PÚBLICOS EM EMERGÊNCIA A INSTITUIÇÃO ARTÍSTICA REVISITADA PELA MEDIAÇÃO CULTURAL DIOGO DE MORAES SILVA
Os públicos são imprescindíveis e, ao mesmo tempo, descartáveis. São imprescindíveis porque, sem eles, a produção cultural não teria razão de ser. Mas são descartáveis na medida em que sua participação é invariavelmente desconsiderada, sobretudo quando não corresponde aos propósitos da oferta cultural. Como explicar essa situação? Como extrair os públicos desse paradoxo? Essas são algumas das perguntas que Diogo de Moraes Silva procura responder em Públicos em emergência: a instituição artística revisitada pela mediação cultural. Mas ele não o faz à maneira dos estudos de públicos que, em última análise, pretendem reduzi-los a um conjunto identificável de interesses prévios, por meio de categorizações diversas. Em vez disso, concebe os públicos como sujeitos políticos eventualmente ingovernáveis, que emergem nas interações com os trabalhos e exposições de arte, cobrando por isso um tipo de desdobramento: “conferir materialidade e consequência às [suas] respostas […] diante daquilo que as instituições artísticas e os seus programas (expositivos e educativos) lhes apresentam como oportunidades de participação no âmbito artístico-cultural”. Essa diferença de abordagem leva o mediador cultural a problematizar criticamente o empreendimento pedagógico e autorreprodutivo das instituições culturais – parte delas privadas, como é o caso da Bienal de São Paulo –, que têm na afluência dos públicos um fator de sua legitimidade social, assim como uma “moeda de troca” para negociar com seus financiadores. Mas também o leva a se envolver com uma prática de natureza etnográfica, simultaneamente documentária e criadora, que resulta no
chamado Diário do busão: um inventário de desenhos e anotações sobre as formas de atuação dos estudantes e seus professores elaborado a partir da infiltração do mediador-pesquisador nas visitas que realizam às instituições, incluindo o percurso do ônibus que os leva até esses lugares. Desse modo, o estudo apresentado neste livro destoa do caráter benevolente com que essas visitas geralmente são representadas, quase sempre com o aval insuspeitável das políticas de democratização cultural, interessando-se especialmente por recusas, desvios, desacordos e antagonismos dos públicos, entre outras reações não coincidentes, disruptivas ou imprevisíveis, em relação às agendas artísticas, curatoriais e educativas de uma quantidade de exposições de artes visuais na cidade de São Paulo. Com isso, reivindica a inscrição sociocultural de uma variedade de performances, discursos e saberes, no mais das vezes apagados pela dinâmica institucional, que, ao ser reposicionada como destinatária pelo estudo, se vê convidada a aprender e se transformar com os públicos. Em suma, Públicos em emergência nos permite pensar o papel das práticas mediativas em contextos de arte, no mesmo passo em que propõe e experimenta outras maneiras de realizá-las, para além das perspectivas difusionistas e dos modelos “dialógicos” que elas empregam, sob os quais certa unidirecionalidade se mantém inquestionada. Cayo Honorato, professor do Departamento de Artes Visuais do Instituto de Artes da Universidade de Brasília (UnB).
PÚBLICOS EM EMERGÊNCIA
SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO Administração Regional no Estado de São Paulo Presidente do Conselho Regional Abram Szajman Diretor Regional Luiz Deoclecio Massaro Galina Conselho Editorial Carla Bertucci Barbieri Jackson Andrade de Matos Marta Raquel Colabone Ricardo Gentil Rosana Paulo da Cunha Edições Sesc São Paulo Gerente Iã Paulo Ribeiro Gerente Adjunto Francis Manzoni Editorial Cristianne Lameirinha Assistente: Maria Elaine Andreoti Produção Gráfica Fabio Pinotti Assistente: Thais Franco
PÚBLICOS EM EMERGÊNCIA A INSTITUIÇÃO ARTÍSTICA REVISITADA PELA MEDIAÇÃO CULTURAL DIOGO DE MORAES SILVA
© Edições Sesc São Paulo, 2025 © Diogo de Moraes Silva, 2025 Todos os direitos reservados Preparação Elba Elisa Oliveira Revisão Andréia Manfrin Alves, Edson Cruz Capa, projeto gráfico e diagramação Thais Franco
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Si383p
