Saúde mental dos jovens: reconhecer para acompanhar

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Antonella Sinagoga - Miguel Ángel Morcuende
SALESIANOS EDITORA

Ficha Técnica:

Saúde mental dos jovens: reconhecer para acompanhar - Guia para educadores

Titulo Original: RICONOSCERE PER ACCOMPAGNARE LA SALUTE MENTALE DEI GIOVANI

Esta edição foi publicada por acordo com a Editora:

© 2025 Salesiani di Don Bosco

Proprietà riservata al Settore per la Pastorale Giovanile, SDB Salesiani di Don Bosco – Sede Centrale Via Marsala, 42 - 00185 Roma

Copyright desta edição:

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Tradução: rAP

Revisão Científica: Sofia Fonseca

Capa: Paulo Santos

Paginação: João Cerqueira

Imagem de capa: Freepik

1ª edição: Fevereiro 2026

ISBN: 978-989-9134-73-7

Depósito Legal.: Impressão e acabamento: Sersilito

Reservados todos os direitos. Nos termos do Código do Direito de Autor, é expressamente proibida a reprodução total ou parcial desta obra por qualquer meio, incluindo a fotocópia e o tratamento informático, sem a autorização expressa dos titulares dos direitos

APRESENTAÇÃO

Nunca como hoje se falou tanto de saúde: da saúde estética, da saúde física, do bem-estar exterior. Mas continuamos, muitas vezes, a adiar uma pergunta essencial: cuidamos verdadeiramente da saúde mental? Este livro nasce dessa urgência e dessa responsabilidade educativa.

Falar hoje de saúde mental dos jovens não é ceder a uma moda, nem a um alarmismo. É reconhecer sinais claros do nosso tempo: o crescimento da ansiedade, da solidão, do medo de falhar, da dificuldade em decidir e assumir compromissos. Muitos jovens vivem “cheios de estímulos”, permanentemente conectados, expostos, comparados e avaliados, mas interiormente frágeis, cansados e, não raras vezes, sem referências sólidas onde se apoiar.

Quem são, afinal, os jovens de hoje? São filhos da velocidade e da hiperconexão, da comparação constante e da exposição contínua. Revelam, por um lado, fragilidade emocional; por outro, uma grande sensibilidade ética, social, humana e até espiritual. São capazes de gestos generosos e de profundas inquietações, mas carregam um peso interior que nem sempre sabem nomear ou partilhar.

É neste contexto que importa clarificar o que entendemos por saúde mental. Não se trata apenas da ausência de doença, mas da capacidade de lidar com as próprias emoções, enfrentar frustrações, construir relações saudáveis e encontrar sentido para a vida. Educar, hoje, é também cuidar da interioridade, ajudando cada jovem a integrar o que vive, sente e sonha.

Este livro convida os educadores a desenvolver um olhar atento e desarmado sobre os sinais de alerta que surgem no quotidiano. Ajuda a reconhecer realidades que muitas vezes permanecem escondidas ou estigmatizadas: a ansiedade social, a depressão juvenil, os distúrbios alimentares, as dependências, mas também situações mais graves como o bullying, a psicose, a automutilação ou o suicídio. Reconhecer não é rotular ; é o primeiro passo para acompanhar e proteger.

Neste caminho, o papel do educador é insubstituível. O educador não é terapeuta, mas é presença significativa. A sua força reside na capacidade de escutar sem julgar, de ajudar a nomear emoções, de criar ambientes seguros, de dar tempo e confiança. As relações educativas e a experiência de pertença são fatores decisivos para a saúde

mental. Como recorda São João Bosco, é no cuidado do ambiente, na qualidade da relação e numa proposta espiritual encarnada que o jovem se sente verdadeiramente acolhido, fortalecido e amado.

Este livro propõe-se ser um instrumento ao ser viço dos educadores. Apresenta uma linguagem acessível e fundamentada, recorre a situações concretas mais do que a teorias abstratas e oferece ferramentas práticas para o dia a dia educativo. Integra um olhar psicológico, educativo e profundamente humano, fiel a uma verdadeira cultura do cuidado.

Aos educadores fica uma última palavra, simples e exigente: cuidar da saúde mental dos jovens começa por cuidar da nossa própria saúde mental. Não somos salvadores, mas companheiros de caminho. Continuamos a educar porque acreditamos, e educar continua a ser um ato de esperança.

1 CAPÍTULO

ESTIGMA NA SAÚDE MENTAL

1.1 COMO RECONHECER O ESTIGMA DA SAÚDE MENTAL

O estigma social ainda está presente em muitas culturas

Do ponto de vista educativo, apostamos nos processos educativos como a melhor estratégia para promover o bem-estar mental. Infelizmente, quando uma pessoa tem dificuldades neste domínio, cria-se um estigma que anda de mãos dadas com a discriminação.

O termo estigmavem do grego e significa marca, mancha. No plano sociológico, o processo de estigmatização é o conjunto de atitudes e crenças falsas (estereótipos e preconceitos) que desacreditam ou rejeitam (discriminação) uma pessoa ou um grupo social por serem considerados diferentes, desvalorizando-os e provocando consequências importantes na forma como se percecionam a si próprios (auto-estigma).

Na esfera social e da saúde, a estigmatização tem sido usada para assinalar negativamente uma condição sociocultural, funcional, física ou mental, um traço ou um comportamento, como a raça, a etnia, a idade, o género, a identidade sexual, a nacionalidade, o credo ou a religião.

Quando falamos de estigma na saúde mental, referimo-nos à atribuição de qualidades negativas e depreciativas ao grupo de pessoas que tem um problema. Com esta identificação negativa, estas pessoas são socialmente associadas a um conjunto

de crenças, mitos e preconceitos baseados na falta de informação e na ignorância1. Estas crenças foram construídas ao longo dos anos e, muitas vezes, não são postas em causa porque fazem parte do imaginário coletivo.

