A perda de si

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Jean-François Chiantaretto

A perda de si

PSICANÁLISE

SEM FRONTEIRAS

A PERDA DE SI

Jean-François Chiantaretto

Tradução

Revisor técnico

A perda de si

Título original em francês: La perte de soi

© 2025 Jean-François Chiantaretto

Editora Edgard Blücher Ltda.

Série Psicanálise sem Fronteiras

Publisher Edgard Blücher

Editor Eduardo Blücher

Coordenação editorial Rafael Fulanetti

Coordenação de produção Ana Cristina Garcia

Tradução Caio Liudvik

Revisão técnica Daniel Kupermann

Preparação de texto Alexandra C. Fonseca

Diagramação Mônica Landi

Revisão de texto Equipe editorial Blucher

Capa Juliana Midori Horie

Imagem da capa Georges Gaillard, Éphémères, 2017

Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil

Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br

Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.

É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora.

Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570

Chiantaretto, Jean-François

A perda de si / Jean-François Chiantaretto ; tradução Caio Liudvik ; revisor técnico Daniel Kupermann. – São Paulo : Blucher, 2025.

240 p. (Série Psicanálise sem Fronteiras).

Bibliografia

ISBN 978-85-212-2635-2 (Impresso)

ISBN 978-85-212-2632-1 (Eletrônico - Epub)

ISBN 978-85-212-2633-8 (Eletrônico - PDF)

Título original: La perte de soi.

1. Psicanálise. 2. Trauma. 3. Constituição subjetiva. 4. Metapsicologia. I. Título. II. Liudvik, Caio. III. Kupermann, Daniel. CDU 159.964.2

Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise

Conteúdo

Prefácio da edição brasileira – A criança mal acolhida no divã: além da sobrevivência

1. A inquietude das origens, a inquietude nas origens

1. A inquietude das

origens, a inquietude nas origens

“Aquilo que herdaste de teus pais, / adquire-o para fazê-lo teu”: essa citação freudiana de Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe, foi tão mencionada entre os psicanalistas que se tornou familiar para eles. Resta avaliar quanto essa familiaridade é estranha, sob muitos aspectos, e quanto essa estranheza testemunha um laço de familiaridade com o Unheimlich…

A citação é geralmente utilizada na forma de signo, ou sinal, de cumplicidade entre psicanalistas, como se se tratasse de atestar uma identificação compartilhada com a identificação freudiana. Como se Goethe se tornasse o testemunho garantidor da capacidade dos analistas de herdar de Freud – uma capacidade sempre ameaçada de virar apropriação dele, no mau sentido do termo: reduzir Freud ao nosso Freud, ou seja, uma leitura de proprietário, submetida às lógicas das afiliações e pertencimentos. Apesar de os psicanalistas não poderem ignorar que não serão, jamais, proprietários de Freud: o corpus

freudiano, ao manifestar um Freud no plural, em ação em quase todo o texto, mostra, quando o lemos, que ele não pertence a ninguém, nem mesmo a Freud. Como cruelmente o demonstraram todas as cisões do movimento analítico, e como cada paciente relembra, de modo salutar, na estranheza da transferência. Isso porque a oferta do pensamento de Freud é simplesmente inesgotável, uma vez que cada tratamento é inédito e constitui oferta também inédita de pensamento.

Mas o que os psicanalistas não podem ignorar eles podem recalcar, até mesmo recusar, no agir. Podem recalcar sua impossível apropriação de Freud em uma identificação não tanto com Freud quanto com suas identificações; por exemplo, essa com Goethe – estando entendido que ela deveria ser considerada igualmente uma identificação pela identificação freudiana com o escritor alemão. Goethe seria, assim, solicitado como testemunho garantidor de uma identidade, ou, para dizê-lo de outro modo, como testemunho garantidor do sentimento íntimo da unidade e da indivisibilidade do eu do psicanalista, assimilado de forma imaginária à psicanálise. Seria, portanto, postulado um minha casa/nossa casa inalienável, definitivamente delimitado e possuído: a psicanálise suposta una e indivisível.