Silva, Diogo de Moraes Públicos em emergência: a instituição artística revisitada pela mediação cultural / Diogo de Moraes Silva. – São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2025. – 340 p. il. Bibliografia ISBN: 978-85-9493-348-5 1. Arte. 2. Cultura. 3. Sociedade. 4. Públicos. 5. Estrutura de poder. 6. Política. 7. Instituições artísticas. 8. Mediação cultural. I. Título. II. Subtítulo. CDD 701.18
Elaborada por Maria Delcina Feitosa CRB/8-6187
Edições Sesc São Paulo Rua Serra da Bocaina, 570 – 11º andar 03174-000 – São Paulo SP Brasil Tel.: 55 11 2607-9400 edicoes@sescsp.org.br sescsp.org.br/edicoes /edicoessescsp
SUMÁRIO
6 10 22 96 168
MEDIAÇÃO A CONTRAPELO Luiz Deoclecio Massaro Galina INTRODUÇÃO CAPÍTULO 1 – DO INSTITUCIONAL AO EXTRAINSTITUCIONAL, E VICE-VERSA: MEDIAÇÕES CULTURAIS EM ZIGUE-ZAGUE CAPÍTULO 2 – PÚBLICOS ENQUANTO FORMAÇÕES EMERGENTES: AGENTES DESTINATÁRIOS, SUJEITOS POLÍTICOS, INTÉRPRETES ATIVOS CAPÍTULO 3 – ESFERAS PÚBLICAS, CONTRAPÚBLICOS E PRODUÇÃO DO COMUM: AGENCIAMENTOS COLETIVOS CATALISADOS POR PRÁTICAS MEDIATIVAS
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DIÁRIO DO BUSÃO: VISITAS ESCOLARES A INSTITUIÇÕES ARTÍSTICAS
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CONCLUSÃO
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REFERÊNCIAS
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AGRADECIMENTOS
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SOBRE O AUTOR
Enquanto aguardam o ônibus, as crianças brincam e se espalham pelo vão livre. Impaciente, a assistente social assevera: “Vou arrumar um cantinho para sentar vocês... venham todos aqui!”.
PÚBLICOS EM EMERGÊNCIA
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Já dentro do ônibus, o menino solta: “O museu por dentro foi chato, mas por fora foi legal”.
O homem do saco segue vivo no imaginário das crianças.
Dirigindo-se ao amigo entretido com o game, o garoto diz: “Depois que você morrer, vai ser a minha vez”.
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Diário do busão: visitas escolares a instituições artísticas | Relatório da visita agendada do grupo de estudantes do 8º ano da EMEF Jardim Miranda à Pinacoteca do Estado de São Paulo | 20 de novembro de 2015, 10h.
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PÚBLICOS EM EMERGÊNCIA
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Repertório de toques
Quando alguém faz uma quantidade exagerada de perguntas, denotando demasiada curiosidade pela vida alheia, é chamado de “zé-povinho”.
Em lugar do som de sirene, o alto-falante da escola toca música. Dois estudantes afirmam que, caso pudessem escolher o repertório (o que não é o caso), optariam pelo “funk pancadão”.
No pátio, ouve-se de passagem o fragmento de uma música cantarolada por um aluno: “Tava mal de bala...”. Ao notar que eu uso um bloco de anotações, o menino comenta: “Ele vai analisar a gente... não pode falar palavrão, hein”.
O garoto pergunta: “Pode entrar de chinelo na Pinacoteca?”.
DIÁRIO DO BUSÃO – PINACOTECA
Num misto de carinho e zoação, ao notar o capricho no penteado do colega, o garoto tenta lhe passar a mão na cabeça. Gesto que é prontamente interrompido pela máxima: "Não rela!".
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SILVA, Diogo de Moraes. “Episódios contrapúblicos”. Urbânia. São Paulo: 2015, n. 5 (Educação), p. 245-7. Disponível em: <https://naocaber.org/ revista-urbania-5>. Acesso em: 5 jun. 2024. TEREPINS, Luis. “Entrevista ao Canal Arte 1”. Bienal 2014. Disponível em: https://www.facebook.com/watch/?v=615962675119328. Acesso em: 4 dez. 2024. WARNER, Michael. Públicos y contrapúblicos. Barcelona: Museu d’Art Contemporani de Barcelona; Servei de Publicacions de la Universitat Autònoma de Barcelona, 2008. WERBER, Niels. “O populismo como uma forma de mediação”. Periódico Permanente, São Paulo: 2016, n. 6 (Mediação cultural), p. 1-19. Disponível em: <http://www.forumpermanente.org/revista/numero-6-1/conteu do/o-populismo-como-forma-de-mediacao>. Acesso em: 5 jun. 2024.
REFERÊNCIAS
WU, Chin-Tao. “A absorção da cultura empresarial: instituições artísticas a partir da década de 1980”. Em: Privatização da cultura: a intervenção corporativa nas artes desde os anos 80. São Paulo: Boitempo; Sesc São Paulo, 2006, p. 145-79.
