
Organizadoras
Luciana Nunes de Nunes
Samanta Antoniazzi
Valéria Quadros
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Organizadoras
Luciana Nunes de Nunes
Samanta Antoniazzi
Valéria Quadros

Luciana Nunes de Nunes
Samanta Antoniazzi
Valéria Quadros
Psicanálise, memória, história e política
© 2025 Luciana Nunes de Nunes, Samanta Antoniazzi, Valéria Quadros (organizadoras)
Editora Edgard Blücher Ltda.
Publisher Edgard Blücher
Editor Eduardo Blücher
Coordenador editorial Rafael Fulanetti
Coordenadora de produção Ana Cristina Garcia
Produção editorial Helena Simões Miranda e Andressa Lira
Preparação de texto Maurício Katayama
Diagramação Thaís Pereira
Revisão de texto Lidiane Pedroso Gonçalves
Capa Laércio Flenic
Imagem da capa iStockphoto
Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br
Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.
É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora.
Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570
P974 Psicanálise, memória, história e política / organizado por Luciana Nunes de Nunes, Samanta Antoniazzi, Valéria Quadros. – São Paulo : Blucher, 2025.
246 p.
Bibliografia
ISBN 978-85-212-2550-8
1. Psicanálise. 2. Psicanálise e política. 3. Teoria psicanalítica. 4. Psicanálise – Escola Freudiana. 5. Psicanálise e história – CEPdePA/Serra. 6. Psicanálise – Pesquisas Cepianas. 7. Freud, Sigmund, 1856-1939. I. Nunes, Luciana Nunes de. II. Antoniazzi, Samanta. III. Quadros, Valéria.
CDD 150.195
CDD 159.964.2
Índices para catálogo sistemático:
1. Psicanálise
2. Psicanálise
CDD 150.195
CDU 159.964.2
Argumento 7
Luciana Nunes de Nunes
Samanta Antoniazzi
Valéria Quadros
1. Freud, o político da alteridade 11
Leonardo Adalberto Francischelli
2. Dos problemas atuais ao futuro da psicanálise 25
Sander Machado
3. “O inconsciente é a política” 43
Margarida Viñas
4. Psicanálise, fotografia e memória: tessituras possíveis 61
Diego Aram Meghdessian Bedrosian
Weidila Nink Dias
Daniel Araújo dos Santos
Sandra Djambolakdjian Torossian
5. Ensaios para vida e memória: uma leitura psicanalítica do traumático da pandemia de covid-19 no Brasil 73
Lisiane Molina Leffa
6. O processo de “tornar-se” mulher negra a partir de um olhar psicanalítico 91
Carolina Pereira
7. Uma medida nada provisória: o ser estrangeiro na própria terra 113
Ignácio Alves Paim Filho
Júlia Schneider Protas
Larissa Brasil Ullrich
Tânia Nara Carvalhal Israel
8. Racismo: estrangeiro que habita em mim 129
Paula Frizzo
9. Reflexões sobre as faces da histeria e sua relação com a moral sexual 143
Karin Mayer Richter
10. O amor na história e as histórias de amor 161
Flávia Bernardi
Roseli Dal Bem Fistarol
11. Sobre o silêncio das mulheres 187
Denise Fátima Casara
Flávia Bernardi
12. A imposição da maternidade 207
Nicole Pedroti Venturin Padilha
13. “Freud morreu, mas passa bem”: por uma versão da história do CEPSerra 225
Denise Fátima Casara
Júlio César Kunz
Sobre as autoras e os autores 243
Luciana Nunes de Nunes
Samanta Antoniazzi
Valéria Quadros
Na primavera de 2023 começamos a elaborar a temática deste livro, que se insere em uma proposta institucional de publicação bianual do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre/Serra (CEPdePA/ Serra). A ideia de pensar a psicanálise em suas interseções com a história e com a política emergiu por duas vias: uma delas relacionada à cultura; outra ligada ao fato de o CEPdePA/Serra celebrar quarenta anos em 2024.
No âmbito da cultura, nos últimos anos, vimo-nos confrontados com situações históricas que nos convocaram a vir a público afirmar nosso compromisso no sentido de defesa da democracia e do direito à vida. A abertura do campo psicanalítico para o letramento racial, para os estudos de gênero e para a decolonialidade provoca a urgência de um olhar crítico para a teoria psicanalítica e suas bases epistemológicas. Questionar o contexto histórico e político de suas condições de produção e de sustentação torna-se imprescindível para que o saber psicanalítico possa seguir se reinventando.
Como apontamos, este livro também marca os 40 anos de fundação do CEPdePA/Serra. Nascida em 1984, de um projeto coletivo que buscava ampliar as possibilidades da psicanálise na cidade de Porto
Alegre, a instituição atravessou diferentes momentos, consolidando sua proposta de ser um centro de estudos da psicanálise e de, ao mesmo tempo, oferecer formação psicanalítica. A marca de nossa transmissão constitui-se tanto de um estudo aprofundado e consequente do fundamento freudiano como de uma abordagem plural no estudo de outros autores que fizeram escola na psicanálise. Nesse processo de consolidação de seus propósitos, em 1998 o CEP participou da fundação da Federação Latino-Americana de Associações de Psicoterapia Psicanalítica e Psicanálise (FLAPPSIP). Assim, expandiu-se a interlocução com entidades de raízes comuns, empenhadas no diálogo científico, na interação entre a teoria e a clínica, e entre esta e o campo social.
No campo político, em 2015 o CEP passou a integrar o Movimento Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras, cuja causa é a não regulamentação da psicanálise, defendendo-a como leiga e laica, bem como o rigor da formação do psicanalista. Em 2022 foi aprovado o Projeto Ananse, de ações afirmativas, que se propõe a aprender e compartilhar uma psicanálise implicada com o antirracismo.
Com sede em Porto Alegre, a instituição, desde seus inícios, estabeleceu um intercâmbio com cidades da região da Serra. No primeiro decênio dos anos 2000, com a fundação de uma sede na cidade de Caxias do Sul, agregou-se Serra ao nome do CEP.