O recalque pode, por óbvio, se transmutar em agir, desde que se trate de captar a herança freudiana na base de uma exclusão dos outros – tendo o benefício secundário de poupar-se de uma conquista pessoal, ganha com e contra as próprias resistências pessoais à psicanálise. Será essa, então, a diferenciação ante o outro, sua desqualificação e eventual exclusão, que farão da localização do não-eu o garantidor da coerência narcísica do eu – em uma ressonância aí também estranha com a definição do eu em Além do princípio do prazer. O correlato desse agir será a colocação fora do solo comum freudiano, e assim a defecção da função de um terceiro.

Em vez de se apropriar de Freud ao retirar os outros analistas, isso implicará conquistá-lo em si e por si. A citação de Goethe aparece no Esboço de psicanálise, inciado logo depois da chegada a Londres e que

2. O original, o originário

As origens da psicanálise: a formulação é ambígua e geralmente manifesta a ambiguidade dos psicanalistas no manejo do conceito de cena originária, demasiadas vezes atribuída a uma cena original. Tal ambiguidade nos remete à hesitação de Freud – original, stricto sensu – em O homem dos lobos, quando explicita a ideia de cena originária, que se tornaria, pouco depois, a figura primordial da teoria das fantasias originárias. E se a hesitação nas origens da cena originária desse a ver a fantasia do autoengendramento em ação nos inícios da psicanálise?

Querendo provar a pertinência dela para se destacar definitivamente de Carl Gustav Jung e de sua versão do “retrofantasiar”, Freud não pode se impedir de reduzir a cena originária a uma cena de observação do “coito parental”, direto ou indireto (um “coito animal”, por exemplo): uma cena que é uma data marcante na construção infantil do sujeito como um acontecimento isolável em uma reconstituição histórica.1 A distinção, aqui, entre a experiência vivida da

1 A leitura cruzada de O homem dos lobos e do relato fundador de Freud, esboçada neste livro, foi desenvolvida em Chiantaretto, J.-F. (1995). De l’acte autobiographique: Le psychanalyste et l’écriture autobiographique. Champ Vallon.

observação da cena sexual e seu après-coup – que tomará toda sua amplitude metapsicológica com o comentário de Laplanche e Pontalis2 – não apenas não poderia bastar, mas, sobretudo, mascara a cena, estranhamente ausente ou ausentada como tal.

A cena: o sujeito tal qual testemunha de sua concepção. Essa definição originária se furta na sua dimensão estruturalmente fantasiosa e sem datação. Há uma confusão entre a cena do originário e o registro do original; entre a cena fantasiosa, na qual o sujeito se faz testemunha de sua concepção, e o registro de seus começos, de sua concepção ao seu nascimento, e sua construção psíquica – registro fonte sem fim de um antes pré-histórico indefinidamente reformulável.

O sujeito se fazendo testemunha de sua concepção: essa definição plena da cena originária não advém no caso de O homem dos lobos3 – e, de fato, não advirá jamais. Mas ele é literalmente posto em cena no texto escrito ao mesmo tempo e apresentado por Freud como formando um díptico antijunguiano com o caso relatado em “Contribuição à história do movimento psicanalítico”. 4 Freud reivindica, ali, o lugar pleno de testemunha, para sempre exclusiva, da concepção nele e por ele da psicanálise, ou seja, de sua concepção indissociável da psicanálise e de si como primeiro psicanalista. Ele se quer, sob esse aspecto, detentor exclusivo do poder de definir a psicanálise, sobretudo de definir quem é psicanalista e quem não é. Desse lugar uno de criador solitário, 5 definitivamente sem outro psicanalista senão a

2 Laplanche, J., & Pontalis, J.-B. (1985). Fantasme originaire, fantasmes des origines, origines du fantasme. Hachette.

3 Freud, S. (1918). À partir de l’histoire d’une névrose infantile. In Oeuvres complètes de Freud / Psychanalyse (Vol. XIII). Presses Universitaires de France.

4 Freud, S. (1914). Contribution à l’histoire du mouvement analytique. In Oeuvres complètes de Freud / Psychanalyse (Vol. XII). Presses Universitaires de France.

5 Até “1906 ou 1907”, como ele precisará novamente em 1925, em Freud, S. (1925). Autoprésentation. In Oeuvres complètes de Freud / Psychanalyse (Vol. XVII). Presses Universitaires de France.