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AGRADECIMENTOS
AGRADECIMENTOS
A realização e a publicação de um estudo como este, que concebe a mediação como movimento cultural em zigue-zague, por dentro e por fora das instituições, se beneficiaram de aproximações com interlocutores interessados por essa forma experimental de praticá-la, ao mesmo tempo dispostos a lhe abrir caminhos. Foi assim com Martin Grossmann, cuja inquietação com estas páginas o levou a dar espaço para o seu autor, por exemplo, nos fóruns que organizava no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, quando o dirigia; com Lúcia Maciel Barbosa de Oliveira, leitora de primeira hora e crítica generosa, que procurou traduzir parte das problematizações aqui presentes em sua gestão do Centro MariAntonia, pedindo-me inclusive para realizar consultoria junto à equipe educativa daquela instituição; com Ricardo Basbaum, o primeiro a perceber a possibilidade de eu modular algumas das lentes aqui forjadas para analisar, já noutra investigação acadêmica, os ataques civis contra exposições como a “Queermuseu”; e com Marta Raquel Colabone, que identificou, pelo Sesc São Paulo, contribuições “extrainstitucionais” deste texto (e imagens) para a oxigenação de certas dinâmicas dessa entidade robusta, longeva e tão decisiva para a vida cultural da cidade, do estado e do país. Não posso deixar de mencionar, ainda, o agrupamento formado com Viviane Pinto, Cayo Honorato, Leandro Caetano, Flávio Aquistapace, Alberto Tembo e Stella Ramos, que nos idos de 2013 (ano das Jornadas de Junho) se reuniu semanalmente no Café Girondino, no centro de São Paulo, para traçar os planos de “Mediações em trânsito”, um projeto coletivo de longo prazo que segue vivo e tem neste livro uma de suas “pernas” em deslocamento. Também a equipe das Edições Sesc merece o meu reconhecimento, pelo trabalho editorial paciente e primoroso.
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SOBRE O AUTOR
SOBRE O AUTOR
Diogo de Moraes Silva (1982) opera nos cruzamentos da mediação cultural com as artes visuais, a prática documentária, o fazer editorial e a pesquisa acadêmica, com ênfase nas formas de atuação dos públicos da arte. É doutor em Estética e História da Arte pela Universidade de São Paulo. Atua no Sesc São Paulo, na Gerência de Estudos e Desenvolvimento, e contribui com a frente autônoma Mediação Extrainstitucional. É membro do Foro de Estudios de Públicos, uma iniciativa iberoamericana com sede na Cidade do México, além de colaborador do Instituto Vox de Pesquisa e Formação em Psicanálise, em São Paulo. Faz parte do conselho consultivo da Casa do Povo, organismo paulistano que tem se destacado pelo perfil inventivo de sua ação institucional. Assíduo nos debates sobre as formas de mediação ensaiadas nas fronteiras das instituições culturais, envolve-se com comissões, grupos de discussão e outras plataformas de formação e proposição na área. Compôs, nesse registro, o júri de seleção do 5º Edital de Mediação em Arte e Cidadania Cultural (2016), do Centro Cultural São Paulo (CCSP), foi docente do programa de cursos para professores da 29ª Bienal de São Paulo (2010) e dividiu a curadoria do ciclo O som como matéria para processos coletivos (2017-18), sediado no Museu Lasar Segall. Autor do Anedotário públicos dos públicos (Publication Studio, 2023), teve seus Postais mediativos (2017) impressos e lançados pelo Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Malba). Coeditou o Periódico Permanente 6 - Mediação cultural (2016), o e-book Panorama Reflexivo - 11 anos de Encontro Paulista de Museus (2021) e o dossiê “Guerras culturais: políticas em confronto” (2022), publicado por Políticas Culturais em Revista. Como artista-mediador, exibiu seu trabalho no Paço das Artes, Pivô, Centro MariAntonia, Galeria Vermelho, Funarte (Rio de Janeiro), Ateliê 397, Museu de Arte de Ribeirão Preto (Marp), CCSP, Red Bull Station e Queen’s University (Canadá), além de ter sido representado, na década de 2010, pela hoje extinta Galeria Virgilio.
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Fonte Papel
Joly Headline, Bebas Neue Pro, Atrament Capa em papel Supremo Alta Alvura 250 g/m2 Miolo em papel offset 90 g/m2 Impressão Margraf Data Novembro de 2025
Este livro nos mostra de que modo os campos da mediação cultural e das artes podem se beneficiar da observação ativa de seus espectadores, trazendo-os para o centro da experiência de fruição. Em vez de reiterar uma presumida passividade diante de categorias abstratas e de intermediações institucionais, o autor Diogo de Moraes Silva capta as reações espontâneas e até insubordinadas de sujeitos cujas vozes não costumam ser consideradas nas análises do sistema autor-obra-público, em que os dois primeiros quase sempre estão em evidência. Completa este estudo o ensaio artístico Diário do busão, que nos permite acompanhar esses novos públicos que emergem – no recorte proposto, jovens do ensino básico de escolas públicas de São Paulo e seus professores – em espaços que nem sempre estão preparados para os acolher.
ISBN 978-85-9493-348-5