Quanto à nossa produção editorial, desde 1992 publicamos anualmente a Revista do CEPdePA e, em 2010, passamos a publicar nossos livros. Em alguns destes, interessou-nos traduzir diretamente do alemão textos seminais da obra de Freud, combinando-os com a produção dos colegas dos vários segmentos da instituição.
Inspirados pelos 40 anos do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre/Serra, o livro Psicanálise, memória, história e política é um convite para que os leitores possam testemunhar a marca do tempo nas produções, reflexões e pesquisas cepianas. O tempo de elaboração do que passou, com suas possibilidades de leitura crítica. O tempo de
espanto com o presente, no que a escuta psicanalítica nos faz perceber e estranhar, ainda que o sentido se apresente em aberto. O tempo de sonhar o futuro, diante das incertezas que nos espreitam.
O livro se abre com a temática da psicanálise e política. O passado e o futuro da psicanálise nos são interrogados nos modos de subjetivação de hoje. Para um mergulho no futuro, nos são trazidas a memória e a fotografia – marcas de uma história que está sempre a se escrever. O traumático da nossa cultura e sua relação de imanência com a barbárie nos são dados a ver em textos que problematizam nossa estrutura social – seja nas articulações em relação ao enfrentamento da pandemia da covid-19, seja no tema que grita por escuta: o racismo estrutural no Brasil.
Em seguida, eixos da teorização freudiana são retomados, por meio dos estudos sobre a histeria, da temática da maternidade e lugar da mulher na cultura, bem como da teorização sobre o amor, em uma composição entre história e atualidade. Por fim, o livro encontra seu concluir com um texto que aborda o vigor da transferência de trabalho na história cepiana, em uma leitura/escrita sobre a formação do CEPSerra.
Leonardo Adalberto Francischelli
Para os que entram nos mesmos rios, correm outras e novas águas.
Heráclito
IA proposta do presente trabalho, colocando Freud como “o político da alteridade”, faz pensar em uma possível ética no banquete totêmico, ao qual Freud se refere em Totem e tabu (Freud, 1913[1912-1913]/2006c).
É a partir deste e dos demais textos sociais de Freud que se pretende mostrar sua posição como homem político do seu tempo.
Em 1908, Freud nos apresenta seu trabalho “Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna”,1 no qual poderia se sustentar que ele constrói uma espécie de resumo dos seus escritos anteriores sobre a temática do que acontece entre a vida pulsional e o antagonismo
1 Em diferentes traduções do alemão para o nosso idioma, muitos tradutores preferem cultura em lugar de civilização. Freud se declara indiferente entre falar de cultura ou civilização (Freud, 1908/2006b, p. 6).
da cultura. Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud (1905/2006a) já descrevia “o vínculo de oposição existente entre a cultura e o livre desenvolvimento da sexualidade” (p. 221), gerando consequências na vida sexual do homem.
Em 1913, Totem e tabu (Freud, 1913[1912-1913]/2006c) alberga uma série enorme de destacados autores, assim como toda a bagagem clínica e teórica sobre a estrutura das neuroses obtida por Freud até aquele momento, como um modelo para pensar a organização dos povos primitivos. Destaca-se a tese central e impactante referente ao retorno do totemismo na infância em que Freud afirma: “Certo dia, os irmãos que tinham sido expulsos retornaram juntos, mataram e devoraram o pai, colocando assim um fim à horda patriarcal. Unidos tiveram a coragem de fazê-lo e foram bem sucedidos no que lhes teria sido impossível fazer individualmente” (2006c, p. 145). Certo dia, diz o autor, sem uma determinação histórica com hora, data e ano, isso porque não seria possível “visar a exatidão nesta questão”, tanto “quanto seria inadequado insistir da certeza” (2006c, p. 146).
Após esse importantíssimo ato parricida, certamente fundacional, nasce o banquete totêmico que Freud batiza como a primeira festa da humanidade. Essa façanha memorável e criminal dá lugar ao começo das organizações sociais, às limitações éticas e à religião. E, é claro, na esteira desse acontecer histórico, nasce a proibição do incesto e a exogamia, posto que os irmãos acordaram que nenhum estava apto a ocupar esse lugar do pai que, depois de morto, ficou mais forte do que quando estava vivo, tornando-se um pai simbólico.
Em seguida, sobre esse momento que é também o nascedouro da lei, Freud (2006c) afirma que ela “apenas proíbe os homens de fazer aquilo que seus instintos o inclinam” (p. 129). Retomamos, assim, a questão da pulsão, sexual sem dúvidas, para chamar a atenção ao ponto em que lei e pulsão se encontram.
Sander Machado
Esta intervenção visa discutir o lugar da psicanálise no mundo das ideias nos dias de hoje. Nesse sentido, irei colocar em cena um recorte clínico e duas produções cinematográficas como provocações acerca de três problemas contemporâneos fundamentais, quais sejam:
1. A função do conceito de gozo na clínica psicanalítica.
2. O futuro do discurso psicanalítico no laço social.
3. O giro decolonial no campo da psicanálise.
Isso no esforço de fazer trabalhar as relações contidas no título deste congresso, a saber, psicanálise, arte e filosofia. Aliás, não são poucos os termos em jogo e as possíveis relações entre eles. No plano de fundo de tudo isso, localizo o problema, introdutório e mais geral, que gostaria de colocar em debate: que futuro podemos sonhar para a psicanálise?
Aliás, esse significante, sonho, o tomamos como realização de um desejo antigo, de algo que antes não se pôde realizar; ou podemos pensar o sonho (no seu sentido mais coloquial) como o desejo de algo por vir? Algo na linha de “fulana é sonhadora”. Insisto, o sonho
1 Conferência realizada no dia 16 de setembro de 2023 no congresso do Instituto ESPE, Rio de Janeiro.
aponta sempre um passado perdido ou poderá nos indicar também algum futuro desejável? Enfim, o que podemos desejar para o futuro da psicanálise?
Com essas perguntas, introduzo também o tema da nostalgia; traço marcante no campo psicanalítico. Em especial, naquilo que comumente entendemos que seja o retorno aos fundamentos, o retorno a Freud, o retorno a Lacan etc. A cidade do Rio de Janeiro, onde nos reunimos hoje, produziu um conceito bastante ousado, que é o de um “Museu do amanhã”...