É importante compreender que todos nós, em algum momento das nossas vidas, experimentaremos um sofrimento emocional que pode levar a uma perturbação de saúde mental. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, uma em cada quatro pessoas em todo o mundo terá um problema de saúde mental durante a sua vida; e metade delas não procurará ajuda profissional precisamente devido ao estigma.

Discriminação, a consequência do estigma

A atribuição de características e traços negativos às pessoas com problemas de saúde mental predispõe a atitude que temos para com elas, a forma como nos comportamos e nos relacionamos com elas. De facto, a relação entre as conceções sobre as pessoas com problemas de saúde mental (estereótipos), a atitude que temos em relação a elas (preconceito) e a tradução dessas ideias em ações e comportamentos negativos (discriminação) segue um padrão circular de feedback. O comportamento discriminatório em relação às pessoas com perturbações de saúde mental alimenta e reforça os estereótipos que temos sobre elas.

Esta discriminação sistemática constitui um dos principais obstáculos à recuperação, ao bem-estar e, em última análise, à realização de uma vida plena e normalizada para as pessoas com problemas de saúde mental.

O estigma na saúde mental provoca uma multiplicidade de situações discriminatórias que impedem o desenvolvimento familiar, social, laboral ou educativo de milhões de pessoas com perturbações mentais. Podemos dizer que as duas respostas que adotamos usualmente em relação às pessoas com problemas de saúde mental são:

1 O estigma é um fenómeno social que inclui três dimensões: estereótipos, preconceitos e discriminação. Os estereótipos são crenças partilhadas pela sociedade, pressupostos coletivos sobre um grupo que são usados para o categorizar. A respeito das pessoas com problemas de saúde mental os estereótipos mais comuns são a incompetência, culpabilidade, perigosidade e imprevisibilidade. Os preconceitos são uma atitude aprendida que envolve crenças (componente cognitiva), sentimentos (componente afetiva) e predisposição para agir (componente comportamental) de forma desfavorável em relação a um grupo social específico. A discriminação é um comportamento negativo dirigido ao grupo social estigmatizado. Promove-se uma distância social entre um «eles» e um «nós»; usam-se critérios diferentes para avaliar as pessoas que fazem parte do «nós» e as que fazem parte do «eles», gerando assim situações injustas e discriminatórias.

• Medo: esta é a consequência mais imediata dos estereótipos atribuídos às pessoas com perturbações da saúde mental. O medo predispõe a forma como nos relacionamos com elas. Este medo é motivado pela ignorância, mas também pelo nosso medo de sofrermos uma perturbação de saúde mental. O outro torna-se o outro lado do espelho, aquele em quem eu me posso tornar.

• Maus-tratos: uma das formas mais comuns de discriminação é o maltrato ou o tratamento negativo das pessoas com perturbações de saúde mental.

Estes maus-tratos podem ser físicos, mas também ocorrem através da utilização de linguagem discriminatória e de atitudes de evitamento, rejeição, condescendência, superproteção e controlo2.

O estigma na saúde mental é um problema global. Causa uma multiplicidade de situações discriminatórias que dificultam o desenvolvimento familiar, social, laboral ou educativo de milhões de pessoas afetadas com perturbações mentais.

O medo de ser rotulado como tendo um problema de saúde mental reduz a probabilidade de as pessoas procurarem tratamento. O estigma associado à saúde mental desvaloriza socialmente a pessoa e o contributo que ela dá enquanto membro da sociedade a que pertence. De facto, quase todas as pessoas com um problema de saúde mental afirmam que o estigma e a discriminação as afetam negativamente.

As pessoas que sofrem de estigma e discriminação têm mais probabilidade de experimentar:

• Relutância em procurar tratamento;

• Atraso no tratamento;

• Rejeição, alienação e isolamento social;

• Menor bem-estar mental;

• Falta de compreensão por parte de amigos, familiares e educadores;

• Assédio, violência ou bullying;

• Má qualidade de vida e aumento dos encargos socioeconómicos;

• Aumento dos sentimentos de vergonha e dúvidas sobre si mesmo.

2 O controlo e, sobretudo, a superproteção precisam de ser mais bem distinguidos, porque têm um significado diferente, em si mesmo também positivo, mas ainda assim inadequado, enquanto os outros são apresentados como comportamentos negativos.

Além disso, o estigma na saúde mental associa-se frequentemente a outros estereótipos sociais relacionados com a idade, o sexo, a etnia ou outras situações económicas e sociais desfavoráveis. Isto faz com que estas pessoas sofram um duplo estigma, dificultando ainda mais o seu desenvolvimento social e pessoal.

1.2

PRINCIPAIS MITOS E CRENÇAS FALSAS SOBRE A SAÚDE MENTAL

Ao longo das décadas, a cultura popular e os mediatêm fomentado a estigmatização e a perpetuação dos estereótipos negativos associados às pessoas com perturbações mentais. São vários os mitos que acompanham a saúde mental e que se perpetuam em diferentes contextos educativos, sociais e culturais.

A maioria destes mitos nada tem a ver com a realidade nem tem qualquer base científica, mas os estereótipos, passados de geração em geração, persistem na nossa sociedade. Algumas das falsas crenças que contribuem para a estigmatização e a discriminação são:

As pessoas com problemas mentais são violentas e agressivas. FALSO

As pessoas com um problema de saúde mental são tão suscetíveis de episódios de violência quanto outra pessoa sem problemas de saúde mental. Pelo contrário, são frequentemente vítimas de violência e de outros crimes por causa da sua vulnerabilidade.