3. O re-começo ferencziano1

Pensar os pensamentos afetados do analista para tornar pensáveis os afetos carregados pelas palavras do analisando... Ferenczi é o primeiro a teorizar o pensar do analista em sessão. Ele nos propõe uma “metapsicologia da técnica”,2 incluindo uma “metapsicologia dos processos psíquicos do analista ao longo da análise”.3 E a proposição se faz a partir de uma posição para sempre inédita.

Ferenczi re-começa a psicanálise, com e contra Freud, a partir dos começos freudianos – plurais, também, no sentido de que Freud não cessa de retomar sua criação. Ferenczi não encarna, apenas, o primeiro dos recomeços que constituem, historicamente, a psicanálise: ele não é, somente, o mais determinante entre os que acompanham Freud nos começos da psicanálise. Mas, sobretudo, participa dos

1 Este capítulo retoma uma conferência realizada no “Quatrième Groupe”, em 6 de outubro de 2018, em Paris, anteriormente publicada: Chiantaretto, J.-F. (2019). Penser avec Ferenczi les pensées de l’analyste. Le Coq-Héron, 239, 86-97

2 Ferenczi, S. (1928). Élasticité de la technique psychanalytique. In Psychanalyse (Vol. 4, p. 62). Payot.

3 Ibid., p. 63.

começos como que do interior, em um diálogo criador com Freud, que é e permanecerá inédito, sem equivalente possível. Ferenczi é o único psicanalista a encarnar, fora Freud, a dualidade criadora, a polaridade original carregada, a princípio, solitariamente por Freud: o único interlocutor de Freud a poder se investir, e ser investido, tal qual um interlocutor interno.

Ferenczi se encontra e se perde em uma relação com Freud nas origens da psicanálise. Ele está, também, no coração de uma cena originária, evocada em sessão pela própria posição do analista e que se presume que cada analista seja capaz de tornar pensável, senão durante, ao menos depois da sessão. Essa cena originária convoca um lugar vago: o de um analista para Freud. A vacância, que toma também lugar no coração da relação Freud/Ferenczi e de seu impedimento de culminar em uma análise, esboça um lugar vago que os psicanalistas têm a tentação, inevitável, de ocupar, e que têm a responsabilidade de não ocupar, a fim de transformá-lo, tanto quanto possível, em ausência.

O irremediável da ausência de um analista para Freud assenta-se na renúncia de seus sucessores, constitutivo da posição do analista em ocupar, de forma imaginária, o lugar do analista deles. Esse lugar permite localizar uma figura transferencial composta: o(s) seu(s) analista(s), seus supervisores, os analistas deles e, por extensão, todos os referentes que garantem as filiações constitutivas de uma identidade reconhecida e atestável. Sua vacância – o consentimento com sua vacância – no plano imaginário permite imaginar suas coordenadas transferenciais. Seu lugar, se permanece livre, se torna o ponto de convergência do trabalho de elaboração das fantasias transferenciais que a constituem. E, sem dúvida, a vacância se torna, aqui, o índice mais confiável de uma libertação suficiente com relação aos efeitos

4. Começar, recomeçar1

O re-começo ferencziano não implica, apenas, reconsiderar a dialética dos começos e re-começos da psicanálise. A partir da clínica e da psicopatologia dos limites, ele obriga a retomar o problema do enquadre e, mais amplamente, das condições exigidas para implementar as discrepâncias que condicionam lugar, situação e processo. Os chamados pacientes-limite colocam em questão, com efeito, diferentes discrepâncias constitutivas: entre o enquadre e o analista garantidor do enquadre; entre o analista como pessoa e o objeto, ou o destinatário da transferência; entre a escuta (interpretativa e autointerpretativa) e a interpretação (comunicada ou não).2

1 Este capítulo e o seguinte retomam e prolongam o trabalho implicado anteriormente nas seguintes publicações: Chiantaretto, J.-F. (2018). Cadre interne, transfert et contre-transfert (pp. 91-100). Filigranes; Chiantaretto, J.-F. (2018). Le contre-transfert de Winnicott: une chute qui donne à penser. Le Coq-Héron, (235), 73-76; Chiantaretto, J.-F. (2016). Au commencement était le meurtre… Le Coq-Héron, (224), 10-20; Winnicott, D. W. (2012). La crainte de l’effondrement. In J.-Y. Chagnon (Dir.), Commentaires de textes fondamentaux en psychopathologie psychanalytique (pp. 121-128). Dunod.