Poderíamos pensar que aquilo que sonhamos hoje é o nosso museu do amanhã? Ou, mais ainda, no que é desejável para que o discurso psicanalítico, inserido na cena da pólis, possa se fazer avançar?
Dito isso, vou colocar alguns exemplos em cena para mapear certas categorias que, na melhor das hipóteses, podem dar alguns contornos para esses problemas. Nesse sentido, vou dividir essa intervenção em três partes, quais sejam:
1. Um recorte clínico (“Quantos corpos tem uma bailarina?”), para abordar o problema do gozo na clínica psicanalítica.
2. Uma distopia: o filme Crimes do futuro, de David Cronenberg, objetivando questionar nossas perspectivas de futuro.
3. Outra distopia, o filme Bacurau, de Kleber Mendonça, para encetar certas questões sobre o giro decolonial e o laço social na brasilidade.
Ao mapear esses três eixos como alguns dos principais problemas atuais da psicanálise (não os únicos, certamente), estou arriscando, por consequência, um certo diagnóstico de época. Vamos, então, ao primeiro recorte – o recorte clínico.
“Quantos corpos tem uma bailarina?” é a pergunta central de uma analisante, estudante de dança, e dançante (de diferentes estilos latinos e contemporâneos), sobre o seu corpo e sua sexuação. Mais ainda, sobre sua filiação, como veremos. É um caso atravessado, de ponta a
Margarida Viñas
Um ano antes da revolta estudantil de 1968, na França, Lacan preconizava que “o inconsciente é a política”.1 Ao fazer essa afirmação, ele citava Freud, que, do mesmo modo, utilizava o aforisma napoleônico “a anatomia é o destino” (Freud, 1912/2006a, p. 195) para instaurar o campo social como definidor de lugares (daí vem o termo “destino”) portadores de diferentes atribuições, direitos e deveres, conforme o sujeito nascesse com ou sem pênis. Se, atualmente, a frase de Freud poderia ser contestada, o que pensar do dizer de Lacan?
Primeiro, ao inserir a linguística na psicanálise (a não ser que consideremos Freud um dos primeiros linguistas, tese que seria bastante interessante), Lacan apontou que um significante só pode ser compreendido quanto ao seu lugar em uma cadeia. Isso porque o significante em si não significa nada e porque os efeitos de significado pertencem ao campo imaginário. Apesar disso, a relação entre o significante e o significado fornece a estrutura do discurso, que é, acima de tudo, “uma cadeia temporal significante” (Lacan, 1955-1956/2010a, p. 183).
1 “Eu não digo mesmo ‘a política é o inconsciente’, mas simplesmente ‘o inconsciente é a política!’” (Lacan, 1966-1967/2023, p. 236).
No campo das neuroses, o Sujeito não apenas se serve das palavras, mas se torna, ele mesmo, significante. Desse modo, seu real, ou seu imaginário, entra no próprio discurso (Lacan, 1955-1956/2010a, p. 184). Ainda segundo o autor,
O simbólico dá uma forma na qual se insere o sujeito no nível do seu ser. É a partir do significante que o Sujeito se reconhece como sendo isto ou aquilo. A cadeia dos significantes tem um valor explicativo fundamental, e a própria noção de causalidade não é outra coisa. (p. 210)
É na medida em que um Sujeito se calça do significante “Presidente”, ou “Professor”, ou mesmo “Psicanalista”, que as relações para com ele são todas matizadas com outros tons. De igual maneira, definir-se e ser definido como negro, mulher, homossexual, transexual é diferente conforme a maior ou menor aceitação social relativa a esses significantes, em termos de (des)valoração.
Em seu seminário “A carta roubada”, Lacan (1998a) mostra como a posição do sujeito diante do significante fálico pode mudar, a todo tempo, na relação com o outro e com o próprio significante. No conto de Poe, sob a presença do rei, um ministro mal-intencionado subtrai uma carta endereçada à rainha, tendo percebido nela a apreensão de que o rei a visse. Chamada a polícia para resgatar a carta, na casa do ministro, nada é encontrado. Por isso, decidem pedir ajuda ao inspetor Dupin, que logo a acha em local tão óbvio que a polícia nem cogitou procurar. Ao resgatar a carta na casa do ministro, Dupin deixa-o sem mais qualquer poder sobre a rainha.
Nesse seminário que inicia os seus Escritos, Lacan demonstra que o lugar do Sujeito diante do significante fálico muda tudo. Se os signos sociais são estruturados de uma determinada maneira, os significantes-mestre (S1) definem o sujeito, determinando seu lugar na cadeia
Diego Aram Meghdessian Bedrosian
Weidila Nink Dias
Daniel Araújo dos Santos
Sandra Djambolakdjian Torossian
Pesquisar sobre os diferentes arranjos possíveis que se relacionam com a psicanálise e outras áreas do saber, como a história, a política, a literatura e a memória, é o que tem feito o Laboratório de Estudos em Psicanálise, Literatura e Política (Leplip), pertencente à linha de pesquisa Psicanálise, Teoria e Dispositivos Clínicos do Programa de Pós-Graduação em Psicanálise: Clínica e Cultura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), coordenado pela profa. dra. Sandra Djambolakdjian Torossian, o qual tem por objetivo a investigação da escuta psicanalítica no campo das políticas públicas e em contextos de não reconhecimento e crueldade. Nesse amplo campo de discussões, destaca-se o interesse coletivo de problematizar os efeitos políticos dos diversos registros históricos, bem como enfrentar a persistente ameaça do apagamento. Trazemos, portanto, o registro da imagem como importante ferramenta política na tarefa de resistir ao esquecimento.
A motivação para escrever acerca do tema em pauta neste trabalho surge por intermédio de provocações causadas pelos diversos cenários de violência que assolam a humanidade ao longo da história. Incontáveis desumanizações, assassinatos, guerras estão presentificadas no âmbito nacional e internacional. Vê-se a todo tempo a divulgação de
imagens maciças do conflito entre Israel e Palestina, da guerra entre o governo russo contra o povo ucraniano, as notícias das violências impostas diariamente aos indígenas em solo brasileiro pelos garimpeiros, ao norte do país, os relatos e relatórios dos episódios do massacre crônico da população negra nas periferias do Brasil, além dos diversos registros de grandes guerras e genocídios que são vendidos, divulgados e apresentados. As imagens, inclusive aquelas que retratam o mais catastrófico, o mais disruptivo, estão sendo veiculadas a todo o tempo.