As pessoas com problemas mentais são socialmente inadaptadas. FALSO

As pessoas com uma perturbação de saúde mental não têm que ser pessoas solitárias, fechadas no seu próprio mundo, que não mostram interesse pelo seu ambiente social ou que se isolam. A existência de uma boa rede social (profissional, familiar, de amigos, de parceiros ...) permite prever um melhor desenvolvimento e constitui um fator de proteção contra a recaída. As pessoas com uma perturbação de saúde mental podem viver perfeitamente integradas na sociedade se tiverem o apoio e os recursos necessários para levar uma vida independente e autónoma.

Os problemas de saúde mental são irreversíveis. FALSO

Os estudos mostram que as pessoas com problemas de saúde mental melhoram e muitas recuperam completamente. A recuperação é o processo pelo qual as pessoas se tornam capazes de viver, trabalhar, aprender e participar plenamente nas suas comunidades.

As pessoas com problemas de saúde mental não podem trabalhar. FALSO

As pessoas com perturbações de saúde mental podem trabalhar, tal como qualquer outra pessoa. Algumas podem necessitar de condições e apoios específicos. O obstáculo ao emprego não se deve tanto à doença em si, mas à falta de adaptabilidade das organizações, da sociedade e das administrações para adaptar os locais de trabalho e fornecer os recursos necessários.

Os problemas de saúde mental atingem algumas pessoas, mas eu não serei afetado. FALSO

As perturbações de saúde mental podem afetar qualquer pessoa, independentemente da idade, do sexo, da cultura ou do status económico. Documentos da OMS sugerem que uma em cada quatro pessoas terá um problema de saúde mental durante a sua vida.

As pessoas com problemas mentais estarão melhor em clínicas psiquiátricas. FALSO

Mais de 80% das pessoas com problemas de saúde mental vivem no seu ambiente familiar. Um problema de saúde mental não tem que impedir uma vida normal e, na grande maioria das vezes, deve ser tratado no ambiente habitual da pessoa. O tratamento baseado na comunidade provou ser um tratamento eficaz. Atualmente, com algumas exceções, os hospitais de saúde mental destinam-se a ser espaços de contenção temporária para episódios agudos3. As pessoas tratadas na comunidade têm uma evolução melhor e mais sustentada ao longo do tempo.

As crianças e os adolescentes não têm problemas de saúde mental. FALSO

Mesmo as crianças podem apresentar sinais precoces de problemas de saúde mental. Estes problemas podem ser identificados clinicamente e podem resultar da interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais (por vezes até familiares, ...).

As perturbações mentais estão na origem da deficiência intelectual. FALSO

Um problema mental não causa e não é uma deficiência intelectual. São duas coisas diferentes. Uma pessoa com uma perturbação mental nem sempre tem as suas capacidades ou competências cognitivas afetadas.

As pessoas que têm um problema de saúde mental são preguiçosas. FALSO

O desenvolvimento de um problema de saúde mental não tem nada a ver com preguiça ou falta de força. O aparecimento de uma perturbação mental tem causas multifatoriais: fatores biológicos, experiências de vida traumáticas, ambiente socioeconómico desfavorável, etc.

3 Que podem requerer internamento compulsivo.

Não podemos ajudar as pessoas que têm um problema de saúde mental. FALSO

A sociedade, no seu conjunto, tem a responsabilidade de prevenir os problemas de saúde mental, de promover a saúde e de fornecer o apoio e os recursos necessários para que as pessoas com um problema de saúde mental possam viver plenamente a sua vida. Além disso, quando uma pessoa tem um problema de saúde mental, o seu ambiente é crucial para detetar os sinais de alerta e acompanhá-la ao longo das diferentes fases da perturbação.

A perturbação afeta todos os comportamentos da pessoa. FALSO

Nem todas as atitudes e comportamentos de uma pessoa são sintomas do seu problema e o problema não é a explicação absoluta para tudo. Por outras palavras, a pessoa com um problema de saúde mental existe independentemente do seu problema. Se reduzirmos o seu comportamento a um sintoma da perturbação, a pessoa tende a perder legitimidade quando tenta exprimir as suas emoções ou opiniões, que serão patologizadas e desprezadas. Outra crença generalizada é a de que é preciso comportar-se de forma específica e particular com as pessoas que têm um problema mental; ao não saberem como fazê-lo, as pessoas tendem a evitar a interação.

COMO ACOMPANHAR O ESTIGMA

1.3

NO CAMPO EDUCATIVO

A educação é uma das esferas mais importantes na construção de qualquer sociedade, mas a saúde mental continua a ser uma questão adiada nos centros educativos, grupos ou associações. Em todos os lugares educativos é necessário promover uma visão da saúde mental sem estigmas, encorajando as crianças, adolescentes e jovens a falar e a pedir ajuda quando precisam.

75% das perturbações mentais começam na adolescência, antes dos 18 anos; mas, apesar disso, algumas pessoas com problemas de saúde mental continuam a ser alvo de tratamento discriminatório nos centros educativos por parte dos educadores e dos colegas: evitamento ou rejeição, superproteção ou controlo, provocação, menosprezo ou ridicularização de comportamentos diferentes são algumas expressões comuns.

Os programas de luta contra o estigma nas escolas, nos centros educativos, nas associações e nos grupos devem seguir uma estratégia centrada nos seguintes aspetos:

• Prevenir, identificar e combater o estigma e a discriminação em matéria de saúde mental desde a mais tenra idade.

• Incentivar os jovens a procurar ajuda como forma de evitar que os problemas de saúde mental se desenvolvam ou se tornem crónicos, intervindo precocemente para prevenir o aparecimento de dificuldades mais graves.

• Melhorar as atitudes e o comportamento dos jovens e dos educadores em relação aos problemas de saúde mental.

