro-de-rua.html. (Acesso em 1º mar. 2022).

44 Yan Michalski, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 29 dez. 1976, nota da seção Teatro – Em um ato, caderno B, p. 2.

45 Macksen Luiz, Integralismo, Che, Tancredo, Brecht e Molière, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 12 nov. 1984.

46 Como de fato gerou por parte de muitos que julgaram ser este o ponto de vista do encenador.

Haddad espera estar com uma linguagem tão clara que não sejam precisas explicações posteriores (embora vá haver debates com o público após os espetáculos, deles saindo as mudanças que definirão as três fases diferentes já previstas para esta montagem). Com isso, o espetáculo será modificado e interrompido duas vezes durante a temporada. Todo o trabalho será desenvolvido pelos atores no dia a dia da representação. […] “Não temos aquela dor, tão comum no esquema empresarial, de dizer isso poderia ter sido feito diferente”, assegura Haddad.47

AS VARIEDADES DE PROTEU, ópera bufa em três atos de Antônio José da Silva (O Judeu). Direção: Amir Haddad. Direção musical: José Maria Neves. Música: Antônio Teixeira. Concepção e execução dos bonecos: Marilda Kobachuk. Elenco: Ricardo Tuttman, Lício Bruno, Antonieta Panfili, Deina Melgaço, Cristina Passos, Daniel Félix, Wilson Aguiar, Remo Maccagnini. Teatro Villa-Lobos, Rio de Janeiro. O espetáculo ocorreu dentro do projeto “Novos Rumos, Novas Caras”, organizado por Amir, então diretor do teatro. Estreia: 24/10/1984

No século XViii não se brincava impunemente com noções como nobreza, casamento, castidade e religião. Antônio José da Silva, conhecido como O Judeu, costumava permear suas peças – escreveu oito, muitas delas musicadas – de severas críticas e rasgadas sátiras a tais conceitos. Talvez por isso tenha sido conduzido à fogueira da Inquisição com 34 anos. Nascido no Rio de Janeiro, de onde partiu ainda menino acompanhando o cativeiro dos pais, ele acaba de voltar. E se mostra em toda sua sagacidade e humor na ópera As variedades de Proteu […]. É uma volta com sabor de ressurreição. Afinal, até o

musicólogo brasileiro José Maria Neves, 41 anos, descobrir no Palácio Ducal de Vila Viçosa, em Portugal, trechos musicais de As variedades e da famosa As guerras de Alecrim e Manjerona, ninguém sabia ao certo como soavam essas peças. E as muitas suposições apontavam para caminhos bastante diferentes dos exibidos pelas partituras de Antônio Teixeira, discípulo de Scarlatti e fértil colaborador do Judeu. […] Nas Variedades de Proteu, apresentadas nessa temporada em 10 récitas distribuídas por três fins de semana consecutivos, os bonifrates revezam-se com cantores, exaustivamente ensaiados por Amir Haddad para pontuarem enfaticamente suas falas e aproveitarem ao máximo a potencialidade de seus corpos. […] Peça de grande qualidade lúdica, As variedades de Proteu é atrevida, inquieta. E aposta na teatralidade mais autêntica, sem vergonha de incitar a conivência com o público, sem pejo de ser emocional. […] E a inclusão, no elenco, de dois personagens mascarados, parentes próximos da commedia dell’arte, é uma chave para a concepção de Amir […]. Montada no ralo orçamento de Cr$ 9 milhões, doados pelo Inacen e Sesc, a ópera do Judeu, surpreendentemente rica musicalmente, cantada em português setecentista, terá sem dúvida o chamariz da novidade. Uma novidade que está sendo ensaiada desde março e que representa um grande investimento para seus recriadores. A Amir coube a difícil tarefa de transformar cantores em atores de teatro em prosa. A José Maria Neves a de garantir que o espírito do Judeu esteja presente na encenação. Para os cantores, escolhidos por concurso realizado no Conservatório, ficaram reservadas as dificuldades naturais de uma

47 Cleusa Maria, O integralismo passado a limpo, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 nov. 1984.

partitura que exige que Caranguejo, por exemplo, criado de Proteu, faça uma declaração à sua amada Maresia, alternando voz plena e falsete. […]

O fio condutor da trama é a história do casamento de Proteu e Nereu, filhos do rei Ponto, com as belas Dorida e Cyrene. […]48

1985

FELISBERTO DO CAFÉ, de Gastão Tojeiro. Direção: Amir Haddad. Cenário e figurino: Naum Alves de Souza. Trilha sonora: Geraldo Torres. Iluminação: Luiz Paulo Nenen. Elenco: Arlete Salles, Roberto Bomfim, Lupe Gigliotti, Rosa Douat, Artur Faria e participação especial de Lafayette Galvão. Produção executiva: Ivo Fernandes. Produção: Walter Marim. Teatro Maison de France, Rio de Janeiro. Estreia: 30/03/1985

Felisberto do café, de Gastão Tojeiro, estreia na quarta-feira no Teatro Maison de France de maneira original, com um ensaio geral franqueado ao público. […] Tojeiro pode ser considerado como um dos melhores representantes do vaudeville nacional. Felisberto do café, com sua trama simples mas bem urdida, é peça típica de um teatro em que as situações cômicas são arranjadas de tal modo que o espectador se envolva com os quiprocós do enredo. Para o diretor Amir Haddad, “a peça é encantadora. É um tipo de dramaturgia brasileira feita até a década de 1940 que nunca teve o devido respeito.

Existe todo um know-how deste tipo de espetáculo que não pode ser desprezado. Neste momento de crise da dramaturgia brasileira é importante recuperar o que é nosso, sem preconceito da burguesia dita culta. A farsa é o gênero mais próximo do popular”.49

C DE CANASTRA, de Pedro Cardoso e Felipe Pinheiro. Direção: Amir Haddad. Iluminação: Luiz Paulo Nenen. Música: Tim Rescala. Elenco: Felipe Pinheiro e Pedro Cardoso. Teatro Sérgio Cardoso, São Paulo. Agosto de 1986

C de canastra é perfeitamente coerente com a evolução teatral da dupla Felipe Pinheiro e Pedro Cardoso que, desde Bar doce bar […] recria no palco um estilo de humor bastante peculiar. […] Numa sequência generosa de esquetes – são dois atos que se estendem por 2h15min, com intervalo – nem sempre há dosagem na oferta. A primeira parte é visivelmente menos ágil […]. À maturidade dos autores […] corresponde maior sofisticação e exigências na gama das interpretações. […] A supervisão de Amir Haddad, a correta iluminação […] a bem-humorada música […], os painéis-telões que evocam o cenário para os esquetes do antigo teatro de revista, criam uma cena simples mas eficiente do ponto de vista da comunicabilidade. […] É o teatro brincando, mas sem esquecer as regras de seu jogo.50

48 Vivian Wyler, A ópera sagaz e bem-humorada, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 out. 1984

49 Macksen Luiz, A vez das comédias, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 25 mar. 1985 Segundo Sérgio Viotti (Dulcina e o teatro de seu tempo, Rio de Janeiro: Lacerda, 2000, p. 75), é bastante provável que esta peça tenha se inspirado noutra de título similar: O café do Felisberto, de Tristan Bernard, que o ator português Chaby Pinheiro lançou em 1912 no Teatro Apolo, e que o ator brasileiro Leopoldo Fróes incluiu em seu repertório na temporada do Palace, em 1916.

50 Macksen Luiz, A brincadeira do jogo teatral, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 maio 1985.

VENHA BRINCAR CONOSCO, show teatral com o grupo Tá na Rua. Direção: Amir Haddad. Com participação do público. Circo Voador, Rio de Janeiro.

MASCULINO E FEMININO. Coletânea de textos de expressivos autores nacionais e estrangeiros, tais como Shakespeare (Ricardo III), Brecht (Galileu Galilei), Wilson Sayão (Pão e água, entre outras), Luiz Carlos Góes (Marilda, a oprimilda, entre outras), sobre o relacionamento homem/mulher.

Direção: Amir Haddad. Elenco: Ricardo Pavão, Lucy Mafra, Artur Faria, Ana Maria Carneiro e grupo Tá na Rua. Teatro Cacilda Becker, Rio de Janeiro. Estreia: 10/1985

A greve dos ônibus e uma queda do diretor Amir Haddad obrigaram o grupo Tá na Rua a adiar a estreia de Masculino e feminino para a próxima quarta-feira; mas já a partir de hoje, às 21h, o Teatro Cacilda Becker receberá o público interessado em participar dos ensaios, sem passar pela bilheteria. “Não chamamos o Masculino e feminino de espetáculo”, explica Amir. “Chamamos de cerimônias teatrais que se constroem a partir da participação do público. Nossos atores são como médiuns […]. Com isso, queremos transpor as barreiras do realismo provocando um encontro mais profundo entre ator e espectador. […]” [Aqui] os grandes orixás são Shakespeare e Brecht, e caboclos como Wilson Sayão, Luiz Carlos Góes e Mauro Rasi já estão “encostando”, levando o grupo […] a novas elaborações teóricas para mudar a prática teatral: “[…] acreditamos, como diz Brecht em Galileu, que a verdade é filha do tempo e não da autoridade.

[…]”. Amir não vai esperar a cortina fechar para iniciar um debate sobre as relações de poder; quer discutir logo o relacionamento dos casais, situando-o dentro de um contexto sócio-político-histórico-econômico.51

“Se o teatro está morto, viva o teatro”, diz o incansável Amir Haddad, figura lendária da ribalta carioca […]. Como ator e diretor de cena de Masculino/Feminino, o mineiro […] concretiza a cerimônia que há tanto tempo persegue em busca do espírito vivo do teatro. A improvisação é a mola mestra de suas ideias […].52

A VELOCIDADE DO MUNDO, de Paulo Pontvianne e Marcos Possidente. Direção: Artur Faria. Supervisão: Amir Haddad. Com o Grupo Velô. Cenário e adereços: Carla Benasse. Figurino: Sônia Dias e Marcia Pitanga. Assistente de figurino: Adriana Soares. Iluminação: Eldo Lúcio. Sonoplastia: Hugo Secco. Operador de som: Toth Resende. Produção executiva: Toth Resende e Paulo Reis. Elenco: Iza do Eirado, Silvana Oliveira, Paulo Pontvianne e Marcos Possidente. Teatro de Bolso Aurimar Rocha, Rio de Janeiro. Teatro Jesiel Figueiredo, Natal (rN) e outros.

1985-2006

AUTO DE NATAL “MEU CARO JUMENTO”. Inspirado no poema “O jumento”, de Patativa do Assaré. Direção: Amir Haddad. Elenco: grupo Tá na Rua. Largo da Carioca, Rio de Janeiro: 23/12/1985, às 16h. Gratuito. O espetáculo apresenta a narrativa do nascimento de Jesus Cristo a partir da perspectiva do Jumento, o animal que transportou a família sagrada na fuga de Belém. Espetáculo encenado durante o período das festas de Natal.53

51 Ciléa Gropillo, Teatro não, obra aberta, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 12 out. 1985

52 No teatro, o Tá na Rua, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20 out. 1985.

53 Licko Turle, op. cit.

A representação-festa terá como pontos culminantes um grande presépio formado por todos os participantes e “após deverá ser servida aos presentes uma sopa preparada durante o acontecimento”. Segundo o Tá na Rua, essa ambiciosa montagem tem a intenção de “colocar o Rio de Janeiro no roteiro dos grandes espetáculos contemporâneos em espaços abertos. A apoteose fora da Praça da Apoteose, artistas e povo unidos”.54

1986

QUAL É, GATINHO? de Antônio Bivar. Direção: Amir Haddad. Elenco: Frederico de Francisco e Brigitte de Búzios. Teatro Delfin, Rio de Janeiro. Nova temporada no Teatro de Bolso Aurimar Rocha, ainda em 1986.

GALILEU GALILEI, de Bertolt Brecht. Direção: Amir Haddad. Elenco: Tá na Rua. Praça do Cocotá, Ilha do Governador, em 17/05/1986

FACES: O MUSICAL, de Maria Lucia Priolli, Mauro Perelmann e Pedro Paulo Castro Neves. Direção: Amir Haddad. Direção musical: Mauro Perelmann. Coreografia: Moema Corrêa e Maria Lucia Priolli. Elenco: Clarice Niskier, Ana Teresa, Gustavo Rocha, Maria Lucia Priolli, Flávio Colatrello, Beth Zalcman, Kátia Bronstein, Tereza Seiblitz e outros. Teatro Casa Grande, Rio de Janeiro. Estreia: 14/10 a 23/11/1986.

1987

THE BEST – A BESTA, texto e direção: Pedro Cardoso e Felipe Pinheiro (a partir de 12 cenas de seus espetáculos anteriores: Bar doce bar, A porta e C de canastra). Supervisão: Amir Haddad.

Elenco: Pedro Cardoso e Felipe Pinheiro. Música: Tim Rescala (13 composições). Teatro Tereza Rachel, Rio de Janeiro. Estreia: 13/04/1987 até julho.

ALMA DE BORRACHA, show de Beto Guedes.

Direção: Amir Haddad. Teatro Carlos Gomes. Abril e maio de 1987

Com dez anos de carreira, Beto Guedes lança agora seu sexto LP solo, Alma de Borracha (eMi-Odeon). O título vem de uma canção de Telo e Márcio Borges, mas quem viu aí uma citação ao antológico álbum Rubber Soul, dos Beatles, também acertou. […] Alma de Borracha traz os principais ingredientes da música de Beto Guedes, em melodias rebuscadas e ótimo tratamento instrumental.55

Após dois anos de ausência, o cantor-compositor Beto Guedes gravou um disco e fez um show – Alma de Borracha –, que a Rede Manchete apresenta no domingo, 14/06, às 19h. Gravado ao vivo no Teatro Carlos Gomes, o Especial Beto Guedes terá os maiores sucessos do artista e os melhores momentos do show.56

OS FILHOS DO SILÊNCIO, de Mark Medoff. Tradução: Léo Gilson Ribeiro. Direção: Amir Haddad. Cenários e figurinos: José Dias. Trilha sonora e assistência de direção: Geraldo Torres. Iluminação: Alex Dias. Direção de produção: Pichin Piá. Elenco: Maria Helena Dias, Adriano Reys, Tony Ferreira, Jalusa Barcellos, Lídia Mattos, Roberto de Cleto e Carmen Figueira. Teatro Benjamin Constant, Rio de Janeiro. Temporada: 08/07 a 11/1987

54 Macksen Luiz, O Natal Tá na Rua, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22 dez. 1985

55 Antônio Carlos Miguel, Som mineiro, sotaque inglês, Manchete, Rio de Janeiro, 22 nov. 1986.

56 Manchete, Rio de Janeiro, 10-6 jun. 1987.

1987-8

O AMOR NA NOVA REPÚBLICA, de Vicente Pereira, Wilson Sayão e Luiz Carlos Góes (a partir de cinco pequenas histórias: Se você soubesse; O encapuzado; Baralhos dos homens; Marilda, a oprimilda e Indian love call). Direção: Amir Haddad. Com o grupo Tá na Rua. Elenco: Amir Haddad, Ana Carneiro, Artur Faria, Lucy Mafra e Marcelo Pascoal. Vocal, violão e piano em músicas de Roberto Carlos: Ricardo Pavão, Wando e do próprio Marcelo Pascoal). Botanic, Rio de Janeiro. Até o final de 06/1988.

teto Para o tá Na rua – O grupo Tá na Rua, que inicia temporada amanhã no Botanic com O amor na nova república, está à procura de um teto. […] Por isso, o Tá na Rua se apresenta no dia 16 no Circo Voador para arrecadar fundos a fim de se instalar em novo endereço, já que a atual sede do grupo foi requisitada por seu proprietário […].57

Encenado pelo grupo Tá na Rua, o espetáculo […] [tem] estilo cabaré com esquetes curtos e irônicos que buscam a participação do público.58

1988

CANTANDO PARA O RIO, show de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho de Viola e Jorge Ben. Espetáculo beneficente. Direção: Amir Haddad e Guilherme Araújo. Canecão e Teatro Scala, Rio de Janeiro, em 07/03/1988.

Quem gosta de música popular e pretende ajudar as vítimas das recentes inundações no Rio tem todas as razões para sair de casa na próxima segunda-feira, dia 7, à noite. É que estarão no Rio para dois espetáculos – um no

Canecão, outro no Scala 1 – alguns dos mais importantes cantores, compositores e grupos musicais do país. Cantando para o Rio é o nome escolhido para o show do Canecão […]. Cinco dos maiores artistas brasileiros – Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Jorge Ben e Paulinho da Viola – estarão se apresentando dirigidos por Amir Haddad e Guilherme Araújo. A ideia, que tem o patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura, surgiu de uma reunião entre o prefeito Saturnino Braga e alguns animadores culturais da cidade […].59

PROJETO 68 X 88/NO BALANÇO DOS ANOS. Leituras. Direção: Amir Haddad. Com o grupo Tá na Rua. Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro.

DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA, de Plínio Marcos, em 01/09/1988, às 19h.

SE CORRER O BICHO PEGA, SE FICAR O BICHO COME, de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar, em 02/09/1988, às 19h.

OS FUZIS DA SENHORA CARRAR, de Bertolt Brecht, em 08/09/1988, às 19h.

CORDÉLIA BRASIL, de Antônio Bivar, em 09/09/1988, às 19h. Apresentação no Arquivo Geral da Cidade, Rio de Janeiro, em 12/09/1988.

NADA Dez esquetes coordenados por Amir Haddad. Entre eles: Tarzan e Jane; A festa; Falando com Nossa Senhora; O futebol ou os desanimados; Música em 24 quadros por segundo e Um amor distraído. Elenco, cenários e figurinos: Pedro Cardoso, Tim Rescala

57 Macksen Luiz, Teto para o Tá na Rua, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 5 jun. 1988

58 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 jun. 1988.

59 Enxurrada de socorro, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 5 mar. 1988, caderno B, p. 1.

e Felipe Pinheiro (que também contracenam com imagens em vídeo, onde aparecem outros atores convidados) e músicos: Oscar Bolão (bateria), Dazinho (saxofone) e Omar Cavalheiro (contrabaixo). Teatro da Casa de Cultura Laura Alvim, Rio de Janeiro. Estreia: 30/11/1988 60

SE LIGA LEBLON. Pagode e gafieira. Apresentação da Intrépida Trupe, grupo Coringa, Amir Haddad, Clara Sandroni, Conexão Japeri, Blues Etílicos, Hojerizah, Sapatilhas Ascendentes e o elenco de O califa da rua do Sabão. Dia 04/12/1988 (domingo), às 14h, praia do Leblon, Rio de Janeiro. Entrada Franca.61

1989

SE CORRER O BICHO PEGA, SE FICAR O BICHO COME, de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar. Direção: Amir Haddad (Prêmio Shell). Assistência de direção: Ana Carneiro. Cenografia e adereços: Miriam Obino. Figurino: Judith Bellini. Iluminação: Eric Nielsen. Direção musical e trilha sonora: Ricardo Pavão. Programação visual: Jorge Caetano. Divulgação: Ana Paula Araripe. Coordenação de produção: Eduardo Ramos. Produção executiva: Bianca Amorim e Cristiana Garbritch. Espetáculo de formatura dos alunos da Casa das Artes de Laranjeiras (cal). Elenco: Adriana Passos, Ana Paula Araripe, Antonella Batista, Araken Ribeiro, Bianca Amorim, Cristiane Larin, Cristina Garbritch, Déborah Vasconcellos, Flávia Bessone, Gilberto da Paz Caetano, Gisele Rodrigues, Jackeline Barroso, João Bosco Amaral, João Renato Teixeira, Jorge Caetano, Judith Bellini, Leonardo Netto, Leonardo Saboya, Lucia Talabi, Luiz Ferhar,

Malu Valle, Marcelo Orofino, Márcia Amaral, Marília Reston, Mário José Paz, Myrian Chebabi, Patrícia Schueller, Paula Magalhães, Renata Sabino, Roberto Palladini, Sarah Navarro, Silvano Monteiro, Sirley Alaniz, Waldir Gadelha, Walter Linhares e Wellington Júnior. Teatro Cacilda Becker, Rio de Janeiro. Temporada: 11/03 a 02/04/1989. Nova temporada no Teatro Sesc Tijuca, Rio de Janeiro, de 20/04 a 28/05/1989

1989-91

UMA CASA BRASILEIRA, COM CERTEZA, de Wilson Sayão (Prêmio Shell), a partir de cinco peças curtas do autor: Caviar e champagne; Coca-Cola e sanduíche; Que que você acha?; Pão e água e Você está pronto?. Direção: Amir Haddad. Com o grupo

Tá na Rua (Amir Haddad, Lucy Mafra, Ricardo Pavão, Rosa Douat, Roberto Black e outros).

Centro Cultural Banco do Brasil, Teatro I, Rio de Janeiro, após ter sido adiada em 27/03/1990 devido ao Plano Collor. O espetáculo inicialmente se chamaria Uma questão de classe, e só reuniria três peças curtas e uma cortina. Estreia: 02/05/1990. 62

1990

A MACACA. Texto e direção: Pedro Cardoso e Felipe Pinheiro. Supervisão: Amir Haddad. Cenário: Ricardo Cardoso. Figurino: Silvia Sangirardi. Iluminação: Castelar. Música: Tim Rescala. Elenco: Pedro Cardoso e Felipe Pinheiro. Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro. Estreia: 29/06/1990. Teatro dos 4, Rio de Janeiro: de 13/08 a 03/10/1990

MACBETH, de William Shakespeare. Leitura. Projeto Drama (RioArte), Ciclo Shakespeare.

60 Macksen Luiz, Lady Macbeth, Tarzan, Jane e o milagreiro Bacanán, Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 27 nov. 1988, p. 26

61 Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 4 dez. 1988, seção Pagode e gafieira, p. 19.

62 Macksen Luiz, Sayão no palco, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21 jan. 1990, caderno B, p. 2.

Direção: Amir Haddad. Elenco: Vera Holtz (Lady Macbeth), Amir Haddad (Rei Duncan), grupo Tá na Rua e convidados, Jitman Vibranovsky, Haylton Faria, Henrique Cukierman, Elisa

Fernandes, Ivo Fernandes, Geraldo Torres e Pedro Lage. Espaço Cultural Sérgio Porto, Rio de Janeiro, em 03 e 04/09/1990

AMOR COM AMOR SE PAGA, de França Júnior.

Direção: Amir Haddad. Cenografia: José Dias. Figurino: Ana Teresa. Iluminação: Luiz Paulo Nenen. Trilha sonora: Tim Rescala. Elenco: Vera Holtz, Stella Miranda, Carlos Loffler, Antônio Pompeo, Alexandre Marques. Ruas do Rio de Janeiro. Gratuito. De 03 a 06/07 e 10/07/1990

1991

O MAMBEMBE, de Arthur Azevedo e José Piza. Direção: Amir Haddad. Direção musical e composições: Ricardo Pavão. Dramaturgia e música: Geraldo Torres. Iluminação: João

Antônio e Wilson Reiz. Assistente: Renato e Pedro. Operador: Edmur. Cenografia e figurinos: Marco Antônio Palmeira. Assistentes: Paula

Brawne e Patrícia Borsói. Costureiras: Shirley e Shirlene. Preparação corporal: Ausonia Bernardes Monteiro. Operador de canhão: Fábio Araújo.

Fotografia: Beatrice Sasso. Pianistas: Deborah Levy e Paula Faour. Pintor: Berg Berlin. Programação visual: Alexandre Mofati. Direção de cena: José Maurício Moreira e Sávio Moll.

Produção: o grupo. Produção executiva: Eduardo Ramos, Alexandre Mofati, Cláudio Boeckel e Wagner Dias. Elenco: Adriana Correia/Zélia

Cristina (Duncan), Adriana Lima, Alessandra Oliveira, Alexandre Mofati, Cláudio Boeckel, Fátima Wachowicz, Fernanda Seixas, Isabela Leal, Josette Babo, José Maurício Moreira, Leticia Hees, Marcelo Vianna, Marcio Ricciardi, Maribel Solines, Natércia Campos, Rita Porto, Rodrigo Cherulli, Sávio Moll, Simone Maria, Tatiana France, Úrsula Brando e Wagner de Miranda. Teatro Cacilda Becker, Rio de Janeiro. Temporada: 10/04 a 05/07/1991 63

A ESFINGE DO ENGENHO DE DENTRO, de Wilson

Sayão. Direção: Amir Haddad. Cenário e figurino: José Dias. Iluminação: Aurélio de Simoni. Ambientação sonora: Ricardo Pavão. Elenco: Dill Costa, Ricardo Petraglia e Vanda Lacerda. Teatro Cândido Mendes, Rio de Janeiro. Estreia: 02/10/1991

1992-8

PRA QUE SERVEM OS POBRES? Dramaturgia elaborada a partir de dois textos dos sociólogos Oscar Lewis e Herbert Ganz. Adaptação e direção: Amir Haddad. Elenco: grupo Tá na Rua. Rio de Janeiro e Festival de Cádiz de 1992.

1992-5

FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País), de Stanislaw Ponte Preta. Direção: Amir Haddad. Com o grupo Tá na Rua. Leitura teatralizada das crônicas de Sérgio Porto. Espaço Cultural Sérgio Porto, Rio de Janeiro.

Espetáculo baseado nas crônicas jornalísticas

63 Três apresentações foram feitas na Sala Sidney Miller (rua Araújo Porto Alegre, 80) em 3, 4 e 5 de julho de 1991, dentro no projeto Espaço Vivo – A Ribalta das Escolas de Teatro, numa versão apenas musical da peça, intitulada Mambembe canta Mambembe (que seria retomada com outra ficha técnica em 2004 sob a produção de Ricardo Pavão). Nela, os atores cantavam e Amir Haddad narrava o enredo de Arthur Azevedo. Após a primeira apresentação, segundo o Jornal do Brasil de 3 de julho, houve a palestra “A modernidade do texto”, ministrada por Amir.

de […] Stanislaw Ponte Preta, que com seu humor irônico e crítico traça um panorama social, político e comportamental da vida carioca e brasileira.64

1992

A JURITI, de Viriato Corrêa. Direção: Amir Haddad. Com o grupo Tá na Rua. Espetáculo de rua, realizado em diversos locais da cidade do Rio de Janeiro.

RODA. Direção: Amir Haddad. Rio de Janeiro.

PRA QUE SERVEM OS POBRES?/FEBEAPÁ. Trechos das duas peças apresentadas pelo grupo Tá na Rua.

Direção: Amir Haddad. Teatro Glaucio Gill, Rio de Janeiro. Apresentações em 09/1992

MISQUÉCI. Texto, direção e interpretação: Pedro Cardoso. Texto e codireção: Amir Haddad. Ensaios abertos no Teatro Ipanema, Rio de Janeiro.

Além dos monólogos já em cartaz nos teatros cariocas, não param de estrear montagens com um só ator em cena. Começam no dia 29 os ensaios abertos, no Teatro Ipanema, de Misquéci, escrito, dirigido (em parceria com Amir Haddad) e interpretado por Pedro Cardoso. […].65

O DONO DA FESTA, de Pedro Cardoso. Direção: Amir Haddad e Pedro Cardoso. Cenário: Gringo Cardia. Vídeos: Marcelo Tas. Com Pedro Cardoso. Teatro Ipanema, Rio de Janeiro. Estreia: 06/11/1992.

O texto […] é de impressionante atualidade. O personagem se movimenta facilmente por

64 Licko Turle

[…] temáticas […] do homem contemporâneo: emociona-se e nos emociona, como alguns dos melhores e mais absurdamente humanos personagens de Barthes […], de Cioran […] e de um Borges […]. Para Pedro Cardoso, seu personagem é a mass media de si mesmo; desorganizado, sem sossego, referenciado pelo outro […]. É evidente o prazer do público e do ator. Já autores e, principalmente, encenadores, tendem a assisti-la com uma máscara de desconfiança e inquietação. […] Talvez o desconforto dos encenadores modernos diante desse tipo de ator se explique na advertência de Roubine: todas as teorias de encenação contemporânea, de Craig a Artaud, “têm por objetivo impor a autoridade absoluta do realizador sobre todos os elementos que contribuem para o espetáculo e, notadamente, sobre o ator.” […] Enfim, não uma relação paritária de artista para artista, mas […] nitidamente autoritária, em que o encenador estabelece o que é bom para o espetáculo e para o próprio ator […].66

O TEATRO CÔMICO, de Carlo Goldoni. Tradução: Renato Icarahy. Direção: Amir Haddad. Assistente de direção: Lula Braga. Cenografia e Figurino: Marco Antônio Palmeira e Patrícia Borsói. Iluminação: Wilson Reiz. Direção musical: Ricardo Pavão. Elenco: (atores da Casa das Artes de Laranjeiras): Alexandre Bretas, Andréa Azevedo [fazendo seu début como atriz], Andréia Pimentel, Anna Silveira, Carla Lima, Delano Avelar, Fernando Harstein, Gabriela Moraes, Luciana Mantuano, Neusa Kapolo, Paula Veras, Ronaldo Madruga e Vanessa Lyns. Paço Imperial, Rio de Janeiro. Temporada: 01 a 20/12/1992.

65 Macksen Luiz, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, nota Monólogo, seção Entreato, caderno B, p. 7.

66 Márcio Vianna, A aventura de um ator só no palco, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2 dez. 1992.

1993-4

A SAGA DA FARINHA Musical criado e dirigido coletivamente pelo grupo do Teatro da Uerj (Tuerj). Iluminação: Aurélio de Simoni. Coreografia: Wanderley Gomes. Direção musical: Caíque Botkay. Música: Paulo Moura, Gabriel Moura, Caíque Botkay e José Paulo Pessoa (bateria de escola de samba). Cenografia: Lafayette Galvão. Elenco: Amir Haddad, Claudia Borioni, Ricardo Petraglia, Alice Borges, Anselmo Vasconcellos, entre outros. Teatro da Universidade do Rio de Janeiro e Teatro Carlos Gomes. Estreia: 04/1994.

1993

FEBEAPÁ REVISITADO (FESTIVAL DE BESTEIRAS QUE

ASSOLA O PAÍS) OU O TREM TÁ ATRASADO OU JÁ

PASSOU, de Stanislaw Ponte Preta. Direção: Amir Haddad. Com o grupo Tá na Rua. Sonoplastia: Geraldo Torres. Produção e administração: Ivo Fernandes. Elenco: Ana Carneiro, Artur Faria, Bernardo Guerreiro, Lucy Mafra, Paulo Pereiras, Roberto Blake, Sandro Valério e outros. Centro Cultural Banco do Brasil, Teatro ii, Rio de Janeiro. Temporada: 02 a 12/03/1993.

O espetáculo Febeapá […] leva o grupo Tá na Rua […] a vários pontos da cidade neste fim de semana: sexta, às 16h, na Central do Brasil; sábado, às 19h, na Praça Serzedelo Correia (Copacabana); e domingo, às 16h, na Praça Garota de Ipanema (Arpoador). O espetáculo apresenta sete crônicas e outros casos de Febeapá […].67

BRASIL, MOSTRA A TUA CRÔNICA. Textos de Fernando Sabino, Carlos Eduardo Novaes e Sérgio Cabral. Direção: Ricardo Pavão.

Supervisão: Amir Haddad. Inauguração da Casa do Tá na Rua, no bairro da Lapa, Rio de Janeiro, em 26/08/1993. Elenco: atores da Casa das Artes de Laranjeiras (cal).

tá Na rua eM casa – O grupo Tá na Rua, um dos ocupantes da Quadra da Cultura […], inaugura no dia 26 de agosto, com a estreia de Brasil, mostra a tua crônica, um espaço para teatro. Com capacidade para 150 espectadores, a nova casa de espetáculos será aberta com montagem produzida pelo Grêmio Recreativo Cultural, dirigida por Ricardo Pavão e com supervisão de Amir Haddad. O elenco […], que pretende apresentar o país através de [crônicas] é composto por atores formados pela Casa das Artes de Laranjeiras.68

TURANDOT, última ópera de Giacomo Puccini (finalizada por Franco Alfano), com libreto de Giuseppe Adami e Renato Simoni. Direção geral e mise en scène: Nelson Portella. Regente: Maestro Romano Gandolfi. Maestros auxiliares: Talitha Peres, Otacílio Ferreira Lima Filho, Gilson Moura, Maria Antônia Nogueira. Cenário: Mário Monteiro. Figurinos: Mário Borriello. Direção musical: Maestro Sérgio Kuhlmann. Assistente de direção: Lucia Martini. Direção de figuração (comparsaria): Amir Haddad. Assistentes de direção de comparsaria: Ana Carneiro e Lucy Mafra. Coordenação: Ivo Fernandes. Assistente: Sula Villela. Criação de luz: Peter Gasper. Direção de produção: Marilene Gondim. Dopiones (substitutos dos solistas principais): Celinelena Ietto e Pedro Gattuso. Elenco (resumido): Paulo

Fortes, Rita Contijo, Licio Bruno, Marcos Menescal, Claudio Mascarenhas, Valdir Ribeiro, Daniel Muñoz, André Heller, Mirna Rubin,

67 Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 7-13 maio 1993, seção Agenda, p. 22.

68 Macksen Luiz, Tá na Rua em casa, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 7 ago. 1993, caderno B, p. 2.

Maude Salazar. Elenco da comparsaria (resumido): Malu Valle, Ursula Brando, Ricardo Pavão, Lucy Mafra, Roberto Black, Alessandra Oliveira, Ana Carneiro, Betina Waissman, Ivo Fernandes, Marcelo Orofino, Marcelo Vianna, Mariah da Penha, Rosana Prazeres, Roberto Nunes e outros. Praça da Apoteose/Sambódromo, Rio de Janeiro.

Amanhã, o templo do samba vira palco para o maior espetáculo cênico do mundo: a ópera. Até domingo, o público carioca poderá curtir na Praça da Apoteose, Turandot, de Giacomo Puccini, produzida por Nelson Portella. Orçada em us$ 750 mil, Turandot se desenvolve em 1800 metros quadrados, com 307 componentes: 93 músicos, 100 integrantes no coro, 20 cantores e 83 atores. Verdadeira superprodução. São esperadas 20 mil pessoas por espetáculo […]. No comando […] estão ainda Amir Haddad (direção de comparsaria), Sérgio Kuhlamnn (diretor musical), Mário Borriello (figurinista), Mário Monteiro (cenário) […]. Haddad diz que Turandot não ficará restrita ao palco. “Lançamos o espetáculo para a plateia, trabalhando alguns elementos com público. [A ópera] foi criada para ser apresentada ao ar livre, o que é difícil de executar. Procurei dar agilidade ao movimento dos coros e dos atores. Os atores, nas extremidades, alargam a ação do coro, que fica no centro”, explica Amir. […]. Depois [da pequena temporada carioca] o espetáculo viaja pelo Brasil, voltando ao Rio no início de 1994 […].69

1993-4

SEU DESEJO É UMA ORDEM, show músico-teatral

com canções de Chico Lá. Direção: Amir Haddad. Elenco: Chico Lá, André Munhoz, Mariah da Penha, Lucy Mafra e outros. Casa do Tá na Rua. Temporada: 1993 até 26/02/1994 70

1994

PIXINGUINHA, de Fátima Valença. Direção: Amir Haddad. Cenografia: Lidia Kosovski. Figurino: Ney Madeira. Iluminação: Renato Machado. Direção musical: Tim Rescala. Coreografia: Jaime Aroxa. Elenco: Drica Moraes, Fernando Eiras, Malu Valle e Marcelo Vianna. Músicos: Jayme Vignoli (cavaquinho e violão), Josimar Carneiro (violão 7 cordas), David Ganc (flauta, flautim e saxofone alto), Humberto Araújo (flauta, saxofone soprano, saxofone tenor), Oscar Bolão (bateria e percussão). Centro Cultural Banco do Brasil, Teatro ii, Rio de Janeiro. Temporada: 05 a 21/01/1994

Cabe agora ao diretor Amir Haddad mergulhar nas seis décadas de prolífica atividade artística do mestre Pixinguinha e recuperar uma parte importante não só da biografia de um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos como também jogar novas luzes sobre um dos períodos mais ricos da vida cultural do Rio de Janeiro e do Brasil […].71

FESTA DE REINAUGURAÇãO DO THEATRO

ALBERTO MARANHãO. Direção: Amir Haddad. Natal (rN).

1994-5

O AUTOFALANTE (encenado dois anos antes com

69 Jorge Luiz Brasil, Turandot reina no templo do samba, O Fluminense, Rio de Janeiro, 16 set. 1993

70 Show informando ser o último dia, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 fev. 1994, seção Agenda, caderno B, p. 5

71 Márcio Pinheiro, Pixinguinha é revisitado: estreia hoje musical que homenageia obra do compositor, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 5 jan. 1994, caderno B, p. 5.

o título O DONO DA FESTA), de Pedro Cardoso. Direção: Amir Haddad. Elenco: Pedro Cardoso. Teatro Hilton, Teatro Cândido Mendes e, anos depois, Teatro das Artes, no Shopping da Gávea, Rio de janeiro. Reestreia: 04/2007.

1995

O DIA DA CRIAÇãO, de Amir Haddad e Pedro Cardoso. Direção: Amir Haddad. Elenco: Pedro Cardoso, Amir Haddad, 38 atores do grupo Tá na Rua e formandos da Casa das Artes de Laranjeiras (cal). Cerimônia de entrega do Vii Prêmio Shell. Canecão, Rio de Janeiro, em 07/03/1995

As grandes estrelas de uma festa de entrega de prêmios são, obviamente, os premiados. Na festa do Vii Prêmio Shell para o Teatro Brasileiro, terça-feira à noite no Canecão, a história foi diferente: o homem de teatro mais celebrado da noite foi o veterano diretor Amir Haddad, que sequer concorria às premiações […]. Mas realizou o impressionante espetáculo Dia da criação, bolado especialmente para a festa. A montagem é uma alegoria da criação do mundo por Deus e da criação do teatro pelos profissionais do setor. O diretor Gabriel Vilella […] ficou impressionado com a inventividade do colega. […] Quase toda a classe teatral carioca estava presente, da atriz Renata Sorrah aos atores Sergio Britto e Marília Pêra (homenageados que entregaram os prêmios aos melhores atores), passando por Ary Fontoura, Louise Cardoso, Diogo Vilela, Domingos de Oliveira, entre outras estrelas. […] Numa premiação praticamente sem polêmicas, a única unanimidade da noite foi mesmo o show de Amir Haddad, que contou com cenas ousadas, como a reencarnação de Adão e Eva,

completamente nus para serem vestidos na hora, pelo melhor figurinista. O diretor saboreava o sucesso: “Acho que o espetáculo foi tão bom que pretendo ampliá-lo e montá-lo de novo no Teatro da Uerj. Além disso, a Shell está querendo fazer um catálogo com o texto e as fotos da montagem”, comemorava. O espetáculo de Amir, escrito e apresentado em parceria com o ator Pedro Cardoso – vestido de mulher –, realmente roubou a festa da premiação. Dia da criação […] funcionou como um suporte originalíssimo para a entrega dos prêmios. Cada uma das oito categorias incluídas na premiação foi precedida por uma história da respectiva atividade, comparada com a criação do mundo. A história do primeiro ato de Deus – “fazer a luz” –, por exemplo, introduziu a premiação do iluminador. […] Ao final, a maior fila de cumprimentos era justamente para Amir Haddad, que ganhou em prestígio, mesmo dos principais premiados.72

1995-6

CENAS DA SELVA E DA CIDADE. Direção: Amir Haddad para a romaria profana, antecedendo a Festa do Círio de Nazaré. Projeto Auto do Círio. Escola de Teatro da Universidade Federal do Pará/ Secretaria do Estado de Cultura do Governo do Pará, Belém (Pa).

ESTA NOITE SE IMPROVISA, de Luigi Pirandello. Adaptação: Álvaro de Sá. Direção: Amir Haddad. Cenografia: José Gomes. Figurino: Samuel Abrantes. Iluminação: Aurélio de Simoni. Direção musical: Charles Kahn. Elenco: atores formandos da Casa das Artes de Laranjeiras (cal): Bernardo Guerreiro, Aída de Oliveira, Ana Carla Dias, Ana Cuba, Ana Paula Cavalheiro, Cláudia Lopes, Ignes

72 Hugo Sukman, A peça que ninguém premiou: espetáculo de Amir Haddad supera o brilho das estrelas da noite de entrega do VII Prêmio Shell, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 9 mar. 1995, caderno B, p. 8.

Ferbes, Marcia Monteiro, Maria Amélia Martins, Mirna Cláudia, Otávio Teixeira, Renato Wiemer, Claudio Mendes e Will Magalhães. Participação especial: Amir Haddad (como o personagem

Diretor da Companhia). Teatro Carlos Gomes, Rio de Janeiro. Estreia: 17/04 a 10/05/1995

EXORBITÂNCIAS: UMA FARÂNDULA TEATRAL.

Inspirado nas obras dos autores Adélia Prado, Afonso Romano de Sant’Anna, Almodóvar, Anton Tchekhov, Beatriz Carolina Gonçalves, Caio Fernando Abreu, Campos de Carvalho, Carlos Drummond de Andrade, Castro Alves, Dalton Trevisan, Eduardo de Filippo, Fernando Pessoa, Haroldo Costa, Heiner Müller, Jorge Daniel, Marici Salomão, Patrícia Mello, Pierre Louis, Luigi Pirandello, Samuel Beckett, Thomas Bernard, William Blake, William Forbith e William Shakespeare. Direção geral: Antônio Abujamra. Direção de cenas: Amir Haddad, Ademar Guerra, André Correa, Beth Goulart, João Fonseca, entre outros. Com o coletivo Os Fodidos Privilegiados. Cenário e figurino: Charles Möeller. Iluminação: Milton Giglio. Elenco: Antônio Abujamra, Beth Goulart, Claudia Missura, Fernando Vieira, Guta Stresser, Sofia Torres e outros. Espaço Cultural Sérgio Porto, Rio de Janeiro.

1996

O MERCADOR DE VENEZA, de William Shakespeare. Tradução: Bárbara Heliodora. Dramaturgia: Paul Heritage. Direção de Amir Haddad (Prêmio Sharp). Assistentes de direção: Sérgio Luz e Lucy Mafra. Pesquisa: Ivan Capeller. Cenografia e figurinos: Hélio Eichbauer. Assistente de cenários e figurinos: Dedé Veloso.

Iluminação: Ivan Marques. Direção musical: Tato Taborda. Músicos do Quinteto Carioca de Metais: Lélio Alves (trombone) Luciano Oliveira (trompa), Alexandre Inácio (trompete). Preparação corporal:

Rossella Terranova. Joias: Ricardo Filgueiras. Adereços: Márcia Machado. Máscaras: Marcílio Barroco. Chapéus: Manuel Proa. Caracterização: Vavá Torres. Programação visual: Visiva. Direção de produção: Caio de Andrade (Atonal Comunicação). Produção executiva: Tereza Durante. Assistente de produção: Cleide Escobar. Elenco: Pedro Paulo Rangel, Maria Padilha, Deborah Evelyn, Tuca Andrada, André Stock, Angela Rebello, Cândido Damm, Henri Pagnoncelli, Ilya São Paulo (também tocando alaúde), Ivo Fernandes, Marcos Breda (também tocando bandolim), Maurício Gonçalves, Paulo Cruz etc. Centro Cultural Banco do Brasil, Teatro I, Rio de Janeiro. Temporada: de 12/01 a 10/03/1996 Teatro Municipal de Niterói. Estreia: 15/03/1996 (temporada de duas semanas).

MACBETH, de William Shakespeare. Tradução: Scarlett Moon, com versificação de Caíque Botkay, Gilberto Loureiro e Lafayette Galvão. Direção: Amir Haddad. Grupo do Teatro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Tuerj). Iluminação: Aurélio de Simoni. Elenco: Amir Haddad (Rei Duncan da Escócia), Claudia Borioni (Lady Macbeth), Ricardo Petraglia e outros. Teatro Nelson Rodrigues, Rio de Janeiro.

Há mais de três anos formando atores e plateias […], o Tuerj […] estreia neste domingo Macbeth […]. Para mostrar o lado popular [de] Shakespeare, o grupo formado por atores profissionais, estudantes da Uerj e moradores da comunidade, deixou de lado as traduções empoladas da obra e partiu para uma adaptação bem brasileira. […] “É um desafio grande mas se nós, que somos uma companhia fora do eixo comercial, não arriscarmos, quem vai fazer?”, pergunta Amir Haddad, um dos 27 diretores do grupo. No palco do Nelson

Rodrigues os 62 atores do Tuerj contam a tragédia de Macbeth […]. Para a confecção dos figurinos foi usado material reciclado. Há desde armaduras feitas com anéis de metal de latas de refrigerantes até saias de guerreiros produzidas com cobertores. “Pode até ser bonito, mas não estamos preocupados com o lado estético do espetáculo, mas com o ideológico”, diz Amir.73

NA VILA DE VITÓRIA, auto de José de Anchieta. Direção: Amir Haddad. Cidades de Anchieta e Vitória (es).

1997

A AVENTURA DO TEATRO Texto e direção: Emmanuel Santos, a partir de livro de Maria Clara Machado. Supervisão: Amir Haddad. Teatro Glaucio Gill. Estreia: 08/03/1997

CABARÉ TÁ NA RUA. Criação coletiva do Grupo Tá na Rua. Direção: Amir Haddad. Casa do Tá na Rua, no bairro da Lapa, Rio de Janeiro.

A turma da peça […] investe numa festa romântica brega. Os dJs Nery e Turcano tocam tangos, boleros e salsa enquanto os atores do espetáculo fazem performances 74

O novo espetáculo do Tá na Rua já tem data para estreia. Mas, antes do dia 12/03, quando entra em cartaz, Cabaré Tá na Rua, uma casa de diversão poderá ser visto pelo público. O espetáculo dirigido por Amir Haddad terá uma pré-estreia festiva amanhã, às 21h, na qual serão apresentadas cenas e performances musicais. Na próxima semana, nos dias 4 e 5, haverá ensaios abertos, às 19h. A curta

temporada será de 12 a 27 de março, sempre às quartas e quintas-feiras, às 19h.75

AUTO DE NATAL, baseado em poema de Patativa do Assaré. Direção: Amir Haddad. Fundação José Augusto, Secretaria de Estado de Cultura do Governo do Rio Grande do Norte (rN); Secretaria Municipal de Cultura, Anchieta (es) e Secretaria Municipal de Cultura, São José do Rio Preto (sP).

1997-8

NOITE DE REIS, de William Shakespeare. Tradução: Jorge Wanderley. Dramaturgia Paul Heritage. Direção: Amir Haddad (indicação ao 3º Prêmio Cultura Inglesa de Teatro). Cenário: Hélio Eichbauer. Figurino: Biza Vianna (indicação ao Prêmio Cultura Inglesa). Direção musical e trilha sonora: Tim Rescala. Iluminação: Aurélio de Simoni. Preparação corporal: Rossella Terranova. Elenco: André Gonçalves, Bernardo Guerreiro, Cláudia Abreu (indicação ao Prêmio Cultura Inglesa), Cláudio Mendes, Daniel Dantas, Érico de Freitas, Felipe Rocha, Ivo Fernandes, João Grilo, Malu Valle, Marcelo Vianna, Pedro Cardoso (indicação ao Prêmio Cultura Inglesa), Renata Sorrah, Sandro Valério, Tonico Pereira (Prêmio Cultura Inglesa) e outros. Centro Cultural Banco do Brasil, Teatro I, Rio de Janeiro. Estreia: 09/1997. Temporada no Teatro Carlos Gomes, Rio de Janeiro, de 08/01/1998 até 15/02/1998.

1998

DESABRIGO, de Antônio Fraga. Adaptação e direção: Amir Haddad. Elenco: Pedro Cardoso, Antonio Pedro, Andréa Dantas, Anselmo Vasconcellos, Ivo Fernandes, Roberto Black

73 Shakespeare traduzido para o cordel, Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 15-21 nov. 1996

74 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16-22 maio 1997, seção Para dançar.

75 Tribuna da Imprensa/Tribuna Bis, Rio de Janeiro, 28 fev. 1997, box Acontece, nota Pré-estreia, p. 6.

e outros.76

O espetáculo, que deve ser apresentado nos Arcos da Lapa, dentro do Rio Cena Contemporânea no segundo semestre desse ano, já está todo esboçado na cabeça do diretor. […] Desabrigo fala da decadência do Mangue, da região do baixo meretrício e da Lapa. […] Nos anos [19]40, a Lapa agonizava. Fraga conta a história de um dos últimos malandros da região e de seu sugestivo nome: Desabrigo. […] “[O autor] foi uma espécie de Guimarães Rosa da marginália e, por isso, a adaptação para o teatro não foi fácil. Por outro lado, os tipos de Fraga são excepcionalmente afeitos ao palco”, diz Amir. […] O diretor foi apresentado a Antônio Fraga nos últimos anos de vida do escritor pelo cineasta Luiz Carlos Prestes Filho. “Conversávamos muito no Centro Cultural José Bonifácio, na Gamboa, na época dirigido pelo Luiz Carlos e ocupado pelo tNr. Depois que ele morreu, quis homenageá-lo […] É claro que pesou o fato de Fraga falar com paixão do bairro que abrigou o Tá na Rua. “Ele disseca de forma original o bairro que amo. Para se ter

uma ideia, um dos personagens é um poste da Light que conversa com as pessoas em inglês. […]”, conta. […] “Hoje percebo que decidi encenar Desabrigo principalmente por este poder que Fraga tem de revelar a força da língua portuguesa. Longe de qualquer dramaticidade forçada, ele vivia na língua a paixão do tempo presente […]”, poetiza Amir.77

GALVEZ, IMPERADOR DO ACRE Dramaturgia: Luiz Carlos Góes a partir do romance de Marcio Souza. Direção: Amir Haddad. Figurino: Samuel Abrantes. Iluminação: Lucia Chediek. Elenco: atores profissionais locais e amadores oriundos de oficina dada por Amir por cerca de 6 meses em Belém do Pará. Teatro da Paz, Belém, de 07 a 14/11/1998.

O diretor da peça, Amir Haddad, tem uma capacidade especial em lidar com a realidade. Uma curiosidade que descobre detalhes, valoriza atitudes e aproveita ao máximo o lado interessante das coisas, da verdade e beleza que as pessoas podem ter. […] Olhos atentos deverão lembrar por bastante tempo o pássaro na festa de D. Irene, os barcos navegando à

76 Segundo Amir Haddad, o espetáculo foi abortado às vésperas da estreia, provavelmente por falta de patrocínio. Por ter sido inteiramente concebido, Amir julgou-o, entretanto, como trabalho finalizado, razão pela qual solicitou que constasse nesta cronologia.

77 (Uma obra à espera de ser descoberta: Amir Haddad ensaia peça do escritor, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 13 jan. 1998, caderno B, p. 2.) Sobre o escritor, o jornal informava na página anterior: “Capítulo de luxo em qualquer compêndio sobre a literatura brasileira, a Geração de 45, marcada profundamente pela Segunda Guerra Mundial e pela ditadura varguista, é cultuada por ter apresentado ao público medalhões como Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector. Quatro anos depois de morrer esquecido no município de Queimados, na Baixada Fluminense, o carioca Antônio Fraga, um dos escritores mais importantes desta mesma geração, ressurge das cinzas com a dramatização de seu romance Desabrigo pelo diretor Amir Haddad, a realização de um musical de Hélio de Assis sobre o mesmo texto e, principalmente, o lançamento de toda sua obra pela editora Relume-Dumará. Uma das mais exatas e belas radiografias do antigo centro da cidade […] chega às livrarias este semestre, com um imperdoável atraso de cinco décadas. […].” (Eduardo Graça, O porta-voz da marginália, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 13 jan. 1998, caderno B, p. 1.)

noite, os 11 filhos de Nilza Maria […]. Como é bonita aquela movimentação entre os atos ritmada por um lundu, por um carimbó ou can-can, ocupando todo o palco como chuva lavando o chão… (deve ser difícil orquestrar tanta desordem). As sequências de dança entre as cenas estão como que a ligar um cortejo, típico do teatro medieval católico e renascentista. Antes da Reforma Protestante o teatro era o evangelho vivo, mas também crítica social e instrumento de educação. É essa referência que pontua todo o espetáculo cujo reforço está na presença do narrador […]. Como narrativa épica, Galvez remete-nos à tradição popular, a um certo improviso. […] Amir lançou um olhar sobre a Amazônia que não é só o inscrito no romance de Márcio Souza […], mas fruto de oficinas desenvolvidas ao longo da preparação do espetáculo. Galvez é uma obra coletiva […].78

AUTO DE NATAL, cortejo dramático e encenação do poema “Um auto de Natal”, do autor nordestino Racine Santos. Direção: Amir Haddad. Capitania das Artes, Secretaria Municipal de Cultura de Natal (rN).

1998-9/2004-5/2009

OS IGNORANTES. Texto e direção: Pedro Cardoso. Supervisão: Amir Haddad. Cenário e figurino: Gringo Cardia. Trilha sonora e músicos: Maria

Thereza Madeira e Rodolfo Cardoso; Bolão (percussão), Rui Alvim (clarinete), entre outros. Com Pedro Cardoso. Teatro do Leblon, Sala Marília Pêra, Rio de Janeiro: 09/1998. Teatro Nacional, Sala Villa-Lobos, Brasília: 10 e 11/06/2005

Teatro Fashion Mall, Rio de Janeiro: 09/2009. O monólogo […] elaborado […] a partir do

cordel Os ignorantes, de José de Oliveira, chega ao Teatro do Leblon […] com a inevitável expectativa do público, sedento por sonoras gargalhadas. […] Foi assim […] em sua primeira investida no país dos monólogos ao interpretar O autofalante, e lá se vão 16 anos, com direção de Amir Haddad, hoje responsável pela supervisão […].79

1999

GALHOFAS E GARGALHADAS MACHADIANAS: O RIO DE JANEIRO DE MACHADO DE ASSIS, de Amir Haddad. Direção de arte: Rosa Magalhães. Coreografia: Angel Vianna. Direção musical: Marcos Leite. Elenco: grupo Tá na Rua, Amir Haddad, Pedro Cardoso. Confeitaria Colombo e Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro. No dia 19/04/1999 ocorreu o pré-lançamento do espetáculo, que integrou as celebrações pelos 160 anos de Machado de Assis. Zezé Motta e Ivone Hoffmann entrariam em apresentação futura.

A comemoração de um aniversário acabou se transformando num presentão para os fregueses da Confeitaria Colombo na tarde de ontem. Quem estava na casa tomando chá por volta das 17h teve direito a ganhar um pedaço de bolo e a cantar parabéns para um aniversariante para lá de ilustre: o escritor Machado de Assis –personificado pelo ator Amir Haddad […]. Vestido com roupas de época, Amir […] bebeu champanhe, comeu bolo e circulou pela Colombo em companhia da mulher, Carolina de Assis, e dos amigos Olavo Bilac e José do Patrocínio. A encenação […] agradou ao público, que pôde até conhecer o fundador da Colombo, o português Manuel Lebrão, vivido por Cláudio Mendes. […] Da Colombo os atores foram para a abl num carro

78 Andréa Sanjad, Os méritos de Galvez, O Liberal, Belém, 19 nov. 1998.

79 Eduardo Graça, Os ignorantes, estreia esperada, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 3 set. 1998.

do Corpo de Bombeiros. Lá houve outra festa com direito a banda, coquetel e discursos de Machado de Assis. O evento, promovido pelo Secretaria Municipal de Cultura e pela Abl, foi idealizado pela pesquisadora Heloise Montenegro […].80

“No meu tempo era mais fácil. Bastava um empreguinho público para poder escrever à vontade. Hoje, para fazer arte, é preciso captar”, reclamava, entre um biscoito e outro, o Machado de fraque e cartola incorporado por Haddad.81

UM GOSTO DE MEL (A taste of honey), de Shelagh Delaney. Direção: Amir Haddad. Direção musical: Ricardo Pavão. Música ao vivo com quarteto de violões, teclado, baixo e bateria (20 canções).

Cenografia: Lídia Kosovski. Figurino: Samuel Abrantes. Maquiagem e cabelo: Carlinhos Mello. Elenco: Juliana Teixeira, Tamara Taxman, Delano Avelar, Fernando Almeida e Paulo Pereira. Sesc Copacabana, Arena, Rio de Janeiro. Estreia: 16/07 a 12/09/1999.

O diretor teatral Amir Haddad assistiu à peça Um gosto de mel pela primeira vez há 40 anos. Detestou.82 Escrita pela inglesa Shelagh Delaney na década de 1950, a peça rompeu com ditames da época, foi sucesso de público e crítica. A montagem brasileira, porém, fez o diretor sair83 com a sensação de que não vira nada de mais. Agora Amir resolveu resgatar a modernidade do texto. Adaptou-o e dirige a nova montagem […]. Na encenação de Amir,

em vez de na cidade de Lancashire, a história se passa na Copacabana dos anos 1960. 84

1999-2000

AUTO DA LIBERDADE, de Joaquim Crispiniano

Neto. Dramaturgia: Amir Haddad (roteiro escrito por encomenda de Amir Haddad). Direção: Amir Haddad. Produção e assistência de direção: Ricardo Pavão. Produção executiva: Toinha Lopes. Sonoplastia: Roberto Black. Figurino: Lucy Mafra. Treinamento feito por componentes do Tá na Rua (Lucy Mafra, Ana Carneiro, Ricardo Pavão etc.).

Cortejo a céu aberto com mais de 300 atores profissionais e amadores locais, atuando em 3 carros alegóricos produzidos pela própria equipe, gerida por Ricardo Pavão. Mossoró (rN).

2000

CAPIXABAÉCHIQUE. Espetáculo de poesia. Direção: Amir Haddad. Teatro Rival, Cinelândia, Rio de Janeiro. Com Elisa Lucinda. Estreia: 21/02/2000.

DESFILE BRASIL 500 ANOS. Direção cênica: Amir Haddad no desfile cívico que marcou as comemorações dos 500 anos da nossa história, em Salvador, no dia 23 de abril, retratados com base num roteiro elaborado por três historiadores baianos. Com a coordenação geral de Rosa Magalhães. Realização: Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura e Turismo.

80 Tarde com Machado: atores revivem o passado em festa para escritor, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22 jun. 1999, caderno Cidade, p. 22

81 Denise Lopes, Machado de Assis de volta ao Rio: Grupo Tá na Rua revive o escritor em chá na Colombo e discurso na Academia, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21 abr. 1999, caderno B, p. 8

82 Talvez, não à toa, já que foi a peça que encerrou as portas do TBC

83 Sair do TBC, em 1960, onde atuavam Nathalia Timberg, Leonardo Villar e Amélia Bittencourt.

84 Gostinho diferente, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 jul. 1999, caderno B, p. 9.

FEIRA DE CULTURA DE MACAPÁ. Direção: Amir Haddad do cortejo artístico-cultural da cidade nas ruas de Macapá. Realização: Governo do Estado do Amapá.

AUTO DE NATAL – MEU CARO JUMENTO. Direção: Amir Haddad da celebração popular do último réveillon do milênio, no Forte de Macapá. Realização: Governo do Estado do Amapá.

2000-2

O AVARENTO, de Molière. Tradução: Bandeira Duarte. Direção: Amir Haddad. Cenografia: Lídia Kosovski. Adereços e figurino: Ney Madeira. Iluminação: Aurélio de Simoni. Direção musical e trilha sonora: Tato Taborda. Música: Kiko Horta e Queca Vieira. Coreografia: Rossella Terranova. Elenco: Tonico Pereira (Harpagon, Prêmio Governador do Estado), Alessandra Negrini, Dira Paes, André Gonçalves, Angela Rebello, Daniel Rolim, Emilio de Melo, Gaspar Filho, Ivo Fernandes, Leonardo Vieira, Sandro Valério e Xando Graça. Estreia: 26/05 a 27/08/2000 no Centro Cultural Banco do Brasil, Teatro I, Rio de Janeiro. Em cartaz no Teatro Sesi até 03/02/2002 (nova temporada).

SÓ A VERDADE SALVA, de Racine Santos. Direção: Amir Haddad. Com o grupo Tá na Rua. Rio de Janeiro.

O espetáculo é concebido como uma imensa encenação comunitária, dentro de uma concepção espetacular original desenvolvida por Haddad junto ao tNr, denominada liturgia carnavalizada, e que envolve grande número de cidadãos na realização do espetáculo.85

85 Licko Turle, op. cit.

86 Licko Turle, op. cit.

2001

FEIRA DE CULTURA DE MACAPÁ. Direção: Amir Haddad do cortejo artístico-cultural da cidade nas ruas de Macapá com a exposição da Feira do Psda. Realização: Governo do Estado do Amapá.

IV FESTIVAL DE ARTES DE GOIÁS VELHO. Direção:

Amir Haddad do espetáculo de abertura do Festival de Artes de Goiás a partir da festa profana do “Fogaréu” nas ruas da cidade de Goiânia.

Realização: Agepel – Agência Goiana de Cultura

Pedro Ludorico Teixeira.

2001-2

MãO NA LUVA, de Oduvaldo Vianna Filho. Direção: Amir Haddad. Cenografia: Hélio Eichbauer. Iluminação: Maneco Quinderé. Elenco: Maria Padilha e Pedro Cardoso. Teatro dos 4, Rio de Janeiro, de 24/08 a 28/10/2001. Com Tuca Andrada. Teatro Nacional, Sala Villa-Lobos, Rio de Janeiro, em 02 e 03/05/2002.

A REVOLTA DE SãO JORGE CONTRA OS INVASORES

DA LUA, de Erotildes Miranda dos Santos. Direção: Amir Haddad. Com o grupo Tá na Rua. Anfiteatro dos Arcos da Lapa, Rio de Janeiro.

Temporada: 14 e 15/12/2002.

Peça baseada em literatura de cordel que conta a chegada de três astronautas americanos que aportam na Lua e se encontram com São Jorge, que os expulsa de lá com sermão e espada, tendo como pano de fundo a corrida armamentista e a polaridade entre Estados Unidos e União Soviética durante a Guerra Fria.86

2002

A PAZ, de Aristófanes. Tradução: Mario da Gama Kury. Adaptação e dramaturgia: Álvaro de Sá.

Direção: Amir Haddad. Assistência de direção: Lucy Mafra. Cenografia: Nello Marrese. Adereço: Márcia Marques. Figurino: Filomena Mancuzo.

Iluminação: Wilson Reiz. Direção musical: Ricardo Pavão. Elenco: 20 atores formados pela Casa das Artes de Laranjeiras (cal): Agnes Leal, Bárbara Gmeiner, Beatriz Campos, Bianca Bulcão, Daniel Rolim, David Lima, Eliane Vantini, Fabiene Rangel, Geovanna Pires, Gisele Alves, Janaína Bastos, José Paulo Sagga, Mariana Costa

Pinto, Mariana Marciano, Naiara Bolpetti, Fernando Rodrigues, Rafael Bellard, Renata Beltrame, Renata Maior, Renato de Sousa, Thuane Rocha e Vinícius Ferreita. Teatro Glaucio

Gill. Temporada: 04 a 28/04/2002. Espetáculo em comemoração aos 20 anos da cal.

Em clima de comédia grega, o diretor [Amir Haddad] prepara surpresas para interagir com o público. Por exemplo, para entrar pela porta que leva ao caminho da paz, os atores contam com a ajuda do público que, com cordas, puxam a porta de três metros até que ela seja derrubada. Na peça, a paz está presa em uma caverna e a humanidade dominada pela guerra e pela desordem. Para pedir ajuda ao céu [para que a Paz seja libertada], um simples homem do campo vai aos deuses. Quando chega, a surpresa: o céu está vazio e os deuses foram embora horrorizados com os conflitos da humanidade […].87

CIDADEZINHA QUALQUER, de Pedro Antônio Paes e Walter Daguerre, a partir de três poemas de Carlos Drummond de Andrade (sobre amor,

memória e religiosidade). Direção: Amir Haddad. Iluminação: Aurélio de Simoni. Quadrilha Companhia de Teatro. Teatro Sesi, Rio de Janeiro. Estreia: 24/10 a 22/12/2002

De três poemas de Carlos Drummond de Andrade – Cidadezinha qualquer (1930), Os dois vigários (1962) e Quadrilha (1930) –, Pedro Antônio Paes e Walter Daguerre compõem a narrativa do espetáculo […], que costura com a presença de um homem em cena, pronto a ser levado por um anjo, as memórias recolhidas numa mala de viajante. […]. Amir Haddad investiu numa encenação despojada, sem artifícios ou pirotecnia, buscando reproduzir a singeleza poética do texto. O diretor acondiciona a montagem no cenário de uma certa melancolia, tratando aquelas pequenas vidas soltas num passado mítico com “ingenuidade” retirada da relação com uma geografia de afetos. […] Haddad utiliza cantigas de roda e canções religiosas, dando ao espetáculo contorno “regional” […].88

VIVA TEATRO. Cordenação e execução: Amir Haddad, para o Festival realizado nas ruas da cidade de Armação de Búzios.

Realização: Prefeitura Municipal de Armação de Búzios (rJ).

2003

O CASTIÇAL, de Giordano Bruno. Tradução: Jorge Wanderley. Direção: Amir Haddad. Iluminação: Aurélio de Simoni. Elenco: Amir Haddad, Mariah da Penha, Angela Rebello, Leonardo Bricio, Nelson Portella (barítono), entre outros (25 atores). Teatro Carlos Gomes, Rio de Janeiro. Temporada: 13/02 a 06/04/2003

87 Os caminhos para a paz, Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 26 abr.-2 maio 2002 p. 58. 88 Macksen Luiz, Memórias na mala de um viajante, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 nov. 2002.

Pela primeira vez chega a um palco latino-americano O castiçal, único texto dramatúrgico do filósofo, astrônomo e matemático Giordano Bruno (1548-1600), visionário napolitano que acabou queimado na fogueira, acusado de heresia pelo Santo Ofício. Apresentado ao texto pelo professor italiano Camilo Bonani, o diretor Amir Haddad logo se apaixonou pela peça e tratou de se encarregar da primeira montagem brasileira, assinando a direção e encabeçando o elenco. […] O castiçal […] narra um dia da vida de um bando de marginais napolitanos que sobrevivem de aplicar golpes em cidadãos endinheirados. […].89

2003-6

DAR NãO DÓI, O QUE DÓI É RESISTIR ou EM PAZ

COM A DITADURA. Direção: Amir Haddad. Criação coletiva do grupo Tá na Rua (pesquisa de textos, iluminação, ambiência cênica, figurino, sonoplastia, produção e realização). Sonoplastia: Roberto Black. Elenco: Amir Haddad, Licko Turle, Ricardo Pavão, Alessandro Perssan, Alexandre Santini, Clara Soria, Bárbara Astro, Miguel Campelo, Daniel Rolim. Projeto Porto dos Palcos (Armazém do Rio, Avenida Francisco Bicalho, Armazém 5 e Praça Mauá), em 1/2004. Palácio Capanema, de 31/03 a 02/04/2004 e Circo Voador, em 09/2004, e outros. (O espetáculo integrou ainda o evento “1964-2004: 40 anos de resistência cultural”, que traçou um panorama dos principais acontecimentos políticos, culturais e artísticos da vida brasileira neste período.)

2004

MAMBEMBE CANTA MAMBEMBE, sobre texto de Arthur Azevedo. Direção: Amir Haddad. Produção: Ricardo Pavão (Camarote Brasil). Adereços e cenografia: Carlos Nunes. Figurino: Biza Viana. Iluminação e operação de luz: Aurélio de Simoni. Música: José Pizza e Ricardo Pavão. Elenco: Amir Haddad, Ricardo Pavão, Teresa Seiblitz, Eron Cordeiro, Angela Rebello, Xando Graça, Sérgio Cleto, Geovana Pires, Miguel Campelo, Alessandro Perssan, Fernando Rodrigues e outros. Teatro Villa-Lobos, Armazém 5 do Cais do Porto, lonas de cultura, Rio de Janeiro.90

Idealizado pelo gestor da Rede Municipal de Teatros, Miguel Falabella, o megafestival de teatro tem início nesta quinta-feira, no Armazém 5 do Cais do Porto. Para o evento, foram selecionados, entre 520 concorrentes, 52 espetáculos, 39 adultos e 13 infantis. Foram montados no local quatro teatros, todos réplicas de navios: o Italiano Grande (de 400 lugares), o Italiano Pequeno (de 200), o Arena Grande (de 160) e o Arena Pequena (de 60). Além das apresentações, o evento contará com praça de alimentação, livraria e bazar. De quinta a domingo, sessões [de diversas peças, entre elas] O mambembe, espetáculo de Amir Haddad [produzido por Ricardo Pavão] com elenco que reúne, entre outros, Teresa Seiblitz e Leonardo Vieira (21h) […].91

SANTO ANTÔNIO E A SEREIA DO MAR. Adaptação do grupo Tá na Rua para o Cordel de Mivelino F. Silva,

89 Rachel Almeida, Sensualidade e humor na boca do povo, Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 14-20 fev. 2003, p. 30

90 Diferentemente do Mambembe canta mambembe formado pelo mesmo elenco da formatura da CAL de 1991, apresentado na Sala Sidney Miller em 1991, esta produção da empresa de Ricardo Pavão incorporou atores do elenco original, além de artistas do Tá na Rua e outros profissionais.