Pretende-se apresentar, por meio deste escrito, uma discussão sobre o papel das imagens na sustentação do poder, articulando a concepção lacaniana da imagem especular como via de abertura para o outro, para em seguida tomar a posição do sujeito como baliza da captura da realidade. Tomando a fotografia enquanto figura privilegiada dessa operação, com base na discussão de Susan Sontag (2003), sustenta-se que a captura se dá em dois tempos: o tempo de fotografar e o tempo de olhar. A essa perspectiva, soma-se a exposição de Lacan (1964/1996b) a respeito da montagem de uma obra, especialmente no que se refere à posição subjetiva daquele que olha um quadro. O psicanalista sustenta, com essa discussão, que o sujeito participa da obra por ser parte do quadro. Na medida em que o quadro se monta no fundo do olho daquele que o vê, o quadro se pinta. Nas palavras do autor, “o ponto de olhar participa sempre da ambiguidade da jóia” (p. 95). Nesse sentido, da mesma forma que a posição daquele que vê, como enunciado por Lacan (1964/1996b), participa da ambiguidade da obra, pode-se supor que a posição daquele que faz a captura, que monta a cena, seja essa montagem propositada ou não, é repleta de sentido e indica uma posição subjetiva.
A observação atenta dessa quantidade de imagens suscita alguns questionamentos importantes: seriam essas imagens capturas genéricas da realidade? Poderiam essas mesmas imagens carregar versões distorcidas do mundo com o intuito de favorecer, de algum modo, certa modalidade de exercício de poder ou engendrar efeitos psíquicos propositais?
Lisiane Molina Leffa
A fidelidade ao passado, não sendo um fim em si, visa à transformação do presente.
Jeanne Marie Gagnebin
Já não és o mesmo, ainda que talvez amanhã tudo se desfaça como um sonho ruim e comeces de novo... Talvez amanhã comeces de novo.
Roberto Bolaño
O presente trabalho reflete sobre a pandemia da covid-19 no Brasil. Para tanto, utiliza-se do ensaio como metodologia de escrita, pois entende-se que a questão do ensaio “consiste em uma problemática internamente ligada à psicanálise, tanto histórica quanto teoricamente” (Rivera, 2017, p. 13), na contingência de que “a escrita em psicanálise está atravessada pela experiência da transferência” (Birman, 2017, pp. 457-458). Essa perspectiva associa-se à ideia de que uma vez que reconhecemos que “o saber sobre o inconsciente se forja na e pela transferência, pelos impactos dela” (Birman, 2017, p. 455), a relação do ensaio com a escrita
1 Trabalho originalmente apresentado como requisito parcial para conclusão do 3º ano do curso de Teoria e Clínica Psicanalítica do CEPdePA/Serra em 2022
em psicanálise corresponde ao reconhecimento da transferência como peça fundamental à engrenagem da transmissão psicanalítica.
Alicerçada no âmbito do tripé fundamental, enquanto movimento contínuo, a transmissão possibilita que algo de uma experiência possa ser compartilhada, e que, ao ser endereçada a um outro alguém, pode produzir uma outra possibilidade de compreensão e de leitura, sustentando assim uma conversa em transformação.
Com essas considerações, o primeiro ensaio, “Uma função ética da memória diante da pandemia de covid-19 no Brasil”, traz uma rememoração acerca do início da pandemia, chamando atenção para a importância da historicização do traumático, desde o viés ético da memória. O segundo ensaio, “Uma disposição de escuta psicanalítica diante do trauma”, articula a necessidade de transformação da clínica psicanalítica. Recupera a noção da escuta abstinente como um movimento de alteridade intrínseco à função do psicanalista, desde uma inscrição metapsicológica. O terceiro ensaio, “Uma posição de mundo diante da morte”, chama atenção para a dimensão sociopolítica da morte durante a pandemia de covid-19 no Brasil.
Uma função ética da memória diante da pandemia de covid-19 no Brasil
“É incrível, tudo começa num pulso”, foi o que me disse uma amiga depois de voltar emocionada de sua primeira ecografia pré-natal. “É meu primeiro filho, e tudo está mudando” (Galarça, 2018, p. 14).
Li essas frases no trabalho de um amigo, que realizava uma escrita acadêmica em meados de 2018, ao mesmo tempo que ele atravessava um recente momento de perda – uma morte trágica de alguém que lhe era muito importante. “Tudo começa num pulso” carrega a marca de uma força movente, que ao se ligar com “tudo está mudando” reafirma que “a pulsão jamais atua como uma força momentânea de impacto,
O processo de “tornar-se” mulher negra a partir de um olhar psicanalítico
Carolina Pereira
Introdução
No cenário brasileiro contemporâneo, principalmente após a criação de políticas governamentais de ações afirmativas, é possível notar importantes mudanças no campo das relações étnico-raciais e no pensamento racial brasileiro. Dentre essas políticas, destaca-se a Lei nº 12.711, conhecida como a Lei de Cotas. A partir da sua implementação, todas as instituições de ensino superior federais do país precisaram, obrigatoriamente, reservar parte de suas vagas para estudantes oriundos/as de escolas públicas, de baixa renda, negros/as e indígenas. Como resultado, pessoas negras passaram a ter maior presença em um importante contexto de poder: a universidade pública, questionando aspectos do racismo institucional e tensionando mudanças em direção à equidade racial. Nesse sentido, cabe destacar que, a partir do ingresso de cada pessoa no espaço público, produzem-se marcas que irão colocá-las, imediatamente, como incluída e excluída, conforme a sua leitura social realizada por meio de vários marcadores, entre os quais a raça se destaca (Braga, 2016). Como afirma Grada Kilomba (2019), há pessoas que pertencem, que estão em seus lugares, que estão em
“casa” nos espaços de poder: as pessoas brancas. Ainda, surgem tensionamentos e se amplificam os debates em torno da identidade racial e do racismo no Brasil. Nas redes e nas mídias sociais contemporâneas são frequentes as discussões sobre a temática, em um cenário no qual a representatividade negra e as imagens positivas de negritude disputam o terreno com o racismo discursivo hegemonicamente presente na cultura brasileira. Por se tratar de um fenômeno discursivo, o racismo está presente em enunciados de ampla circulação social, em chistes, em imagens que se repetem à exaustão sobre o/a negro/a e seu corpo (Ohnmacht, 2019). Historicamente, o racismo diz algo a respeito do modo como se dá o laço social, em que o corpo negro é tomado em seu registro de imagem como um todo, formando unidade e massificação, apagando a diferença e a singularidade.
