Giorgio Romano Schutte Igor
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Série Relações Internacionais
Série Relações Internacionais
Coordenador Prof. Agripa Faria Alexandre
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Transição energética
© 2025 Giorgio Romano Schutte e Igor Fuser
Editora Edgard Blücher Ltda.
Série Relações Internacionais
Coordenador da série Agripa Faria Alexandre
Publisher Edgard Blücher
Editor Eduardo Blücher
Coordenador editorial Rafael Fulanetti
Coordenadora de produção Ana Cristina Garcia
Preparação e revisão de texto Equipe editorial
Diagramação Thaís Pereira
Capa Juliana Midori Horie
Imagem da capa iStockphoto
Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br
Segundo Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.
É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios, sem autorização escrita da Editora.
Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570
Schutte, Giorgio Romano
Transição energética / Giorgio Romano Schutte, Igor Fuser. – São Paulo : Blucher, 2025.
276 p. : il.
Bibliografia
ISBN 978-85-212-2740-3 (impresso)
ISBN 978-85-212-2741-0 (eletrônico – Epub)
ISBN 978-85-212-2737-3 (eletrônico – PDF)
1. Relações Internacionais. 2. Transição energética – Estratégias do Estado. 3. Desenvolvimento energético. 4. Diversificação energética. 5. Segurança energética. 6. Acessibilidade energética. 7. Sustentabilidade energética.
CDU 327:502.174.3
Índices para catálogo sistemático:
1. Relações Internacionais CDU 327
Prefácio
A energia não é fabricada pelos seres humanos; precisamos sempre extraí-la da natureza e transformá-la para atender nossas necessidades, de acordo com as tecnologias disponíveis. Há cerca de 400 mil anos, a espécie humana aprendeu a dominar o fogo e a queimar madeira para se aquecer, preparar a comida e iluminar ambientes escuros.
Durante quase toda a trajetória da humanidade, as principais fontes de energia disponíveis foram a lenha e a força muscular dos próprios seres humanos e dos animais que conseguiram domesticar. A exploração predatória da madeira é a principal causa da destruição de florestas, especialmente na Europa e na Ásia. Na medida em que nossa capacidade técnica progrediu, outros recursos passaram a ser utilizados, como a força do vento, utilizada para mover embarcações a
vela, e os diversos tipos de óleo – de origem animal, como o óleo da baleia, e mineral, como o petróleo, recolhido em charcos existentes na superfície terrestre – usados para a iluminação. Na Idade Média, o aproveitamento da energia eólica se aprimorou com os moinhos de vento, como aqueles que aparecem no clássico romance Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Mais adiante, a construção de enormes navios a vela capazes de navegar por todo o globo terrestre, as caravelas, assinalou o início dos tempos modernos.
A grande mudança no uso da energia ocorreu em meados do século XVIII, quando o carvão de pedra, que em vários países da Europa já era queimado para aquecer ambientes, passou a ser utilizado, na Inglaterra, para mover as primeiras máquinas a vapor, dando partida à Revolução Industrial. O carvão é um dos três combustíveis fósseis, juntamente com o petróleo e o gás natural. Essa denominação se deve à origem desses três minerais, formados por resíduos de seres vivos, animais e vegetais, que, em vez de desaparecerem pela decomposição natural, adquiriram a forma fóssil, sob as condições existentes no interior das rochas onde se depositaram. Nesse processo, ocorrido há dezenas de milhões de anos, a energia existente nesses organismos – que têm como fonte original a radiação solar – conservou-se de forma extremamente concentrada, o que explica seu alto poder calorífico.
A energia de origem fóssil pode ser utilizada de modo flexível na produção, no consumo e no transporte, propiciando a otimização do tempo e do espaço nos processos produtivos. Essa é uma das vantagens que explicam a resiliência dessas fontes como a base das matrizes energética e elétrica globais.
A outra grande vantagem é o altíssimo, quase incomparável, poder calorífico contido no carvão, no petróleo e no gás natural.
O petróleo, ao ganhar importância crescente no século XX como combustível para os transportes, tornou bem mais complicada a relação entre o acesso aos recursos energéticos, de um lado, e o poder econômico e político, do outro. Ao contrário do carvão, relativamente bem espalhado pelo mundo, o petróleo é um mineral raro, difícil de ser encontrado em condições favoráveis à sua exploração comercial.