91 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 9-15 jan. 2004.

originalmente chamado Antônio de Lisboa e a sereia do fundo do mar, no contexto das comemorações do 196º aniversário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. A apresentação ocorreu no galpão do Solar da Imperatriz, às 13h. Entrada franca.92

2005-25

A ALMA IMORAL, a partir do livro homônimo de Nilton Bonder. Adaptação, roteiro e concepção cênica: Clarice Niskier (Prêmio Shell 2007 de Melhor Atriz). Supervisão: Amir Haddad. Cenário: Luiz Martins. Figurino: Kika Lopes. Iluminação: Aurélio de Simoni. Com Clarice Niskier. Leituras em 2005. Temporada de estreia: 21/07 a 13/08/2006, Espaço Sesc Copacabana, Sala Multiuso, Rio de Janeiro. Temporadas diversas no eixo Rio-São Paulo e por todo o Brasil, em muitos espaços, ressaltandose a frequência no Teatro Eva Herz – sP (dentro da Livraria Cultura da avenida Paulista). A peça se mantém em cartaz por mais de 18 anos.

A atriz e roteirista Clarice Niskier pôs o ponto final na adaptação para o teatro do livro A alma imoral, do rabino Nilton Bonder. “O livro é extraordinário. Desconstrói e reconstrói os conceitos de corpo e alma, traidor e traído. É um livro corajoso que aproxima religião e biologia, tradição e traição, clone e mutante”, diz Clarice, que fará leitura do texto, dia 2, no Teatro Tablado, com a presença do autor da obra. A artista, aliás, tem feito leituras do texto em casas de amigos e para plateias de até 80 pessoas, como no caso do auditório da Livraria da Vila, em Sampa, cidade na qual repetirá a dose, hoje, na empresa Philarmonia Brasileira.93

2007

BRINCANDO EM CIMA DAQUILO, de Dario Fò e Franca Rame (composto ainda de três histórias: Uma mulher sozinha; Volta ao lar e Temos todas a mesma estória). Direção: Otávio Müller (primeira direção do ator). Supervisão e dramaturgia: Amir Haddad. Cenografia: Bia Lessa. Figurino: Claudia Kopke. Iluminação: Samuel Betts. Trilha sonora: Dany Roland. Preparação corporal: Dani Lima. Elenco: Debora Bloch (primeiro monólogo da atriz). Ensaios abertos no Teatro da Universidade Federal Fluminense (uFF), Niterói, em 23, 24, 29 e 30/06/200794. Teatro dos 4, 07/2007 e 08/2007 (até 5/08). Teatro Nacional, Sala Villa-Lobos, Brasília: 27 e 28/10/2007

O projeto reúne na ficha técnica dois diretores em funções diferentes da de encenadores: Amir Haddad, na dramaturgia, e Bia Lessa como cenógrafa. “Sempre admirei o Amir, inclusive já trabalhamos juntos como atores e ele teve uma generosidade imensa neste trabalho. […] Amir é meu mestre, sempre aprendo muito com ele” [diz Debora Bloch]. […]. Na dramaturgia, Amir fez um trabalho de compreensão do texto e dos autores do espetáculo. “Dario Fò e Franca Rame fazem uso da improvisação e estabelecem o contato direto com o público, características essenciais ao teatro que recupera a vida, sem ser sagrado. […] “Acredito que toda mulher adoraria que o homem assistisse a essa peça, pois ela abre uma reflexão em torno do relacionamento homem e mulher de forma muito espontânea. […]95

92 Florença Mazza, Quase um bicentenário de curiosidades: Jardim Botânico comemora 196 anos e preserva memória do Brasil Colônia, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 13 jun. 2004, caderno Cidade, p. A20

93 Heloisa Tolipan, Cult hebraico, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 24 jun. 2005, caderno B, p. B10

94 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 28 jun. 2007; O Fluminense, Niterói, 23 jun. 2007.

95 Márcia Erthal, Mais atual impossível, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 27-9 jul. 2007.

2007-8

UM BOÊMIO NO CÉU, de Catulo da Paixão Cearense. Dramaturgia e direção: Amir Haddad. Cenografia: Hélio Eichbauer. Figurino: Biza Vianna. Iluminação: Aurélio de Simoni. Direção musical: José Maria Braga. Músicos: Deyvisson de Vasconcelos (clarineta), Adriano Palma (violão) e Marcos Tannuri (cavaquinho). Elenco: José Mayer, Antonio Pedro Borges, Aramis Trindade e Kátia Brito. Teatro Villa-Lobos, Rio de Janeiro. Estreia: 17/08/2007. Teatro Popular de Niterói: de 05 a 14/10/2007.

Aos 70 anos, o mineiro Amir Haddad sabe que está na moda, mas não gosta disso. Diretor de Um boêmio no céu […] que estreou ontem no Teatro Villa-Lobos, em Copacabana, está emendando um trabalho atrás do outro. [São citados: A alma imoral; Brincando em cima daquilo; O autofalante; e Auto dos angicos]. […]

“Às vezes, a direção pode ser uma prisão, onde você tem que lidar não só com a arte mas com questões burocráticas: mercado, prazos, procedimentos, hierarquias…”, analisa Haddad.

“E eu gosto é de administrar as liberdades alheias. É muito gostoso quando um ator chega ao teatro sabendo o que quer. Quando analisamos juntos como levar determinado texto à cena”.96

Um trabalho com alma brasileira. É assim que o ator José Mayer define Um boêmio no céu, […] que estreia no dia 05/10 no Teatro Popular de Niterói. O texto foi encontrado por Vera Fajardo, mulher de Mayer, em um sebo de livros, há 10 anos. De lá para cá, o ator idealizou e elaborou o projeto, preservando a ideia dos holofotes até que ficasse pronta. […] Para o ator,

que completa 40 anos de carreira em 2008, a identificação do público com a peça se deve aos elementos da alma e da identidade brasileira presentes no texto. O poeta maranhense […] é mais conhecido por sua canção Luar do sertão, um hino ao Brasil telúrico do interior […].97

VIRGULINO

FERREIRA E MARIA DE DÉA: AUTO DE ANGICOS, de Marcos Barbosa. Dramaturgia e direção: Amir Haddad. Produção: Marcos Palmeira. Cenografia e figurino: Nello Marrese. Iluminação: Paulo César Medeiros. Trilha sonora: Caíque Botkay. Elenco: Adriana Esteves e Marcos Palmeira. Espaço Sesc, Mezanino, Rio de Janeiro. Temporada carioca: 19/10 a 09/12/2007. Teatro da Universidade Católica (Tuca), São Paulo, temporada paulistana: 27/03 a 1º/06/2008. Teatro Nacional, Sala Villa-Lobos, Brasília: 09/2008

Em agosto, quando começaram os ensaios […], Marcos Palmeira e Adriana Esteves foram informados pelo diretor Amir Haddad que, para ele, não bastava uma exibição de seus dotes como atores em cena. Para viver Lampião e Maria Bonita, seria preciso elaborar uma visão crítica do mundo, sempre discutida em equipe. Sem melindres, ambos dizem que cumpriram a tarefa na preparação da peça, que estreia nessa quinta-feira para convidados no Espaço Sesc, em Copacabana, depois de fins de semana de aquecimento em Duque de Caxias, Petrópolis e Niterói. […] Num processo de ensaios desafiador, seguindo a linha politizada do diretor, a sintonia entre os atores ajudou. […] “Fujo dessa naturalidade postiça das novelas”, observa Haddad. “E da tendência do teatro atual de olhar

96 Rachel Almeida, Em cena, a força de Amir: requisitado diretor nega que esteja na moda, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 ago. 2007.

97 Tála Rocha, José Mayer leva a alma brasileira para o palco, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 set. 2007.

para o próprio umbigo, do psicologismo ou existencialismo. Minha ambição são os épicos. Só falo do particular para denunciar um quadro social abrangente.” […] “Estudei muito – revela [Adriana]. Posso dizer que em 37 anos de vida e 18 de carreira nunca passei por dois meses tão enriquecedores. Para o Amir, o teatro é um exercício de se abrir os horizontes.”98

Não nos interessa […] a reprodução caricata ou ‘realista’ de Lampião. Não é nem a cartucheira nem o chapéu de aba virada que nos atraem, mas sim saber que todo o imaginário brasileiro é preservado pela saga desse herói bandoleiro, misto de bandido e justiceiro, amado pelo povo cada vez mais e temido pelas elites que dominavam e controlavam as terras do Nordeste.99

MEMÓRIA TÁ NA RUA Textos: grupo Tá na Rua.

Dramaturgia: Alexandre Santini. Direção: Amir Haddad. Figurino: Miguel Campello. Direção musical: grupo Tá na Rua. Sonoplastia: Alessandro Perssan. Elenco: Aldo Perrota, Alessandro Perssan, Alexandre Santini, Ana Cândida Baesso, Herculano Dias, Ingrid Medeiros, Letícia Almeida, Licko Turle, Mery Alentejo, Miguel Campello, Mônica Saturnino, Tathiane Mattos. Teatro Carlos Gomes, Vitória, em 18/10/2008

A peça revela momentos marcantes da vida brasileira e mundial das últimas décadas. Como numa trouxa de retalhos, o espetáculo apresenta um panorama de acontecimentos variados que vão desde o desfile da Beija-Flor

em 1989 até o assassinato do presidente chileno Salvador Allende. A ordem de cenas era definida por meio de um sorteio em que a plateia retirava de uma cartola fragmentos de memórias. De dentro dessa cartola as cenas se revelam a partir de letras de canções populares, fatos históricos nacionais ou não, referências teatrais etc. Não há nenhum compromisso com a linearidade ou as unidades de tempo, lugar e ação. Estreou em 2007 e é, segundo Amir, um avanço dramatúrgico importante para o grupo após a montagem de Dar não dói…100

2008

LAVANDO A ALMA, de Thalita Carauta. Direção: Rodrigo Sant’Anna. Supervisão: Amir Haddad. Elenco: Thalita Carauta. Teatro Cândido Mendes, Rio de Janeiro.

[Sinopse:] Hefesta é uma lavadeira com o dom de lembrar de todas as suas encarnações passadas.101

TEATRO SEM ARQUITETURA, DRAMATURGIA SEM

LITERATURA, ATOR SEM PAPEL. Criação coletiva do grupo Tá na Rua. Direção: Licko Turle. Supervisão: Amir Haddad. Participação do grupo As Três Marias, no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto.

AUTO DE NATAL. Seleção de textos de vários autores. Direção: Amir Haddad. Elenco: grupo Tá na Rua. Largo da Carioca, Rio de Janeiro, com ceia oferecida ao final do espetáculo em confraternização do público com os artistas.

98 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2007 [data imprecisa].

99 Amir Haddad, Virgulino Ferreira e Maria de Déa: Auto de Angicos. Programa do espetáculo.

100 Licko Turle, op. cit.

101 Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 29 ago.-4 set. 2008, seção Teatro.

O [tNr] leva para a praça o seu Auto de Natal se propondo a levar não apenas a história do nascimento de Jesus, mas a estabelecer um espaço de representação em que o sagrado e o profano se unam para falar de amor. Uma colagem de diferentes textos sobre o tema, de Patativa do Assaré, Carlos Drummond de Andrade, Racine dos Santos, Mário de Andrade e Vinicius de Moraes, com narração e direção de Amir Haddad.102

2009

BODAS DE SANGUE, de Federico García Lorca.

Tradução: Rúbia Prates Goldoni. Direção: Amir Haddad. Cenografia: Hélio Eichbauer. Figurino: Biza Vianna. Iluminação: Felipe Lourenço. Trilha sonora: Alessandro Perssan. Músicas originais e direção musical: Caíque Botkay e Ronaldo Mota. Elenco: Adriana Seiffert, Alice Morena, Antônio Firmino, Bia Junqueira, Brisa Calleri, Catarina Abdalla, Clara Soria, Evelyn Raposo, Gabriela Haviaras, Gustavo Mello, Íris Bustamante, Janine Goldfield, Jitman Vibranovski, Karan Machado, Léo Rosa, Letícia Spiller, Lorena da Silva, Luiz

Octávio Moraes, Marcello Melo, Márcia do Valle, Márcio Louzada, Maria Lúcia Lima, Mônica Saturnino, Nando Rodrigues, Netinho, Paulo Antunes, Paulo Pereira, Rosa Douat, Solange Padilha e Tereza Seiblitz. Espaço Tom Jobim, Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Estreia: 30/01 a 12/04/2009. 103

Após comandar o evento de inauguração do Teatro Tom Jobim, em outubro, com a performance cênica Evocando Tom, o diretor

Amir Haddad está de volta ao espaço onde estreia neste sábado Bodas de sangue, do escritor e poeta Federico García Lorca. […] “É inestimável a importância dessa peça para o repertório de uma cidade de balneário como a nossa. […]”. Com o escrito em mãos, após ter sido convidado pela atriz Ivone Hoffman, o diretor tratou de abrir uma oficina de reciclagem de atores para reconstruir a trágica história […]. “[…] Lorca se tornou um alvo por causa de suas condutas e sua disposição de luta. Não à toa foi morto aos 33 anos pela polícia de Franco.” […] Ao montar um coletivo de 30 componentes, Amir fez com que todos se revezassem durante quatro meses na encenação dos papéis. O método garantiu maior liberdade de ação e pensamento aos atores. […] “A liberdade, representada na peça pela loucura e inadequação de Leonardo, é praticamente impossível em um mundo conservador repleto de restrições, preconceitos, e que nos trancafia em valores morais […]”, dispara.104

SANTA MARIA DO CIRCO, de David Toscana.

Tradução: Maria Alzira Brum Lemos. Adaptação e direção: Ivo Fernandes. Supervisão: Amir Haddad. Assistência de direção: Walter Daguerre. Direção de arte: Hélio Eichbauer. Cenário e figurino: Marieta Spada. Iluminação: Aurélio de Simoni. Operador de luz: Marcelo de Simoni. Direção musical, trilha e composição: Caíque Botkay. Operadora de som: Marcela Perrone. Máscara: José Toro-Moreno. Preparação corporal: Marina Salomon. Produção: Sula Villela. Elenco: Antonio Pedro (quintas e sábados), Xando Graça (sextas e

102 Únicas apresentações, Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 19-25 dez. 2008, seção Teatro, p. 32

103 Foi a primeira peça em temporada do Espaço Tom Jobim.

104 Luiz Felipe Reis, Paixão e violência andaluzas: Amir Haddad atualiza um dos belos dramas urais de Federico García Lorca, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 jan.-5 fev. 2009.

domingos), Anselmo Vasconcellos, Andrea Dantas, Aurélio de Simoni, Biá Napolitani, Glaucio

Gomes, Isaac Bernat, Lourival Prudêncio, Marina Salomon e Thiago Magalhães. Centro Cultural Banco do Brasil, Teatro II, Rio de Janeiro. Temporada: 21/05 a 05/07/2009

AS MENINAS, de Luiz Carlos Góes e Maitê Proença (baseada no livro Uma vida inventada, de Proença).

Direção: Amir Haddad. Produção: Francisco Accioly e Tereza Durante. Cenografia: Cristina Novaes. Figurino: Beth Filipecki. Iluminação: Paulo César Medeiros. Elenco: Analu Prestes, Clarisse Derzié Luz, Vannessa Gerbelli, Patricia Pinho e Sara Antunes. Casa de Cultura Laura Alvim, Rio de Janeiro, em 07/2009.

Em meio aos preparativos da montagem para Bodas de sangue, de Federico García Lorca, Amir Haddad estava completamente envolvido com o ambiente feminino quando recebeu o convite de Maitê para dirigir As meninas. “É impossível conhecer a Maitê e não ficar completamente envolvido. Digo isso em todos os planos. Ela é um perigo”, brinca Haddad. […] “Não faço direção de uma peça pronta. Só depois do primeiro mês de estreia é que o espetáculo começa a comunicar de forma clara e nítida o que é. […]”, explica. Até perto do lançamento, Maitê seguia como assistente de direção, mas achou melhor deixar o controle nas mãos de Haddad.105

SIMPLESMENTE EU, CLARICE LISPECTOR.

A partir de textos e entrevistas de Clarice Lispector.

Roteiro e direção: Beth Goulart. Assistência: André Frazzi e Sandro Karnas. Supervisão: Amir Haddad. Iluminação: Maneco Quinderé. Assistente de iluminação: Russinho. Operador de luz: Fabio Prestes. Cenografia: Ronald Teixeira e Leobruno Gama. Diretor de palco: André Boneco. Contrarregra: Pablo Paixão. Figurino: Beth Filipecki. Figurinista assistente: Thanara Schönardie. Camareira: Renata Morais. Direção de movimento: Márcia Rubin. Preparação vocal: Rose Gonçalves. Trilha sonora: Alfredo Sertã. Operador de som e vídeo: Hiram Ravache. Criação de vídeo: Fabian. Edição de vídeo: Glaucio Ayala. Visagismo: Westerley Dornellas. Fotografia: Fabian e Lenise Pinheiro. Programação visual: João Gabriel Carneiro. Com Beth Goulart. Duração: 55 min. Centro Cultural Banco do Brasil, Teatro I, Rio de Janeiro. Temporada: 13/08 a 04/10/2009. Também teve temporadas no Teatro Odylo Costa Filho, Uerj, Rio de Janeiro e no Teatro Renaissance, São Paulo.

[Sinopse:] A partir de quatro personagens femininas marcantes da obra de Clarice Lispector, a atriz Beth Goulart traz para a cena reflexões sobre temas como criação, vida e morte, solidão e loucura.106 Numa tessitura de recortes e fios, os textos se entrelaçam com costura amorosa, que Beth Goulart deixa à mostra através de atmosfera delicada, em que as palavras ganham dimensão mais humana do que literária. […] São momentos de uma obra que não pretendem traçar qualquer linha biográfica ou analisar, teoricamente, a escrita, mas retratar alguém que se confrontou com a existência […]. A própria Beth assina a

105 Luiz Felipe Reis, Gargalhada de velório: com direção de Amir Haddad, Maitê Proença exibe seu segundo texto autoral, Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 3-9 set. 2009, p. 37.

106 Estreias, Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 7-13 ago. 2009, seção Agenda, p. 36.

direção, com supervisão de Amir Haddad, e reproduz no palco o tom do roteiro.107

PAREM DE FALAR MAL DA ROTINA Roteiro e interpretação: Elisa Lucinda. Direção: Amir Haddad. Teatro da Universidade Federal Fluminense (uFF), Niterói. Temporada até 13 de setembro. Segundo o programa “a poetisa e atriz interpreta textos e poemas que expressam a urgência e a inquietude na busca por uma existência plena do homem contemporâneo”108 .

GALILEU GALILEI, de Bertolt Brecht. Com o grupo Tá na Rua. Apresentação de cenas da peça, como a do Pequeno Monge e a do Telescópio. Vitória (es).

2009-14

MESTRE CAEIRO, O DESCOBRIDOR DA NATUREZA (depois rebatizada de A NATUREZA DO OLHAR).

Roteiro: Elisa Lucinda e Geovana Pires, a partir de poemas de Fernando Pessoa. Assistência de direção: Daniel Rolim. Supervisão: Amir Haddad. Elenco: Elisa Lucinda e Geovana Pires. Estreia nacional em Brasília, em 31/01/2009, no Brasília

Alvorada Hotel (Projeto Palco Brasília, no contexto da Semana Brasil-Portugal)109. Sesc Tijuca, Rio de Janeiro, temporada de 11 a 20/04/2014

Teatro Cândido Mendes, Rio de Janeiro, de 03 a 07/09/2014 e outros.

2009-11

O SANTO INQUÉRITO, de Dias Gomes. Supervisão geral: Amir Haddad. Iluminação: Aurélio de Simoni. Elenco: Marianna Mac Niven, Claudio

Mendes, Expedito Barreira. Sesc Copacabana, Teatro de Arena, Rio de Janeiro. Temporada de 26/11 até 20/12/2009. No Teatro do Jockey, Rio de Janeiro, temporada até 29/05/2011

Com criação coletiva do elenco e supervisão geral de Amir Haddad, a peça entra em cartaz após mais de três décadas de sua última encenação em 1977 e reforça a importância do autor para a dramaturgia brasileira, 10 anos depois de sua morte, num acidente de trânsito em São Paulo. […] Para Amir o texto serve como testemunho de um teatro que pensava o país como um todo. “É o resgate da memória de um antigo pacto social que os artistas tinham com o desenvolvimento do Brasil. É algo que se perdeu”, lamenta. “A peça expõe esse rompimento gerado pela ditadura e nos mostra como realmente é difícil ser livre. Tanto ontem como hoje.” […] “[…] com Amir, abrimos a questão política para além do período em que a peça foi escrita”, observa Mendes, que além de ator é idealizador da montagem.110

2010

ESCOLA DE MOLIÈRES. Textos de Moliére. Tradução: Lorena da Silva e Luiz Octávio Moraes. Dramaturgia e direção: Amir Haddad. Assistência: Miguel Campelo. Direção musical: Ricardo Pavão. Música original: Edu Viola. Cenografia: Cristina Novaes. Iluminação: Felipe Lourenço. Figurino: Patrícia Nunes e Miguel Campelo. Máscaras: Paulo Formagini. Elenco: Miguel Campelo, Ana Bugarim, Angela Rebello, Alice Morena, Catarina

107 Macksen Luiz, Beth Goulart oferece corpo e sentimentos à escritora: atriz, que também dirige a peça, tem atuação sutilmente refinada, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16 ago. 2009

108 Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 10-6 abr. 2009, seção Agenda Teatro, p. 38

109 Ricardo Daehn, Ponte entre dois mundos, Correio Braziliense, Brasília, 30 jan. 2009, Especial, p. 8

110 Luiz Felipe Reis, Heroína pura e libertária: com direção de Amir Haddad, texto de Dias Gomes é montado após 30 anos, Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 27 nov.-3 dez. 2009.

Abdalla, Érida Castello Branco, Marcio Louzada, Pedro Medina, Solange Padilha, Teresa Seiblitz, André Dale e outros. Espaço Tom Jobim, Rio de Janeiro. Temporada: 30/07 a 19/09/2010

2011

UM DOMINGO NA PRAÇA Dramaturgia e direção: Amir Haddad. Com o grupo Tá na Rua. Rio de Janeiro.

ANÁRGIROS: NãO PODEMOS VENDER O QUE

TEMOS DE MELHOR PARA DAR. Criação coletiva do grupo Tá na Rua.

O Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil realizará amanhã, às 16h, o Seminário Artes e Saúde Pública, no Largo da Lapa. O encontro reunirá diversos profissionais ligados à arte, como atores, diretores, historiadores e muito mais. O grupo Tá na Rua abrirá a atividade com o espetáculo Anárgiros 111

[…] estou com um espetáculo grande do Tá na Rua chamado Anárgiros. É sobre as pessoas que não cobram dinheiro pelos seus trabalhos. Foi baseado na vida de Cosme e Damião, que eram médicos e instituíram a saúde pública ao se recusarem a cobrar pela cura das pessoas. Nessa eu trabalho como diretor e como ator também112

“aNárgiro – (s.m.) Que não tolera o dinheiro.” (Dicionário informal) […] Os anárgiros desestabilizam a ordem natural das coisas. Jesus Cristo foi anárgiro. […] Para os pobres, Cristo era um anjo. Para a igreja judaica da época, um demônio. […] Se o anargirismo se alastra, o mundo se despedaça, mas para não desmoronar sobre si mesmo, o mundo precisa dos anárgiros.113

2012-3

AMOR E ÓDIO EM SONATA. Drama familiar de Liev Tolsói. Concepção, texto e direção: Leonardo Talarico. Supervisão: Amir Haddad. Cenário e figurino: Marcelo Marques. Trilha sonora: Leonardo Talarico. Elenco: Amandha Monteiro, Juliana Weinem. Teatro Solar de Botafogo.

Temporada: 17/03 a 27/05/2012. Centro Cultural da Justiça Federal. Temporada: 24/07 a 29/08/2013. 114

2012-8

A VINGANÇA DO ESPELHO: A HISTÓRIA DE ZEZÉ

MACEDO, de Flávio Marinho. Direção: Amir Haddad. Cenário: Afonso Tostes. Figurino: Fernanda Fabrizzi. Iluminação: Paulo Denizot. Trilha sonora: Alessandro Perssan. Elenco: Betty Gofman, Tadeu Mello, Antônio Fragoso, Marta Paret, Mouhamed Harfouch. Casa de Cultura Laura Alvim, Rio de Janeiro (ensaios abertos desde janeiro de 2012). Teatro Leblon, Sala Marília Pêra, Rio de Janeiro, de 20/06 a 25/08/2013. Itaú Cultural, São Paulo, de 12 a 15/09/2013

111 Seminário de artes e saúde pública, Portal da Prefeitura do Rio de Janeiro, 16 nov. 2011. Fonte: http://www. rio.rj.gov.br/web/guest/exibeconteudo?id=2301612. (Acesso em 4 abr. 2022).

112 Amir Haddad vive cego Tirésias em Édipo Rei, Portal Globo.com Teatro, 9 nov. 2012. Fonte: http://redeglobo. globo.com/globoteatro/boca-de-cena/noticia/2013/09/amir-haddad-vive-o-cego-tiresias-em-ediporei.html. (Acesso em 4 abr. 2022).

113 Amir Haddad, “Anárgiros”, Teatro de rua e a cidade (blog), 13 jun. 2015. Fonte: https://teatroderuaeacidade. blogspot.com/2015/06/anargiros.html. (Acesso em 4 abr. 2022).

114 Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 23 jul. 2013.

Zezé Macedo, primeira-dama da chanchada e atriz brasileira que mais atuou em filmes até hoje, será homenageada […]. Em quase duas horas de espetáculo, [a peça] conta a história de uma companhia de teatro que se prepara para encenar a vida [da atriz]. A partir desse enredo metalinguístico, [a história] é traçada de forma não linear […]. Zezé era muito conhecida por seus papéis cômicos na televisão, no rádio e no cinema. […] estrelou 108 longas-metragens, sendo a primeira e única atriz brasileira a realizar tal feito. Outra característica que chamava a atenção em Zezé era sua capacidade de humanizar as personagens, fazendo o público rir e sentir compaixão ao mesmo tempo. 115

2013

ARY BARROSO: DO PRINCÍPIO AO FIM. Texto e direção: Diogo Vilela. Supervisão artística: Amir Haddad. Arranjos e direção musical: Josimar Caneiro. Elenco: Diogo Vilela, Tânia Alves, Ana Baird, Marcos Sacramento, Alan Rocha e outros. Teatro Carlos Gomes, Rio de Janeiro. Temporada: 18/01 a 31/03/2013

[O espetáculo é] centrado nos últimos dias do compositor de “Aquarela do Brasil” que, acamado com total atenção da esposa, é chamado para ser homenageado pela escola de samba Império Serrano e tema do desfile daquele ano (1964). Assim, Ary vai relembrando sua vida, a criação de sucessos e a presença de personalidades e amigos, como Carmen Miranda, Lamartine Babo e Aracy Cortes, compondo um painel da vida artística das décadas de 30/40 116

2013-4

À BEIRA DO ABISMO ME CRESCERAM ASAS, de Maitê Proença, a partir da ideia original de Fernando Duarte. Direção: Clarice Niskier e Maitê Proença. Supervisão de direção: Amir Haddad. Cenário: Cristina Novaes. Figurino: Beth Filipecki. Trilha Sonora: Alessandro Perssan. Direção de Movimento: Angel Vianna. Preparação Vocal: Rose Gonçalves. Elenco: Maitê Proença/ Ana Lucia Torre (2014) e Clarisse Derzié Luz. Theatro Net Rio, Sala Tereza Rachel, Rio de Janeiro, em 11/2014

2014

2 X MATEI, de Matei Visniec. Tradução: Pedro Sette-Câmara. Direção e cenografia: Gilberto Gawronski. Supervisão: Amir Haddad. Elenco: Guida Vianna e Gilberto Gawronski. Teatro Poeirinha, Rio de Janeiro. Temporada: 26/03 a 18/05/2014.

UM RECITAL À BRASILEIRA. Supervisão: Amir Haddad. Figurino: Cristina Cordeiro. Elenco: Geovana Pires e Elisa Lucinda. Teatro Leblon, sala Tônia Carrero, Rio de Janeiro. Temporada: 10/04 a 03/05/2014

SONHO DE UMA NOITE DE VERãO, de William Shakespeare. Direção: Monique Carvalho e Robson Sanchez. Supervisão: Amir Haddad. Elenco: Gabriela Garcia, Thiago Prado, Ricardo Damasceno, Rodrigo Viegas etc. Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, em 27/07/2014.

A VIDA SEXUAL DA MULHER FEIA. A partir da obra de Claudia Tajes. Adaptação: Julia Spadaccini.

115 A vingança do espelho: a história de Zezé Macedo, Itaú Cultural, 28 ago. 2013. Fonte: https://www.itaucultural.org.br/a-vinganca-do-espelho-a-historia-de-zeze-macedo. (Acesso em 4 abr. 2022).

116 Box de divulgação, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 4, 5 e 6 jan. 2013, na seção Autêntico Janeiro Teatral, caderno Artes, p. C2.

Direção: Otávio Müller. Supervisão: Amir Haddad. Com Otávio Müller. Teatro dos 4, Shopping da Gávea, Rio de Janeiro. Temporada: 13/06 a 27/07/2014. Teatro da Unip, Brasília, em 08 e 09/11/2014.

“Eu sou aquela que quando cruza a sala a caminho da xerox, ouve dois colegas do escritório falando em voz supostamente baixa: entre a Ju e a morte, quem você escolheria?” É com esse clima que a escritora gaúcha Claudia Tajes começa o bem-humorado best-seller A vida sexual da mulher feia publicado em 2005 e que, este ano, foi adaptado ao teatro […]. Em cena, o ator Otávio Müller vive a personagem central rebatizada de Maricleide.117

CONSTRUÇãO, de Adilson Dias. Direção:

Alexandre Gomes. Supervisão: Amir Haddad. Elenco: Alexandre Gomes, Alessandra Fernandes, Carol Murray, Claudia Maria. Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas, Rio de Janeiro, em 25/10/2014.

2014-7

A LISTA, de Jennifer Tremblay. Direção artística: Amir Haddad. Direção geral: Clarice Niskier. Cenário: Luiz Martins. Figurino: Kika Lopes. Iluminação: Aurélio de Simoni. Música original e direção de produção: José Maria Braga. Com Clarice Niskier. Teatro Eva Herz. Estreia: 14/11/2014, juntamente com o lançamento do livro homônimo no Brasil. Entre outros espaços, o espetáculo passou pelo Teatro do Parque das Ruínas, Rio de Janeiro, Teatro da Livraria da Vila, São Paulo etc.

Ainda cultivando o sucesso de A alma imoral, a atriz Clarice Niskier se impôs mais um desafio. No monólogo dramático da canadense Jennifer Tremblay, a intérprete dá vida a uma mulher dominada pelas tantas atribuições do dia a dia. Perfeccionista, ela anota cada obrigação a cumprir, dos serviços domésticos aos favores devidos aos amigos próximos.118

2016

FALAR DA BAIXADA. A partir da obra de Gênesis Torres. Direção: Alexandre Gomes, Carol Murray, Vina Santos e Wellington Fagner. Supervisão: Amir Haddad. Elenco: Alexandra Afonso, Gil Souza, Junior Melo, Levi Duarte e outros. Praça ao lado do Teatro Ziembinski, Rio de Janeiro.

Apresentação: 24/06/2016.

NEFELIBATO, de Regiana Antonini. Direção: Fernando Philbert. Supervisão: Amir Haddad. Com Luiz Machado. Porão da Casa de Cultura Laura Alvim, Rio de Janeiro. Temporada: 14/10 a 04/12/2016.

2016-23

ANTÍGONA, de Sófocles. Tradução: Millôr Fernandes. Adaptação e dramaturgia: Amir Haddad e Andrea Beltrão. Direção: Amir Haddad. Ambientação: Fábio Arruda e Rodrigo Black. Figurino: Antônio Medeiros e Guilherme Kato. Iluminação: Aurélio de Simoni. Com Andrea Beltrão. Teatro Poeirinha. Temporada: 18/11 a 18/12/2016. Sesc Consolação, São Paulo: 2019

Sucesso no Rio de Janeiro no final do ano passado, o monólogo “Antígona”, protagonizado por Andréa Beltrão, estreia

117 Rebeca Oliveira, Beleza nem sempre é fundamental… Correio Braziliense, Brasília, 7 nov. 2014

118 Dirceu Alves Jr. A lista, Veja São Paulo, 2014. Fonte: https://vejasp.abril.com.br/atracao/a-lista/#. (Acesso em 4 abr. 2022).

na sexta (12) uma temporada no Teatro Anchieta do Sesc Consolação. […] Antígona é fruto do casamento incestuoso de Édipo e Jocasta. Na peça, a personagem está enclausurada em uma caverna depois de ter sido condenada à morte por ter desobedecido seu tio Creonte.119

2017-8

A MULHER DE BATH, de Geoffrey Chaucer. Adaptação: Maitê Proença. Direção: Amir Haddad. Com Maitê Proença. Teatro XP Investimentos, Rio de Janeiro. Temporada: 06 a 29/04/2018.

2017

SHAKESPEARE E OS ORIXÁS: A TEMPESTADE, de William Shakespeare. Adaptação: Érida Castello Branco. Direção: Amir Haddad. Elenco: Alice Morena, Paulinho Andrade, Renata Batista. Teatro Ziembinski, Rio de Janeiro, em 04/02/2017

A MULHER INVISÍVEL, de Maria Carmem Barbosa. Direção: Amir Haddad. Assistência e dramaturgia: Érida Castello Branco. Cenário: Fernando Mello da Costa. Figurino: Pedro Sayad. Iluminação: Aurélio de Simoni. Elenco: Catarina Abdalla. Teatro Nelson Rodrigues, Rio de Janeiro. Estreia: 23/11/2017.

“A minha estreia como atriz foi num monólogo. Eu tava começando, nem profissional era, mas já era ousada. Eu mesma criei o texto, uma divertida lavadeira. O Amir Haddad viu,

gostou e falou comigo. A partir daí nos tornamos amigos. Depois do meu último trabalho com ele (“Escola de Molieres”, 2010), eu comecei a pensar em fazer um monólogo com ele dirigindo. Um sonho para qualquer ator. Outros trabalhos foram surgindo e o projeto foi sendo adiado. Agora, o produtor Miguel Colker idealizou o projeto da “Mulher Invisível” e me deu essa oportunidade tão sonhada! Então eu penso que a minha maior expectativa é em relação à continuidade do processo a partir da entrada do público. Com o Amir a gente continua pensando o espetáculo até o último dia da temporada. E isso é maravilhoso. O espetáculo fica vivo.

O público vai me dar o gás necessário e juntos nós vamos voar!”120

2017-8

AVELHA. Dramaturgia: Flávio Rabelo, Ivana Iza e Tainan Costa Canário. Direção: Flávio Rabelo. Supervisão de direção: Amir Haddad. Supervisão de dramaturgia: Clarice Niskier. Elenco: Ivana Iza.

Estreia: 04/2017, por dois meses em Maceió (al). Prêmio Nacional Myrian Muniz de Teatro 2014 e Prêmio Municipal Edital das Artes Eris Maximiano 2015. Teatro Hermeto Pascoal, Sesc, Arapiraca (al).

Reestreia: 27 e 28/07/2018, às 19h.

2017-24

ME DÁ TUA MãO, de Clovys Sampaio Torres. Desconstrução: Amir Haddad. Produção executiva: Aide Torres e Val Pires. Figurino:

119 Dirceu Alves Jr, Antígona de Andrea Beltrão chega ao Sesc Consolação na sexta: dirigida por Amir Haddad, a atriz protagoniza monólogo adaptado da tragédia grega de Sófocles, Veja São Paulo, 8 maio 2017. Fonte: https://vejasp.abril.com.br/coluna/na-plateia/antigona-de-andrea-beltrao-chega-ao-sesc-consolacao-na-sexta. (Acesso em 22 abr. 2022).

120 Catarina Abdalla estreia A mulher invisível no Rio, Globo Teatro, 24 nov. 2017. Fonte: https://redeglobo. globo.com/globoteatro/noticia/catarina-abdalla-estreia-mulher-invisivel-no-rio.ghtml. (Acesso em 22 abr. 2022).

Zenilda Sampaio Torres. Fotografia e vídeos: Luiz Paulin. Iluminação: Carlos Nascimento. Trabalho vocal: Digue Lima. Elenco: Clóvys Tôrres. Teatro União Cultural, São Paulo. Estreia: 1º/07/2017; 13ª

Feira do Livro de Foz do Iguaçu, na Arena Literária, em 10/09/2017, às 18h. Demais temporadas em mais de 40 cidades brasileiras: Americana, Campinas, Santos, Bragança Paulista, Santo André, São Bernardo, Cascavel, Rio de Janeiro etc., e em países como Paraguai e Portugal.

2017-24

RE-ACORDAR. Criação coletiva a partir de cenas de O coronel de Macambira, de Joaquim Cardozo, poemas de Marta Klagsbrunn e relatos e reflexões de participantes do Tuca Rio. Direção e dramaturgia: Amir Haddad. Direção musical e gravação das músicas originais de Sérgio Ricardo: Luiz Cláudio Ramos. Elenco: Amir Haddad (narrador), Alberto Strozenberg, Dora Zaverucha, Márcia Fiani, Marta Klagsbrunn, Mônica Arruda, Regina Célia Dantas, Renata Sorrah, Ricardo Valle, Roberto Bomfim, Sérgio Alevato e Victor Hugo Klagsbrunn.121

2018

MINHA, de Wilson Sayão. Direção: Fátima Leite. Supervisão: Amir Haddad. Cenário: Fernando Mello da Costa. Figurino: Liliam Butini. Iluminação: Aurélio de Simoni. Elenco: Osvan Costa. Teatro Dulcina, Rio de Janeiro. Temporada: 09/06 a 08/07/2018

RUGAS, de Herton Gratto. Direção: Amir Haddad. Cenário e figurino: Lorena Sender. Iluminação: Marcelo Camargo. Preparação corporal: Claudiana Cotrim. Preparação vocal: Vanja Freitas. Elenco: Vanja Freitas e Claudiana Cotrim. Teatro Maison de France, Rio de Janeiro. Temporada: 31/10 a 12/12/2018.

2018-24

ASSIM FALAVA ZARATUSTRA: UMA TRANSVALORAÇãO DOS VALORES. Dramaturgia: Amir Haddad sobre os sermões da obra homônima de F. Nietzsche. Roteiro: Amir Haddad e Viviane Mosé. Trilha sonora: Máximo Cutrim. Elenco: Tá na Rua (improvisações), Amir Haddad (Zaratustra) e Viviane Mosé (comentários). Clube Manouche, Rio de Janeiro: 12/11/2018. Teatro Glaucio Gill, Rio de Janeiro: de 16/11 a 07/12/2018. Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, Rio de Janeiro, em 02/2019. Houve apresentações em diversas outras datas e locais, entre eles, o Clube Manouche novamente (subsolo da Casa Camolese), em 26/03/2020, e o Centro Cultural Tá na Rua, de 10 a 25/09/2022.

Na cobertura onde mora em Santa Teresa, no Rio, com vista para a baía da Guanabara, o diretor – que faz 84 anos nesta sexta-feira –expõe […] “Teatro virtual não existe, é igual a sexo por telefone, vai contra a natureza. Não sou um voyeur, se tem uma suruba rolando eu caio dentro.” […] Haddad está há um ano e meio impedido de levar sua arte para os

121 Em 5 de março de 2022, às 17h, via Zoom, foi feita uma apresentação virtual do espetáculo, produzida pela TUCAARTE – Associação Tuca de Arte e Cultura, com a seguinte ficha técnica: Seleção e edição das fotos: Marta Klagsbrunn. Direção de imagem: Máximo Cutrim. Assistência de direção, produção executiva e relações com o público: Márcia Fiani. Sonoplastia: Evandro Castro. Arte visual e divulgação: Mônica Arruda. Revisão do texto: Regina Célia Dantas. Participam da trilha sonora: Jacqueline Dowek, Márcia Fiani, Ma Lúcia Porciúncula e Regina Célia Dantas.

Administração: Sérgio Alevato. Em 31 de agosto de 2022, às 19h, houve apresentação presencial de Re-acordar na sede do Tá na Rua.

espaços públicos […]. A cena do artista com o microfone na mão conduzindo uma trupe de atores por ruas e praças vai ficar para depois. “A humanidade ainda está vivendo uma situação de coito interrompido, como se alguém batesse violentamente à porta na hora H”, diz. Em razão da pandemia, ele viu esvaziar a festa dos 40 anos do Tá na Rua. “Foi um coitão e acabamos virando uns coitados.” Na banheira ao som de Billie Holliday, ele posa relaxado para um ensaio e, com uma taça de vinho tinto em punho, anuncia para agosto uma curta temporada, e virtual, de Assim falou Zaratustra, ao lado de sua colaboradora dramatúrgica Viviane Mosé. […] “É um espetáculo que venho fazendo desde 2018, já apresentei pedaços no Instagram, contrariando minhas convicções”, afirma o diretor que, assim como Zaratustra, “só acreditaria num Deus que soubesse dançar”. Fora da banheira, vestindo camisa azul, gorro na cabeça e chinelo, o homem de 1,70 metro e 85 quilos anda com cuidado mas com propulsão, que é a maneira como ele fala também. Haddad mantém velhos hábitos, como de se autodirigir. […] É difícil pensar em outro diretor com um corpo de trabalho que, aos 84 anos, tenha sido tão singular em sua multiplicidade. Com plena consciência da carreira de extraordinária riqueza e longevidade, Haddad ultimamente só liga a tV para ver canais esportivos ou de outros países. Sobre passar o tempo em casa à espera de voltar às ruas, ele faz um rápido resumo. “Tive que aumentar muito meu nível de masturbação e ceder ao laptop, aprendi o mínimo necessário.”122

2019-22

A ESPERANÇA NA CAIXA DE CHICLETES PING PONG, de Clarice Niskier, inspirado na obra musical de Zeca Baleiro. Supervisão: Amir Haddad. Assistência: Maria Eugênia. Produção: Niska Produções Culturais. Direção de produção: José Maria Braga. Iluminação: Aurélio de Simoni. Cenário: José Dias. Figurino: Kika Lopes. Música e supervisão musical: Zeca Baleiro. Preparação de voz: Rose Gonçalves. Com Clarice Niskier (indicação ao Prêmio aPca). Estreia: Teatro Casa Grande, Rio de Janeiro. Temporada: 03 a 18/11/2021.

2020

SOMBRAS NO FINAL DA ESCADARIA, de Luiz

Carlos Góes (seu último texto). Direção: Amir Haddad. Assistência de direção e trilha sonora: Máximo Cutrim. Direção de arte: Beli Araújo. Assistência de direção de arte: Vannessa Gerbelli. Iluminação: Paulo Denizot. Visagismo e maquiagem: Diego Nardes. Cabelo: Lucas Souza. Fotografia: Guga Melgar. Realização: Teatro da Gente e Bloco Pi Produções/Joaquim Vicente Fares. Com Vannessa Gerbelli. Estreia on-line: 06/10/2020, temporada até 27/10

COISAS DE MãE, adaptação de Clarice Niskier do livro Coisas de mãe para filha. Supervisão: Amir Haddad. Leitura encenada que estreou on-line no Teatro Petra Gold durante a pandemia. Apresentada eventualmente como leituras em eventos.

2020-24

RIOBALDO (da Trilogia Grande sertão: veredas), adaptação de Gilson de Barros para Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa. Direção: Amir Haddad. Iluminação: Aurélio de Simoni. Cenário e figurino: Karla de Luca. Programação visual:

122 “Teatro virtual é como sexo por telefone, vai contra a natureza”, diz Amir Haddad, O Tempo, Rio de Janeiro, 1º jul. 2021.Fonte: https://www.otempo.com.br/super-noticia/opiniao/dulce-bravo/teatro-virtual-e-como-sexo-por-telefone-vai-contra-a-natureza-diz-amir-haddad-1.2506797. (Acesso em 22 abr. 2022).

Guilherme Rocha e Mikey Vieira. Elenco: Gilson de Barros (indicação ao Prêmio Shell nas categorias Dramaturgia e Ator). Teatro Sérgio Porto, Rio de Janeiro: 07/03/2020 Lives e transmissões virtuais da peça no período da pandemia. Sessões na Casa de Cultura Laura Alvim; Sala eletroacústica da Cidade das Artes; Teatro Glaucio Gill; Teatro Sérgio Cardoso (sP) etc.

2021

CORAÇãO DE CAMPANHA, de Clarice Niskier.

Direção: Clarice Niskier. Supervisão de direção: Amir Haddad. Figurino: Kika Lopes. Iluminação:

Aurélio de Simoni. Trilha original: Zé Braga. Fotografia: Dalton Valerio. Niska Produções. Elenco: Clarice Niskier e Isio Ghelman. Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro. Temporada: 17/06 a 08/08/2021. Passou por cidades como Belo Horizonte, Brasília, São Paulo e por espaços como Teatro PetraGold e Teatro Morumbi Shopping.

NINGUÉM DIRÁ QUE É TARDE DEMAIS, de Pedro Medina. Direção: Amir Haddad. Assistente de direção: Renato Reston. Idealização e realização: Rose Dalney, Túlio Rivadávia e Marcio Sam.

Direção musical: Lucio Mauro Filho. Assistente de direção musical: Leandro Lapagesse. Iluminação: Aurélio de Simoni. Cenografia: José Dias. Figurino: Carol Lobato. Fotografia: Larissa Marques. Elenco: Arlete Salles, Edwin Luisi, Pedro Medina e Alexandre Barbalho. Teatro Riachuelo, Rio de Janeiro: 1º/10/2021. Teatro das Artes (Shopping Eldorado), São Paulo: 02/09/2022

AUTO DE NATAL, do grupo Tá na Rua. Direção: Amir Haddad. Apresentação do tradicional auto natalino do grupo em retrospectiva do que foi o ano de 2021. Fotografia: Pedro Prado. Arte gráfica: Evandro Castro Neto. Largo da Lapa, em 16/12/2021 e na Cinelândia, em 17/12/2021, Rio de Janeiro.

2022

A PONTE E A ÁGUA DE PISCINA, de Alcides Nogueira. Leitura dramatizada. Direção: Amir Haddad. Elenco: Françoise Forton (que gravou da uti do hospital São Vicente, na Gávea, poucos meses antes de falecer), Beatriz Campos e Jarbas Cardona. Temporada de estreia (on-line – vídeo gravado): 16 a 23/03/2022, às 21h, via Youtube da Barata Produções.

VIRGINIA. Dramaturgia de Claudia Abreu a partir da vida e da obra de Virginia Woolf. Direção: Amir Haddad. Codireção: Malu Valle. Direção de movimento: Marcia Rubin. Figurino: Marcelo Olinto. Iluminação: Beto Bruel. Trilha sonora: Dany Roland. Operação de som: Bruna Moreti. Assistência de iluminação/operação de luz: Igor Sane. Operação de som nos ensaios: Máximo Cutrim. Design gráfico: Carolina Pinheiro. Fotografia: Rogério Faissal e Pablo Henriques. Assessoria de imprensa: Vanessa Cardoso. Direção de produção: Dadá Maia. Produção associada: Claudia Abreu, Dadá Maia e Mário Canivello. Com Claudia Abreu. Temporada de estreia: 09/07 a 07/08/2022, Sesc 24 de Maio, São Paulo. Temporada de 21/10 a 20/11/2022 no Teatro XP Investimentos, Rio de Janeiro.

AUTO DE NATAL 2022, do grupo Tá na Rua. Cinelândia (em frente ao Teatro Municipal), em 08/12 e no Largo da Lapa, em 09/12, Rio de Janeiro.

2023-4

O DIABO NA RUA NO MEIO DO REDEMUNHO (da Trilogia Grande sertão: veredas), adaptação de Gilson de Barros para Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa. Direção: Amir Haddad. Cenário e direção de arte: José Dias. Figurino: Ana Luiza. Programação visual: Guilherme Rocha e Mikey Vieira. Elenco: Gilson de Barros. Estreia: 1º a 16/04 no Centro Cultural Justiça Federal, Rio

de Janeiro; de 28/04 a 28/05 no Teatro Sérgio Cardoso, São Paulo.

O JULGAMENTO DE ZÉ BEBELO (da Trilogia

Grande sertão: veredas), adaptação de Gilson de Barros para Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa. Direção: Amir Haddad. Cenário e direção de arte: José Dias. Figurino: Ana Luiza. Programação visual: Mikey Vieira. Elenco: Gilson de Barros. Rio de Janeiro e São Paulo.

2023

I FESTIVAL DE TEATRO AMIR HADDAD. Direção: Amir Haddad. Idealização e curadoria: Máximo Cutrim. Coordenação: Maria Helena da Cruz.

Direção de produção: Maria Ines Vale Produções. Direção criativa: Criação Máxima e Amnah Asad/ Noix. Produção executiva: Isis Martins. Direção de marketing: Evandro Castro Neto. Programação visual: Farpa/Leandro Felgueiras. Grupo Tá Na Rua: Renata Batista, Máximo Cutrim, Evandro Castro, Rozan Borges, Luciana Pedroso, Carol Eller, Daniel Ávila, Marcelo Evangelista, Maria

Clara Coelho e Giovanna Cherly. Cenografia e

Direção de palco: Ana Paula Casares. Iluminação e operação de luz: Paulo Denizot. Figurino: Renata Batista. Assessoria de imprensa: Marrom Glacê

Assessoria – Gisele Machado e Bruno Morais.

Vídeo: Fabio Pereira e Evandro Castro Neto.

Fotografia: Marcos Batista e Mariana Pêgas. Foto divulgação: Vidafodona. Ass. de foto: Lara Pazini.

Gaffer: Stirling. Assistentes de produção: Raphael Pena e Maíra Athayde. Coordenação técnica: Guilherme Penedo. Operação de som: Jackson Marques. Exposição: Clélio de Paula – Tecnologia 3D; Chico Couto – Montagem de Vídeo; Isadora Figueira – Curadoria; Ana Paula Casares –Cenografia; Cinemateca do MaM – Digitalização de Acervo. Local: Centro Cultural Casa do Tá na Rua – avenida Mem de Sá, 35, Lapa – Rio de

Janeiro (rJ). Período: 3 a 16 de julho (8 e 9 de julho, sem programação). Programação gratuita a partir das 16h. Espetáculos Teatrais sempre às 20h –Ingressos r$ 20,00. Informações e programação completa: Instagram.com/festivalamirhaddad.

HOMENAGEM AOS 90 ANOS DE JOãOSINHO TRINTA. Direção: Amir Haddad. Espetáculo do grupo Tá na Rua. Apoio: Alayde Alves (colecionadora da arte do Carnaval). MaM, Rio de Janeiro, em 25/11.

AUTO DE NATAL DO TÁ NA RUA. Direção: Amir Haddad. Criação coletiva do tNr. Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura e Tá na Rua. Espetáculo de variedades que narra acontecimentos do ano entrelaçados às liturgias do Natal, com música, dança e teatro. Ao final, é ofertada uma ceia para as pessoas em situação de rua e todo o público presente.

Cinelândia, em 14/12, Praça Tiradentes, em 15/12, Arcos da Lapa, em 16/12, sempre às 16h.

2024

II FESTIVAL DE TEATRO AMIR HADDAD

OFICINAS E INCURSõES DO TÁ NA RUA NAS RUAS DO RIO DE JANEIRO.

OFICINA DE DESINICIAÇãO TEATRAL, com Amir Haddad e Tá na Rua.

AUTO DO RENASCIMENTO - A FAIXA DE GAZA É AQUI, Criação coletiva de Amir Haddad e Grupo Tá na Rua. Cinelândia, Largo da Carioca e Arcos da Lapa.

TEATRO 123

1956

O NOVIÇO, de Martins Pena. Direção: Flávio Rangel. Elenco (parcial): Moracy do Val, Sérgio D’Antino, Amir Haddad (em pequenos papéis de meirinhos). Teatro São Paulo, São Paulo.

1983

VIA SACRA. Encenação religiosa realizada pelo Instituto Municipal de Arte e Cultura (Imac), pela Prefeitura do Rio de Janeiro, Arquidiocese do Rio de Janeiro e Secretaria Municipal de Educação e Cultura. 1º de abril de 1983, Sexta-feira Santa, às 18h. Estações: Convento de Santo Antônio, Igreja de São José, Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso e escadaria da Câmara dos Vereadores, Cinelândia, além de repetição na íntegra em palco armado nos Arcos da Lapa. Elenco: Amir Haddad (Pilatos), Jorge Gomes, Zózimo Bubul, Jitman Vibranovski, Irma Alvarez, Myriam Pérsia, Araci Cardoso, Renato Godinho e outros (em um total de 60 atores e 100 figurantes).

1992

A MACONHA DA MAMãE É MAIS GOSTOSA, de Dario Fò. Tradução: Claudia Borioni. Direção: Ricardo Petraglia. Iluminação: Aurélio de Simoni. Produção: Rita Calábria. Elenco: Amir Haddad (padre), Antonio Pedro, Anselmo Vasconcellos, Vic Militello, Ernesto Piccolo, Cândido Damm e Joana Motta. Teatro Municipal do Centro de Convivência de Campinas, estreia: 17/06/1992 Teatro da Praia, Rio de Janeiro, estreia: 02/07/1992.

Em Campinas, o baseado da mamãe virou caso de polícia. Não foi à toa. O carro de som que passeava pela cidade paulista fazendo a propaganda da “mercadoria” entoava um jingle pra lá de instigante: “Maconha, emoção pra valer/ Maconha é um raro prazer”. Resultado: a atriz Vic Militello foi presa sob suspeita de incitação ao uso da droga e só conseguiu ser libertada depois que a delegada de plantão foi convencida de que a música fazia parte de um “contexto” contrário às viagens alucinógenas, embora de título ambíguo. Depois de resolvida a questão, os campinenses puderam, enfim, assistir, durante uma semana, às apresentações [da peça] […] [que] estreia hoje […] no Teatro da Praia, em Copacabana. Escaldada, a produção não vai usar a mesma tática publicitária, até porque ela é enganosa. Amir Haddad, um dos atores, explica: “Isolado, o jingle dava mesmo a entender que o texto faz a apologia da droga, e não queremos vender uma coisa diferente do que as pessoas vão encontrar no teatro. Foi um equívoco involuntário. […]” Mas também não é moralista. Escrita em 1976, [ela] discute o uso e a repressão às drogas e coloca em xeque instituições como a Igreja e a polícia […].124

1998

DEUS, de Woody Allen. Tradução: Sérgio Flaksman. Direção: Mauro Mendonça Filho. Cenário: Lia Renha. Figurino: Pedro Sayão. Iluminação: Maneco Quinderé. Música: Dani Roland. Preparação corporal: Duda Maia. Elenco: Amir Haddad, Murilo Benício, Cristina Aché, Frank Menezes, Thereza Piffer, Ângela Figueiredo, Otávio Müller, Bel Garcia, Gulu Monteiro, José Eduardo, Isabel

123 Os casos em que Amir Haddad trabalha como ator em peças também dirigidas por ele constam na lista de suas direções.

124 Denise Moraes, O tóxico sobe ao palco: peça de Dario Fò discute a maconha sob ótica política, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2 jul. 1992.

Muniz Lyra, André Corrêa, Tadeu Mello, Manuela Dias e Adilson Azevedo. Centro Cultural Banco do Brasil, Teatro I, Rio de Janeiro, 01/1998

O elenco contribuiu decisivamente para que Deus mantenha a sintonia do humor em alta voltagem. […] Amir Haddad também demonstra, numa interpretação de alto nível cômico (perde um pouco a mão como Dioniso), o bom ator que se desenvolveu através da linguagem do teatro de rua.125

Inédita no Brasil, a peça do cineasta […] foi escrita em 1975 e ambientada na Grécia, no século 5 antes de Cristo. Ela pretende extrair humor a partir de dois temas básicos: a existência de Deus e o poder do artista.126

2011

SHAKESPARQUE. A partir de obras líricas e dramáticas de William Shakespeare (Romeu e Julieta, Hamlet, A tempestade, A megera domada etc.).

Tradução: Bárbara Heliodora. Proposta inspirada no “Shakespeare in the Park” que acontece anualmente no Central Park, em Nova York.

Direção: Paulo Reis. Direção cênica: José Roberto Mendes. Iluminação: Rogério Emerson e colaboração dos alunos de Cenografia e Indumentária e de Iluminação da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Figurino: Márcia Pitanga. Cenário: José Dias. Direção musical: Fernando Berditchevsky. Direção de jograis biográficos: Claudio Baltar. Elenco: Amir Haddad, André Mattos, Alexandre Barillari, Angela Rebello, Samara Felippo, Jandir Ferrari, Lorena da Silva,

Tereza Seiblitz, Rodrigo Nogueira, Cristina Flores, Otto Jr., Antonio Pedro e Claudia Alencar. Produção executiva: Pagu Produções Culturais. Parque Lage (em torno da piscina), Rio de Janeiro. Temporada: 04 a 27/02/2011.

O som do espetáculo será todo ao vivo. Nomeado Shakesparque, o espetáculo, inspirado no tradicional evento Shakesperiando que ocorre todos os anos no Central Park, em Ny, também veio, segundo Paulo Reis, do sucesso que sua montagem de A tempestade fez há quase 30 anos atrás no Parque Lage. “Há anos vinham insistindo para que eu remontasse o espetáculo e só agora, quase trinta anos depois, eu sinto que chegou a hora”, explica o diretor. Graças à enorme procura para participação, a ideia de fazer trechos, e não uma peça completa, apareceu. As obras escolhidas para a exibição serão: Ricardo III (por Lorena da Silva e Jandir Ferrari), A megera domada (Tereza Seiblitz e André Mattos), Romeu e Julieta (Cristina Flores e Rodrigo Nogueira), Sonho de uma noite de verão (Cláudia Alencar e Antônio Pedro), Hamlet (Samara Felippo e Alexandre Barillari), Macbeth (Angela Rebello e Otto Jr.) e A tempestade (Amir Haddad). As senhas para entrar serão distribuídas 2 horas antes do início do espetáculo. O espaço abrigará apenas 260 lugares por apresentação.127

2011-2

ÉDIPO REI, de Sófocles. Direção: Eduardo Wotzik. Elenco: Amir Haddad (Tirésias), Rogério Fróes, Gustavo Gasparani, Eliane Giardini, César

125 Macksen Luiz, Saborosa chanchada metafísica, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21 jan. 1998

126 Lionel Fischer, Todo o poder da criação, Manchete, Rio de Janeiro, 7 fev. 1998, p. 92

127 Espetáculo a céu aberto traz Shakespeare a Parque Lage. Fonte: https://www.querodiscutiromeuestado.rj.gov.br/noticias/3194-espetaculo-a-ceu-aberto-traz-shakespeare-a-parque-lage. (Acesso em 22 abr. 2022).

Augusto, Fabianna de Melo e Souza, Pietro Mário Bogianchini, Thiago Magalhães, Nina Malm e Louise Marrie. Temporada: 21 a 26/11/2011, Sesc Copacabana, Rio de Janeiro.

Clima de confraternização na leitura de Édipo Rei, anteontem, no Espaço Sesc, em Copacabana, no projeto Autopeças […]. Integrante da companhia, Gustavo Gasparani escolheu a leitura da popular tragédia grega. No elenco, Renata Sorrah, que se dividiu entre o Coro e Corifeu, espécie de narradora da trama, Pedro Paulo Rangel, Nelson Xavier, Isio Ghelman, e o diretor Amir Haddad, acompanhado de um séquito fiel ao teatro, formado pelas “alunas do Amir” Letícia Spiller e Cristiana Oliveira.128

No mesmo dia, em nota próxima:

A presença de Amir Haddad no palco arena do Sesc foi tamanha que, ao longo da leitura, ele chegou a quebrar a cadeira na qual estava sentado. Da tragédia fez-se a comédia, para deleite da plateia. O veterano diretor aproveitou o incidente para elevar a temperatura do local, atirando o que restou do acessório de cena escada do teatro abaixo.129

Haddad interpreta Tirésias, o cego adivinhador que, por sinal, rouba a cena dialogando com Édipo no início da peça. O experiente ator não cabe dentro do teatro, tamanha é sua força e domínio sobre a personagem a quem dá vida.130

2025

HADDAD E BORGHI: CANTAM O TEATRO, LIVRES EM CENA, criação e direção: Eduardo Barata.

CINEMA

1977

AJURICABA: O REBELDE DO AMAZONAS. 131 Longa-metragem (100 min.). Gênero: aventura. Direção: Oswaldo Caldeira. Baseado em caso verídico ocorrido na Amazônia do século XViii. Elenco: Amir Haddad, Rinaldo Ceres, Paulo Villaça, Nilso Parente, Emmanuel Cavalcanti, Fregolente, Carlos Eduardo Novaes, Sura Berditchevsky e Maria Silvia. (Filme premiado no Festival de Brasília de 1977.)

ANA. Curta-metragem de ficção. Direção e argumento: Raimundo Bandeira de Mello. Fotografia: Edgar Moura. Elenco: Ângela Valério, Miguel Oniga, Sergio Britto, Manfredo Colasanti, Ney Sant’Ana, Hilda Mello, Ivo Fernandes, Amir Haddad, Thaia Perez e outros.

Ana, Corpos e Catiti-Catiti são mais três filmes de ficção concorrentes ao 5° Festival Brasileiro de Curta-Metragem. O Festival, promoção Jornal do Brasil/Shell, será realizado de 21 a 25 de novembro no Cinema 1 e Cinemateca do MaM, distribuindo um total de cr$ 150 mil em prêmios. […] Ana é em 16 mm e em cores. A sinopse apresenta duas mulheres que moram juntas. Uma é atriz, Ana, que sofre as dificuldades de conseguir trabalho no mercado. A outra, Marta, ao chegar em casa encontra uma carta da amiga. A partir da leitura da carta, Marta reconstrói as circunstâncias que

128 Deuses e enigmas, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 28 nov. 2008, caderno B, p. 8

129 Ibidem.

130 Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 30 nov.-2 dez. 2012

131 Filme disponível no Youtube em: <https://www.youtube.com/watch?v=1H8NQPSiUSg>. (Acesso em 22 abr. 2022).

levaram Ana a um estado de depressão e desilusão entre a contradição do que “se quer e o que se é obrigado a fazer”.132

1992

PERDI A CABEÇA NA LINHA DO TREM 133 Curta-metragem (15 min.). Direção: Estevão Ciavatta Pantoja. O tema mistura samba e misticismo e teve como locação o Café e Bar Flor da Lapa. Elenco: Helena Ignez, Nélson Sargento, Duda Mamberti, Cândido Damm, Ana Cristina, Carla Alexandar, Marcelo Santiago, Silvana Weaver, Amir Haddad (participação especial como vendedor de panelas) e outros.

1996

DOCES PODERES. Longa-metragem (102 min.).

Gênero: comédia. Direção: Lcia Murat. Elenco: Amir Haddad, Stepan Nercessian, Antônio Fagundes, Sérgio Mamberti, Marisa Orth, Otávio Augusto, Elias Andreato, Zezé Polessa, Luís Melo e outros.

2002

SEPARAÇõES. Longa-metragem (116 min.). Gênero: comédia/romance. Direção: Domingos de Oliveira. Elenco: Amir Haddad, Domingos de Oliveira, Luís Melo, Pedro Cardoso, Maria Ribeiro, Ricardo Kosovski e outros.

CHãO DE ESTRELAS. Longa-metragem (90 min.).

Direção: Marcus Vinícius Faustini. Gênero: documentário, cujo tema é a situação do ator. Elenco: Amir Haddad, Fernanda Montenegro, Sergio Britto, Alberto Damit. Teatro Villa-Lobos, Rio de Janeiro. Estreia: 08/11/2002

Realizado com a desenvoltura de um documentarista veterano, Chão de estrelas seduz pela forma incisiva como Faustini, que assume o papel de entrevistador, aborda os personagens, evitando dar margem à pieguice em bate-papos com figuras como Alberto Damit, ator que fez greve de fome em frente ao prédio da tV Globo. Mesmo nomes consagrados da classe teatral brasileira, como Fernanda Montenegro, Sergio Britto e Amir Haddad, são tratados sem tom de bajulação que os supervalorize em detrimento de rostos menos consagrados.134

SUSPIROS REPUBLICANOS AO CREPÚSCULO DE UM IMPÉRIO. Curta-metragem (12 min.). Direção: Rosane Svartman e José Lavigne. Elenco: Caio Junqueira, Débora Lann, Domingos de Oliveira, Gutti Fraga, Perfeito Fortuna, Amir Haddad (Marechal Deodoro), José Wilker (narrador) e outros. Pré-estreia no Festival Curta Cinema, Rio de Janeiro, com início em 29/11/2002.

2003

O HOMEM DO ANO. Longa-metragem (113 min.).

Gênero: drama. Direção: José Henrique Fonseca. Baseado no livro O matador, de Patrícia Melo.

Elenco: Amir Haddad (Gonzaga), José Wilker, Murilo Benício, Wagner Moura, Claudia Abreu, Jorge Dória, Lázaro Ramos, Agildo Ribeiro, Mariana Ximenes, Perfeito Fortuna etc.

HARMADA. Longa-metragem (100 min.). Gênero: comédia dramática. Direção: Maurice Capovilla. Elenco: Amir Haddad (ator e preparador do núcleo

132 Reportagem e ficção se destacam no 5° Festival Jornal do Brasil/Shell, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 out. 1977, caderno B, p. 8

133 Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=7SqDxw-987s. (Acesso em 18 out. 2022).

134 Rodrigo Fonseca, Dramas para além do palco: documentário enfoca situação do ator, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8 nov. 2002.

de idosos do elenco), Antonio Pedro, Malu Galli, Cecil Thiré, Paulo César Pereio, Joana Medeiros, João Velho e outros.135

2005

O VENENO DA MADRUGADA. Longa-metragem (118 min.). Gênero: drama. Direção: Ruy Guerra. Elenco: Amir Haddad (Dom Sabas), Juliana Carneiro da Cunha, Nilton Bicudo, Tonico Pereira, Fábio Sabag, Fernando Alves Pinto e outros.

2007

APORIAS CONJUMINADAS. Longa-metragem (125 min.). Gênero: ficção. Direção: Vinicius Bandera. Elenco: Amir Haddad, Carmélia Alves, Marcus Cinelli, Santa Clara, Carlos Mossy, Jerry Adriani, Katia D’Angelo, Bárbara Santos, Rolo, Roni Valk, Paulo Rafael Pizarro etc.

MEMÓRIA DO MOVIMENTO ESTUDANTIL:

OU FICAR A PÁTRIA LIVRE OU MORRER PELO

BRASIL. Longa-metragem (103 min.). Gênero: documentário. Direção: Silvio Tendler. Elenco: Amir Haddad, Cássio Gabus Mendes, Dira Paes, Chico Diaz, Maíra Lemos, José Serra, Ferreira Gullar e outros.

2009

DZI CROQUETTES. Longa-metragem (110 min.).

Gênero: documentário. Direção: Tatiana Issa e Raphael Alvarez. Elenco: Amir Haddad, Claudio Tovar, Gilberto Gil, Liza Minelli, Marília Pêra, Betty Faria, Pedro Cardoso, Claudia Raia, Nelson Motta e outros.

UTOPIA E BARBÁRIE. Longa-metragem (120 min.).

Gênero: documentário. Direção: Silvio Tendler. Elenco: Amir Haddad (narrador), Chico Diaz (narrador), Letícia Spiller (narradora), Dilma Rousseff, Ferreira Gullar, Eduardo Galeano e outros.

2011

O VENENO ESTÁ NA MESA. Média-metragem (50 min.). Gênero: documentário. Direção: Silvio Tendler. Elenco: Amir Haddad, Eduardo Galeano, Dira Paes, Júlia Lemmertz, Caco Ciocler e outros.

2012

CIRANDEIRO. Longa-metragem (71 min.).

Gênero: documentário. Direção: Cláudio Boeckel. O filme tem como tema o próprio Amir Haddad e o teatro de rua. Elenco: Amir Haddad e grupo

Tá na Rua.136

2013

TUDO QUE MOVE. Longa-metragem (95 min.).