2 Nessa perspectiva seria preciso, também, interrogar-se sobre os “começos” do tratamento e suas variações segundo ele se desenrola em consultório particular ou

O registro-limite tende a obrigar o analista a concordar sem limites com as diferentes figuras da demanda transferencial, até o ponto de induzir um modo de identificação o mais perto possível da encarnação das necessidades transferenciais do analisando. O paciente-limite aspira a fazer reinar a crença compartilhada de uma concordância entre o passado e o atual, em uma relação de identidade entre ele e sua transferência, como entre o analista e o objeto da transferência. A matéria transferencial é misturada, manifestando um estado de desespero arcaico que mistura as identificações à criança aterrorizada e à mãe narcísica, como se se tratasse da presença, no adulto, do infans, antigamente confrontado com uma mãe-ambiente falha.

De fato, essa modalidade-limite me parece pertencer ao desespero sem representação possível do mal-acolhido ferencziano, reativado na transferência sob a forma de uma decepção mutualizada. Na transferência-limite, o analista é suposto viver e fazer viver uma decepção, um ser decepcionado/decepcionador, pelo fato de sua presença psíquica ser insuportável para o paciente e dever ser atacada, pois contém uma promessa impensável e revela o apelo ao outro, contido em sua demanda.

O ataque passa pela ação assassina demandada às palavras: suprimir a experiência de ser entendido na escuta do outro. A demanda é negada, ou desmentida, em um discurso reduzido ao relato dos

em um centro de consultas, e em um centro que distingue, ou não, o analista que recebe em um primeiro tempo a demanda e o que realiza o tratamento ou a psicoterapia. Eu remeteria, aqui, à distinção entre encontro e primeira entrevista, teorizada por Jean-Luc Donnet, para quem a dimensão analítica do encontro pertence sempre ao depois. Ela procede de um tempo de avaliação consultiva – ao mesmo tempo um processo próprio e um tratamento experimental – que culmina em uma decisão: a “eliminação da recusa” [Donnet, J.-L. (2005). La situation analysante (pp. 191-192). PUF.].

5. A acolhida do mal-acolhido

De Freud a Ferenczi, entre um e outro, a questão do segundo dualismo pulsional está bem evidentemente colocada. “A criança mal-acolhida (não bem-vinda) e sua pulsão de morte”, colocando a autodestrutividade como uma resposta a um defeito destrutivo do ambiente, tira-nos do modo de pensamento apenas freudiano. Somos chamados a pensar a pulsão de morte não mais em uma abordagem referida, em última instância, a um dado constitucional do indivíduo, nitidamente predominante em Freud, mas em uma abordagem que leva em conta a realidade singular do ambiente, embora Ferenczi não exclua a ideia de uma dimensão constitucional da autodestrutividade.

O Journal Clinique não pode se reduzir ao campo de ruínas de um homem em vias de morrer, anotando suas errâncias técnicas e metapsicológicas, ao mesmo tempo que o faz acerca do abandono de Freud. Nesse periódico, Ferenczi pressente bem ao final que vai morrer e não cessa de registrar os limites e os problemas postos por sua busca por inovações técnicas, para responder às particularidades do que chamamos hoje, à falta de um termo melhor, de funcionamentos-limite. Essa postura autocrítica traduz uma paixão de autoteorização

levada, sem dúvida, a seu paroxismo, e ativada mais que nunca pela relação com Freud. Mas ela corresponde, também, a um esforço teórico de reformulação metapsicológica, plenamente ancorada na prática clínica. Ferenczi afronta até o fim, de maneira criativa e criadora, as questões postas pela segunda teoria das pulsões – em particular o problema do lugar da autoconservação, que permanece ainda hoje nodal nas discussões em torno da pulsão de morte.

De fato, Ferenczi propõe uma outra versão do dualismo pulsional, com duas “direções pulsionais opostas”: a “pulsão de impor-se” e a “pulsão de conciliação”.1 Sem abordar, aqui, a questão de saber se há ou não uma tentação monista em Ferenczi, podemos destacar que sua abordagem do dualismo pulsional, que ele considera “uma modificação aparentemente ligeira da hipótese freudiana das pulsões de vida e de morte”,2 desemboca na ideia de uma polaridade (polo egoísta/polo altruísta). Essa polaridade restabelece o lugar da autoconservação com o polo egoísta e franqueia a perspectiva geral de uma colaboração das pulsões a serviço da vida.