As reservas petrolíferas se distribuem pelo planeta de modo aleatório, a partir de fatores puramente geológicos. Países com elevado desenvolvimento industrial, como o Japão e as principais potências europeias (Reino Unido, Alemanha, França, Holanda, Bélgica, Itália), se depararam, na fase decisiva de sua expansão econômica, na virada do século XIX para o século XX, com a necessidade de importar petróleo, pois não dispunham desse recurso em seu território.
Em situação oposta se encontravam os territórios do que hoje chamamos de Sul Global, a “periferia” do planeta, o que tempos atrás se denominava Terceiro Mundo. Lá se situam países detentores de enormes reservas petrolíferas no seu subsolo, mas destituídos das condições políticas, econômicas e tecnológicas indispensáveis para explorar essa riqueza. Para se ter uma ideia, a atual Indonésia possuía até a primeira metade do século XX uma das maiores reservas petrolíferas do mundo, mas nem sequer existia como país. Era uma colônia denominada Índias Orientais Holandesas.
Pior ainda era a situação da maioria dos países periféricos, que não tinham reservas de petróleo e/ou de gás natural nem condições de se apropriar das reservas de outros.
O petróleo adquiriu importância econômica e se tornou um recurso vital justamente na época do auge do imperialismo, quando um punhado de países do norte da Europa, mais os Estados Unidos e, em escala regional, o Japão,
Depois do Choque do Petróleo nada permaneceu como estava no cenário global da energia. Todas as novas tendências no campo da energia – da ascensão do gás natural à alternativa da energia nuclear, passando pelas primeiras experiências com as fontes eólica e solar – ganharam impulso naquele contexto. Todos se lembravam das filas quilométricas de automóveis estadunidenses e europeus para comprar gasolina, do desespero dos executivos para comprar petróleo em meio ao embargo decretado pela Opep. E os governos queriam ter a certeza de que aquele pesadelo jamais se repetiria.
O Choque gerou uma sensação inédita de vulnerabilidade entre os países mais ricos e poderosos. Os Estados Unidos, a Europa Ocidental e o Japão se viram na dependência de um recurso energético que já não controlavam como antes – o
petróleo, que agora tinha suas reservas e sua produção concentradas em um punhado de países integrantes da Opep, quase todos situados no Oriente Médio. Já não era mais possível contar com o papel estratégico da produção petrolífera dos Estados Unidos. A maior potência do planeta, país onde nasceu e se estruturou a indústria do “ouro negro”, amargava o declínio de suas reservas, exploradas intensamente durante mais de um século. De maior exportador mundial de petróleo, os EUA se tornaram, entre as décadas de 1950 e 1970, o maior importador – uma posição desfavorável que só seria superada muito mais tarde, no início deste século (veja o Capítulo 6).
As preocupações derivadas da dependência do petróleo importado se sintetizaram numa expressão que, ainda hoje, ocupa um papel central no planejamento da economia da energia por todos os governos – segurança energética. Em sua forma mais simples, segurança energética significa a garantia de que um determinado país conseguirá obter os recursos energéticos indispensáveis para abastecer suas atividades essenciais, a preços acessíveis.
No ano fatídico de 1973, percebeu-se que o petróleo, líquido vital para o funcionamento de qualquer economia, poderia faltar a qualquer momento, fosse por motivos políticos, como o embargo da Opep, fosse pelo seu simples esgotamento físico, já que se trata de um recurso natural não
Desde o surgimento da indústria, na segunda metade do século XVIII, a humanidade tem utilizado com intensidade crescente os combustíveis fósseis para acionar as máquinas, abastecer os transportes e gerar a eletricidade. A Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra, marca também o início das emissões, pela ação humana, dos chamados gases do efeito estufa (GEE). Esses gases, entre os quais se destacam o metano e o dióxido de carbono (CO2), estão presentes no nosso planeta há bilhões de anos e sua existência está associada à geração das condições para a vida na Terra. Juntamente com o vapor da água, os GEE ajudam a reter a radiação infravermelha que recebemos do Sol. Eles aquecem a atmosfera e a superfície terrestres, tornando o mundo habitável. No entanto, sua concentração em excesso causa o
aquecimento global em níveis superiores àqueles que ocorreriam pelos ciclos naturais de alta e baixa da temperatura na Terra, um processo que ocorre em uma escala de dezenas de milênios.