Direção: Thiago Gomes. Gênero: documentário. Elenco: Amir Haddad, Hugo Carvana, Stênio

Garcia, Nélida Piñon, Elke Maravilha, Zezé

Motta, Beth Carvalho, Tia Surica e outros.

2018

COMO VOCÊ ME VÊ? Longa-metragem (113 min.).

Gênero: documentário. Direção: Felipe Bond.

Elenco: Amir Haddad, Tonico Pereira, Cássia Kiss, Osmar Prado, Letícia Sabatella, Babu Santana, Tonico Pereira, Matheus Nachtergaele, Stênio Garcia e outros.

O BEIJO NO ASFALTO. A partir da obra de Nelson Rodrigues. Longa-metragem (98 min.). Direção

135 O making of pode ser visualizado em: https://www.youtube.com/watch?v=HPtmRwoouuA. (Acesso em 18 out. 2022).

136 Documentário disponibilizado pelo diretor Claudio Boeckel ao autor deste livro para fins de consulta.

e roteiro: Murilo Benício. Produção: República Pureza, Murilo Benício e Marcello Ludwig Maia. Adaptação da peça homônima, mesclando linguagem cinematográfica e teatral. Figurino: Valeria Stefani. Música tema: “A vida é ruim”, de Caetano Veloso, interpretada por Ney Matogrosso. Fotografia: Walter Carvalho. Elenco: Fernanda Montenegro (como dona Matilde), Amir Haddad (ator convidado, como diretor da peça), Stênio Garcia (ator convidado), Lázaro Ramos, Débora Falabella, Otávio Müller, Augusto Madeira e outros.

PAISAGEM: UM OLHAR SOBRE BURLE MARX. Longa-metragem (72 min.). Gênero: documentário. Direção: João Vargas Penna. Narração: Amir Haddad.

2021

POROPOPÓ. Longa-metragem (80 min.). Gênero: Família. Direção: Luís Antônio Igreja. Roteiro: Denise Bernardes e Rodrigo Parra. Elenco: Amir Haddad, André Abujamra, André Garcia Alvez, Daniel Gonzaga, Letícia Pedro, Luigi Montez, Ludmila Silva. Lançamento: Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, 23/10/2021.

2022

LEDOR VADOR E A ALMA NO TEATRO. Curta-metragem acadêmico (23 min.). Gênero: documentário. Idealização, direção e produção: Maria Eduarda Jerke, a partir do processo de montagem do espetáculo A alma imoral. Estação Net Botafogo, Rio de Janeiro. Elenco: Amir Haddad, Clarice Niskier e equipe do espetáculo. Pré-estreia: 17/12/2022

TELEVISãO

1986

CAMBALACHO. Participação especial em setembro na novela das 19h da tV Globo, de Silvio de Abreu. Direção: Jorge Fernando e Antônio Rangel. Exibição: 10/03 a 04/10/1986.

As gravações de Cambalacho agitaram Petrópolis na última sexta-feira. Quase todo o elenco da novela participou. Lá, foram feitas cenas dos julgamentos de Leonarda Furtado [Naná] (Fernanda Montenegro) e Andréia (Natália do Vale). Roberto de Cleto acabou não fazendo o papel do médico envolvido com a morte de Antero (Mário Lago). Em seu lugar, gravou Luís Sérgio Lima e Silva. Também fizeram participações: Amir Haddad, como o juiz [presidindo o julgamento de Naná], e Luiz Magnelli, vivendo o promotor.137

1993

AGOSTO Minissérie das 22h30 da tV Globo, de Jorge Furtado e Giba Assis Brasil. Direção: Paulo José, Denise Saraceni e José Henrique Fonseca. Direção geral: Paulo José. Direção artística: Carlos Manga. Adaptação de romance homônimo de Rubem Fonseca. Elenco: Amir Haddad (Afiador de facas), Lima Duarte, Ary Fontoura, Cláudio Corrêa e Castro, Elias Gleizer, Léa Garcia, Hugo Carvana, José Mayer, José Wilker, Mário Lago, Othon Bastos, Letícia Sabatella, Lúcia Veríssimo, Milton Gonçalves, Sérgio Mamberti e outros.

A minissérie foi exibida de 24/08/1993 a 17/09/1993

Os coadjuvantes de luxo que têm aparecido –Paulo Gracindo, Mário Lago, Lima Duarte, Amir Haddad, Silvia Bandeira – transformam

137 Hildegard Angel, Cambalacho movimenta Petrópolis, Jornal do Commercio, Manaus, 16 set. 1986, seção Por dentro da TV, Momento, p. 20.

qualquer ceninha em ótimos momentos. […]. A edição da minissérie, na verdade, está muito mais perto da linguagem cinematográfica do que a que a gente se acostumou a ver em novelas de tV. É mais correto falar em montagem em vez de edição.138

1994

MEMORIAL DE MARIA MOURA Minissérie exibida pela TV Globo de 17/05 a 17/06/1994, às 22h30 Adaptação do romance homônimo de Rachel de Queiroz, escrita por Jorge Furtado e Carlos Gerbase. Colaboração: Glênio Póvoas e Renato Campão. Direção: Denise Saraceni, Mauro Mendonça Filho, Marcelo de Barreto e Roberto Farias. Direção artística: Carlos Manga. Elenco: Glória Pires, Cléo Pires, Kadu Moliterno, Cristiana Oliveira, Zezé Polessa, Miriam Pires, Sebastião Vasconcellos, Amir Haddad (Mascate) e grande elenco.

2003

CAROL & BERNARDO. Especial exibido pela tV Globo em 23/12/2003, às 22h40. Roteiro: Bruno Mazzeo e Cláudio Torres Gonzaga. Direção: Mauro Mendonça Filho. Elenco: Andrea Beltrão, Eduardo Moscóvis, Amir Haddad (cubano), Paulo Betti, Iara Jamra, Otávio Müller, Ricardo Pavão etc.

2004-5

COMO UMA ONDA. Novela das 18h da tV Globo, de Walther Negrão, com colaboração de Fausto Galvão, Jackie Vellego, Lucio Manfredi e Renato Modesto. Direção geral Dennis Carvalho e Mauro Mendonça Filho. Exibição de 22/11/2004 a 17/06/2005. Amir Haddad interpretou o papel de Menez, numa participação especial com o Grupo Tá na Rua, que formou “um grupo de mendigos

sem nenhuma compostura”139. Elenco: Ricardo Pereira, Elias Gleizer, Mel Lisboa, Laura Cardoso, Alinne Moraes, Cauã Reymond, Hugo Carvana, Denise Del Vecchio, Marcos Caruso, Débora Duarte, Louise Cardoso e outros.

2008

A GRANDE FAMÍLIA. Temporada 8, episódio 19, “A maldição dos Carrara”. Série da tV Globo. Episódio escrito por Cláudia Jouvin, Maurício Rizzo e Marcello Gonçalves. Direção: Maurício Farias. Elenco: Marieta Severo, Marco Nanini, Pedro Cardoso, Andrea Beltrão, Lúcio Mauro Filho, Guta Stresser. Participação especial: Amir Haddad (Viana). Exibido em 07/08/2008

2010

S.O.S EMERGÊNCIA. Episódio “Sim senhor, sim senhora”. Série exibida pela tV Globo. A 1ª temporada de que Amir participa foi exibida entre 04/04 e 18/07/2010. Autores: Angélica Lopes, César Cardoso, Cláudia Gomes, Daniel Adjafre, Gabriela Amaral, Marcius Melhem e Paulo Cursino (1ª temporada). Direção geral: Mauro Mendonça Filho. Elenco: Ney Latorraca, Marisa Orth, Bruno Garcia, Ellen Roche, Alessandra Negrini, Antônio Pitanga, Cássio Gabus Mendes, Arlete Salles, Duda Mamberti, Amir Haddad (Afonso) e outros.

2017-8

SOB PRESSãO Série da tV Globo exibida às 22h30 Direção: Andrucha Waddington e Mini Kerti. A 1ª temporada foi transmitida entre 25/07 e 19/09/2017 (com 9 episódios); a 2ª temporada, entre 08/10 e 18/12/2018 (com 11 episódios); a 3ª, por fim, entre 02/05 e 25/07/2019 (com 14 episódios). Elenco: Amir Haddad (seu Benedito), Camilla Amado

138 Artur Xexéo, No Brasil, honestidade dá úlcera, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 12 set. 1993.

139 Rachel Almeida, Por um teatro libertário, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 jul. 2005.

(sua esposa, dona Lúcia), Júlio Andrade, Marjorie Estiano, Bruno Garcia, Stepan Nercessian, Fernanda Torres, Marcelo Serrado, Drica Moraes, Ângela Leal, Zezé Motta e outros.

2019

ÓRFãOS DA TERRA Novela das 18h da tV Globo, exibida entre 02/04 e 28/09/2019. Autoras: Duca

Rachid e Thelma Guedes. Escrita por: Dora Castellar, Aimar Labaki, Carolina Ziskind, Cristina Biscaia. Colaboração: Cristina Biscaia.

Direção: Alexandre Macedo, Bruno Safadi, Pedro Peregrino e Lúcio Tavares. Direção-geral: André Câmara. Direção artística: Gustavo Fernandez. Elenco: Julia Dalavia, Renato Góes, Herson Capri, Letícia Sabatella, Carmo Dalla Vecchia, Marco Ricca, Ana Cecília Costa, Amir Haddad (como Tito Faiek, avô de Laila, na Síria, com participação no início da novela) e grande elenco.

2024

JUSTIÇA 2. Série de Manuela Dias (indicada ao Emmy Internacional como Melhor Série Dramática em sua primeira temporada de 2016). Colaboração: Walter Daguerre e João Ademir. Direção: Mariana Betti, Pedro Peregrino e Ricardo França. Direçãogeral e artística: Gustavo Fernandez. Globo Play e tV Globo. Elenco: Amir Haddad, Maria Padilha, Marco Ricca, Helena Kern, Juan Paiva, Murilo Benício, Paolla Oliveira etc.

AMIR PROFESSOR

1962 a 1965: Escola de Teatro da Universidade Federal do Pará, Belém.

1966 a 1973: Escola de Teatro da Federação das Escolas Federais Isoladas do Estado do

Rio de Janeiro (FeFierJ – antigo Conservatório Nacional de Teatro), Rio de Janeiro.

1968 a 1978: Escola de Teatro Martins Pena, Rio de Janeiro.

1990 (setembro): pedagogo convidado da Escola Internacional de Teatro da América Latina e do Caribe – Machurrucutu (aldeia de gado leiteiro perto de Havana), Cuba.

1992 a 1995: Formação do Núcleo de Teatro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Tuerj), Rio de Janeiro.

1980 até o presente: Escola Carioca do Espetáculo Brasileiro, do grupo Tá na Rua, Rio de Janeiro.

FORMAÇÃO E ORIENTAÇÃO DE NÚCLEOS DE PESQUISA TEATRAL 140

1978

Grupo Palco e Rua – trabalho de implantação, junto à Secretaria de Cultura e Turismo de Ouro Preto (Mg).

1995

Projeto caetÉs – Centro Amazônico de Experimentação Teatral; implantação do núcleo de trabalho em Belém, como assessor especial da Secretaria de Estado de Cultura – Governo do Pará.

1996

eXPedições descoloNizadoras – Projeto Hoje tem espetáculo, da Fundação José Augusto; oficinas teatrais realizadas em diversos municípios do Rio Grande do Norte: Natal, Mossoró, Ceará Mirim, Caicó.

140 Angela Rebello, Somma ou Os melhores anos de nossas vidas: arqueologia de um exercício teatral. Monografia (bacharel em Artes Cênicas) – CLA-Unirio, Rio de Janeiro, 2005, p. 182.

escola de cultura, coMuNicação, oFícios e artes (Ecoa) – Instituto Dragão do Mar. Secretaria da Cultura e Esporte do Estado do Ceará. Implantação e realização de oficinas teatrais em Fortaleza (ce).

CURSOS TEMPORÁRIOS 141

1978-81

Cursos livres em diversas cidades brasileiras, pela Confederação Nacional de Teatro Amador (Confenata): Brasília (dF), Boa Vista (rr), Cuiabá (Mt), São Paulo (sP) entre outras.

Cursos livres da Federação de Teatro Associativo do Estado do Rio de Janeiro (Fetaerj), em diversas cidades do estado do Rio de Janeiro: Campos dos Goytacazes, Resende, Volta Redonda entre outras.

Curso de reciclagem de atores, pela Secretaria de Cultura do Espírito Santo.

Curso de reciclagem para atores profissionais, pelo Sindicato dos Artistas do Rio de Janeiro (rJ).

1982

Curso livre pela Fundação Teatro Guaíra (Pr).

1983

Curso de treinamento de atores, pela Secretaria de Cultura de Juiz de Fora (Mg).

1987

i Festival Latino-Americano de Arte e Cultura (Flaac)/Universidade Federal de Brasília; curso livre; Brasília (dF).

1988

Curso livre no XVii Festival de Artes de São Cristóvão (se).

141 Ibidem, p. 183.

1989

O ator no musical. Festival de Inverno de Minas Gerais/Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte (Mg).

Espaço/ator. ii Mostra Latino-Americana de Teatro, Londrina (Pr).

1992

Participação no Projeto Trianon – Academia Doris Cunha, Campos dos Goytacazes (rJ).

O ator do espaço aberto – oficina. Vi Festival Universitário de Blumenau (sc).

1993

O teatro libertado e o ator no espaço aberto –oficina. ii Encontro Brasileiro de Teatro de Grupo. Oficina Cultural Candido Portinari, Ribeirão Preto (sP).

1994

Oficinas de teatro de rua, no Espaço Oficina Mazzaropi, pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo (sP).

O teatro libertado e o ator do espaço aberto –i Porto Alegre em Cena, Porto Alegre (rs).

1996

O teatro de Shakespeare. Fórum Shakespeare Internacional – British Council/Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro (rJ).

Iniciação teatral. Espaço Cultural Finep, Rio de Janeiro (rJ).

142

PROJETOS ESPECIAIS

1984

Escola viva, projeto de ação cultural desenvolvido na Escola Municipal Arruda Negreiros, em Nova Iguaçu (rJ), por meio do Projeto Educação e os diversos contextos culturais do país, do Ministério da Educação e Cultura.

1997

Projeto de criação do Centro Internacional de Formação e Desenvolvimento em Teatro e Educação, em Anchieta (es), em convênio com a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Anchieta (es).

SEMINÁRIOS, PALESTRAS

E CONFERÊNCIAS 143

1976

Teatro e o Teatro Brasileiro. Palestrante. Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Departamento Cultural. Setor Teatro, Rio de Janeiro (rJ).

1988

ii Seminário da Crítica Teatral. Mesa-redonda: a voz dos criticados. Debatedor. Inacen/Minc, Rio de Janeiro (rJ).

1989

Seminário: a produção teatral e o contexto do país. Conferencista. Xiii FestiMinas, Belo Horizonte (Mg).

Seminário: Cultura e Politica Latino-Americano. Participação no painel: Perspectivas de trabalho Cultural na América Latina. Instituto Latino Americano de Desenvolvimento Econômico e Social (Ildes) (sP). Hotel Copacabana Palace, Rio de Janeiro (rJ).

142 Ibidem, p. 184

143 Ibidem, p. 185.

Seminário: s o s. Morte Civil. Moderador. Associação das Prostitutas do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)/Centro de Educação e Humanidades, Rio de Janeiro (rJ).

Três chaves do pensamento original: Eros, mito e logos. Mesa-redonda: o espaço de Eros. Debatedor. Curso de extensão. Universidade Santa Úrsula. Vice-reitoria comunitária/ Serviço de Atividades Sócio-Culturais, Rio de Janeiro (rJ).

1990

iii Mostra Latino-Americana de Teatro –iV Forum da Cultura. Conferencista. Tema: Reencontro com as origens no teatro do final do século, Londrina (Pr).

Balanço dos anos [19]80 e perspectivas para [19]90. Debate. Participação. Universidade Aberta (Univerta), Rio de Janeiro (rJ).

V Encontro Renner de Teatro. Palestrante, Porto Alegre (rs).

1991

Seminário: Espaço vivo: a ribalta das escolas de teatro. Palestrante. Tema: A modernidade do texto: “O mambembe”, de Arthur Azevedo e José Piza, Rio de Janeiro (rJ).

O ator nos espaços abertos. Palestra. Auditório da rFFsa. Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, Fortaleza (ce).

1992

Projeto Barbante: um encontro com o mundo da leitura. Prefeitura Municipal de São Gonçalo/ Secretaria Municipal de Educação e Cultura, São Gonçalo (rJ).

Seminário Ecoa. Palestrante. Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, Fortaleza (ce).

1994

i Seminário sobre cultura brasileira, para criação da Casa de Cultura do Brasil. Diretor convidado – Consulado Geral do Brasil. Nova York (Estados Unidos).

Duelo na boca de cena. Debate Amir Haddad/Jorge Takla. Fax-cruzado. Publicação: JB, 11 de janeiro de 1996.

I Seminário de Teatro de Rua de Angra dos Reis. Palestrante, Angra dos Reis (rJ).

Seminário de leitura Módulo Zero. Pro-Ler: Projeto Nacional de incentivo à leitura. Expositor. Tema: Leitura e linguagens. Universidade Estadual de Feira de Santana (ba).

1995

Jornada de Debates: Educação e desenvolvimento humanizado. Debatedor. Auditório Senai. Secretaria da Educação do Estado do Rio de Janeiro (rJ).

1996

Festival Nacional de Teatro Isnard Azevedo –Ano 4. Palestrante. Teatro Álvaro de Carvalho, Florianópolis (sc).

1997

ii Encontro Anglo-Brasileiro. Fórum de Teatro. Debatedor. Centro Cultural Banco do Brasil/ Espaço Cultural dos Correios, Rio de Janeiro (rJ).

Seminário de cenografia. Mesa-redonda: espaço da rua como cenário. Participação. Serviço Social do

144 Ibidem, p. 187.

Comércio (Sesc-sP); Sociedade Cultural Flávio Império; Sesc Pompeia (sP).

17º Festival Nacional de Teatro de São José do Rio Preto. Seminário de Teatro Contemporâneo. Expositor. Tema: O que é teatro de rua? –Tendências da encenação contemporânea.

São José do Rio Preto (sP).

7ª Jornada Nacional de Literatura. Pro-Ler: Projeto Nacional de incentivo à leitura. Palestrante, Passo Fundo (rs).

2001

Ensino Fundamental do Programa Escola que Vale em Catas Altas (Mg). Workshop de demonstração da linguagem do Grupo Tá na Rua. Coordenação da Vale do Rio Doce.

Viii Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga (ce). Tema: Teatro de Rua no Brasil.

ARTIGOS PUBLICADOS 144

1980

Coluna Cultural. Em: Panorama Cultural. Niterói: agosto 1980, ano i, n. 2

Coluna Cultural. Em: Panorama Cultural. Niterói: setembro 1980, ano i, n. 3

Coluna Cultural. Em: Panorama Cultural. Niterói: outubro 1980, ano i, n. 4

1988

Teatro: magia sem mistério. Em: Cultura Rio. Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro (rJ).

1993

A construção do espetáculo. Em: Oficinas do sonho: a Beija-Flor vista do barracão. Catálogo da exposição/documentário fotográfico de Valtemir Valle. Museu de Arte Contemporânea/usP, São Paulo (sP).

1994

O espaço. Em: Tântalo. Boletim de comunicação, educação e cultura. Reconstrução/Ceco. Joinville, maio-junho 1994

DEPOIMENTOS 145

1991

Depoimento à Fundação Museu da Imagem e do Som (Mis). Governo do Estado do Rio de Janeiro/ Secretaria de Cultura (rJ).

1994

Depoimento/conversa com Maria Lúcia Dahl, para o livro A década do depois, publicado pela Editora Quarted.

PREMIAÇÕES 146

1959

Melhor diretor, com o espetáculo A incubadeira, de José Celso Martinez Corrêa; no ii Festival Nacional de Teatro de Estudantes.

1968

Prêmio Molière, com o espetáculo A construção, de Altimar Pimentel.

1970

Prêmio Molière, com o espetáculo O marido vai à caça, de Feydeau.

1972

Prêmio Governador do Estado do Rio de Janeiro, com o espetáculo Tango, de Mrozek.

1989

Prêmio Shell, com o espetáculo Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, de Vianinha e Ferreira Gullar.

1997

Prêmio Sharp, com o espetáculo O mercador de Veneza, de William Shakespeare.

HOMENAGENS147

1986

Moção de congratulações da Câmara Municipal do Rio de Janeiro (rJ).

1988

Diretor convidado da I Mostra Latino-Americano de Teatro/XVii Festival Universitário de Teatro de Londrina, Londrina (Pr).

1990

Diretor convidado do V Festival Íbero-Americano de Cadiz (Espanha).

1995

Medalha de Honra ao Mérito Pedro Ernesto, da Câmara Municipal do Rio de Janeiro (rJ). Homenagem especial no 5º Festival Internacional de Artes Cênicas (Fiac), São Paulo (sP).

145 Ibidem, p. 187

146 Ibidem, p. 189.

147 Ibidem, p. 190.

1998

Convidado de Honra do 10º Festival Internacional de Teatro Experimental, Cairo (Egito).

Título de Cidadão honorário, conferido pela Câmara Municipal de Natal (rN).

2006

Ordem do Mérito Cultural na categoria

Comendador, no Salão Nobre do Palácio do Planalto, Brasília.

2018

Prêmio da Associação dos Produtores de Teatro (aPtr).

2019

Título de doutor honoris causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

2023

Prêmio em Salvador

Homenageado no 29º Prêmio Braskem de Teatro, na quarta-feira, dia 29 de novembro, no Teatro

Sesc Casa do Comércio, em Salvador (ba).

A cerimônia foi intitulada “Afeto, um auto de amor ao teatro”. O prêmio é uma realização da Caderno 2 Produções, com patrocínio da Braskem e do Governo da Bahia.

2024

Homenagem a Amir Haddad e Renato Borghi durante a 34ª edição do Prêmio Shell de Teatro.

2025

Eleito membro vitalício da Academia LíbanoBrasileira de Letras, Artes e Ciências. Evento de posse no Consulado Geral do Líbano.

OUTRAS ATIVIDADES E PERCURSOS

Como se viu até aqui, inumeráveis são os cursos, intervenções públicas, comissões de festivais, entre outras atividades de que Amir Haddad tomou parte ao longo de sua trajetória. Inventariá-las seria possível, dada a farta documentação de sua carreira. Mas optei por registrar apenas algumas, a título de amostragem – o que em quantidade já é muito –, pois não fazem senão o papel de colorir tipologias e naturezas de cada proposta ao longo de sua vida.

A exposição completa das atividades documentadas quase diariamente pelos principais veículos de imprensa do Brasil tornaria o material, de resto, desnecessário para uma maior dimensão de seu nível de atuação artística, política, social, pedagógica e pessoal, citado centenas de vezes por artistas, comentadores ou humoristas que usaram seu perfil como referência de qualidade para analogias e observações analíticas sob os mais variados âmbitos. Aí vai “um pouco” do que Amir andou fazendo fora de suas direções e atuações principais.

1960

Manifesto por Nydia

Assinado em setembro por vários artistas em prol da atriz Nydia Licia, reivindicando a retomada de seu direito ao uso do Teatro Bela Vista, que ocorreu em 20 de outubro de 1960, com a estreia do espetáculo Apartamento indiscreto, dirigido por Amir Haddad.

1961

Curso Prático de Teatro

Instituto Cultural Israelita-Brasileiro convida seus associados e interessados a participarem do “Curso Prático de Teatro” ministrado pelo diretor Amir Haddad. Todas as quartas-feiras, às 20h30, em sua sede social à rua Três Rios, nº 252. 148

148 Nossa voz: semanário israelita-brasileiro, ano XV, São Paulo, 16 nov. 1961

1966

Conferência na Escola Martins Pena, Rio de Janeiro

Também a Escola de Teatro Martins Pena, que parece querer sair um pouco da sua tradicional letargia através de atividades extracurriculares, vai promover um ciclo de conferências sobre teatro. A série será inaugurada pelo diretor Gianni Ratto […]. Bárbara Heliodora, Rubem Rocha Filho, Luís Carlos Maciel, João das Neves, Yan Michalski, Paulo Afonso Grisolli, Amir Haddad [entre outros] são os outros conferencistas que estão sendo convidados […].149

1967

I Seminário de Dramaturgia Carioca

A sessão de hoje do I Seminário de Dramaturgia Carioca, a ser realizada às 21h no Conservatório Nacional de Teatro, está sendo aguardada com particular interesse: segundo ouvimos dizer, a peça a ser lida, Satã morre de asma em Copacabana, de Luciano Zajdsznajder, promete dar margem a muitas controvérsias e polêmicas. É uma

chanchada sinfônica, com música de Flávio Silva, e será lida por atores do Tuca sob direção de Amir Haddad.150

Comissão de Avaliação da Escola Martins Pena

O Secretário de Educação da Guanabara, Sr. Gama Filho, destinou ontem uma comissão composta pelos senhores Pascoal Carlos Magno, Yan Michalski, Paulo Afonso Grisolli, Napoleão

Moniz Freire e Amir Haddad para estudar e elaborar projeto destinado a reformar a Escola de Teatro Martins Pena. A comissão tem 30 dias para apresentar relatório. O estado de abandono em que se encontra a [escola] foi denunciado em reportagem publicada pelo [Jornal do Brasil] no último dia 29/10, onde se revelava que, além da falta de professores, o prédio se encontra em situação precária, inclusive sem luz elétrica.151

[…] não se tratou, portanto, de uma Comissão Interventora dotada de poderes executivos, conforme foi insinuado […]. A tarefa foi realizada sem qualquer ônus para os cofres do Estado. O parecer não sugeria, em absoluto, o fechamento sumário da Escola Martins Pena.152

Teatro João Caetano

O João Caetano ganhou novo diretor: Amir Haddad que, entre outros trabalhos, tem o de direção de Verde que te quero verde e Coronel de Macambira para o Tuca, que, assim, perderá sua colaboração.153

Informa Amir Haddad, Diretor do Teatro João Caetano, que o sistema de refrigeração daquela casa de espetáculo já se acha ligado, em fase de experiências, e que deverá estar em pleno funcionamento para a temporada de Homem de papel, a ser iniciada depois de amanhã.154

149 Conferência na Martins Pena, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 maio 1966, seção Panorama do Teatro, caderno B, p. 6

150 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1º set. 1967, seção Panorama do Teatro, nota Seminário, caderno B, p. 5

151 Comissão vai dizer como está escola, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 nov. 1967, caderno 1, p. 4

152 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 9 fev. 1968

153 Revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 18 nov. 1967, p. 125

154 João Caetano refrigerado, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22 nov. 1967, nota na seção Panorama do Teatro, caderno B, p. 3.

1968

Gente Nova em Livro

A Editora Expressão e Cultura acaba de lançar em bonita e original apresentação gráfica o livro

Gente nova, nova gente [ver bibliografia consultada desta biografia], que estuda a participação da jovem geração brasileira nas atividades artísticas. Na parte relativa ao teatro, a cargo de Luís de Lima, são apresentados os resultados de uma pesquisa sociológica realizada através de um questionário respondido por 250 jovens que se dedicam ao teatro, e ainda entrevistas feitas com alunos do Conservatório Nacional de Teatro, com integrantes do Tablado, com os autores Antônio Bivar e Carlos Aquino, e com o Diretor Amir Haddad. O livro é ilustrado com belas fotografias de Édson Cláudio.155

Teatro no Colégio Brasil

O Colégio Brasil, cujo Departamento de Teatro obedece à orientação de João Rui Medeiros, promoverá de 4 a 27/03 um ciclo de conferências subordinadas ao título Um panorama da dramaturgia ocidental, do realismo intimista até nossos dias. Fernando Peixoto, Luís Carlos Maciel, Martim Gonçalves, Heitor O’Duvyer, Bárbara Heliodora, Amir Haddad e José Celso Martinez Corrêa figuram entre os conferencistas.156

No Festival Amador

O Festival Brasileiro de Teatro Amador, promovido pela Associação de Teatro Amador, anuncia para

esta noite, amanhã e domingo as apresentações de As Troianas, de Eurípides, em adaptação de Sartre, pelo elenco do Mabe. Os espetáculos são realizados no Teatro Nacional de Comédia, às 21h. A Comissão Julgadora do Festival é integrada por três diretores profissionais: Amir Haddad, B. de Paiva e Paulo Afonso Grisolli.157

1970

Leitura de Dias Gomes no Opinião

Odorico, de Dias Gomes, é o programa desta noite na série de leituras de textos nacionais inéditos que o Centro Cultural Sigla Viva está promovendo com absoluto sucesso na Cinemateca do MaM. A peça […] será lida por um numeroso elenco, que ensaiou sob a direção de Amir Haddad e no qual se destacam as presenças de Isabela, Maria Pompeu, Janet Chermont, Nildo Parente, Amândio, Carlos Aquino e Roberto de Cleto. A leitura está marcada para as 20h30 e a entrada é franca.158

Leitura de Maria Helena Kuhner no Opinião

Os dentes de tigre, de Maria Helena Kuhner, direção de Amir Haddad. O evento integrou o Ciclo de Leituras no Teatro Opinião, coordenado por Maria Pompeu e Carlos Aquino. Data: segunda, 24/08/1970. 159

Haddad fala de Beckett Dando prosseguimento ao ciclo de conferências

155 Yan Michalski, Gente nova em livro, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 10 jan. 1968

156 Teatro no Colégio Brasil, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 23 jan. 1968, nota na seção Panorama do Teatro, caderno B, p. 3

157 No festival amador, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1º nov. 1968, nota na seção Panorama do Teatro, caderno B, p. 3

158 Yan Michalski, Leitura de Dias Gomes, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 13 jan. 1970, nota na seção Panorama do teatro, caderno B, p. 3

159 Idem, Os dentes do tigre em leitura, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 23-4 ago. 1970, coluna Preços e despedidas, caderno B, p. 4.

sobre o teatro de absurdo e de vanguarda que está sendo realizado no Teatro do Senac, Amir Haddad falará às 18h30 de hoje sobre Beckett e a Tradição Irlandesa. Amir Haddad é o diretor de Fim de jogo, de Beckett, em última semana de apresentações no mesmo Teatro do Senac.160

Revista diferente

Em março, o Teatro Casa-Grande deverá apresentar um espetáculo de revista bastante diferente das realizações tradicionais do gênero. A direção será de Amir Haddad, a cenografia de Joel de Carvalho, e os textos estão sendo especialmente encomendados a vários dramaturgos de destaque, entre os quais José Vicente e Antônio Bivar.161

O […] Casa-Grande, que pretende apresentar em março uma grande revista dirigida por Amir Haddad e subordinada ao tema “Rio, ex-Capital Federal”, solicita aos autores e compositores […] sketches, cenas, crônicas, canções etc. relacionados com o assunto […].162

O comentarista e técnico de futebol João Saldanha é autor de um dos quadros da revista Rio, ExCapital Federal que o Teatro Casa-Grande apresentará em março, com direção de Amir Haddad. Reinaldo Jardim, Eneida, Paulo Afonso Grisolli, Sérgio Cabral e Luís Carlos Maciel são

alguns dos outros autores cujos textos integrarão a revista.163

1971

Curso no Teatro Senac

De 10/03 a 21/07, ocorreu o primeiro de dois cursos idealizados por Sergio Britto no Teatro Senac com a seguinte equipe de professores: Amir Haddad, Bárbara Heliodora, Gianni Ratto, Henrique Oscar, Sergio Britto e Yan Michalski. Nele, segundo o periódico Luta Democrática, deveriam ser estudados “os movimentos estéticos e as experiências estilísticas do fim do século XiX ao presente [XX]. Serão ministradas vinte aulas”164 sobre teatro realista, impressionista, brasileiro e as teorias e métodos de interpretação de Stanislavski a Grotowski.

Voz na Comunidade

O grupo Comunidade promove um curso completo de dicção e impostação de voz para atores no qual há 10 vagas abertas a integrantes de qualquer elenco carioca. O curso será ministrado por Glorinha Beuttenmüller, professora da Escola de Teatro da Fefieg e preparadora vocal da Comunidade. […] Por outro lado, a Comunidade vem realizando atualmente um seminário interno, no qual estão sendo examinadas em profundidade a filosofia, a estrutura e as atividades do grupo. Uma vez encerrado o seminário, serão iniciados os ensaios da próxima produção da Comunidade: uma

160 Idem, Haddad fala de Beckett, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 nov. 1970, seção Panorama do teatro, caderno B, p. 3

161 Idem, Revista diferente, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 dez. 1970, seção Panorama do teatro, caderno B, p. 3

162 Idem, Casa-Grande busca colaboradores, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 6 jan. 1971, seção Panorama do teatro, caderno B, p. 3.

163 Idem, João Saldanha dramaturgo, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21 jan. 1971, seção Panorama do teatro, caderno B, p. 3

164 Idem, Do realismo ao teatro de hoje em: Cursos no teatro do Senac, Luta Democrática, Rio de Janeiro, 7-8 fev. 1971, seção Teatro, caderno B, p. 2.

adaptação de Candide, 165 de Voltaire, com direção de Amir Haddad.166

V Festival de Inverno de Ouro Preto

Belo Horizonte (sucursal) – A Universidade Federal de Minas Gerais divulgou ontem o programa do V Festival de Inverno de Ouro Preto, que será levado às cidades históricas Caeté, Congonhas do Campo, Diamantina, Mariana, Sabará, São João Del Rei e Tiradentes, com aulas de Artes Plásticas, Música, Teatro e Dança. Em Ouro Preto serão realizados cursos complementares de Cultura Brasileira, Estética, Festival Mirim e o Festival de Corais, com aulas para crianças professores e pais, num total de 700 alunos, que deverão providenciar suas inscrições até o dia 28. As solenidades de abertura do Festival estão marcadas para o dia 30. 167

No programa do V Festival de Inverno de Ouro Preto, a ser realizado de 30/06 a 31/07, consta um Curso de Teatro e Dança que obedece à direção geral de Silvia Orthof, é integrado por Amir Haddad (Interpretação), José Antônio de Sousa (Improvisação) [entre outros]. As inscrições devem ser dirigidas até 28/06 à Secretaria do Festival de Inverno […], de 1 a 31/07. 168

Núcleo de Atividades Criativas

O encenador Amir Haddad dirigirá, no recéminaugurado Núcleo de Atividades Criativas, na

rua Marques, 15, um laboratório de interpretação, expressão corporal e pesquisa de forma e de movimento através do corpo e da palavra.

O laboratório é aberto a jovens e adultos que não precisam necessariamente destinar-se à carreira teatral. […] Haddad utilizará pequenos trechos de dramaturgia brasileira contemporânea.169

Conferências polêmicas

O Curso Popular de Arte do MaM e o Grupo Comunidade promovem uma série de conferências que são realizadas aos domingos, às 16h. As palestras caracterizam-se por títulos voluntariamente paradoxais, um tom polêmico e uma procura de amplo debate com o público.

A série foi inaugurada domingo passado por Amir Haddad, que falou sobre o tema Por que acho que o diretor teatral deve desaparecer? Para os próximos domingos estão previstas as conferências de Fernanda Montenegro (Por que acho necessário o mito da atriz?), Aldomar Conrado (Por que acho o espetáculo mais importante que o texto?), Sergio Britto (Por que acho que o ator convencional não pode fazer o novo teatro?), Bárbara Heliodora (Por que gosto do novo teatro?), Yan Michalski (Por que acho desnecessária a crítica teatral?) e Maria da Glória Beutenmüller (Por que acho desnecessária a palavra no novo teatro?). A entrada é franca.170

165 Entretanto, essa montagem não chegou a estrear.

166 Yan Michalski, Voz na Comunidade, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 12 mar. 1971, seção Panorama do teatro, caderno B, p. 3.

167 Reitoria da UFMG divulga programação do V Festival de Inverno de Ouro Preto, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1º jun. 1971, 1º caderno, p. 10.

168 Yan Michalski, Ouro Preto, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 9 jun. 1971, seção Panorama do teatro, caderno B, p. 3.

169 Amir Haddad no NAC, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 25 ago. 1971, seção Panorama dos cursos, caderno B, p. 3

170 Yan Michalski, Conferências polêmicas, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 set. 1971, seção Panorama do teatro, caderno B, p. 3.

A caça e o caçador

O Grupo Comunidade, sob direção de Amir Haddad, continua realizando o trabalho preparatório para a encenação de A caça e o caçador, de Francisco Pereira da Silva, e espera apresentar o espetáculo em 1972, como sempre no Museu de Arte Moderna.171 Esta montagem não chegou a estrear.

Teatro Hoje

A apresentação [da peça A oração, de Arrabal, por alunos da Escola Martins Pena, dirigida por Silvio Campanha] introduzirá uma série de quatro palestras sobre o tema Teatro Hoje, a serem realizadas [na Biblioteca Regional de Copacabana] […], nos dias 23 (Teatro do Absurdo, por Heloísa Maranhão), 24 (Teatro de Arrabal, por José Arrabal), 25 (Direção no Teatro Moderno, por Amir Haddad) e 26 (O Ator no Teatro Moderno, por Silvio Campanha). Entrada franca para as palestras e a apresentação de A oração. 172

1972

Curso no Teatro Senac

Incentivado pelo sucesso dos [cursos livres] que realizou no ano passado, [Sergio Britto] lança terçafeira um Curso de Extensão Cultural onde dará

aulas ao lado de Bárbara Heliodora e Amir Haddad. Ao mesmo tempo prossegue com os dois laboratórios para atores e aspirantes que funcionam desde janeiro. […] O Curso de Extensão Cultural que só contará com aulas práticas vai durar quatro meses sempre às terças-feiras no Teatro Senac.173

I Simpósio de Teatro Escolar, Amador e Infantil

Promoção da Divisão de Teatro da Guanabara, com sessões diárias às 16h, no foyer do Teatro João

Caetano. [De 19 a 23/06 haverá] sessões dedicadas ao Teatro Infantil, com conferência de Amir Haddad, Rosa Benedetti Magalhães, Pernambuco de Oliveira, Lúcia Benedetti, Maria Lúcia Amaral.174

Síndica, qual é a tua?

Peça de Luiz Carlos Góes. Direção: Amir Haddad. Produção: Ruth Escobar. Cenário: Hélio Eichbauer.

Elenco: Ruth Escobar, Assunta Perez, Jonas Mello, Airton Faria, Regina Braga, Nuno Leal Maia, Claudio Mamberti etc. 175

Rute está no Rio. E junto dela, oito jovens atores paulistas que vieram ensaiar Síndica, qual é a tua?

Numa inversão de papéis, Rute trouxe o elenco até

171 Comunidade, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11 nov. 1971, seção Panorama do teatro, caderno B, p. 3

172 Teatro hoje, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 nov. 1971, seção Panorama do teatro, caderno B, p. 3

173 Cursos em novo papel, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26-7 mar. 1972, caderno B, p. 8

174 Yan Michalski, Simpósio oportuno, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1º jun. 1972, caderno B, p. 2

175 Após dois meses de ensaios aproximadamente, a peça não estreou, mas consolidou a amizade entre Amir e Ruth Escobar. O trabalho estrearia no Teatro Ipanema, com Marília Pêra, dirigida por Antonio Pedro, apenas em 1976, contando no elenco com Jacqueline Laurence, Nelson Xavier, Buza Ferraz e outros. “Porém, em Síndica, a pândega convivência entre o diretor [Amir Haddad], o autor e o elenco, em ensaios que se prolongaram por semanas no Rio antes de se transferirem à rua dos Ingleses [Teatro Ruth Escobar, São Paulo], incluiu uso esporádico de ácido lisérgico, o que entretanto não ajudou a protagonista a alcançar a psicologia de ‘uma personagem muito distante da realidade de Ruth’, como explica Haddad: ‘A síndica era uma maconheira carioca muito louca, bem longe da portuguesa (sic) de São Paulo’, e após mais dois meses de ‘ensaios perdidos’ no Teatro do Meio, a montagem foi cancelada. ‘Ela não conseguiu fazer e senti pena, pois sempre insistiu muito em seu lado de atriz e nunca deu muito certo’, lembra Haddad. […].” (Alvaro Machado, […] metade é verdade – Ruth Escobar, São Paulo: Edições Sesc, 2021, p. 295).

o diretor – Amir Haddad –, pois “não compreendo este texto dirigido por ninguém mais”. [E Amir não poderia se ausentar do Rio neste período] […] Rute Escobar dança vivamente ao som da música espanhola. O movimento do xale preto, o sorriso de dentes enormes, os sons emitidos com graça. Totalmente entregue a si mesma, ela deixa-se levar pela música e acompanha os outros atores no exercício proposto por Amir. No palco improvisado, onde há apenas um colchão, eles brincam, cantam, gritam, dançam ou simplesmente falam. […]. “Só o Amir está conseguindo fazer com que eu abra determinadas comportas em mim, perante ele e todo o elenco. De repente, fiquei vulnerável. E descobri que isso me tornou mais forte ainda.” […] “Quero o Amir dentro do grupo [que pretendo criar em São Paulo], junto com outro diretor, Celso Nunes, o cenógrafo Hélio Eichbauer e Carlos Queirós [Telles], que fez a adaptação de Camões [referência à peça A viagem].176

Crise de público no teatro Não existe […] assunto mais difundido do que crise de público. […] Considerado por muitos como pai do moderno teatro brasileiro, o diretor e ator Ziembinsky tem ultimamente proposto […] uma explicação desanimadora do problema: o brasileiro […] simplesmente não gosta de teatro […].

Procurando investigar o assunto, dois diretores –o próprio Ziembinsky e Amir Haddad –, um jovem ator – Aílton de Faria, de São Paulo, – um cenógrafo – Joel de Carvalho – e um crítico –Yan Michalski –, durante duas horas debateram o pouco interesse do brasileiro […] e seus motivos diretos e indiretos.177

1973

A posição do artista diante da atividade teatral

O Teatro Senac promove uma série de conferências sobre o tema com início marcado para o dia 09/01. Sempre das 17h às 18h, no próprio teatro […] as palestras estão a cargo do crítico Yan Michalski (dia 9), Luis Carlos Ripper (dia 11), José Luís Liggiero Coelho (dia 18), Sergio Britto (dia 23), Amir Haddad (dia 25).178

Curso de Comunicação Social O Conjunto Universitário Cândido Mendes e a Diretoria de Extensão e Expansão Universitária ofereceram, a partir de 20/03/1973, os cursos de Teatro como Comunicação com Amir Haddad; Cinema como Comunicação com Alex Viany; Novas Teorias Psicológicas da Comunicação com Maria da Glória Ribeiro; e Teorias e Diferentes Filosofias de Comunicação com Carlos Henrique Escobar e Marco Aurélio Luz.

Às armas

Dia 4 de maio de 1973, (depois de ser adiada duas vezes), foi inaugurada a Sala Molière na Aliança Francesa de Copacabana. O JB179 informava que o novo espaço serviria “de sede a um novo núcleo de atividades teatrais”, o qual desenvolveria a peça Às armas, de Miguel Oniga, com direção do próprio autor e elenco composto por recém-formados da Fefieg, Dilberto Silva, Edil Magliari, Elsa de Andrade, Glória Soares e Luís Rial Joselli, sob a orientação de Amir Haddad. Antes da estreia, entretanto, a peça foi apresentada em préestreia no Teatro Senac, em 30 de abril.

176 Gilse Campos, Ruth Escobar, um teatro sem preconceitos, Jornal do Brasil, Rio de janeiro, 17 ago. 1972

177 Problemas, soluções, caminhos, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 out. 1972, caderno B, p. 4

178 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 3 jan. 1973, caderno B, p. 7

179 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 abr. 1973, seção Panorama, caderno B, p. 3

Será em Copacabana a Sala Molière (assim será batizada) e abrigará o grupo de Amir Haddad. A primeira peça a ser montada, segundo os planos, deverá ser Às armas, de Miguel Oniga.180

1974

Óperas cômicas no Municipal

Estudo, junto à direção do Teatro Municipal, para a montagem de duas óperas cômicas: Campanelo e Amélia vai ao baile. Nenhuma chegou a estrear, assim como a Madame Butterfly, anunciada em 9 de março de 1974 pelo JB181, cuja direção também seria de Amir.

II Festival Nacional de Teatro Amador –Petrópolis

Ocorrido de 30/08 a 08/09/1974, na sede do Petropolitano Futebol Clube, e promovido com o Serviço Nacional e Estadual de Teatro, com patrocínio da Prefeitura Municipal de Petrópolis. Amir Haddad integrou o júri ao lado de nomes como Ziembinski, José Arrabal, Pernambuco de Oliveira, Orlando Maciel, Augusto da Costa e Maria Helena Kühner. Vinculadas ao festival, foram ainda dadas palestras e aulas sobre teatro brasileiro. Amir falou sobre direção teatral.

Tempo de Teatro Cuiabá

Curso intensivo de uma semana com professores como Amir Haddad (Interpretação); Fanny Abramovich (Teatro infantil); Ausonia Bernardes (Expressão corporal), entre outros.182

1974-80

Atuação junto ao Movimento de Teatro Independente do Rio de Janeiro (rJ).183

1975

Seminário Teatro Hoje

A Associação Pró-Teatro da Tijuca está promovendo durante esta semana o seminário Teatro Hoje. Os debates serão sempre às 20h e o de hoje abordará Os problemas do ator brasileiro com a participação de Paschoal Carlos Magno, Fernanda Montenegro, Otávio Augusto, Beth Mendes, Regina Casé e do crítico convidado Yan Michalski. O programa de amanhã será A técnica de direção no Brasil com a presença de Flávio Rangel, Fernando Torres, Amir Haddad, Amilton Vaz Pereira e do crítico José Arrabal. No Tijuca Tênis Clube, […] entrada franca.184

1975-6

Ciclo de Leituras “A feira enquanto é tempo” Entre os eventos da programação da feira, foi realizada a leitura de Calma que o Brasil é nosso, criação coletiva do grupo a partir de textos de diversos autores, em 05/08/1975. Direção de Amir Haddad, com seu grupo Espirra Gato – nome informal que por um período o grupo de Amir usou internamente – no Teatro da Divina Providência.

O Teatro Mágico, que sob direção de Amir Haddad está trabalhando há vários meses [em] Calma que o Brasil é nosso, solicita doação ou empréstimo de material iconográfico, livros, discos e móveis usados da década de 1930.

180 Zózimo Barrozo do Amaral, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 23 abr. 1973, nota Incentivo, caderno B, p. 3.

181 Celina Luz, Programação quase completa, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, seção Da música, caderno B, p. 5

182 Yan Michalski, O bom exemplo mato-grossense, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20 nov. 1974, caderno B, p. 2

183 Angela Rebello, op. cit., 2005, p. 188

184 Yan Michalski, Debates na Tijuca, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20 abr. 1975, caderno B, p. 7

O grupo está também interessado em manter contato com especialistas ligados à área das ciências humanas. O professor de história Ademar Nunes e o arquiteto Ricardo Souza já estão colaborando com o projeto.185

1976

A retirada

Felicito o Serviço Nacional de Teatro. Afinal o sNt conseguiu reunir, no último dia 20/07 a suposta nata da crítica teatral carioca. O encontro, realizado a portas abertas para o público no Teatro Cacilda Becker, foi dos mais inquietantes. Escassa plateia, a classe praticamente ausente, pessoas se retirando durante o debate. Entretanto, embora parecendo injusta tamanha falta de receptividade, a crítica provou que teve o tratamento que merece. Pois não fossem os apartes inteligentíssimos do Sr. Amir Haddad, a embarcação seria tragada no naufrágio. […]. Pedro B. O. Guimarães Junior, Rio.186

II Seminário de Teatro

A Associação Pró-Teatro da Tijuca promove o seu ii Seminário de Teatro sob o patrocínio do sNt, com sessões às 20h, no Clube Municipal (rua Haddock Lobo, 359). Programa: […] dia 7/10 –

Teatro Oficina (expositor: Fernando Peixoto; debatedores: Amir Haddad e Macksen Luiz).187

1977

Depoimento para livro Vários profissionais de teatro – Marília Pêra, Ney Latorraca, Norma Bengel, Vera Setta, Betina

Viany, Gracinda Freira, Amir Haddad, […] Othon Bastos, entre outros, deram seus depoimentos ao crítico Wilson Cunha e à escritora Heloneida Studart para o livro A primeira vez (à brasileira), que está sendo lançado pela Editora Nosso Tempo.188

1978

A rainha do rádio Bella [Beyla] Genauer está ensaiando, sob a direção de Amir Haddad, e para lançamento no Teatro Senac, a comédia A rainha do rádio, de Carlos Saffioti Filho, que na versão original dirigida em São Paulo por Antônio Abujamra tinha Cleyde Yáconis no desempenho de seu papel único.189

Já estão escolhidos os espetáculos que ocuparão o Teatro Nacional de Comédia nos três horários do Projeto Mutirão. De 1°/08 a 3/09 serão apresentados A rainha do rádio190 […]. Direção de Amir Haddad [entre outros espetáculos].191

Ouro Preto tem curso de teatro A situação do teatro contemporâneo estará em debate hoje no curso de formação e desenvolvimento de grupos teatrais aberto na última sexta-feira pelo Serviço Nacional de Teatro [em convênio com a Secretaria Municipal de Turismo e a Coordenadoria de Cultura de Minas] dentro do programa de dinamização do Teatrinho Barroco de Ouro Preto, antiga Casa de Ópera de Vila Rica, construída em 1741 e em processo de restauração. Do curso, supervisionado pelo diretor

185 Yan Michalski, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21 jun. 1976, seção Em um ato, caderno B, p. 8

186 A retirada, do leitor Pedro B O. Guimarães Junior, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 jul. 1976, seção Cartas, caderno B, p. 2

187 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21 set. 1976

188 Yan Michalski, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20 jun. 1977, seção Em um ato, caderno B, p. 2

189 Yan Michalski, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 abr. 1978, seção Em um ato, caderno B, p. 2

190 Entretanto, este espetáculo não chegou a estrear.

191 Macksen Luiz, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 jul. 1978, seção Em um ato, caderno B, p. 8.

Amir Haddad, participam grupos teatrais de Belo Horizonte, Ouro Preto e Mariana.192

Curso no Teatro dos Quatro

O Teatro dos Quatro anuncia o início das atividades de seu setor de cursos com a promoção de um Curso para Iniciantes dirigido a jovens entre 16 e 26 anos, sem qualquer experiência anterior. […] Será ministrado por Amir Haddad, Sergio Britto, Hamilton Vaz Pereira e Eric Nielsen e orientação vocal a cargo de Maria da Glória Beuttenmüller.193

O Teatro dos Quatro prossegue hoje seu Ciclo de Debates do Teatro Brasileiro com palestra do diretor Amir Haddad sobre A História do Teatro que Não Entrou para a História (as fases pelas quais passou o teatro brasileiro).194

Centro Experimental Cacilda Becker

O grupo de Amir, que antecedeu imediatamente o Tá na Rua, e foi seu precursor (inclusive com formação praticamente idêntica) ocupou o Cacilda Becker por um período para seguir desenvolvendo suas investigações acerca da linguagem teatral empreendidas por Amir.

O sNt selecionou três projetos de pesquisa que ocuparão, nos próximos meses, as novas salas a serem inauguradas no Centro Experimental Cacilda Becker e farão jus a um auxílio de cr$ 51 mil cada: Calma que o Brasil é nosso, a cargo de um grupo liderado por Amir Haddad, […] se propõe “a buscar uma expressão de ator e formas de

produção que resultem num espetáculo que contenha em si a possibilidade de um novo teatro capaz de resgatar a linguagem popular”.195

1979

Espaço do Encontro

“O projeto Zanoni Ferrite traz hoje para o Espaço do Encontro, no Teatro Casa-Grande, Amir Haddad, Amélia Toledo, Luiz Carlos Maciel, Kleber Santos, Macksen Luiz e Pedro Galvão, que debaterão aspectos atuais da cultura brasileira.”196 Sailormoon, Joel Barcelos, Orlando Mollica e Jards Macalé.197

Theatre of Latin America

Nova Iorque – […] a organização nova-iorquina Tola – Theatre of Latin America […] resolveu reunir um numeroso grupo de artistas de virtualmente todos os países do Continente para, através de uma ampla gama de laboratórios práticos realizados em conjunto, tomarem conhecimento de propostas e técnicas que estão sendo trabalhadas desde o Norte do Canadá até o Sul da Argentina.

Paralelamente, espetáculos representativos vindos de alguns destes países forneceriam um pequeno mostruário dos resultados alcançados [...]. Para cumprir este programa, o Encontro foi subdividido em três etapas. A primeira, em Washington, abrangia apenas as apresentações dos espetáculos participantes, no Kennedy Center. Durante a segunda, os mesmos espetáculos continuaram sendo apresentados, agora em Nova Iorque […]. [A última e mais importante das etapas],

192 Ouro Preto tem curso de teatro, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 maio 1978, caderno 1, p. 16

193 Macksen Luiz, Saíram da turma deste curso alguns dos integrantes da formação original do Tá na Rua, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 24 jul. 1978, seção Em um ato, caderno B, p. 4

194 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11 set. 1978, seção Teatro, caderno B, p. 6

195 Yan Michalski, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 out. 1978, seção Em um ato, caderno B, p. 2

196 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 29 mar. 1979, seção Teatro, caderno B, p. 7.

197 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 mar. 1979, nota caderno Serviço, p. 8.

que acaba de encerrar-se, reuniu todos os participantes […] tendo por cenário […] o monumental campus do Connecticut College […] e as instalações da Fundação O’Neill […]. Uma pequena frota de ônibus especialmente arrendados transportava entre os dois locais a pequena multidão de participantes entre os quais os brasileiros Amir Haddad, César Vieira, Regina Casé, Hamilton Vaz Pereira, João Chaves, Maurício Sete, Ruth Escobar, Celso Frateschi, Tácito Borralho, Cecília Conde, Eric Nielsen, além deste redator e de parte do elenco de Macunaíma 198

Documentário As máscaras da TV Educativa Por falar em Amir Haddad, ele e seu Grupo de Niterói estarão presentes hoje às 21h, no programa As máscaras, da tV Educativa, mostrando um trabalho de laboratório por eles desenvolvido em cima do texto de As confrarias, de Jorge Andrade.199

Mutirão cultural

No sábado, na programação Mutirão Cultural, será apresentado no Conjunto Residencial da Polícia Militar (Rua Major Jorge Martins, em Olaria) uma série de eventos: como criatividade, às 10h, com trabalhos com crianças e adolescentes; teatro às 17h com a montagem da peça História de cordel, dirigida por Amir Haddad, e o Circo

Treme-Treme, às 17h30, além de show de música popular, a partir das 18h10. 200

Métodos de Trabalho no Teatro Brasileiro de Hoje

A Associação Carioca de Críticos Teatrais promoverá em outubro e novembro, com a colaboração do Sindicato dos Artistas e Técnicos e sob o patrocínio do sNt, uma série de quatro cursos que obedecerá a uma concepção […] inédita entre nós. Trata-se de um ciclo de ateliers práticos de direção-interpretação intitulado Métodos de Trabalho no Teatro Brasileiro de Hoje. Com este ciclo, que será realizado no Teatro Experimental Cacilda Becker, a acct pretende colocar ao alcance dos participantes inscritos e, eventualmente selecionados […], os processos de trabalho equacionados por quatro encenadores nacionais –Antunes Filho, José Celso Martinez Corrêa, Amir Haddad, Augusto Boal – que souberam reconhecidamente elaborar, ao longo dos anos, um autêntico sistema pessoal de criação teatral […]. Por outro lado, cada workshop será documentado através de um diário de bordo e o conjunto do material assim obtido será posteriormente divulgado pelo sNt […]. Cada atelier terá cinco dias de duração […].201

O workshop de Amir, terceira etapa do ciclo, ocorreu de 05 a 09/11.

198 Embora tivesse tudo para dar certo, os passos organizacionais dados pela TOLA pareceram ser maiores do que suas pernas, segundo Michalski. O evento contou com personalidades como Arthur Miller e Edward Albee, mas nem por isso foi excelente. Muitos workshops ao mesmo tempo, má organização, má logística de deslocamento entre locais distantes etc. Mesmo assim, para o crítico do Jornal do Brasil, tudo valeu a pena pela congregação humana de tantas culturas e pelos encontros que, para além dos eventos oficiais, acabaram propiciando trocas enriquecedoras. (Yan Michalski, Contra o isolamento, em busca da integração (I), Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11 jul. 1979).

199 Yan Michalski, Em um ato, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 29 out. 1979

200 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 31 out. 1979, nota Mutirão Cultura, seção Serviço Turístico –Na cidade, caderno B, p. 10

201 Yan Michalski, Quatro diretores mostram métodos de trabalho, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 24 set. 1979.

Morrer pela pátria

O Grupo de Niterói, liderado por Amir Haddad, na reta final da sua longa pesquisa com vistas à montagem do espetáculo Morrer pela pátria, mostra seu trabalho a todos os interessados às sextas-feiras, a partir das 19h, na Sala Joel de Carvalho do Teatro Experimental Cacilda Becker. Estes contatos fazem parte do processo de pesquisa e as informações deles extraídas serão incorporadas nesta fase final dos ensaios. O mesmo Grupo de Niterói volta hoje, às 21h, ao programa As máscaras, da TV Educativa, para a segunda parte da demonstração – iniciada na semana passada – das suas técnicas de laboratório, usando como exemplo trechos de As confrarias, de Jorge Andrade.202

Teatro Municipal de Cuiabá

Amir Haddad e o arquiteto Jorge Vale foram recebidos em 13/11/1979, em Cuiabá, no gabinete do prefeito Gustavo Arruda, para entregar o anteprojeto (exposto numa maquete) do Teatro Municipal de Cuiabá, a eles encomendado pela municipalidade por meio do prof. Carlos Rosa, Diretor do Departamento de Cultura e Turismo. Discorreram sobre as funcionalidades modernas artisticamente concebidas para o novo teatro.203

Exercício de Natal na TV Educativa

Apresentação de cenas de textos escolhidos por Amir Haddad, Paulo Mendes Campos e Jonas Resende em torno do tema natalino.

Às 21h de 24/12/1979, no canal 2, foi ao ar o

Exercício de Natal sob direção de Amir Haddad,

com Yoná Magalhães, Denise Bandeira, Vera Setta, Stepan Nercessian, Camilla Amado [e outros].204

Balanço dos anos 70

O Univerta – Instituto de Produtos Culturais –promove nos dias 28 e 29/01 e 4, 5, 8 e 12/02, sempre das 19h às 22h, no auditório da abi, um ciclo de debates intitulado Balanço dos anos 70.

A sessão dedicada ao teatro, junto à literatura, está marcada para 29/01, e será – como as outras –coordenada pelo professor Manoel Maurício de Albuquerque, tendo como debatedores Fernando Torres, Amir Haddad, Ivo Barbieri, Antônio Torres, Carlos Henrique Escobar e este redator [Yan Michalski].205

1980

Jurado no desfile das Escolas de Samba de Cuiabá (Mt).206

Jornada de Teatro Alternativo

Demonstração prática do Grupo de Teatro Niterói e do Grupo Tá na Rua, ambos dirigidos por Amir Haddad, ilustrando os seus métodos de preparação do ator com ênfase nas diferenças entre representação em recinto fechado e ao ar livre. Após a demonstração, leitura de textos inéditos, no Teatro Experimental Cacilda Becker [...].207

Paixão de Cristo carioca

O fato de já existirem outras Paixões de Cristo encenadas em vários locais do Brasil só vem

202 Yan Michalski, Em um ato, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 5 nov. 1979, caderno B, p. 9

203 Gustavo recebe anteprojeto do Teatro Municipal, O Estado de Mato Grosso, 14 de nov. 1979, capa, p. 1

204 Natal quase esquecido, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21 dez. 1979, seção Televisão, caderno B, p. 11.

205 Yan Michalski, Escolhendo os melhores de 1979, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21 jan. 1980.

206 Angela Rebello, op. cit., 2005, p. 188.

207 Licínio Neto, Teatro alternativo: novos rumos, Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 11 mar. 1980. p. 11; Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 13 mar. 1980.

comprovar, na opinião dos coordenadores da festa, o sucesso da Semana Santa no Rio […]. O texto escrito por José Paulo Moreira da Fonseca possibilita ao povo participar do espetáculo […]. Está dividido em três partes fundamentais […]. O texto aprovado pelo cardeal Dom Eugênio Salles será interpretado ao vivo por 63 atores no Rio e 105 figurantes em palcos armados junto às igrejas da Candelária, S. Francisco de Paula, S. Benedito, Convento de Santo Antônio, São José e Nossa Senhora do Bonsucesso. Nos Arcos, os grupos divididos pelas igrejas em três elencos se juntam para a Síntese das Estações […]. Para o diretor Aderbal Júnior, essa é a primeira incursão teatral com um cenário tão grande e um elenco tão numeroso. […] Só Cristo são três: Jorge Gomes, Jitman e Roque Bittencourt. Maria será interpretada por Miriam Carmem e Regina Rodrigues. Pilatos por Amir Haddad. João por Adelmar de Oliveira e Carlos Pimentel, dois atores de 16 anos. Todos vestidos por Maria Carmem, com adereços de Ferdy Carneiro e assistidos por Maria Pompeu, diretora de produção, Heli Celano e Luiz Joseli.208

Seminário Nacional sobre Censura

O Seminário Nacional sobre Censura de Diversões Públicas, a ser promovido pelo Ministério da Justiça e pelo Conselho Superior de Censura nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, já tem definido os temas, datas, debatedores, expositores e convidados. […] No Rio de Janeiro, tendo como local a Sala Funarte, […] será realizado nos dias 28, 29 e

30/05, devendo participar como expositores Aderbal Júnior, […] Aldir Blanc, Jô Soares, […] Amir Haddad, Antonio Pedro, […] Paulo César Pinheiro, Walmor Chagas e Yan Michalski [entre outros].209

1981

Jurado no desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (rJ).210

Livro Censores de pincenê e gravata Censores de pincenê e gravata, de Sônia Salomão Khéde, que será lançado hoje, a partir das 21h, na Livraria do Pasquim, é um estudo sobre a atuação da censura sobre o teatro brasileiro.211 [O livro] constitui-se de duas seções principais. A primeira desenvolve uma reflexão sobre a atividade do Conservatório Dramático Brasileiro […]. A segunda se compõe de depoimentos prestados por intelectuais envolvidos com a censura nos últimos dezessete anos. Entre os entrevistados, se encontram Yan Michalski, Carlos Henrique Escobar, Chico Buarque de Hollanda, Plínio Marcos, Afrânio Coutinho, Amir Haddad, João Chaves, José Louzeiro e Orlando Miranda.212

1982

Participação no iii Festival Latino Americano de Teatro Popular, em Nova York (Estados Unidos).213

Dramaturgia inovadora

Na seção “Cartas” do JB de 28 de abril de 1982,

208 Ciléa Gropillo, A Paixão no Rio, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 abr. 1980

209 Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 17 maio 1980 Informações complementares também em: Yan Michalski, Teatro posto de castigo? Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 maio 1980

210 Angela Rebello, op. cit., 2005, p. 188

211 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 5 nov. 1981, seção Informe, 1º caderno, p. 6

212 Estes você tem que ler, O Pasquim, Rio de Janeiro, 26 nov.-2 dez. 1981, n. 648. (A seção divulgou o livro com o mesmo texto e imagem também nas edições seguintes, n. 649 e 650).

213 Angela Rebello, op. cit., 2005, p. 188.

o dramaturgo Vicente Pereira reivindica reconhecimento do crítico Yan Michalski citando Amir Haddad como exemplo de um grande diretor que o tem como autor de qualidade:

Conforme o artigo de Yan Michalski, do dia 12 de abril, É preciso fazer alguma coisa, nada de novo tem acontecido na dramaturgia nacional. Sinto-me ofendido como autor, pois em sua crítica sobre a minha última peça, A noite do Oscar, o crítico chamou-me de “comediógrafo original e inegavelmente talentoso”, apesar de ter feito várias restrições ao meu texto. Como, agora, sou invalidado sem uma menção sequer no referido artigo? […] Amir Haddad, por exemplo, um dos citados, está ensaiando há um ano uma peça minha, O espelho da carne, que ele escolheu entre muitos textos, alguns até dos premiados de que Yan Michakski tanto fala, por genuína afinidade com o meu texto. Estaria ele louco? Não acredito. […] Se não está aí o erro, arrisco um palpite: há novos autores, novos atores, diretores etc. mas onde estão os novos críticos? […] Vicente Pereira, Rio de Janeiro.214

Anônima

Na matéria “Conto de fadas no Tablado”, de Macksen Luiz, o crítico faz um resumo da programação teatral do Teatro Tablado, sendo

Anônima, com direção de Amir Haddad, um dos espetáculos, que, entretanto, provavelmente não chegou a estrear até onde foi possível apurar.

Na quinta-feira [07/10], Anônima, de Wilson Sayão. Direção de Amir Haddad com o grupo Tá na Rua, tendo Duse Nacaratti como atriz convidada.215

Manifestação teatral solitária Hoje, véspera de Natal, os teatros estão fechados. […] A manifestação teatral solitária deste dia fica por conta do espetáculo do grupo Tá na Rua que poderá ser visto a partir das 14h, começando no Largo da Carioca, prosseguindo na Cinelândia e terminando no Passeio Público. Vale a pena assistir a esta encenação dedicada ao Natal, já que Amir Haddad, responsável pelo grupo, desenvolve há muitos anos trabalho teatral voltado para a rua e as comemorações natalinas são pretexto para que possa testar a linguagem do teatro ao ar livre e ampliar sua comunicação. A ideia do Tá na Rua é muito simples: com uma trouxa de roupas (os figurinos), quase 30 atores, e um megafone conta três histórias.

São narrativas sobre a data assinadas por Fernando Pessoa, Patativa do Assaré e Mário de Andrade. Ainda que os textos tenham um tom entre o melancólico e o triste, Amir acredita que [eles] transmitam alegria e esperança à plateia. Pelo menos esta é sua intenção. “O Natal é um tempo de muitas esperanças. E nossas histórias procuram, na maneira como são contadas, um tom esperançoso.”

Mas já amanhã, muitos espetáculos estarão de volta, alguns anunciando os últimos dias.216

Projeto de Integração Escola/Comunidade

Na matéria seguinte, o crítico teatral Yan Michalski retoma brevemente a eclosão de um movimento de teatro de rua no Brasil nos anos 1980, reconhecendo na história do Tá na Rua o pioneirismo carioca, ao que se segue uma entrevista com Amir Haddad, que menciona as investigações do trabalho do Grupo de Niterói em torno de Morrer pela pátria, de Carlos Cavaco, entre outros dados relevantes à sua formulação ética, ideológica e estética de um teatro

214 Vicente Pereira, Dramaturgia inovadora, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, seção Cartas, 28 abr. 1982, caderno B, p. 2

215 Macksen Luiz, Conto de fadas no Tablado, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 out. 1982.

216 Macksen Luiz, Descanso natalino e saídas de cena, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 24 dez. 1982.

não aprisionado pela arquitetura representativas de valores ideológicos com os quais entendeu ser preciso romper.