• Chamar a atenção e o interesse da comunidade educativa (jovens, educadores, pais) para a luta contra o estigma e a discriminação das pessoas com problemas de saúde mental.

• Melhorar a capacidade de resiliência dos jovens.

Para eliminar os tabus e preconceitos que existem em relação à saúde mental, a primeira coisa a fazer é falar de saúde mental de uma forma normalizada e quotidiana. Como?

• Lembrando que os problemas de saúde mental não são algo estranho e isolado, mas que são mais comuns do que parecem.

• Gerando empatia para com as pessoas que têm um problema de saúde mental.

• Ajudando os jovens a conhecer em primeira mão a experiência das pessoas com um diagnóstico e a colaborar com as organizações de saúde mental que lhes são próximas.

• Respeitando e encorajando os jovens que querem falar publicamente sobre a sua saúde mental e reconhecendo a sua coragem perante o grupo.

• Dando espaço às emoções que podem emergir na sala de aula por parte das crianças, ou nos vários grupos e associações.

2 CAPÍTULO

PERTURBAÇÃO DE ANSIEDADE SOCIAL

2.1

COMO RECONHECER A PERTURBAÇÃO DE ANSIEDADE SOCIAL

Sinto o olhar de todos sobre mim, sinto-me como um peixe fora de água

O que é uma perturbação de ansiedade e quais os tipos mais relevantes para os jovens? Quais são os sinais de alerta, os fatores de risco e os fatores de proteção? Como é que a ansiedade pode ser gerida e que apoio é necessário?

A perturbação de ansiedade é um mal-estar incapacitante caracterizado por uma resposta de medo, preocupação desproporcionada ou crónica em relação aos acontecimentos do quotidiano, que prejudica o funcionamento normal da pessoa. A ansiedade é uma resposta natural e útil em certas situações de perigo ou de stress, mas na perturbação de ansiedade torna-se persistente, excessiva e injustificável em relação à situação real.

Existem vários tipos de perturbações de ansiedade, incluindo a perturbação de ansiedade generalizada (PAG), os ataques de pânico, as fobias específicas e, em particular, a perturbação de ansiedade social (ou fobia social). Esta caracteriza-se por um medo intenso e persistente de situações sociais ou de desempenho, em que a pessoa teme ser observada, julgada ou criticada pelos outros. Não é simplesmente uma questão de timidez ou introversão; é uma perturbação que pode interferir sig-

nificativamente na vida quotidiana, levando a pessoa a evitar até mesmo situações sociais comuns.

Sintomas de ansiedade social

Os sintomas de ansiedade social, ou perturbação de ansiedade social, estão descritos no ManualdeDiagnósticoeEstatísticadasPerturbaçõesMentais4. Trata-se de um «medo ou ansiedade acentuados acerca de uma ou mais situações sociais em que o indivíduo é exposto a possível avaliação por outras pessoas». Os principais critérios de diagnóstico incluem:

• Há medo acentuado e persistente de uma ou mais situações sociais ou de desempenho em que a pessoa está exposta ao possível julgamento dos outros.

• A pessoa teme agir de tal forma ou manifestar sintomas de ansiedade que serão avaliados negativamente.

• As situações sociais temidas provocam quase sempre medo ou ansiedade.

• As situações sociais temidas são evitadas ou suportadas com medo ou ansiedade intensos.

• O medo ou a ansiedade são desproporcionais em relação à ameaça real colocada pela situação social ou pelo contexto sociocultural.

• O medo, a ansiedade e o evitamento são persistentes e duram normalmente seis meses ou mais.

• O medo ou a ansiedade criam mal-estar clinicamente significativo e prejudicam o funcionamento em vários âmbitos.

Os sintomas da ansiedade social podem ser divididos em várias categorias, que incluem sintomas cognitivos, comportamentais e físicos.

As pessoas com perturbação de ansiedade social apresentam frequentemente sintomas cognitivos, ou seja, pensamentos negativos e distorções cognitivas sobre si próprias e sobre as situações sociais. Estes pensamentos podem incluir:

• Medo do julgamento: Preocupação constante de ser avaliado negativamente pelos outros, levando à sensação de que qualquer interação pode acabar em embaraço ou rejeição.

4 Associação Americana de Psiquiatria (2023). ManualdeDiagnósticoeEstatísticadosDistúrbiosMentais, Quinta Edição, Revisão de Texto (DSM-5-TR). American Psychiatric Publishing. Este manual, na sua quinta edição, fornece critérios de diagnóstico claros para identificar o distúrbio, ajudando os profissionais de saúde mental a avaliar e diagnosticar com exatidão as pessoas com estes sintomas.

• Catastrofização: A ideia de que uma pequena crítica pode transformar-se num acontecimento catastrófico, levando a consequências devastadoras na vida pessoal, social ou profissional.

• Perceção distorcida das situações sociais: Atenção excessiva aos pormenores, como o comportamento ou a expressão dos outros, o que alimenta a ansiedade.

O comportamento dos indivíduos com ansiedade social pode ser influenciado pelo seu medo. Alguns comportamentos comuns incluem:

• Evitamento: O indivíduo pode evitar eventos sociais, situações de grupo ou qualquer contexto em que possa estar exposto ao julgamento dos outros. Isto manifesta-se, por exemplo, através da ausência em festas, fuga a interações sociais ou até em ambientes de trabalho.

• Comportamentos de segurança: Quando as situações sociais não podem ser evitadas, o indivíduo adota comportamentos de segurança: falar monossilabicamente, evitar o contacto visual ou permanecer em silêncio para reduzir o risco de embaraço.