Nesse texto capital do plano metapsicológico, Ferenczi enfatiza a autodestrutividade importada do exterior e não a tendência interna que leva a ela – demasiadas vezes distinguida, de modo insuficiente, de um movimento intrinsecamente programado rumo à morte –, remetendo à compulsão de repetição. Ao fazer isso, torna incerto o uso do termo freudiano pulsão de morte que ele confessará, três anos depois, no Journal Clinique, ter muita dificuldade em manter.3 Contudo, em 1929, o termo é claramente mantido no quadro metapsicológico da ligação intrínseca das pulsões de vida e de morte.

1 Ferenczi, S. (1929). L’enfant mal accueilli et sa pulsion de mort. In Psychanalyse (Vol. 4, p. 90). Payot. Esta citação, e a da nota seguinte, foram extraídas, mais exatamente, do Journal Clinique, de 23 de fevereiro de 1932 (N.T.).

2 Ibid.

3 Ferenczi, S. (1932). Journal Clinique (p. 272). Payot.

6. As palavras da sobrevivência

Pensar (com) a psicanálise como psicanalista pressupõe pensar a cultura, e não apenas o lugar da psicanálise na cultura, nem o lugar da cultura na psicanálise. Como o ilustra de modo inovador o livro de Laurence Kahn,1 o desafio é mais que nunca dimensionar a ação, sobre a psicanálise, do ódio da cultura secretado na e pela cultura – em continuidade com a obra de Freud: O mal-estar na civilização e Por que a guerra?. Em continuidade com Freud, mas integrando a ruptura introduzida pelo Holocausto judeu: evento considerado doença autoimune da cultura, no sentido freudiano do termo. Todas as relações da linguagem e do ódio – nas suas modalidades narcísicas e objetais, de vida ou de morte – são, com efeito, reinterrogadas por essa ruptura: do ódio de si ao ódio do outro, da linguagem do ódio ao ódio da linguagem como lugar da cultura.

Kertész acompanha minha formação contínua de analista há mais de uma década. Ele encarna, no ponto mais alto, o que procuro em um escritor, ou seja, o efeito de conhecimento prometido pelo texto:

1 Kahn, L. (2018). Ce que le nazisme a fait à la psychanalyse. PUF.

me torna pensável, entre os endereçamentos ao leitor e ao autor, o que me afeta nos meus pacientes e que tendo a recalcar de modo mais ou menos passageiro, inclusive com a cumplicidade das palavras da psicanálise – estando bem entendido que um escritor não pertence a ninguém, nem a si: ele é irredutível a qualquer apresentação que seja, tanto a sua como quanto a de seu leitor, ainda que psicanalista!

Kadish, por uma criança não nascida, de modo muito particular, me tornou a escrita de Kertész legível como lugar de exílio vitalmente necessário para resistir à autodestrutividade ao trabalhar a sobrevivência. A escrita desse autor me parece transformar, com efeito e ao mesmo tempo, a autodestrutividade como energia e como material literário, na construção de um depois com relação à experiência dos campos nazistas. “A cultura de Auschwitz”, para retomar sua formulação, coloca uma questão radical: não se deveria considerar também a cultura, depois do Holocausto judeu, sob o ângulo de sua participação na autodestrutividade da espécie humana? Com os recursos singulares que lhe permitiram sustentar a questão, encontrei nele o modo de me aproximar melhor do que nomeio de a interlocução interna, ou seja, a experiência interior de si nas palavras como testemunhos potenciais da composição identificatória: testemunhos potenciais dos outros em si, confrontando o sujeito à alteridade interna, tanto a do outro quanto a própria. Tendo por desafio as condições de possibilidade de articulação de uma abordagem psicanalítica da escrita e da psicopatologia dos limites, esta última sendo um registro transnosográfico a ser repensado – e não uma nova entidade nosográfica.2

2 Ver Chiantaretto, J.-F. (2011). Trouver en soi la force d’exister. Campagne Première.

7. Escrever para1

O objetivo testemunhal de É isto um homem? mostra ao extremo a ligação indefectível entre a necessidade de se falar e a necessidade do outro para se escutar. A ligação é mostrada, ao mesmo tempo, como um desafio vital nas testemunhas sobreviventes e, tal como possa ser provado, em todos os sentidos do termo, para cada um de nós. Essa é, aliás, toda a dificuldade de recepção dessa obra: bem medir a irredutível especificidade da violação traumática dessa necessidade vital nas testemunhas sobreviventes.