Na sala de que dispõe na [ceu], o grupo [Tá na Rua] está reunido, acertando detalhes para as atividades do dia seguinte – um domingo – a serem realizados em Nova Iguaçu, onde desenvolve um filão paralelo ao seu trabalho, participando, numa escola pública junto a um grupo de professores do Projeto de Integração Escola/ Comunidade lançado pela Funarte e pelo Inacen. […] O problema do espaço aberto apareceu com maior clareza quando o grupo foi fazer aulas e exercícios numa quadra de basquete. Amir comenta: “Ali eu vi que cada vez que o ator abria o peito, precisava de um espaço maior: e começou a me aparecer a relação entre espaço e política. Daí para a rua foi um passo. E este passo não foi dado por mim, mas pelos jovens atores do elenco, que tomaram a iniciativa de ir à rua quando eu estava ausente, participando de um encontro internacional em Nova Iorque. Para mim […], este passo seria apesar de tudo mais difícil, por mais que eu tivesse informações de trabalhos desenvolvidos ao ar livre por importantes grupos estrangeiros, o Odin da Dinamarca, o Living Theatre, o Bread and Puppet… […] 217

1983

Sem verba para a Via-Sacra Por falta de verbas, segundo o prefeito Jamil Haddad, a encenação da Via-Sacra não será feita esta noite nos Arcos da Lapa, quebrando uma tradição de 3 anos. Em protesto, os artistas que

participariam do espetáculo decidiram montar, no palco sob os Arcos, A nossa Via-Sacra, uma ideia do ator Amir Haddad ([sem] parentesco com o prefeito Jamil), que ontem desabafou: “Estamos sendo crucificados. Caímos no conto da Via-Sacra ou do Primeiro de Abril [referência à data de publicação da matéria]. Acabou a paixão e vamos começar a lutar pelo nosso dinheiro.” O espetáculo custaria Cr$ 24 milhões e, no dia em que tomou posse, o prefeito […] autorizou Aderbal Júnior [Aderbal Freire-Filho], diretor de teatro, a levar o projeto adiante. Na segunda passada, […] Aderbal foi informado de que Jamil Haddad tinha decidido reduzir a verba para Cr$ 6 milhões. […] “Se pararmos hoje e não fizermos o espetáculo, já há um gasto feito. Se continuarmos, precisaremos de mais dinheiro, pois não temos como fazer a encenação sem gastar mais nenhum tostão. […]”, dizia ontem Amir.218

Programa televisivo Noites Cariocas

Revista diária no canal 9, TV Record. Scarlett Moon e Nelson Motta esquentam as Noites cariocas batendo papo com: João Saldanha, Amir Haddad, Guilherme Araújo e Jane di Castro (travesti). Nesta sexta, às 23h, na sua telinha [tV Record].219

1984

Edital para ocupação do Teatro Villa-Lobos No contexto de um edital polêmico de ocupação dos teatros Villa-Lobos, Glaucio Gill, Armando Gonzaga e Arthur Azevedo, o grupo Tá na Rua

217 Yan Michalski, Em busca de nova seiva, o teatro vai à rua, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 27 dez. 1982, caderno B, p. 2. Ler matéria inteira em: https://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=030015 10&pasta=ano%20198&pesq=%22Em%20busca%20de%20nova%20seiva,%20o%20 teatro%20vai%20%C3%A0%20rua%22&pagfis=87302. (Acesso em 22 abr. 2022).

218 Prefeitura nega verba e o Rio não terá Via-Sacra, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1º abr. 1983, caderno 1, Cidade, p. 4

219 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 27 maio 1983, seção Esportes, p. 2

empatou com o grupo Teatro do Despertar, ambos concorrendo ao Teatro Villa-Lobos. O júri sugeriu a fusão dos projetos de ambos os coletivos, o que se revelou inviável, donde se seguiu o desempate em favor do Teatro do Despertar.

Com o julgamento da concorrência para a ocupação dos teatros Villa-Lobos, Glaucio Gill, Armando Gonzaga e Arthur Azevedo, a Funarj acaba de cumprir os termos do polêmico edital que introduziu fortes alterações na política de ocupação das suas salas de espetáculo: agora elas são cedidas por um prazo de até dois anos – com avaliações semestrais – a grupos ou companhias que apresentem projetos de relevância cultural […] Amir Haddad […], antes de tomar conhecimento do desempate que o desclassifica era de opinião de que o Villa-Lobos poderia ser usado não só pelos dois projetos empatados mas também por vários outros grupos […]. [Sobre a aparente contradição entre o nome do grupo Tá na Rua e a iniciativa de se candidatar à ocupação de um espaço fechado, Amir esclareceu:] “Nós fazemos muitas coisas além dos nossos trabalhos de rua; e as diversificações só não crescem por falta de espaço. De certo modo começamos a ficar confinados à rua. Temos muitas malas contendo material que, uma vez aberto, poderá explodir. Nossos atores têm também vivência do espaço fechado; e mesmo o espetáculo de rua, para crescer, precisa passar pelo palco. […] Claro que a opção nos trazia também riscos: participar das contradições do Poder, institucionalizar o trabalho num momento em que ele se desenvolve bem sem estar institucionalizado. Mas já que nos colocamos como um grupo da nova realidade, e já que o edital, pelo menos na aparência, favorecia esse clima de emergência, achamos que nos cabia participar.220

A arte do co-mando Segundo edição de 19 de março de 1984 do JB, Amir Haddad seria um dos professores a ministrar cursos livres da Casa das Artes de Laranjeiras, ao lado de outros ministrantes como Sergio Britto, Aderbal Júnior, Luís de Lima etc. O tema de Amir foi A arte do co-mando (direção teatral)

Biografia de Chiquinha Gonzaga

Intervenção cênica do Tá na Rua, no foyer e escadarias do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, na ocasião do lançamento da biografia de Chiquinha Gonzaga escrita por Edinha Diniz221. O grupo recriou cenas da vida da maestrina, enquanto na Cinelândia a Banda da Polícia Militar tocou músicas de Chiquinha, entre outras apresentações, inclusive coreográficas e da Bateria da Mangueira. Data: 28/05/1984

Projeto Novos Rumos

Na noite de terça-feira [16/10] o Teatro Villa-Lobos parecia uma grande feira medieval repleta de saltimbancos que mostravam suas habilidades, todos fantasiados e maquiados dançando ao som de tambores e de música variada. Desta forma o Grupo Tá na Rua apresentou […] o Projeto Novos Rumos que ocupará o Villa-Lobos nos seis meses seguintes. Pela amostra de anteontem pode-se constatar a ousadia do grupo liderado por Amir Haddad […]. Amir e seu grupo desenvolveram técnicas de sensibilização de plateias de rua, buscaram uma “dramaturgia” para o ar livre, repensaram técnicas de interpretação […]. A entrada no Villa-Lobos determinará um ajustamento da proposta de rua ao confinamento das paredes da sala de espetáculos, mas ao mesmo tempo possibilitará a montagem de Morrer pela pátria

220 Yan Michalski, Ventos novos nos teatros da Funarj, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8 jan. 1984.

221 Edinha Diniz, Chiquinha Gonzaga: uma história de vida, Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1999.

(estreia prometida para o dia 15/11) […]. Há de tudo na proposta de ocupação do Villa-Lobos pelo Tá na Rua. Desde espetáculos de dança (Reabrindo o salão de danças, de Regina Miranda) a ópera (As variedades de Proteu […]), experiências teatrais alternativas (grupos formados por alunos da [cal] e da Escola Martins Pena) e profissionais (Encouraçado botequim inicia temporada no dia 1º/11). E o que surpreende é que esta programação variada e extensa está confirmada até março, quando se encerra a primeira fase do projeto. Pretende-se a ocupação de todas as dependências do Villa-Lobos, do hall ao palco, como se o Tá na Rua procurasse trazer a liberdade do teatro sem paredes para uma sala convencional. É uma promessa e uma possibilidade de dinamizar a temporada teatral carioca, especialmente num momento em que não há grandes perspectivas para um teatro mais experimental e alternativo.222

I Encontro Teatral do Pará

O I Encontro Teatral do Pará continuará no próximo dia 28/10, às 18h30, com a apresentação de Amir Haddad na Sala de Dança do Teatro da Paz.

O objetivo desse encontro é viabilizar a troca de informações e universalizar o fazer teatral, assim como criar condições para o intercâmbio cultural.223

Dia Nacional da Ciência e da Cultura

Intervenção artística do Tá na Rua com cena de espancamento de um negro (feita pelo ator Roberto Silva) por Amir Haddad (que convidava o público a fazer o mesmo porque “o negro está acostumado a apanhar”), em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário, no Rio. A dramatização integrou a programação do Dia Nacional da Ciência e da

Cultura, organizada pelo Departamento Geral de Cultura da Secretaria Municipal de Educação, em 05/11/1984

1985

Projeto musical Rock e seus irmãos –shows de diversos artistas

Dentro da programação da temporada de férias (festival de inverno) do Circo Voador, chamado Rock e seus irmãos, que previa vários shows, no domingo, 14/7/1985, apresentaram-se Eduardo Dussek, Amir Haddad e Orquestra Tabajara.

Circo Voador.

Mudando de conversa

As atrações do programa Mudando de Conversa na semana de 16 a 20/12 são: Maria Padilha e Eduardo Tolentino, Maria Lucia Dahl e Thais Portinho, Guida Vianna e Eduardo Machado, Carlos Fernando e Paulo Rafael e um Especial com o diretor de teatro Amir Haddad. O programa tem a coordenação e apresentação de Suzana Luz e é veiculado de 2ª a 6ª, pela Rádio Mec/ aM 224

1986

Auto de Fundação da Cidade do Rio de Janeiro

O primeiro evento da nova Secretaria Municipal de Cultura será o Auto de Fundação da Cidade do Rio de Janeiro aproveitando o cenário natural da enseada de Botafogo. O espetáculo, dirigido por Ginaldo de Souza, acontecerá no dia 2/03, lançado como ponta de lança de uma programação cultural que Amir Haddad, assessor do secretário Antonio Pedro, pretende desenvolver em várias frentes. No

222 Macksen Luiz, Da rua para o Villa-Lobos: os vários grupos que participam do Projeto Novos Rumos ocupam o palco do Teatro Villa-Lobos com entusiasmo, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 out. 1984

223 Diário do Pará, 27 out. 1984, nota chamada Teatro na coluna Repórter diário, Editoria Nacional, 20 set. 2023, às 15h13, p. 5.

224 Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 19 dez. 1985, seção Agenda, Editoria Serviço, p. 4.

planejamento da secretaria, o setor teatral receberá bom tratamento. Estão previstas a liberação de verbas para concluir as obras dos dois teatros da Escola Martins Pena e a fixação do Teatro João Caetano como “sede” para espetáculos musicais. Amir afirma que haverá apoio à atividade profissional muito provavelmente na forma de financiamento de montagens. Mas o que destaca como prioritário é o apoio ao que chama de “atividades emergentes”, aquelas que se manifestam perifericamente, “que estão tentando vir à tona”. Amir cita os grupos de teatro que não conseguem sobreviver, por falta de sustentação, a um ou dois espetáculos. A maneira de fazer emergir essas manifestações culturais é através da criação de polos culturais pela cidade. A secretaria armaria uma lona, ponto de convergência dos elencos, a partir da qual os criadores tivessem como se firmar. Mas Amir se apressa a dizer: “não se pretende impor a ação do município, mas apenas estimular”. Bons propósitos, que se ajustam aos do novo Ministro da Cultura, Celso Furtado.225

Tá na Rua em Cuiabá

O grupo Tá na Rua viaja para Cuiabá, onde, a partir de quarta-feira, dará curso de 10 dias que incluirá oficinas, técnicas de teatro de rua e de palco, além da apresentação do espetáculo Masculino e feminino. Amir Haddad, responsável pelo grupo, pretende estabelecer um núcleo do Tá na Rua na capital do Mato Grosso.226

I Fórum de Produtores

Profissionais de Cultura

Em 31/3/1986, Amir integrou o i Fórum de Produtores Profissionais de Cultura, promovido

pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, no Teatro Casa Grande, junto de outros nomes como Hugo Carvana, Ana Arruda, Antonio Pedro, Carlos Vergara, Albino Pinheiro, Paulo José, Aquiles (MPb4), Glorinha Kalil e as participações especiais de Roberto Saturnino, Jó Rezende e Jaime Lerner. O evento foi aberto ao público.

Curso “Só pela grana”

Tá esquisito na França, no México e por aqui a barra também está pesada. Imagine, bicho, que o Amir Haddad, a última trincheira do amor ao teatro não comercial, abriu inscrições para o curso Só pela grana. O homem anda desencantado com o plano Cruzado, “cansado de ser admirado e não ser recompensado” e bolou o curso “com o declarado intuito de ganhar algum dinheiro”. Calma, Amir. O pessoal vai te ajudar. Por favor, leitores: façam já suas inscrições de segunda a sexta, das 14h às 20h, na rua do Resende, 18 [sede do Tá na Rua, naquele momento]. Teatro é uma barra, bicho.227

Diretor do Departamento

Geral de Ação Cultural Amir Haddad toma posse como Diretor do Departamento Geral de Ação Cultural pela Prefeitura do Rio de Janeiro, na gestão do prefeito Saturnino Braga e do Secretário de Cultura Antonio Pedro. Na ocasião da posse, houve uma apresentação do Grupo Tá na Rua, além de música ao vivo e bonecos gigantes. Câmara dos Vereadores, em 07/1986

Especial na TV Educativa sobre Amir Haddad EM uM ato – […] Além da estreia no sábado, na tV Manchete, de A magia do teatro (cinco programas

225 Macksen Luiz, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 23 fev. 1986, seção Teatro, caderno B/Especial, p. 9 226 (supõe-se que era Macksen Luiz, mas não aparece o nome dele), Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 mar. 1986, seção Teatro, interino caderno B/Especial, p. 9.

227 Tutty Vasques, Será que Cannes gosta da gente, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 maio 1986.

sobre a História do Teatro), o aficionado do palco terá na sexta na tV Educativa, em Sexta Independente, especial sobre a experiência do diretor Amir Haddad com seu grupo Tá na Rua. Os […] anos de atividade desse elenco […] serão analisados por Jorge Fernando, Sergio Britto, Renata Sorrah e Augusto Boal.228 [A direção do especial foi de Ricardo Pavão, embora não tenha assinado por motivos internos da emissora].

A despeito de a série A magia do teatro, da Manchete, ter sido avaliada negativamente pela crítica Marília Martins, o especial sobre o Tá na Rua recebeu elogios:

O destaque na abordagem de manifestações teatrais pela tV, ficou, sem dúvida, por conta do belíssimo documentário da tVe, feito em torno dos 10 anos [oficialmente 6] do grupo Tá na Rua, liderado por Amir Haddad. Aqui, sim, do roteiro aos flagrantes de rua, aos depoimentos e à edição, todo o programa mereceu um acabamento primoroso. Foram mostrados números “clássicos” dos espetáculos do grupo […]. O roteiro deu conta da novidade radical do trabalho do grupo, apresentando sua prática de organização do espaço cênico (a roda, o “espaço sem hierarquias”), as bandeiras, as máscaras, os figurinos e, sobretudo, a contagiante participação popular […]. Além disto, houve ótimas intervenções de Augusto Boal (falando dos conflitos e dos limites de um espetáculo no interior de uma sala e sua relação autoritária com a plateia).229

1987

Gregório de Matos na TVE hoJe, 21h20 – Gregório de Matos Guerra: sua obra mística, lírica, satírica e erótica. Participação de Maria

Bethânia, Gilberto Gil, Walmor Chagas, Luís de Lima, Jonas Bloch, Amir Haddad, Ariel Coelho, Felipe Carone, Eduardo Portela, Antonio Houaiss, Celso Cunha e Fernando Peres – Sexta Independente, tVe, Canal 2 – Mec/ Funtevê.230

I Festival de Inverno da UFRJ Entre a programação, dividida nas áreas de música, dança, teatro e vídeo – segundo JB de 22/07/1987, na coluna “Teatro de arena abriga shows às quintas feiras” dentro da matéria “uFrJ organiza laboratório de ideias”, de Roni Lima, Caderno Cidade, p. 05 –, Amir Haddad participou com uma Oficina de Teatro dada em 31/07, às 12h, no campus Praia Vermelha, Urca.231

Semana da Violência e da Indignação

dce/usu – adusu – aNdes – Comitê p/ Liberdade de Expressão e Organização convidam: Venha indignar-se na USU – Semana Violência e Indignação. segunda-feira – 8h30 – Fernando Gabeira, ciclo de debates com [diversos nomes, entre eles] Amir Haddad.

Local: Rua Fernando Ferrari, 75 232

4º FestRio

Pelo segundo ano consecutivo, o FestRio ensaiará uma inauguração de gala. Em tese, exige-se o traje a rigor, respeitado ano passado por menos de 50% da plateia. A exigência foi desmoralizada quando Caetano Veloso apareceu de camisa de linho. Não foi barrado e, atrás dele, ninguém mais. A noite promete ser longa e variada […]. A cerimônia de abertura, com direção de Amir Haddad, já poderá ser aproveitada desde a calçada, quando

228 Macksen Luiz, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 23 nov. 1986, coluna Em um ato, seção Teatro, caderno B/ Especial, p. 9

229 Marília Martins, O palco no vídeo, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 6 dez. 1986

230 Box publicitário sem título, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20 fev. 1987

231 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 jul. 1987, nota única de Extras, seção Hoje no Rio, caderno B, p. 4.

232 Box de divulgação, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 out. 1987.

autofalantes irradiarão trilhas sonoras de filmes nacionais e estrangeiros.233

1988

Curso de Mergulho Teatral na CAL

Cursos de cinema e vídeo com Lauro Escorel, Marinnete Barros e Tizuka Yamasaki, e de mergulho teatral com Amir Haddad, Ivan Albuquerque e outros, no dia 20/06/1988

Oficina de Expressão Teatral – Teatro UFF

Ministrada por Amir Haddad, com duração de oito semanas e carga horária de 64 horas [...]. Amir foi convidado pela […] Associação de Trabalhadores em Artes Cênicas de Niterói.234

Revista Cultura Rio

Primeiro número da Revista Cultura Rio é lançado pela Câmara Municipal de Cultura em 13/08/1988 235

Prêmio Especial do Shell para o Tá na Rua

O melhor ator da noite, Pedro Cardoso, estava coberto de razão. Uma festa “de todos os loucos do teatro”, como o jantar de entrega do Prêmio Shell para o Teatro Brasileiro, anteontem, no Golden Room do Hotel Copacabana Palace, só poderia esbanjar animação. […] O mais aplaudido da noite foi o vencedor do prêmio especial, o grupo Tá na Rua, liderado por Amir Haddad, que perdeu sua sede este

ano por falta de verbas. Amir confessou “a maior emoção” por ser fotografado ao lado dos apresentadores da noite, os atores Tônia Carrero e José Wilker – “Eles são o máximo para nós” – e anunciou o desejo de dividir a premiação com os outros três indicados, caso ela fosse de 1 500 otNs (o prêmio era de 370 otNs, cerca de cz$ 1 776 000).

A indicação de um de seus concorrentes, o Teatro dos Quatro, foi a única recebida sem qualquer entusiasmo pelo público.236

1989

Curso “Os caminhos do ator e do moderno teatro brasileiro”

Entre 07 e 30/11/1989, Amir Haddad deu o curso […] pelo Centro Cultural Banco do Brasil. Outros foram os participantes do projeto […] tais como Bia Lessa, Sergio Britto, Glorinha Beuttenmüller e Hamilton Vaz Pereira.237

1990

Festival de Londrina

O Festival Internacional de Londrina 3ª Mostra Latino-Americana de Teatro, que acontece entre 19/06 e 1o/07/1990 na cidade paranaense, reunirá 16 países, com destaque para os grupos Centro Per La Sperimentazione e La Ricerca Teatrale di Pontedera, da Itália. […] Na programação de seminários e debates serão analisados assuntos como […] Reencontro com as origens do teatro do final do século,

233 Susana Schild, Vai começar a festa, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 19 nov. 1987, caderno B, p. 1

234 Amir Haddad ministra Oficina de Teatro na UFF, Jornal do Brasil, Niterói, 30 jul. 1988, p. 10

235 Com artigos, entre outros, de Ana Arruda, Eurico Nogueira França, Rachel Jardim, Sérgio Cabral e Amir Haddad – num texto sobre “um mergulho no teatro feito dentro de um presídio”, segundo a matéria “Cultura Rio: um olhar novo sobre a realidade carioca”, O Pasquim, 29 jul. 1988, p. 5. Disponível em: <https://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=124745&pesq=%22Revista%20Cultura%20Rio%22&pasta=ano%20198&hf=memoria.bn.br&pagfis=32147>. (Acesso em 22 abr. 2022).

236 Márcia Cezimbra, Uma festa de teatro, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 dez. 1988.

237 Box publicitário, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 23 out. 1989, caderno B, p. 3.

com a participação de Amir Haddad, Flora Lauten, do grupo Buendía, de Cuba, entre outros.238

1991

UTI – Unidade de Teatralização Intensiva

O grupo Tá na Rua, de Amir Haddad, inicia hoje o curso uti […], às segundas e terças, durante três semanas no Teatro Gláucio Gil, transformado em Centro de Demolição e Construção do Espetáculo, em Copacabana.239

CCBB do Rio comemora dois anos

O Centro Cultural Banco do Brasil vai comemorar dois anos no próximo dia 12/10 com uma grande festa de rua, reunindo artistas de várias áreas, comandados pelo experiente Amir Haddad. Há bons motivos para festejar.240

Literatura – série Teatro do Texto

Na série Teatro do Texto, Amir Haddad dirige dramatização de trechos da obra de Moacyr Scliar, às 18h30, com entrada franca, na Biblioteca Nacional.241

[Na mesma série], Amir dirige trechos de obras de Ignácio de Loyola Brandão, às 18h30, com entrada franca, na Biblioteca Nacional.242

[…] atores sob a direção de Amir Haddad interpretam trechos da obra de Antônio José de Moura, às 18h, na Biblioteca Nacional.243

Leitura dramatizada da obra de Antônio Barreto. Direção de Amir Haddad, com o grupo Tá na Rua. Saguão Nobre da Biblioteca Nacional, às 18h30, entrada franca.244

Jogral O grito da terra

A apresentação do referido jogral se constituiu como um preparativo para o evento ecológico “Terra e Democracia” que, em 1991, realizou-se a partir de 11 de agosto em sete regiões do Grande Rio.

Domingo – 16h – Atores de Niterói fazem o jogral O grito da terra, de Betinho, com direção de Amir Haddad.245

Domingo na Quinta

O grupo de teatro Tá na Rua dirigido por Amir Haddad apresenta esquetes sobre preservação do meio ambiente. O projeto, que continua por mais três domingos, prevê ainda a presença de monitores orientando grupos de piquenique em relação à coleta seletiva do lixo. A partir das 10h, na Quinta da Boa Vista.246

238 Macksen Luiz, nota Festival de Londrina, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11 jun. 1990, seção Entreato, caderno B, p. 2

239 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21 maio 1991, coluna Cursos, caderno Cidade, p. 4

240 Lucia Rito, Quem é quem na cultura carioca, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16 jun. 1991, subtítulo CCBB, caderno B, p. 8

241 Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 2-8 ago. 1991, seção Agenda, p. 56

242 Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 9-15 ago. 1991, seção Agenda, p. 50

243 Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 16-22 ago. 1991, seção Agenda, p. 50

244 Teatro de Texto, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 ago. 1991, seção Roteiro, subitem Teatro, caderno B, p. 5

245 Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 30 ago.-5 set. 1991.

246 Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 13-19 set. 1991, seção Grátis, p. 38.

Literatura

Na série Teatro do Texto, Amir Haddad coordenou uma dramatização de poemas de Moacyr Félix, às 18h30, com entrada franca, na Biblioteca Nacional (Cinelândia).247

O diretor Amir Haddad coordena leitura de contos de Luiz Vilela, às 18h30, com entrada franca, na Biblioteca Nacional (Cinelândia).248

Leitura dramatizada da obra de Olga Savary. Direção de Amir Haddad. Saguão Nobre da Biblioteca Nacional, av. Rio Branco [...]249

II Fórum de Dança Contemporânea do Rio de Janeiro

Entre 25 e 30/11/1991, aconteceu o II Fórum de Dança Contemporânea do Rio de Janeiro, do qual Amir Haddad participou numa mesa-redonda ao lado de outros artistas como Angel Vianna, Cássia Navas, Ivaldo Bertazzo, Marilena Ansaldi, Rubens Corrêa e outros.

Festa dançante A noite de um desempregado

A festa […], com participação de Amir Haddad e do grupo teatral Tá na Rua, anima a noite do Circo Voador a partir das 21h.250

Banho de cheiro no Rio

Ao longo desse tempo [11 anos de Tá na Rua], [Amir] e o grupo – tem um núcleo fixo de oito pessoas e mais de 40 atores flutuantes –apresentaram espetáculos nas praias de Ipanema,

nos becos do Centro, nas favelas dos morros e nas mais distantes praças da periferia. Foi assim que ele conheceu a grande cidade e aprendeu a amar um Rio que vai muito além do túnel do Leme. Na sexta, Amir estará à frente dos grupos afros, afoxés, ciganos e esotéricos que vão fazer a lavagem simbólica da estátua de Gandhi, na Cinelândia, e dar um banho de cheiro na cidade. Mesmo participando do descarrego, Amir não está entre os que proclamam o baixo astral do Rio. “Sou mineiro, criado em São Paulo e desenvolvido no Rio. Tenho o café e o leite na veia. Mas o que me mantém vivo é a identidade cultural do Rio de Janeiro.251

Mergulho teatral

A cal está oferecendo o curso “Mergulho teatral” com os professores Amir Haddad, Carlos Gregório, Clóvis Levi, Marcos Fayard etc. Estão sendo oferecidas turmas nos horários da manhã, tarde e noite. O curso terá duração de três semanas, com quatro horas diárias de aula, de segunda a sexta, abrangendo interpretação, improvisação, expressão corporal e expressão vocal e música.252

II Encontro Latino-Americano de Educação

De 13 a 16/09/1992, no RioCentro. Amir Haddad e o Tá na Rua integraram a programação do núcleo de “Atividades lúdicas – diferentes linguagens: expressão de ritmos do mundo” com o espetáculo teatral O teatro que Colombo não viu. 253

247 Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 27 set.-3 out. 1991, p. 50

248 Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 4-10 out. 1991, seção Agenda, p. 52

249 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 nov. 1991, seção Roteiro, caderno B, p. 5

250 Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 29 nov.-5 dez. 1991, seção Agenda, p. 52

251 Cleusa Maria, Vamos dar um banho de cheiro no Rio, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 24 dez. 1991

252 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 dez. 1991, nota Teatro II, caderno Cidade, p. 4.

253 Box publicitário sobre o Encontro, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 12 set. 1992, caderno 1, p. 13.

1993

Comitê contra a Miséria

Preparativos para a semana de 7 de setembro quando cerca de 500 artistas se empenharam em lutar contra a fome por meio de shows, peças e atividades ligadas à cidadania e com intuito de arrecadar cestas básicas e dinheiro para pessoas necessitadas. Entre a programação da Semana da Arte contra a miséria e pela vida, ocorreu em 14 de setembro, às 20h, o espetáculo Cidadão, no Teatro Municipal, dirigido por diversos diretores, como Aderbal Freire-Filho, Amir Haddad, Augusto Boal, Gerald Thomas, Marcio Vianna, Moacyr Góes, entre outros. No elenco: Fernanda Montenegro, Bibi Ferreira, Tônia Carrero, Marieta Severo, Maitê Proença, entre outros.254

Na próxima quarta, às 15h, no auditório da Uerj, será lançado o Comitê Rio de Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida. Confirmaram presença os atores Paulo Betti, Joana Fomm, Augusto Boal e Amir Haddad.255

O espetáculo […] começava nas escadarias do teatro. Ali o público era recebido pelo grupo Tá na Rua que mais tarde, escoltado por Amir Haddad, invadiria a plateia para contar a história de um “morto que em vida foi muito dado a falcatruas, chegando até a ser candidato a vereador”. E enquanto Renata Sorrah, Marieta Severo e Maitê

Proença falavam no palco contra a “cultura da aceitação”, a atriz Carla Marins, do lado de fora do teatro, recitava trechos da peça 1999. Também subiram ao palco Cecil Thiré, Tônia Carrero e Luiza Thiré. As duas – avó e neta – improvisaram um trecho de Álbum de família 256

1994

Festival de Teatro de Curitiba

A terceira edição do Festival […] termina neste fim de semana como a maior de todas até agora. Um público de 40 mil pessoas assistiu às 16 peças encenadas em teatros e na rua e à programação paralela que incluiu uma mostra de cinema, debates e uma exposição fotográfica. […] Dois espetáculos se sobressaíram – Pixinguinha, de Amir Haddad, e Amanhã será tarde demais e depois de amanhã nem existe, de Denise Stoklos – obtendo avaliação “ótima” de 100% e 91% das plateias, respectivamente. Pixinguinha – um espetáculo musical com participação do neto do compositor, Marcelo Vianna – fez o público cantar em duas noites de apresentação no Aeroanta.257

Rodas de Leitura

A série Rodas de Leitura continua em julho, inaugurando já na próxima semana as leituras de teatro com nomes importantes dos palcos brasileiros lendo trechos de peças do passado e contemporâneas. Amir Haddad, por exemplo,

254 Denise Moraes, A arte faminta: artistas da cidade aderem à campanha contra a fome e prometem parar o Rio durante a “Semana da arte contra a miséria e pela vida”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro 30 ago. 1998, caderno B/Roteiro, p. 6

255 Não foi possível localizar, mas diante das informações que encontrei para a contextualização, esta nota ficou irrelevante. O que acha de colocarmos numa nota de rodapé, apenas para não perder a informação? Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 abr. 1993

256 Denise Moraes, Artistas criam “receita” para combater a fome, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16 set. 1993

257 Martha Feldens, Cai o pano em Curitiba: Quarenta mil pessoas lotaram as 16 peças do Festival de Teatro, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 mar. 1994, caderno B, p. 8.

lerá Bertolt Brecht; Zezé Polessa lerá Nelson Rodrigues; Paulo José lerá Flávio Márcio; Naum Alves de Souza lerá uma peça sua. Hoje, a leitura começa com Chacal, às 16h, e continua com Adélia Prado, às 18h30. 258

A partir do dia 05/07, o projeto Rodas de Leitura do ccbb inicia sua etapa final com um mês dedicado ao teatro. Aderbal Freire-Filho e Amir Haddad são os convidados do mês.259

1995

Debate sobre adolescência – projeto Zinema O projeto Zinema do Estação Icaraí já é “a melhor praia de domingo” dos adolescentes de Niterói. Hoje, às 11h, é a vez [do filme] Garotos perdidos (Lost boys), de Joel Schumacher. O envolvimento de um garoto com jovens vampiros motociclistas é o mote para o debate da adolescência como rito de passagem, com o diretor de teatro Amir Haddad e o professor de literatura Júlio César Valadão Diniz, mediados pelo ator Daniel Lobo.260

Fórum Shakespeare

Anunciada: a participação da técnica de voz e fala

Glorinha Beuttenmüller e dos diretores de teatro Celso Nunes e Amir Haddad no Fórum Shakespeare, que se realizará de 4 a 29/07, no Centro Cultural dos Correios, no Rio.261

Rio em clima de festa do interior

Junho já sei foi, mas nunca é tarde para entrar numa quadrilha. Nesta sexta, a roça invade o Largo da Lapa com o evento Festa do interior. Dirigidos por Amir Haddad, centenas de bailarinos de 83 municípios do interior do estado trazem 34 danças típicas. Além da tradicional quadrilha, vai ter folia de reis, ciranda, caninha verde e boi pintadinho, além de danças africanas, portuguesas, alemãs, finlandesas e italianas. “Queremos valorizar a cultura das cidades do interior”, diz Licko Turle, produtor do evento.262

Comemorações para o CCBB

No próximo dia 12 o [ccbb] completa seis anos.

A celebração começa com novidades [como] o evento Descoberta de um novo mundo, dirigido por Amir Haddad.263

Testemunhas da criação

Leitura dramatizada da peça [Testemunhas da criação] de Domingos de Oliveira. Com Sergio Britto, Enrique Diaz, Aderbal Freire-Filho, Amir Haddad. Fundação Planetário. […] Grátis. Única apresentação. 264

“Oportunidade cultural única”

Vai ser difícil acontecer de novo, a RioCult-95 e stá realizando 20 workshops sobre temas como teatro, literatura, dança, artes plásticas, vídeo,

258 Poesia na voz do autor: Adélia Prado e Chacal leem seus poemas hoje na biblioteca do CCBB, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 29 jun. 1994, caderno B, p. 3

259 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 3 jul. 1994, nota na seção Marcadas, caderno Cidade, p. 23

260 Pequenos vampiros no Estação, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 29 jan. 1995, seção Zoom, caderno Niterói, p. 2

261 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 27 maio 1995, nota Anunciada, seção Cidade, p. 27

262 Roberta Oliveira, Rio em clima de festa do interior, Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 28 jul.-3 ago. 1995, p. 46

263 CCBB vai lançar revista cultural, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1º out. 1995, caderno B, p. 2

264 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21 nov. 1995, nota de divulgação na seção Agenda de teatro “Grátis”, caderno B, p. 6.

quadrinhos, música, fotografia, capoeira e tarô, com os profissionais mais representativos de cada área. […] [Dia 13, das 16h às 19h] […] [o 3º workshop do dia é Teatro de rua, com Amir Haddad].265

1996

Participação no grupo de debates para desenvolvimento do Plano Estratégico de Turismo da Cidade do Rio de Janeiro, da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo do Rio de Janeiro (rJ).266

Interpretação e palavra em Shakespeare

Sergio Britto, Amir Haddad e Alcione Araújo discutem Interpretação e palavra em Shakespeare, às 18h30, com entrada franca, no Espaço Cultural Finep.267

Políticas culturais na universidade pública

O Grupo de Teatro da Uerj promove dia 21, no Teatro Noel Rosa, o debate Políticas culturais na universidade pública, com Sábato Magaldi, Leonardo Boff, Fernando Gabeira, Amir Haddad e Geraldo Carneiro.268

1997

Ciclo Oito Décadas de SBAT

Leitura da peça Jurity. De Viriato Corrêa. Direção de Amir Haddad. Com o grupo Tá na Rua e

convidados. Centro de Estudos de Dramaturgia da sbat. […]. Grátis.269

Debate após peça Us Juãos i os Magalis […] texto e direção de César Vieira. Com o Teatro Popular União e Olho Vivo. Lona Cultural Hermeto Pascoal. […] Depois do espetáculo haverá debate com Amir Haddad, Augusto Boal e Aderbal Freire-Filho.”270

Festa paralela na Lapa Aproveitando o clima mambembe [da] cidade, várias companhias de teatro nativas do Rio resolveram promover sua própria festa e mostrar que a produção marginal pode ser tão boa – ou melhor – quanto a oficial. O festival paralelo é o Lapa RioOff, que pelo segundo ano consecutivo agita os casarões da UniLapa. “Não fizemos uma seleção dos melhores, nem eliminamos os piores, como é costume nos festivais oficiais. Queremos é trazer à tona a variedade e originalidade da produção subterrânea carioca”, diz Amir Haddad. O diretor está no comando do evento, acompanhado do dramaturgo Augusto Boal. Em clima democrático, o festival reúne grupos veteranos, como o Teatro do Oprimido e o Tá na Rua, a estudantes e oficinas de teatro.271

265 Box publicitário “Oportunidade cultural única”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 9 dez. 1995, caderno B, p. 9

266 Angela Rebello, op. cit., 2005, p. 188

267 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 12 out. 1996, seção Ideias/Livros – Agenda, p. 2.

268 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 13 out. 1996.

269 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22 abr. 1997, seção Agenda de Teatro, caderno B, p. 5.

270 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1-7 ago. 1997

271 A UniLapa era uma associação cultural criada em 1992 e composta por oito grupos e entidades detentoras do uso das casas que hoje compõem o corredor da avenida Mem de Sá, onde fica a sede do Tá na Rua. Amir chegou a ser presidente da associação em 1993. (Festa paralela agita a Lapa, Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 17-23 out. 1997 p. 37.)

1998

Ciclo de leituras Brasil Comédia

Bicho do mato, de Luiz Iglezias. Direção de Amir Haddad. Com Amir Haddad, Juliana Teixeira e grupo Tá na Rua. Centro de Estudos de Dramaturgia do sbat. 272

Ciclo de entrevistas

Começa hoje, no ccbb, um ciclo de entrevistas com alguns dos mais importantes diretores teatrais brasileiros em atividade. Abertas ao público e coordenadas pelo dramaturgo inglês Paul Heritage, as entrevistas serão publicadas no livro Conversando com os deuses?, que segue os mesmos moldes da publicação inglesa In contact with Gods? Directors talk theatre. E edição brasileira trará entrevistas originais com Peter Brook e Robert Wilson, entre outros, numa edição dupla com as entrevistas brasileiras, que se realizarão no auditório do 4º andar do [ccbb], sempre às 17h, com distribuição de senhas meia hora antes. Augusto Boal abre o projeto hoje. É o único que também está na edição inglesa. Amanhã o entrevistado é o crítico Sábato Magaldi. Em seguida, as entrevistas se realizarão em dupla. Sexta falam Amir Haddad e Aderbal Freire-Filho; terça, dia 21, Gabriel Vilella e Ulysses Cruz; quarta, 22, Bia Lessa e Eduardo Tolentino; e sexta, 24, Antunes Filho e Gerald Thomas. Segundo Heritage, a escolha dos diretores procurou ser a mais representativa. “Mas diretores importantes como José Celso Martinez Corrêa e Antônio Abujamra, por exemplo, não encontraram tempo na agenda”, explica o dramaturgo, que está no Brasil para coordenar o projeto e desenvolver um outro, de teatro nas penitenciárias.273

Ciclo Brecht

Uma das principais iniciativas das comemorações do centenário do dramaturgo alemão […], o Ciclo Brecht apresenta hoje no Espaço Cultural dos Correios a leitura de Antígona, de Sófocles, com direção de Camilla Amado. […] O Ciclo Brecht tem apoio do Jornal do Brasil, Instituto Goethe, Editora Paz e Terra e Rádio Opus FM, e prossegue na próxima terça com palestra do diretor Amir Haddad, que fala sobre Vida de Galileu, acompanhado de uma leitura de cena da peça pelo diretor e ator Antonio Pedro.274

Corredor Cultural –

A Lapa é a cara de Zumbi

O Instituto Palmares de Direitos Humanos, a Federação dos Blocos-Afro do Rio de Janeiro, o Grupo Tá na Rua do diretor Amir Haddad e o Centro de Teatro do Oprimido organizaram uma festa para comemorar o Dia da Consciência Negra, que acontece no dia 20/11. O evento terá [oficinas e, entre outras coisas] exposição dos figurinos do Tá na Rua.275

Festival Cena Aberta

O festival […], realizado até domingo pelos grupos que recebem apoio do governo federal, agora também tem sua versão off. O diretor Amir Haddad, do grupo Tá na Rua, que participa da mostra oficial com um grande Auto de Natal a se realizar nos Arcos da Lapa no domingo, comanda o festival paralelo.276

272 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 24 mar. 1998, seção Agenda.

273 Entrevistas no CCBB reúnem dramaturgos, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 jul. 1998, caderno B, p. 3

274 Ciclo Brecht tem leitura de Antígona, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20 out. 1998, caderno B, p. 3

275 Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 20-6 nov. 1998, nota referente aos eventos de sexta-feira, p. 38.

276 Cena aberta ganha uma versão paralela, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2 dez. 1998, caderno B, p. 3.

1999

A batalha do forte dos reis magos

A Fundição Progresso não quer saber de descanso e abre suas portas hoje para o pessoal que pretende emendar as comemorações da passagem de ano com muito samba no pé. […] Na sexta, além do pessoal da escola de samba da Tijuca, o grupo Tá na Rua de Amir Haddad dramatizará, com a participação de cerca de 50 atores, o carro alegórico do Salgueiro, A batalha do forte dos reis magos.277

Tá na Rua Cai no Carnaval

O teatro também tem vez no desfile das escolas de samba. O grupo de Amir Haddad, promove a partir da próxima segunda e até 14/02 a já tradicional Oficina de Carnaval. Os cortejos dramáticos são uma das mais importantes fontes de pesquisa do grupo. O desfile na avenida é aqui entendido como um treinamento dos atores em espaços abertos. A oficina termina em plena Sapucaí no domingo de Carnaval, com o desfile dos atores no carro alegórico Fortaleza dos reis magos 278

Escola Tá na Rua

Após 19 anos de desenvolvimento de uma linguagem teatral, o grupo criado por Amir Haddad, realiza um sonho: inaugura, segunda-feira, o Instituto Tá na Rua. E oferece 10 bolsas integrais e 40 parciais (50%) nas Oficinas de desenvolvimento e formação do ator cidadão (com duração de três meses) para os primeiros leitores que apresentarem a [revista] Programa no Teatro Glauce Rocha […], a partir das 10h desta sexta-feira.”279

Gavetas Abertas Leitura da peça Severina Pau Brasil, de José Ribamar Neves. Direção: Amir Haddad. Com Ruddy Trigo, Vanda Lacerda e outros, no Centro de Estudos de Dramaturgia da sbat, em 14 de abril.

Ato Público “desenforca” Tiradentes Tiradentes será “desenforcado” hoje, em ato histórico-cultural que se inicia às 12h na Assembleia Legislativa e se deslocará para a praça a qual o herói dá nome, onde, em cadafalso armado em frente ao Teatro João Caetano, o mártir da Independência, até ali representado por um boneco, se transforma em homem, vivido por um ator. Promovido pelas secretarias estaduais de Cultura e Segurança, e pela Assembleia Legislativa, o “desenforcamento” tem coordenação do historiador Joel Rufino dos Santos e direção artística de Amir Haddad e Haroldo Costa. O ato terá como fundo musical o samba-enredo Exaltação a Tiradentes, feito por Mano Décio da Viola, Penteado e Estanislau Silva para o desfile de 1949 do Império Serrano.280

Anos 1000: uma leitura do milênio através de Shakespeare Leitura de Rei Lear. Direção: Aderbal Freire-Filho e Gilray Coutinho: com Amir Haddad, Adriana Maia e outros, no Teatro João Theotônio, do Centro Cultural Cândido Mendes.

Ágora agora – debate

Evento do ccbb que reuniu nomes da cultura às terças e quintas para debaterem a respeito do “que ficará marcado e o que será jogado no lixo” em

277 Denise Lopes, Fundição abre o ano com samba, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1º jan. 1999

278 Tá na Rua cai no Carnaval, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 jan. 1999, caderno B, p. 3

279 Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 2-8 abr. 1999, seção Ofertas, p. 42.

280 Ato Público “desenforca” Tiradentes, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22 abr. 1999, caderno B, p. 3.

cada uma das expressões artísticas manifestadas ao longo do século XX.

O ccbb promove, a partir de terça-feira, o evento 7 artes, 1 debate: permanência e descarte. […] No dia 09/11, Amir Haddad e Eduardo Wotsik discutem Ágora agora: entre o palco e a praça 281

Em casa na Tunísia

Na ocasião de sua ida a Tunísia, Amir apresentou a comunicação “O teatro e a cidade – o ator e o cidadão” em novembro, na qual, entre outras coisas, dizia:

“[…] Há uma possibilidade teatral imanente no cidadão e nos ritos de convivência, não prevista na vida da cidade e consequentemente não levada em conta, embora continuamente se manifeste – numa festa, numa barraca de cachorro-quente, num camelô que vende alguma coisa, em tudo. Parto do princípio de que o que provoca isso é a divisão que se estabeleceu, ao longo dos últimos 300 anos, entre teatro e cidade, entre cidadão e artista.

A cidade mudou, o teatro não. […] O produto mais avançado das pesquisas que venho desenvolvendo no Brasil, junto ao grupo Tá na Rua, é a realização de grandes espetáculos festas, atualmente concebidas como imensos cortejos, a que denominamos liturgia carnavalizada. […] Se por um lado o processo então realizado nos proporcionou descobertas importantes em relação ao jogo do ator, levando-nos a uma atuação desenvolvida, que apresentava uma realidade, ao invés de representá-la […], por outro a demolição da linguagem […] foi […] dando passagem a uma

linguagem cada vez mais livre […]. Foi o contato com uma plateia heterogênea […] que nos obrigou a nos desarmarmos, a rever nossas atitudes […]. Peter Burke, historiador, em seus estudos sobre cultura popular, ao investigar o aparecimento da dicotomia cultura erudita/ cultura popular – que surgiu justamente nessa fase em que se estruturou a sociedade burguesa – faz uma análise muito interessante sobre a obra de Bakhtin e considera que este, quase explicitamente, desenvolve o pensamento de que popular é tudo aquilo que se rebela contra o estabelecido. […]; viramos o teatro de cabeça para baixo, como um saltimbanco […]. Nosso referencial eram os camelôs e os artistas de rua; eram aqueles camelôs que vendiam mágicas, vendiam remédios para calo e mil outras bugigangas. Nós os observávamos enquanto faziam teatro para vender suas mercadorias: como seguravam a roda, como esquentavam o espaço de atuação, como brincavam com o público […]. A nossa recusa em relação ao teatro burguês – hoje nós sabemos identificar melhor – não se limitava a diferenças políticas e/ou ideológicas. Ela se relacionava também à mudança que ocorrera intrinsecamente no teatro, a partir do momento em que este sofrera um deslocamento em seu eixo religioso […]. Vivemos num mundo protestante, mas nossa cultura, no Brasil, é de origem católica, medieval e também islâmica! […] E aí o que aflorou foram as procissões religiosas que vi na minha infância e das quais participava toda a cidade. Principalmente uma, a mais dramática de todas, que era emocionante e da qual eu adorava participar – a procissão do encontro. Uma parte dela saía de uma das igrejas da cidade, ao mesmo tempo em que

281 Corpo é um dos temas em debates no CCBB, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16 out. 1999, caderno Ideias – Livros, especial Fragmentos do corpo, seção Debates, p. 2.

uma outra saía de outra igreja; e ambas se encontravam em determinado ponto. Uma encenação! Uma trazia Jesus Cristo carregando a cruz e a outra, Maria; quando se cruzavam na rua, ela via o filho sendo castigado. Eram aquelas duas estátuas balançando. […] O produto mais avançado de nosso trabalho – os cortejos – não é um produto de mercado, uma beleza a ser vendida. […]; como a procissão de Osíris, no Egito, em que se representava a vida do deus; como o TAZIYÉ – O martírio de Hassan e Hussein, na Pérsia, onde os maometanos contam teatralmente, numa praça, a história da sangrenta guerra que estalou entre os herdeiros de Maomé, após sua morte. Ou, ainda, como alguns grupos africanos contemporâneos ligados à tradição, com suas danças teatralizadas. […] É um espetáculo escrito no espaço e com o corpo, tanto dos atores quanto das pessoas que passam […]. Basta jogar um sinal forte, que eles o reconhecem rapidamente. Há, dentro do povo, a força dos mitos gregos. […].”282

2000

7º Festival de Teatro –

Universidade Veiga de Almeida

De 18 a 28/10/2000, Amir foi jurado ao lado de outros profissionais.

Leitura de Abajur lilás , de Plínio Marcos

Ciclo de Leituras ac/dc, antes e depois do ai-5, promovido por Amir Haddad e pela atriz Maria

Padilha, que vinha inovando em sua carreira. A proposta era apresentar leituras de dramaturgia brasileira. Amir Haddad dirigiu a leitura de Abajur lilás, de Plínio Marcos, um ano após a morte do autor, com um elenco que, entre outros, contava com Louise Cardoso e Thelma Reston, no Teatro Glória.283

Leitura de Roda viva , de Chico Buarque

Um verdadeiro happening marcou a leitura […] na noite de terça, no Teatro Glória. Foi o encerramento do ciclo ac/dc, de leitura de peças escritas antes e depois da censura – projeto idealizado pelo diretor Amir Haddad e pela atriz Maria Padilha, diretora do teatro. Um iluminado José Celso […] comandou a leitura no palco e na plateia, lotada de artistas cariocas, convidando os presentes a entrarem no clima da peça, fazendo parte do coro, dançando e soltando as feras possíveis. […] Numa noite repleta de clímax, o ator Otávio Müller foi um dos mais fortes no papel do Anjo, empresário do protagonista, e Amir Haddad, como o Capeta, personificando a mídia.284

2001

Oficina de Carnaval Tá na Rua

O grupo de teatro Tá na Rua, de Amir Haddad, começa hoje sua Oficina de Carnaval; os integrantes vão desfilar na Unidos do Cabral, cujo enredo homenageia Zeca Pagodinho.285

Leituras dramatizadas –

João Cabral de Melo Neto

Trechos da obra de João Cabral foram lidos no

282 Comunicação de Amir Haddad, proferida em seminário durante o Festival Internacional de Teatro Africano realizado em Túnis, Tunísia, evento do qual participou como presidente do júri em novembro de 1999

283 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21 nov. 2000, caderno B, p. 5 Outras informações referentes ao ciclo foram encontradas em: Diretores destacam as parcerias, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 dez. 2000, caderno B, p. 2

284 Mônica Riani, Clima de celebração na leitura de Roda Viva, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 14 dez. 2000.

285 Danuza Leão, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 7 fev. 2001, nota na seção Calçadão, caderno B, p. 3.

Teatro 3 do ccbb, selecionados por Clarisse Fukelman com direção geral de Amir Haddad. Entre a programação, Amir dirigiu, em parceria com Luiz Fernando Lobo, Cabral dramaturgo –poemas dramáticos, com Chico Diaz e Gilberto Miranda em 16/05/2001 e O auto do frade, em 17/05/2021. Entre outros atores que participaram do ciclo, estiveram Arlete Salles, Camila Pitanga e Nelson Xavier.

Diretor do Teatro Carlos Gomes –coração do Rio

No âmbito municipal, [o secretário municipal de cultura] Artur da Távola anunciou a escalação dos responsáveis pelos teatros da prefeitura. No Teatro Carlos Gomes, Amir Haddad, do grupo Tá na Rua; no Delfin/UniverCidade, o diretor Moacir Chaves; no Planetário, a atriz Elizabete Savalla; no Ziembinski, a atriz Claudia Jimenez; no Aurimar Rocha/Café Pequeno, Cláudio Botelho e Charles Müller. Como antes, a sala do espaço cultural Sérgio Porto fica destinada à vanguarda. O Glória ainda está vago.286

Praças – Pré-lançamento do projeto de ocupação do Carlos Gomes, por Amir Haddad. Com o grupo Tá na Rua (16h30), Mestre Zé de Vina e Mamulengo Riso do Povo (17h) e Forró Macambira e Adryana bb (18h). Praça Tiradentes […]. Grátis.287

2002

Debates, teatro e concertos – Paris 1900

Paralelamente à exposição Paris 1900, o [ccbb] sedia, a partir da próxima terça, o seminário internacional belle époque e modernidade, que vai reunir até 4/07

[…] um elenco de pensadores dispostos a discutir diferenças e semelhanças assumidas entre Rio e Paris na virada do século XX [como política, urbanismo, ciência, arte, moda sociologia, literatura etc.] […] Pequenas encenações dramatúrgicas abrirão as noites de debates. Os textos teatrais foram criados com base em 200 fontes de pesquisa […]. O elenco é composto por Nathalia Timberg (na abertura), Giulia Gam, Eva Wilma, Louise Cardoso, Tonico Pereira, José Wilker, entre outros atores, dirigidos por Amir Haddad e Ana Kfouri.288

AfroReggae

Parceria – O AfroReggae conquistou um belo parceiro. […] Amir Haddad vai trabalhar com a oNg O diretor assinará a direção da primeira peça do Levantando a lona, grupo de circo do AfroReggae. A estreia é no final de agosto, na Favela do Cantagalo.289

Artaud e Brecht

Palestra em 08/09/2002, às 20h30, no Teatro Villa-Lobos, sobre Artaud e Brecht.

2003

Tá na Rua tá na Porto da Pedra –Os donos da rua: um jeitinho brasileiro de ser a Vez do PoVo Nas ruas – Enredo social por enredo social, a Beija-Flor pode ter o mais explícito e engajado (sobre a fome), mas o Porto da Pedra não fica atrás, ao falar, na Sapucaí, da vida e das mazelas do povo que vive nas ruas. “É um tema forte, mas não é triste”, diz o carnavalesco da agremiação, Mário Borriello. A brincadeira começa desde a comissão de frente, bolada pelo grupo Tá na Rua (nome bem adequado para a ocasião), do

286 Mônica Riani, Cultura na boca de cena, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 12 abr. 2001

287 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 6 set. 2001, nota sem título, divulgação na seção Agenda, caderno B, p. 6

288 Debates, teatro e concertos, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 19 maio 2002, caderno B, p. 10.

289 Marcia Peltier, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 13 jul. 2002, nota Parceria, caderno B, p. 3.

diretor Amir Haddad. Os 15 componentes da comissão montarão cenas do cotidiano das esquinas cariocas ao longo do desfile.290

Curso de Introdução à Leitura de Textos Teatrais

A Estação das Letras promove [curso] com o produtor e ator Amir Haddad, e continua com os cursos de férias […].291

Projeto de leituras “Arqueologia do Riso Brasileiro” – peças O primo da Califórnia e A maldita parentela Promovido pelas atrizes Guida Vianna e Angela Rebello, o projeto [Arqueologia do Riso, realizado por quatro segundas-feiras desde 1º/09/2003] é dedicado a comédias musicadas brasileiras do século XiX [por meio de leituras acompanhadas do piano de Maria Teresa Madeira]. Na próxima segunda, leitura de O primo da Califórnia, de Joaquim Manuel de Macedo, sob direção de Amir Haddad. [Sempre na] Sala Baden Powell.292

Na próxima segunda, a série chega ao fim com as leituras de A maldita parentela, de França Júnior, com direção de Amir Haddad, e O califa da rua do sabão, de Artur Azevedo, dirigida por Luiz Arthur Nunes. Sala Baden Powell.293

2004

Aniversário do Jardim Botânico

No domingo [13/06], a Cia. Chronos de Teatro apresenta, às 10h, no gramado do Centro de Visitantes, o espetáculo Um jardim de histórias com fatos importantes que marcaram os 196 anos do Jardim Botânico [do Rio]. Às 13h, no Solar da Imperatriz, atividades no Ateliê de Criação com ensaios das músicas e cenas do cordel Antônio Lisboa e a sereia do fundo do mar294, dirigido por Amir Haddad.295

Ele nasceu no entorno de uma fábrica de pólvora, abrigou chineses que por lá fumaram ópio e, graças ao insucesso de uma plantação de chá, tornou-se uma das mais belas áreas verdes da Zona Sul. O Jardim Botânico, que completa hoje 196 anos, abriga […] relíquias que vão além das deslumbrantes palmeiras […]. Fundado em 1808 por Dom João VI, o jardim é um baú de histórias curiosas, memória viva do Brasil colônia. Parte desta trajetória será narrada hoje a partir das 10h […]. A festa inclui apresentação do cordel dirigido por Amir Haddad (às 13h, no Solar da Imperatriz) e trilhas no Morro das Margaridas […].296

Haddad em Mossoró […] o diretor pioneiro da vanguarda nacional, do teatro de rua e de tantas coisas bacanas do teatro brasileiro, apronta mais uma: inaugura

290 A vez do povo das ruas, Jornal do Brasil/Revista de Domingo, Rio de Janeiro, 2 mar. 2023, n. 1 400, p. 31

291 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 jul. 2003, nota na seção Campus, caderno Ideias, p. 2

292 Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 12-8 set. 2003, nota na seção Agenda, p. 22

293 Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 19-25 set. 2003, nota na coluna Teatro, seção Agenda Extra, p. 23

294 Este cordel, de Mivelino F. da Silva, junto de Iraildes ou A moça que beijou um jumento pensando que era Roberto Carlos (de Dílson da Cruz) e A revolta de São Jorge contra os invasores da lua (de Erotildes Miranda dos Santos), foi trabalhado no curso que Amir Haddad deu no Teatro dos 4 em 1978-9, segundo nos informa a tese de Mestrado de Ana Maria Pacheco Carneiro, p. 237

295 Jornal do Brasil/Revista Programa, Rio de Janeiro, 11-7 jun. 2004, seção Agenda Grátis, p. 35.

296 Florença Mazza, Quase um bicentenário de curiosidades, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 13 jun. 2004.

dia 05/08 o Teatro Municipal de Mossoró, no Rio Grande do Norte.297

Teatro sobre trilhos

Amir Haddad está montando um espetáculo itinerante pelas ruas de Santa Teresa que vai contar a história de antigos moradores ilustres do bairro, como Machado de Assis, Arthur Azevedo, Chiquinha Gonzaga, Gilda de Abreu, Laurinda Santos Lobo, Manuel Bandeira e Vicente Celestino. Experiente no assunto […], Amir transformará o tradicional bondinho em palco durante cada apresentação de Galhofas e gargalhadas – O bonde de Machado de Assis [já realizado em 1999], que percorrerá quatro estações próximas das casas onde viveram os personagens. A produtora cultural Heloise Montenegro, que assina o projeto, já conseguiu apoio dos governos federal, estadual e municipal para estrear a peça em 06/2005 298

2005

Capitão Doidão

Chama-se Capitão Doidão o projeto que será lançado hoje no Rio para transformar em atores 40 internos de instituições psiquiátricas. O diretor Amir Haddad e o ator Antonio Pedro coordenarão o programa, apoiado pelo Ministério da Saúde. Um dos alunos é autor da primeira peça a ser encenada pelo grupo.299

25 anos de rua

Por falar em dar vivas, o Instituto Tá na Rua […] comemora 25 anos. Vai ser dia 16, no Circo Voador, com várias celebrações: do convênio com o MinC para a realização do “Tá na Rua Brasil/ Escola

Carioca do Espetáculo Brasileiro”; do lançamento do projeto “Memória Tá na Rua”, com a Petrobrás; da participação do grupo no Ano Brasil-França, em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura do Rio [ocasião na qual o grupo foi a Paris em 08/2005]. Amir merece todas as festas. Talentoso, combativo e de vanguarda sempre.300

2006

“Justa homenagem” a Rubem Braga Rubem Braga será homenageado nos próximos 5 dias em sua terra natal, Cachoeiro de Itapemirim, na 1ª Bienal que leva seu nome. O escritor terá sua obra resgatada em ciclo de debates, palestras […] e performances de amigos famosos como Tônia Carrero, Elisa Lucinda, Amir Haddad, Ferreira Gullar, Affonso Romano de Sant’Anna etc.301

Amir presidente da República em chiste do JB Surpreendente. Foi a exclamação dos leitores ao receberem, na manhã de ontem, o Caderno b Intervenção, o primeiro de uma série em que personalidades do meio cultural criam edições especiais […]. A estreia coube ao diretor e autor de teatro Aderbal Freire-Filho. Diante do resultado, nomes como o sambista Moacyr Luz, a atriz Andréa Beltrão, o cantor e compositor Oswaldo Montenegro e o artista plástico Xico Chaves ressaltaram a ousadia da proposta e do projeto gráfico dos designers Fabio Arruda e Rodrigo Bleque, sob coordenação de Aderbal. Com a proximidade das eleições, o diretor se debruçou sobre o tema “A cultura nu poder”, ao lado de intelectuais, artistas e jornalistas do primeiro

297 Hildegard Angel, Haddad em Mossoró, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 jul. 2004, caderno A19

298 Heloisa Tolipan, Teatro sobre trilhos, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 dez. 2004, editoria Gente, caderno B, p. 10

299 Boechat, Teatro cabeça, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 maio 2005, caderno País, p. A6

300 Hildegard Angel, 25 anos de rua, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11 ago. 2005, p. A16.

301 Heloisa Tolipan, Justa homenagem, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 maio 2006, caderno B, p. 8.

escalão, como Alcione Araújo, José Miguel Wisnik, Villas-Bôas Correa e Amir Haddad, este na pele de um utópico presidente do Brasil.”302

O presidente Amir Haddad, de ascendência árabe, junta o antifundamentalismo, o tropicalismo, o alcoolismo (da Lapa, pois ele pessoalmente é abstêmio) e o humanismo para combater o cinismo, o esnobismo, o estrabismo (menos o meu), o banditismo e o abismo. É diretor de teatro, ator, caixeiro-viajante da cultura e foi escolhido presidente da república do outro Brasil por aclamação e com o uso da força (da força maior e da força de expressão).

Assim como já houve o presidente pé de valsa, agora é a hora do presidente tá na rua. Amir recentemente desmontou Nelson Rodrigues, em Botafogo, e Shakespeare, na Lapa, e reinventou o teatro, o ator e o próprio homem. No Catete, para onde a sede do governo do Brasil voltará, isto é, outra vez para perto do povo, Amir pode desmontar deus e o diabo e inventar de vez o governo nu. [...] Amir Haddad, presidente do Brasil. O ator, diretor de teatro, o mestre, o poeta Amir Haddad.303

Teatro para não atores

De 17 a 31/10/2006, Amir lecionou com o Tá na Rua o curso livre “Teatro para não atores” pela Casa de Cultura da Estácio. No anúncio, Amir assinava o seguinte convite: “A experiência teatral prepara o ser humano para a vida social, afetiva e profissional.”304

Ordem do Mérito Cultural Em 08/11/2006, Amir recebe a Ordem do Mérito Cultural na categoria Comendador, no Salão Nobre do Palácio do Planalto, Brasília, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo ministro da cultura Gilberto Gil.

Nesta quarta-feira, dia 8 de novembro, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e o ministro da Cultura, Gilberto Gil, entregaram as insígnias da Ordem do Mérito Cultural 2006 a personalidades e instituições que se destacaram por sua contribuição à cultura brasileira […]. Em seu pronunciamento, o ministro Gilberto Gil disse estar diante “de dedicados semeadores de hoje e de outrora, gente que plantou seus pomares mundo afora, neste e em outros continentes. […].” O teatrólogo Amir Haddad fez o pronunciamento em nome de todos os agraciados. Haddad ressaltou as ações do Ministério da Cultura frisando que apenas a poucos anos a cultura do País começou a notar a “diferença entra existir e avançar”. São três as categorias da premiação: Grã-Cruz, Comendador e Cavaleiro. Nesta 12ª edição, foram contemplados um total de 46 agraciados, dos quais 41 estiveram presentes ou mandaram representantes na última quarta-feira no Palácio do Planalto […]305

302 Os leitores da cultura no poder, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 25 set. 2006, caderno B, p. 3

303 Perfil e entrevista com Amir Haddad. Perguntas feitas por Villas-Boas Corrêa, Tales Faria, Emir Sader, Ana Maria Tahan, Augusto Nunes, Cristovam Buarque e José Maria Eymael (Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 24 set. 2006, Intervenção, caderno B, p. 8-11). Trata-se de um breve perfil não assinado (e bem-humorado, como todos da série) que precede uma entrevista com Amir. É possível que sua autoria seja de Aderbal Freire-Filho, idealizador desse caderno especial.

304 Box publicitário, Jornal do Brasil/Editora Barra, Rio de Janeiro, 15 out. 2006, p. 3

305 Celebração da Diversidade Cultural Brasileira: MinC homenageia com a Ordem do Mérito Cultural personalidades e instituições, Portal da Cultura/Ministério da Cultura, 8 nov. 2006. Fonte: http://thacker. diraol.eng.br/mirrors/www.cultura.gov.br/site/o-ministerio/ordem-do-merito-cultural/ordem-do-merito-cultural-2006/index.html. (Acesso em 22 set. 2023).

Show de Gil – Dia dos Direitos Humanos

A garoa fina não desanimou a plateia carioca que foi aos shows do evento Iguais na Diferença, que comemorava 58 anos da declaração universal dos direitos humanos. […] A festa teve o ministro da cultura Gilberto Gil como o mestre-de-cerimônias. […]. Na abertura do evento, o diretor Amir Haddad leu a carta da Declaração Universal dos Direitos Humanos.306

2007

Vir, ver e aprendendo e Por Falar eM… – Ao lado de Amir Haddad, Fernanda [Montenegro] se juntará, a partir de setembro, ao próximo devaneio do diretor que convidou a atriz para participar de um grupo de estudos. “Serão dois meses de intenso trabalho progressivo dividido entre oficinas, debates e muita leitura. Espero que daí nasça algo proeminente”, disse Fernanda. E o nome do projeto, antecipou a atriz, não poderia ter um título melhor: vir, ver e aprendendo. 307

2008

Cuidado com o Cão

Conversa com Amir sobre a relação diretor/ator no processo de criação, após uma das apresentações da peça Cuidado com o cão, de Tarcísio Lara Puiati, com direção de Renato Farias, com a Companhia de Teatro Íntimo.

Lei geral do teatro em xeque Em audiência pública no Senado, projetos da Comissão de Educação, Cultura e Esporte (ce) recebeu críticas e foi alvo de divergência por parte

de diversos representantes da classe artística do Brasil que ali se reuniram para discutir políticas culturais que deixem de privilegiar apenas o eixo Rio-São Paulo, entre outras reivindicações.

Com orgulhosos 50 anos de vida e paixão pelo teatro, […] Amir Haddad pediu que os senadores tratem o anteprojeto da Lei Geral do Teatro como se fosse legislação sobre a pena de morte. “Tremam de medo. Vamos com cuidado. É a vida do país, a identidade, o afeto”, alertou ontem durante mais uma audiência pública no Senado [ao lado da atriz Irene Ravache, de Ney Piacentini e outros], na Comissão de Educação, Cultura e Esporte (ce). As palavras de um dos mais importantes homens de teatro do Brasil soaram como eco para grito de segmentos das artes cênicas que se sentem excluídos da proposta nacional, esboçada a partir da experiência de produtores do eixo Rio-São Paulo.308

2009

Cidadão Carioca

Amir recebe o Título de Cidadão Carioca. […] o ator e diretor teatral Amir Haddad (72) foi condecorado Cidadão Carioca na sede do grupo fundado por ele, Tá na Rua, no Rio. Mineiro de Guaxupé, Amir cresceu em São Paulo mas vive na Cidade Maravilhosa desde 1965 “Todos já me viram nas ruas da cidade fantasiado, falando de política nas praças com meu grupo”, disse ele. O título foi entregue pelo amigo e vereador Stepan Nercessian (55). “Sou um profundo admirador do Amir, um homem incrível, batalhador. Todas as pessoas que amam o teatro já tiveram contato com

306 Julio Calmon; Patricia Strelt, Dia dos Direitos Humanos termina com show de Gil, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11 dez. 2006

307 Heloisa Tolipan, E por falar em… Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 28 abr. 2007, coluna Gente, caderno B, p. 8

308 Sérgio Maggio, Lei geral do teatro em xeque – Política Cultural, Correio Braziliense, Brasília, 30 abr. 2008, caderno C, p. 2

ele. O Rio tinha que reconhecê-lo”, elogiou Stepan. Atualmente, Amir dirige o espetáculo As Meninas, escrito por Maitê Proença e Luiz Carlos Góes.309

Um título na berlinda

A escritora Lygia Fagundes Telles está triste com a produção da peça As meninas, texto inédito de Maitê Proença com direção de Amir Haddad, que estreia amanhã, na Casa de Cultura Laura Alvim. “Fiquei muito conturbada quando soube do título da peça. Minha agente, Lúcia Riff, ligou para os produtores e pediu que mudassem o título”, desabafou Lygia, ontem, à coluna, em ddd de São Paulo. […] O produtor da peça, Fernando Padilha, contou que também conversou com Amir, alertando que a montagem virá para o Rio em 2010 a Voz do diretor – “A gente pensou em mudar o título, mas a burocracia é grande. Poderíamos perder o patrocínio. Não queremos que Lygia nos interprete mal”, desculpou-se Haddad, acrescentando que tudo não passou de coincidência e Maitê entrará em contato com a escritora. “Vem ver a peça que é boa. Com qualquer nome”, finalizou.310

À flor da pele

A emoção tomou conta da veia dramática de Letícia Spiller, na aula de interpretação dada pelo diretor Amir Haddad, anteontem, no Espaço Tom Jobim. A atriz recitou, de cabeça, um poema de sua autoria sobre o “amor aos seres humanos”, no meio da roda formada por Cláudia Ohana, Catarina Abdalla, Leonardo Vieira e Tonico Pereira. O clima festa-em-

família durou até o fim da aula, quando todos dançaram ao som de Carinhoso, de Pixinguinha.311

2010

Moção de Aplauso

ele Merece – O diretor Amir Haddad recebe Moção de Aplauso do presidente da Comissão de Cultura da Alerj, Alessandro Molon, pelos 30 anos do Tá na Rua.312

Cidadão Fluminense

Por ementa de autoria de Alessandro Molon (de 12/05/2010), Amir Haddad recebe, no dia de seu aniversário, o Título de Cidadão do Estado do Rio de Janeiro.

2014

Inauguração da Sala de Espetáculos Amir Haddad A sala foi inaugurada na Fábrica de Atores e Material Artístico, escola livre de teatro em Nova Iguaçu que, em 10/05/2014, homenageou seu patrono dando-lhe o nome à sala de espetáculos. Página do grupo: http://projetofama.blogspot.com.

Diálogos com Amir Haddad

Série de quatro entrevistas, que Amir conduziu com Marília Pêra (28/10/2014), José Celso Martinez Corrêa (04/11), Renata Sorrah (11/11) e Aderbal Freire-Filho (18/11) no Teatro Cacilda Becker, com público e entrada franca, promovida pela Funarte.

O primeiro dia da série Diálogos com Amir Haddad teve histórias sobre os bastidores de montagens,

309 Diretor carioca Amir Haddad é cidadão carioca: os aplausos dos atores Maitê Proença e Stepan Nercessian, Caras, 13 jul. 2009, Redação, Arquivo on-line. Fonte: https://caras.uol.com.br/arquivo/diretor-teatral-amir-haddad-e-cidadao-carioca.phtml.(Acesso em 22 set. 2023).