Os sintomas físicos da ansiedade social são frequentemente muito intensos e podem manifestar-se de várias formas. Podem incluir:

• Sintomas autonómicos: Taquicardia, transpiração excessiva, tremores, náuseas, boca seca, dificuldade em respirar e sensação de desmaio ou tonturas. Estes sintomas físicos podem amplificar o medo e a ansiedade, criando um círculo vicioso.

• Reações fisiológicas: O indivíduo pode notar uma resposta física intensa sempre que se encontra numa situação social, contribuindo para a crença de que a ansiedade é insuportável.

Prevalência

Na última década, a perturbação de ansiedade social tem recebido uma atenção crescente na investigação, especialmente no que diz respeito à sua prevalência entre os jovens. Tem sido documentado em numerosos estudos nos grupos etários da adolescência e da idade adulta jovem. As estimativas variam, mas estima-se que a perturbação afeta cerca de 7-13% dos jovens, com tendências crescentes nos últimos anos. Este aumento pode ser atribuído a uma maior consciencialização e a uma redução do estigma associado às perturbações mentais, o que levou a que mais pessoas procurassem ajuda e recebessem um diagnóstico.

Um dos aspetos mais interessantes da perturbação de ansiedade social é a sua distribuição entre homens e mulheres. A investigação indica que as mulheres tendem a registar taxas mais elevadas de ansiedade social do que os homens.

Em muitos estudos, a relação de prevalência varia entre 2:1 e 3:1, a favor das mulheres. Isto pode dever-se a vários fatores, incluindo fatores biológicos, psicológicos e socioculturais. As mulheres tendem mais a expressar e reconhecer os seus sentimentos de ansiedade, enquanto os homens manifestam a sua ansiedade de formas diferentes, como a agressão ou o evitamento.

2.2

TIPOLOGIA DAS PERTURBAÇÕES DE ANSIEDADE SOCIAL

As diferentes faces da ansiedade social

As perturbações de ansiedade social podem manifestar-se de várias formas. Estas quatro são as mais comuns:

• Perturbação de Ansiedade Social (Fobia Social). Caracteriza-se por um medo significativo de ser julgado ou humilhado em situações sociais. As pessoas evitam eventos como festas, reuniões de negócios ou mesmo interações simples do dia a dia. Além disso, pode manifestar-se em situações de desempenho, como falar em público, ou em contextos mais informais, como comer na companhia de outras pessoas.

• Ansiedade Social Generalizada. É uma forma mais generalizada de ansiedade social, em que a pessoa sente ansiedade em quase todas as situações sociais, não se limitando a eventos específicos.

• Perturbação de Pânico em Situações Sociais. Alguns indivíduos podem ter ataques de pânico durante situações sociais, tornando o medo do julgamento ainda mais intenso. O próprio medo de ter um ataque de pânico pode levar a evitar situações sociais.

• Embora não sejam diretamente considerados perturbações de ansiedade social, as fobias específicas, como o medo de falar em público (glossofobia), podem sobrepor-se à perturbação de ansiedade social.

Merece uma palavra o isolamento social, o fenómeno Hikikomori.

O termo «Hikikomori» refere-se a um fenómeno social originário do Japão, em que indivíduos, frequentemente adolescentes e jovens adultos, se isolam completamente da sociedade por períodos prolongados, por vezes meses ou anos.

Este comportamento de isolamento social está frequentemente associado a:

• Ansiedade social. Ou seja, muitos hikikomori mostram sinais de ansiedade social, achando extremamente difícil lidar com situações sociais ou com o mundo exterior.

• Pressões escolares e profissionais. Em culturas de alta pressão como a japonesa, os indivíduos podem retrair-se devido ao medo de falhar ou de não corresponder às expectativas.

• Fatores familiares. A dinâmica familiar, como um ambiente demasiado protetor ou crítico, pode contribuir para o isolamento. Alguns hikikomori podem também manifestar conflitos familiares.

O isolamento extremo conduz a uma série de consequências negativas:

• Problemas de saúde mental. O isolamento pode intensificar a ansiedade e a depressão, criando um círculo vicioso que é difícil de quebrar.

• Diminuição do desempenho social e profissional. Os jovens hikikomori podem perder oportunidades de educação e emprego, aumentando a dificuldade de reintegração na sociedade.

• Dificuldades relacionais. O retraimento pode levar a um empobrecimento das competências sociais, tornando a socialização futura ainda mais difícil.

Causas que contribuem para a ansiedade social

As causas da ansiedade social são complexas e multifatoriais, influenciadas por uma combinação de fatores genéticos, psicológicos, ambientais e sociais. Compreender estas causas é crucial para desenvolver estratégias de intervenção e apoio eficazes.

Os fatores genéticos desempenham um papel significativo na predisposição de um indivíduo para desenvolver ansiedade social. Estudos com gémeos e investigação familiar mostraram que existe uma componente hereditária associada às perturbações de ansiedade. Se um membro próximo da família, como um pai ou um irmão,

sofre de ansiedade social, é mais provável que um indivíduo desenvolva problemas semelhantes. No entanto, a genética, por si só, não determina a perturbação; ela interage com outros fatores.

Do ponto de vista psicológico, as experiências pessoais e a forma como um indivíduo interpreta e reage a situações sociais são cruciais. As pessoas com ansiedade social tendem a desenvolver pensamentos negativos automáticos sobre a forma como são percecionadas pelos outros. Estes pensamentos podem incluir a crença de que estão a ser julgadas negativamente, de que estão a ser ridicularizadas ou de que não correspondem às expectativas sociais. Estas crenças distorcidas podem estar enraizadas em experiências anteriores na vida, como episódios de humilhação ou rejeição, levando a uma maior vulnerabilidade à ansiedade social. A perceção dos acontecimentos sociais como ameaçadores ou perigosos alimenta o ciclo de ansiedade, tornando as interações sociais cada vez mais difíceis de serem enfrentadas.