O resultado são as mudanças climáticas que enfrentamos na atualidade, decorrentes da elevação anormal das temperaturas médias no planeta. As consequências, entre outras, são as secas prolongadas e as ondas de calor em várias partes do mundo, a degradação de terras férteis que se transformam em desertos e o derretimento de geleiras no Ártico, na Groenlândia, na Antártica e no topo de montanhas. Isso, por sua vez, tem causado a alteração do regime dos rios e a elevação do nível dos oceanos.
Milhares de espécies animais e vegetais já desapareceram por conta dessas mudanças no clima e muitas outras mais estão em risco de extinção. A segurança das populações que vivem próximas ao mar se encontra ameaçada e milhões de pessoas já tiveram de abandonar as regiões onde moravam devido às secas. Outras catástrofes naturais, como os furacões, as enchentes e os incêndios florestais, tornaram-se mais frequentes e mais mortíferas.
De acordo com o relatório do Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) divulgado em 2023, as atividades humanas já causaram, nos últimos dois séculos, um aumento de 1,1 grau Celsius na
Todos os dados disponíveis tornam evidente que uma questão central para a transição energética é a necessidade de descarbonizar e, ao mesmo tempo, aumentar a oferta de energia. A população mundial era de menos de 5,5 bilhões quando foi realizada a Conferência Rio-92. Hoje, já superamos os 8 bilhões e, por volta de 2050, chegaremos a 10 bilhões, após o que há vários cenários possíveis (ligeiro crescimento, estagnação ou ligeira queda).
Ao mesmo tempo, há uma correlação entre crescimento econômico e aumento da demanda por energia. Em termos econômicos, a elasticidade da demanda por energia em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Se essa elasticidade for 1, significa que o crescimento do PIB resulta em um aumento proporcional da demanda por energia; se
for menor que 1, a demanda por energia reage proporcionalmente menos; e, se for maior, significa que o crescimento da renda provoca um aumento da demanda por energia proporcionalmente maior.
Os países pobres, ao conseguirem crescimento econômico, tendem a registrar uma elasticidade renda/demanda de energia superior a 1, enquanto o contrário ocorre nos países desenvolvidos. A partir de um certo nível de renda, o aumento desta tende a ter um impacto cada vez menor sobre o crescimento da demanda por energia. Isso também acontece dentro dos próprios países. Um crescimento econômico aliado à distribuição de renda, como ocorreu no Brasil na segunda metade da década de 2000, por exemplo, ampliou significativamente a demanda por energia e o uso não energético do petróleo (em particular, os plásticos).
Não surpreende, portanto, que o consumo per capita de energia apresente trajetórias muito diferentes, dependendo do estágio de desenvolvimento. Vejamos, em termos relativos, o crescimento ou decréscimo do consumo per capita de energia entre 1992 e 2023:
Tabela 5.1 Consumo de energia per capita (1992-2023)
País Diferença em % entre 1992 e 2023 Alemanha
(continua)
É difícil imaginar os Estados Unidos sem petróleo. As grandes descobertas nos estados do Sul, no início do século XX, deram impulso e competitividade à industrialização estadunidense: Texas, Novo México, Oklahoma, Louisiana, Alabama e Mississippi. Os três primeiros, inclusive, eram território mexicano antes da anexação pelos Estados Unidos em meados do século XIX. Magnatas industriais como John Rockefeller e empresas como Exxon, Mobil, Chevron, Texaco e Gulf fazem parte do imaginário americano.
Se a teoria econômica reservou para os países da periferia a ideia de que grandes reservas de petróleo geram uma “maldição dos recursos naturais”, certamente isso não se aplica ao carvão no Reino Unido, que possibilitou a Revolução Industrial no Velho Continente, nem ao petróleo, que deu aos Estados Unidos a condição de se tornar o líder do mundo
capitalista. Os Estados Unidos perderam sua liderança na produção de petróleo em 1976 para a União Soviética, mas nunca deixaram de ser o maior consumidor, embora sua participação no consumo global tenha caído de 31%, em 1971, para os atuais 20%.
O choque dos preços do petróleo em 1973 coincidiu com o início da queda lenta e gradual, mas constante, da produção interna. Isso resultou em uma crescente dependência externa, que se tornou crítica em meados da década de 2000. Em 2003, ano da invasão do Iraque, os Estados Unidos consumiam quase 20 milhões de barris por dia e produziam apenas 7,4 milhões de barris por dia (mbpd), o que representava uma dependência de importação de 62%. Nessa época, o influente centro de estudos Rand Corporation publicou um relatório alertando sobre o perigo para os Estados Unidos não apenas de dependerem das importações, mas, sobretudo, de importações vindas de países considerados hostis, que utilizavam os dólares obtidos com a exportação para comprar armas e, pior, desenvolver sua própria indústria bélica.