Em uma das principais obras precursoras no campo da literatura psicanalítica nacional, Neusa Santos Souza (1983), em seu livro Tornar-se negro: ou As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social, aponta os efeitos nefastos do racismo ao sujeito negro que é culturalmente convocado a tomar o branco como ideal, pois o branco é o ser supostamente neutro e universal, ideal de beleza, inteligência e moralidade. Os sentimentos de inferioridade, inadequação, retraimento, ansiedade seriam então efeitos comuns diante da impossibilidade de o sujeito negro aliar seu Eu ao seu Ideal de Eu: “É que o ideal do ego do negro, que é em grande parte constituído pelos ideais dominantes, é branco. E ser branco lhe é impossível” (Souza, 1983, p. 73). Dessa forma, Souza (1983) já alertava, há mais de quarenta anos, para a responsabilidade do campo psicanalítico em relação ao racismo e seus efeitos deletérios à subjetividade das pessoas negras brasileiras. Os modelos identificatórios presentes em nossa cultura que constroem e são formulados a partir de uma ótica de uma psicologia das massas aliada à supremacia branca, exercem profunda influência nas dinâmicas sociais e individuais. Nesse sentido, os/as brancos/as são os principais responsáveis por buscar soluções diante do racismo estrutural (Paim
Ignácio Alves Paim Filho
Júlia Schneider Protas
Larissa Brasil Ullrich
Tânia Nara Carvalhal Israel
. . . o recalcado é território estrangeiro para o Eu – território estrangeiro interno –, assim como a realidade é território estrangeiro externo. Freud, 1933/1994c, p. 63
Brasil, 2029,2 o povo negro está em festa. O Estado brasileiro decide estabelecer ações reparatórias, de cunho financeiro, devido ao processo nefasto da escravização dos afrodescendentes. Quatrocentos anos de espoliação, com seus desdobramentos nas peculiaridades do racismo à brasileira, do Brasil-Colônia ao Brasil-República: memória e história
1 Medida provisória (2020) é um longa-metragem brasileiro dirigido por Lázaro Ramos. A temática do filme é sobre um medida provisória decretada pelo governo brasileiro que obriga os cidadãos negros a se mudarem para a África na intenção de retomar as suas origens, como uma questionável tentativa de reparação pelo passa escravocata.
2 O trabalho situa a trama no ano de 2029, considerando a sugestão da autora (Anunciação, 2020). De acordo com ela: “O tempo em que se passa a ação da peça será sempre cinco anos à frente do tempo atual de sua montagem. . . . Na terceira edição, realizada em 2020, o tempo da narrativa passa a ser 2025. Portanto, perceba o ano que você está lendo este livro e avance ludicamente cinco anos” (p. 38).
em busca de reparação, também de cunho político. Política executada por quem e para quem? Cena emblemática, uma mulher, idosa, negra, à espera da abertura da agência bancária, para receber o valor correspondente à referida indenização. Crença no senso de responsabilidade que estaria fazendo do povo branco o signatário de tal proposição? O sinistro se instaura, acompanhado de uma indagação: tal processo realmente estaria acontecendo?
Deixemos essa cena em suspenso por algum tempo, que esperamos que não seja muito longo. Enquanto isso, vamos lançar um olhar para a proposta dessa película, calcada em uma medida provisória que visa expatriar os afrodescendentes, como se não fizessem parte da população brasileira, por um retorno/expulsão compulsória para o continente africano. Com suas histórias e memórias denegadas, colocadas em um lugar de estrangeiros em sua própria terra. Terra imposta pela diáspora forçada, conduzida pelo colonizador europeu, mas também terra adotada pelo povo negro – com os povos originários – que propiciou e continuou propiciando os fundamentos desse país chamado Brasil. Antes de avançar em nossa exposição, explicitamos que medidas provisórias são atos com força de lei, perpetrados pelo presidente da República em situações de urgência e que prescindem, num primeiro momento, da aprovação do legislativo. Qual a urgência de tal medida? Desejo/necessidade da branquitude de expulsar o estrangeiro de dentro de si?
Pra que separar?
Pra que desunir?
Em nossa leitura, essa medida provisória ficcional encena de forma contundente o caráter permanente da não pertinência do povo negro ao conjunto da população brasileira: o ser expatriado dos espaços de poder carregados de alta valorização simbólica e material, governados
Paula Frizzo
As ideias apresentadas neste capítulo foram originalmente escritas para serem lidas na 7ª Jornada Científica CEPdePA/Serra, em Caxias do Sul, no ano de 2023, que tematizava os ideais e as identidades por meio da celebração do texto freudiano O eu e o id (FREUD, 1923/2011b), o qual, à época, tornava-se centenário. Esses dados são relevantes não apenas para localizarem o leitor em relação à história textual, mas também porque o CEPdePA/Serra inaugurava a primeira turma com vagas reparatórias para pessoas negras e indígenas, colocando em pauta durante a jornada o racismo e as identificações tanto dos psicanalistas quanto das instituições com o tema da negritude. Portanto, para fins de coesão, optei por dividir este texto em quatro partes e apresentá-las na mesma ordem em que foram lidas, desde que tomadas as adaptações necessárias para que a linguagem oral fosse transposta à escrita. Na primeira e na segunda parte, abordo questões relacionadas à colonização e às construções teóricas; na terceira, trago reflexões pessoais sobre a implicação do racismo na minha escuta como psicanalista e supervisora clínica; e encerro o texto, na quarta parte, levantando questões sobre os caminhos possíveis da luta antirracista no espaço das instituições e dos sujeitos.