Outro fator-chave é a dinâmica familiar e o ambiente de crescimento. As famílias em que existe um elevado grau de controlo, crítica ou expectativas irrealistas podem contribuir para o desenvolvimento da ansiedade social. Um ambiente familiar em que o perfeccionismo é recompensado ou em que as emoções são minimizadas pode levar um jovem a interiorizar o medo do julgamento e do fracasso. Além disso, as experiências de bullyingou de exclusão social durante a infância e a adolescência podem ter um impacto duradouro, criando uma base para a ansiedade social. Os indivíduos que sofreram bullying podem desenvolver uma sensibilidade aguda à rejeição e uma tendência a evitar situações sociais para se protegerem de potenciais experiências dolorosas adicionais.

A influência dos pares é outro elemento importante. Durante a adolescência, o grupo de pares torna-se crucial para a formação da identidade e da autoestima.

A pressão social pode intensificar a ansiedade social, especialmente em contextos em que se comparam competências sociais, desempenho escolar ou popularidade aparente. As expectativas e normas sociais que surgem nestes contextos podem contribuir para um aumento do medo de ser julgado ou excluído, exacerbando os sintomas de ansiedade.

As variáveis culturais e sociais também desempenham um papel significativo. Em algumas culturas, onde a importância da aprovação social é enfatizada e o fracasso é estigmatizado, os indivíduos podem desenvolver uma maior vulnerabilidade à ansiedade social. A globalização e a utilização dos meios de comunicação social acrescentaram novas complexidades a este fenómeno: a exposição contínua a modelos idealizados aumenta a pressão sobre os jovens, levando-os a recear não corresponder a esses padrões.

Por fim, os fatores biológicos podem influenciar a suscetibilidade à ansiedade social. Os neurotransmissores, como a serotonina e a dopamina, têm sido associa-

dos à regulação do humor e da ansiedade. Um desequilíbrio nestes sistemas químicos pode contribuir para o desenvolvimento de sintomas de ansiedade. Além disso, o sistema nervoso autónomo desempenha um papel crucial na resposta ao stress e nas reações de ataque ou fuga, o que pode levar a uma resposta excessiva em situações sociais.

2.3

SINAIS DE ALERTA DA ANSIEDADE SOCIAL

Os sinais de alerta associados à ansiedade social manifestam-se de diferentes formas e em várias fases da vida de um indivíduo. O reconhecimento destes sinais é crucial para identificar precocemente a perturbação e intervir eficazmente.

Um dos principais sinais de alerta é a intensificação do medo em situações sociais. Os indivíduos começam a sentir-se excessivamente ansiosos ou nervosos quando estão em contextos sociais, mesmo naqueles que anteriormente não causariam qualquer desconforto. Esta intensificação pode resultar numa preocupação constante com o julgamento dos outros, levando a pensamentos catastróficos sobre o que pode acontecer durante as interações sociais.

Outro sinal significativo é o comportamento de evitamento. As pessoas que começam a evitar eventos sociais, como festas, reuniões ou simples encontros com amigos e familiares, estão em risco de desenvolver ansiedade social. Este comportamento de evitamento manifesta-se de formas muito óbvias, como recusar convites ou arranjar desculpas para não participar em situações que antes até poderiam ter sido experimentadas como agradáveis. Com o passar do tempo, este isolamento social pode intensificar-se, criando um círculo vicioso em que o medo de enfrentar situações sociais aumenta precisamente por causa do evitamento.

É importante considerar a mudança nas interações sociais quotidianas. Os sinais de alerta podem incluir o aumento da timidez ou da insegurança em situações que exijam interação, como falar com colegas ou participar em discussões de grupo. Os indivíduos podem começar a sentir-se sobrecarregados por situações com as quais anteriormente lidavam sem dificuldade. Este sentimento de vulnerabilidade pode ser acompanhado por sintomas físicos, como palpitações, suores ou náuseas, que ocorrem em resposta à ansiedade antecipatória.

Um aspeto que não deve ser subestimado é a história pessoal. Experiências passadas de humilhação ou rejeição social podem ser sinais de risco significativos. Se um indivíduo foi vítima de bullyingou passou por situações em que foi duramente criticado, pode desenvolver uma maior sensibilidade ao julgamento e à avaliação

dos outros. Este histórico de experiências negativas pode influenciar profundamente a sua autoperceção e a forma de lidar com situações sociais futuras.

Por último, a presença de fatores de stress ambientais aumenta o risco de desenvolver ansiedade social. As pressões escolares, as dinâmicas familiares complexas ou as situações de vida stressantes podem funcionar como catalisadores. Os indivíduos que enfrentam níveis elevados de stress são mais propensos a desenvolver ansiedade, especialmente em contextos em que se sentem expostos ao julgamento dos outros. 2.4

PRINCIPAIS MITOS E FALSAS CRENÇAS

SOBRE A ANSIEDADE SOCIAL

A ansiedade social é apenas timidez. FALSO

A ansiedade social é uma perturbação mental reconhecida que vai para além da timidez. Enquanto uma pessoa tímida pode sentir-se desconfortável em determinadas situações, as pessoas que sofrem de ansiedade social sentem um medo intenso, evitam os outros e sentem um desconforto significativo que interfere na vida quotidiana.

As pessoas com ansiedade social não querem interagir com os outros. FALSO

As pessoas com ansiedade social desejam frequentemente ter relações e contactos, mas o medo de serem julgadas, de cometerem erros ou parecerem inadequadas pode bloqueá-las.

O simples facto de sair da sua zona de conforto é suficiente para ultrapassar a ansiedade social. FALSO

Embora confrontar gradualmente os seus medos possa ajudar (terapia expositiva), a ansiedade social não pode ser ultrapassada simplesmente «forçando-se» a sair. É necessária uma abordagem estruturada, muitas vezes com a ajuda de um profissional, para gerir os sintomas e trabalhar as causas subjacentes.