O quadro se agravou até atingir 66% de dependência em 2008. Era chegada a hora de reagir, e o presidente George Bush (filho) lançou a campanha pela “independência energética”. Em seu Discurso à Nação, em 2006, ele já havia estabelecido a meta de reduzir as importações de petróleo do Oriente Médio em 75% até 2025. Ele não poderia imaginar
A União Europeia (UE) conta atualmente com 27 países-membros, entre os quais a Alemanha se destaca como potência industrial, responsável por cerca de 30% do Produto Interno Bruto (PIB) total daquela região. A Europa é o único continente que começou a registrar uma queda no consumo de energia a partir da década de 2010, reflexo de três fenômenos: investimentos e regulações voltados à eficiência energética; a curva demográfica marcada pelo envelhecimento da população (em alguns países, como a Itália, há até um ligeiro encolhimento populacional); e o crescimento econômico fraco desde os desdobramentos da crise financeira global de 2008.
A preocupação com a questão energética está fortemente relacionada à dependência das importações. A crise do Canal de Suez, em 1956, já servira como um alerta quanto
à necessidade de diversificação geográfica. No entanto, foi o Choque do Petróleo de 1973 que colocou o tema no topo da agenda. Naquele ano, a Europa importava cerca de 60% da energia que consumia, principalmente do Oriente Médio. Na época, ainda não havia uma preocupação consolidada com as mudanças climáticas. A resposta foi estreitar relações com a União Soviética, que se apresentava como alternativa aos países exportadores de petróleo da Opep. Além da expansão dos oleodutos, houve grandes investimentos em gasodutos, com destaque para o Gasoduto da Fraternidade, liderado pela Alemanha no início da década de 1980, com o apoio da França e a ferrenha oposição do governo estadunidense de Ronald Reagan. Simultaneamente, investiu-se na exploração de petróleo no Mar do Norte e ampliou-se a exploração de gás no norte da Holanda. Também houve esforços em eficiência energética e na busca por outras fontes, especialmente energia nuclear.
Um grande problema que persiste até hoje é a ausência, na prática, de uma política energética europeia propriamente dita. A União Europeia, originada da Comunidade Econômica Europeia (criada em 1957) e da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (criada em 1951), possui uma estrutura de governança complexa: algumas políticas, como a comercial e a agrícola, são comunitárias, o que significa que a Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia, detém a
A China é um país colossal em todas as dimensões e passou, nas últimas décadas, por uma enorme transformação. Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostram que, na década de 1980, a participação da China nas importações e exportações era de cerca de 1,5% do comércio global. Foi a partir do início deste século, após o país entrar na Organização Mundial do Comércio em 2001, que começou seu salto para se tornar a segunda maior economia do mundo e o principal país produtor de manufaturas.
Hoje, a China é responsável por 14,5% das exportações mundiais e 10,5% das importações. Uma pesquisa do Serviço de Pesquisa do Congresso dos Estados Unidos mostra que a participação chinesa no valor adicionado da manufatura, em relação ao total mundial, aumentou de cerca de 8% no ano 2000 para mais de 30% nos dias de hoje.
Nesse período, sua população cresceu de 1,26 bilhão para 1,41 bilhão, enquanto a taxa de urbanização pulou de 36% para 66,2%.

Gráfico 8.1 Evolução do PIB da China entre 1960 e 2020 em trilhões de dólares. Fonte: Banco Mundial.
O gráfico mostra claramente que os frutos da revolução de 1949 e da abertura para a economia mundial a partir de 1978 começaram a ser colhidos em grande escala a partir de início deste século.
A China percorreu esse caminho tendo 14 países vizinhos, e com alguns deles não tinha fronteiras pacificadas – e ainda hoje não tem com a Índia nem com o Butão. Além disso, a partir do início da década de 2010, o país vem enfrentando tentativas dos Estados Unidos de frear sua ascensão, a ponto
Os 54 países do continente africano, dos quais 47 formam a região subsaariana, caracterizam-se por populações em rápido crescimento. Além de o continente registrar o maior crescimento populacional, continua sendo o mais pobre e com uma participação ainda muito pequena no consumo de energia e nas emissões de gases de efeito estufa (GEE), embora seja um dos que mais sofrem com as consequências das crises climáticas. Logo, é na África que as contradições se apresentam de forma mais aguda.