Estamos num tempo de ações afirmativas: o CEPdePA/Serra, neste momento histórico de seleção da primeira turma com vagas reparatórias para negros e indígenas, dá seus primeiros passos. A instituição, como muitas, tem marcas do racismo institucional, derivado de um racismo estrutural (Almeida, 2019), que é produto da colonização europeia, colonização esta que é caracterizada por uma exploração desenfreada e pela violência, como diz Aimé Césaire (2020): “ninguém coloniza inocentemente, nem ninguém coloniza impunemente; que uma nação que coloniza, que uma civilização que justifica a colonização – portanto, a força – é já uma civilização doente, uma civilização moralmente ferida” (p. 21). A colonização desumaniza, segundo ele, até o homem mais civilizado. Ainda segundo o autor, colonização é igual a coisificação, formulando essa ideia equacionada (colonização = coisificação); são sociedades esvaziadas de si próprias. Sabemos que o povo negro e que o indígena foi submetido a tudo isso, suas religiões, suas terras, sua arte, suas possibilidades, tudo foi assassinado, roubado. O colonialismo é, então, portador do racismo, pois autoriza a destruição do outro que compreende como inferior, como não humano. Essa lógica colonial segue atuante: não existe racismo sem colonialismo, assim como não existe colonialismo sem racismo. Como diz Silvio Almeida (2019), “o racismo como uma ideologia molda o Inconsciente” (p. 64). A cidade de Caxias do Sul, que hospeda a sede da Serra do CEPdePA/ Serra, no censo de 2010, contava apenas com 16% de pessoas negras (IBGE, 2010). Terra de imigrantes italianos, a expressão de dialeto “negri” faz parte da cultura que marginaliza os negros. O chefe da agência do IBGE, à época do censo, justifica, em uma entrevista, que os italianos chegaram primeiro à cidade e que, por isso, ocuparam o centro dela, enquanto os negros foram relegados às áreas periféricas. Sabemos que essa territorialidade é marca do racismo e das questões políticas, sociais e econômicas que o envolvem.
Nessa cidade, ainda se escutam falas como: “o sistema de cotas é absurdo, eu não concordo, porque tiram vagas dos melhores, que
Karin Mayer Richter
É razoável pressupor que, sob domínio de uma moral sexual cultural, a saúde e a aptidão para viver de cada um dos seres humanos possam estar sujeitas a perturbações, e que esse dano causado nos indivíduos pelos sacrifícios que lhe são impostos atinjam um grau tão elevado que, nesse desvio, a meta cultural final também seria colocada em perigo. Freud, 1908, p. 65
A descoberta freudiana do inconsciente revolucionou a compreensão do pensamento de sua época, ao propor um método de investigação que desse voz às mulheres que convertiam no corpo seus padecimentos psíquicos. Até o século XIX a conjectura relacionada com tais sofrimentos advinha da etiologia, que demonstrava sua causa e origem na natureza orgânica, o útero. Essa concepção encontrava suporte em Hipócrates, médico grego (460-377 a.C.), que entendia a histeria como “sufocação da matriz”, ou seja, do órgão feminino, e que afetava o corpo inteiro.
Além disso, não era incomum a relação proveniente do mal-estar empregado ao caráter generalista, de que as mulheres acometidas de tais sintomas estavam sob possessões demoníacas, contemplando o germe das ideias fantasmáticas mágico-religiosas. É possível pensar
essa fantasia sobre o poder do órgão feminino, chamado também de matriz, poder fálico que entrelaça a linha tênue entre o desejo e horror da castração?
Este estudo visa a refletir acerca da importância da história, uma vez que o sujeito se subjetiva por meio de influências da cultura, repetindo esse estranho familiar. É por meio da história que se pode conhecer como se apresentava a clínica de Freud, quais influências recebia das características culturais da época vitoriana em Viena. Posto isso, busca-se investigar, considerando a passagem de mais de um século, a vigência do pensamento freudiano, interrogando como se apresenta a clínica na atualidade.
Observa-se hoje um número vertiginoso de diagnósticos de depressão, transtorno de ansiedade, síndrome do pânico, síndrome de burnout, transtorno do espectro autista, entre outros, à medida que a tecnologia e a medicina avançam. Sujeitos acometidos por graves padecimentos, percebendo no corpo a presença do “estranho”, algo que não é passível de explicação consciente. Também não é incomum escutar as manifestações de pacientes com crises pseudoepilépticas encaminhadas para tratamento: “é muito estranho o que acontece comigo”, “meu corpo fica estranho, é como se tivesse vida própria”. Poderíamos pensar aqui no conceito de Unheimlich, apresentado por Freud (Freud, 1919/2019), quando remete a uma espécie de algo aterrorizante, fazendo referência a um velho conhecido. Seria razoável refletir que essa menção busca relacionar o que, em pessoas, desperta impressões sensíveis, vivências e situações que provocam o sentimento do infamiliar. A busca inicial na grande maioria das vezes é pela via médica, submetendo-se a exames cansativos, na expectativa de respostas que possam dar conta desse corpo estranho que se manifesta, como se os causadores de seus padecimentos conseguissem ser nomeados por vírus, bactérias, problemas neurológicos ou quaisquer outras causas orgânicas (Azevedo, 2011). Pesquisas apontam o aumento de automedicações e buscas de informações na internet sobre sintomas e
Flávia Bernardi
Roseli Dal Bem Fistarol
Dizer sem dizê-lo, sem o desvio do olhar e a simulação do dizer, sem a vergonha do dito. Chegar ao porto certo é ser devolvido ao mar Carpi, 2013, p. 215
A palavra amor inclui realidades muito distintas. Vai desde o sagrado até o profano, da ternura ao sensual; portanto, abordá-lo neste texto é também salientar sua força e marcar sua condição indispensável à vida humana. Sua presença na história e a construção das histórias de amor. No discurso contemporâneo, algumas expressões sobre o amor são: “como está difícil se relacionar e amar, como está complicado o encontro com o outro...”. Diante dessas colocações, é curioso o fato de que parece não se instalar uma pergunta sobre por que isso ocorre e/ou o reconhecimento de que todos fazemos parte desse contexto e estamos incluídos nessas afirmações.