As pessoas que sofrem de ansiedade social são demasiado sensíveis. FALSO

A ansiedade social não é um sinal de fraqueza ou hipersensibilidade, mas uma condição complexa que envolve fatores genéticos, biológicos e ambientais.

Se ele não parece nervoso, não tem ansiedade social. FALSO

Nem todas as pessoas com ansiedade social mostram sinais óbvios de angústia. Muitas conseguem disfarçar os seus sintomas, mas isso não significa que não estejam a debater-se internamente.

É apenas uma fase, passará com o tempo. FALSO

A ansiedade social tende a persistir se não for tratada. A intervenção precoce com terapias adequadas aumenta as hipóteses de a ultrapassar.

2.5

COMO ACOMPANHAR A ANSIEDADE SOCIAL NO CAMPO EDUCATIVO

Uma abordagem sistemática, empática e personalizada

Para apoiar os jovens que sofrem de perturbação de ansiedade social, os educadores devem desenvolver uma abordagem sistemática, empática e personalizada, baseada em intervenções destinadas a reduzir a ansiedade, a promover a autoeficácia social e a melhorar as competências interpessoais.

Qualquer intervenção educativa deve ter em conta tanto o nível individual como o nível grupal, a fim de criar um ambiente de apoio que facilite a expressão das emoções e a interação social.

Técnicas para trabalhar a ansiedade social em contexto educativo

Aqui estão alguns exemplos práticos de ações educativas específicas para ajudar os jovens com perturbação de ansiedade social. Estes incluem exercícios práticos, perguntas para utilizar num grupo de discussão e atividades de grupo destinadas a desenvolver competências sociais e a melhorar a gestão da ansiedade.

Exercícios de autoconsciência e reflexão

Diário de emoções. Peça aos jovens para manterem um diário de emoções, registando os momentos do dia em que se sentiram socialmente desconfortáveis. Devem identificar a situação, o nível de ansiedade sentido e os pensamentos associados. Isto ajuda-os a tomar consciência das situações que desencadeiam a ansiedade e dos pensamentos que a acompanham.

Autoavaliação das competências sociais. Utilizar uma lista de perguntas de autoavaliação para refletir sobre a forma como veem as suas competências sociais. Alguns exemplos de perguntas são:

• «Em que situações me sinto mais desconfortável?»,

• «Que pensamentos me vêm à cabeça antes de uma interação social?»,

• «Que competências sociais gostaria de melhorar?»

Este exercício ajuda a identificar áreas específicas de trabalho.

Exercício de pensamentos alternativos. Depois de identificar um pensamento negativo, por exemplo, «Todos pensam que vou dizer algo errado», pedir aos jovens que escrevam pensamentos alternativos mais positivos ou neutros «Não posso saber o que os outros pensam», «Posso estar errado, mas isso pode acontecer a qualquer pessoa». Este exercício promove uma visão mais realista e flexível das interações sociais.

Perguntas para um grupo de reflexão – Focus Group

Exploração das dificuldades sociais. «Quais são as situações sociais que te deixam mais ansioso? Como te sentes quando estás nessas situações?» e «Que estratégias utilizaste para lidar com essas situações? Foram eficazes?»

Pensamentos e emoções nas interações. «Quando estamos num grupo de pessoas, o que pensamos sobre nós mesmos? E o que imaginamos que os outros pensam?» Esta pergunta incentiva a partilha de pensamentos negativos ou de medos comuns, facilitando aos jovens a perceção de que não estão sozinhos nos seus medos.

Partilhar os sucessos. «Houve momentos em que tu conseguiste gerir bem a tua ansiedade social? Como é que o fizeste? O que te ajudou?» A partilha de sucessos pessoais pode ser muito motivadora e oferecer ideias sobre estratégias úteis.

Objetivos de melhoria. «Que competências tu gostarias de melhorar nas tuas interações sociais? O que achas que te ajudaria a sentires-te mais confiante?» Esta pergunta ajuda os adolescentes e os jovens a identificar os seus objetivos e a ver o caminho para a melhoria como possível.

Atividades de interpretação de papéis (role-playing) e de simulação

Dramatização de situações do quotidiano. Proponha situações específicas aos jovens (pedir informações a um professor, falar com um novo colega de turma, apresentar um projeto) e peça-lhes que representem em pares ou pequenos grupos.

Após a atividade, discuta como se sentiram e o que foi mais difícil, dando feedback positivo sobre cada interação.

Jogos de improvisação. Atividades como improvisar uma conversa sobre um tema aleatório podem reduzir a ansiedade social, ajudando os jovens a experimentar situações inesperadas num ambiente controlado. Depois de cada etapa, discuta a experiência e reforce as suas capacidades de adaptação.

Simulação de situações geradoras de ansiedade. Preparar uma situação geradora de ansiedade, como falar em público, de forma progressiva. Por exemplo, os jovens podem começar por falar em frente de uma pessoa e ir aumentando gradualmente o número de pessoas até falarem em frente de todo o grupo. Sempre que completarem com sucesso uma etapa, recebam feedback positivo e discutam os seus progressos.

Exercícios de atenção plena e relaxamento

Respiração diafragmática. Antes de cada reunião de grupo, dedicar cinco minutos à respiração diafragmática. Ensinar aos participantes a inspirar lentamente, contando até quatro, a segurar a respiração durante dois segundos e depois a expirar lentamente, contando até quatro. Este exercício ajuda a relaxar e a reduzir os níveis de ansiedade.

