foi um dos mais notáveis arquitetos portugueses do século XX e uma personalidade maior da vida cívica e cultural da nossa cidade. A sua vasta obra, marcada pela excelência técnica, pela sensibilidade social e por um profundo compromisso com os valores da democracia, deixou uma marca indelével em Lisboa e em Portugal. Hoje, ao consagrar o seu nome na toponímia da capital, a Câmara Municipal de Lisboa presta uma justa homenagem a um percurso único, que aliou o talento artístico ao compromisso social.
Formado em Arquitetura pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa em 1949, Nuno Teotónio Pereira destacou-se, desde o início da sua carreira, como defensor de uma arquitetura moderna, funcional e humanista. Ao longo da sua atividade, defendeu sempre uma prática arquitetónica centrada nas pessoas, no espaço público e no papel transformador da arquitetura na vida urbana. Este compromisso ético atravessou toda a sua obra e guiou o seu pensamento crítico e interventivo ao longo de décadas.
Em Lisboa, a sua assinatura está presente em algumas das realizações mais emblemáticas do modernismo português, como o Bloco Habitacional das Águas Livres (1953–1955), o Edifício Franjinhas (1966–1969) ou a Igreja do Sagrado Coração de Jesus (1961–1970), esta última considerada um marco da renovação da arquitetura religiosa em Portugal. Estas obras re etem não apenas inovação estética, mas também um profundo respeito pelo contexto urbano e pelas necessidades humanas.
Para além da prática pro ssional, Nuno Teotónio Pereira foi um pensador comprometido com o futuro do País e da sua cidade. Re etiu sobre a habitação social, a reabilitação urbana e o papel
cívico da arquitetura, tendo participado em colóquios, conferências e publicações que ajudaram a rede nir a missão social dos arquitetos. A sua intervenção pública, corajosa e lúcida, estendeu-se também à oposição política ao regime ditatorial. Foi preso pela PIDE por defender abertamente os valores da liberdade, da justiça e dos direitos humanos. A sua ação nos movimentos sociais contribuiu para o despertar de uma nova consciência cívica e democrática no Portugal do século XX.
O seu percurso foi reconhecido em vida com várias distinções de prestígio, incluindo quatro Prémios Valmor, o Prémio Árvore da Vida (2012), a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (1995), o Doutoramento Honoris Causa pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (2003), bem como pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa (2005). Em 2010, a Câmara Municipal de Lisboa atribuiu-lhe a Medalha Municipal de Mérito – Grau Ouro, símbolo do reconhecimento profundo da cidade que o viu nascer e à qual tanto deu.
Lisboa deve a Nuno Teotónio Pereira não apenas edifícios de rara beleza e qualidade técnica, mas sobretudo um exemplo de integridade, compromisso cívico e dedicação ao bem comum. Ao dar o seu nome a uma rua da cidade, perpetuamos a memória de um arquiteto brilhante e de um cidadão exemplar. Que o seu legado continue a inspirar gerações futuras a construir com ética, a projetar com consciência social e a viver a cidadania com coragem.
Carlos Moedas Presidente da Câmara Municipal de Lisboa 2026
Olhar para trás e tentar fazer um balanço do que foi mais de meio século de labor pro ssional não é tarefa fácil nem isenta de riscos. Recordam-se momentos empolgantes de actividade criativa, mas também frustrações por não ter sido capaz de fazer melhor; as longas horas solitárias no atelier e também o intenso diálogo a duas, três ou mais vozes, a discutir soluções à volta do estirador; a emoção de trepar pelos andaimes e ver as obras a crescer, mas também o sabor amargo de muitos projectos trabalhados com ardor condenados às prateleiras mortas do arquivo; a necessidade de cumprir os prazos com noitadas no atelier e a sede de sair para a estrada, subir aos montes e falar com a gente das aldeias. En m, sentimentos contraditórios de boas e más recordações – assim na pro ssão como na vida.
(Pereira, 2004, p. 43)
Uma aproximação ao arquiteto Nuno Teotónio Pereira terá sempre de ter presente o pro ssional e o cidadão, e a sua capacidade de atuar em ambos os domínios com igual generosidade e dedicação. Perdura, assim, um importante legado ético, estético e cultural que deve ser revisitado nos edifícios que projetou, nos seus escritos e nas associações que impulsionou ou em que participou.
as ORIGENS e a FORMAÇÃO
◊ Pais de Nuno Teotónio Pereira, Alice de Azevedo Gomes de Bettencourt Teotónio Pereira e Luís Teotónio Pereira, s/ data. Arquivo Pessoal NTP.
◊ Nuno Teotónio Pereira (em cima, primeiro à esquerda) com a mãe e os seus cinco irmãos: Maria Alice, Maria Teresa, Luís, João e Alberto, 1929-31. Arquivo Pessoal NTP.
Nascido em 1922, Nuno Teotónio Pereira é o segundo de seis lhos de uma “família burguesa lisboeta, com protagonismo nas áreas nanceira, comercial e política”1. Inicia a escolaridade em Lisboa mas, após a revolta contra a ditadura militar de 1927, como a família passava bastante tempo em Almada, na quinta do seu avô João, foi contratada uma professora2, pelo que, em 1932, faz o exame da então 4.ª classe na escola Conde de Ferreira (Almada). Frequenta depois, até ao 5.º ano, o Liceu Pedro Nunes (1932-1937).