310 Heloisa Tolipan, Um título na berlinda, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2 jul. 2009, caderno B, p. 8

311 Heloisa Tolipan, À flor da pele, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 jul. 2009, caderno B, p. 8

312 Christovam de Chevalier, Ele merece, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 31 mar. 2010, caderno Cidade, p. A16.

encontros memoráveis, personagens polêmicos, peças que marcaram épocas, confissões e desabafos. Por quase duas horas, a atriz Marília Pêra abriu suas memórias para falar sobre sua trajetória no teatro, na primeira entrevista ao diretor Amir Haddad […]. A plateia, em sua maioria formada por jovens estudantes e profissionais do teatro, ouviu com atenção e encantamento as saborosas histórias contadas pela atriz. […] Iniciativa do Centro de Artes da Fundação Nacional de Artes, o projeto propõe encontros entre personalidades do teatro brasileiro e o público. […]”313

[…] Hoje (4), às 19h, será realizado o segundo encontro do projeto – o primeiro foi no Teatro Cacilda Becker, Rio de Janeiro, com Marília Pêra. O entrevistado da vez é o diretor, autor e ator paulista José Celso Martinez Corrêa. A conversa acontecerá no Teatro Oficina, com entrada gratuita e aberta ao público. Nas entrevistas, Amir Haddad questiona os artistas sobre suas experiências na arte teatral, a trajetória na carreira, a troca com outros colegas de ofício, e seus trabalhos, dos mais antigos aos mais recentes. A ideia é transmitir ao público o processo criativo dos artistas sob a ótica de Amir Haddad, diretor que, por sua vez, passou por diversas fases do teatro brasileiro, experimentando variados estilos, desde o teatro tradicional ao teatro de rua. Filmadas, todas as entrevistas serão disponibilizadas, posteriormente, no portal da Funarte, para acesso como fonte de pesquisa e informação.314

2017

Medalha Tiradentes

Em 28 de novembro de 2017, o então deputado Eliomar Coelho entregou a Medalha Tiradentes a Amir Haddad, em homenagem celebrada na sede do grupo Tá Na Rua, na Lapa, que contou com apresentações dos artistas do grupo.

2018

Prêmio da APTR –Associação dos Produtores de Teatro

Em 9 de maio de 2018, Amir Haddad e o Tá na Rua foram homenageados na 12ª edição anual do Prêmio aPtr, realizado no Theatro Net Rio, em Copacabana, apresentado por Renata Sorrah, com a presença dos integrantes do Tuca carioca.

Homenageados da 13ª Fita –Festival Internacional de Teatro de Angra

Vai ser dada a largada para a maior festa do teatro brasileiro. Nesta sexta, dia 14/09, começa a 13ª edição da Festa Internacional de Teatro de Angra. […] Em 2018, o festival inovou e homenageará uma atriz, um ator e um diretor. Regina Duarte, Tonico Pereira e Amir Haddad formam a trinca […].315

2019

Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

Amir é agraciado com o título de Doutor Honoris

Causa da uFrJ em 20 de março de 2019, às 17h, no

313 Fonte: https://sistema.funarte.gov.br/noticias-antigas/?p=70786. (Acesso em 22 set. 2023).

314 Amir Haddad entrevista Zé Celso no Teatro Oficina, Portal da SP Escola de Teatro, 4 nov. 2014. Fonte: https:// www.spescoladeteatro.org.br/noticia/amir-haddad-entrevista-ze-celso-no-teatro-oficina. (Acesso em 22 set. 2023).

315 Regina Duarte, Tonico Pereira e Amir Haddad são homenageados na 13ª Fita: evento começa nesta sexta-feira, dia 14, e reunirá 51 atrações até o dia 30 de setembro em Angra dos Reis, da Redação, Gente de Sucesso VIP, 12 set. 2018. Fonte: https://www.gentedesucessovip.com.br/entretenimento/teatro/2715-regina-duarte-tonico-pereira-e-amir-haddad-sao-homenageados-na-13-fita. (Acesso em 22 abr. 2022).

salão Pedro Calmon (Palácio Universitário, campus Praia Vermelha). Além do homenageado, compuseram a mesa da cerimônia o reitor Roberto Leher, o coordenador do Fórum de Ciência e Cultura, Carlos Vainer, e a atriz Renata Sorrah, responsável pela saudação ao homenageado. Após a solenidade aberta ao público, houve apresentação [com danças e cantos] do grupo Tá na Rua e participação do tucaarte. Estiveram presentes também personalidades como os atores Tonico Pereira, Arlete Salles, Bete Mendes, Camilla Amado, Cristina Pereira, o professor Chico Alencar, entre outros.

12ª Edição do Festival Internacional de Teatro Niterói em Cena em homenagem a Amir Haddad

De 17 a 29 de setembro de 2019, ocorreu o festival no Teatro Popular Oscar Niemeyer e nos bairros do Barreto, Santa Bárbara e São Lourenço, contando com quatro mostras: a Mostra Adulta de Peças, a Mostra Infantojuvenil de Peças, a Mostra Artistas de Rua e a tradicional Mostra Cenas Curtas, com artistas brasileiros e de países como Bélgica, Peru, Colômbia etc.

A homenagem a Amir Haddad se deve à relevância de sua obra no cenário teatral brasileiro. No encerramento do festival, no dia 29 de setembro, às 20h, haverá o espetáculo solo “Assim Falava Zaratustra”, estrelado pelo próprio homenageado com a participação de Viviane Mosé (poetisa, psicóloga e filósofa). Além da apresentação de seu espetáculo, Haddad ministrará uma oficina. Todo ano o evento presta

tributo a um grande artista do teatro nacional. Já foram agraciados Ariano Suassuna, Augusto Boal e Cecília Boal. A programação completa e detalhada do evento pode ser acessada em: www.niteroiemcena.com.br.316

2020

Live “Memória Brasil”

Em 9 de julho de 2020, Amir participa da série de lives produzidas por Thiago Sogayar Bechara no contexto da pandemia do novo coronavírus.

O bate-papo sobre carreira e cultura brasileira aconteceu às 15h e está disponível no Youtube.317

2021

Festival Latitude 40º – Ciclo de Conversas Amir participa como orador do tema “Desvendando um sentido comum” em 6 de novembro de 2021, transmitido às 14h na Argentina e às 18h em Portugal, encerrando o festival virtual cujo intuito é a partilha de processos artísticos na comunidade iberoamericana.

Embaixador da ONG Entre o céu e a favela “Arte, inclusão e transformação social para crianças, jovens e mulheres na 1ª favela do Brasil – Morro da Providência”

Falar sobre Amir é falar sobre a sorte dos encontros. Criador do grupo Tá na Rua, que acolheu nossa fundadora Cintia Santana ao longo de 7 anos, Amir é um dos grandes alicerces da transformação que nos fizeram chegar até aqui. Receber sua visita em nossa sede, apresentar cada detalhe desse espaço que também tem tanto de

316 12ª edição do “Niterói em Cena” começa nesta terça, O Fluminense, 15 set. 2019. Fonte: https://www.ofluminense.com.br/editorias/cultura/2019/09/1119990-12---edicao-do--niteroi-emcena--comeca-nesta-terca.html. (Acesso em 22 set. 2023).

317 Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=n0CsnhbJvz0&t=2031>. (Acesso em 22 set. 2023).

sua história marcada, é um orgulho imenso. Hoje, Amir é nosso Embaixador da Transformação, título [afetivo] que resume o poder que sua obra e potência têm de transformar vidas a apoiar histórias e jornadas.318

Em sua conta pessoal, na mesma data, Cintia Santana ainda escreveu:

Existiu uma vida antes do teatro e uma vida depois do teatro na minha jornada. Teatro esse que você trouxe pra mim no meio da praça, e eu que me apresentava para aqueles que assistiam, fui apresentada a mim mesma, a tudo que eu podia ser, crescer e viver! Gratidão, mestre, por tanto!319

2022

Oficina-espetáculo “O ator/atriz dos espaços abertos”

Na quinta, 10 de março de 2022, às 16h, ocorreu a oficina apresentada pelo Tá na Rua com Amir para os oficineiros no largo da Lapa. O encontro foi o primeiro evento de rua que o grupo fez em 2022, amplamente divulgado nas redes sociais do Tá na Rua e do diretor.

TÁ NA RUA VOADOR

Oficina “O desenvolvimento do ator/atriz que carnavaliza o teatro e teatraliza o carnaval” em oito encontros ateliê de FaNtasias – Em parceria com a Recicloteca, Ana Paula Casares será condutora da oficina livre de confecção de fantasias e adereços, por meio de reutilização de materiais carnavalizados, onde cada participante deverá

criar sua fantasia para o baile final. – Estudo de musicalidade e ritmos carnavalescos: Traga seus instrumentos e vamos criar liturgias carnavalizadas! Trazendo a força ancestral do tambor para as ruas do Rio em um cortejo Dionisíaco. – O baile: A apoteose da vivência. Uma noite no circo que será um resgate das memórias dos antigos carnavais, dos grandes bailes de máscaras, com a verdadeira essência de uma festa popular. O Tá na Rua e os participantes serão os anfitriões da noite ao lado de atrações especiais como: Bloco Céu na Terra e Cia de Mystérios e Novidades, que partilham dos mesmos valores: a resistência através da poesia.320

2024

Participação no curso “A modernização do teatro brasileiro: perspectivas para um debate crítico ( 1920-1950)”, oferecido por Thiago Sogayar Bechara. Nos dias 03, 10, 17 e 24 de abril de 2024, o autor deste livro ministrou o referido curso de forma online, pela empresa Épikos, sendo o último dia de encontro uma aula de Amir Haddad, como convidado especial, para dar seu testemunho histórico acerca do período de modernização do qual ele fez parte. Diversos integrantes e elementos fundadores do Tá na Rua participaram, ainda, como alunos, dos quatro dias de curso, tais como Ricardo Pavão, Ana Carneiro e Máximo Cutrim.

318 Post da ONG em seu Instagram @entreoceueafavela, em 29 nov. 2021

319 Instagram @cinsantanaecf, em 29 nov. 2021

320 Texto extraído do release de divulgação produzido pelo Tá na Rua referente à oficina realizada por Amir Haddad e seu grupo de 5 a 28 de abril 2022, às terças e quintas.

DEPOIMENTOS 321

ALEXANDRE MATE

ANGELA REBELLO

ANTONIO PEDRO BORGES

ARY COSLOV

BRUNO WILSON PEREIRA SILVA

CLARICE NISKIER

CLAUDIA BORIONI

CLÓVYS TÔRRES

DRICA MORAES

GABRIEL MOURA

GILSON DE BARROS

IMARA REIS

IVO FERNANDES

LUANG

LUCIANA PEDROSO

MAITÊ PROENÇA

MALU VALLE

MARIA PADILHA

MARIAH DA PENHA

MÁXIMO CUTRIM

NETINHO

PATRICIA PINHO

PEDRO CARDOSO

RENATA SORRAH

RICARDO PAVÃO

SAN ALICE HASHIMOTO

SILVIO TENDLER

TONICO PEREIRA

TUCA ANDRADA

VANNESSA GERBELLI

VIVIANE MOSÉ

321 Nem todos os depoimentos foram reproduzidos nesta publicação ou no livro impresso, mas cada um deles foi essencial para a pesquisa geral e o estabelecimento do texto. Fica aqui a menção aos entrevistados e nosso agradecimento.

DEPOIMENTO DE ALEXANDRE MATE 322

AMIR HADDAD: UM ARTISTA QUE, SEMPRE EM BANDO, RESSIGNIFICA

VIDAS E ESPAÇOS PÚBLICOS

Onde queres revólver, sou coqueiro

E onde queres dinheiro, sou paixão

Onde queres descanso, sou desejo

E onde sou só desejo, queres não

E onde não queres nada, nada falta

E onde voas bem alta, eu sou o chão

E onde pisas o chão, minha alma salta

E ganha liberdade na amplidão [...]

Caetano Veloso (O Quereres)323

1. Por meio de uma tentativa épica, a revelação de um existir em “liberdades na amplidão”...

Havia um homem! Sujeito histórico-social e criador cunhado por radicalidades deslimitadas... Havia um homem que, pelos mais diversos entrecruzamentos e processos de desacomodação, foi se desviando, da totalidade dos percursos traçados/ definidos por outrens, que inocentes – possivelmente tomados por corolário liberal – pensavam em seguir as tradições de privilégio. Havia um homem que das rotas

322 Tenho um grande carinho e respeito por Thiago Sogayar Bechara. Já havia lido obras dele, mas nosso processo de conversação começou, efetivamente, em 2021. Marcello Airoldi me convidou para participar como leitor crítico das obras selecionadas na segunda edição do projeto Rede de Leituras. Do significativo número de obras da edição 2021, processo constava o surpreendente texto O Filho da Rapina. Ao me convidar para escrever algo sobre o Amir, mas depois de rápidos “engasgos”, em razão de estar fora do país e algo assoberbado de tarefas, por certa insistência do Thiago, aceitei. Amir é um sujeito amadíssimo. Portanto, o que resultou foi fruto de afetos e memórias...

323 A primeira e permanente inspiração foi Drummond. Ao seguir o cortejo do pensamento –em estado de felicidade, assemelhada a quem gosta e pode saborear uma ambrosia –, em determinado momento veio a magistral composição musical de Caetano Veloso... Sem saber que Amir, mesmo sendo um cidadão de todas as ruas, nascera em Guaxupé. Me indago, então, ao adotar O Quereres: Diga aí, Caetano, o mestre o inspirou também!?

tradicionais se permitiu um (re)existir, em potência, nos espaços públicos. Havia um homem, que sempre em comunhão com gente (des)conhecida, que, em processos de continuidade ou casualmente, carnavalizou e ressignificou, em giras representacionais, as rugas ou veias abertas dos corpos das cidades. Havia um tal homem que, ao seguir os caminhos de tantos outros homens e mulheres, foi [se] juntando mais e mais pessoas, sobretudo nos espaços ditos de trânsito, ressignificando estética e humanamente os existires em cumplicidade. Há/vera, sim, um tal Amir – quase, ou possivelmente, um “ferreiro daddah” – forjador das alegrias cúmplices do devir, que tem se presentificado no já-agora de um viver (res)significado.

2. Complexo apresentar, em um único episódio, a narrativa de origem de qualquer artista estética e militantemente significativo e admirado! Havia um homem que, nascido em Guaxupé (uma das incontáveis cidades de Minas Gerais), em processo de desassossego e errância, migra (ou, talvez, tenha iniciado seu processo de deambulação, em estado de cortejo) para Rancharia, no interior do estado de São Paulo, depois para a capital paulista. De tal processo migratório, Thiago Sogayar deverá apresentar muitas histórias e motivações... Em determinado momento (1958), Amir aparece como estudante do curso de Direito da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Entediado naquela vetusta e rígida instituição – possivelmente, seguindo determinação (im)posta pela família –, e inserido em bando, formado por Zé Celso, Carlos Queiroz Telles, Renato Borghi e outros, “Amirbandoleiro” rompe com as tradições institucionais (família e escola) e fundam a notável sociedade, batizada Teatro Oficina. Nesse grupo-coletivo-patrimônio do teatro mundial, Amir participa de alguns espetáculos no coletivo, mas por alguns motivos volta seus olhos para o Norte (talvez acordando para o que possivelmente passava a vislumbrar e sonhara) para a linda Belém do Pará. Certo de que Thiago revelará alguns dos motivos dessa jornada... em determinado momento, Amir volta-se para “o Rio, de janeiro/ fevereiro e março”. Aquele território fluminense, ao continuar lindo e tentador, trouxe nosso admirável porteiro324 como trova[explora]dor das ruas do Rio. Do morro de Santa Tereza, onde avista parte das belezas naturais da zona sul do

324 Utilizo o termo a partir do surpreendente e essencial texto “Os Paradoxos da Memória” do professor Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses, inserido no livro Memória e Cultura: a Importância da Memória na Formação Cultural Humana, São Paulo: Edições Sesc, 2007.

Rio, o Amir, agitador das ruas, desce, todos os dias de sua existência, ao centro do centro do centro daquele território para buscar os espaços públicos onde possa se expressar e realizar processos de trocas absolutamente poéticos e essenciais. Em tese, seu aterramento ocorre na Lapa carioca, território de tantas belezas, lutas, enfrentamentos e resistências. Desde meados de 1970, em plena e feroz ditadura civil-militar, e sempre de modo destemido, o bando Tá na Rua, seguindo, encantando, tornando o viver – e não apenas para os sem arquitetura e blindagens protetoras – muito mais suportável, belo, descortinável... Quanto à mencionada dificuldade de apresentar uma narrativa de origem... deixemos que ela continue a nos “preocupar”. De qualquer modo, como as formas populares de cultura e aquelas, no geral, praticadas nas ruas (com raríssimas exceções) não têm figurado nas histórias oficiais, possivelmente, as tantas e exemplares possibilidades narrativas circulam nas memórias de quem as viveu. Os espetáculos do Tá na Rua, muitos dos quais em estado de gira, talvez possam, em rodas presenciais, manifestar os ocorridos... quem sabe a/s origem/ns possa/m ser apreendidas em banquetes antropofagistas... quem sabe!? No episódio andança, inspirei-me “naquilo que a memória guarda”. Não fui e não senti necessidade de ir às fontes... Thiago nos presenteará com os guardados (i)materiais...

3. Quantos episódios escritos seriam necessários para aproximar-se do unvierso do mestre-(s)ala que se “desprendeu” da totalidade das blindagens de proteção pessoal para atirar-se, despudoradamente, nas veias abertas (porque as ruas têm mesmo essa tal função, enquanto organismo vivo em que se caracteriza) a cidade! “É com esse que eu vou, sambar até cair no chão...”. Havia, parece, e não apenas, um homem – irriquieto –, com duas mãos, mas nutrido, no calor e clamor das ruas, pelo “sentimento do mundo”. Havia e há um homem, absolutamente carnavalizado – no ser/estar da vida e – na linguagem em voragem popular, que se estendia, sobretudo, para a linguagem teatral. Havia e há um homem talhador das britas que quilham – suavizando a dureza (“para quem quer se soltar, invento”) das ruas... ruas, como rugas, esquecidas por todos aqueles (e aquelas) – gente que sente prazer em massacrar... por gente que gosta e que tem detido o poder...

Amo o Amir! Admiro esse sujeito britador, mas não brutamontes... um ferreiro, se se tomar a etimologia de seu nome, das mais significativas alegorias – em desfile libertatório –, sobretudo, carnavalizantes e cuja forja ocorre sempre em ato de partilha. Sinto-me sempre semelhante e modificado com os espetáculos assistidos pelo Tá na Rua. Sinto sempre o carnaval festeiro dentro de mim.

Impossível relatar a cena, espetáculo, momento do “AmirTánaRua” que mais me tocou, emocionou, em razão de terem sido inúmeros. Impossível selecionar um/ aquele momento que me levou (“para o verde onde cresce a esperança”, segundo Thiago de Mello), porque, repetindo, foram muitos. As trocas evidenciadas em espetáculos com as gentes sensíveis, esquecidas, olvidadas, desaborchadas... foram muitas, inúmeras.

Ao longo da vida, tive a oportunidade de me relacionar e, algumas vezes, trabalhar com pessoas-artistas admirabilíssimos, como César Vieira, Lélia Abramo, Ilo Krugli, Luiz Carlos Moreira e Iraci Tomiatto, Dirce Thomaz, Gianni Rato, Dulce Muniz, Selma Pellizon, Cleyde Yáconis, Luís Alberto de Abreu, Simone Carleto, Oswaldo Mendes, Ednaldo Freire, Maria Thais, Maria Alice Vergueiro, Fernando Peixoto, Calixto de Inhamuns, Reinaldo Maia, Iná Camargo Costa, Ségio de Carvalho, Cibele Forjaz, Lúcia Romano, Cláudia Shapira, Georgette Fadel..., com o pessoal da Mungunzá, da Companhia de Teatro Heliópolis, da Trupe Olho da Rua, do Rosa dos Ventos, da Cia. do Tijolo; de assistir a espetáculos inesquecíveis, muitos deles apresentados pelo Tá na Rua... realmente, se existe a possibilidade: sou um sujeito de sorte!

Ao aceitar a tarefa solicitada por Thiago Sogayar Bechara, optei (não sei se acertadada ou desacertadamente) por “consultar” as direções do Amir que se encontrassem vivas em minha memória. Então, lembro-me, e tendo não apenas a Lapa carioca e outros espaços na cidade do Rio de Janeiro, como moldura/ arquitetura, cenas vivas e absurdamente inusitadas em processos de contraste harmonioso. Vi homens trapeiros e bêbados serem acolhidos, de modos lúdicos e absolutamente respeitosos e igualdade, nos espetáculos do Grupo; assisti a mulheres “pisadas”, de todos os modos na vida, receberem beijo real de artistas do Grupo; presenciei a muitos pais e mães dos ditos subúrbios identificarem-se com obras e personagens tidas/ditas marginais na autodenominada “sociedade de bem” (que perpreta todo tipo de coerção e injustiça étnica e histórico-social); assisti a parcerias sendo criadas e desenvolvidas de modos diferentes com todo tipo de

gente em obras cuja partitura e recepção encontravam-se abertas e sensivelmente vulneváveis às trocas...

De todos os espetáculos assistidos do Tá na Rua, vou destacar, brevissimamente, o inesquecível Para que servem os pobres. Tive a oportunidade de assistir ao espetáculo duas vezes, no centro do Rio de Janeiro e em um bairro burguês de Santo André, município do abcd paulista. Apresento, e para finalizar esta desaranjada ponderação, o que escrevi sobre o espetáculo no texto Alguns Coletivos e Seus Surpreendentes Espetáculos Apresentados Fora da Caixa: a Produção Teatral de/ nos/pelos Espaços Públicos do Brasil (2021).

A obra em destaque apresenta e representa – quase em proposição de um desfile de escola de samba –, por meio de uma personagem-coro, as diferentes funções (leia-se, em perspectivas cáusticas, as “utilidades“) dos pobres. O espetáculo assistido em Santo André, em uma praça pública de um bairro burguês, em pleno domingo, com casais padrão margarina, se caracterizou, rigorosamente, na contracena da criação do Tá na Rua. Por exemplo, quando se tratou de demonstrar que os pobres servem para trabalhar, as situações cômico-em-estado-degradantes da situação de trabalho no Brasil, evidentemente, arrancou gargalhadas do público; a demonstração de que os pobres servem para levar porrada é antológica: atores e atrizes distribuem bastões para a criançada conferir bastonadas no lombo dos pobres... evidentemente, os pais-educadores permitiam que os filhos pré-antecipassem um comportamento de classe impiedoso e cruel. Mas, quando a demonstração era de que os pobres serviam para fazer filhos, o desconforto foi visível para muitos pais-educadores. Os corpos em alusão sexual fizeram com que muitos pais-educadores se retirassem do espaço, salvando seus rebentinhos. Muitos dos que permaneceram, fingindo até mesmo acariciar o rosto das crianças, tentavam/buscavam cobrir os olhos dos pequenos... O espetáculo é genial: ele se caracteriza e demonstra a educação classista e perversamente predadora dos ricos.

Desejando que Amir Haddad e suas sementes e sementeiras da Rua (para além das estéticas) permaneçam e permaneçam e permaneçam, envio as melhores saudações à gente nutrida pelas cenas do “Amir Tá na Rua”. Sim, Amir camarada: “Havemos de amanhecer!”.

DEPOIMENTO DE ANGELA REBELLO

Em 1973-4, eu era estudante de jornalismo e na faculdade foi criado um grupo de teatro. Entrei de brincadeira. Fizemos dois trabalhos e apresentamos. Foi meu primeiro contato com esta arte. Na grade do curso havia a disciplina de teatro e acabei namorando o professor, que era diretor e ator. Nessa época, ele havia estreado sua primeira direção profissional e, logo depois da temporada, foi trabalhar como ator no espetáculo Somma ou Os melhores anos de nossas vidas, criado e dirigido por Amir. Comecei, assim, a frequentar os ensaios, que aconteciam na Escola de Teatro Martins Pena, onde Amir dava aula. Fui a muitos ensaios e, quando o espetáculo estreou, eu o assistia praticamente todos os dias. A mosquinha virou amor por aquele mundo. Foram 38 sessões de Somma até a censura retirar o espetáculo de cartaz. Eu assisti a 35 delas. Essa peça mudou minha vida. Por causa dela e do Amir me tornei atriz.

Quando Somma saiu de cartaz, fui trabalhar com ele num pequeno grupo que se reunia diariamente no dce da uFF, em Niterói. Fiquei no grupo por dois anos.

Considero esse período como meu período de formaçao. Amir estava repensando sua maneira de trabalhar, de dirigir atores, pensar o espetáculo. Tudo muito rico. Graças ao Amir, à sua generosidade e abertura em receber uma novata. Anos depois, já em 2005, terminei meu curso de Teoria do Teatro na UniRio e minha monografia final foi justamente sobre Somma. Passados 18 anos, desde minha experiência com o Grupo de Niterói, em 1996 fiz minha primeira peça dirigida por ele, O mercador de Veneza. E vieram outras depois, como O avarento (2000), Mambembe canta Mambembe (2003), O castiçal (2003) e Escola e Molières (2010).

Além das peças, fiz muitas oficinas. Em 2011, estivemos no elenco de Shakesparque, espetáculo dirigido por Paulo Reis em torno da piscina do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Hoje Amir é um amigo, um mestre presente em todo trabalho que faço, seja teatro ou tV. Seus ensinamentos constituem meu repertório. Trabalhar com ele é ganhar a Liberdade e a Potência de sua própria expressão, é trabalhar com o erro como um aliado. É nunca se contentar com o que se conquistou. É ganhar a consciência na prática de que o coletivo é soberano e que cada individualidade representa peça fundamental para esse coletivo que é o espetáculo.

Tenho algumas reflexões do Amir comigo como um mapa. São anotações feitas ao longo de alguma oficina com ele.

“O que o ator guarda, se perde. O que ele entrega, permanece”; “A dramaturgia é o mapa da mina. O ator tem que ser capaz de representar a dramaturgia”; “Nos interessa a desilusão, o conhecimento”; “A inteligência libera o afeto”; “Quando com uma fala você pensa a cena inteira, você está desarmado”; “Dramaturgia é aquilo que não está escrito, mas está contido. O inefável é o que não pode ser narrado, mas existe”; “A alma é imoral. A moral são os costumes”; “Recuperar a indignidade perdida, livre dos valores de classe”; “Por trás das máscaras estão nossos olhos”; “A produção afetiva tem o tempo do amor”; “O ator tem que pensar como jogador de futebol: não invadir o espaço do outro, não misturar as imagens, do contrário é falta!”325; “O cortejo está na origem do teatro. Ditirambo – Dionísio = é um fluxo permanente”; “O ser humano não é só um produto de classe. Ele tem uma alma muito maior”; “Restaurar o universo das palavras e relacioná-las com um mundo material, alcançar uma realidade acessível”; “A sociedade outorga ao teatro o direito de ensinar”; “Conceito abstrato não produz imagem”; “Se você se escuta, você ajusta o espaço”; “Se você perde o espaço, você perde seu corpo. Perdendo seu corpo, você se perde”; “Você tem que viver o vazio”.

Dizer, portanto, a importância do Amir é tarefa fácil, mas muito difícil porque definir a sabedoria, o amor, a mente incansável deste Gryot, dessa ancestralidade presente, desse eterno Dionísio, é praticamente impossível. Para mim, Amir faz parte de uma geração brilhante e única, uma geração que enriquece enormemente nosso ofício. Abriu inúmeras portas, formou milhares de atores, criou escolas, não teve medo de rever práticas e conceitos, verdadeiros faróis para pensar o fazer teatral.

Quero o Amir eterno!

325 “Pensemos em futebol! Fazer teatro dentro do prédio teatral é “jogar na casa do adversário”, onde “a torcida é toda contra”. É uma armadilha porque esses edifícios [são] construídos para fazer a manutenção da ideologia burguesa. Tanto é que só uma classe, basicamente, tem acesso a esses espaços: aquela que detém o poder. Apresentar-se nestes equipamentos significa proporcionar a essa elite os instrumentos necessários à construção de mecanismos de defesa contra as ações divergentes dela, num fenômeno de apropriação e aniquilamento ou até de incorporação da linguagem, com o intuito de reduzi-la. Ali no edifício teatral a realidade oficial e seus mecanismos, como censura e outros, conseguem atuar fortemente. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o espetáculo Somma.” (Rebello, 2006).

DEPOIMENTO DE ANTONIO PEDRO BORGES

Conheci Amir em 1965. Havia acabado de chegar da Europa, onde vivi desde 1961 me formando em teatro de diversas maneiras e estava trabalhando com Paulo Afonso Grisolli pela segunda vez, no espetáculo Onde canta o sabiá, de Gastão Tojeiro, com grande sucesso. O Grisolli me apresentou a um jovem moreno com um bigodão preto e, pelo jeito que o tratava, percebi que Amir devia ser um cara importante. O papo era sobre um jeito brasileiro de o ator interpretar. Já em 1968, Zé Celso me convidou para a histórica Roda viva, do Chico Buarque, como ator e assistente de direção. Amir foi ver e disse coisas muito relevantes sobre o espetáculo. Sua cultura teatral era óbvia. Fui para São Paulo e soube que Amir havia sido inclusive um dos fundadores do Teatro Oficina. Quer dizer, era de fato um cara importante!

ANTONIO PEDRO BORGES (in memoriam), ator, diretor, roteirista, produtor. 24 de março de 2022

DEPOIMENTO

DE ARY COSLOV

[…] Conheci o Amir ainda nos anos [19]60 do século passado, no início de minha carreira profissional como ator, apresentado pelo Sergio Britto; eu tinha pouco mais de 20 anos de idade. É bom lembrar que todo mundo que fazia teatro no Rio de Janeiro se conhecia, todos frequentavam os mesmos lugares e discutiam os mesmos assuntos, especialmente naquela época em que vivíamos sob um regime militar autoritário, em que a censura atuava com firmeza.

Em 1972, convidado pelo próprio Amir, fiz o personagem central de Tango, acompanhado por um elenco fantástico numa montagem inesquecível. Foi um grande acontecimento, a peça ficou um ano em cartaz e ganhou muitos prêmios. Tinha quase três horas de duração e fazíamos oito espetáculos por semana, de terça a domingo, com casas sempre lotadas. Um marco na história do teatro carioca.

Foi quando eu e Amir passamos a ter uma ligação mais estreita. Até porque foi a partir de meados dos anos [19]70 que comecei a dirigir também e ter a possibilidade de conversar mais com ele sobre direção; absorver seus ensinamentos foi decisivo para mim.

Posso dizer que Amir, com toda sua inteligência, sua intuição e seu talento, serviu de inspiração e guia na minha função de diretor. Nos tornamos grandes amigos. Amir é um mestre. Além de diretor excepcional, ele tem a capacidade e o prazer – coisas cada vez mais raras nos dias de hoje – de passar seus conhecimentos para os outros, sempre de maneira clara, objetiva e consistente. É fácil elogiar o Amir. E, na verdade, tudo o que ele merece mesmo são os mais calorosos elogios.

ARY COSLOV, ator e diretor. 29 de abril de 2022.

DEPOIMENTO DE BRUNO WILSON PEREIRA SILVA

Há 18 anos sou taxista e tive a felicidade de o Amir ter literalmente cruzado meu caminho há cerca de 16. Me lembro como se fosse hoje. Era por volta de oito ou nove horas da noite na esquina da avenida Nossa Senhora de Copacabana com a rua Bolívar. Ele fez sinal e eu parei. Desde então, sou um antes e um depois. Costumo, inclusive, brincar com ele dizendo que ele foi a melhor e a pior coisa que aconteceu para mim. Com Amir a gente começa a se politizar, a pensar melhor, a sentir inquietações. Isso por um lado é bom, e por outro dá muito trabalho.

Vejo o Amir praticamente todos os dias. Certamente passo mais tempo da minha vida com ele desde então do que com minha própria família. Muito se fala do Amir artista, diretor de teatro, profissional consagrado. É claro que isso me deixa vaidoso. Tenho oportunidade de conhecer pessoas importantes de teatro e tV por meio dele, por exemplo. Frequentei lugares em que jamais entraria. Mas acho que o mais importante disso tudo é a essência do Amir como ser humano. Posso garantir que nunca conhecerei outra pessoa como ele.

Perdi meu pai há quatro anos e, desde quando ele ainda era vivo, Amir já fazia papel de pai para mim (e olha que eu tive um ótimo pai). Imagina agora que meu pai se foi. Havia um lado no Amir que supria uma parte do meu pai que me faltava. Amir é um cara de uma simplicidade absurda, a ponto de eu às vezes ter de lembrálo de sua importância. Ele é um iluminado. Uma simples palavra dele salva vidas. Não há nada vindo dele de que não tiremos alguma lição. Nunca vi uma pessoa tão desapegada do dinheiro também. Ele é capaz de tirar a roupa do próprio corpo, tamanha sua bondade, o que muitas vezes o prejudica. Dinheiro para ele é sempre a última coisa na escala das prioridades. Ele sempre diz que não pode vender o que tem de melhor para dar.

Sou de Nova Iguaçu e lá existe uma companhia de teatro há anos cuja sala de espetáculos leva o nome do Amir. Pelo menos duas ou três vezes por ano ele vai até lá sem cobrar absolutamente nada. São gestos que admiro muito porque é raro quem se doe assim. Ele é um presente da vida para mim. E felizmente goza de imensa saúde. Sempre brinca dizendo que quando morrer serão necessários dois caixões e que terão dificuldade em fechar a tampa porque vai morrer de pau duro. Nunca vi um homem de mais de 85 anos trabalhar tanto, ter tanto tesão pela vida, tanta força e alegria. Raramente o vi chateado ou zangado.

Amir me ajuda em tudo. Até na minha vida conjugal. Ele tem sempre uma palavra certeira. Não há nada que não saiba. Cada palavra dele clareia tudo. Temos, ainda, o amor pelo futebol em comum. Sou um vascaíno roxo. E ele corinthiano. Já foi mais veemente. Mas continua sendo. Então, várias vezes fui ver jogos em sua casa e ele na minha. Sempre que dá, fazemos churrasco. Aliás, ele é aquele cara que adora churrasquinho de rua. Então, hoje eu o trato como a um avô. Daqueles que a gente leva para comer e sujar a roupa. Não há nada que Amir coma que não suje tudo. Se vai tomar sorvete, escorre na camiseta. Se vai comer carne, mancha com o caldo. Ele se esbalda. No dia em que não se sujar, não é mais o Amir. Digo brincando que ele está em fase de crescimento. Como gosta de comer! E isso é sintomático do que ele é como essência. Nunca entra em nada para ser limpinho ou comedido. Ele entra de cabeça, para se “sujar” mesmo. Por inteiro! Amir é um dos grandes amores da minha vida. Agradeço a Deus por aquela noite em Copacabana. Há 35 mil taxistas no Rio. Fui o felizardo. Tive a sorte de ser contemplado pelo sinal dele. Minha esposa e meus filhos o amam também. É uma relação familiar, porque vivemos uma intimidade a ponto de eu colocá-lo na cama, tirar as botas ortopédicas dele, as meias, deixar um copo d´água na cabeceira e checar se ele tomou os remédios corretamente. Me orgulho muito de trabalhar para um homem importante. Mas isso é o mínimo perto do privilégio que é ser amigo de um ser humano da maior qualidade e me deixar transformar por esse sábio, capaz de mudar a vida dos que estão no seu em torno de modo tão palpável, atuando sobre nossas sensibilidades, consciências, inteligências e afetos.

BRUNO WILSON PEREIRA SILVA , taxista e motorista de Amir Haddad. Rio de Janeiro, 28 de março de 2022

DEPOIMENTO DE CLARICE NISKIER

MEU AMIR OU NO INÍCIO ERA O INÍCIO

Prólogo

Conheci Amir na década de 1980, na peça Faces: o musical. Fiz uma oficina de quatro semanas com vários professores. Amir era um deles. Depois dela, uns dez atores foram escolhidos. Eu estava entre eles. Foi quando conheci a direção do Amir. Depois de Faces, nunca mais nos vimos. Acho que só em 2005 nos reencontramos efetivamente, no Teatro Poeira. E ali conversamos demoradamente. Dia seguinte: mostrei minha adaptação do texto A alma imoral. Fiz uma leitura na casa dele. Nunca mais nos separamos!

Ato único

Processo. Possesso. Você alcança, entende. E o pássaro foge das suas mãos. Você já não entende. Que visita foi essa? O que foi que você alcançou? A presença. Você se entendeu nessa presença íntegra. Suave e bruta. Força-absoluta. Quer permanecer nela para sempre. Mas ela te foge. Essa alegria de estar viva, aqui na Terra, aqui e agora, cheia de opinião e sentimento, te foge. Dia seguinte no palco você é novamente um ser domesticado, educado, trêmulo, a serviço de uma ideologia que não é a sua. E você faz teatro. Esse teatro educado, domesticado, a serviço das melhores ideias do mundo. Todas já catalogadas, já criadas por alguém. Você é boa. Faz bem. Virtuosa, verdadeira. A sociedade está satisfeita. Você está triste. Por quê? Onde está o pássaro? Quanto tempo vai demorar até que eu me torne mestre da minha própria presença em cena? Quando vou saber dominar, não uma técnica, mas meu verbo e meu medo? A minha liberdade. Minha alegria vital. Quando vou me apropriar delas? Vivê-las diariamente em cena? Atrizes são menos livres do que os pássaros? Atrizes são menos livres do que compositores sentados à frente de seus pianos? Atrizes são menos livres do que cantores com suas vozes imensas a escolher repertórios? Atrizes são menos livres do que os autores com suas penas em plena solidão terrena? Não, não são. Meu nome há de se expandir em febre e poema. E a mesma sociedade, múltipla, atônita, plural, que tem a mesma necessidade de

se libertar, de se apropriar de si, de se desenvolver; de resgatar identidades reais, ancestrais, para além das ideologias impostas e das lutas pelo poder, vai entender, ouvir. Um dia, você já não é mais tão técnica, tão virtuosa. Está mais vulnerável, transparente, humana. Um dia, você já não vive em cena somente a verdade psicológica, mas também a verdade narrativa, épica. E se liberta. Ganha outros espaços, outros reconhecimentos. E volta para casa feliz. Talvez você já possa fazer os clássicos. Agora, sim. Antes e depois. Amir. São quase vinte anos trabalhando com ele diariamente. Os dias são idênticos. Aulas de voz, corpo, disciplina. Muita disciplina. Senão, você não aguenta. Não faz todo dia. Eu matava o pássaro com meu estilingue inconsciente. Não se trata de dominar nada. Mas de deixar fluir. Dominar o não domínio. Vulcão aceso. E nada está garantido. Imenso Amir a insistir, a falar, a contar histórias; imenso Amir a pensar, a te amar, a insistir. Ele está perto. Estende a mão. Ele está certo. Não deixa você trair seu próprio sonho. Individualidade e cidadania. Ele nunca foi panfletário comigo. Só às vezes. Nem sempre votamos no mesmo partido político. Nem sempre tivemos a mesma opinião a respeito de preparação vocal, corporal. Não foi problema. A poesia grassou. Poesia a desafiar o Poder como um bobo da corte a dizer verdades ao Rei. Amir relaxa. Quer saber. Por que sou mestre? Menino do interior de São Paulo perdido na cidade grande do seu imenso amor pelo Homem. Você é mestre, Amir, porque toca a energia do pensamento dos atores. Árduo trabalho, abrir espaços entre as ervas daninhas do pensamento. Você se sente cansado. Recompensado. Você não aguenta ver ninguém mentindo para você. Truques, não. A alma. O pássaro original de cada ser. Você quer a magia da vida diante de você, se revelando. Tão simples, tão difícil. Não adianta parecer a magia da vida. Tem que ser ela mesma. Essa é sua diferença. Nenhuma técnica. Nenhum atalho. Nenhum exercício. Se não estiver pronto na estreia, que não esteja. Estará um dia. Quando digo que ele nunca me deu nenhum exercício, estou querendo dizer exatamente isso. Na Alma imoral ele trabalhou comigo o modo de pensar o teatro. O modo de me expor com meus afetos legítimos. O modo de observar o outro. Nenhum condicionamento físico, nenhuma marca, nenhum apoio técnico. Isso era comigo. Nunca me disse como eu deveria fazer uma cena. Isso veio depois, principalmente durante os ensaios da peça

A lista, quando pedi que ele realmente dirigisse e não supervisionasse. Aí conheci outro Amir. Ele ia todo dia, marcava, discutia cenário, figurino. Na Alma, nos encontrávamos uma vez por semana. Bastava ele ver uma cena. E conversávamos,

conversávamos, e ele partia. Eu ficava ali, diante de mim e da equipe, buscando saídas. Relação de 360 graus com o espaço. Estar para ser. Ou você está ou não está onde você está. To be or not to be? Traduzir. Essa pergunta é mais complexa do que a gente pensa. Mais abissal. E qual é a nossa História? O Teatro é filho da História, e não da Ideologia, ele não cansa de repetir. Estudar e entender as ideologias, até raiar o dia, e renascer diante do público. O pássaro embrionário. A inteligência embrionária. Cada um será seu próprio pássaro-estandarte. Cada um desfilará pela avenida a seu modo, com sua máscara, com seu samba-enredo, e ocupará seus espaços. Não existe cópia. Ninguém dubla ninguém. Nem a si mesmo. Utopias. Você não sabe ocupar espaços vazios? Amir é um processo sem fim. Dizem que Nijinski não dançava, ele era a própria dança. Essa é a esperança do Amir. O ator ser o próprio teatro. Hoje ele supervisiona quatro peças minhas. A alma imoral, A lista, A esperança na caixa de chicletes Ping Pong e Coração de campanha, que faço ao lado do ator Isio Ghelman. Autores: Nilton Bonder, Jennifer Tremblay, Zeca Baleiro, e essa que vos fala. Espero ainda fazer muitas peças com Amir. Às vezes ele dorme no ensaio. Alguém da equipe diz: O Amir está cansado. Não é isso, respondo. Ele não está gostando. Senão não dormiria. Amir pergunta depois do café. Clarice, você só faz teatro? Isso não é bom. Me surpreendo com a observação. Ele acha que devo descansar. Eu tô muito cansada. Suspendo o ensaio. Vou caminhar. Dia seguinte a peça é fabulosa. Amir.

cAUSoS

1

Em 2005, fui ver Sonata de outono com Marieta Severo e Andrea Beltrão no Teatro Poeira. Amir estava na plateia. Não nos víamos há uns 10 anos. Foi um encontro afetuoso, ele perguntou o que eu estava fazendo, eu disse que estava adaptando um texto do Nilton Bonder para o teatro. Durante a conversa, me lembrei do trabalho dele com Pedro Cardoso. Sempre tive curiosidade de saber como era o processo deles. Adoro o trabalho do Pedro, admiro demais, e Amir sempre com ele, assinando a supervisão de direção. “O que significa supervisão de direção?” Amir falou rapidamente sobre o processo. Perguntei se ele gostaria de ouvir o texto do rabino. “Sim”. “Quando?” “Amanhã”. Fiquei surpresa. “Já?” Dia seguinte, lá estava eu na casa do Amir lendo a adaptação de A alma imoral. Depois conversamos sobre tudo. Era o que eu queria. Um diretor que não me dirigisse. Mas que me orientasse

tendo como base as minhas próprias ideias. E mais, que me perguntasse, um dia, como ele me perguntou, durante o ensaio, quando, na cena de Abraão, eu sem querer fiz mudanças de voz para destacar o diálogo entre o pai e o filho: “Clarice, você não vai fazer essa peça como atriz, vai?” Entendi e disse: “Não, Deus me livre”. Rimos. “Segue o fluxo de inteligência do texto. Não chame a plateia de burra.” O melhor dos mundos. Pós-Teatro, como ele gosta de dizer. Quando, então, na trança das inteligências do mundo, podemos ser, ele e eu, finalmente, o que somos, um diretor e uma atriz, diante de uma plateia pensante e forte.

2.

“Amir, o que digo ao menino? Ele está querendo saber se pode ir ao ensaio”. Amir olhou para mim e explicou que estava na dúvida se aceitava um ator que queria entrar para o Tá Na Rua. Depois de um breve silencio, Amir respondeu: “Diga a ele que eu aceito tudo no meu grupo. Ladrão, traficante, bandido, assassino, viciado, doentes, com tuberculose, aids, lepra...” Arregalei os olhos. Quem era esse menino? Me veio à mente Anthony Hopkins, no filme O silêncio dos inocentes. O menino só podia ser um serial killer canibal. Eu não aceitaria Hannibal Lecter no meu grupo de jeito nenhum. Amir concluiu: “Aceito tudo. Mas um menino mimado, criado pela avó, que vem de Petrópolis com seu lanchinho, e não divide o lanchinho com ninguém, não aceito, não. Ou ele se mistura com todo mundo e para com essa frescura, ou é melhor não vir”. A alma imoral em movimento.

3

Um dia recebo a ligação de uma instituição cultural poderosa. Era um convite, com patrocínio, para estrearmos em São Paulo. O coração acelerou. Havia uma ressalva. A peça tinha que ser inédita. A alma imoral já estava em cartaz há alguns meses. O diretor, então, diz que a sala tem piano de cauda. E que um piano de cauda em cena ficaria lindo e daria o caráter de peça inédita. “O que você acha? Um pianista ao vivo tocando as músicas da peça?” Na hora, fiquei muda. Pensei: sei lá, alma e piano, é bonito um piano de cauda, talvez o Zé Maria, compositor, adoro ver as músicas dele tocadas ao vivo por... Nelson Freire, já imaginou? Afinal, o piano é preto, o cenário também, talvez o Luís Martins, cenógrafo, não se importe com um piano em cena. Mas é piano de cauda mesmo ou é meia-cauda? O que eu acho? A felicidade com o telefonema obnubilava meu raciocínio.

O patrocínio era bom demais. Eu estava louca para ir a sP. Agradeci o convite e disse que ia pensar. Liguei imediatamente para o Amir. Pela primeira vez, ele perdeu a paciência comigo. “Clarice!! Desde quando você pensou num piano de cauda na peça? Ficou louca? Manda esse cara enfiar o piano na casa dele! É assim que você lida com o sucesso? Aceitando que adulterem sua arte? Por causa de dinheiro? Minha amiga! Você não pode fazer isso com sua peça!” Desligamos. Dez minutos depois, ele me ligou. Pediu desculpas pelo tom de voz alterado. Eu disse que estava tudo bem e que eu tinha feito a minha escolha. Um ano depois, estreávamos no Teatro Eva Herz, em São Paulo, a convite do querido Dan Stulbach. O coração mais acelerado do que nunca. A peça como sempre quis, da maneira como sempre sonhei. Íntegra. Inteira. Amir.

4

Ensaio do tNr em frente aos Arcos da Lapa. Os atores vão espalhando panos bonitos no chão, sobre eles os figurinos e as máscaras. A poesia vai tomando conta do asfalto. O barulho do trânsito não incomoda mais. Ouvimos só a música e a voz do Amir conduzindo a trupe. Estou lá para ver, aprender. O público vai se aproximando. Pouca gente, segunda-feira, poucos transeuntes. Um morador de rua permanece. Assiste a tudo. Observa atento. Parece que estuda cada movimento dos atores, presta atenção no Amir. Quando o ensaio termina, os atores começam a recolher todo o material do chão. O morador de rua se aproxima do Amir. É um homem alquebrado, de andar lento, machucado. Ele diz: obrigado. E espontaneamente tira do bolso uma nota de dez reais toda amarfanhada. “É tudo o que eu tenho. O senhor merece.” Só nos livros de Dostoiévski vi cena tão comovente. Quanto sentimento, respeito, agradecimento, quanta ética. Amir está emocionado. Eles conversam. Não lembro o que conversaram. Com os olhos úmidos, às vezes, não ouço bem. Saímos de lá falando sobre o afeto das ruas que amplia nossa visão de mundo. Quando vamos para dentro de um teatro e subimos no palco, precisamos ter a visão de mundo ampliada, o afeto das ruas no coração.

CLARICE NISKIER, atriz, diretora e dramaturga, Algumas anotações dispersas –Processos Possessos – de 2006 a 2021

DEPOIMENTO DE CLAUDIA BORIONI

Quem faz teatro não tem como não saber quem é Amir Haddad. Eu o conheci como ator em 1992 na montagem do espetáculo que traduzi do italiano A maconha da mamãe é a mais gostosa, de Dario Fò. Fiquei encantada com Amir, mas foi no Tuerj que passei a adorá-lo! Até aqui não contei nenhuma novidade, porque é muito fácil adorar o Amir. Mas para entender o que quero dizer sobre ele, preciso explicar melhor o que foi o Tuerj. A experiência nasceu de uma ideia do Antonio Pedro Borges em parceria com a Universidade na busca de uma nova dramaturgia popular brasileira – e no aprendizado e formação em todos os segmentos que compõem as artes cênicas. Um teatro feito com e para o povo, no qual, por meio da prática constante de sucessivas montagens, tanto em cena como nos bastidores, os profissionais promovessem um jeito novo de compartilhar conhecimentos aos não profissionais. Uma companhia teatral feita por gente do mais alto nível, entre eles Amir Haddad, que frequentava nossas reuniões com uma periodicidade bastante frequente. Tudo começou por volta de 1989 ou 1990, quando traduzi A maconha da mamãe…. No elenco estavam alguns dos artistas que comporiam o embrião do Tuerj. A direção já era do Ricardo Petraglia, tinha Amir atuando (fazia um padre), Anselmo Vasconcellos (que já conhecia o Amir desde alguns cursos no MaM que Amir dera nos anos 1960), Antonio Pedro, Vicky Militello e outros. A Rita Calábria era produtora da peça e passou a gerenciar o Teatro da Praia. Com isso, passamos a ter o horário da meia-noite para colocar em prática uma ideia da Vicky. Como era filha de atores de circo-teatro, em que tradicionalmente primeiro se fazia um ato dramático – melodrama ou tragédia – e um segundo de variedades, ela propôs que fizéssemos espetáculos nessa linha. O primeiro foi Ferro em brasa. Só o nome já diz tudo: era bem o tipo de peça que integrava aquele repertório.

Amir não entrou nesse projeto, embora acompanhasse tudo porque éramos todos próximos. Assim, começamos a fazer uma sequência de vários espetáculos tão ruins e assumidamente nonsense, que ficavam bons porque fazíamos com imensa verdade e, mesmo sem avisar a imprensa, aquilo ganhou uma repercussão surpreendente. Tanto que ficamos três anos em cartaz, mudando o espetáculo dramático e o de variedades semanalmente. Lotávamos o Teatro da Praia, iam muitos jovens e aquilo foi virando um movimento cult. A tal ponto que Antonio Pedro, muito amigo do Hézio Cordeiro, então reitor da Uerj, conseguiu a

possibilidade de apresentarmos um projeto de pesquisa sobre essa nova dramaturgia popular brasileira que estávamos desenvolvendo. O projeto foi aprovado pelo departamento de cultura da universidade, e foi aí que nossos quatro anos de trabalho como Tuerj começaram.

A metodologia utilizada se desenvolvia conforme a necessidade. No início, nem havia metodologia. Oferecíamos um treinamento contrário ao que podemos chamar, sem desmerecer, de adestramento acadêmico. Tanto é que vinham muito poucos alunos da universidade e inúmeros integrantes da Mangueira, já que ficávamos ao lado da escola de samba.

Adotamos uma prática que proporcionasse o desenvolvimeto mental, físico, intelectual e emocional que identificasse os integrantes com seu próprio microcosmos cultural, e assim esses jovens saíam profissionais, porque, inclusive, conseguimos uma parceria com o sindicato dos atores, de modo que, quando “formados” pelo Tuerj, recebessem o drt por um ano provisoriamente. E se, de fato, conseguissem se introduzir no mercado, eram regularizados.

Do grupo profissional que integrou nossa trupe, estávamos eu, Antonio Pedro, Anselmo Vasconcellos, Ricardo Petraglia, Amir Haddad, Paulo Moura, que trouxe o Gabriel Moura, o qual, por sua vez, nos apresentou o Jorjão (que se tornou Seu Jorge depois), Luca de Castro, Andreia Dantas, Betina Vianni, Scarlett Moon, Alice Borges (genial!), Wanderely Gomes (nosso contrarregra que virou diretor de cena e acabou atuando e fazendo figurinos), Lafayette Galvão (que tinha muita preguiça de entrar em cena e ficava fazendo adereços num barracão), Eduard Monteiro, Walter Martins (na contabilidade que também realizou o projeto conosco), o José Paulo, Caíque Botkay, Aurélio de Simoni (um dos maiores iluminadores do Rio), Gilberto Loureiro e talvez eu esteja esquecendo alguém.

Muitos dos que se formaram ali hoje são, de fato, profissionais que se distinguem pela qualidade e criatividade adquiridas pelo estímulo contínuo na busca de novas soluções que o Tuerj lhes propiciava. É nessa espontânea metodologia que entra em jogo o diferencial do Amir. Ele nos fascinava a todos, inclusive aos já profissionais, inebriados que ficávamos com suas dionisíacas visões sobre o fazer teatral. Nós o apelidamos de Tio Janjão. Os encontros com ele eram sempre e, simplesmente, maravilhosos.

Em 1996, montamos Macbeth por sugestão do Antonio Pedro. Decidimos apresentar uma tradução nossa. Como Scarlett Moon falava muito bem o inglês,

fez a primeira tradução do original. Depois, Caíque Botkay partiu dessa tradução e a transformou em decassílabos, porque queríamos fazer a peça em rima, coisa que resultou bastante europeizada. E a ideia era o oposto: trazer Shakespeare para o universo brasileiro. E lá foram Lafayette Galvão e Gilberto Loureiro dar outro tratamento, transformando novamente a tradução, dessa vez para poesia de cordel, segundo sua métrica e regras relativas às sílabas tônicas. Foi um trabalho absolutamente genial. Claro que a crítica da Bárbara Heliodora foi péssima. Ela ficou irada pela nossa ousadia, apesar de ter tido que dar o braço a torcer, elogiando alguns aspectos da montagem. Em todo caso, todos sabem que ela era muito zelosa do seu lugar de tradutora de Shakespeare, se sentia dona dele e aquilo não nos incomodou em nada.326

Minha Lady não teria sido tão intensa e visceral se não fossem as diretivas dadas por Amir. Como atriz, seu olhar me proporcionou um incrível upgrade. Me deu tantas valiosas informações que carrego comigo desde então e as passo adiante em minhas direções. Ainda ouço as palavras de Tio Janjão: “Shakespeare é rico de imagens. Veja-as, transite por elas, faça-as tuas. Se você as vê, o público também as verá”. Em meus 60 anos de teatro, nunca conheci ninguém que possuísse o dom de tanta doação à propria arte. Salve o teatro popular! Viva Amir Haddad!

CLAUDIA BORIONI, atriz, diretora, dramaturga. Roma, janeiro de 2022.

326 “[…] Vinde a mim todos os espíritos/ Crueis, mortais, malignos/ Que servis aos mais malditos/ Pensamentos assassinos/ Esfriem, gelem meu sangue/ Que o remorso caia exangue/ Que nenhuma compulsão/ Possa abalar a minha gana/ A minha determinação/ De ser a mais desumana/ No momento da ação/ E nada possa impedir/ Do destino se cumprir/ Venho aqui nos meus seios/ Beber o leite do fel/ Venham, ministros do mal/ Não importa se nada igual/ Tenham visto no submundo/ Da maldade e da crueza/ E ouçam o grito profundo/ Do rugir da natureza […].” (Monólogo da Lady Macbeth, quando ela chama os espíritos do mal para a ajudarem a cumprir o que as bruxas predisseram).

DEPOIMENTO DE CLÓVYS TÔRRES

Amir Haddad é a liberdade em pessoa. Um artista ideologicamente rebelde, provocador e genuíno. Não faz os conchavos e nem se utiliza de truques que seduz a maioria porque seu compromisso é com o teatro, com a narrativa de boas histórias, com a verdade da vida e da arte. É essencialmente um rebelde que sabe sempre onde quer chegar como diretor, mas estimula o ator a descobrir e potencializar seus próprios recursos. Sua provocação, seu olhar e sua poesia são essencialmente teatrais. É um mago que desenvolve uma alquimia com cada artista com quem trabalha.

Não se repete, está sempre vivo, presente e curioso. Mais jovem que a maioria absoluta dos jovens e por isso pulsa tão criativamente com a idade que tem.

Trabalhar com Amir é um presente para qualquer ator e minha experiência com ele em Me dá tua mão, texto de minha autoria com montagem de 2017, foi um divisor de águas. Não só como artista mas como pessoa. Aliás, ele não separa arte da vida, porque viver, para ele, é fazer arte, pensar, estimular, potencializar. Nosso mergulho foi incrível: dias ensaiando e falando sobre teatro, manhã, tarde e noite. “Meu rapaz, a questão é ideológica. O palco é território da liberdade. O que você quer comunicar? Por que contar esta história, como ela reverbera em sua vida?” Eu jamais esquecerei suas provocações quando de sua desconstrução de meu trabalho. Sim, ele assinou “desconstrução” por respeitar minhas ideias e concepção do solo.

Amir é mestre dos mestres e merece esta biografia, e nós também. Tenho a certeza que este livro fará justiça ao preencher uma lacuna da nossa história por não ter ainda registrado com essa profundidade a trajetória deste grande fazedor, pensador e provocador. Como ele não é de puxar a sardinha para seu prato, talvez este espírito explique um pouco por que demorou tanto para ser biografado.

Por fim, tinha que ser alguém com a cultura, a sensibilidade e a responsabilidade histórica e cultural que você tem, Thiago Bechara, para biografá-lo. Mas há que se observar: como Amir inspira e provoca milhares de narrativas em tantas pessoas e lugares, jamais terá uma biografia completa. Ele é um oceano de possibilidades; e tão imensa quanto sua história é a capacidade que cada pessoa terá de relembrar e reinventar seus encontros com ele.

CLÓVYS TÔRRES, ator, dramaturgo, compositor e produtor. 18 de outubro de 2021

DEPOIMENTO DE DRICA MORAES

Trabalhei uma única vez com o Amir. Foi em 1994. Era um musical sobre o Pixinguinha idealizado pelo neto do grande músico, o Marcelo Vianna, que integrava o elenco comigo, com o Fernando Eiras e a Malu Valle, além de uma banda de cinco músicos. Foi quando conheci o teatro da liberdade do Amir. O teatro da luz, do encontro direto com o público, da desconstrução da famosa quarta parede, porque ele trabalha realmente sem paredes. Ele consegue trazer para dentro da caixa-preta a experiência dele com teatro de rua, operando no teatro fechado o mesmo milagre que consegue nos espaços públicos.

Há uma relação direta com os espectadores, uma escuta, uma troca contínua, sem que o público precise invadir o espaço do ator, mas sendo profundamente respeitado nessa relação olho no olho que se estabelece. Não há véus que o separem dos artistas. Não há seres superiores na construção teatral do Amir. Existe troca.

Foi muito bonito esse processo de descoberta. Tanto no trabalho dele com os atores quanto no que se refere à construção em si de um musical. Eu já havia feito musicais antes, mas Amir inventou um jeito brasileiro, carioca, de construir esse tipo de espetáculo – numa mistura entre os atores e os músicos. Os atores cantavam, dançavam; os músicos atuavam também. Saíam de suas baquetas e dos seus espaços engessados, reservados de músico, para atuarem conosco como se fossem personagens.

A dinâmica do Amir é, portanto, de inclusão. Ele tem uma visão de mundo que engloba a compreensão de que teatro é gozo. Isso é uma marca que, em tudo o que vi dele, estava presente. A marca da comunicabilidade intensa, democrática e, assim, possível para todos, não apenas para alguns poucos talentosos. O teatro como cura, como terapia, como expansão espiritual e espaço de alegria. De vida, de transmutação. Devo esse olhar sobre o teatro ao Amir. É enorme meu amor e minha reverência por ele, e o respeito por um tipo de linguagem que ele desenvolveu – por ter inventado.

DEPOIMENTO DE GABRIEL MOURA TIO

JANJÃO

O genial Antonio Pedro sempre falava que a gente tinha de aproveitar a presença do Amir nos dias em que ele fosse ao Tuerj. Vamos parar tudo agora para ouvir o “Tio Janjão”. Nosso oráculo. A gente sentava, fazia nossa “rodinha de índio” e não havia nada mais importante. Que aula generosa; cada frase, cada palavra. Com ele aprendemos que sem o ator não existe teatro. Que não é o palco, nem são as cadeiras, nem a música, nem o figurino, nem a luz: é o ator. Ele precisa estar. Não precisa necessariamente ser, representar, mas para ser teatro ele ou ela precisam estar. Que era possível fazer grande, na rua. Que era preciso quebrar a quarta parede. Provocava e naturalmente mexia com a cabeça da gente. Mudava os rumos de uma montagem.

Foi na década de 1990 mas me lembro até hoje. Ele dizia: quando a gente faz o que gosta não tem que haver dor, sofrimento, mas sim prazer. Terminava o papo com todo mundo dizendo junto o maravilhoso mantra cunhado por ele e que serve para tudo: “Dar não dói, o que dói é resistir”. Sensacional! Amir é um gigante, pessoa extremamente importante na minha formação como artista. É uma honra poder participar desse livro. Salve o imenso Amir Haddad! Obrigado por iluminar nossas mentes. Evoé!

GABRIEL DE MOURA PASSOS, cantor, compositor, produtor e diretor musical do Tuerj. 6 de maio de 2022

DEPOIMENTO DE GILSON DE BARROS

Mestre não é quem sempre ensina, mas quem, de repente, aprende.

JOÃO GUIMARÃES ROSA, Grande sertão: veredas (na voz de Riobaldo)

Num dos ensaios de Riobaldo, eu e Amir discutimos feio. Ele me deu um esporro, nem lembro o motivo. Levantei furioso, pensei em abandonar tudo, mandar o Amir para aquele lugar! Mas parei, respirei e tentei me acalmar. Para minha boa surpresa, ele fez o mesmo. A temperatura foi abaixando e retomamos o ensaio. Trabalhar com Amir é jogo sério. De início as coisas não foram fáceis para mim. Ele não é um diretor que vem para o ensaio com fórmulas prontas. Não diz para fazer assim ou assado. Ao contrário. Estava mais interessado em aprender e mexer comigo. Queria saber como eu pensava e sentia cada cena, a peça, a vida. Vasculhar meus abismos. Quantas vezes saí do ensaio com a sensação de que não estava entendendo nada. Eu estudava, estudava e parecia não sair do lugar. Quando apresentava para ele, via em sua reação que meu mergulho ainda estava superficial. Ou que estava indo por um caminho errado. Ele dizia: “para de fazer teatro!” Aquilo me causava estranhamento. Que diretor é esse que não me permitia “fazer teatro”? Ele me queria verdadeiro em tudo. Eu pensava: que verdade? A minha? A da peça? Não achava respostas mas escolhi não questionar. Resolvi apenas tentar (pular no abismo). Esse exercício de exposição tão pessoal fez meus sentimentos ficarem à flor da pele. Só aí começamos a nos entender.

Penso que é nesse campo, quando o ator começa a se desarmar e jogar fora seus pré-conceitos de toda uma vida, quando começa a se desfazer do seu “jeito” adquirido com o tempo, quando permite desconstruir seu entendimento inicial e às vezes superficial sobre a peça e, principalmente, sobre como atuar – é aí que Amir reconhece a possibilidade de a arte do ator aflorar! Como disse, eu não entendia quando ele enfaticamente dizia que detestava quando o ator atua: “Quando você começa a atuar, tenta me enganar. Isso é uma merda! Não é teatro. É só exibição. Não me interessa”. E voltava o foco do ensaio para o questionamento sobre o que eu estava entendendo da cena. Muitas vezes nem sabia o que responder. Mas com o tempo essas conversas foram abrindo possibilidades de entendimento,

ampliando visões. Fomos descobrindo as humanidades da peça para serem divididas com o público. A isso ele chamava de “replaquear” – referência àquelas placas de aeroporto, quando um voo atrasa e os painéis alteram tudo. Essa era a imagem recorrente. Um novo entendimento de uma fala pode refazer o entendimento de toda a peça, até da vida. É quando temos de “replaquear” tudo. “Replaqueei” várias vezes e ainda “replaqueio” sempre que descubro coisas novas! Esse trabalho não tem fim. Amir me ensinou a colocar as palavras/ideias do texto num processador de metáforas da vida, para daí sair apenas o essencial a ser trocado. Ele me preparou para essa forma de viver o teatro. A busca.

Quando comecei a ensaiar com Amir, eu não estava me denominando um ator. Era um homem de teatro mas o ator em mim estava adormecido por anos de inatividade. Graças a esse trabalho, hoje me (re)conheço ator. Devo isso a ele, que se permitiu aprender comigo sobre a peça. Compartilhou sua bagagem do alto de suas décadas de profissão. Pura generosidade! Eu pensava (sentia): Amir acredita em mim! Isso me renovava o ânimo. Graças a Deus vivenciei esse processo. Compartilhei o jeito dele trabalhar/viver! Até hoje, sempre que temos contato, ele pergunta: “Como foi a peça? Como o público está reagindo?” E fala que temos que voltar aos ensaios. Concordo. É preciso renovar o entendimento permanentemente, “replaquear”. Amir é isso.

Muitos colegas me perguntam como é o processo de trabalho com ele. Não sei responder exatamente, acho que nem ele sabe. Há coisas que não são facilmente explicáveis. É afeto. Mas a esses colegas digo que é bom se preparar. Se não estiver disposto a se abrir, se não estiver interessado em rever conceitos, melhor nem tentar o contato. Trabalhar com Amir é principalmente se trabalhar. É sair de qualquer zona de conforto. Mas, acima de tudo, é preciso estar preparado para receber em seu coração um amigo. Não pense que vai trabalhar com ele e sumir. Isso é falta grave. É preciso estar sempre regando afetos. Ele sente falta e você também. Isso é teatro? Isso é Amir! Puro amor.

GILSON DE BARROS, ator. Rio de Janeiro, 13 de outubro de 2021

DEPOIMENTO DE IMARA REIS

“Existem pessoas que têm este dom, o de nos desvendar os caminhos e de nos fazer compreender melhor e com mais profundidade o mapa das coisas. Quando temos a oportunidade ou a sorte – ou ambas – de topar com elas em nossa trajetória, sua colaboração na vida de cada um de nós torna-se indelével. Não faço parte dos privilegiados que puderam contar com a sabedoria do Amir Haddad com frequência, mas asseguro que, em todas as vezes em que calhou de acontecerem os nossos encontros, meus horizontes se ampliaram e minhas perspectivas ficaram mais nítidas. Muito mais nítidas. Ele é um mestre!”

IMARA REIS, atriz, diretora, dramaturga e professora. 15 de janeiro de 2022.

DEPOIMENTO DE IVO FERNANDES

MESTRE AMIR HADDAD

São mais de cinquenta anos de amizade. Mais de trinta trabalhos tecidos juntos. Fui aluno do Amir na escola de teatro, ouvinte, assistente privilegiado em suas melhores direções de espetáculos, atuei sob sua batuta, produzimos grandes eventos, festas e comemorações, belas e importantes peças, e também viabilizei algumas produções do TNR. Que oportunidade maravilhosa tive de conhecer esse homem notável. […] Tudo que aprendi devo a ele. […] Tenho a lembrança do que eu era antes de conhecer Amir; minhas ascensões e quedas, minha ignorância e estupidez; às vezes me parece que vivi não uma única existência, mas várias, inteiramente diferentes entre si.

onDE tUDo coMEÇoU?

Em dezembro de 1968, com o Brasil sob o regime de uma ditadura militar. Eu, 21 anos, fazia cursinho preparatório para o vestibular de interpretação da Escola de Teatro (antigo Conservatório na Praia do Flamengo), que mais tarde passou a se chamar Federação das Escolas Federais Isoladas do Estado do Rio de Janeiro. Lembro da primeira vez que vi uma peça do Grupo Comunidade. Fui ao Museu de Arte Moderna com alguns alunos do cursinho para assistir ao comentado espetáculo de grande sucesso de público e crítica, A construção, que projetava Amir Haddad como um dos melhores criadores do “novo teatro”. Uma pesquisa sobre uma nova forma de estruturar a dramaturgia teatral, fundindo palco e plateia, buscando integrar atores e espectadores. O espetáculo recebeu o Prêmio Molière de 1969. Tenho imagens da peça até hoje na memória; elas aconteciam a menos de um metro do público. A gente sentia o cheiro suado dos atores, eles ocupavam o espaço todo do salão principal do Museu.