Técnica de «body scan». Conduzir os jovens, num exercício de exame corporal, pedindo-lhes que se concentrem em cada parte do corpo e que relaxem gradualmente. Este exercício pode ser utilizado antes de uma situação que provoque ansiedade ou durante momentos de tensão.

Visualização positiva. Propor uma visualização de uma situação social ideal e serena, orientando os jovens para imaginarem um cenário em que se sintam seguros e bem-vindos. Incentivá-los a recordar esta imagem mental em momentos de ansiedade.

Atividades de grupo para reforçar as competências sociais

Colaborar num projeto criativo. Dividir o grupo em pequenas equipas e propor um projeto comum, como a criação de um mural ou colagem sobre um tema escolhido em conjunto. A colaboração num projeto ajuda a desenvolver a confiança e a comunicação, permitindo que os jovens trabalhem as competências sociais num ambiente informal.

Jogos de confiança. Atividades como o «círculo de confiança» ou o jogo da «caça ao tesouro», em que devem trabalhar em conjunto para atingir um objetivo, ajudam os jovens a ultrapassarem o medo do julgamento e a desenvolverem um sentimento de pertença ao grupo.

Debates estruturados sobre temas de interesse. Organizar debates em grupo sobre temas relevantes (música, redes sociais, desporto). Todos têm um tempo definido para falar sem serem interrompidos, de modo a incentivar a participação sem se sentirem pressionados. Depois de cada intervenção, os outros podem fazer perguntas ou expressar opiniões, tornando o debate numa oportunidade para uma discussão construtiva.

Para manter a eficácia das intervenções e personalizar as ações educativas, é importante recorrer a ferramentas e materiais educativos específicos, tais como:

Livros e recursos de autoajuda. Textos como MindOverMood(AMenteVencendo oHumorSão Paulo-SP: Editora Artmed) de Dennis Greenberger e Christine A. Padesky ou How to Overcome Social Anxiety, de Dayhoff Signe, podem ser utilizados como referência tanto por educadores como por jovens, fornecendo técnicas de gestão da ansiedade para serem praticadas de forma autónoma.

Aplicações de meditação e de atenção plena. Aplicações como o Headspace ou oInsightTimer contêm programas de meditação específicos para jovens com ansiedade social e são fáceis de integrar nas rotinas diárias.

Materiais visuais e cartazes. Utilizar cartazes e infografias que ilustrem técnicas de respiração ou dicas para acalmar a ansiedade. Estes podem ser colocados na sala de aula ou em áreas comuns como um lembrete visual para os jovens. Alguns filmes sugeridos são:

• «Divertida-Mente 2» (2024): Um filme de animação que explora a gestão das emoções e as dificuldades sociais de uma forma acessível; útil para estimular conversas entre os jovens sobre ansiedade e emoções.

• «Encantador» (2017): A história de um jovem com uma doença rara que tenta integrar-se num ambiente escolar normal; aborda delicadamente questões de ansiedade, aceitação e bullying.

• «Someday This Pain Will Be Useful to You» (2011): Um filme que acompanha um adolescente com dificuldades de relacionamento, mostrando o caminho para dominar a ansiedade e a alienação social.

Vídeos educativos e testemunhos. Os vídeos que contam experiências de jovens que conseguiram lidar com sucesso com a sua ansiedade social podem ser utilizados para criar debates e momentos de reflexão.

Testemunhos de grupo. Promover encontros com psicólogos ou terapeutas experientes, ou com pessoas que tenham dominado a ansiedade social, para dar aos jovens exemplos positivos e concretos.

Teatro

Pode ser usado teatro como ferramenta para a exploração pessoal, relacional e emocional. No caso da ansiedade social, pode ser particularmente útil, uma vez que proporciona um ambiente protegido e estruturado para experimentar formas de relacionamento, gerir emoções e ultrapassar medos relacionados com o julgamento dos outros. Eis alguns benefícios específicos:

• Expressão criativa. A declamação ajuda a explorar aspetos do eu que podem estar reprimidos, melhorando a autoimagem e promovendo um sentido de autoeficácia.

• Ultrapassar o medo do julgamento. Trabalhar em equipa, recebendo feedback positivo e construtivo, ajuda a reduzir o medo de ser avaliado negativamente.

• Melhoria da linguagem verbal e não verbal. Os exercícios de teatro centram-se na utilização da voz, do corpo e das expressões, que são cruciais para se comunicar eficazmente com os outros.

• Colaboração em grupo. As atividades teatrais são frequentemente coletivas, incentivando o trabalho em equipa e a construção de relações positivas.

• Experimentação de papéis diferentes. Interpretar personagens com características diferentes permite sair dos próprios padrões habituais e explorar novas formas de relacionamento.

• Regulação emocional. O ato de desempenhar um papel permite distanciar-se das próprias emoções, facilitando uma maior consciência e controlo.

• Lidar com a exposição. Gradualmente, os participantes podem adquirir a força necessária para se exporem fora do teatro.

Capítulo 3

3.2

3.3

3.4

Capítulo

4

PERTURBAÇÕES DE SINTOMAS SOMÁTICOS

4.1

4.4

4.5

Capítulo 5

PERTURBAÇÕES DO COMPORTAMENTO ALIMENTAR

5.1

5.2

5.4

5.5

Capítulo 6

DEPENDÊNCIAS COMPORTAMENTAIS

6.1

6.4

6.5

Capítulo 7

PSICOSE

7.1

7.3

7.4 Principais mitos e falsas crenças sobre a psicose

7.5 Como acompanhar a psicose no campo educativo

intervenção educativa eficaz: empatia, escuta ativa e apoio

Capítulo 8

AUTOMUTILAÇÃO

8.1 Como

8.2 Tipos

8.3

8.4 Principais mitos e falsas crenças sobre

8.5

Capítulo 9

SUICÍDIO

9.1

9.4

9.5

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