Quando Primo Levi explica que as experiências de que dá testemunho em É isto um homem? “se escreveram sozinhas”2 no retorno dele de Auschwitz, a fórmula exprime, sem dúvida, o pressentimento de uma solidão traumática que será desdobrada pela escrita. Uma solidão sem remédio: o único remédio – cuja impossibilidade lhe será

1 Este capítulo retoma, remanejando segundo as perspectivas do livro, Chiantaretto, J.-F. (2016). L’impossible question de la possibilité du pardon. À propos de Primo Levi. Revue française de psychanalyse, 80(1), 149-161

2 Levi, P. ( 2004 ). L’asymétrie et la vie (Originalmente publicado em 2002 ). Laffont/ 10 - 18 . p. 41 .

provada pelo recrudescimento, nos anos 1980, de teses revisionistas e negacionistas – seria que o conjunto humano, como um só homem, viesse legitimar, après-coup, o combate interior do sobrevivente, a resistência de sua capacidade de se falar e de sonhar o outro em uma situação na qual tudo está organizado para destruí-la.

Levi, ao menos a partir da segunda edição de É isto um homem?, e cada vez mais dificilmente – desesperadamente? –, ao longo dos textos, procurará manter a espera de uma salvação na escrita, de uma salvação conduzida pela escrita. Nele, a escrita nasceu da remanescência e participa da remanescência: a necessidade de narrar é considerada salvadora. “Eu escrevo porque sou químico”: a seus olhos, sua formação lhe permite investir a escrita da assunção interior de uma posição de observador, tornando possível viver a experiência traumática como a experimentação catastrófica de uma zona intermediária, do inumano no humano. Mas de que forma suportar, como testemunha sobrevivente, atestar em pessoa o ataque do humano como elemento constitutivo da espécie humana?

É muito provavelmente o sentido primário do título, É isto um homem?. E é sob esse aspecto que o “desejo primordial e violento de narrar”,3 reivindicado por Levi, obriga a encarar os desafios éticos do testemunho acedendo a ele pela via mais difícil, e com certeza a mais capaz de ativar, nele, a dimensão passional: a impossível questão não do perdão, mas da possibilidade do perdão. Esse ponto será reaberto sob o ângulo, limitado, mas essencial, das condições psíquicas requeridas para permitir ao sujeito de uma experiência traumática confrontar-se com a possibilidade de perdoar ou não – e, mais especificamente, quando o trauma expõe uma desaparição do outro remetendo à defecção do outro prestimoso. Esse tipo de trauma põe em causa de modo mais ou menos direto o estatuto de semelhante.

3 Ibid., p. 182.

8. Escrever contra1

“Que bom teria sido poder partilhar isso com minha mãe, com Alice Miller”:2 as últimas palavras do “ensaio biográfico” de Martin Miller são inequívocas. Le Vrai “Drame de l’enfant doué” é o livro de um filho sobre sua mãe, que ocupa o lugar de uma partilha que não pôde ter lugar. O objeto da partilha não ocorrida se resume à aplicação em um “caso”, pelo filho transformado em terapeuta, de três elementos fundamentais da teoria de Alice Miller. Um caso: ao mesmo tempo o do filho e o da mãe – indistinção que seria inscrita na retomada (absorção?) do título do livro célebre da mãe no título do filho. Esses três elementos são a atenção dada ao “desenvolvimento do verdadeiro si”, o terapeuta como “testemunha lúcida”, “a força transformadora do

1 Este capítulo retoma, remanejando-a e prolongando-a segundo as perspectivas do livro, a leitura do livro de Martin Miller proposta em Chiantaretto, J.-F. (2016). Présence et absence du corps dans l’écriture de soi: Martin Miller contre Alice Miller. In J.-F. Chiantaretto & C. Matha (Orgs.), Écritures de soi, écritures du corps (pp. 9-22). Hermann.