Lembro-me da cena de uma atriz abrindo a blusa do figurino que vestia, vibrando um crucifixo ao peito em desabalada fé, emocionada, cantando: “Com minha mãe estarei na Santa Glória um dia, junto à Virgem Maria no Céu triunfarei!” E o cortejo de atores em procissão arrematava: “No céu! No céu! Com minha mãe estarei!”. Era de arrepiar todos os cabelos do corpo. Essa manifestação sem freios sobre as crenças míticas do povo do Norte e Nordeste brasileiro mudou

meu rumo, mudou minha vida. A centelha foi A construção. A partir daí, tive a convicção de que minha carreira seria no teatro. Era o que eu queria fazer. Importante dizer que, até então, eu só havia ido ao teatro duas vezes na vida […].

APEnAS UMA DúViDA

Foi no ano de 1970 que conheci e me apresentei ao professor Amir Haddad. Eu cursava o segundo ano do curso de interpretação. Ele ainda não dava aulas para minha turma. Um dia, tomando café na cantina me aproximei dele e, criando coragem, falei que estava em dúvida de continuar com os estudos, que não estava satisfeito com o ensino e que pensava em abandonar tudo, pois, até ali, não sabia se queria ser ator. O país vivia momentos conturbados, a ditadura apertava o cerco. E naquele prédio da uNe, ainda chamuscado por incêndio duvidoso, o que mais tinha era “dedo-duro” infiltrado.

Amir dava aulas para o terceiro ano e preparava um trabalho para montagem do espetáculo de formatura dessa turma. Convidou-me para aparecer e ver o que aconteceria. A turma do terceiro ano era uma das melhores. Os alunos amavam Amir e enlouqueciam com ele em todos os sentidos. O trabalho era estimulante e desafiador, mas a direção da escola não gostava do seu método de ensino, que despertava os jovens para questionarem o que vinha acontecendo no país. Mas todos os alunos queriam ter Amir como mestre. Escapuliam das aulas de alguns professores para assistir às dele. Ele propunha, como pesquisa, que se fizesse tudo ao contrário do conhecido ditado popular “não troque o certo pelo duvidoso”. A “dúvida” era pensamento a trilhar. Como ouvinte convidado a acompanhar o trabalho, dei uma pequena contribuição operando um refletor para iluminação do espetáculo de formatura. A peça em si já se chamava Troque o certo pelo duvidoso! Então, se A construção foi a centelha, este foi o motor de ignição que deu a partida. Tudo mudou no meu percurso, troquei a possibilidade de me tornar técnico em contabilidade e tranquei a matrícula da faculdade de Direito. Nunca me arrependi. Tivéramos poucas aulas com Amir no segundo semestre de 1969, porém, fui um aluno privilegiado por ter a oportunidade de acompanhar alguns ensaios das peças que ele dirigia profissionalmente, como Agamêmnon e Depois do corpo, com A Comunidade; Fim de jogo; A dama do camarote; O marido vai à caça e o extraordinário Tango. Nessas perambulações, aprendi mais sobre a essência da arte teatral do que em três anos de escola. Ele, percebendo meu interesse por seu

trabalho e sabendo da minha insatisfação na diplomação como ator, convidou-me para seguir acompanhando suas aulas […]. Amir teceu junto àquela turma um singelo trabalho: O TEATRO, SIM. O TEATRO SÓ!

[…] Amir encerrava o ciclo do grupo A Comunidade e da Escola da Feffierj e, insatisfeito com os rumos políticos do país e de seu ofício, viajou para a Europa e para a África, onde permaneceu por meses.

o tEAtro MÁgico

Em janeiro de 1973, Zeca Ligiéro, um jovem e contemporâneo talento formado em direção na Escola de Teatro da Feffierj, convoca uma galera de atores para integrar o elenco de sua primeira peça profissional: eu, Reinaldo Machado, Thaia Perez, Marisa Short, Luiz Joselli e Toninho Vasconcellos, este vindo de outras experiências. Convida, ainda, Maria Esmeralda e Geraldo Torres, que faziam parte da Comunidade, para ajudarem, respectivamente, nas funções de diretora-assistente e criador da trilha sonora da peça As loucuras do Dr. Qorpo Santo. O trabalho cumpriu temporada nos Teatros Gláucio Gill e Brigitte Blair, fez apresentações em teatros da periferia do Rio, recebeu ótimas críticas e obteve grande sucesso. Aqui nascia o Teatro Mágico, que, um pouco mais à frente, em outubro de 1973, se juntaria a Amir para começar os ensaios do Somma ou Os melhores anos de nossas vidas.

Amir estava inexplicavelmente destituído do quadro de professores convidados da Escola de Teatro da UniRio. Mas havia, sim, uma explicação para sua destituição: suas ideias provocavam reações antagônicas dos colegas. A ditadura serviu para justificar e revelar comportamentos estranhos de certos componentes do corpo docente. Os alunos adoravam as aulas do mestre e isso provocava também inveja de “alguns” outros professores, não importando se os alunos se sentiam gratificados. A verdadeira missão na lógica da ditadura não era fazer avançar, não era formar nosso espírito, e sim nos adaptar com a menor resistência possível ao status quo; não era aumentar a energia de conhecimento, e sim nivelá-la pelo pior possível.

Amir acabava de retornar da Europa e tentava refazer seu rumo depois do término de A Comunidade. Nos convidou a participar de uma pesquisa idealizada por ele que seria uma preparação da montagem do Somma. Outros jovens foram incorporados ao trabalho (Angela Valério, Hailton Faria, Duca Rodrigues e Vera Setta); o premiado Joel de Carvalho, que já trabalhara com Amir; Angel Vianna

cuidava da preparação corporal; Jorginho de Carvalho inovava na iluminação; Ricardo Pavão comandava a trilha sonora; eu, além de ator, era encarregado de coordenar a produção e administração do grupo. Foram seis meses de muito trabalho. Seis horas noturnas diárias de intensos ensaios. O texto era um calhamaço de cento e vinte folhas, fragmentos de cenas de dezoito peças dos mais diversos gêneros, épocas e nacionalidades. Tudo coletado e organizado por Amir: peças encenadas por ele com grande sucesso.

O roteiro não tinha uma sequência definida. A ordenação mudava constantemente conforme a definição de cada ator, de cada momento. Sofríamos nos ensaios sem saber o que Amir pretendia fazer como espetáculo. Cobrávamos muito dele que definisse uma estrutura onde cada um soubesse o que faria, qual espaço que teria. Tivemos muita discussão sobre nossa insegurança com essa indefinição. Acredito que Amir também não tinha lá muita certeza do que queria com todas aquelas cenas, até então. […] Hoje, vejo que tudo o que veio depois no teatro do Amir teve Somma como base estrutural. […].

A estreia foi quinta-feira, dia 13 de maio de 1974. Fazíamos sessões de terça a domingo (seis por semana), temporada programada para três meses. No trigésimo quinto espetáculo a 30 de junho, a Censura Federal interditou o trabalho. Tentamos sensibilizar a imprensa e a classe teatral contra essa decisão para reverter a suspensão do espetáculo, mas não tivemos êxito. Tivemos, sim, ajuda fundamental de músicos e cantores. Amir e eu fomos à casa do Chico Buarque, que havia regressado da Itália, para convidá-lo a nos apoiar com seu prestígio no show em benefício do Somma, o que ele pronta e carinhosamente atendeu, prometendo cantar e nos dar seu apoio.

Nos dias 12, 13 e 14 de julho, realizamos três noites de música no próprio João Caetano para atenuar o prejuízo sofrido. Reunimos Vitor Assis Brasil, MPb4, Lô Borges, Toninho Horta, Edison Machado, Luiz Alves, o Terço, Angela Rô Rô e Chico Buarque no encerramento. […] Éramos uma Cooperativa onde todos tinham suas tarefas e responsabilidades. A partir desse trágico desfecho proporcionado pela interdição, cada um tomou outro rumo na vida artística. Nesse mesmo 1974, Amir inicia o Grupo de Niterói. […] Temporariamente, me afastei [nesse período] e retornei anos depois.

DÁ UMA EntrADinHA rÁPiDA… E tÁ nA rUA

Foi nos ensaios dessa peça que ouvi pela primeira vez Amir dizer: “Quando se tem mais medo da mudança do que da desgraça, como evitar a desgraça?” (Durremmatt – ou seria Brecht?). Deu um crash na minha cabeça. Até hoje me recordo também de: “O importante é profissionalizar a pesquisa e desamadorizar o espetáculo”. Frases cunhadas por Amir na época.

Estreamos em 11 de abril de 1976 no Teatro Nacional de Comédia. Foi uma experiência muito louca atuar e produzir Dá uma entradinha… inesquecível! Três meses de ensaio e uma produção caríssima e trabalhosa para nosso caixa apertado. Mas saiu tudo como queríamos. Na verdade, eu não queria tanto assim, mas a Vera, o Rubens e o Luiz Carlos Góes me levaram na onda. O Maurício Sette criou junto do Amir um cenário belíssimo, com três andares. Parecia loja de móveis de decoração. A solução para contornar o esquema empresarial era nos autoproduzirmos. Tínhamos tudo para fazer sucesso, mas não aconteceu. Amir dizia: o trabalho básico é o de desarme, de “desempostar” o ator, de tirar a ideia de representação. Colocar o substantivo, eliminando o adjetivo. Colocar, no lugar de um sentimento desordenado, uma emoção elaborada. O essencial da fala, sem ênfase. Um levantamento ideológico do texto. Tivemos que rever tudo o que aprendemos como representação. […].

Voltei a trabalhar com Amir em 1982 com a proposta de organizar, produzir e administrar as atividades do tNr. Eu não sabia nada de teatro de rua. […]

Logicamente, ele tem outra linguagem. O grupo desenvolvia estudos e pesquisas também em leituras dramatizadas, peças e oficinas de teatro em espaços fechados, como treinamento para as apresentações na rua. […] E os recursos financeiros sempre foram difíceis e minguados. O tNr se apresentava em diversas praças desde 1980, quando se deu o desmembramento do Grupo de Niterói. Os anos de 1982 a 1995 foram de intensa atividade; além da administração propriamente dita, creio que ajudei a produzir os mais importantes trabalhos que o grupo realizou em seu início de desenvolvimento profissional:

1982 – Auto de Natal, de Patativa do Assaré – Ruas do Rio de Janeiro; 1983/1984 – Projeto Novos Rumos Novas Caras – Teatro Villa-Lobos; 1984 – Morrer pela pátria, de Carlos Cavaco, Teatro Villa-Lobos; 1989 – Comissão de frente da Beija-Flor; 1989 – Uma casa brasileira com certeza, de Wilson Sayão, ccbb; 1990 –Auto de

Anchieta, na Cidade de Anchieta, Espírito Santo; 1991 – Festa de reinauguração do Teatro José de Alencar, Fortaleza; 1991 – Festa de 2 anos do CCBB; 1992 – Pra que servem os pobres?, de Herbert Ganz – Festival Internacional de Cádiz e Ruas do Rio; 1992 – I Forum Global – Rio – Eco 92 – Aterro do Flamengo; 1992 – Auto de Natal – O jumento, de Patativa do Assaré – Ruas do Rio; 1993 – Febeapá revisitado, de Stanislaw Ponte Preta – Diversos locais; 1993 – Ópera Turandot –(Comparsaria), direção de Nelson Caruso – Praça da Apoteose; 1993 – Festa de reinauguração do Teatro Carlos Gomes; 1993/1994 – Implantação da Casa do Tá na Rua, Lapa; 1994 – Festa de entrega do VII Prêmio Shell para o Teatro Brasileiro – O Dia da Criação, a festa do teatro – Canecão; 1994 – Festa do 6º Ano do ccbb – A descoberta de um novo mundo – ccbb Rio e Centro Cultural dos Correios.

Todos com a magistral criação, roteiro e direção do incansável Amir Haddad. Em 1996, fui convidado novamente por Amir para integrar o elenco de O mercador de Veneza […]. Na sequência, veio Noite de reis, que nos levou onde tudo o que jamais ousamos sonhar se tornou possível. Um elenco que era uma verdadeira constelação. Uma grande produção assinada por mim e de que muito me orgulho; um sucesso de público e crítica no Teatro ccbb – Rio e Teatro Guaíra, Curitiba. Um ano depois, nosso primeiro Molière: O avarento, no qual meu trabalho de ator e produtor foram dos mais significativos em minha carreira. […] A encenação começava fora do teatro, uma trupe mambembe vinda da rua e adentrando pelo saguão principal do ccbb cantando e dançando ao som de músicas do folclore mineiro e nordestino. O público entrava pelos fundos do teatro, percorria os bastidores atravessando toda a extensão do palco, era recepcionado pelos atores e músicos dispostos pela plateia, misturando-se todos no início e no final. Cantoria feita ao vivo, uma festa popular valorizando o enredo, a poética e a dramaturgia de Molière.

grAtiDÃo

Depois de todos esses trabalhos, tudo o que faço na arte e na vida tem a marca do conhecimento adquirido nos ensinamentos de Amir. Me sinto mais saudável, seguro, experiente. É uma pena não poder estar mais próximo dele, trabalhando mais juntos, absorvendo seus comentários, ouvindo e trocando vivências. Tenho alguns projetos que ainda gostaria de desenvolver com ele, mas não sei se ainda terei oportunidade.

No ano de 2009, tive a honra de tê-lo ao meu lado supervisionando minha primeira direção teatral, Santa Maria do Circo, romance de David Toscana que adaptei, dirigi, produzi e realizei no ccbb, Rio. Lá se vão treze anos de hiato em nossa parceria. Mas continuamos amigos e sei o quanto sou grato a este mestre por tudo que imprimiu à minha juventude: a primeira marca de valores verdadeiramente humanos. Ensinou-me que só uma pessoa completa pode ser um grande ator […]. Ainda hoje conservo o mesmo sentimento prazeroso daquele jovem que o conheceu na escola de teatro, século passado. A ninguém tenho tanto a agradecer como ao querido Amir Haddad, uma pessoa notável que amo tanto.

IVO FERNANDES MENDES, ator, autor, diretor e produtor. Rio de Janeiro, 11 de abril de 2022

DEPOIMENTO DE LUANG

HAIKAI POR AMIR

Sou carioca mas minha mãe é de família libanesa e meu pai era do Senegal. Conheci Amir em 2002, eu acho. Num projeto para montagem do espetáculo

A revolta de São Jorge contra os invasores da Lua. Eu estava no segundo ano da faculdade de Desenho Industrial, na Puc. Meio perdidão na vida. Aí entrei numa de fazer teatro. Estava na dúvida entre o Centro de Teatro do Oprimido, do Boal –e o Tá na Rua. Um dia, passei na porta do tNr e o Alessandro Perssan estava sentado numa mesinha com uma placa: “Curso de teatro”. Aí perguntei como era, ele respondeu: “Aqui é teatro mas não parece teatro”. Nisso desceram três atrizes dançando, Bárbara Vento, Clara Sória e Fernanda Machado, vestidas de cigana.

Achei tão mágico que me inscrevi.

Comentei com minha mãe, que falou que o diretor do grupo era “brabo”. No outro dia, já na oficina, o responsável é que era brabo, brabo mesmo. Eu achei que era o Amir, mas era o Roberto Black. Só na terça o Amir foi e eu o conheci.

Corte temporal.

Era uma manhã de oficinas na casa do Grupo Tá na Rua no ano de 2011. O Amir participava do exercício. Eu estava no fundo da sala, meio escondido, tentando entender toda a movimentação e morrendo de medo de entrar na gira. Amir estava de costas para mim. Toda a movimentação dos atores no meio da sala acontecia em razão do posicionamento dele. Do nada ele vira para trás. Vestia umas asas e uma cabeça de pássaro, parecia um deus asteca. Com o olhar em brasa, olhou no fundo dos meus olhos e gritou: “VAI!” Eu fui e entrei em cena. E acho que, daquele dia em diante, nunca mais parei de ir. Amir Haddad me colocou em movimento.

LUANG SENEGAMBIA DACACH GUEYE, artista. 7 de junho de 2022

DEPOIMENTO DE LUCIANA PEDROSO

Tem que “ralar o cu na ostra”, “meter o cu na seringa” e não pode “comer o mingau pela beirada”, afinal, “passarinho que come pedra sabe o cu que tem”. E “quem não tem competência não se estabelece”. Esta foi, aliás, a primeira máxima que ele jogou sobre mim logo nos primeiros minutos do meu primeiro espetáculo com o grupo

Tá na Rua, o Dar não dói…, que aconteceu fora do Rio, em Jacareí, São Paulo. Uma praça complicada, cheia de arvorezinhas por toda parte. Não havia um redondo possível, ou um retângulo, qualquer areazinha mais aberta. A solução foi incluir as árvores no espaço e na verdade acabamos ocupando a praça toda, inclusive um chafariz, onde fizemos a cena do “Fantástico” e suas garotas saindo de dentro d’água. Uma transgressão enorme para quem estava começando – e um imenso privilégio. De lá para cá, ainda não tive a mesma sorte de fazer um espetáculo numa praça com chafariz. Passaram-se quase 20 anos e sigo procurando me estabelecer.

O Tá na Rua é muito difícil! Porque é um lugar que te dá tudo, mas não o sustento. E para sustentar o Tá na Rua é necessário muito esforço coletivo e pessoal de cada um que está ou que esteve ali e precisou se entregar. “Dar como quem recebe”. A gente precisa dar muito, “o ofício é o ofício da doação”, da generosidade, do afeto. Tudo coisa difícil de botar em prática, mas que se torna possível e acessível quando estamos no exercício pleno da função de artistas públicos que somos, artistas de todos os tempos, sem classe – cogumelos da bosta da vaca, capazes de produzir alucinações no espectador (assim fala nosso Zaratustra).

Cada um de nós, atores do tNr, é um servo zelador da linguagem, um mantenedor da chama do Teatro Brasileiro vivo na pessoa do Amir. E é sua presença, seu vigor e constância que nos dão força para segurar o rojão de estar ali. Como dizem as novas gerações: Amir é o mais “fritado”. E lá estamos nós para fazer o teatro que ele gosta, que ele inventou porque queria ver bom teatro. É maravilhoso quando a gente faz coisas lindas na praça e comemora como um gol dizendo entre nós: “Toma, velho! É teatro que você quer?!”

Me admira que pessoas de teatro, que o reverenciam, que o amam sinceramente e reconhecem sua importância muitas vezes não se deem conta de que o Tá na Rua é a grande obra-prima desse artista. Ao mesmo tempo, não me admira porque este grupo é justamente o que há de mais avançado no seu trabalho. É onde ele desconstrói tudo, mexe nas estruturas e joga luz sobre coisas que às vezes as pessoas

não querem ver. “Teatro é lugar de perder”. Mas um dia hão de ver! Há muito tempo que ele vem repetindo que o “teatro está morto, viva o teatro”, e cada vez isso se torna mais evidente, o teatro da “burguesia, vikingue, protestante do Atlântico Norte”, que representa uma minoria do povo brasileiro, não sobreviverá ao fim de ciclo que estamos atravessando. “Troque o certo pelo duvidoso” – ele disse e foi expulso da escola de teatro.

Certa vez, ele entrevistou uma querida amiga que lhe disse que ele perdeu muito tempo com esse negócio de Tá na Rua. Que ele teria feito muitas outras coisas. Que fez muita coisa bonita, mas poderia ter feito muito mais. E eu o agradeço todos os dias pelo tempo dedicado a sua grande criação, onde hoje posso “inventar o teatro” junto a ele. Essa relação horizontal que se estabelece, de insubordinação, liberdade, é unicamente dele; não existe quem trabalhe assim, inclusive se zangando (e muito) diante de situações em que os atores estejam esperando uma ordem do diretor. No seu trabalho, o que interessa é o processo, é a manifestação espontânea e verdadeira do indivíduo na coletividade: é daí que a coisa vem! Uma vez despido da vaidade, conjugando o verbo estar, o ator pode “merecer o espetáculo” e “fazer o download”, plasmando no espaço verdadeiras imagens do inconsciente. E isso não quer dizer que ele não nos dirija, mas é geralmente uma direção tácita e sutil, a não ser que a pessoa o obrigue a dirigi-la e mereça um esporro em vez do download. Toma logo um: “Burro não aprende, acostuma”. Mas, mesmo nesses casos, ele é sempre generoso e entrega tudo pra pessoa! Quando não de uma vez, ele entrega aos poucos (o que costuma ser muito mais indolor). Mas hoje em dia o velho tá mais devagar, menos passional e mais seletivo. A pessoa tem que merecer o esforço dele em dar o esporro, tem que ser bom ouvinte, se não ele “nem tchum”.

Já fiquei fora do processo por anos, fui e voltei algumas vezes e pude experimentar essa linguagem em outras situações e com grupos e coletivos geralmente formados por atores já passados pelo tNr; fiz muito teatro, muita rua, muita militância política e cultural. O momento culminante da minha experimentação foi na “Primavera das Mulheres” em que eu estava na Cinelândia, no meio de cinco a dez mil mulheres, na escadaria da Câmara dos Vereadores representando a Vênus de Willendorf. Nua com uma touquinha de crochê na cabeça e um microfone na mão. Segura aí! Joga duro! Tive que usar toda a minha experiência de rua, dessa e de outras encarnações. Fui ovacionada a cada mínimo

movimento que fazia. Eram gritos e urros desde que surgi no espaço coberta de vermelho-urucum, vermelho-sangue, “produzindo um significado” unificador para o ato. Os aplausos ruidosos eram alternados com um silêncio total da “plateia” para ouvir minha fala e canto. E num determinado momento cometi um erro crasso na minha narrativa. Eu deveria cantar “Pagu” da Rita Lee, mas dei bobeira e acabei cantando aquela “Ave Maria” que a Fafá de Belém cantou pro papa. Isso num ato pelos direitos reprodutivos em que as mulheres estavam fazendo reivindicações como “tirem seus rosários dos meus ovários”. Isso quase me rendeu uma vaia! No fim da música, saí de fininho sob os gritos de “Fora Cunha” e voltei correndo o mais rápido que pude para perto do Amir.

Podemos voar alto com o pouco que soubermos de sua linguagem, mas somente no cotidiano é que podemos aprofundar o entendimento verdadeiramente. No meu retorno ao processo é que fui entender melhor coisas que sempre o ouvi falar. E ainda sinto que preciso conviver e praticar muito mais. Nem mesmo ele sabe ou afirma determinadas coisas. E a linguagem é viva, está em constante movimento, tudo é movimento e, por esse motivo, não pode ser explicada e definida como uma espécie de teoria ou método. É necessário estar ali praticando a escuta porque TNR é tradição oral. Um dia que você falte, um momento que vá ao banheiro, e o bonde pode passar sem que você o veja e consiga acompanhar.

E é maravilhoso também ouvir as reminiscências do nosso Griô! Me sinto uma espécie de arqueóloga desvendando memórias do nosso Dinossauro-mor. Pouco tempo atrás, ele se lembrou de qual foi a primeira narrativa dramática que ele propôs ao DJ Geraldo Torres, que só tocava músicas clássicas, até que Amir pediu que pusesse algo do cancioneiro popular brasileiro, algo que desse teatro. E começou a lembrar em voz alta: “Não me culpe... não me culpe”. Rapidamente matei a charada e cantei o refrão “Não me culpe não, pois vai ser assim toda vez que você passar por mim”, da Dolores Duran. Só sabia cantar o refrão mas no dia seguinte aprendi a música toda e sempre que posso afirmo o resgate dessa pequena, porém significativa, parte da história das oficinas.

Outra memória que não deixei passar também envolve uma música. Quando ele foi para Belém do Pará nos anos 1960, andava pelas ruas à noite maravilhado, entregue aos paralelepípedos e seu casario, essa coisa do “peito aberto, afeto escancarado”, cantando a plenos pulmões: “Momentos são iguais àqueles em que eu te amei. Palavras são iguais àquelas que eu te dediquei. Eu escrevi na fria areia um

nome para amar. O mar chegou, tudo apagou, palavras levam o mar”. Ele era louco pela Elizeth Cardoso. Mas ela marchou com “Deus e a Família pela Tradição e Propriedade”, o que fez com que Amir destruísse todos os seus discos.

Durante a pandemia, fizemos nossos encontros sagrados de terça e quinta-feira on-line, e aí é que ele contou foi coisa! Uma vez pedi: “Amir, como era aquela história de você ter visto a Marilyn Monroe no Central Park?” E daí ele explicou que foi no Actors Studio, que fica no Central Park. Ela estava de calça jeans e camiseta branca. E ele numa viagem inteiramente patrocinada pela Ford Foundation para ver teatro em tudo quanto é canto. Além dele, tinha outro bolsista. Um polonês, também diretor teatral, só que bem mais cascudo que ele, que devia ter entre 24 e 26 anos. E esse cara havia trabalhado com o Brecht, não sei se na Polônia ou Alemanha; havia carregado a alça de seu caixão. Foi um parceiro de muito valor nessa viagem, ia situando o jovem Amir, não permitindo que ele se deslumbrasse com bobagens.

Agora estamos, aos poucos, vivendo a tão esperada retomada pós-pandêmica. Depois de muita braçada, parece que estamos chegando finalmente à outra margem do rio. Não vejo a hora de estar na rua full time com o “coroa da praça” e seus amigos da rua lhe dizendo: “O senhor é pica das galática”. Quero em breve deitar na praça e, sentindo o calor do chão nas costas, olhar para o alto enquanto escuto no ouvido sua voz dizendo que “o céu não é um limite!”.

LUCIANA PEDROSO, cantora e atriz do Tá na Rua. Rio de Janeiro, 30 de maio de 2022

DEPOIMENTO DE MAITÊ PROENÇA

Tenho a impressão de que Amir faz teatro para compreender a vida. Ele passa mais tempo esmiuçando o texto do que qualquer diretor que eu conheça. Ao falar dos diversos sentidos que há em cada frase, vai desdobrando o grande mistério. Falando, ele se ouve e desvela também para si o que está encoberto, não só na peça mas na existência humana. Por que estamos aqui? Deus existe? Como diretor, ele revê as peças centenas de vezes, cada vez percebendo algo que não viu antes. Assim, tem sempre um estímulo diferente para sacudir o ator. Nos ensaios, às vezes, ele deixa de ser racional e vira bruxo, entende que precisa tocar no corpo, na testa, nas costas do ator para detonar algum processo, desobstruir um canal. Quando o toque não é físico, ele mira na emoção, e vai meio cabra-cega para o que der e vier. Pode ser terrível porque sai descontrolado, e pode ser mágico e catártico porque rompe o bloqueio. Quando a água está parada, quando a gente não sai do lugar, ele parte para esses mecanismos intuitivos. Precisa que algo aconteça e se arrisca. A palavra muitas vezes é insuficiente e, quando percebe que chegamos ao ponto dos obstáculos psíquicos, ele se joga primeiro para que a gente o siga. Nesse movimento, pode vir uma tromba d’água demolidora, mas em geral ela limpa o ambiente e, quando seca, o terreno é outro, mais fértil. E ele gosta de dançar, como gosta. Dança-se muito nos trabalhos do Amir. Cada música dos deuses!

MAITÊ PROENÇA, atriz e escritora. 15 de janeiro de 2022

DEPOIMENTO

DE MALU VALLE

A primeira vez que fui dirigida pelo Amir Haddad foi justo na minha formatura do curso regular da Casa das Artes de Laranjeiras. O convite foi feito pelo Yan Michalski, crítico teatral e professor da maior importância para o teatro brasileiro, então diretor acadêmico da Escola. Amir tinha 37 atores para criar a festa que foi Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Esses ensaios e as temporadas foram formadores para mim! No Teatro Cacilda Becker, onde estreamos, tinha até cambistas, lotava! Depois ainda faríamos a peça no Sesc Tijuca.

Segui muito ligada ao Amir. Fiz o musical Pixinguinha, texto da Fátima Valença e Douglas Write; a comparsaria da ópera Turandot; Noite de Reis, de Shakespeare; oficinas, happenings na casa do Tá na Rua; e, mais recentemente, codirigi com ele a Virginia, de Claudia Abreu. Nos tornamos amigos. Amir compõe com Aderbal Freire-Filho as minhas raízes teatrais. São dois diretores de ator, o que não é comum. Os métodos são diferentes, então, trabalhar com Aderbal depois de estrear com Amir me possibilitou experimentar caminhos talvez opostos mas que se completavam!

MALU VALLE, atriz, cantora e diretora. 8 de fevereiro de 2022.

DEPOIMENTO DE MARIA PADILHA

Conheci o Amir em 1978, quando Sergio Britto organizou um curso no recém-fundado Teatro dos 4. E eram também quatro os professores titulares: Sergio, Hamilton Vaz Pereira, Eric Nielsen e Amir, que se revezavam nas turmas durante um ano. Nesse momento, eu ainda tinha dúvidas sobre se o teatro seria minha profissão e entrar em contato com Amir foi fundamental para essa escolha e para a descoberta de uma verdadeira vocação. […] Foi muita sorte minha aos 18 anos, cheia de dúvidas e desejos, poder passar um ano convivendo com um mestre do tamanho – e com a imensa generosidade – do Amir. Dali saí impregnada e com instrumentos para procurar que tipo de atriz eu queria ser, e eu queria ser tudo o que ele me apontava como possibilidades.

No ano seguinte a esse curso, comecei a ensaiar o Despertar da primavera, de Frank Wedekind, com o grupo que depois ficou conhecido como o Pessoal do Despertar, meu primeiro trabalho profissional. E, no meio de atores muito talentosos e mais experientes que eu, ter o Amir por “perto” novamente, me dirigindo na “paranormalidade” dele, foi minha sobrevivência. Lembro de uma cena difícil, entre a Rosane Goffman e eu, em que a mãe da minha personagem revelava que ela, a adolescente que eu fazia, estava grávida – e nós não conseguíamos realizar a cena, por alguma razão. Chamamos o Amir para nos ajudar num dos ensaios. Ele apenas fez uma pergunta: “Qual a frase mais importante da cena para vocês?” E nós: “Você está grávida, minha filha!” E ele: “Não, a frase mais importante é quando a personagem de Wendla diz que nunca amou ninguém que não fosse a mãe dela; então, como podia estar grávida?”. Com isso, a cena fluiu; foi para o âmbito dos afetos, saiu do melodrama bobo, se revelou. Amir é um revelador de textos!

Depois desse tempo, ele fundou o Tá na Rua e só fomos nos encontrar de novo quando fiz e produzi com Pedro Paulo Rangel O mercador de Veneza. Ali foi um paraíso. Amir tem uma compreensão de Shakespeare tão profunda, poética, humorada que parece que ele se transforma no próprio. O processo foi de uma riqueza, de uma felicidade imensa; ali compreendi como um autor como o Bardo nos faz mais humanos e potentes.

Depois disso, nos reencontramos no Teatro Glória, quando me coube administrá-lo. Foi num ciclo de leituras de peças brasileiras da época da ditadura

militar. Uma emoção atrás da outra. Amir orientou a escolha das peças, dirigiu Abajur lilás, de Plínio Marcos, deslumbrantemente, e tivemos, na medida do possível, os diretores e elencos originais das peças, com direito a Ferreira Gullar no debate depois de Se correr o bicho pega…, e o reencontro histórico e emocionante –numa leitura antológica de Roda viva, do Chico Buarque – de Amir com Zé Celso, Marília Pêra, Zezé Motta e Antonio Pedro.

Depois disso, nos juntamos ao meu amigo de sempre, Pedro Cardoso, e fizemos Mão na luva, do Vianinha. Esse foi um processo rico e profundo, uma escavação sobre os afetos de um casal vivendo em plena ditadura e sendo contaminado por ela. O espetáculo ficou muito bonito, também com a colaboração valiosa de Hélio Eichbauer, que, a essa altura, já tinha virado parceiro recorrente do Amir. A temporada foi extremamente conturbada, com muita resistência do Pedro ao que tínhamos criado, mas, quando, em poucas vezes, a peça se realizava plena, era linda – e Pedro absolutamente brilhante! Acho que, oficialmente, esse foi meu último trabalho dirigido pelo Amir, mas continuo até hoje me “consultando” com ele quando uma cena ou uma peça estejam precisando de oráculo. É meu mestre, amoroso, sempre limpando caminhos. Amir e Zé Celso, aliás, são os grandes inventores do teatro brasileiro, tal como nós o entendemos e fazemos até hoje. Estão certamente entre os grandes filósofos do teatro contemporâneo mundial. Mesmo quem nunca trabalhou com eles está trilhando caminhos abertos por eles nessa linguagem do palco. Amir é oxigênio. Encontrá-lo, estar perto, ouvir, aprender, discutir, chorar, rir… tudo com ele é grande e potente. Eu o amo tanto que nem sei. Por ele viro Hércules, Aquiles e Orfeu. Não existe maior poder do que o Amor que esse homem tem em si.

MARIA PADILHA, atriz. 9-10 de abril de 2022

DEPOIMENTO DE MARIAH DA PENHA

Conheci Amir bem no início dos anos 1980, num encontro de teatro em Nova Iguaçu, onde nasci. Ele veio com o então recém-formado Tá na Rua e abriu sua roda por aqui. Depois disso, deu outro curso num ciclo em que ministravam, também, José Celso e o finado João Siqueira. Não fiz o do Amir, então passamos a nos conhecer, mas não tão intimamente nesse momento. Até que houve um festival de teatro de rua em Paraty, e o tNr era a grande atração. Eles haviam encontrado o Nirvana, estavam nas nuvens, no melhor hotel, os mais bem-remunerados. A gente é que ficava numa pensãozinha barata. Mas minha interação com eles aí foi maior. Mesmo assim, fiquei mais uns dois anos ainda no grupo Dia-a-Dia do qual fazia parte.

Só em 1984-5, comecei a frequentar o Tá na Rua na ceu, mais assiduamente. Ia para encontros, participava de ensaios, embora não fosse do elenco. Ficava fascinada com aquela estrutura reiterativa dos debates. Muitos achavam cansativo. Eram todos muito intelectualizados, formados em universidades. Era um grupo diferente. Durante alguns anos, fiquei flutuante, porque, inclusive, já havia começado a fazer tV e não podia me comprometer totalmente. Mas admirava demais o tNr e o Amir.

Acabei ficando amiga de todos, frequentava a casa do Amir, da finada Lucy Mafra, que era quase minha irmã. No início dos anos 1990, comecei a participar fixamente do grupo. Eles haviam acabado de apresentar Uma casa brasileira, com certeza no ccbb. Foi quando estreamos Pra que servem os pobres? em 1992, que acabou sendo meu primeiro trabalho com o grupo. Levamos para o Festival de Cádiz, na Espanha. Foi minha primeira viagem internacional. O grupo voltou para o Brasil e eu ainda fiquei um tempo na Europa. Quando retornei, eles já estavam trabalhando no que seria a ópera Homens e mulheres, um musical sobre o cancioneiro brasileiro. Com parte do tNr, montei, também, um projeto ambiental feito nos parques do Rio, Dona porca e seus porquinhos, falando da questão da limpeza urbana. Logo voltamos a sair para as ruas sem temas, improvisando. Amir te destroça. Te desconstrói enquanto estereótipo. E para desconstruir o estereótipo, ele primeiro o reforça, num trabalho de afirmação pelo contrário. Uma das coisas mais essenciais para se trabalhar com ele é você ter leituras diversas da vida. Um certo conhecimento, uma certa filosofia a respeito do mundo. Um olhar crítico. Foi essa uma das razões que me levou depois a fazer ciências sociais e história. Através do popular, havia a possibilidade de acesso a um embasamento de saber que

beirava o erudito. Aquilo não é um bando de gente louca vestida em farrapos, com roupas sobrepostas e perucas tortas. Há muita reflexão conceitual por trás.

Atualmente, posso dizer que Amir é uma celebridade. Uma das celebridades mais cultuadas não só por mim mas por todos os artistas que já passaram pelas mãos dele. Não há ninguém no mundo teatral contemporâneo que não o conheça e admire. Ele me tornou uma atriz diferente. As pessoas dizem que roubo a cena.

Não roubo a cena. Eu estou em cena. Isso foi ele quem me ensinou: o menor papel do mundo pode proporcionar o melhor de você. Certa vez, ele me deu o papel da protagonista em Santa Joana dos matadouros, do Brecht. Era uma leitura dramática que aconteceu no Teatro Dulcina327. Foi grandioso. Três horas e meia de leitura e ninguém saiu do teatro. Ele não cortou nenhuma linha. Amir não é diretor de cortar. Quando estava saindo do evento, descendo os mesmos degraus em que um dia vi minha diva Dina Sfat, Amir bateu no meu ombro e disse: “Agora a senhora está formada! Pode dizer que é uma atriz!”. Fui para as nuvens.

Fiz ainda outros trabalhos com ele, como O castiçal, no Carlos Gomes, onde, inclusive, contracenávamos. Minha personagem, a Lucia, contava uma mentira para o personagem do Amir para arrancar dinheiro dele. Eu me jogava no chão, chorando, rolando. Certo dia, fiquei horas improvisando. A cena tinha dois minutos, devo ter ficado uns dez porque ele não me respondia. Só ficava me olhando. Aí continuei improvisando. Olhava para a plateia e dizia: “Mas o que está acontecendo, ele não reage!”, e voltava a me jogar no chão. Até que, ao cabo daquele tempo todo, já não sabendo mais o que fazer, falei para ele: “Mas seu Bonifácio, o senhor não vai mesmo dizer nada?”. Amir simplesmente voltou com o texto e seguimos. No intervalo, fui falar com ele. Perguntei o que tinha acontecido, se ele teve um branco ou algo assim. Ele me respondeu apenas: “Não. Eu estava vendo você atuar, só para sacar até onde você ia”.

Sobre o processo de trabalho do Amir, posso dizer que ele gosta muito de trabalhar com música, com variação de figurinos. Como a juventude dele

327 “Dentro do Ciclo Brecht, um evento promovido pelo Instituto Goethe, Editora Paz e Terra e Caderno Ideias [do JB], será apresentada hoje, às 19h, no Teatro Dulcina, sempre com entrada franca, uma palestra do filósofo Leandro Konder sobre o gênio alemão. […] Na próxima semana, o diretor Amir Haddad dirige uma das obras mais conhecidas de Brecht, Santa Joana dos Matadouros. Durante o ciclo, que se encerra em dezembro, cerca de 40 textos do dramaturgo serão apresentados no Dulcina, além das encenações […].” (Sem assinatura, Konder no Ciclo Brecht Jornal do Brasil, 6 abr. 1998, caderno B, p. 3.)

transcorreu no pós-guerra, havia muitos filmes musicais, então ele adorava assistir aos americanos, onde também havia dança. Percebeu que o teatro dele poderia absorver esse segmento de alguma maneira. Soltar o ator, enfatizar a expressão corporal. Teatralizar com o corpo sem usar tanto a palavra. Isso é revelador, você descobre que seu corpo não tem limites. O gesto pode revelar uma série de coisas. Mas ele também não abre mão de destrinchar textos. Ele é desses que pode ficar a noite inteira num parágrafo porque ali se encontra a chave que revelará toda a peça. Eu já entrei em cena com o Amir, inclusive também no Castiçal, sem ter a nossa parte ensaiada. Era uma cena anterior a essa em que eu me jogava no chão. E eu tinha muito pouco tempo de ensaio porque fazia A casa das sete mulheres, na tV Globo. E como as cenas eram com o próprio diretor, ele trabalhou o todo e as cenas dos que estavam presentes. Quando chegou minha vez, na véspera da estreia, só sabíamos o texto, mas sem ensaio. “E aí, Amir? Vamos conseguir ensaiar antes da estreia?”. Rimos. Não daria. Entramos em cena assim mesmo, na intuição, olho no olho, sentindo a relação acontecer no decorrer da própria cena. Só que, como eu disse, às vezes baixava o diretor no meio da peça e ele ficava me assistindo improvisar. Tudo isso é revelador do quanto ele foca a importância da leitura. A compreensão profunda do texto é que dá essa liberdade. Porque só assim não se fica refém da marcação ou de uma estrutura rígida. A cena, a partir dessa apropriação, pode virar o que a gente quiser. Sem perder o fio da meada. Pode-se ficar dias improvisando, porque se sabe a fundo o sentido e o significado do que tem de ser transmitido.

Hoje em dia, o tNr entrou numa fase deslumbrante de gente muito jovem e mais tecnológica, o que abre possibilidades para o Amir, inclusive nas redes sociais e em termos de divulgação de cursos via aplicativo Zoom, o que possibilita acessos de pessoas do mundo inteiro. Trata-se do lado bom do impedimento que a pandemia deixou em relação aos encontros presenciais. É muito fácil e muito difícil falar do Amir. Mas resumir tudo o que vivemos juntos e tudo o que aprendi com ele, isso é impossível.

MARIAH DA PENHA, atriz, produtora, historiadora e cientista social. 28 de abril de 2022

DEPOIMENTO DE MÁXIMO CUTRIM

AMIR HADDAD, MESTRE, AMIGO, CÚMPLICE, MINHA FORMAÇÃO PROFISSIONAL E HUMANA!

Sou natural de São Luís do Maranhão e radicado no Rio desde janeiro de 2015. Comecei a estudar teatro e tV na Cidade Maravilhosa em busca do “sonho” de ser artista e, por intermédio da professora Lorena da Silva, fui levado ao terreiro de Amir na Lapa, em setembro desse mesmo ano. Lembro nitidamente do meu primeiro dia ali; parecia que sempre estive naquela casa vivendo aquilo, e fiquei surpreso ao ver o famoso diretor tão acessível e desarmado. Foi amor à primeira vista e, desde então, nunca mais saí. Lá se vão sete anos de muita entrega e amor à linguagem do Tá na Rua e ao maestro do invisível. Desses sete anos, quatro têm sido de intensa dedicação e aprendizagem mais próximo ao Amir; me tornei seu braço-direito como “dJ das emoções baratas”, como ele chama carinhosamente e com orgulho aquele(a) que detém o conhecimento musical de décadas do tNr, por tocar os corações de todes da forma mais simples e arrebatadora possível. Um acervo milenar, verdadeiro patrimônio histórico e, para mim, um presente. Atualmente, ocupo esse espaço que não é nada fácil mas tem suas glórias, como participar de processos criativos ao lado dele com toda liberdade; conhecer pessoas ao redor do mundo representando uma linguagem mundialmente reconhecida; e a maior de todas: aprofundar e beber da fonte inesgotável de conhecimento que ele nos dá com tanta generosidade.

Na cultura africana, griôs são mestres cuja vocação é preservar e transmistir a história e o conhecimento da mitologia do povo. Pois Amir é um dos poucos griôs que ainda temos em vida e sem peça de reposição no teatro brasileiro! Acompanhar um grande nome da nossa cultura em momento tão difícil para a vida política e cultural do país, em meio a vírus e vermes, tem sido desafio maior ainda, e sem dúvida um momento onde se faz necessário mais força para nadar contra essa correnteza.

Em 2020, o tNr se preparava para celebrar 40 anos com uma circulação por todo o município do Rio, e todo nosso esforço foi abruptamente interrompido pela pandemia do coronavírus. De repente, tudo parou, ficamos isolados e fragmentados; Amir foi para São Paulo e cada integrante do grupo ficou preso dentro de uma tela. Ele teve que se adaptar às reuniões de videoconferência; aprendeu a trabalhar com distância e não ter mais o calor humano pelo qual sempre prezou tanto. Mas muito rapidamente se

adaptou à nova realidade imposta e mais uma vez seguiu resistindo e respirando debaixo d’água pelo canudinho. Foi quando nasceu uma nova página dessa parceria; comecei a contribuir também com sua comunicação nas redes sociais de forma mais intensa, como parte do trabalho com o grupo. Durante dois anos, fizemos cursos, espetáculos, festas, fóruns e produção de conteúdo on-line, além de eu gerir suas redes sociais. Não paramos um só momento, nem podíamos! Adaptamos nossa celebração de 40 anos para as plataformas digitais, e o mundo estava todo ali. O raio de alcance do trabalho ganhou cada vez mais espaço, afinal, qualquer um poderia viver uma experiência com Amir e o Tá na Rua, mesmo que por uma tela, mas sempre com igual poder de impacto, provando a força da linguagem do grupo e de seu líder. Com esse feedback, tivemos condições de prosseguir. E cá estamos, como disse Amir, “chegando ao outro lado do rio”, devagar, retomando a vida. Em abril de 2022, com 4 doses da vacina no braço e a certeza de dias melhores, Amir e o grupo retomam as atividades presenciais com o projeto Tá na Rua Voador, em colaboração com o Circo Voador, parceiro de outros tantos carnavais, celebrando 42 anos de resistência ininterrupta. Milênios de teatro ao alcance dos nossos corações!

Encerramos esse ciclo com uma grande festa-espetáculo no Circo no dia 19 de maio, em pleno outono carioca, regada a muita fartura, liberdade e esperança! Estavam no palco Amir e Ana Carneiro, dois amigos que há 42 criavam essa história junto dos demais integrantes originais do grupo – que até hoje atravessa o tempo-espaço e cria sua bolha no Circo Etéreo. Amir é ancestralidade e contemporaneidade de corpo e alma. A pessoa mais viva e com mais vontade de viver que já conheci. Para ele, a virgindade do dia é a possibilidade de viver sua melhor versão, com respeito ao ontem, mas focado no hoje! Sempre conjugando o verbo estar. Amir está sempre à frente de seu tempo, ele não envelhece: se atualiza!

Um bruxo inigualável, conhecidíssimo como a noite de Paris, dono de um humor inconfundível, de um coração enorme, que faz até o corretor mudar sempre seu nome para Amor. Fato! Amir é mestre, pois em sua brincadeira não tem distinção; é para todo mundo, ele não quer ser feliz sozinho. Eu tenho muito orgulho de brincar com ele e de contribuir para que uma voz tão necessária chegue a todes! Viva esse eterno menino!

MÁXIMO CUTRIM, ator do Tá na Rua e responsável pelas mídias digitais e trilhas sonoras do grupo. Rio de Janeiro, 24 de maio de 2022

DEPOIMENTO DE MAXIMIANO NETO (NETINHO)

Um belo dia, na marcenaria de meu pai, parou um carro vermelho com um senhor dentro, que me perguntou se eu era o marceneiro. Respondi que sim, e ele então nos chamou para um serviço. Ficamos por um mês trabalhando em sua casa, onde eu via muitas fotos dele com pessoas famosas. Percebi que ele próprio era muito conhecido. Mas nunca me tratou com superioridade. Ao contrário, fui até convidado para sentar à mesa com ele e almoçar. Me tratava de uma maneira que nunca ninguém havia me tratado: como um cidadão.

Acabou o serviço e voltei então para a Lapa, onde tínhamos um ponto de frete. Após alguns dias, o mesmo Senhor nos procurou novamente com um dinheiro. Imediatamente questionei, pois sabia que já estava tudo pago. Mas descobri que meu pai havia mentido para mim e sido desonesto com o cliente. Cobrou um valor a mais do que seria o justo e aquela última parcela estaria em falta.

Essa situação fez com que eu desabafasse com aquele senhor. Ele havia me tratado tão bem. Quando dei por mim, havia confiado nele a ponto de expor a desonestidade do meu pai e revelar histórias da minha vida relativas às tantas brigas que aconteciam entre nós desde que me entendo por gente. Isso desde muito antes de eu me encontrar com a cocaína, fugir do Rio para a Bahia, depois Espírito Santo, por cinco anos, até voltar para minha ex-esposa, em cuja casa ainda havia um ambiente muito violento de preconceito racial, já que ela era branca, diferente de mim, que sou negro. Ela, por ser uma mulher de pele clara, também não entendia totalmente meu jeito de ver o mundo e reagir a tais conflitos. Aliás, nem eu mesmo às vezes me entendia.

Nesse diálogo, o senhor me ouvia atentamente e, ao final, disse que estava na hora de eu “matar” meu pai e minha mãe para poder seguir meu caminho.

Encontrei esse novo caminho naquele homem, que acabou me chamando para ser seu motorista.

Trabalhei diariamente com ele por 23 anos. Não só como motorista, mas também acompanhando ensaios, apresentações, participando de muitas delas e abrindo espetáculos para outros atores, como Débora Bloch e Pedro Cardoso, contando histórias, entretendo o público. Também consertava o carro do Amir, fazia pinturas e obras em sua casa, cozinhava para ele. Em todos os âmbitos de sua vida, lá estava eu.

Amir me deu muitas coisas. As principais da vida. Me deu identidade. Dignidade. Tudo o que sou hoje. Ele é padrinho dos meus filhos e me proporcionou qualidade de vida. Por isso está sempre presente em meus pensamentos e ações. O modo como trato o outro, incluindo minha família, devo ao Amir.

Eu era bicho-solto, morava na baixada fluminense. Me virava como dava sendo marceneiro, motorista, faz-tudo. Mas com Amir virei ator. Ou melhor, já era, segundo ele. Sou ator há quinhentos anos. Ele me ajudou a resgatar essa dimensão. Sinto que o teatro me escolheu e me levou para o Amir. Eu precisava dele. Se não fosse ele, eu estaria morto. Literalmente. Se hoje estou em pé, com alguma responsabilidade e senso crítico, devo somente a ele. Nossa amizade tirou uma nuvem de ignorância, de malandragem que pairava sobre mim. Ele conseguiu trazer meu ser humano visível. Eu era invisível. O teatro faz isso. Põe a gente na visibilidade. Aí vão alguns episódios:

Numa sexta-feira à noite, ele havia deixado cair cem reais no chão de sua casa. Peguei esse dinheiro escondido: pisei e depois pus no bolso. Me despedi e fui curtir com a grana. No dia seguinte, cheguei bêbado para trabalhar. Amir abriu a porta com um lindo sorriso, uma maravilhosa mesa de café e me convidou para sentar. No momento em que sentei, me relatou que havia perdido um dinheiro na noite anterior. Olhando dentro dos meus olhos, questionou se alguém que trabalhava com ele teria a coragem de roubá-lo. Olhei firmemente também e assumi que havia sido eu. Morrendo de vergonha e medo de ser expulso de sua casa. Ele me abraçou e disse que quem fala a verdade não merece castigo. Café maravilhoso, lição para a vida toda!

Sempre que fazia compras em Santa Tereza, Amir via um garoto pequeno, negro, magrinho e que, invariavelmente, se oferecia para carregar suas compras. Amir acabou adotando esse menino. Coisas que só uma pessoa como ele é capaz de fazer. Jorginho viveu com ele, cresceu e, ao se tornar adulto, virou morador de rua, por várias questões complicadas que não vêm ao caso e que fizeram Amir sofrer muito. Mesmo assim, Amir nunca desistiu dele. Nessa relação, fiquei responsável de levar alimentação diária para ele, que foi o primeiro filho do Amir, antes de ele adotar o Sandro.

Um dia, Jorginho não apareceu para comer. Preocupados, fomos procurá-lo e o encontramos machucado em um hospital. Sempre fazíamos visitas a ele. Amir vivia

repleto de esperanças de que ele saísse dessa, mas não saiu. Infelizmente, Jorginho veio a falecer e nos deixou imensas saudades.

Amir me mandou pintar sua sala de estar, me deu dinheiro e foi viajar. Quando voltou, eu havia comprado a pior tinta para poder gastar o resto. Coisas de Netinho pré-Amir. Quando ele viu aquilo na volta, olhou dentro dos meus olhos mais uma vez e me perguntou se era aquela a pintura que eu estava decidido a lhe apresentar. Eu disse que sim! Amir subiu a serra. Com ódio, me falou que a pintura estava a minha cara: malfeita, mal-acabada, mal-amada, maldita. Em seguida, comprou outra tinta e me fez repintar tudo durante a noite, com sua paciência divina. A pintura, então, ficou maravilhosa. Assim ele me disse. E afirmou que essa era a cara que ele via em mim. Quem não faz bem feito, faz duas vezes.

Amir me ensinou a andar de avião. Eu o buscava nos terminais aéreos, mas até aprender tudo, saber em qual aeroporto buscá-lo, como no caso em que ele voltou do Egito, por exemplo, levou tempo. E fiz muita bobagem. Certa vez, fiquei esperando com o carro no lugar errado. Ele me ligava desesperado, perguntava com que roupa eu estava para tentar me localizar. Até que se deu conta de que eu estava em outro aeroporto! Ficou irado. Finalmente nos encontramos, depois de eu chegar voando, tomando multa, desrespeitando sinais. Quando o apanhei, finalmente, ainda pegamos uma blitz da polícia. Veio um policial enorme, e só quando pediu meus documentos foi que me dei conta: havia esquecido tudo em casa. O meu e o do carro. O cara bradou: “Você está preso!”.

Sabe o que o Amir fez? “Pode prender, policial. Um homem que não tem documento, que se esquece das suas responsabilidades, é bandido”. E foi indo embora, sabe-se lá para onde. Até o policial ficou penalizado. A ponto de ir atrás do Amir para tentar negociar. Amir gritava! Dizia que eu estava despedido! Mandava o policial me prender com urgência. Aquilo gerou tanta comoção, que o policial, por fim, deve ter achado que não era para tanto, e resolveu me libertar. Quando chegamos em casa, Amir me disse, seriamente: “Nunca mais me faça usar o meu ator para resolver a sua irresponsabilidade”. Como sempre faz dialeticamente em suas peças, usou comigo a técnica do contrário. Fez uma cena endossando exatamente o que ele não queria que acontecesse: que eu fosse preso. Com isso, me salvou da prisão e ao mesmo tempo me reeducou. Amir foi o pai que me libertou.

Meu pai era um machão tóxico muito violento, batia na minha mãe. Era horrível. Fui para a rua com 14 anos. Com 15 para 16 estava casado. O Amir valorizou tudo isso e aproveitou meus talentos como marceneiro na casa dele, minha história nos espetáculos dele, minha sensibilidade. Teatro não tem final. Teatro é caminho. Amir sempre falava: “Não sei pra que estou te dando tudo isso, você pode enlouquecer. Eu sou um intelectual mas você é um semianalfabeto, como é que vai fazer quando chegar onde você mora e as pessoas não te entenderem falando essas coisas todas?”. Novamente, a técnica do contrário. Afirmava sua dúvida para obter de mim a consciência do processo pelo qual estava passando.

Ele fazia esse tratamento de choque, chamando em causa minha autopercepção, a perspectiva do meu contexto de origem. E fui aos poucos renascendo, desabrochando. Aprendendo a não reproduzir, mas sim a pensar por mim próprio. E toda a minha comunidade me compreende e recebe bem. Esse ensinamento fui legando para a minha família também. Para minha ex-esposa, meus filhos, minha esposa atual, que passou em primeiro lugar no doutorado, é professora e pedagoga. Tudo isso eu compreendo melhor e carrego na minha mochila de aprendizados como um monge, para usar quando preciso.

Lembro muito também da Nair, irmã do Amir, que vinha para o Rio e fazia charutinho de folha de uva para nós. Ficávamos conversando, ansiosos para comer.

Ele dizia rindo que eu ainda o faria virar vagabundo. Vivi com ele a fúria e a paciência divinas. Nada do que eu contar revelará a imensidão desse período que me abasteceu para o resto da vida. Me emociono muito ao pensar e ao falar do Amir.

Ele me deu capacidade emocional de lidar com o racismo, com esse mundo desigual; me ensinou a ir à reunião da escola do meu filho, coisa que eu nunca tinha feito. Consegui salvar meu filho da violência. Amir me fez entender meus filhos melhor, me deu capacidade de pagar uma escola de enfermagem para minhas filhas, hoje formadas. Graças a ele pude dar um enterro digno para minha mãe. Amir é sal e açúcar. É o soro. Fiquei tão colado a ele que chegou uma hora em que não sabia mais se eu era eu mesmo ou se era o Amir. Uma questão de identidade séria. Comecei a andar coxeando, como ele, a mexer os braços como ele, falar na mesma entonação, com o mesmo ritmo. Isso começou a me incomodar e acho que incomodava a ele também. Fui ficando sem graça, perdendo espontaneidade, parei de contar piadas. Fiquei sendo um personagem do Amir. O personagem ficou maior do que o ator.

Foi quando Pedro Cardoso me deu um caminhão de presente. Tive que tirar a carteira D para poder me habilitar a dirigi-lo e virei caminhoneiro. Nesse período, estava nascendo meu filho, que se chama Vitório Zumbi. Foi um período intenso porque eu não tinha sogra, minha mãe também já havia morrido e tive de tomar conta de tudo sozinho. Aproveitei e disse ao Amir: “Estou indo embora”. Ele me abençoou confirmando que eu estava preparado. Era preciso sair para me reencontrar comigo.

Eu andava muito classe média, muito branco. Deixei de ser preto. Então resolvi fazer esse caminho de retorno, assumi minha família com mais responsabilidade. Fui cuidar da minha esposa, pegar meu filho no colo. Depois vendi meu caminhão, fui trabalhar na Coca-Cola, fui puxar madeira do Paraná para o Rio. Minha vida foi seguindo. Mas o Amir sempre comigo. Nunca me afastei dele.

Meu filho Vitório, que hoje tem cinco anos, nasceu quase na casa do Amir. Eu tinha que contar as contrações, até que a doula chegasse e o Amir passou a noite toda passando a mão na barriga da minha mulher. Vi cair o tampão, fiquei conversando com minha esposa, fazendo carinho; ela levantava, me mordia, me xingava de dor, e o Amir sempre junto. Ele é o padrinho do Vitório. Foi quem primeiro pegou meu filho no colo. Essas coisas marcam a gente.

Ator eu fui e continuo sendo, inclusive em espetáculos como o Dar não dói, o que dói é resistir, do qual participei. Amir apresentava os atores e contava uma história pregressa fictícia de cada um. Para mim, inventou que eu havia saído da poluição da Baía de Guanabara, de dentro de uma garrafa de Guaraná Convenção, bem barato. Ele contava que achou essa garrafa no mar e que quando abriu a garrafa saí de dentro. Um gênio, mas não da lâmpada e sim de uma garrafa pet saída da sujeira. Perfeita metáfora do que eu era. Então eu aparecia dançando, dando cambalhota, um negão de saia, de brinco se apresentando ao público.

O gênio da Baía de Guanabara. Do submundo para a festa colorida do teatro.

O episódio que revela melhor as lições sobre caráter e gratidão que recebi dele talvez seja o seguinte: sempre tive acesso à casa do Amir, mesmo quando ele não estava. Agora vou menos porque moro longe, mas sempre entrei e saí com liberdade e ficava lá fazendo comida, batendo textos. Certa vez, ele tinha saído e eu fiquei conversando com a Mônica, que trabalhava lá. Conversando e tomando cerveja. Até que resolvi pegar o carro novo dele para dar uma volta, ver minhas filhas,

levá-las ao shopping. Mônica me disse para pelo menos avisá-lo. Respondi que não precisava. Ele sabia que eu pegava o carro. E fui para Caxias, onde bebi ainda mais. Enchi a cara. Fiquei totalmente bêbado e, claro, bati o carro zero. Eu era terrível!

Amassou bastante! Voltei para a casa dele, deixei o carro e fui embora. Veja que impertinência! Quando voltou de viagem, Amir viu o carro todo estropiado, questionou a Mônica e ela contou a verdade, claro. Sabe o que fiz? Desliguei o celular, de tanto medo de falar com ele. Ele ligava, ligava e nada de eu atender. Durante umas duas semanas fiquei desaparecido. Igual a um bicho acuado. Até que pensei que tinha de encarar. Na ligação seguinte, finalmente atendi o telefone. A única coisa que fez foi uma pergunta. “Netinho, como você está?”. Não falou de carro nenhum. Isso me deu uma porrada. Só depois diria: carro o seguro paga, ou a gente compra outro. Mas caráter, não. Nem gratidão. Afirmou que se eu não tivesse a grandeza de pedir desculpas e ser grato, que isso poderia até me matar de câncer um dia. Esse episódio já foi no dia seguinte ao telefonema, quando estive pessoalmente em sua casa. O carro já havia sido consertado pelo Pedro. Cheguei em Santa Teresa e Amir sentou comigo para dizer: “Eu te amo, cara. Mas primeiro você precisa se amar. Tem que ter caráter e gratidão. Isso faz o ser humano dobrar de tamanho.”

Mais um episódio: como eu me achava muito malandro, sempre muito cordial mas esperto, dava golpes para poder sobreviver. O Amir me chamava de malandroagulha, que, segundo ele, é quem toma na bunda mas não perde a linha. Certa vez, com o Tá na Rua ensaiando, ele amarrou em mim vários panos e cordas e deu uma ponta para cada ator. Virei como que um polvo; cada tentáculo era segurado por um dos atores. Puseram música e, assim, toda vez que eu dançava e me mexia, puxava uma ponta do tecido e as pessoas caíam em volta de mim. A cada movimento meu, eu propiciava a queda de alguém. Amir depois amarrou a metáfora: “Assim é sua vida. Você se acha bicho-solto? Isso não existe. Por pior que seja a pessoa, ou por mais pobre e solitária, sempre há quem se preocupe com ela. E sempre estamos ligados aos outros de algum modo. Se você faz um movimento brusco, sem saber pode estar machucando sua mãe, seu pai, seus filhos, a mim. Preste atenção em seus movimentos, Netinho.”

Foi quando comecei a me movimentar na vida com mais cuidado e delicadeza. Um movimento individual nunca é desvinculado do outro. Somos uma rede no

planeta. Uns dependem dos outros. Hoje em dia, por mais que ainda erre, adquiri o hábito de sempre olhar para o lado. Sei que um erro meu não afeta somente a mim. Não quero machucar ninguém. Ninguém é bicho-solto. Adoro emanar meus sentimentos dentro dessa nova compreensão de vida. Sou um ser humano mais digno do que aquele que saiu da marginalidade graças àquele senhor que confiou e investiu em mim.

MAXIMIANO PEREIRA COSTA NETO (NETINHO), marceneiro, motorista, pintor, ator e cidadão brasileiro. 29 de março de 2022

DEPOIMENTO

DE PATRICIA PINHO

Conheci Amir no processo de As meninas (2009), texto de Maitê Proença e Luiz

Carlos Góes. Para mim, foi fácil entender o que ele estava propondo. Difícil era executar. O que ele propõe é muito simples: manifestar nossos melhores sentimentos em cena. Emitir uma opinião sobre o assunto, uma opinião livre e que possa despertar os melhores sentimentos na plateia. Usando música para fazer ressoar o tempo do amor. Os atores formam um coro, um corpo único de onde sai o Corifeu, que conta a história para novamente retornar ao coro. Mas como isso se dá dentro do processo da atuação?

Eu conseguia compreender quando “dava certo”; sentia uma diferença na qualidade da cena, da relação entre os atores, da música, da luz. Sim, porque a operação de som e luz nos espetáculos do Amir também dança esse balé. Parece óbvio mas por que não fazemos sempre dessa forma? Por que algumas vezes a cena parece mecânica a ponto do não atingir o espectador? A primeira coisa que aprendi foi sobre repetição. Teatro é repetição – ensaio em francês é repetition. Mas o que é ensaiar? Não é repetir, congelar. Não somos robôs, trabalhamos com nossa sensibilidade. Entendi que não existe estreia – a suposta data a partir da qual tudo está pronto e o espetáculo “morto” porque se fixou no passado, buscando se repetir. Não. O que existe é o processo investigativo eterno daquela circunstância proposta na cena e suas possibilidades.

Outra coisa é que a cena é o ator no espaço. A exploração do corpo no espaço total da cena – não só na caixa italiana criadora de ilusões. Amir rompe brechtianamente com essa ilusão. O ator não se mistura com a personagem. Então, por exemplo, quando se fala da personagem na primeira pessoa, ele considera algo esquizofrênico.

Eu e Sara Antunes fomos convidadas a participar das oficinas do Tá na Rua. Foi a grande experiência revolucionária da minha vida teatral. Cheguei às nove em ponto e nada acontecia ali. Pensei: que horas será que começa? Algumas pessoas tomavam café, outras conversavam num canto; de repente, uma música começou a tocar e alguns se levantaram e começaram a dançar. Fiquei assistindo – esperando o diretor chegar, não é assim? De repente, não consigo entender como nem quando, aqueles corpos explorando o espaço de forma conjunta, plena de afetos, começou a fazer sentido para mim. Como é lindo ver gente vivendo a vida! Como é

contagiante. Percebi: aquela cena não era só para ser assistida; eu era convidada da roda. Foi uma experiência mágica.

Colocando aquelas roupas e olhando as meninas dançando com os meninos, e sentindo os ritmos no meu corpo, nem vi Amir chegar. No final, conversamos muito e entendi que o Instituto Tá na Rua é uma escola de cidadania porque propõe diálogo; e aprender a dialogar, a se expressar, a pensar, a se emocionar é realmente o que forma o caráter de uma pessoa. “Não quero teatro na minha vida, quero vida no meu teatro”.

Tenho um sentimento de irmandade com os atores que já passaram pelo Amir. Durante o processo de As meninas, tive aulas de teatro inesquecíveis vendo figuras como Analu Prestes respondendo às provocações do Amir. Trabalhar com Vannessa Gerbelli possibilitou um encontro de almas. E somos muito diferentes, amigas improváveis. Temos a mesma idade e ela fazia a mãe e eu a menina amiga de 12 anos.

Mais algumas imagens: Amir na plateia – assunto especial. Se ele não gosta, dorme. E a gente fica com cara de tacho. Mas, se ele está gostando, às vezes é ainda pior, porque rege, indica, se irrita; maravilhoso – e, ao mesmo tempo, pode desconcentrar muito. Na verdade, confio tanto nele que embarco nessa regência.

O que mais amo no Amir atualmente é o seu Studio A – que ele chama de antiAmir Haddad, em cursos on-line. É o Amir com os textos clássicos. Comparo a uma aula de alfabetização. Aprendi a ler teatro com ele. Porque teatro se lê de pé e no coletivo. A gente precisa ver a cena. E, em autores como Shakespeare, está tudo ali, porque esses textos eram reescritos a partir da experiência da cena.

Queria acrescentar, ainda, um olhar sobre o Amir trabalhando na supervisão de um espetáculo. Dirigi o primeiro texto de Vannessa Gerbelli, o musical Do outro lado, com direção musical do Miguel Briamonte, que, mesmo com poucas apresentações, foi indicado a alguns prêmios. Fizemos um ensaio na Casa do Tá na Rua para o Amir e foi muito interessante; depois, ele assistiu à temporada em São Paulo. Foi uma troca generosa e profunda. E, nessa troca, Amir nos deu de presente um final arrebatador:

Por se tratar de uma peça cujo tema é prisão feminina, as algemas não saíam da minha cabeça. Conversando com Amir, ele falou que adoraria ver as atrizes rompendo com as algemas em cena. Seria um grito de liberdade. Então, combinamos que, no início da peça, elas receberiam o público e, no segundo sinal, seriam algemadas pelo diretor de palco Marcelo Gomes – que atuou também como

o carcereiro que libertaria as detentas para fazer um show no pátio do presídio. Essa era a sinopse da peça. Ao final do show, elas seriam novamente algemadas. Assim acabava a peça. Um final triste. A grande reviravolta eram as duas atrizes rompendo aquelas algemas, revelando o truque teatral e, ao som de “Bridge over trouble waters”, eram ovacionadas pelo público, arrebatadas pela possibilidade da vida daquelas mulheres serem diferentes. Em suma, livres. Como Amir.

PATRICIA PINHO, atriz e diretora. 19 de janeiro de 2022.

DEPOIMENTO

DE PEDRO CARDOSO

É uma tarefa desafiadora conter em palavras a vastidão da minha amizade pelo Amir. Dir-se-ia que é amizade advinda da admiração que tenho por ele, mas não é apenas a sabedoria existencial do Amir sobre o teatro e tudo o mais que me aproximou dele. Foi mais a generosidade com que ele oferece gratuitamente tudo o que sabe a toda pessoa que o deseje conhecer; como aconteceu comigo quando era ainda um jovem ator de nem vinte anos. Amir não cobra pelo seu saber. Se pudermos pagar, paguemos; mas, se não pudermos, ele nos ajudará com o mesmo empenho com que ajudaria se estivesse recebendo fortunas.

Tudo se passou bem no começo dos anos 1980. Meu amigo, queridíssimo amigo, Felipe Pinheiro, havia me acolhido como parceiro para um espetáculo de variedades que ele havia concebido, e que veio a se chamar Bar doce bar. Perto da estreia, achando-nos perdidos e inseguros, e havendo já percebido a frieza com que alguns colegas haviam assistido aos nossos ensaios, Felipe convidou Amir para nos salvar do que parecia um desastre teatral. Tinham já grande amizade. Felipe havia sido aluno de Amir, frequentava seus cursos e tinha por ele enorme admiração e afeto. Felipe já sabia que Amir era um revolucionário do teatro. Eu não sabia nada, não fazia a menor ideia de quem ele era, nem tinha conhecimento da profissão para poder avaliar a grandeza dos feitos que Amir havia realizado.