Portanto, essa postura de ficar “assistindo” ao isolamento, à solidão, ao não encontro com o outro se repete, parece não dar início a um movimento de inquietação em relação a si, ao outro e ao contexto
sociocultural. Não se pode deixar de considerar que se está vivendo um importante aumento da velocidade nas mudanças sociais, políticas, tecnológicas e científicas, que transformam as sociedades ocidentais globalizadas. O consumismo vem impondo as regras de convivência e, por que não dizer, de sentimentos. O amor parece tomar uma configuração que não causa nenhum tipo de afetação, ou seja, são relações predominantemente superficiais. Assim, o encontro com o outro parece também estar marcado por algo do excesso, com aspectos de grandiosidade e excessiva exposição pública. Encontros e rompimentos são vividos e compartilhados intensamente nas redes sociais, borrando o público e o privado. Será que estamos diante de uma anestesia das emoções ou seria esse um recurso para não sentir, para não sofrer?
A psicanalista francesa Julia Kristeva, em seu livro Histórias de amor, auxilia na compreensão do que estamos vivenciando, ao escrever que: “o amor pode ser um dos antídotos mais radicais por ser mais íntimo, ao mal radical que é a automatização dos humanos” (Kristeva, 2012).1
A autora afirma ainda que, por mais restaurador que seja, “o amor não nos habita nunca sem nos queimar. Falar dele, mesmo em posteridade, talvez não seja possível senão a partir dessa queimadura” (Kristeva, 1988, p. 24). Ficar no isolamento e na solidão, sem dúvida, pode causar danos, enquanto uma “queimadura”, uma vivência amorosa vitalizam.
A psicanálise não estabelece modelos para as relações amorosas, mas sim recursos e espaços para que um sujeito se reconheça em um lugar próprio para pensar, experienciar e fazer construções sobre os encontros amorosos. Recuperar a dimensão do amor vivido a partir da diversidade de histórias e de como ele vai produzindo diferentes subjetivações pode auxiliar-nos a compreender os riscos de uma certa “incapacidade de sentir e reconhecer o outro”, tão presentes na
1 O livro foi publicado originalmente em 1983. A citação que trazemos neste artigo é da nova introdução escrita pela autora quando da republicação da obra na Itália, em 2012. O texto foi reproduzido no jornal La Repubblica e traduzido para o português pelo Instituto Humanitas Unisinos.
Denise Fátima Casara
Flávia Bernardi
. . . tão certo é que a natureza, como a história, não se faz brincando Assis, 2020, p. 175
Argumento
Sabemos sobre as mulheres ou sabemos do discurso masculino sobre elas? Será que as mulheres têm um lugar de maior valor hoje do que o discurso histórico recorrente em frases como: “por trás de todo grande homem existe uma grande mulher”? Ainda persiste a reza dos judeus ortodoxos que agradecem pela manhã não terem nascido mulheres? As mulheres foram de fato esses seres submissos, sem voz, obedientes, abnegadas, que só sabiam bordar, costurar, parir e criar filhos?
Ou a elas foi negado o direito de falar, pressuposto social que veio somar à ação do recalque nas mulheres? Parece-nos que esse pode ser um viés possível de escutar a história do lugar da mulher e que a escrita deste capítulo seja uma tentativa de reelaboração, como publicou Maria Homem (2024): “escrever é uma tentativa de reelaborar o silêncio, o trauma, é simbolizar”.
Reconhecer o silêncio das mulheres, como enunciou o título deste trabalho, pode ser mais um pequeno passo para dar fala e lugar ao feminino, seja na relação de casal, seja na família, no laço social, na psicanálise. E aqui remetemos ao psicanalista Paulo Passos (2024), que nos diz que o “falo não é a superioridade inata de um sobre o outro, independente de gênero ou qualquer outra designação”. Segundo ele, o nome-do-pai instaura a lei que é a própria linguagem e todos são iguais perante ela, até que o homem cria um argumento que legitima seu poder sobre a mulher. Para Passos (2024), “na medida em que essas lógicas vão colapsando pelos gritos destemidos das mulheres usurpadas de sua palavra, os semblantes vão caindo, revelando o homem castrado”. Observamos que o autor usa a ideia de que o homem mantém no imaginário a ideia de ter o falo: porque é desse suposto lugar de completude narcísica de ter o falo que o homem (e a sociedade machista) tenderia a subjugar a mulher. E o silêncio imposto à condição de feminilidade não foi totalmente mantido. Por exemplo, em Joana d’Arc, temos uma mulher que lutou ferozmente em uma época em que mulheres eram consideradas bruxas e, por isso, queimadas vivas (como aconteceu com a própria); Karen Horney, Jeanne Lampl-de-Groot, pioneiras na psicanálise, também não silenciaram para divulgar o estudo sobre as questões de feminilidade, contrapondo-se ao fundador dessa teoria, e deram voz a outros aspectos da sexualidade infantil da menina, não considerando apenas a inveja do pênis. Por sua vez, outras mulheres que tentaram sofreram feminicídio e foram silenciadas. Entre a luta e o silêncio, temos a fala e a escuta. Pode parecer redundante ou simplório dizer que a fala e a escuta são a possibilidade de favorecer que a mulher se coloque como protagonista de sua própria vida e da história. Considerando que vivemos numa cultura pautada pelo imaginário narcísico, não podemos esquecer que a fala e a escuta da singularidade – apesar de ainda padecerem de valor – são instrumentos inestimáveis e indispensáveis na mudança dos sujeitos.