A participação do continente africana na população mundial deve crescer de 19% em 2025 para 25% em 2050. E isso vem acompanhado de um processo de urbanização e do aumento da demanda por energia. E todas as projeções indicam que a população africana continuará crescendo após 2050, quando a asiática já começará a desacelerar, estabilizar-se e tender a se contrair.
Na Tabela 9.1, pode-se verificar que, embora tenha havido um crescimento expressivo em termos percentuais no consumo de energia, a participação do continente africano ficou para trás. Isso significa que o aumento do consumo de energia no restante do mundo – especialmente na Ásia – foi muito superior, sobretudo a partir dos anos 2000.
Tabela 9.1 Trajetória consumo de energia e demográfica no continente africana
Consumo primário de energia em Exajoules
Percentagem consumo africana/ consumo mundial
População no continente africana
Percentagem população/ população mundial
(projeção)
Fonte: Data World Bank; Statistical Review of World Energy; UN World Population Prospects 2024. World Energy Scenarios 2050.
Assim, se compararmos o consumo de energia per capita africano com a média mundial, observamos um avanço de 16,3% em 1973 para 22% em 2000, seguido de uma queda relativa para 18,5% em 2023, de acordo com dados do Statistical Review of World Energy. Em números absolutos, o consumo de energia per capita na África aumentou de 14
O Brasil, de certa forma, é um país abençoado por não ter, desde o início, grandes reservas de fósseis – nem de carvão, nem de petróleo. Contrariamente às demais experiências no mundo, o nacionalismo do petróleo no país não se construiu sobre a exploração de reservas por oligopólios internacionais.
A campanha “O Petróleo é Nosso” (1947-1953), uma das maiores mobilizações populares no Brasil do século XX, ocorreu sem que existissem reservas expressivas comprovadas daquele recurso natural.
Quando, na década de 1930 – e com mais força na década de 1950 – o Brasil começou a apostar em sua industrialização, havia, portanto, um constrangimento na área energética que gerava pressões sobre a balança comercial. Para atenuar
esse problema, o país buscou desde cedo soluções nacionais e renováveis: hidroeletricidade e etanol de cana-de-açúcar.
Foi em 1931 que o presidente Getúlio Vargas publicou um decreto obrigando a adição de 5% de álcool anidro à gasolina – décadas antes de se relacionar essa medida à descarbonização. Diante dos impactos do Choque do Petróleo de 1973, o general Ernesto Geisel, recém-empossado como presidente no contexto da ditadura militar, em que a oposição era perseguida e a alta cúpula militar escolhia os governantes do país sem qualquer tipo de participação da sociedade, adotou como prioridade política a manutenção do crescimento econômico. Essa opção estratégica fazia parte de um projeto autoritário de “Brasil Potência” acalentado por setores das Forças Armadas. Antes de ser indicado pelos seus pares como presidente da República, Geisel havia sido, durante quatro anos, presidente da Petrobras. Vem daí o fato de ter cultivado uma quase obsessão em encontrar petróleo na Bacia de Campos – o que, de fato, ocorreu.
Com o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), Geisel apostou em tudo o que fosse possível: expansão da energia hidrelétrica com a construção de Itaipu; energia nuclear (a usina de Angra dos Reis); e etanol, com o Programa Nacional do Álcool (Proálcool). Na época, não se falava ainda em energia solar, e a eólica era muito incipiente. Não
As fontes de energia renováveis ocupam um lugar central no projeto da descarbonização da economia. Para se tornar realidade, no entanto, a transição energética precisará recorrer ao uso, em dimensão exponencial, de todo um conjunto de recursos naturais não renováveis, vitais para a fabricação dos painéis solares, turbinas fotovoltaicas, carros elétricos e de um vasto conjunto de equipamentos eletrônicos ligados à produção e ao uso das energias “verdes”. Esse processo causará, e já está causando, em escala crescente, fortes impactos ambientais nas regiões onde são obtidos, destruindo florestas, poluindo rios e lagos, esgotando mananciais de água e afetando gravemente o modo de vida de comunidades locais e povos indígenas.