Estávamos no ensaio (que acontecia na casa do pai do Buza Ferraz, outro querido amigo de profissão) quando entrou na sala a pessoa mais diferente de tudo o que eu imaginava que pudesse parecer um genial diretor de teatro. Num primeiro momento, cheguei a pensar que a pessoa que timidamente espreitava pela semiabertura da porta, com aquela atitude desprovida de atitude, era um acólito do Amir, alguém que o precedia para anunciar a chegada do grande artista. Mas não. Aquela pessoa sem nenhuma persona era já o grande artista.

Amir chegou para o ensaio como um jardineiro para cuidar do jardim, ou um marceneiro para tratar da madeira, ou lixeiro para limpar a rua. Em outras ocasiões, meu amigo e mestre viria a revelar seu poder e até sua fúria, principalmente quando partia em defesa do teatro que ele tanto adora. Mas esta minha primeira impressão, a de estar diante de uma pessoa que nunca traz consigo o arquétipo de artista, e sim o de artesão, confirmou-se indubitavelmente; e é, de tudo o que gosto nele, a qualidade que mais aprecio. Amir move-se no

mundo como o tipo de gente que, não sem algum preconceito, costumamos chamar de pessoa comum.

Felipe e eu apresentamos nosso espetáculo para o nosso público de uma pessoa só. Tínhamos já prontos os figurinos e a música; o texto estava decoradíssimo e a estrutura do espetáculo finalizada. Estava tudo quase pronto mas faltava algo que não sabíamos o que era; algo fundamental, sem o que nosso esforço parecia morrer aos nossos pés; o espetáculo não acontecia.

Diante da nossa inquietação, Amir nos olhou com um carinho que não quero nunca esquecer e nos disse: “O que falta é o público”. E mais não falou, esperando nossa surpresa se acostumar com a ideia. Um denso silêncio se insuflou no ambiente. Felipe e eu ficamos estupefatos diante da simplicidade daquela verdade, brilhante como um sol.

Amir passou a discorrer sobre esta constatação, então tornada evidente, de que o teatro só acontece quando o espetáculo é apresentado diante do público. A coisa da qual sentíamos falta era do próprio teatro, que não se presentificava porque não havia público. E a fazer ainda mais confusa nossa situação, contribuía o fato de estarmos fazendo algo muito errado, e que é muito comum os atores fazerem: ensaiar supondo o público que, em algum momento futuro, estará diante de nós.

De fato, nos ensaios, nós falseávamos o acontecimento. Olhávamos para o horizonte, contemplando uma sala comprida; falávamos com a voz potente, como se multidões houvesse para nos ouvir; fazíamos gestos amplos, como se ao longe houvesse quem nos assistisse. Entretanto, nossa sala de ensaios era pequena e nela não havia ninguém.

Naquele dia, justamente quando tivemos Amir como público, ao invés de aceitarmos nossa audiência de uma só pessoa, aí é que representamos para essa tal hipotética plateia, abarrotada de gente. E o teatro havia se retraído ainda mais por conta dessa dupla falsificação!

O teatro não sobrevive à mentira, nem se sustenta em suposições. O teatro acontece na circustância do seu acontecimento. Se nosso público naquele dia era apenas ele, para ele apenas é que deveríamos ter representado.

Que surpresa maravilhosa foi ouvir aquela revelação. Eu nunca havia sido instigado antes a pensar o teatro por dentro; a me embrenhar nos mecanismos estruturais dele; a me ater nos seus modos de se construir. O teatro que me apresentavam parecia estar pronto, formalizado, inequívoco. Amir nos convidava

a pensar o teatro ele mesmo; e não especificamente nosso espetáculo em particular. Antes de aprendermos algo sobre o nosso, devíamos nos indagar sobre o próprio teatro.

Amir fez uma referência a mim, apontando um momento da representação em que eu havia me conectado diretamente com ele, e me propôs que eu me perguntasse se eu havia percebido que, naquele momento, por conta daquela conexão, o teatro, em toda sua esplendorosa grandeza, havia visitado aquela modesta sala de ensaios. E havia! Eu o havia reconhecido, me apressei em dizer. De fato, uma milagrosa eficiência narrativa tinha me surpreendido quando estabeleci um contato direto com a única pessoa do meu público de uma pessoa só e abandonei a simulação de estar em um teatro repleto de gente. A história da cena que eu contava transcorreu na minha frente sem percalços, como se lubrificada por um fino azeite; e me tornei, para além do seu narrador, também seu espectador. Eu representava e assistia a minha representação, enquanto assistia, também, ao público – que era só ele – a me assistir.

A comunicação, que até então emanava de mim para o público, tornou-se circular; ela retornava do público para mim; criara-se um fluxo contínuo da energia, qual um campo eletromagnético. A passagem do tempo deixou de ser perceptível e dolorosa, como vinha sendo enquanto eu representava para um público imaginado, e passou a transcorrer amigavelmente. O ato de representar tornou-se prazeroso e calmo.

Aquela primeira lição, apenas ela, já me seria suficiente para passar o resto da vida pensando. A partir desse primeiro encontro me conectei a Amir, sedento por aconpanhar de perto suas inquietações. E assim ficamos amigos. Acredito que a sabedoria dele vem de sua mundanice. É o estar no mundo como qualquer pessoa, o que o faz compreender a natureza mais íntima do teatro; porque o teatro, conforme Amir me fez compreender, é algo que pertence ao mundo das pessoas comuns, e não ao das pessoas supostamente dotadas de sensibilidades superiores, como comumente os artistas se querem acreditar. Amir entende o teatro como um patrimônio intelectual do povo, e não dos intelectuais (chamados assim porque seriam possuidores de maiores habilidades do intelecto).

Acho que Amir é vaidoso de tudo o que sabe, como acredito que eu também sou do que sei, como, de resto, todo mundo é. Mas essa vaidade é condicionada à sua sabedoria; a compaixão dele para com a realidade o faz saber-se e sentir-se

sempre menor do que o mundo, e menor consequentemente do que o teatro. Esta menorice não é subserviência existencial, autocomiseração ou penitência de humildade. Ela é, a mim me parece, a posição onde se acha a pessoa apaixonada diante daquilo pelo que se apaixonou. A coisa amada é sempre maior do que o apaixonado; ou ao menos assim ele sente. Amir ama o teatro porque antes ama o mundo ao qual o teatro pertence. Amir é uma pessoa encantada com o mundo, com a vida, com a psicologia e com a sociologia, com a religião; Amir é um eterno observador do destino dos outros, um vibrante torcedor pela felicidade de todas as pessoas.

O que tento aqui dizer com essas atrapalhadas palavras é que o teatro que Amir me ensinou é lição que ele aprendeu, não no teatro apenas, mas antes no mundo. Amir é artista de teatro de rua. É na rua que Amir encontra o teatro que adora, e não dentro dos prédios, porque o teatro que está dentro dos prédios não pertence ao mundo, mas apenas a uma parte do mundo; aquela que o domina economicamente.

“O teatro é filho da história, não da ideologia” é frase textual dele.

O significado dessa afirmação é questão que me tem ocupado desde que a ouvi.

Suponho que Amir esteja dizendo que o teatro não se conforma na época, mas sim na eternidade. O teatro não pode ser reduzido à forma ideológica que assume em determinada época. A cada época, o teatro assume uma feição determinada pelas circunstâncias culturais do momento. Mas o teatro é uma prática permanente do ser humano desde sempre; ou, ao menos, desde de que ele começou a se educar.

O teatro é anterior à sua profissionalização ou ao uso que dele fazem as religiões.

O teatro não é o teatro das tragédias gregas nem dos musicais londrinos; não é o absurdo nem o realismo; não é o elizabetano nem a comédia da arte italiana.

O teatro é algo que permanece o mesmo em todos esses momentos, a despeito de assumir diferentes características. Isto que há de permanente, e que é o teatro-ele-mesmo, é o ato elementar de narrar acontencimentos – o momento em que a comunicação plena se dá.

É bem provável que as primeiríssimas obras dramatúrgicas contassem realidades de fato acontecidas; e só mais tarde histórias inventadas. Mas o teatro não acontece apenas quando adquire complexidades. Ele acontece toda vez que alguém está narrando acontecimentos para outros. A cada época corresponde algum modo específico de teatro mas o teatro ele mesmo não pertence a época alguma, mas à eternidade da existência do ser humano.

Isto me ensinou Amir, e foi isso que ele aprendeu quando deixou as salas de espetáculo profissional e foi para a rua fazer teatro onde, aparentemente, nenhum teatro havia. Mas havia! Havia o teatro menos vestido de sua época e mais próximo de sua eternidade. E por que na rua encontramos o teatro mais puro do que nas salas de espetáculo?, devo, certamente, ter pergutado ao Amir mais de uma vez. Por conta do quase desaparecimento da influência que o comércio do teatro exerce sobre o teatro. Quando profissionalmente exercido nas salas de teatro comerciais, com o ingresso cobrado antes da apresentação, com preço fixo, e história conhecida, o teatro ali praticado serve a quem por ele paga. E o artista, mesmo que não perceba, trabalha para agradar quem o sustenta.

Na rua não há pagamento antecipado, nem o pagamento é obrigatório. O valor cada pessoa decide, e a história a ser contada está sujeita ao improviso. O espetáculo de teatro de rua é oferecido antes de ser fechado o acordo comercial; e, por ser assim, ele se liberta da ideologia de sua época. Foi na rua que Amir encontrou o teatro sem ideologia imposta; livre para o pensamento, para pensar e ser pensado por sua ancestralidade em lugar de sua momentaneidade.

Diversas vezes Amir me narrou a explosão intelectual que vivenciou ao se deparar com o teatro puro, genuíno, que encontrou nas ruas. Todas as lições que dele recebi foram, de muitos modos, reveladas a ele pelo teatro de rua que pratica.

Arrisco dizer que essa é a lição primeira e mais importante que do Amir recebi: o teatro é eterno. Amir me libertou das amarras ideológicas do tempo em que vivo; inseriu-me na eternidade do teatro para que nela pudesse tratar das questões do momento sem estar escravizado ideologicamente por elas. Não é pouca coisa; nem é uma lição feita de uma verdade esotérica. Amir não é um teórico: ele é um prático que se tornou um teórico por falta de quem o fosse; a teoria imensa que concebe desprende-se da prática. Os ensinamentos do Amir são práticos; visam ao aprimoramento do espetáculo. Para entrarmos em cada um desses ensinamentos, é preciso tempo. A mim, tem me ocupado os 40 anos de nossa amizade.

PEDRO CARDOSO, ator, dramaturgo e diretor. Portugal, dezembro de 2021

DEPOIMENTO DE RENATA SORRAH

Conheci Amir Haddad no Tuca, grupo que pertencia à Ação Popular. Eu ainda fazia psicologia na Puc e era vizinha do Roberto Bomfim, que me apresentou a ele. Em 1967, estreamos O coronel de Macambira. Acho que, no fundo, eu sabia estar encontrando meu mestre, um divisor de águas que abriu todas as portas e janelas da minha vida. O arco da minha flecha. Nunca mais nos separamos. Amir nunca deixou de ser meu ponto de referência.

Eu tive a sorte, o privilégio de começar a estudar, a respirar teatro, de fato, com ele me ensinando tudo. Uma das lembranças mais adoráveis que tenho dos ensaios do Tuca, no jóquei ainda, foi este exercício em que Amir nos dividiu em grupos, como ele contou. O meu era formado por jovens atrizes e pelo diretor Reynúncio Lima. Escolhemos uma cena de Bernarda Alba. Marcia Fiani fazia a própria Bernarda Alba e Ana Celia Castro interpretava Adélia. Foi ali que tudo começou para mim.

Estreamos O coronel de Macambira em maio de 1967 no Teatro República, que já não existe mais. Depois fomos para o Teatro Ginástico e até viajamos. Foi um sucesso enorme. Havia um tablado redondo sobre o palco, de onde saíam como que avenidas. Eram por volta de seis pontes que acessavam esse espaço circular e por onde entrávamos: o coronel, sua amante, o médico, o bicheiro, as cantadeiras, os retirantes, os bichos da noite. Era belíssimo, colorido e musical, com as canções do Sérgio Ricardo, um dos pontos altos da peça. Uma reunião de talentos. Além do Amir na direção, Colmar Diniz e Ney Matogrosso faziam nossos adereços e os “Bichos da Noite”; Sarah Feres, os figurinos e o cenário; a direção musical era do Sérgio e também do Luiz Paulo Ramos.

A peça era visualmente muito potente. Trazíamos o bumba meu boi para o Rio e, no caso, o boi era o próprio Brasil. Depois do Coronel, trabalhei com Amir em muitos outros espetáculos. Cheguei inclusive a morar com ele, na rua Barata Ribeiro, em frente ao número 200, em Copacabana, por volta de 1969. Aluguei um quarto no apartamento. Éramos nós e o Joel de Carvalho. Depois vieram outras pessoas, como Selma Caronesi. Não sei bem por quanto tempo moramos juntos, um ano ou dois. Mas lembro da gente conversando, rindo, era muito bom. Em março de 1968, estreamos nosso segundo trabalho, O capeta em Caruaru, com o Grupo 3. Uma comédia em um prólogo e dois atos. Foi meu primeiro trabalho profissional no Teatro Nacional de Comédia, avenida Rio Branco. E o

elenco contava com José Wilker, Carlos Vereza, Creuza de Carvalho, Maria Esmeralda, Thelma Reston, Rafael de Carvalho, Roberto Bomfim, Maria Pompeu e outros. Estávamos no auge da ditadura, o estudante Edson Luís havia sido assassinado, o ai-5 decretado pouco antes. Um momento de muita tensão e também de efervescência cultural. As personagens não tinham nome, eu fazia a Primeira Bruxa e a Primeira Beata.

Em 1972, Amir dirigiu Tango no Teatro Tereza Rachel, com Sergio Britto, Tereza Rachel, Ary Coslov e a Elza Gomes, com quem tive a alegria de trabalhar três vezes. Fazíamos sessões de quarta a domingo, duas na quinta, duas no sábado e duas no domingo. E o teatro sempre cheio! Minha personagem era a Aline. Em 1973, foi a vez de Festa de aniversário no Teatro Senac Copacabana, com produção do Sergio Britto, que também atuava. No elenco, estavam Claudio Marzo, Roberto Bomfim, Elza Gomes e Afonso Stuart. Já em 1975, estreamos no Teatro Treze de Maio, em São Paulo, Vagas para moças de fino trato, com Yoná Magalhães e Glória Menezes, que produzia o espetáculo com o Tarcísio. E, em 1997, por fim, estreou nosso – até agora – mais recente trabalho: Noite de reis. Minha personagem era Olívia. Considero um dos espetáculos mais bonitos do Amir. Orgânico, popular e muito shakespeariano – ao mesmo tempo tão brasileiro. O elenco era incrível, estavam Tonico Pereira, Pedro Cardoso, Daniel Dantas, Claudia Abreu, Malu Valle, André Gonçalves, Claudio Mendes e muitos outros, maravilhosos. Tudo era bom. Foi um estrondoso sucesso.

Temos muita vontade de nos reencontrarmos no palco, eu e Amir. Afinal, é meu mestre. O tempo não passa. Roda. A serpente morde o próprio rabo, como ele ensina. Fui salva pelo teatro. Em épocas difíceis, como agora, a vida cultural é a única ferramenta de diálogo e resistência que possuímos. Temos de escolher as armas com que lutar. A nossa é a mais linda de todas: a arte. Para mim, a arte é um lugar de liberdade. Quem me ensinou essa liberdade foi o Amir. Espero que, todas as vezes que ele me vir em cena, se sinta orgulhoso por ter aberto todos os canais do teatro e da vida para mim.

De vez em quando, quando não estou trabalhando com ele, ligo e peço opinião sobre algum outro trabalho em que esteja envolvida. Os diretores são sempre muito importantes para mim. Não posso jamais prescindir deles. Amir é um professor, um filósofo, e isso faz toda diferença para quem trabalha no dia a dia com a sensibilidade sobre a vida. É um homem altamente politizado – algo muito

importante. Enfim, um gênio. Coloca sempre desafios para o ator. Temos que sair do lugar confortável. Não só como atores mas como pessoas. Ele implica o indivíduo em todo o processo. Trata-se de uma atitude só perante o mundo.

Amir diz que a cultura representa nossa ancestralidade e permanência ao mesmo tempo. É o que nos dá força para continuar. Esse trabalho que você está fazendo, Thiago, a biografia desse grande homem e filósofo do teatro, é importante demais justamente nesse sentido, porque faz parte de um processo de reorganização dos nossos afetos, da nossa ancestralidade por meio da inteligência de quem nos representa tão bem, olhando para o futuro. Obrigada.

RENATA SORRAH, atriz, via conversa telefônica e áudios de Whatsapp. 6-7 de janeiro de 2022

DEPOIMENTO DE RICARDO PAVÃO - POSTSCRIPTUM

Esta biografia, sem ser propriamente um método, é importantíssima no sentido de registrar as bases da trajetória que propiciou o antissistema haddadiano, contexto sem o qual a própria compreensão de um eventual método estaria comprometida se um dia Amir resolver deixar as pegadas desse sistema que revoluciona, sem dúvida, o teatro brasileiro e que busca compreender as implicações ideológicas que a arte traz ou pode trazer. Ele acha que não vai morrer nunca, mas eu já o desiludi. Por isso este trabalho é valioso para todos nós que o amamos e amamos o nosso teatro. Por meio dele, nós, do tNr, e até o próprio Amir poderemos compreender melhor quais sementes plantamos e a dimensão real do que desenvolvemos ao longo de tantos anos.

Muita coisa feita hoje como dado adquirido – ou, pior, como experiência original – não só já havia sido feita como foi inventada pelo Amir. É preciso que não percamos nunca isso de vista. Então, se tivéssemos que estruturar seus esteios principais de trabalho, a partir do que acompanhei da vida e da obra dele desde Somma, acho que poderia dizer que este se baseia em três pilares: o futebol, a umbanda e a religião. Por meio da linguagem popular. Nesse sentido é que entra também o carnaval. Desde o início usamos marchinhas nos nossos blocos para fugir do que era consolidado socialmente, isto é, o samba. A linha musical do tNr também sempre evitou o senso comum.

É engraçado hoje lembrar das nossas “transgressões”. Entre uma escola e outra nos desfiles de segundo grupo, furávamos a proteção cantando marchinhas.

Éramos um bloquinho de 25 ou 30 pessoas, só que muita gente que só assistia acabava entrando também naquele hiato, e lá íamos pela avenida Rio Branco. Aprendemos muito sobre cortejo popular com essas incursões.

Só chegamos à cabeça de uma pessoa pelo coração. Nunca o contrário, diz Amir. Então nos apropriávamos afetivamente das formas de linguagem popular brasileiras para podermos adentrar as mentes do nosso público por meio de suas afetividades e contéudos inconscientes armazenados.

Estudamos muito o reisado, o bumba meu boi, o jongo, a congada, o cordão encarnado. Mas nunca nos contentamos em reproduzir essas formas.

Pesquisávamos as origens e as linguagens a fundo. A razão de cada manifestação, as fundamentações históricas. E ficávamos só com o conteúdo. Foi numa excursão

ao Nordeste que o público nos ajudou a perceber que nós éramos “brincantes”. Isso se tornou um conceito.

As máscaras foi um dos melhores momentos do nosso grupo em que aplicamos essa ideia. A Marilena fazia a personagem de uma empregada denunciada pelo patrão (feito pelo Amir) com a acusação de que ela o estava roubando. E a prova disso era o fato de a geladeira dela estar cheia. Afinal, com o salário que recebia, ela nunca compraria tanta comida. Então ia presa. Já começava, portanto, com essa dialética. O argumento que o patrão usava para incriminar a funcionária depunha de certa forma contra ele também, porque revelava a estrutura de desigualdade social por meio do baixo salário que ele lhe pagava.

A partir desse “enlace” – termo da commedia dell’arte que nós não usávamos, embora o conceito fosse exatamente o mesmo –, desenvolvíamos horas de conteúdo improvisado, e com grande participação do público que, como brincante que também era, interferia: “Tem que ir presa mesmo, com esse salário, tanta comida só pode ser roubada.” Certo dia, um rapaz da plateia, visivelmente humilde, tomou parte da cena e falou alto para o Amir: “Eu vou ser seu advogado”. Mas logo depois, se chegou mais perto dele e, baixando o tom, sussurrou: “Põe dinheiro no meu bolso! Faz eles verem que você está me comprando pra te defender”. Ou seja, ele entendeu toda a nossa linguagem e entrou no jogo com a mesma técnica da contradição. De uma sofisticação enorme e, ao mesmo tempo, supersimples!

Afinal, se é errado roubar, e a empregada roubou, por que o patrão precisaria subornar um advogado? Algum rabo preso ele tinha. E aí se explicitava de outra forma o mesmo conteúdo. Ou seja, a miséria de salário. Quem estava certo ou errado ali? Então a plateia, por mais humilde, acessava a linguagem com um imenso nível de percepção, porque trabalhávamos neste eixo dialético mas de modo popular.

Trabalhávamos com várias situações e “máscaras”, que não eram máscaras reais, mas sim arquetípicas. Havia a mulher que abraça; o homem que coça o saco; a mulher que grita, rodopia e cai; o negro do grupo (que eu fiz muitas vezes); o patrão/chefe (que o Amir sempre fazia); a índia; o homem que salta obstáculos; a mulher que sofre (feita pela Rosa Douat, a partir da música “Vingança”, do Lupicínio Rodrigues) e muitos outros. Aliás, essa mulher que sofre era engraçada porque o Amir perguntava para a plateia: “Por que esta mulher sofre? Ela sofre por causa do marido”. Aí ela sofria… “Ela sofre por causa de emprego”… E ela sofria… “Ela sofre pelos preços do supermercado”. E ela sofria… Até que chegava o momento

em que a gente gritava: “E ela sofre por causa do iNPs”. Aí ela morria. Dava um grito: “Ahhhh!” E caía dura. Virava outro tipo de teatro porque começávamos a perguntar para a plateia o que a faria renascer. E invariavelmente o modo de a plateia ajudar era por meio de atos amorosos. Tinha gente que ia beijá-la, que a abraçava, que cantava para ela, coisas até de afetividade mais escancarada. A Rosa tinha um trabalho muito sólido nesse sentido porque estudou profundamente a commedia dell’arte, fez tese sobre isso.

Outro exemplo do mesmo trabalho: eu fazendo o negro do grupo, que uma hora se revoltava contra suas condições, tacava a porrada em todo mundo e matava o patrão. Estávamos nos apresentando na favela do Pavãozinho. E havia um grupo de moleques bem jovens que, quando “matei” o Amir, me pegou rapidamente pelo braço dizendo “Corre, corre!”, e me levou pelos “caminhos de rato” que naquele momento descobri existirem debaixo dos barracos. Era toda uma rede escondida de acessos usada para se fugir da polícia. Foram me guiando, rastejando por baixo dos barracos até chegarmos numa espécie de saleta, o esconderijo deles. Tinha até sofazinho e televisão. E de lá não me deixaram sair até o fim do espetáculo. Que tal?

A título de documentação ainda: o conjunto original do tNr nasceu de uma fusão entre o que sobrou do grupo de Niterói, depois de termos sido expulsos do DCE, e alguns integrantes da oficina que Amir deu no Teatro dos 4. Eu andava afastado por estar um pouco cansado da rotina de estudar ad eternum o Morrer pela pátria. Mas nesse momento voltei, ainda mais porque havia moças lindas no grupo. Tanto que acabei me casando com uma delas, a Lucy Mafra, que infelizmente faleceu muito prematuramente. Em nossa primeira incursão na rua após fusão com os alunos do curso no Teatro dos 4, Amir não estava, como ele já deve ter contado. Nossa sede era a ceu e surgiu a ideia por parte das mulheres de mostrar na rua o que vínhamos fazendo. Fomos já com o tambor, que eu tocava muitas vezes até sangrarem as mãos. O elenco original era composto por Amir, Artur, eu, Sergio Luz, Gondim, Ana (que também vinha do grupo de Niterói, embora não de Somma), Betina, Lucy, Rosa e Marilena, estas vindas do Teatro dos 4. Fomos para uma praça chamada Canoinhas, próxima à sede cujo prédio ainda existe. Cantamos uma musiquinha, tocamos e voltamos rapidamente cheios de temor e alegria!328

328 Diferentemente da primeira incursão pré-fusão dos alunos do Teatro dos 4 com o grupo de Niterói, na qual se encenou, igualmente sem Amir presente, o cordel São Jorge e os invasores da lua, segundo depoimento de Rosa Douat para este livro.

O tNr ficou cult no Rio de Janeiro de um jeito curioso. Quase niguém tinha visto, mas todo mundo adorava. Com o tempo, fomos adquirindo experiência com grandes produções e ganhando notoriedade. Até que Joãosinho Trinta chamou Amir para Ratos e urubus. Joãosinho era muito barroco, ia construindo o enredo na medida em que era desenvolvido, parecido com o trabalho do Amir. Fizemos rigorosamente tudo.

A Beija-Flor deu o maior apoio para todos, doando material e colaborando com os ateliers. As fantasias dos mendigos contavam com 30 metros de pano de chão cada uma, que envelhecíamos cada qual à maneira que julgasse melhor para o “seu” mendigo. Usávamos ráfia, juta. E minha irmã foi quem maquiou todo mundo para a entrada na avenida, com guache preta e marrom. Começamos a ensaiar, tanto a ala quanto a Comissão de Frente, no Circo Voador. Nos reuníamos três vezes por semana. Eu era o gerente dos encontros, e ensaiávamos com chamada. Três faltas e a pessoa era banida do grupo. Infelizmente cortei muita gente. Houve gente chorando para voltar, mas era uma regra interna. Tínhamos um ritmo rigoroso de trabalho que consistia em desenvolver a teatralidade da ala a partir da ideia dos “trapos da fantasia”. A famosa frase do Amir sobre nos vestirmos com os “trapos coloridos da fantasia” não veio inteiramente daí, mas tenho a convicção de que o episódio o ajudou muito a chegar na ideia-conceito de se despir da “couraça ideológica” de que tanto fala até hoje.

Eu frequentava muito o barracão da Beija-Flor que, naquela época, ficava ao lado do sambódromo. Buscava material no almoxarifado e coisas assim, até que um dia percebi que o Carro do Cristo não ia ser colocado em cena. O Joãosinho nunca nos disse isso claramente. Mas o carro já tinha dado muita confusão. Fomos chamados para finalizá-lo, como forma de tentar driblar esses entraves, porque, inclusive, faltava mão de obra naquele momento. Fizemos uma força-tarefa: eu, Artur, o San Alice Hashimoto (de Nagazaki, que hoje mora em Tóquio e está casado com uma moça de Nova Iguaçu. Foi ele o artista gráfico do Tá na Rua que criou a programação visual de Uma casa brasileira, com certeza), e um outro japonês amigo dele, que não falava nem uma palavra de português e que, segundo o San, era oriundo de uma família cuja linhagem era de samurais. Havia também o Roberto Black. Ficamos quatro dias virados no barracão, dormindo e comendo por lá. Lucy, já minha mulher, também frequentava muito, embora mais encarregada das fantasias.

No ano seguinte, ainda fizemos outro desfile da Beija-Flor, trazendo esse sentido de teatralização do carnaval e carnavalização do teatro. Até que fomos chamados para um desfile do Salgueiro sobre a cidade de Natal. E daí começamos a receber convites de diversas prefeituras, não só do Rio Grande do Norte mas principalmente de lá, para realizarmos grandes eventos teatrais no contexto das festas populares de cada município. Amir fez a parte profana do Círio de Nazaré em Belém do Pará algumas vezes. Em 1991, Aderbal Freire-Filho nos chamou para o evento de reinauguração do Teatro José de Alencar em Fortaleza. Também fomos para Macapá, demos oficinas em Cuba etc. A ordem cronológica não tenho a menor ideia de qual seja. Mas foi um período grande de tempo, em que as atividades do tNr desenvolveram esse braço forte fora das pesquisas de linguagem do grupo estritamente, aplicando-as a big projetos de que tenho muito orgulho mesmo de ter participado.

RICARDO PAVÃO, ator e músico. 11 de fevereiro de 2022

DEPOIMENTO DE SAN ALICE HASHIMOTO

UMA POSSIBILIDADE CHAMADA AMIR HADDAD

Acho que foi em 1981 que entrei em contato pela primeira vez com a Possibilidade chamada Amir Haddad. Vera Aché, atriz e aprendiz de bruxa, na época ceramista, estava morando conosco num atelier coletivo de cerâmica de alta temperatura em Secretário. Ela falava muito de Amir e das Oficinas de teatro do tNr que aconteciam na ceu e queria que eu fosse com ela até lá. Eu era de artes plásticas. Poesia de rua. Arte conceitual. Performances. Contracultura. Teatro nunca tinha sido minha praia. Mas fui e fiquei desbundado. Paixão à primeira vista.

Sincronicamente, neste dia Amir falava sobre a peça Marat-Sade, de Peter Weiss. Uma obra que questiona se a verdadeira revolução vem para mudar a sociedade ou ao indivíduo apenas. O posicionamento político-cultural, o radicalismo e a profundidade do comprometimento com a própria proposta de Amir, além do nível de liberdade, me deixaram de queixo caído e absolutamente excitado como Príapo no cio. A participação em Marat-Sade era voluntária. A linha demarcatória entre a plateia e o corpo de atores era apenas o pique de subir ao palco e exercer seu papel, qualquer que fosse (você tinha que descobrir).

Entrei com tudo como membro do elenco dos atores-loucos da “peça do Marquês de Sade”. Lembro que peguei uma espécie de echarpe de plumas azul e a coloquei de dentro da calça para fora da braguilha, como um pinto esvoaçante de 40 centímetros. Vera ficava quicando na plateia, morrendo de vontade de participar, mas não conseguia tirar a bunda da cadeira. Depois desse dia, minha participação nas Oficinas, que aconteciam todas as segundas, passou a ser religiosa, em todos os sentidos. O teatro de Amir mudou minha vida. Até hoje continuo fiel às mudanças que essa proposta me proporcionou.

“Apesar do dia enforcado entre dois feriados, o Grupo Tá na Rua realizará hoje, a partir das 20h, no Teatro da CEU, mais uma das suas Oficinas de Teatro […] patrocinadas pela Fundação Rio. As edições anteriores têm atraído bastante interesse. Na primeira quinzena de maio, a convite das Universidades Federais da Paraíba e de Pernambuco, o grupo orientado por Amir Haddad fará uma visita ao Nordeste. Incluindo apresentações de teatro

de rua e oficinas parecidas com a desta noite. Em estudos, também, um convite da Fundação Teatro Guaíra, de Curitiba, para um trabalho mais prolongado no Paraná.” (JB, 20/04/1981).

A estrutura dessas Oficinas, que aconteceram mais intensamente entre 1980 e 1984, era bem simples e consistia de: máscaras; araras e cabides com roupas, indumentárias de todo tipo: trajes de época, vestidos, quimonos, smoking e tudo que se possa imaginar, a maioria doada; adereços como espadas, armaduras, armas de fogo, facas, leques, câmeras, bandeiras, instrumentos musicais, uma discoteca extensa e eclética que ia desde repertório clássico a jazz, MPb, rock, tudo usado na “sonoplastia”.

Aliás, esse era um elemento fundamental. O encarregado da “sonoplastia”, ogã da gira, era Ricardo Pavão, acompanhado de seu assistente Roberto Black (que Deus o tenha). Ele sentia o clima do dia e transformava essa intuição em música!

Às sete horas da noite de uma segunda-feira do segundo ano da década de 1980: a música começava a tocar e, com ela, a mágica do Amir e do Tá na Rua. O mago mais uma vez iniciava os trabalhos levando os presentes ao fundo do buraco de uma toca de teatro revolucionário. As possibilidades de todos começavam a desabrochar. Com a dança descontraída dos atores/médiuns presentes, os personagens começavam, aos poucos, a “baixar”: reis, rainhas, generais, soldados, mulheres sedutoras (nem sempre em corpos de atrizes) etc.

Nos três anos em que participei desta correnteza poderosa, vivemos momentos de grande dramaticidade, sentimentos profundos, histórias nunca dantes reveladas teatralmente. Depois da catarse final, “batendo para subir” quantas vezes fosse necessário, para que nenhum ator/médium permanecesse com o personagem preso a si, fazíamos a avaliação. O que foi bom, o que podia ter sido melhor, o que não foi legal. Amir sempre insistia em “projetar grande” cada ação, cada expressão. Era incrível como atores e atrizes pequenos em estatura se agigantavam projetando com plenitude suas “entidades”. Os “orgasmos precoces” eram apontados e corrigidos. O teatro tem seu tempo para se desenrolar. Era preciso sentir o fluxo da história se desdobrando, e se deixar levar no tempo do teatro, não no tempo da realidade. Consciente mas em transe.

Amir falava muito do ator como “jogador”. O teatro é como uma partida, onde os atores trocam passes, fazem tabelas, dão dribles, fintas, fazendo a plateia vibrar em jogadas espetaculares, até o gol final. Sim, éramos “jogadores de teatro”, e

jogador precisa treinar todos os dias. As Oficinas eram treinos coletivos sem nenhuma ordem ou direção explícita; nos exercitávamos sob a batuta de um “maestro” sub-reptício mas supremo.

O fato de a maioria das Oficinas serem “mudas” não impedia que algumas fossem dedicadas aos autores favoritos de Amir, como Shakespeare. Fazíamos muito Ricardo III, Macbeth. Já com Brecht (Galileu Galilei, principalmente o diálogo entre o gênio e o Pequeno Monge), aprendíamos a partir do efeito de distanciamento que não temos de sofrer com o personagem, não precisamos nos identificar com ele. A explicação de Amir sobre a razão de as oficinas, na maior parte das vezes, serem “mudas”, como no teatro Nô ou no cinema mudo, era a de que a “palavra”, que surge no ser humano num estágio histórico mais “avançado”, e que passa necessariamente pelo lado racional da mente, muitas vezes inibe, bloqueia e reprime o fluxo das emoções e sentimentos, assim como o movimento livre do corpo, no ator em sua fase inicial de libertação expressiva. Para conseguir essa libertação, é preciso muito treinamento. Isso era executado sem a palavra. Só depois os que queriam realmente se iniciar nas artes teatrais revolucionárias do Amir aos poucos eram chamados para outros grupos que, sob a supervisão dele e de Artur Faria, estudavam o teatro de “texto”, da “palavra” como a grande arma da expressão, na nova linguagem teatral que estava sendo proposta.

Foi assim que se criou o “Instituto Tá na Rua” natural e organicamente entre os frequentadores mais assíduos das Oficinas-Giras das Segundas-Feiras. E, além dos grupos que estudavam textos de grandes dramaturgos, foram sendo formados outros núcleos, como os de Música (sob a batuta de Ricardo Pavão), de Corpo (sob a supervisão de Marilena Bibas) e de Máscaras (sob a supervisão deste humilde vassalo que vos fala). Eram dezenas de inquietos jovens, e outros nem tão jovens, envolvidos apaixonadamente em desenvolver um “Instituto Revolucionário de Teatro”, uma possibilidade de mudar radicalmente a sociedade por meio da transformação da linguagem que domina o mundo. Era como ser convidado a integrar os Beatles, por exemplo. Assim eu me sentia. Pronto para colaborar na transformação do homo-sapiens em homo-ludens, como Amir não cansava de repetir. A “Nova Linguagem” criada por ele propunha, assim, a eliminação da couraça ideológica que nos impedia de sermos livres, numa relação direta com a realidade. Não bloquear nenhum sentimento ou impulso do nosso coração em nome da conveniência, do lucro, da repressão ou ideologia era o que exercitávamos com afinco.

E o ensinamento máximo do Amir: o povo já faz isso! O sentimento popular é direto e vivo. O povo fala e age com o corpo inteiro. Não tem papas na língua, nem é reprimido pelas “boas maneiras”. Esse é o sentimento popular. Essa é a “Linguagem do Povo”. Ela já é revolucionária. Só precisa ser reconhecida e resgatada. Com informação e inteligência. A linguagem do Amir é isso: o resgate da linguagem popular como possibilidade não só do teatro, mas de todas as formas de expressão.

Para finalizar, gostaria de lembrar a ocasião no Instituto Tá na Rua, em que Amir me incumbiu de fazer uma apresentação sobre o Teatro Nô e Kabuki japoneses. Fui ao Consulado do Japão e consegui emprestados filmes documentários e didáticos sobre o teatro tradicional do meu país, que exibimos numa das Oficinas. Amir entendeu tudo na hora: “O Kabuki (que em japonês significa cantar, dançar e representar) é a revista do Nô!”, ele disse. A forma mais antiga do teatro japonês segue viva no Nô, um teatro quase religioso, como os ritos dionisíacos. Expliquei para Amir o significado do ideograma Nô, que significa “capacidade” ou “possibilidade”. Amir adorou. É isso: “Teatro é Possibilidade!” Ele continua repetindo essa frase até hoje e, queira Baco, que por muitos anos mais ela o inspire.

SAN ALICE HASHIMOTO, ator e diagramador visual do Tá na Rua. Okinawa, Japão, 5 de abril de 2022

POSTSCRIPTUM – o SíMbolo Do tÁ nA rUA

Eu nem sabia que a arte que fiz para ilustrar as camisetas do tNr, há quase 40 anos, tinha atingido o status de “logotipo”. Me sinto honrado e feliz com isso. A ideia surgiu com a necessidade de confeccionarmos essas camisetas para identificar a “Equipe Tá na Rua” que administrava o projeto “Novos Rumos, Novas Caras” no Teatro Villa-Lobos, em 1984. A imagem do saltimbanco surgiu como busca pelo conceito que melhor definisse o grupo: o teatro proposto remonta aos tempos imemoriais, junto do surgimento do homem no horizonte mítico da história. Rituais dionisíacos, rodas e giras onde baixavam as primeiras entidades teatrais. O Circo Etéreo, que existe no inconsciente coletivo da humanidade desde a pré-história.

Já mais recentemente, na Idade Média e na Renascença, o Tá na Rua ganha uma origem, uma referência e parentesco muito fortes com a comedia dell’arte, com seus palhaços, arlequins e colombinas que, por meio das máscaras, tomavam corpo e assim se iniciava o “estado de teatro”. Um teatro de improviso, de rua, com

personagens mais ou menos fixos que encenavam tudo o que estivesse “no ar”, assim como o tNr, que discute a realidade através da Mulher que Sofre, do Escravo, do Patrão etc.

E o ator principal desse Circo de Rua, o elemento que ativa a gira, é o espírito do palhaço, o clown, o giullare, o coringa, o joker renascentista, irreverente, brincalhão, insubordinado, questionador, que ri de todas os conceitos preestabelecidos. Este é o palhaço arquetípico que baixa no Amir, que fala, dança, pula e voa, mesmo “sem os pés”, que estão para o alto no meu desenho, a fim de mostrar o mundo de cabeça para baixo, síntese simbólica da subversão do já estratificado, o que significa dizer: uma proposição das possibilidades que Amir sempre nos oferece perante a vida.

SAN ALICE HASHIMOTO. Okinawa, Japão, 4 de maio de 2022

DEPOIMENTO DE SILVIO TENDLER

Segundo Raul Seixas, eu nasci há 20 mil anos atrás, junto do Amir. Não sei se ele nasceu antes ou depois de mim. Mas nascemos quase juntos. Fomos nos tateando pela vida por muitos anos, nunca houve uma apresentação formal. Mas nos anos 1980 fui diretor de arte e cultura da Fundação Rio – Rioarte (1988) e Amir foi contratado por nós para fazer trabalhos com o Tá na Rua. Era o governo do Saturnino Braga. E começamos a nos encontrar.

Depois, houve outro ponto de contato. Tive duas namoradas – uma de cada vez, bem entendido – , que eram, ambas, atrizes do grupo do Amir. Por essa razão, tive oportunidade de estar mais perto dele também. Frequentei muito os ensaios de Dar não dói, o que dói é resistir. Também fiquei muito próximo do Alexandre Santini, que, além de estar no elenco como ator, era assistente do Amir na peça – um trabalho histórico, muito próximo da pegada dos meus filmes, aliás.

Então, eu e Amir sempre nos encontramos, até que a “formalização” da amizade em 2009 veio num momento de crise do país. Ele estava dirigindo Bodas de sangue, no Espaço Tom Jobim do Jardim Botânico, que era uma peça maravilhosa. Eu sou amigo de alguns atores e atrizes do elenco, então sempre era convidado a participar dos ensaios. Até que um dia, no café, ele me confidenciou a ideia de fazer uma peça chamada Alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo. Eu amei aquilo. Na hora respondi que queria filmar a peça e fazer a biografia do Amir no cinema a partir da filmagem.

Nasceu assim, portanto, o projeto do filme, que ainda está em curso. A partir dali, venho filmando, acompanhando muito do que ele faz. Regularmente nos encontramos, sendo que, antes disso, ele chegou a gravar para mim uma das locuções do meu filme Utopia e barbárie (2009). Eram ele, o Chico Diaz e a Letícia Spiller narrando a história. O filme abria e fechava com uma caixinha de música, daquelas que se vendem em Paris, tocando a Internacional. Amir deu as falas dele no improviso a partir de textos meus e, no final, quando acabou a música da caixinha, ele simplesmente a pegou espontaneamente e pôs no ouvido, como que para continuar escutando a música. Roubou a cena. Com esse gesto tão simples, ele criou o fim do filme para mim. Foi um dos momentos marcantes do Amir nesse trabalho. O outro foi no meio do documentário, em que se conta a visita de Sartre ao Brasil, que foi recepcionado por figuras como Jorge Amado, Fernando Henrique Cardoso e Antonio Candido. Nessa época, Amir

estava em Belém do Pará, onde Sartre teve de fazer escala de alguns dias no seu voo de volta a Paris, com Simone de Beauvoir. O filósofo trazia uma mala cheia de livros, ganhos em cada um dos lugares por onde passou no Brasil. Todo mundo queria fazer uma dedicatória a ele, afinal era uma verdadeira carta-testamento ter autografado um livro para Sartre. Mas era tanta coisa, que o pai do existencialismo se desanimou com o peso e resolveu deixar a mala na casa do Benedito Nunes, onde o Amir morava.

E eu ganhei de presente essa história preciosa. Achei aquilo sensacional. Vale mais do que se ele tivesse me dado um livro autografado pelo Sartre. Então, nossa amizade foi num crescendo, para não falar dos nossos amigos em comum, como dona Fernanda Montenegro. Certa vez, tive a honra de chamar um táxi para Sérgio Ricardo ir até minha casa, de onde sairíamos juntos para o aniversário do Amir. Foi o grande reencontro dos dois, passadas tantas décadas de O coronel de Macambira, para o qual Sérgio compôs a trilha sonora. Também tive a alegria de apresentar o Amir ao Luís Carlos Maciel. Dois gigantes da nossa cultura conversando em meu estúdio. Imagina! Histórias como essas permeiam nossa amizade.

Também tive a honra de ter o Amir em mais dois filmes meus: Memória do movimento estudantil – ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil (2007) e O veneno está na mesa (2011). Amir é um grande homem e um grande artista. Considero um privilégio ser seu amigo e mal posso esperar pelo lançamento deste filme biográfico que estou terminando de fazer.

SILVIO TENDLER (in memoriam), cineasta, historiador e professor. 6 de março de 2022

DEPOIMENTO DE TONICO PEREIRA

Thiago Sogaya Bechara me convida a escrever sobre Amir Haddad que, entre outras tantas alegrias, me deu a de prefaciar minha biografia pela Coleção Aplauso, escrita pela querida Eliana Bueno-Ribeiro. Thiago me pede esse testemunho alegando que eu conheço Amir o suficiente para fazer uma declaração sobre ele. Thiago, perdão, mas você está enganado. Eu não conheço o Amir e ele não me conhece. Amir é um homem sempre em processo e progresso. Eu tento imitá-lo o mais fielmente possível. Isso nos faz perceber que a cada encontro vamos nos descobrindo um ao outro completamente diferentes do que pensávamos ser, eu sobre ele e ele sobre mim. Uma relação de descobertas em todos os novos encontros, deixando no arquivo morto os encontros já passados. Essas são as nossas práticas de convivência, sempre nos surpreendendo em busca de novas respostas para este mistério que é viver nestes tempos. Somos mutantes a caminho de um futuro que, espero, seja sempre melhor que os nossos passados e sempre sonhando em nossas práticas teatrais com um povo feliz e um Brasil melhor, pois elas nos salvam diariamente. Tenho esperança e certeza de que Amir também tem, isso foi o que nossos cinquenta e três anos de convivência me ensinaram. Como Amir sempre nos lembra: Só o Teatro salva! Viva o Teatro! Viva Amir Haddad!

Ps: Nosso propósito é infectar o Brasil com Teatro!!! Vamos lá, Amir! Eu preciso de você cada vez mais!

TONICO PEREIRA, ator. 29 de dezembro de 2021

DEPOIMENTO DE TUCA ANDRADA

Costumo dizer que cinco grandes artistas nortearam meu aprendizado no palco e, consequentemente, na vida. São eles: Ariano Suassuna, Antônio Abujamra, Amir Haddad, Bibi Ferreira e Rubens Correa. Cada um, a seu modo, e muitas vezes sem perceber, me deu a sabedoria, o conhecimento e a expertise de que me valho quando trabalho, e é deles que me lembro sempre quando me sinto perdido ou confuso em cena.

Amir Haddad é de fundamental importância não só na trajetória de grande parte dos atores da minha geração e de gerações passadas, mas também das que estão chegando à ribalta. Sua importância não se resume em ser um dos maiores encenadores de todos os tempos, nem ao seu corajoso e belo projeto de teatro de rua, mas também ao profundo conhecimento que tem da alma do ator; de como guiá-lo a fim de conseguir um resultado expressivo satisfatório. Seu trabalho, para que o ator mantenha a objetividade e não se perca num delírio egoico, tão comum aos atores e sua gigantesca vaidade, faz com que finquemos o pé no sólido, na terra, no informado pelo texto dramático, no palpável, para que voos maiores sejam possíveis. Sua insistência para que um ator perceba e compreenda o que é, de verdade, “estar em cena”, é a insistência para que nos mantenhamos atentos, fortes, vivos e para que percebamos a força vital e transformadora que o Teatro exige em cada récita.

Sou extremamente grato ao fato de um artista do quilate e com a sapiência de Amir ter cruzado meu destino por duas vezes – em O mercador de Veneza, de Shakespeare (1996), e em Mão na luva, de Oduvaldo Vianna Filho (2001-2). Nem sempre é fácil – algumas vezes é muito duro – trabalhar com ele; Amir te desestabiliza, puxa teu tapete, te desafia, exige tua coragem, mas comprova a máxima de Nietzsche segundo a qual “é preciso ter o caos dentro de si para gerar uma estrela dançante”.

TUCA ANDRADA, ator. 30 de janeiro de 2022

DEPOIMENTO DE VANNESSA GERBELLI

Pensar no Amir sempre me traz uma onda de emoção, de gratidão profunda. A palavra “mestre” foi superexposta mas quem teve um sabe do que estou falando: ter alguém que te faça relembrar verdades retumbantes adormecidas na consciência. Admiro profundamente – invejo, na verdade – a capacidade que ele tem de ser coerente com o que sente, pensa, diz e faz. A maioria das pessoas (e me incluo nelas, por isso acho que o teatro foi terapêutico na minha vida) se perde em contradições entre essas funções, mas ele parece ter a maestria de orquestrá-las, resultando numa sinceridade contagiante que torna seu trabalho incomparável. Nunca sou tão sincera como quando estou na presença do Amir. Tenho vergonha de mentir, tanto em cena quanto fora. Deus me livre.

O primeiro contato com sua maneira de fazer teatro me deixou surpresa e emocionada. Ele fazia o dJ executar músicas sensacionais (daquelas que nos tocam pela beleza, pela palavra, pelo ritmo, pelo que o autor representa), encadeadas de uma maneira fluida e sensível às respostas do grupo; nos fazia simplesmente dançar, do nosso jeito. Nas danças, imagens cheias de significado vão emergindo despretensiosa e naturalmente. A percepção da música, da atmosfera, da troca com o outro, sobretudo conforme ficamos mais à vontade no palco, já preparava nossa encenação para o teatro que ele gosta de ver e que aprendi a reconhecer e a amar: uma cena viva, sem o que ele chama de “memória do futuro”. Atores despertos, presentes, prontos para o jogo e, acima de tudo, sem medo. Isso é o mais importante. Nesse treino, os impulsos vão sendo cada vez mais verdadeiros e humanos. Depois do Amir, atuar mecanicamente e comprometida em emular uma “marca” que deu certo no ensaio passado não basta, nem tem mais graça. Outro ensinamento precioso dele é o engajamento com o texto. Ele o vai reconhecendo com calma, atento e seguro de que o entendimento chega aos poucos. Uma história derramada pelo autor por meio de uma subjetividade naturalmente alheia à nossa, com tanto conteúdo consciente e inconsciente, não será desvendada em duas ou três leituras. Aprendi isso com Amir. Ele também não gosta de “cortar texto” em favor de uma agilidade na encenação. Dá tempo para descobrirmos o que é preciso. Quando isso acontece, parece que tudo se acomoda e fica “formoso”, como ele gosta de dizer.

Em nosso primeiro ensaio de As meninas, ele nos disse: “Eu não sei nada sobre esta peça”. Foi um alívio. Ele também me ensinou a gostar de não saber; me instigou a procurar informação e estímulo onde era relevante e necessário (porque ele podia não saber sobre a peça, mas melhor do que ninguém sabia onde procurar). E o lugar necessário, segundo ele

mesmo, está em tudo o que nos afeta. É a vida. Amir morde a vida, mastiga e saboreia os momentos em profundidade e comprometimento, na dor e na alegria, no ódio e no amor. Se isso não for possível, ele se retira. Ou dorme. Quando meu irmão morreu em um acidente, num dia terrível, a fala do Amir ao telefone foi a única que consegui registrar na memória e pareço ouvir até hoje: “Vannessa, a vida é mais forte do que a morte”.

Fizemos também um monólogo on-line durante a pandemia, Sombras no final da escadaria, em 2020. Amir aceitou supervisionar – e eu atuar – a convite do Joaquim Vicente Fares. Ensaiamos na casa do Amir com muito medo de tudo. Era impossível não estarmos apavorados àquela altura dos acontecimentos; era incômoda a máscara, o confinamento, a proximidade hesitante, o texto implacável do Luiz Carlos Góes, o desamparo dos nossos colegas. Tudo doía. Atuar com máscara no rosto parecia um “cala a boca”. Estávamos tão frágeis que a assimilação de qualquer informação era lenta e débil, mas não desistimos e nos permitimos sentir o incômodo e toda a provação. Amir se encontrava triste, desamparado como todo ser humano que não estivesse em negação. Lembro que ele dormia de vez em quando nas minhas falas menos inspiradas, muito frequentes. Era aterrador e ao mesmo tempo educativo. Quando lembro disso, sorrio. Na verdade, não estávamos ali só descobrindo como fazer uma peça, isso acabou sendo secundário. Estávamos tentando não sucumbir, não entregar os pontos.

Estar junto dele naquele período foi uma honra. Ter colaborado de alguma maneira para que aquele homem estivesse atuante, mesmo que todo encapotado indo ao teatro de máscara e spray desinfetante em punho, com suas calças brilhantes, sua boina, seu perfume e seu sorriso para ser o único público presente na plateia da sala; aquilo me encheu de esperança e de amor. Posso dizer que tudo o que faço em meu trabalho é pensando no teatro do Amir, porque ele transformou o que penso e sinto sobre atuar. Nunca mais pensei em “desempenho” ou performance ao entrar em cena, mesmo estando pronta para o salto no abismo. Munida de todo entendimento possível, penso em estar no palco desarmada dos meus próprios julgamentos, desperta, contente, servindo à cena que, por sua vez, servirá à vida. É disso que se trata. Vamos ao teatro para reconhecer e expandir a vida. Para afirmar “isso é possível” e sair da plateia com mais vontade de viver. Como ele diz: “O teatro não importa. O que importa é a vida”. É preciso coragem, mas é simples assim.

VANNESSA GERBELLI, atriz. Outubro de 2021

DEPOIMENTO DE VIVIANE MOSÉ

AMIR HADDAD, A VIDA COMO OBRA DE ARTE

Desde sempre conheci Amir Haddad, vejo nele meu pai e sua imensa fartura, especialmente de afeto. E também as pessoas que fui conhecendo nesta trajetória que se chama vida, pessoas que foram me enxertando sabedoria. Amir representa tudo o que vi e vivi de melhor, sintetiza tudo aquilo que almejo ser: um corpo vigoroso, intenso, que a idade não deteriora; olhos de criança sapeca que vive como se ainda não conhecesse os abismos humanos, suas mesquinharias; mas também uma voz firme, assentada no chão dos seus orixás, suas entidades, seus guias; um homem aberto porque forte, exposto porque suporta tempestades e tormentas; alguém que tem suas armas, seus abrigos, muitos espaços internos, muitos amigos por dentro e por fora; ao mesmo tempo que um homem, ele é uma mulher, por parir o Sandro e tantos de nós que nasceram do seu imenso ventre, ou por meio de suas incansáveis mãos de parteira a inaugurar novas vidas em vidas tão sofridas; seu enorme coração de mãe a acolher os excluídos. Amir aprendeu a fazer de sua própria vida sua obra de arte, como queria Nietzsche. Ele a tomou pelas mãos e a lapidou utilizando coragem, ousadia de caminhar muitas vezes sem chão, na instabilidade do instante, na gira que habita o agora. Faz da vida seu grande palco, onde não cabe atuar, interpretar, mas escavar seu próprio ser até o osso, até a profundidade da pele. Aos atores ele empresta sua presença corajosa, que, por si só, vai desmontando os papéis acoplados à alma, dissolvendo a cantilena da voz que já não diz. E tudo vai ganhando uma coragem íntima, como se ele nos tivesse dando a mão lá no fundo de tudo e dissesse “venha, não tenha medo, exerça aqui o seu sim”.

Conheci Amir desde sempre. Em minha vida, fui buscando pessoas assim e aos poucos construindo esse ser afirmativo, sempre jogando junto à vida, a favor dela. Sem saber, fui compondo esse Amir dentro de mim. No dia em que nos conhecemos pessoalmente, nos reconhecemos na hora e nos amamos (pedi à Maria Helena permissão, e ela me concedeu.) Desde que o conheci, sei que em meus desacertos e desatinos não sou um erro. Ninguém é. Amir me libertou de mim. Somos apenas pessoas tentando existir em sua singularidade. A modéstia que

habita sua estrondosa sabedoria, tanto do ofício do teatro quanto da vida, nos acolhe a todos e aproxima. Das pessoas em situação de rua até os mais consagrados atores e atrizes do nosso tempo.

Ele é o Amir, tem a Maria Helena, sua rainha, tem o Sandro, seu filho, tem seu bando, o Tá Na Rua, que me fez voltar a brincar, e tem a Lapa, o Rio. Amir é parte da arquitetura da cidade, de suas ruas, de sua gente. De um Rio que queremos resgatar, o Rio da arte, da alegria, da parceria, do amor. Amir é Amor. O amor que une os poros, permitindo essa experiência provisória chamada corpo. Amir, meu eterno Zaratustra, é um ser propulsor do laço que nos une. Amir é um ser que acessa o sagrado.

VIVIANE MOSÉ, filósofa, psicóloga e poeta. 9 de maio de 2022

HOMENAGEM A JOEL DE CARVALHO

Entre as pessoas que marcaram profundamente minha existência, desde o período de A construção, está este imenso cenógrafo – sólida e duradoura parceria até o fim de sua vida. Costumo dizer que Joel era uma outra face da minha identidade. O contrabaixo da minha orquestra, embora fosse capaz de lindos solos. Joel tinha para mim um olhar de imensa admiração, que muitas vezes procurei neutralizar, para não aceitar aquele local especial em que ele me punha. Vivo cercado de memórias dele em minha casa, das suas tantas criações para as minhas direções. Mal precisava dizer o que queria, ele intuía na hora a solução. Ou então propunha ele próprio, apresentando ideias para a composição do espaço cênico.

Depois de A construção, precisei cada vez menos de cenografia, já que meus espetáculos passaram a ser muito mais a relação no espaço e com o espaço, mesmo no palco italiano. Ainda assim, a presença do Joel seguiu sendo fundamental. Trocávamos muito; a interlocução com ele era realmente rica. Digo que ele talvez tenha sido meu maior amigo no mundo teatral, ao lado da Maria Sylvia Nunes.

Eu e ele chegamos a morar juntos em Copacabana, naquele mesmo apartamento que dividi com a Renata Sorrah. A morte dele foi absolutamente terrível para mim. Estávamos no Cervantes, um restaurante tradicional do Rio, quando ele simplesmente desmaiou. Descobrimos pouco depois que estava com câncer. Mudou-se para a casa dos pais em Niterói e eu nunca fui visitá-lo, tamanho meu temor de vê-lo naquele estado. Só conversávamos por telefone. Entro em pânico diante de qualquer doença. Acho que herdei essa característica da minha mãe. Quando um de nós, seus filhos, estávamos doentes, ela simplesmente pedia socorro, não conseguia fazer muita coisa.

Nesse período da doença, alguns amigos do Joel, como a Nelly Laport, me perguntavam se eu não visitaria meu amigo, afinal, era nítido que ele estava morrendo. Não fui. Nem o caixão carreguei! Não consegui. Como se eu, inconscientemente, me recusasse a enterrá-lo. Joel morreu em 8 de setembro de 1974. Acho que vale a pena transcrever, como homenagem e documento, parte de uma grande matéria sobre ele que Yan Michalski publicou dois dias depois de seu falecimento, e que fala por mim:

“Tenho muita dificuldade em me conscientizar de que Joel morreu […]. Creio que foi para um trabalho escolar meu que ele desenhou seu primeiro projeto de cenário, quando ambos […] estudávamos na Fundação Brasileira de Teatro,

por volta de 1956 ou 57. Mais ou menos na mesma época, trabalhamos juntos em vários espetáculos do Tablado. Desde aquele tempo ligou-nos uma amizade que não seria enfraquecida pelos longos anos que Joel, a seguir, passou na Europa. Foi ao regressar da França que ele decidiu definitivamente abrir mão de uma promissora carreira de arquiteto, na qual já se achava muito bem encaminhado, e que lhe daria certamente uma confortável independência econômica […]. Quando Joel tornou-se profissional, a evolução do nosso teatro [entrava em] etapa na qual uma responsabilidade toda especial iria ser atribuída à cenografia […]. Joel tornou-se logo um dos principais combatentes dessa revolução, ao lado de Hélio Eichbauer, Marcos Flaksman e Luís Carlos Ripper. […] criou o cenário de Parábola da megera indomável, […] que deu início, pelo menos no Rio, à reformulação radical do espaço cênico; colaborou com José Celso e o Teatro Oficina na sua fase de maior impulso renovador, […] e foi virtualmente o cenógrafo exclusivo de toda a trajetória do Grupo Comunidade, bem como das encenações mais significativas de Amir Haddad […] fora daquele grupo. No ano de 1971, talvez o auge da sua carreira […] “ele foi autor de nada menos que sete trabalhos: A mãe; Vida escrachada; Quando as máquinas param; As hienas; Tribobó city; O marido vai à caça; e Woyzeck […].» […] Artista intimamente ligado ao movimento de vanguarda, Joel ficou, no entanto, exemplarmente ligado às suas raízes artísticas, firmemente presas ao solo do Tablado, […] em cujo palquinho realizou alguns prodígios de aproveitamento de espaço. Maria Clara Machado contou-me o entusiasmo com que Joel discutia com ela, ainda outro dia, já definitivamente preso ao leito do hospital, os detalhes da cenografia e dos figurinos que faria para A gata borralheira, […] próxima montagem do grupo, e que agora foi adiada sine die […]. De todos os profissionais de teatro que conheci, […] nenhum foi mais fundamentalmente amador do que ele. […]: amador, por amar seu trabalho; […] por sentir-se solidário e comprometido com o conjunto de toda a montagem de que participava, e não apenas responsável pela sua […] contribuição individual […].” (JB, terça, 10/09/1974, in: “Joel: um profissional amador”, por Yan Michalski).

Foi uma figura inesquecível. E, no entanto, consideravelmente esquecido nos tempos atuais. Uma injustiça que precisa ser reparada, em memória de um dos maiores homens de teatro que esse país já teve.

O TEATRO E A CIDADE — O ATOR E O CIDADÃO

O TEATRO E A CIDADE – O ATOR E O CIDADÃO329

Tunísia, novembro de 1999

Existe um teatro imanente na cidade. Há uma possibilidade teatral imanente no cidadão e nos ritos de convivência, não prevista na vida da cidade e consequentemente não levada em conta, embora continuamente se manifeste – numa festa, numa barraca de cachorro-quente, num camelô que vende alguma coisa, em tudo. Parto do princípio de que o que provoca isso é a divisão que se estabeleceu, ao longo dos últimos 300 anos, entre teatro e cidade, entre cidadão e artista. A cidade mudou, o teatro não.

Venho trabalhando a ideia de que a cidade é por si teatral, é dramática, e que o teatro está impregnado dessas possibilidades de expressão. Ideia que me leva a procurar eliminar o mais possível a diferença entre cidadão e artista, e a criar um espaço onde é possível a cidadania se manifestar artisticamente; a buscar não separar uma parte da cidade para celebrar o teatro ou a pegar um pedaço da cidade e colocar dentro de um edifício para que ela esteja ali simbolizada, mas sim, a pensar toda a cidade como uma possibilidade teatral – ela é o espaço de representação, suas ruas e edifícios são a cenografia e os atores são os cidadãos.

O produto mais avançado das pesquisas que venho desenvolvendo no Brasil, junto ao grupo Tá na Rua, é a realização de grandes espetáculos-festas, atualmente concebidos como imensos cortejos, a que denominamos liturgia carnavalizada.

Durante anos, nossas pesquisas se desenvolveram em cima de um texto clássico, Morrer pela pátria, de Carlos Cavaco (1936): três atos, com unidade de tempo, espaço e ação. Era um folhetim fascista.

A tentativa de elaborar um espetáculo sobre esse texto de pensamento fascista, autoritário, onde ficasse claro que nós não éramos fascistas, levou-nos a mergulhar em verdadeiro estudo arqueológico sobre a formação social brasileira, buscando o profundo entendimento dos valores ali defendidos – Deus, Pátria e Família – fortemente arraigados na formação de nosso povo; a entrar em contato com nossas contradições e a realizar um longo e profundo trabalho de remoção das identificações.

Se, por um lado, o processo então realizado nos proporcionou descobertas importantes emz relação ao jogo do ator, levando-nos a uma atuação des-envolvida, que apresentava uma realidade, em vez de representá-la, e que permitia que nos reconhecêssemos muito próximos das investigações de Brecht e de sua teoria do distanciamento, por outro, a

329 Comunicação de Amir Haddad proferida em seminário, durante o Festival Internacional de Teatro Africano realizado em Túnis, Tunísia, evento do qual participou como presidente do júri.

demolição da linguagem estruturada do teatro convencional foi revelando outras possibilidades, dando passagem a uma linguagem cada vez mais livre, mais aberta e que identificávamos como mais popular

A confirmação de nossas descobertas, porém, só se deu realmente no momento em que fomos para a rua; foi só então que começamos a entender, na prática, que estávamos conquistando outra linguagem. Foi só então que o trabalho realmente começou a se modificar que as indagações a respeito do palco italiano, da dramaturgia, sobre as maneiras de trabalhar o ator, tudo isso que ficava mais ou menos vago ou teórico, começou a ter concretude. Quando, em 1980, saímos para a rua, não tínhamos nenhuma intenção messiânica ou evangélica; não fomos salvar ninguém. Fomos nos salvar. Tampouco pretendíamos levar cultura para o povo. Fomos para a rua dar continuidade às nossas investigações sobre o espaço – e tivemos muitas informações sobre coisas de espaço. Mas a revelação maior foi trabalhar com um público que desconhecíamos, sobre o qual não sabíamos nada. Foi o contato com uma plateia heterogênea – o povo, na sua concepção mais imediata – que nos obrigou a nos desarmarmos, a rever nossas atitudes, nossos conceitos, nosso modelo de ator, nossa comunicação com o espectador. E, a partir daí, a repensar a dramaturgia, a repensar todo o teatro e a chegarmos ao que poderíamos definir como uma linguagem popular, como em Shakespeare, em Molière, os gregos.

A saída para a rua nos levou ao encontro das origens do teatro, do que pensávamos e sentíamos ter existido antes da captação da linguagem teatral pela burguesia, no início dos tempos modernos – período em que se instalou a hegemonia da Razão, rompendo (mais nitidamente, ao menos) o equilíbrio corpo/mente e em que a fala passou a ter mais força. Caminhamos, assim, em direção ao resgate de uma história do teatro que não é contada nos manuais: a do teatro popular; em direção ao resgate do popular que existe em cada um de nós. Porque nenhum de nós era popular! Alguns de nós vivíamos nos endereços mais sofisticados da cidade do Rio de Janeiro; frequentávamos faculdades... éramos de classe média, brancos, universitários! Todo o processo que deslancháramos, porém, tinha muito a ver com um sentimento nosso de rebelião contra o estabelecido – sentimento esse que se fortalecia diante da realidade política que então vivenciávamos, em um país submetido a um governo ditatorial.

Peter Burke, historiador, em seus estudos sobre cultura popular, ao investigar o aparecimento da dicotomia cultura erudita/cultura popular – que surgiu justamente nessa fase em que se estruturou a sociedade burguesa – faz uma análise muito interessante sobre a obra de Bakhtin e considera que este, quase explicitamente, desenvolve o pensamento

de que popular é tudo aquilo que se rebela contra o estabelecido. Análise que nos auxilia a compreender o processo então vivido pelo grupo.

Durante anos, nós estivéramos na luta contra o estabelecido, insatisfeitos, sem uma proposta para substituir. Durante anos ficáramos mudos; não falávamos língua alguma. Quando desmontamos o estabelecido dentro de nós, começaram a aparecer outras possibilidades: surgiu um teatro que reconhecíamos como popular. Como no carnaval, quando o rei momo está reinando e tudo que é estabelecido é abandonado e reina a desordem, ao sairmos para a rua encontramos o outro lado; viramos o teatro de cabeça para baixo, como um saltimbanco – o símbolo de nosso grupo, o Tá na Rua.

Quando começamos a ir para a rua, praticamente não havia teatro de rua no Brasil. Nosso referencial eram os camelôs e os artistas de rua; eram aqueles camelôs que vendiam mágicas, vendiam remédios para calo e mil outras bugigangas. Nós os observávamos enquanto faziam teatro para vender suas mercadorias: como seguravam a roda, como esquentavam o espaço de atuação, como brincavam com o público – um público que eles em momento nenhum ignoravam, pois sabiam que ele só permaneceria para assistir a suas demonstrações se soubessem conquistá-lo.

Conhecimentos práticos que levamos anos para aprender, para saber ocupar o espaço da roda; para saber abri-la e mantê-la aberta. Depois, tivemos que aprender também quais eram as diferenças entre nós e aqueles camelôs. Por que eles precisavam de uma roda de uma determinada maneira? Por que nós precisávamos de outra? Paralelamente, outras fontes eram utilizadas na formação de nossa linguagem; o contato com ritos religiosos afro-brasileiros, como a gira de umbanda e o candomblé, possibilitava o estabelecimento de relações muito íntimas entre os processos neles desenvolvidos e as formas de representação que buscávamos alcançar em nosso trabalho.

Pouco a pouco, pudemos ousar mais, alargar nosso espaço de representação. A participação no desfile da Escola de Samba Beija-Flor (Carnaval de 1989) nos deu a oportunidade de testar em larga escala todo o conhecimento adquirido em nossas pequenas rodas. Passamos a realizar grandes espetáculos, grandes festas, ocupando grandes espaços.

Mas o próprio movimento de transformação do trabalho nos fez ver que havia raízes ancestrais que nos levavam a recusar aquele teatro que se caracterizava como linguagem de representação da elite cultural; raízes que estavam ligadas às origens religiosas do teatro. Religio / religare – restabelecer as relações entre o homem e seus deuses, entre os homens e seus pares, entre os homens e as cidades onde eles viviam. Essas eram nossas necessidades mais profundas: retomar contato com o sentido de comunhão que é próprio

do teatro. Sentido este que exige uma participação muito mais ativa e até mesmo direta de seu público, e tornam pleno o sentido de festa.

Utilizando textos narrativos – cordéis, autos sacramentais –, passamos a perseguir uma ideia: a da cidade em festa e o teatro acontecendo como parte desse contexto.

O teatro deixando de ser um produto cultural isolado num espaço para se transformar em usufruto da cidade toda. Experiências que, ao se concretizarem, abriram espaço para aprofundamentos ainda mais amplos sobre as questões que envolvem nosso trabalho.