2 Miller, M. (2014). Le vrai “drame de l’enfant doué”. La tragédie d’Alice Miller (originalmente publicado em 2013). PUF.

trabalho biográfico”. E eles constituem os três marcadores da falha, ou abuso materno, denunciado por Martin…

Tratar-se-á, pois, de escrever contra a mãe: o mais perto possível de sua teoria e para protestar contra seu uso indevido em relação a ela própria e a seu filho... dando testemunho de seu bom uso por ela, por ele próprio e como terapeuta. Para protestar contra o uso indevido da sua teoria por Alice Miller, até mesmo contra uma teoria baseada na falha materna de sua autora, reduzindo, em suma, o filho a uma vítima necessária. Essa é a questão posta pelo livro.

A teoria da criança abusada, no cerne dos trabalhos de sua mãe, é apresentada pelo autor, ao mesmo tempo, como central para ele na sua formação de terapeuta e como cortada, em Alice Miller, da verdadeira ancoragem em uma prática clínica. Ele sublinha, com efeito, que essa teoria se constrói, nela, a partir de sua ruptura com a psicanálise e de seu abandono de toda prática clínica. A contradição resulta, aqui, da própria posição subjacente à escrita “biográfica”: filho e terapeuta. O autor reivindica uma dupla legitimidade: por um lado, como filho abusado por sua mãe, a princípio vítima muda e observadora dela, depois “ouvinte empático” de suas elaborações teóricas; e, por outro, como terapeuta verificador, em sua prática, da pertinência dessas elaborações. O ensaio biográfico toma, literalmente, o lugar deixado vago pela deserção de Alice Miller, tanto na escrita autobiográfica quanto na fala dirigida ao filho.

Um filho abusado escreve a biografia da mãe abusiva, teórica da criança abusada. E Martin revela o passado dela, de filha abusada, que ela tentou esconder, inclusive de si, recalcando-o no agir e depois em sua teorização! A cena é estruturalmente fantasmática, como se o filho não pudesse se desfazer de seu desejo de encarnar, para a mãe, a

9. A desaparição ou a perda

Como sobreviver à inscrição primeira, no ser do infans, da descontinuidade da presença psíquica do outro? De que modo sobreviver a essa inscrição invivível e sem representação possível? Essa é toda a questão posta pelos chamados pacientes-limite. Esses pacientes tiveram de sobreviver à incorporação melancoliforme da desaparição do outro a si e se agarram de forma desesperada a essa sobrevivência, atualizando-a sem cessar na relação com os outros. A necessidade vital da autorrepresentação não se tornará vivível para eles, senão, pela abertura do analista ao ódio na contratransferência – vivível: fonte e matéria de um prazer de se ver em vias de ser, suficientemente liberto da autodestrutividade.

O texto de Winnicott1é inaugural sob esse aspecto, modelizando a contratransferência a partir de uma teoria da dependência vital do infans, resolutamente inédita com relação a Freud. O ódio contratransferencial do analista, se ele chega a elaborá-lo de forma

1 Winnicott, D. W. (1969). La haine dans le contre-transfert (1947). In De la pédiatrie à la psychanalyse. Payot.

suficiente, tal qual uma reação ao ódio negado do analisado confrontado a uma reativação da dependência original, autoriza este a experimentar seu ódio, transformando-o. Ele advém, então, ao ódio separador e pode sair da prevalência narcísica de seus investimentos, da redução do outro a um objeto subjetivo. Todavia, as proposições de 1947 não permitem pensar por completo a especificidade do ódio no registro-limite.

Como viver tendo tido de sobreviver ao estado de dependência vital e de impotência do bebê? Essa questão, que constitui o destino comum, decerto suportado de maneira desigual e fonte de criatividade também desigual, toma uma forma radicalmente paradoxal no registro-limite: De que forma viver de outro modo senão sobrevivendo à sua remanescência na autodestrutividade? O texto testamentário de Winnicott, “La crainte de l’effondrement”, permite receber melhor a questão, sob a condição de relê-lo com Ferenczi…

O ódio do analista é uma reação – uma reação transformadora – ao ódio de si induzido nele pelo paciente-limite: um ódio de si que atava a própria possibilidade de se investir como analista, a própria possibilidade de investir o paciente como oferta de um pensável inédito, fonte de gratificações narcísicas mutualizáveis, acompanhando-se de um bônus de prazer (auto)erótico para um e outro. A indução transferencial resulta, no paciente, da necessidade de se provar que todo outro é2 um outro prestimoso decepcionante, e é ele próprio, por natureza, incapaz de ser amado: indiferentemente decepcionado e decepcionante, para sempre. Trata-se, ali, de sobreviver à experiência de uma decepção sem fundo no infans: decepcionante para o outro do qual ele depende de modo vital e incapaz