Nicole Pedroti Venturin Padilha
Nos últimos tempos, temos acompanhado um número cada vez maior de mulheres que têm se encorajado a declarar que não desejam ter filhos, colocando em “xeque” a premissa de que existiria um instinto materno, universal a todas as mulheres. Até pouco tempo atrás, o fato de uma mulher possuir um aparelho biológico preparado para ser mãe parecia ser determinante em sua trajetória, ou seja, se não tivesse filhos, era porque tivera alguma condição fisiológica que a impedira, senão, naturalmente, desejaria ser mãe. O que tem aparecido, entretanto, são mulheres declarando a condição de não ter filhos como uma escolha, desmistificando a ideia da universalização do instinto materno. Mesmo assim, percebemos que ainda há, em nossa sociedade, resquícios de uma estereotipização dessas mulheres, que ainda são vistas como imaturas psiquicamente. Proponho-me então a trazer, no presente trabalho, como a ideia de um instinto materno universal se trata de uma construção de nossa civilização – aqui me refiro à civilização ocidental – no sentido de propagar uma linhagem, com interesses e fins específicos, de acordo com o contexto histórico em questão.
Antes de entrar nos pormenores históricos acerca da família ocidental e da maternidade, faço aqui uma observação sobre a fonte bibliográfica escolhida para fazer tal percurso histórico. Optei pela obra Organizações familiares: contextualização histórica da família ocidental, de Turkenicz, dada a riqueza de dados históricos ali apresentados, fruto de anos de pesquisa do autor, além de se tratar de uma obra construída a partir do olhar de um psicanalista e terapeuta de casais e de famílias, o que, por si só, enriquece o sentido que irá atribuir aos fatos históricos.
Como o próprio autor diz:
Historiadores e analistas valem-se de indícios, narrativas, registros, tratando de identificar relações e sentidos através de hipóteses provisórias e verossímeis. Em qualquer um desses âmbitos, a descoberta de uma verdade histórica– o que ocorre através de uma interpretação – não significa que se tenham esgotado todas as possibilidades. . . .Tanto historiador quanto analista selecionam, valorizam e ressignificam alguns fatos, uma parte da realidade sobre a qual se debruçam. Para ambos, o passado é captado através do olhar do presente. (Turkenicz, 2012, p. 16)
Dessa forma, decido por selecionar alguns fragmentos da obra desse autor em detrimento de outros, pois o objetivo deste trabalho não é se debulhar sobre algumas discrepâncias entre os olhares de diferentes historiadores acerca da história da família, mas sim, como em um processo de análise, capturar alguns fragmentos do que é falado e pensado por um outro, para, a partir dali, criar novas sentidos, interpretações e possibilidades de construção. Vamos então aos fatos, a partir dos quais escolho construir a reflexão aqui proposta:
13. “Freud morreu, mas passa bem”:1 por uma versão da história do CEPSerra
Denise Fátima Casara
Júlio César Kunz
Colaboradores
Flávia Bernardi
Ivandra Vaccari da Silva Loro
Nicole Venturin Padilha
Paula Triches
Sandro Stank da Silva
Antes do começo, já havia algo, e, antes de começarmos, gostaríamos de fazer um reconhecimento especial ao povo Kaigang, os guardiões tradicionais desta terra da Serra Gaúcha, onde nos reunimos para escrever uma história do Centro de Estudo Psicanalíticos da Serra Gaúcha (CEPSerra). Expressamos nosso respeito aos caciques passados, presentes e futuros, que mantiveram viva a rica cultura e história desse lugar por gerações. Reconhecemos a profunda conexão que o povo Kaigang tem com esta terra há centenas de anos. Estamos honrados por estar aqui e agradecemos pela oportunidade de compartilhar este
1 Frase de Gilson Ianinni no prólogo do livro Freud no Século XXI, volume I: O que é psicanálise?, p. 17.
espaço com um povo habituado a viver em suas casas subterrâneas –uma herança na formação do imaginário local, na qual é a morada da psicanálise, ao desvelar as profundezas da mente humana.
No século XIX, a Serra Gaúcha foi desocupada por forças imperiais, que perseguiram, expulsaram e assassinaram boa parte da população local, com o intuito de liberar terras para a chegada de imigrantes europeus, em sua maioria da Alemanha e da Itália, que fundaram uma nova cultura na região (Brandalise, 2022). As tradições se mesclaram, receitas europeias com ingredientes brasileiros, uma língua formada por diferentes dialetos e uma cultura composta de múltiplos hábitos e distintas heranças.
A psicanálise se espalhou pelo mundo e floresceu em boa parte pela migração de psicanalistas, especialmente na América Latina. A psicanálise foi associada em diversos lugares a psicanalistas com sotaque alemão ou como uma prática judaica (Marcondes, 2021). A identificação cultural local com essa colonização pode ter sido um elemento que tenha contribuído para que a psicanálise prosperasse em Caxias do Sul e na Serra Gaúcha, com o CEPSerra e outras instituições. Pensamos que a história do CEPSerra não é uma história de colonização, mas antes uma busca de pessoas transferidas com a psicanálise que foram buscar quem pudesse ajudar na transmissão em nossa região, num primeiro momento com atividades pontuais, que se consolidaram ao longo de anos, com muito trabalho e diversas disputas, numa instituição rica e plural.
Maud Manonni apresenta a ideia de que escutar o paciente também tem uma relação com os outros analistas, portanto com o coletivo e com a instituição (ou instituições) da qual faz parte. Essa autora nos remete a Lacan, que se dedicou a provocar um deslocamento da rivalidade entre os analistas para um projeto de um procedimento próprio, singular, apoiado na paixão de uma busca, antagonizando o ensino e o saber.
Pois bem, para o analisando, a possibilidade de dizer a verdade está presa ao desejo do analista, o qual, por sua vez,


Celebrar e colocar à prova o vigor da psicanálise é o desafio deste livro. Os quarenta anos de existência do CEPdePA/Serra reafirmam o compromisso de (re)pensar a psicanálise frente aos movimentos humanos de conservação e sexualidade, de vida e de morte, de repetição e de transformação. Alerta à escuta, que não é neutra, mas sim abstinente, já que, como cidadãos e profissionais, somos objetos e testemunhas de manifestações simbólicas e dos atos destrutivos.
O livro Psicanálise, memória, história e política, ao longo de seus 13 capítulos, percorre o desafio de que esses pontos se entrecruzem e abram vias para que a escuta contemple os efeitos da dor de nosso tempo.
Bárbara de Souza Conte Psicanalista. Membro pleno da Sigmund Freud Associação Psicanalítica e afiliada ao Instituto SIG Psicanálise & Política