Além disso, o acesso aos minerais críticos – como são chamados esses insumos – têm sido objeto de uma crescente
disputa no cenário geopolítico internacional (Klare, 2021).
Na competição entre a China, de um lado, e do outro lado os Estados Unidos e seus aliados, como a Austrália e o Canadá, as atenções se voltam para a América Latina e a África, onde se concentra grande parte das reservas desses minerais.
A maior parte dos empreendimentos envolvidos se situa em países com baixo desenvolvimento econômico e tecnológico e instituições frágeis, com dificuldade em fazer valer seus interesses nos contratos com empresas chinesas e ocidentais. Ainda assim, cada vez mais, países do Sul
Global têm procurado estabelecer uma governança mais forte sobre seus minerais críticos, com o objetivo de evitar a repetição das práticas neocoloniais associadas ao rentismo e ao extrativismo predatório.
Para isso, muitos países buscam estabelecer estratégias políticas de longo prazo e medidas jurídicas para viabilizar a participação de empresas nacionais no processamento desses recursos, aumentar a receita fiscal, combater a corrupção e proteger o meio ambiente e as comunidades locais.
Sem dúvida, a exportação de “minerais críticos” utilizados nas tecnologias de energia limpa pode trazer relevantes ganhos econômicos para os países que possuem grandes reservas desses recursos. Um relatório da Brookings Institution (2022) afirma que, se tiverem sucesso em implantar regras eficientes, os governos desses países poderão utilizá-los para
Em 2024, a temperatura da atmosfera da Terra registrou, pela primeira vez, um aumento de 1,5 °C em relação à era pré-industrial, limite ideal estabelecido no Acordo de Paris para conter o aquecimento do planeta até 2100. O fato de que quase 75% das emissões de gases de efeito estufa (GEE) estão relacionadas à energia explica por que a transição energética, embora não seja o único desafio, se tornou o centro das atenções.
Ao contrário do otimismo que marcou o avanço do multilateralismo na época da Conferência Rio-92 e, posteriormente, durante a elaboração do Acordo de Paris, de 2015, o mundo passou a caminhar em outra direção. O aumento dos conflitos geopolíticos, das rivalidades interestatais e até mesmo das guerras, que desviam a atenção das grandes
potências, tornou-se uma característica da década de 2020, sem perspectiva de resolução no curto prazo. Os gastos militares vêm crescendo de forma alarmante em todo o mundo. Trata-se de um cenário global que não conseguiu evitar o aumento das emissões de gases de efeito estufa, quando a perspectiva era que elas já tivessem começado a cair. Um elemento muito enfatizado ao longo dos capítulos deste livro é que, mesmo sem a necessidade de descarbonização, o mundo já estaria discutindo a questão da energia, devido à necessidade de atender à demanda crescente resultante de três fatores: o crescimento demográfico (com um aumento expressivo da população até 2050); o aumento da renda e o uso de tecnologias de alto consumo energético (como os datacenters); e a urgência de enfrentar o déficit de acesso à energia existente, a chamada pobreza energética. Embora as estimativas variem, haveria a necessidade de garantir a continuidade do fornecimento atual de energia e ampliá-lo em 25% a 50% até 2050.
Nosso ponto de partida é que o processo necessário e urgente de descarbonização deve partir da realidade concreta – e não dos nossos desejos – e considerar duas outras dimensões para avançar com a legitimidade e a governabilidade política e social necessárias. Com isso, pretendemos contribuir para o entendimento dos processos em curso, muito mais do que oferecer receitas prontas ou simplesmente denunciar a falta de
A transição energética é, provavelmente, o maior desafio da humanidade neste século. Para evitar um colapso climático e ambiental, será necessário eliminar gradualmente quase todo o consumo dos três combustíveis fósseis que movimentam as atividades humanas: petróleo, carvão e gás natural. Seu lugar deverá ser ocupado por fontes de energia limpa. Trata-se de uma tarefa imensa, que se torna ainda maior porque ocorre simultaneamente ao crescimento da demanda global por energia, impulsionada pelo aumento populacional e da renda, em particular no Sul Global. Este livro apresenta os dilemas da energia à luz da luta contra o aquecimento da Terra e defende uma transição planejada, capaz de garantir simultaneamente a segurança energética, a sustentabilidade ambiental e o desenvolvimento, respeitando os valores éticos da justiça social.
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