2 A potencialidade valendo pelo ser.

10. Da cultura à cura: o mal-estar da transparência

A cultura não poderia propiciar a tranquilidade, tanto no plano individual quanto no plano coletivo. O mal-estar na civilização, de novo:

A ética se volta para um ponto que é facilmente reconhecível como o local mais sensível de toda cultura. A ética deve, com efeito, ser concebida como uma tentativa terapêutica, esforço para alcançar, por um mandamento do superego, o que até aqui não podia ser atingido por nenhum outro trabalho cultural.1

O superego interviria, portanto, para curar, mas não se pode exigir dele que cure a cultura como lugarcomum dos sujeitos individuais, nem exigir da cultura que cure os sujeitos individuais. O mal em questão não pode ser curado, pois se trata do mal no coração do ser

1 Freud, S. (1930). Malaise dans la culture. In Œuvres complètes de Freud / Psychanalyse (Vol. XVIII, p. 330). Presses Universitaires de France.

humano: “a inclinação constitutiva dos homens de se agredir mutuamente”. E, sobretudo, a ordem superegoica, com a prescrição “ama o teu próximo como a ti mesmo”, deve levar em conta as duas faces da inclinação constitutiva: a “humana pulsão de agressão e de autoaniquilamento”.2

Cuidar em vez de curar: cuidar da vida, cuidar da espécie humana em cada um e para todos, ou seja, regular, até mesmo transformar, em parte, essa “humana pulsão”, ao menos no sentido de lhe encontrar as formas de expressão menos destrutivas. E essa missão de guardião da vida do superego não seria posta em jogo no tratamento como o próprio lugar de imbricação do individual e do coletivo, decerto segundo modalidades infinitamente variáveis em função das configurações pessoais?

Essas modalidades, das mais brutais às mais sutis, das mais silenciosas às mais ruidosas, levarão Freud, por fim, para além da precedência do masoquismo com relação ao sadismo – e não mais o inverso –, a dimensionar a destruição como resistência à autodestruição:

Uma agressão impedida parece ter a significação de um grave fator de dano: parece que nos cabe destruir, efetivamente, outras coisas e outros seres, para não nos destruirmos a nós mesmos, para nos preservarmos da tendência à autodestruição.3

A constatação é dura, e suas implicações mais ainda: encarar a destrutividade coletiva dos humanos como resistência à autodestrutividade individual, e esta como resistência à destrutividade coletiva,

2 Ibid., p. 333

3 Freud, S. (1933). Nouvelles suites des leçons d’introduction à la psychanalyse. In Œuvres complètes de Freud / Psychanalyse (Vol. XIX, pp. 188-189). Presses Universitaires de France.

Este livro parte da perspectiva de que a autoanálise empreendida por Freud em textos autobiográficos configura um convite para que os psicanalistas se questionem sobre as escritas de si (autobiografia, diários íntimos, autoficção…). No entanto, a expressão “escrita de si” também se refere, de forma mais ampla, ao uso que Freud fez da escrita em primeira pessoa para criar a psicanálise – em um diálogo consigo mesmo, que institui o outro (o leitor) como testemunha de um pensamento em construção.

Partindo da escrita sobrevivente – com destaque para Imre Kertész –, Chiantaretto propõe uma reflexão a respeito da sobrevivência como um modo de ser e de pensar, característica da clínica dos limites.

Viver é perder. Cada um deve consentir em morrer no próprio processo da vida, aceitar a perda de si na escolha dos possíveis e na possibilidade da perda do outro. No entanto, há outra figura dessa perda, que caracteriza os funcionamentos chamados limites em sua dimensão melancólica: a perda de si no outro que desapareceu para si mesmo. Ou, dito de outra forma, a incorporação, pelo infans, da negação que o outro primordial infligiu a si próprio. Como sobreviver a essa forma inaugural de perda de si?

PSICANÁLISE
PSICANÁLISE SEM FRONTEIRAS

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