A nossa recusa em relação ao teatro burguês – hoje nós sabemos identificar melhor  –não se limitava a diferenças políticas e/ou ideológicas. Ela se relacionava também à mudança que ocorrera intrinsecamente no teatro, a partir do momento em que este sofrera um deslocamento em seu eixo religioso e passara a ser informado por uma ética e uma estética protestantes. Em nossos sentimentos, havia um enfado em relação ao teatro protestante, desenvolvido pela burguesia capitalista; em relação a esse teatro pragmático, pai do realismo, que tem dificuldade com os grandes espaços, em falar com a cidade inteira. Porque esse teatro exclui parte da cidade! A burguesia criou uma sala, a que chamou de teatro público, mas que, na verdade, é uma sala feita para ela!

No momento em que abri minha cabeça a esse respeito, mudaram as fontes de informação sobre o teatro que atuam dentro de mim e alimentam o meu trabalho. Se nós queremos nos livrar do teatro da burguesia, temos que beber em outras fontes, ou não teremos recursos para criar nossos espetáculos. Vivemos num mundo protestante, mas nossa cultura, no Brasil, é de origem católica, medieval e também islâmica!

Comecei a recuperar fontes vivas dentro de mim. Aí, o que aflorou foram as procissões religiosas que vi na minha infância e das quais participava toda a cidade. Principalmente uma, a mais dramática de todas, que era emocionante e da qual eu adorava participar – a procissão do encontro. Uma parte dela saía de uma das igrejas da cidade, ao mesmo tempo em que uma outra saía de outra igreja e ambas se encontravam em determinado ponto. Uma encenação! Uma trazia Jesus Cristo carregando a cruz e a outra, Maria; quando se cruzavam na rua, ela via o filho sendo castigado. Eram aquelas duas estátuas balançando no alto, apoiadas no ombro das pessoas. Mas era de um impacto fenomenal!

A partir daí, as fontes religiosas que informavam meu trabalho foram ficando mais claras e um novo momento foi se construindo. Tive de começar a pensar o meu teatro com essa possibilidade: o mundo inteiro está no espetáculo, não só um pedaço do mundo. E aí, o que faço tem a ver com o teatro do Shakespeare, com o teatro espanhol, com as procissões de Sevilha ... tem a ver com tudo.

Ao rompermos com os procedimentos éticos da burguesia capitalista protestante, partimos para uma outra realização, para a construção de um outro mundo, dentro do qual a vida comunitária e a cidade estão incluídas. Passamos a agir na contramão do pensamento neoliberal burguês.

Os nossos espetáculos-festas nos revelaram o quanto o aspecto ritual está presente nas grandes manifestações, quando a cidade toda fica envolvida por um mesmo movimento e se permite, como num grande carnaval, virar o mundo de cabeça para baixo. As festas apontam para questões utópicas, aflorando a possibilidade de interação entre as pessoas, entre o povo e seus governantes e, momentaneamente, a cidade é feliz.

Todo o meu trabalho tem se desenvolvido no sentido de dar ao cidadão a possibilidade de se expressar além dos recursos cotidianos que ele tem. A sociedade capitalista privatiza e especializa – porque esse é um sentido prático que interessa ao dinheiro, ao lado material... nós desmontamos esse esquema. Eliminamos essa ideia pragmática de que uns fazem uma coisa, outros fazem outra coisa. Tudo é público e nada é especializado. O cidadão e o artista são as mesmas pessoas e as representações teatrais se transformam em acontecimentos públicos.

Nossos procedimentos, desde o início de nossas investigações, permitiram o desenvolvimento de um jogo de ator mais des-armado e que não se considerava, nem permitia que as pessoas o considerassem, como especial. Um jogo que faz a plateia ficar à vontade e se sentindo autorizada a interferir, porque sabe fazer aquele jogo também. E o desenvolvimento disso – da noção de que todos sabem/têm capacidade para fazer; de que essa qualidade é latente em todos –, reforça a cidadania.

Então, a nossa atuação é uma rebeldia; é um abandono do regime vigente e a busca de outras possibilidades, fora dos padrões tradicionais da sociedade burguesa, que é privatizadora e especializadora. Resulta do pensamento que norteia nosso trabalho e que afasta a ideia de que só poucos são artistas e os outros são espectadores; de uma divisão do mundo entre passivos e ativos. Todos são sujeitos ativos; todos têm participação e interferem na História.

Tiramos a ideia de privatização, transformamos nossas representações numa festa pública; e tiramos também a ideia de que somente pessoas altamente especializadas podem fazer aquele trabalho. Nossa ideia é que todas as pessoas, toda a cidade pode participar; não é nenhuma especialidade o que queremos exibir. Nossos cortejos trazem não os artistas oficiais da cidade, mas pessoas comuns que se expressam artisticamente. Não há nenhuma exigência de experiência teatral. São cidadãos, pessoas do povo que estão ali, fazendo isso – expondo suas possibilidades de expressão.

Nós só conhecemos o lado do cidadão que dá duro, bate pedra, trabalha, não tem alegria, não tem prazer, anda de cabeça baixa. De vez em quando toma um pileque, mas não entra em contato com nada. A festa proporciona a existência de um espaço em que ele se vê livre de seus papéis cotidianos, em contato com sua possibilidade de manifestação, que é maior que a máscara cotidiana que ele usa e que não leva em consideração o seu lado criativo. Esse é o momento em que ele pratica o exercício dessa ludicidade e assume um único papel – o de ser humano livre, criativo, fértil, transformador.

Da mesma forma, quando colocamos todos os cidadãos na rua, a cidade começa a entrar em contato com outro lado dela, diferente do cotidiano – o lado que faz quadrilha, que faz dança, que faz capoeira, teatro, banda, fanfarra. E ela se percebe enquanto coletivo. À medida que ela é tocada por esse aspecto cultural comum, que seus habitantes começam a se sentir parte dela, plenamente, temos ali um povo se manifestando. E quando entra o povo, entra o artístico, o carnavalizado, a cultura, a produção do ser humano que é dali.

Hoje, a nossa festa, o nosso espetáculo, tem essa sustentação ideológica. Temos clareza de quais são as tendências com que estamos trabalhando, que fluxos de conhecimento do ser humano estão nos orientando.

O produto mais avançado de nosso trabalho – os cortejos – não é um produto de mercado, uma beleza a ser vendida. É um produto que procura contribuir para o crescimento das pessoas; é para o consumo da sociedade como um todo, e os temos realizado por meio de órgãos públicos.

Nós os reconhecemos como liturgias carnavalizadas – festas que harmoniosamente misturam o sagrado e o profano. Por meio deles, procuramos restaurar alguns mitos, algumas celebrações da sociedade, recuperando essa comunhão que vem se perdendo, cada vez mais. Voltamos na História para podermos ir adiante.

É por esse caminho que estamos aprendendo a fazer um espetáculo híbrido: com movência e, ao mesmo tempo, com paradas onde algumas cenas são apresentadas. Com ele, estamos aprendendo a desenvolver uma nova dramaturgia, diferente da tradicional, que se aproxima das narrações dramáticas presentes em vários momentos da história do teatro, desde os povos antigos, como a procissão de Osíris, no Egito, em que se representava a vida do deus; como o TAZIYÉ – O martírio de Hassan e Hussein, na Pérsia, onde os maometanos contam teatralmente, numa praça, a história da sangrenta guerra que estalou entre os herdeiros de Maomé, após sua morte. Ou ainda, como alguns grupos africanos contemporâneos ligados à tradição, com suas danças teatralizadas.

Atualmente, estamos descobrindo um caminho – o do criar a narrativa dramática por meio da escrita do próprio espetáculo, afastada de qualquer literatura. Nós não partimos para o diálogo. Começamos a experimentar, nos espaços mais amplos, essa possibilidade de escrever um espetáculo “sem diálogo”. É um espetáculo escrito no espaço e com o corpo, tanto dos atores quanto das pessoas que passam, com apresentação de carros alegóricos. Mais do que na fala, na palavra, os sinais se encontram nas atitudes do ator, na atmosfera do espetáculo, nos desenhos, nas cores, nos objetos.

Temos trabalhado sobre grandes festividades religiosas, como o Natal e festas profanas, como o Carnaval. Nos autos de Natal que fazemos, a história narrada já está arraigada na mente e no coração do povo. Basta jogar um sinal forte que eles o reconhecem rapidamente. Há, dentro do povo, a força dos mitos gregos.

Os primeiros autos foram realizados em espaços abertos, mas sempre ocupando um único espaço, geralmente uma praça que procurávamos transformar em um grande mercado, como as feiras medievais.

Nesse sentido, nossas experiências atuais, ao longo dos últimos anos, têm nos feito levar adiante o aprendizado que tivemos trabalhando com os grandes desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e com outros tipos de cortejos dramáticos que se multiplicam pelo país, guardando sua origem medieval de autos populares, como maracatu, bumba meu boi, folia de reis etc. Junto a esse lado profano, colocamos nossas tradições seculares religiosas de origem católica e transformamos nossos espetáculos em verdadeiras “liturgias carnavalizadas”, com cortejos que se movimentam por toda a cidade, levando em seu bojo de três a cinco mil participantes, que poderão se locomover sem interrupções até o local onde se darão encenações públicas de natureza épico-cultural, ou, então, com paradas intermediárias em que essas apresentações são feitas, como estações de algumas manifestações religiosas nômades da Igreja católica.

Cremos, assim, estar unindo o sagrado ao profano e procurando, dessa maneira, tocar o coração do cidadão e despertar nele o sentido de religação das festas e celebrações, devolvendo ao teatro sua função pública social original quente, garantindo para ele um lugar num futuro imprevisível de realidades virtuais frias. Dessa maneira, enxergamos o teatro como a possível arte do futuro, a única talvez que estará se mantendo dentro do propósito de fornecer ao ser humano espaço para o seu sentimento gregário e comunitário, contribuindo, assim, para a construção de uma nova cidade e uma nova sociedade, onde as diferenças sociais e culturais poderão ser administradas e o sonho utópico da construção da Cidade Feliz possa ser retomado.

CORDEL DO PRÍNCIPE FERREIRO

Cordel é como tirolesa das ideias.

Por ele escorre o fio dos pensamentos. E dentro em cada um bate o alento de um coração rimando com plateias.

Pois não à toa o louvo desta forma, que é forma antiga de uso consagrado, já que das ruas vem dignificado este funâmbulo contrário às normas.

Aedo, bardo, cego rapsodo: pois é tudo isso esse Tirésias retomado. E nele a forja do teatro tem tais modos que o próprio príncipe é que é governado.

Daí cantá-lo em cordel nestas loas, bruxo que os seres toca e se incandesce.

Pois se transforma ao transformar pessoas, sendo o tecido e a linha que o entretece.

E é destas linhas de cordel tramadas, tornadas trapo multicor da fantasia que se vestiu após enfim ser desnudada a pele outrora presa à ideologia.

Se hoje a devolução da arte ao povo também devolve o milenar para o presente –por não vir antes nem depois o ovo –é que a galinha morde a cauda da serpente.

Eternamente humano, novo e velho, teatralmente prenhe de memória,

vê Dionísio ao se mirar no espelho. Por isso é tempo de contar sua história.

Numa longínqua Guaxupé circense ou num crescente mascatear de Rancharias, cravou a cunha à lenha de quem pense que ser palhaço é ser comparsaria.

Do interior chegado até as Arcadas de um Largo São Francisco desamado, nascera uma Oficina, alavancada pelo poder que às vezes tem ser rejeitado.

E é desta história que agora farei a narrativa melhor que puder, se engenho e arte vierem socorrer o cantor que biógrafo se quer,

com humildade e pretensão, porém, de saudar as forças do devir. Mesmo sabendo estarem dele aquém quaisquer palavras, senão uma: Amir.

THIAGO SOGAYAR BECHARA. Ribeirão Claro, 8 de junho de 2022

ANEXOS

AMIR HADDAD Y EL TEATRO POPULAR 330

de Jorge Prada 331

REsUMEN

Este artículo se estructura en una entrevista realizada a Amir Haddad, quien nació en la ciudad minera de Guaxupé (Minas Gerais, Brasil) en 1937, descendiente de una familia de inmigrantes sirios. Su aspecto es inconfundible, siempre dibuja en su rostro una amplia sonrisa. Amable y bonachón, otra de las cualidades de este hombre que ha trasegado gran parte de su vida por escenarios diversos, como un juglar de nuestro tiempo. Ha anhelado desde muy joven un teatro vivo y transformador de la sociedad. Lo que lo llevó a indagar hace más de 50 años, desde su sensibilidad de cazador de historias y memoria, el alma del pueblo brasileño. Ese espíritu festivo y carnavalesco, de indudable carácter carioca, va estar presente en todos sus trabajos. Recogiendo de lo inmediato real trozos de historias, imprimiéndoles niveles de dramaticidad que las hacen atractivas a los ojos de los espectadores.

“La popularidad de cualquier fenómeno debe ser establecida por su uso y no por su origen, como hecho y no como esencia, como posición relacional y no como sustancia.

Lo que constituye la popularidad de un hecho cultural es la relación histórica, de diferencia o de contraste, respecto de otros hechos culturales.” NéStOR GARCíA CANClINI

En Machurrucutu, un poblado cerca de La Habana, se realizó en el mes de septiembre de 1990 el iii Taller de la Escuela Internacional de América Latina y El Caribe (Eitalc),

330 Revista virtual Conjunto 148/149 de 2008, in: “Amir Haddad: el teatro es hijo de la historia” (http://www.casa.cult.cu/publicaciones/revistaconjunto/148/prada.pdf).

331 Maestro en Arte Dramático. Docente Escuela Superior de Artes de Bogotá, Facultad de Artes, Universidad Distrital. Bogotá, Colombia.[Agradecemos ao autor pela gentil cessão do texto.]

alrededor de la temática Técnicas Actuales de la Creación Teatral, dirigido entonces por el gran dramaturgo argentino, ya desaparecido, Osvaldo Dragún […]. Al taller asistieron teatreros (o teatristas) de América Latina, Europa y África. Los cuatro grupos del taller fueron dirigidos por Alberto Ísola del Teatro Ensayo de Perú, Hernán Gené y Guillermo Angelelli del Clú del Claun de Argentina, Flora Lauten de Cuba, y Amir Haddad del grupo Tá Na Rua del Brasil. Por Colombia asistimos el dramaturgo y director José Assad y el autor de estas líneas. Con José fuimos asignados al grupo de Amir Haddad; también estuve en algunas prácticas con los actores argentinos. […] Amir Haddad nació en la ciudad minera de Guaxupé en 1937, descendiente de una família de inmigrantes sirios. […] Su trabajo es reconocido nacional e internacionalmente. Calles, plazas, espacios a cielo abierto, son los lugares donde desfilan sus personajes, se inflan y desvanecen sus imágenes, en un afán permanente por comunicar, dotando al espectáculo del elemento de lo popular, de aquellos  objetos artísticos  que asimilan com placer los transeúntes, sin complicación alguna, sin devaneos y debates filosóficos. Tá Na Rua es una de las más importantes agrupaciones del Brasil, especializada en el teatro de calle. Ha sido un proceso continuo, creador, donde tienen cabida tanto cuestionamientos ideológicos, como éticos y estéticos. […] Se buscaba en parte una nueva concepción de la dramaturgia brasilera, que diera cuenta de otros asuntos que exigían la invención de nuevas formas. […] El hecho de trabajar el teatro en espácios abiertos, los ponía en contacto directo com la realidade […]. Se rescata y revitaliza el narrador, figura muy importante, que según lo plantea Walter Benjamin, está desapareciendo de nuestras sociedades, porque las historias también están desapareciendo. Tanto los pequeños relatos como las narraciones épicas, como lo argumenta Jorge Luis Borges en su Arte Poética. […].

Las búsquedas estéticas de Amir no han estado aisladas, tienen fuerte relación com las iniciadas por otro gran hombre de teatro del Brasil, Augusto Boal y su Teatro de Arena. La teoría boaliana se basa en la utilidad del teatro como ensayo de la acción social. Estimula al individuo a reflexionar sobre el pasado, transformar la realidad presente e inventar su futuro. En el teatro del oprimido el auditorio se compromete activamente como parte de la acción dramática, toma el control. Su objetivo es liberar al individuo de las limitaciones clichés impuestas por la sociedad y ofrecerle medios para solucionar sus problemas. Estas concepciones del teatro lo convertirían en un instrumento de uso, en un medio pedagógico de importantes connotaciones para las comunidades. Sin duda, coinciden con los planteamientos de dos de las figuras emblemáticas del teatro en el siglo XX, Antonin Artaud (1896-1948) y Bertolt Brecht (1898-1956), en relación a la función social del teatro; un teatro

análogo al efecto de la peste para el autor de El teatro y su doble, y un teatro popular en el que los espectadores – como si estuvieran en un  ring  de boxeo – discuten las conductas (ethos) de los personajes. […] En nuestro medio, quienes se dedicaron al teatro a lo largo del siglo XiX eran por lo general intelectuales, hombres curiosos por el conocimiento, que sin lugar a duda estuvieron atentos a los sucesos de Francia y de Europa, y con avidez devoraron muchos textos importantes. […] Tuvieron que pasar 17 años para reencontrarnos con el maestro Amir, que ya frisa los 70 años. Esta vez fue en Tocancipá, donde realizó un taller con jóvenes directores de teatro de Cundinamarca. José Assad llevaba en su agenda fotografías de la estadía en Machurrucutu, lo que nos ayudó a revivir con Amir momentos inolvidables y entre anécdotas y bromas iniciamos este diálogo:

¿Maestro, ¿cómo se inicia usted en el teatro?, ¿cuáles fueron sus primeras experiencias?

Todo fue tan misterioso, uno nunca sabe por momentos cómo pasan las cosas. Desde los tiempos de mi escuela primaria, fui invitado para hacer los discursos, recitar los poemas, me llamaban porque sabía leer bien, me gustaba leer. […] Me destacaba en lo artístico, representábamos los cuentos populares, cuentos de niños. Al director de la escuela le gustaba el teatro y tocaba el clarinete; él nos apoyaba y motivaba mucho.

¿Qué tipo de historias contaban?

Las historias de niños, de la casa hecha de dulces y postres, de la hechicera que quería comerse a los niños, nada distinto.

Historias muy populares...

Era muy mágico, yo siempre estuve participando en esas actividades. No sé por qué. Pero allá llegaba. Después que crecí me vino a la cabeza: ‘¿Ahora voy para el teatro? No. Quiero estudiar una cosa que no sea ni física, ni matemática, ni medicina, nada que tenga que ver con la sangre, con los cadáveres, con la muerte’. Me gustaba la idea de ser un diplomático, de viajar por el mundo, o ser un psicoanalista, y poder conocer el alma humana, conocer la gente. Diplomático tal vez por estar en contacto con la gente, de una manera distinta. Soñaba con eso, no sabía bien cómo llegar ahí. Así que fui para la escuela de derecho en la Universidad de São Paulo, que es la mejor del Brasil. Pero estando en la secundaria me empezaron a gustar los clásicos, la literatura, me fascinaba la historia, la filosofía. En la secundaria siempre colaboré con el departamento social y cultural. Entonces ingreso a estudiar derecho, pero el teatro de alguna manera me

llamaba, porque había un movimiento muy grande en São Paulo, donde yo vivía, en la década del cincuenta. Y la vida brasileña empezaba a modificarse muy fuertemente; una burguesía ya se hacía percibir en el período de la dictadura de Garrastazu Médici, 1964, la construcción de Brasilia, el progreso, la industria automotriz; el país salía de un momento de crisis, y se abría al mundo. Así que el teatro llegó con mucha fuerza, había una burguesía que pagaba para ir a teatro, dejó de ser amador, se volvió profesional. Y yo venía del interior, era muy joven para vivir en la capital. Así que la gran diversión en la ciudad era el teatro, no era la televisión, no existía prácticamente. […]

¿Existen algunos estudiosos de su obra que podrían llegar a sistematizar su trabajo?

Sí, ya están intentando. Hay un componente afectivo, espiritual en mi trabajo que no se explica, que no admite ningún sistema, por más que lo sistematicemos hay algo que no lo permite del todo. Cuando yo leo lo que escriben de mi trabajo, es todo cierto, pero no es eso, falta algo que soy yo, que soy capaz de trabajar con las emociones, con los afectos, con la espiritualidad. Yo mismo no lo puedo explicar. Pero qué hace la diferencia. Yo puedo aplicar las ideas que tengo del teatro, otros lo harán de manera distinta. El ejercicio de la libertad, trabajar con motivaciones, com símbolos, con máscaras, con música, en espacios abiertos, eso es lo que hago ahora, seguramente esto va a continuar y pienso que es una propuesta para hoy, pero también una propuesta para el futuro del teatro. Es decir, vencer los límites que la burguesía ha impuesto al teatro en muchos años de desarrollo. Ciertamente mi propuesta es libertaria […]. La historia marcha, el teatro es hijo de la historia, no es hijo de la ideología. Así que con mi trabajo estoy sacando la ideología del corazón del teatro y dejándolo libre para que camine a donde sea; así en mi teatro, los actores están libres, los actores bailan, los actores hablan, los actores improvisan, hacen muchas cosas, ocupan los espacios abiertos, devuelven a la ciudad esa manifestación urbana que pertenece a la ciudad y no a un grupo social, por eso estoy fuera de las salas.

¿Entendiendo que es una poética personal, ¿pero no hay imitadores de su propuesta, de sus propios discípulos que quieran imitarlo?

Ya están haciéndolo. Tienen sus grupos. Existen muchas manifestaciones teatrales en todo el país con algunas coincidencias. Lo harán de alguna manera. Eso há sucedido con los que vinieron después de Stanislavski, de Brecht, Grotowski, Barba. Pero son expresiones distintas, es una interpretación de una poética. Son poéticas propias. Me gusta que sea así, interpretaciones, y no propuestas que quieran ser igual a las de uno. Pero si uno

mantiene la libertad, mantiene los espacios abiertos, las características de los lenguajes de mi poética, que he desarrollado, eso va por delante, eso es hacer historia. Porque la historia no para y mi obra es un momento de la historia. Lo que hago es librar al teatro de la camisa de fuerza de la ideología. Vestirme con los trapos coloridos de la fantasía. […]

Todo lo que tiene el carnaval profundamente yo lo hago. Imito el carnaval, pero mi espectáculo tiene siempre el juego permanente de un desfile, de una ceremonia. Mis espectáculos caminan todo el tiempo. No están parados nunca. Si miramos hacia adentro de la tragedia griega, es en esencia un desfile. Desde la historia de Dioniso, de donde nació la tragedia. Empieza el carnaval, el coro canta, baila. Es la procesión dionisiaca que pasaba contando la historia de Dioniso. Era una fiesta, así como yo creo que también la tragedia es toda una fiesta, donde el protagonista va a ser inevitablemente sacrificado. […]

¿Además del carnaval y las celebraciones indígenas, ¿qué otras ceremonias le han llamado la atención?

Todas. Principalmente las celebraciones religiosas del catolicismo romano. En Brasil las manifestaciones religiosas son muy ricas. Las fiestas de la Semana Santa son lindas, durante esa semana hay miles de celebraciones populares de la Pasión de Cristo, como se hacía en la Edad Media. Los más pequeños pueblitos hacen sus celebraciones. La cultura religiosa, las procesiones, las fiestas de reyes, todo eso está vivo dentro de mí, porque he crecido dentro de esa cultura. No las puedo ignorar. Las fuerzas de los ritos, mis actores trabajan como si fueran iniciados en los ritos africanos. Cuando hicimos los talleres, aquí en Colombia, en Tocancipá, es como si fuera una iniciación religiosa en un oficio mayor, en un oficio que nos permite vivir en moradas superiores dentro de nosotros mismos. El carnaval está profundamente enraizado en el trabajo. Así que preservo mucho las tradiciones de la cultura religiosa brasileña. […]

¿En [el espectáculo] Fragmentos de la memoria, ¿cómo es la reacción del público? Es absoluta. Yo procuro que haya horizontalidad. Que el actor entre desarmado y no se comporte como si fuera una persona especial, haciendo algo especial para unos pobres mortales. No son dioses. Todos juntos, públicos y actores podemos vivir la divinidad dentro de nosotros. Así como los antiguos griegos bailaban para que Dioniso los visitara, nosotros bailamos para que los dioses de la transformación nos visiten y nos llenen de posibilidades de transformación, y que la cosecha sea rica, porque el teatro es un arte nutritivo, edificante.

¿Entiendo que ese espectáculo es muy participativo. Es muy participativo si uno quiere. A veces es tan abierto que uno dice: esto puedo hacerlo. Y los actores saben cómo recibirlo. Cuando uno entra se ve en una situación desconocida, de fuera es una cosa, pero dentro es otra. Pero mis actores inmediatamente los acogen y les ponen su ropa. […] El teatro puede ser practicado por cualquier persona. La gente tiene el coraje de hablar con los actores, de dar opiniones, de hacer lo que quieran. El espectáculo no es sagrado, es profano, es una fiesta profana, por eso el carnaval. Pero tiene su origen religioso. Entonces el público puede participar, y es bueno que participe, participar con inteligencia, como el juego de fútbol, el público se emociona pero no pierde la conciencia. Piensa. Nosotros creemos, como decía Bertolt Brecht, que el corazón es el mejor camino para llegar a la cabeza de un hombre. Eso lo permite la horizontalidad. La verticalidad no llega a nada. Así nos salvamos todos.

¿Existe un texto escrito?

Sí, las escenas están escritas. Las de García Lorca están escritas. La de Allende y la del “Che” están escritas. Nosotros tenemos un guión y tenemos una manera de hacerlo. Pero los actores pueden cambiar como quieran. Es muy difícil repetir una función. Tenemos unos rieles por donde vamos, como el tren. No es la subjetividad total, pero el espectáculo tiene una posibilidad de transformarse. Cuando se empieza a volver burocrático destruyo todo.

¿Los ha sorprendido el público? De pronto un espectador que les haga cambios fuertes. Sí. Cuando vemos que eso no está bien, tratamos de mejorarlo. Pero tenemos un promedio de treinta escenas escritas, que podemos presentarlas. Pero no las tenemos en un solo orden. Las colocamos todas dentro de un sombrero y algún espectador saca al azar una escena, y dice Salvador Allende en el Palacio de La Moneda. Los actores se preparan. Y empiezan los movimientos, las músicas, y desarrollan el tema. Carnaval. Y luego otro espectador lee  García Lorca. Viene la música española, los actores juegan con los espectadores. Aparece un narrador y los actores realizan la escena con mucha libertad, con mucha rapidez, todo puede pasar muy rápido, porque la magia del teatro no depende del misterio, el misterio toma tiempo para hacerlo, pero en el teatro todo pasa de un momento para otro con mucha velocidad. Se cambia todo ante los ojos de los espectadores, pero ellos no pueden ver cuándo se sucede esto. Yo mismo me sorprendo cuando todo está cambiado. Qué hicieron estos actores. Hay algo que construye la burbuja (las que se hacen con jabón). Todos vamos en esa burbuja, y cuando todo se termina, puff. Y

uno se pregunta dónde estaba yo, como si una nave espacial nos hubiera llevado a outro lugar y nos hubiera traído de nuevo. Y cuando la burbuja es buena, y la obra es buena, la gente llora porque entiende y descubre que hay otros espacios dentro de cada uno. Y el teatro es capaz de revelarnos esas nuevas realidades, esas nuevas posibilidades. […]

¿El público sale muy conmovido? ¿Quizás también por los temas o la manera en que se desarrollan?

Los temas creo que los tocan mucho. A veces los deja desarmados, quizás con la sensación de que hay gente mejor que ellos o lo contrario.

¿Qué elementos utilizan para el espectáculo?

Tambores, banderas, máscaras, ropas. Jamás las ropas totalmente hechas. Salvador Allende no va a estar vestido completo. Ni los militares que lo mataron tampoco van a tener vestido total. Basta una gorra de militar, una camisa que sacamos casi de la basura, y lo vestimos. Y todo ello se transforma. Eso es parte de la magia. Trabajamos con las posibilidades, no tenemos elementos completos o nuevos. Por ejemplo para el espectáculo que surgió de la novela El reino de este mundo, novela escrita por Alejo Carpentier [1904-1980], que abordamos en Machurrucutu, La Habana, Cuba, en 1990, allí trabajamos con el carnaval, que se convirtió en elemento muy fuerte, a ritmo de samba se contaba la historia. Y con ese espectáculo marchamos por las calles del pueblo, las gentes estaban alegres, aplaudían, bailaban, se divertían.

Aquí en Tocancipá uno observa los jóvenes que vinieron a su taller, con visiones del teatro muy distintas. Poco a poco se van integrando y resultan haciendo cosas extraordinarias. La música resulta ser un motivador muy grande. José Assad, quien estuvo en este proceso, observa cómo en cuestión de minutos se iba transformando la actitud de los participantes y consecuentemente su expresividad. El último día del taller pensaba: ‘será que Amir les dio alguna droga o algo parecido’, porque ya no eran los mismos. Es un momento de liberación, de caos, pero eso con el tiempo se va organizando y luego se convierte en un espectáculo. La dinámica del trabajo tiene implícita una organicidad, es trabajar con el actor aprovechando su potencial creativo. Se presenta entonces ese momento de aprovechamiento de las posibilidades expresivas de cada actor. Los jóvenes muy despiertos en el ejercicio, y me preguntaba qué los movía. […]

UM CASO DE AMOR COM SANTA TERESA 332

17/04/2010, por Flávio Dilascio, caderno Cidade

[…] “Me identifiquei muito com a cidade e resolvi morar em Copacabana. Posteriormente, ainda morei em Ipanema, até descobrir Santa Teresa. Foi paixão à primeira vista. Estou lá há 30 anos”, conta. “É um bairro onde ainda se preserva um clima interiorano.

Posso passar o dia inteiro fora de casa que os vizinhos regam as minhas plantas. O que tem prejudicado o nosso bairro é o abandono do poder público. Mas isso eu acho que acontece com a cidade inteira.” […]

“O Tá na Rua surgiu por acaso, não foi nada planejado. Nunca pensei em fazer teatro na rua, mas o povo me conquistou”, diz. Além de atuar, dirigir e recuperar o sentido de festa teatral e dramaticidade das apresentações populares, Haddad também comanda o projeto social Tá na Rua pela Segurança e Saúde no Trabalho, uma ação do Ministério do Trabalho para prevenir acidentes. Nas mãos do mestre, tudo vira arte.

A seguir, o diretor lista a melhor maneira de aproveitar o Rio, lugar onde, diz, sente que pode ser feliz.

Livraria – Sebos de rua e livraria do ccbb.

Teatro – Tom Jobim.

Museu – Casa do Pontal.

Padaria – A do Serginho, em Santa Teresa. Não chega a ser uma padaria, é um empório.

Cinema – Cine Santa Teresa.

Feira – Feira dos domingos na Glória, que tem tapioca e pastel.

Melhor pôr do sol – Arpoador nos anos [19]70. Era psicodélico!

Maior furada – As horrendas barraquinhas da Lapa. Meu Deus!

Dica secreta – Observar o pouso e decolagem dos aviões no outro lado da pista do Aeroporto Santos Dumont (Escola Naval) e tomar café com pão na barraca da Tatá, último quiosque antes da pista. Com o Pão de Açúcar, a Marina da Glória e os aviões passando, o visual fica maravilhoso. Ah! Lá também tem pão com ovo e pão com linguiça.

Maior saudade – Das barbearias do Centro do Rio. Estão acabando. É preciso salvá-las.

332 Trecho de entrevista com Amir Haddad no Jornal do Brasil.

Passeio – Pelo Centro velho, em dia de feriado. E de carro.

Alma do Rio – Suas etnias variadas.

Beleza do Rio – Fernanda Montenegro.

Quando você sabe que está no Rio – Quando sinto que posso ser feliz.

Quando você sabe que não está no Rio – Quando sinto saudades. E, às vezes, isso acontece mesmo estando na cidade.

Melhor papo – Na Casa do Tá na Rua.

Que lugar merece um choque de ordem – Lugar nenhum. Ninguém merece esse choque de ordem.

Lugar no estádio – Arquibancada (em tese) e minha cama (de fato).

Comida de rua – Churrasquinho da Glória, na esquina da rua Cândido Mendes.

E o sarapatel com pimenta.

Transporte alternativo – O táxi do meu amigo Bruno, um vascaíno inconformado.

O que falta no Rio – Mais democracia.

E o que sobra na cidade – O apartheid. Isso é horrível.

Se não for no Rio… – Não dá. Só no Rio mesmo.

Rua bem carioca – As ruas da Saara, no Centro.

Aventura carioca – Fazer teatro de rua na periferia do poder. Aprendo muito com isso, surpreendentemente.

Som para lembrar o Rio – Paulinho da Viola.

Delivery – Nenhuma.

Festa – O Carnaval de rua, que agora está rejuvenescido. Que não matem esse renascimento!

Locadora – Nenhuma.

Frase que define o Rio – Ser carioca é padecer no paraíso.

CARTA-PROTESTO PARA O JORNAL DO BRASIL, 1989

2º Festival Latino-Americano de Arte e Cultura

O Brasil, a oitava economia do mundo capitalista, ainda tem do que se envergonhar, […] [com] um modelo perverso de crescimento, imposto por uma elite absolutamente desinteressada pelo verdadeiro desenvolvimento de seu povo. […] Até o segundo domingo de agosto, realizou-se em Brasília o 2º Flaac – Festival Latino-Americano de Arte e Cultura –, que pretende reunir a cada dois anos na capital o que há de mais significativo na América Latina em termos de arte e cultura. Sua mais recente edição redundou numa patente evidência do mais profano desprezo de nossas autoridades pelos rumos da inteligência em nosso país.

“Pois então, como explicar a indigência a que ficou relegado o festival, forçando-o, à última hora, ao cancelamento de inúmeras atividades, por total falta de recursos, infraestrutura e competência administrativa? Para ficarmos restritos ao nosso subcontinente, são vários os exemplos de festivais bem-sucedidos na Colômbia, Venezuela, Cuba, Equador, Uruguai e até mesmo no Paraguai. Por que no Brasil essa eterna dificuldade, esse perene desleixo com nossos festivais?

O grupo Tá na Rua e o elenco do espetáculo Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, de Oduvaldo Vianna Filho, ambos dirigidos por mim, trabalhos convidados e cancelados na undécima hora, vêm lastimar e expressar sua indignação com essa realidade que transforma toda e qualquer iniciativa na área da cultura em mais um exercício de resistência à frustração e ao desencanto. Solidários com aqueles que, como nós, almejam realizar propostas que resgatem a enorme dívida cultural e social acumulada nessas últimas décadas de todo ufanismo e pseudodesenvolvimento, desejamos a todos que sonharam a realização de um festival à altura da importância cultural de nosso país, os votos de pronto restabelecimento de sua capacidade de sonhar e realizar. Amir Haddad, A Comunidade Produções Artísticas Ltda., Rio de Janeiro (JB, 15/08/1989, por Amir Haddad).

DIRETAS JÁ

Show pelas Diretas tem plateia de 1 mil na praia

Com um atraso de 2 horas e 30 minutos, o show pelas eleições diretas, promovido pelo comitê do movimento na Zona Sul, reuniu [em 18 de março de 1984] cerca de mil pessoas nas areias da Praia de Ipanema, próxima à esquina da avenida Vieira Souto com a rua Vinícius de Morais. Em cima de um enorme trio elétrico, alugado por Cr$ 500 mil diários pelo comitê, com recursos da venda de camisetas e broches, o ator Mário Lago animou o show, lembrando a todo o momento que, no próximo dia 21, será realizada uma passeata da Candelária até a Cinelândia, «terminando num grande comício.

CAMINHADA – A movimentação em favor das eleições diretas começou cedo na Zona Sul, com uma grande caminhada do Leme até Ipanema. Às 11h30 os participantes saíram do restaurante Fiorentina: eram cerca de mil pessoas, entre as quais artistas como: Walmor Chagas, José Wilker, Lucélia Santos […], Ney Latorraca […], Osmar Prado, […] e o grupo Tá na Rua, de Amir Haddad. Na frente ia um trio elétrico, tocando principalmente o samba Não me venha com indiretas, de Noca, da Portela e Ratinho, de Pilares. […]. (JB, 19/03/1984).

No Jornal do Brasil de 24 de março de 1993, havia outra matéria intitulada “Sobrados são desocupados – Estado vai criar centro de arte em prédios da Lapa”. Vale a pena registrarmos:

“Moradores e comerciantes dos sobrados centenários da Mem de Sá […] desocuparam ontem os imóveis pertencentes ao Estado para liberá-los ao projeto Quadra da Cultura que abrigará grupos artísticos de diversas tendências. Os ocupantes dos imóveis haviam recebido, dia 10, notificação da 1ª Vara da Fazenda Pública para deixarem o local, mas não cumpriram a ordem, expedida pelo Juiz José Selliti Rangel. Ontem a ocupação se concretizou, com a chegada às 10h de duas oficiais de justiça […]” e demais autoridades. “As cinco famílias que moravam nos sobrados estão sendo removidas para outros imóveis […]. Para [elas], a troca está valendo a pena. A inquilina da primeira casa desocupada, Helena Castillo, 58 anos, declarou-se satisfeita com a nova moradia, também na Lapa […]. Ela reclamou das condições de vida no número

33 da Mem de Sá, onde morou até ontem. Helena, que é faxineira, cobra diária de Cr$ 100 mil e pagava Cr$ 39 mil mensais de aluguel para Giuseppe Salvatore Romano, dono da loja de móveis Casa do Júlio, no térreo. Ela morava com o marido num quarto, sem direito a usar a cozinha, que foi desativada para ser usada como mais um cômodo do aluguel. […]” Os comerciantes foram despejados, por diversas ilegalidades no uso do patrimônio público. Em 04 de abril de 1992, o JB entrevistou o Diretor do Departamento de Patrimônio

Imobiliário da Secretaria Estadual de Justiça, José Roberto de Andrade Coutinho, que disse: “Os imóveis do Estado sem uso funcional devem ser aproveitados em projetos que atendam às características de cada região

No caso da Lapa, tradicionalmente um bairro de cultura, há imóveis ocupados irregularmente com um comércio que não é tradicional. […] Os moradores antigos serão respeitados. A eles será oferecida a transferência para outros imóveis na mesma quadra”

CARTA PARA O JORNAL DO BRASIL, 1976

O Brasil é um país que se movimenta. É rico e fértil, mas os resultados custam a se instalar na realidade. Tampões de resistência abafam a livre manifestação nacional. O novo demora a chegar. É preciso um país mais livre. Nova constituição para todos, não apenas para as classes dominantes. Extinção das leis de segurança, eleições diretas já, independência econômica. Enquanto isso, o país fermenta sua própria inquietação e se manifesta com erupções esporádicas, de vida e de força. É necessário que essas manifestações sejam mais permanentes. O Ministério da Cultura deve estar atento à emergência do fato novo. Muito atento, para não celebrar o velho eternamente. amir Haddad, Jornal do Brasil, 03/11/1985

“No momento em que se anuncia, por parte do Governo do Estado, a regulamentação dos pagamentos das subvenções referentes a auxílios devidos às produções teatrais cariocas do primeiro semestre de 1975, conforme nota publicada no JB de 09/08/76, gostaríamos de relembrar o problema do pagamento da verba de Cr$ 44 mil 913, concedida ao espetáculo Somma ou Os melhores anos de nossas vidas, produzido pela firma Teatro Mágico Ltda. e apresentado no primeiro semestre de 1974 (processo n. 13.500 057/74, publicado no Diário Oficial do dia 10/12/74, página 19.733), e até agora não recebida.

No dia 03/10/75 foi publicada no JB uma carta que enviamos a vários jornais e autoridades, pedindo providências no sentido de localizar o processo que, segundo informações oficiais, se encontrava perdido e, por esse motivo, obviamente, não podia ser pago, apesar de já decorridos 10 meses de sua publicação no Diário Oficial. Com Calma que o Brasil é nosso aguardamos durante sete meses e, como não recebemos nenhuma resposta das autoridades competentes, começamos a procurá-lo [o processo], nós mesmos, por conta própria. […]

Assim, apesar do processo de Somma estar absolutamente em ordem, enquanto não for localizada aquela comprovação de despesas não podemos receber o auxílio a que temos direito pela montagem já realizada.

Por isso, lançamos daqui um apelo […]. Mas, a essas alturas, quem poderá nos ajudar? […] Hoje, 10/08/76, dia em que esta carta seria enviada ao JB, fomos informados de que o processo de comprovação de despesas de As loucuras do Dr. Qorpo Santo foi encontrado no mesmo local onde se encontrava o outro, ou seja, no Arquivo Geral, em Niterói, bem ao lado do nosso local de trabalho, de onde ele deverá sair para ser apensado ao processo […], que concede subvenção a Somma […]. Será que após dois anos de espera, finalmente vamos receber essa verba? Quem sabe? […]. Amir Haddad, Niterói, rJ”. (JB, seção Cartas, 23/08/1976).

UM TÍTULO NA BERLINDA

A escritora Lygia Fagundes Telles está triste com a produção da peça As meninas, texto inédito de Maitê Proença com direção de Amir Haddad, que estreia amanhã, na Casa de Cultura Laura Alvim. “Fiquei muito conturbada quando soube do título da peça. Minha agente, Lúcia Riff, ligou para os produtores e pediu que mudassem o título”, desabafou Lygia, ontem, à coluna, em ddd de São Paulo. […] O produtor da peça, Fernando Padilha, contou que também conversou com Amir, alertando que a montagem virá para o Rio em 2010. a Voz do diretor – “A gente pensou em mudar o título, mas a burocracia é grande. Poderíamos perder o patrocínio. Não queremos que Lygia nos interprete mal”, desculpou-se Haddad, acrescentando que tudo não passou de coincidência e Maitê entrará em contato com a escritora. “Vem ver a peça que é boa. Com qualquer nome”, finalizou. (Um título na berlinda JB, 02/07/2009, coluna de Heloisa Tolipan, Caderno B, p. 08.)

TRECHO EXCLUÍDO SOBRE A BEIJA-FLOR, 1989

Se a Beija-Flor tivesse vencido naquele ano, todos os carnavalescos teriam precisado correr atrás de uma renovação. Não foi o que aconteceu. O tradicional ganhou e está instalado até hoje. Mas mesmo antes do desfile, a atmosfera de que a Beija-Flor propunha algo novo já se instalava e marcava os primeiros comentários na imprensa: “A Beija-Flor de Nilópolis vai provocar neste carnaval uma nova virada […]. Da mesma forma que há 13 anos o carnavalesco Joãosinho Trinta mudou o desfile ao enfatizar o luxo, modelo avidamente seguido nos anos seguintes por todas as escolas, o fenômeno poderá se repetir agora, com a decisão de teatralizar o espetáculo da Beija-Flor. A comissão de frente, a primeira ala e alguns carros virão com artistas de teatro, que representarão na avenida. É uma ideia antiga de Joãosinho, que sempre encarou o desfile das escolas como uma grande ópera de rua”.

O enredo Ratos e urubus […] fala do lixo físico e moral do país e é um convite ao povo de rua – mendigos, loucos, pivetes e prostitutas – para participar do grande baile de máscaras da Beija-Flor na avenida. A comissão de frente e a primeira ala virão de mendigos e Joãosinho convidou para formá-las o grupo teatral Tá na Rua, liderado por Amir Haddad. “O Joãosinho poderia ter chamado qualquer grupo, mas nos chamou porque temos um trabalho de dez anos com o povo de rua e evitaríamos uma representação dramática burguesa”, diz Amir, que lembra a excelente relação do tNr com mendigos e pivetes, os primeiros a se aproximarem do grupo quando ele se apresenta nas ruas: “Alguns do Largo da Carioca já nos conhecem e nos cumprimentam”.

“[…] E daí pode nascer o grande espetáculo do terceiro milênio, o espetáculo de um mundo melhor, de uma sociedade sem classes. […] O samba tem essa possibilidade e o Brasil tem essa proposta para o futuro, apesar do nosso presente.” O grupo tNr ensaiou durante meses, às terças no Circo Voador, às quintas na quadra da escola, e escolheu a própria roupa. Joãosinho quer que o grupo tenha uma aparência volumosa, pois mendigo costuma vestir muitas roupas, uma por cima da outra, como observa: “Já reparou que mendigo usa até três bolsas?” A comissão de frente, além de apresentar a escola, fará brincadeiras como pedir dinheiro ao público dos camarotes. “Se jogarem coxinha de galinha, a gente vai correr para pegar”, promete Amir. (JB, 05/02/1989, “Beija-Flor põe teatro da rua no show”).

E oito dias depois, no mesmo periódico, uma matéria pós-desfile fazia a avaliação da qualidade do nosso trabalho: “O Brasil provou que tem condições de reinventar o teatro em proporções de terceiro milênio, em proporções de sociedade sem classes, com a mais completa tecnologia de espetáculo da era industrial”, orgulha-se o mineiro Amir Haddad, um dos responsáveis, ao lado do grupo de teatro Tá na Rua, pelo abre-alas de mendigos que revolucionou o carnaval deste ano. Mas, no instante seguinte, a voz rouca e o corpo frágil tremem de indignação. É quando ele se lembra que a Beija-Flor ficou em segundo lugar: “Por causa do preconceito e da canhestrice de três jurados, mais uma vez o Duque de Caxias venceu o povo brasileiro; descontaram três pontos e muitos anos de uma importantíssima revolução cultural”.

“Não é para menos. Pela primeira vez na história das escolas de samba, o desfile de carnaval se encontrou com o veio urbano da tradição do teatro de rua. Uma tradição revolucionada com muito afeto e bom humor, nos anos 1970, por este mineiro educado em São Paulo, “de cabeça feita pelo Rio”. O asfalto, ele conhece como ninguém. […]

“Nosso espetáculo é como um jogo de futebol, que a plateia conhece as regras, aplaude as grandes jogadas, vaia os frangos e participa sempre que quer”, define Amir. […] “O que não me falta é estrada”, diverte-se [o diretor], hoje com 56 anos. […] “Não tenho a superestrutura do samba, mas com certeza tenho a infra”. Para ele, o que conta, no entanto, são os dez anos de trabalho com o tNr, hoje um núcleo fixo de dez atores: Ricardo Pavão, Lucy Mafra (que produziu os figurinos do desfile), Betina Waissman, Roberto Black, Marcelo Bragança, Rosa Douat, Helô Montenegro, Ana Maria Carneiro, Artur Faria, San Alice. Ao lado deles, Amir reinventou o teatro, da postura do ator à criação dos figurinos, dos gestos, das máscaras, dos improvisos.

[…] Amir e seu grupo fizeram tudo: conceberam e armaram o carro abre-alas, com o Cristo Mendigo (proibido pela Justiça), criaram os figurinos, ensaiaram dois meses. “O novo sempre causa escândalo na elite caipira deste país”, comenta Amir, referindo-se à censura de seu Cristo. Para a teatralização do desfile, a letra do samba-enredo serviu de ponto de partida no levantamento das imagens, dos personagens, das cenas a serem dramatizadas na avenida. “Nós trabalhamos muito para não dramatizar mendigos e sim representar a mendicância, para não interpretar miseráveis, mas sim teatralizar a miséria”, avalia. “Nós queríamos trabalhar uma unidade de cor e gestos, sem os trapinhos coloridos que pareciam fantasia da União da Ilha.” (Marília Martins, Abre-alas do teatro popular: Amir Haddad e o Tá na Rua invadem o samba, JB, 3/02/1989).

MAMBEMBANDO

DIÁLOGO MNEMÔNICO DE ALGUNS ATORES

DO ELENCO DE O MAMBEMBE

RITA PORTO (personagem: Bonifácio) – Imenso prazer em poder compartilhar essa experiência tão maravilhosa que foi O mambembe e nosso trabalho com o Amir, para a sua escrita biográfica, importantíssima […]; poder fazer parte é um privilégio. Estou muito grata por esta experiência que teremos todos juntos. Gostei da ideia de escrevermos um texto coletivamente, foi bem assim que O mambembe foi sendo construído/ criado/lapilado. Líamos o texto, dançávamos, improvisávamos, narrávamos, todos experimentando todos os personagens e, quando nos demos conta, tínhamos impresso no nosso coração-corpo-mente o espetáculo todo. E os personagens se encaixando nos desejos de cada um de nós, com poucas mudanças (aliás, este momento é bem bonito de contar, né, pessoal?, quando o Frazão e o Pantaleão “trocaram de corpos”, de atores, foi um dos momentos mais mágicos, belos, sábios e perfeitos, estava ali a “magia sem mistério” de que o Amir sempre fala). Amir é um “bruxopoéticocriativosábiomestredemuitasalmasteatrais”. O Mambembe canta mambembe foi a gente também que fez, só com as músicas e a narrativa da história, que aconteceu na sala Sidney Miller [a convite da Funarte].333 Éramos 22 atores num palquinho minúsculo, mas a sintonia era tanta e sabíamos tanto ocupar os espaços haddadianamente que estávamos todos em casa, como nos saraus de antigamente. Que venham as histórias as memórias, as artes, os improvisos, os imprevistos tão presentes nessa vida mambembeira mambembante dos amantes desta arte de (en)cantar histórias por todos os lugares. (04/05/2022, via grupo de Whatsapp do elenco, em que o autor deste livro foi gentilmente incluído para fazer perguntas).

333 Uma outra versão de Mambembe canta mambembe, esta produzida por Ricardo Pavão, via sua empresa Camarote Brasil, contou com outro elenco, que incluia alguns elementos do elenco da CAL, mas contava também com nomes como Tereza Seiblitz, além de haver mais músicos em cena, uma narrativa do enredo por parte de Amir Haddad, e um circuito cultural que incluiu o Teatro Villa-Lobos, as lonas culturais e o projeto Cais do Porto.

WAGNER DE MIRANDA (Personagens: Lopes e Pantaleão) – Havia esse desejo do [Alexandre] Mofatti pelo personagem do coronel Pantaleão e eu sonhava com o Frazão. Acabamos ganhando esses personagens. Mas Amir achava que deveríamos trocar. Talvez tenha sido uma intuição dele, ou a sacada de que faríamos esses papéis com mais propriedade na época. O lindo foi que eu e o Mofa, depois de meses sonhando com os papéis que ganhamos, trocamos sem muitas crises. Bom, falo por mim. E é essa impressão que tenho a respeito dele também. Trocamos e, sinceramente, foi a melhor coisa que fiz na vida. Eu me diverti horrores fazendo o Pantaleão. E cantava muitas músicas legais também. Amir acertou, como sempre. Um outro ponto importante é que o Mambembe nos une até hoje. Foi uma experiência tão forte, que atravessa a relação de todos os participantes. Éramos uma turma muito unida antes do Mambembe. Mas a feitura da peça alçou nossa relação como grupo a outro patamar. Para mim, foi um trabalho importantíssimo, que marca minha carreira. Até hoje é referência. Pra você ver, tenho um sonho recorrente quando estou perto de estreias. Sonho que tenho que entrar em cena pra fazer O mambembe e que, como já passou muito tempo, não lembro mais do texto integralmente. Mas entro assim mesmo e vou lembrando. Aqui em São Paulo meus colegas até perguntam, antes de estreias, se sonhei ou não com o Mambembe. Se eu sonho, dá sorte, risos. (05/05/2022, pelo mesmo grupo de Whatsapp).

RITA PORTO – Me lembro dessa troca [de papéis]; a gente ensaiava no [Teatro] Glauce Rocha e vocês estavam no palco passando uma das cenas de Pantaleão e Frazão, e parecia que não fluía. Daí o Amir parou... aquele silêêêêncio... e disse algo como: “vamos experimentar trocar e ver o que acontece?” Imediatamente, com toda a generosidade presente nos nossos queridos Wagner e Mofatti, eles trocaram. Foi incrível! A cena decolou e a alegria foi geral, o santo do Mambembe estava formado, todos os “cavalos” afinados com seus santos-personagens. Ai, me emociono só de lembrar. O mambembe toca fundo nos corações da gente. (05/05/2022, idem).

LETICIA HEES (Laudelina) – Na época da montagem de O mambembe, Amir nos disse, certa vez, durante um ensaio, que por dez anos sentiríamos saudades daquela peça. Ele errou na premonição. Lá se vão mais de trinta anos e essas memórias continuam estranhamente vivas, como se fizessem parte de um tempo congelado de nossas vidas. É que O mambembe não foi apenas uma montagem de final de curso e sim a possibilidade de um grupo inteiro se tornar um imenso corpo criativo que esbanjava alegria e vigor em cena.

Éramos jovens na faixa dos vinte anos quando Amir chegou para dirigir nosso espetáculo de formatura na Casa das Artes de Laranjeiras. Depois de dois anos e meio, enfim, seríamos atores profissionais. Estávamos loucos de entusiasmo para viver aquela experiência com o mesmo diretor de Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, de Vianninha e Ferreira Gullar, outra peça de formandos da cal, que antecedeu a nossa [em 1989] e nos servia de referência. Começava ali a parte mais instigante e inspiradora de nossa formação teatral. Nada de texto decorado e marcações preestabelecidas. Música alta, figurinos coloridos espalhados pela enorme sala de nossa escola, éramos convidados a entrar no jogo cênico, a nos despir dos personagens que a essa altura já tínhamos “na manga”, a descobrir algo novo nascido do movimento de nossos corpos livres dançando e interagindo com outros. Amir entrava nesse jogo da improvisação, com panos na cabeça, saias rodadas. Ele circulava, nos pegava pela mão, tentava nos tirar das formas feitas, dos lugares conhecidos. E sentíamos essa energia coletiva explodir, se espalhar pelo espaço, sair pelas enormes janelas daquele lugar. Éramos todos Laudelinas, Frazões, Coronéis Pantaleões, Donas Ritas, Vieiras, moleques Malaquias e tantos outros personagens de Arthur Azevedo. Faltava pouco mais de um mês para a estreia quando, de posse de nossos papéis, partimos para levantar as cenas em ensaios no palco italiano do teatro Glauce Rocha, onde iríamos estrear. Se levássemos para a cena algo engessado, distante daquela liberdade proposta pelo mestre, ganhávamos broncas em alto e bom som, que chegavam até a última fileira do teatro. “Dar não dói, o que dói é resistir”, “faça o seu sim que eu faço o meu não”, gritava o Amir aos altos brados. Teve uma atriz que saiu num intervalo e não voltou mais, nunca mais. Deixou de ser atriz. Era preciso ser forte para se jogar daquela forma. Ele conseguia tirar o melhor de nós, mas doía às vezes. Naquele palco italiano onde ensaiávamos, Amir se esforçava para quebrar a relação frontal que o espaço cênico nos impunha, era como se estivéssemos vestindo uma roupa apertada. Foi quando nos mudamos para o Cacilda Becker, um teatro de arena onde a plateia envolvia o palco. Que alegria! Eram infinitas possiblidades de ocupação para o Amir explorar. Era o que precisávamos para levar para a cena as vivências de meses de improvisação! Um trio mágico formado por um Pierrô (Tatiana France), uma Colombina (Adriana Lima) e um Arlequim (Sávio Moll), criação genial do mestre Amir, costurava as cenas, pontuava as emoções e aparecia ora no chão, ora nos urdimentos do teatro, em lugares improváveis daquele teatro. O mambembe precisava do Cacilda para existir plenamente. A peça estreou com cerca de três horas e meia de duração, foi cortada em meia hora e permaneceu assim durante suas duas temporadas, um mês no teatro Cacilda Becker e outro no Glaucio Gill. As canções [do Ricardo Pavão] eram tão incríveis, que o espetáculo ganhou até uma versão

musical, bem enxuta, que foi exibida na sala de espetáculos Sidney Miller [referência ao posterior Mambembe canta mambembe]. Éramos jovens atores cheios de entusiasmo, dançando, cantando, vivendo intensamente a liberdade dentro e fora de cena. Na plateia, sempre lotada, Fernanda Montenegro, Andrea Beltrão, Marieta Severo e tantos artistas incríveis que admirávamos. Terminávamos cada sessão dessa maratona teatral suados, exaustos, felizes e sempre dispostos para as festas e chopes depois de cada espetáculo. Nossos afetos estavam ali naquele grupo tão especial. Trinta anos depois, cá estamos nós, um grupo de homens e mulheres na faixa dos cinquenta anos, lembrando de cada verso das canções da peça, de cada bronca do mestre Amir (e foram muitas!), usando a tecnologia (Whatsapp) para alimentar essa memória que sempre irá nos unir. (05/05/2022, idem).

RITA PORTO – Lembro que no monólogo que tinha do Bonifácio, eu estava presa, cheia de medo, e o Amir falou algo como “esse monólogo não é importante pro enredo da peça; ou você se solta ou eu corto o texto”. Não me rendi, enfrentei meus medos, trabalhei muito pra honrar o personagem que eu queria muito fazer, ainda mais eu, criada na roça, conhecia aquele universo, estava em mim, dentro; o matuto Bonifácio Arruda. (05/05/2022, idem).

NATÉRCIA CAMPOS – Tínhamos de “lutar” pela personagem e, e se tínhamos dificuldades, outra frase que sempre ouvíamos em altos brados era: “para fazer teatro, você tem que matar o pai”. Estávamos tão unidos, que cada esporro, ora num ator, ora noutro, doía na alma de todo o elenco. Havia muitos choros. (05/05/2022, idem).

LETICIA HEES – Matei meu pai nessa estreia, risos. Amir também era nosso pai. Com a estreia, ele não podia mais conduzir nada. Estava nas nossas mãos e a gente só queria ser feliz. […] Ah, mas eu tinha medo, sim. Ele gritava pra mim: “Mate seu pai” ou “Você é a protagonista!”. Lembro de ter me arrependido de lutar tanto pela Laudelina. Só que quando a peça estreou todos os medos ficaram para trás. Ali era só alegria! (05/05/2022, idem).

NATÉRCIA CAMPOS (Personagens: 1º Freguês, Velho Ator e Carreiro) – E realmente sair de um palco italiano para uma arena transformou o espetáculo. Amir tem uma mão de mestre para desenhar cenas. Em instantes marcava uma cena belíssima com 10 atores no palco, cheia de movimentos e climas, tudo com muito ritmo. E em seguida já criava outra cena também com muito movimento, outro clima completamente diferente, outro espaço. Não havia nenhuma parada para nenhuma mudança do espaço. A mudança de cenários

era cena também. Isso acontecia só com objetos e algumas cadeiras e mesas. Alguns atores faziam umas dez personagens, saíam de uma cena de um lado do palco e já entravam em outra com outro figurino pelo outro lado. Era uma correria nos bastidores, algumas vezes nos vestíamos só para compor cenas, detalhes muito cuidadosos que ele tinha, e “ai ai ai” se não os fizéssemos. Ele prestava atenção em tudo, nos movimentos, nas posições e éramos muito livres para fazer o que quiséssemos desde que seguíssemos as marcações.

A título de curiosidade: no início eu tinha tanto medo dele que quando fiz o Carreiro pela primeira vez minha voz sumiu, risos. (05/05/2022, idem).

RITA PORTO – Outra coisa que ficou marcado em mim era que o Amir marcava muito pouco. Nós dançamos tanto nas oficinas iniciais, fomos aprendendo a ocupar os espaços com graça, leveza, muita potência e sem esforco, braços abertos girando com as músicas e figurinos, e depois sabíamos tão bem a história que estávamos contando que, o que me lembro, é que sem marcar muito, o Amir “marcou/fechou” cada ato em apenas um dia, ainda no Glauce Rocha. E faltando uma semana para a estreia, os Deuses do teatro nos festejaram com o presente do Cacilda Becker. Reunimos tudo o que estava no Glauce e fomos radiantes para dançar nos espaços do Cacilda e romper ainda mais a relação palco plateia. (05/05/2022, idem).

ALEXANDRE MOFATI (Personagem: Frazão) – Olá, pessoal! Saudades. Sobre essa troca de personagens [que fiz com o Wagner], foi um choque, pois eu nunca havia cogitado fazer o Frazão (tive até uma certa antipatia por ele na primeira leitura do texto, pra ser sincero) e foi um imenso aprendizado mesmo, como disse o Wagner! (05/05/2022, idem).

LETICIA HEES – Tudo muito vivo, apesar dos trinta anos [que se passaram]. Fico chocada com isso. Esse exercício proposto pelo Thiago está fazendo isso com a gente. Estamos mergulhando e nos lembrando com muita nitidez de cada detalhe. Tínhamos que improvisar, né, Wagner? Me lembro do dia em que Fernanda [Seixas] fez uma troca na hora errada e estava sem roupa quando devíamos ter uma cena, nós duas, para esclarecer uma situação da peça. Entramos eu e Marcelo [Vianna] e criamos tudo. Tínhamos a noção perfeita das informações que deveriam ser passadas ao público naquela cena. Foi uma aventura deliciosa! (05/05/2022, idem).

WAGNER DE MIRANDA – Foi mencionado o Pierrô da Tatina [France], o Arlequim do Sávio [Moll] e a Colombina da Adriana [Lima]. Para mim, essa foi a grande sacada poética do

Amir. Num tempo em que estava ficando meio na “moda” criar personagens “de encenador” que comentassem a cena, em que assistíamos mil experiências de virtuose e contorcionismos, vai o Amir e cria o comentário definitivo. Poético, sofisticado, contundente. Depois disso, fiquei com dificuldades de assistir esse tipo de personagem. Eram a encarnação do teatro. Como é o próprio Amir. (05/05/2022, idem).

MARIBEL SOLINES (Personagem: Madama) – Olá, Thiago, sou Maribel do Equador, eu fiz a cal com a ilusão de ser atriz mas ganhei um propósito na minha vida, a liberdade. O treinamento do Amir me mostrou o caminho, no inicio não entendia a loucura de pular e dançar “à toa”, mas o tempo me mostrou que a liberdade na expressão da alma é o única caminho para a criação. Aprendi que as personagens têm vida própia, elas escolhem os atores, e a gente só deve aceitá-las e deixar-se possuir por elas. Amir me ensinou a teoria das entidades no teatro. Sorry los erros, meu celular fala espanhol, risos. (05/05/2022, idem).

URSULA BRANDO (Personagens: Malaquias e Carrapatini) – Olá, Thiago, sou a Úrsula. Depois de ler tantos emocionantes escritos dos meus mambembes, deixo aqui também minha contribuição. Era eu quem “abria as cortinas” do Mambembe com a personagem do moleque Malaquias, propositalmente, fazendo pilhéria com o texto de abertura. Lembro-me do Sávio (Arlequim), com a mesma fala minha, me perguntando: “O que você vai dizer hoje?”

Ali eu provava sem saber, do universo clownesco. Esse Moleque reverberou tanto na minha formação que logo depois entrei pra escola nacional de circo, nasceu o meu Palhaço Chicao, que usava a mesma roupa do moleque Malaquias. E com ele trabalhei durante vinte anos e quis seguir o estudo de clown. Essa história eu conto e reconto para todos que perguntam como nasceu o Palhaço. Eu digo: “Sabe quem é o Pai dele?” Outros personagens que fiz foram o mestre Carrapatini com um jeito meio bufônico e uma dançarina de cateretê (não era como uma personagem, mas só uma composição da dança). No momento em que eu entrava ainda mergulhada no transe clownesco trazendo na dança essa energia, saía o riso da plateia, e numa das nossas apresentações, quando fui trocar o figurino para entrar em cena, minha roupa estava em retalhos e mesmo assim entrei. Amir quando soube disso, gritou: “o artista tem que voar muito alto, deixem ela voar e tomem conta dos seus próprios voos.” Como essa, muitas outras frases dele ecoam em mim como um decreto. Amir me jogou no circo dizendo: “Vai lá, aprende e depois vem se juntar de novo com a gente”. E assim fiz. Ele me apontou o caminho, tudo que faço vem dessa nascente. Muitos aprendizados, compartilhados hoje com meus alunos. Tudo está muito vivo dentro de cada um de nós. A Família

Mambembe são “queridos parentes” que não vejo há muitos anos… trinta! Mas, estão aqui e vibram nesse lugar sagrado. E isso é incrível, vai muito além do que podemos imaginar; é só sentir e estar. Toda vez em que nós nos falamos ou pensamos nesse lugar, o tempo fica suspenso. Se eterniza. Amir é o Pai e nós uma parte do seu rebanho. (05/05/2022, idem).

ISABELA LEAL (Personagens: 2º Freguês, Velho e Subdelegado) – A experiência vivida com a montagem de O mambembe, musical com direção do Amir, em 1991, é um marco na vida de todos os participantes do grupo. Com ele aprendemos o que é viver e agir coletivamente, a dominar o espaço físico com um balé orgânico feito com nossos corpos, a explorar o uso da voz em coro, cantando e falando, conhecemos o verdadeiro jogo da atuação entre os atores, texto, música, músicos, figurino, cenografia, adereços, iluminação e plateia. Aprendemos a magia da arte teatral, o lirismo, a graça... O mambembe é centrado nas personagens Laudelina, mocinha que deseja ser atriz, e Frazão, o empresário do grupo mambembe. É uma comédia-paródia de melodramas e crítica ao descaso dos governantes para com a arte dramática. Estreamos no Teatro Cacilda Becker, em uma semiarena. O aquecimento dos atores era feito no palco, já vestidos com os figurinos da cena de abertura, alguns tocavam instrumentos de percussão, dançávamos, cantávamos, comungávamos e bebíamos da mesma água, profanávamos, carnavalizávamos, brindávamos a vida, a liberdade, a arte e nossa irmandade. Cada ator tinha o seu camarim, com uma bancada, um espelho rodeado de pequenas lâmpadas e uma cadeira. Ficávamos todos à vista do público, circundando a arquibancada e, alguns, dentro do palco; nunca estávamos fora de cena, apenas numa postura neutra ou interferindo na ação central. Aliás, essas interferências eram momentos memoráveis. Em uma fala da Dindinha, ela dizia “acaso” no lugar de “ocaso” e todo o elenco a corrigia em coro: “OCASO!!!” Gargalhada certeira do público. Tocava o terceiro sinal e, em uníssono, entoávamos a canção de Ricardo Pavão que dizia o que é “Mambembe”: “É um pássaro em língua mandinga, é um prêmio, é um projeto cultural […] Oba!” Lembro de uma passagem emblemática, em que o Marcelo Vianna, que fazia o Seu Eduardo, estava rouco e o espetáculo exigia muito de sua voz. No momento em que cantava a canção para a sua amada Laudelina, a voz estava frágil e, sem que houvesse combinação prévia, o elenco cantou junto com ele, todos vestidos com suas máscaras teatrais, preenchendo o espaço com lindas presenças e uma só voz. De uma forma ou de outra, todos nós mambembeiros, filhotes do Amir, nos mantemos irmanados e ligados por uma linha invisível, costurada com pontos firmes e que tem como arremate três pontos de reticências... (09/05/2022, idem).

SE FICAR O BICHO COME

DIÁLOGO MNEMÔNICO DE ALGUNS ATORES DO ELENCO

DE SE CORRER O BICHO PEGA, SE FICAR O BICHO COME

BIANCA AMORIM – Amir é especialista em rasgar o ator ao meio, quebrar as resistências, acabar com os medos, para tirar o melhor de cada um em cena. Praticamente só trabalhei com ele, na cal e no Tá na Rua em seguida e, mesmo tendo parado de fazer teatro pouco depois, fica claro o quanto mudei depois de passar pelas mãos dele. A gente viveu a construção da peça num processo forte e sofrido, vendo os personagens se revelarem em cada um que experimentasse esse ou aquele, num revezamento sugerido, até que um deles “se encaixasse” melhor em alguém. Digo sofrido porque Amir não poupava o verbo quando achava necessário para “libertar o ator”.

LUCIA TALABI – A peça fala de um universo que, para muitos de nós, era desconhecido. Um Brasil distante do encantador mundinho zona sul do Rio de Janeiro, que é capaz de confundir a identidade mesmo daqueles que vêm de lugares similares aos retratados na peça. Éramos 36 jovens almejando o mundo das artes cênicas e inebriados por uma realidade que não era a que encontraríamos depois de formados. Os “sacodes” de Amir foram preciosos! Vivenciamos um processo onde pudemos ampliar nosso repertório estético, social, político e principalmente nosso autoconhecimento. Lembro das nossas sobrancelhas suspensas, e boquiabertos, com Amir gritando frases maravilhosas como “Dar não dói, o que dói é resistir!”, referindo-se à importância da generosidade e da entrega do ator para o trabalho. Infelizmente, não tive oportunidade de fazer outro espetáculo sob a direção deste tão marcante diretor de ator. Seus toques são inesquecíveis.

BIANCA AMORIM – Me lembrei dele aos berros, cinco minutos antes de abrirem as portas do Cacilda Becker na estreia. Hoje dá para rir disso.

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