◊ Desenho de Nuno Teotónio Pereira com 5 anos, 1927. Arquivo Pessoal NTP.
1 nunoteotoniopereira.pt/biogra a/pessoal-nascimento/
2 nunoteotoniopereira.pt/autobiogra co/memorias-inacabadas-4 -das-multiplas-discencias-as-docencias-so-honorarias/
◊ Nuno Teotónio Pereira com 15 anos, 1937. Arquivo Pessoal NTP.
◊ Cartão da Associação Académica da Escola de Belas Artes de Lisboa. Sócio n.º10, curso de Arquitetura, 1940. Arquivo Pessoal NTP.

Após realizar um estágio com o escultor Leopoldo de Almeida, é admitido, em 1938, no Curso de Arquitetura na Escola de Belas Artes de Lisboa, que termina em 1949. Entretanto, trabalha no atelier do arquiteto Carlos Ramos, em Lisboa, entre 1940 e 1943. Durante estes anos, em 1942, frequenta como aluno externo o 1.º Curso de Arquitetura Paisagista realizado em Portugal, lecionado pelo professor Francisco Caldeira Cabral, onde é colega, entre outros, de Gonçalo Ribeiro Telles. Em 1943, cumpre parte do serviço militar na Póvoa de Varzim, e assiste ao curso livre em horário pós-laboral, promovido pelo professor Orlando Ribeiro no Centro de Estudos Geográ cos da Universidade de Lisboa. Muitos anos depois, Teotónio Pereira referiria que “Na transição dos nais do curso para o simultâneo início da prática projectual, foram da máxima importância as incursões transdisciplinares” (Pereira, 2004, p. 43), o que a sua vasta obra evidencia.


◊ Nuno Teotónio Pereira ( la do meio, segundo à esquerda) com colegas na EBAL, 1941. Arquivo Pessoal NTP.
Em 1946, com Manuel Costa Martins, frequenta o 6.º ano de Arquitetura na Escola de Belas Artes do Porto3. No mesmo ano, é admitido como tirocinante na Câmara Municipal de Lisboa e colabora,
3 A sua ida para o Porto foi “por causa de um chumbo que nos foi dado na cadeira de História, mas por mando do director, e do qual recorremos sem sucesso. Fizemos um ano ali e regressei a Lisboa para terminar o curso, apresentando como prova nal o projecto do complexo de captação de águas de Valada do Ribatejo, que me valeu 18 valores”. Idem
◊ Cartão de sócio de Nuno Teotónio Pereira, Associação Naval de Lisboa, 1944. Arquivo Pessoal NTP.
◊ Fotogra a do seu espaço de trabalho, 1943. Arquivo Pessoal NTP.
entre 1947 e 1948, com o arquiteto Miguel Jacobetty na construção do Bairro de Alvalade4. Quando termina o estágio, é admitido como arquiteto na Federação de Caixas de Previdência – Habitações Económicas, aí permanecendo até 1960. Também em 1948, assiste, ainda como estudante, ao I Congresso Nacional de Arquitetura promovido pelo Sindicato Nacional dos Arquitetos, no qual, com Costa Martins, apresenta a comunicação “Habitações económicas e reajustamento social”.
É na década de 1940 que o jovem Teotónio Pereira publica os seus primeiros textos, na Técnica: Revista de Engenharia dos Alunos do IST, versando assuntos de engenharia, relacionados com estética e arquitetura5. Em 1944, na mesma revista, serão divulgados os enunciados fundamentais da “Carta de Atenas”6, na sua primeira tradução portuguesa realizada por Teotónio Pereira e Costa Martins.
4 “Terminada em 1948 a fase académica do curso (ainda antes da apresentação da tese nal), depararam-se-me duas hipóteses de trabalho como arquitecto estagiário: ou no antigo SNI, no sector turismo e instalações hoteleiras, ou na Câmara de Lisboa, no acompanhamento da construção do bairro de Alvalade, com projectos de Miguel Jacobetty e Plano de Faria da Costa. Escolhi sem hesitação esta última alternativa, visto que sentia um grande apelo pela habitação social”. nunoteotoniopereira.pt/autobiogra co/um-percurso-na-pro ssao/
5 Ver Bibliogra a – Nuno Teotónio Pereira (nunoteotoniopereira.pt), p. 1.
6 Redigida pelo arquiteto e urbanista Le Corbusier, a “Carta de Atenas” é o manifesto nal do IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM), que ocorreu em Atenas, em 1933. O início da sua publicação integral data de 1948 na II série revista Arquitectura, então dirigida por F. Keil do Amaral.
A formação católica fortaleceu a sua consciência humanista, manifestando-se na arquitetura e nos seus escritos, bem como na atividade cultural e política que desenvolve ao longo de toda a sua vida. Nos anos de 1950, vai-se distanciando do ideário proclamado pelo Estado Novo alinhando no grupo crescente dos denominados “católicos progressistas”, que contestavam a ditadura e, mais tarde, a guerra colonial e a colaboração da hierarquia da Igreja católica com o regime.
Entre muitas outras atividades, Teotónio Pereira é um dos fundadores e primeiro presidente do Movimento de Renovação da Arte Religiosa (1952)7, apoia a campanha do general Humberto Delgado à presidência da República (1958) e subscreve manifestos católicos contra a ditadura, é o sócio n.º 2 e segundo presidente da Cooperativa Cultural Pragma (1964), fundada por um grupo de católicos8. Ativista na luta contra a guerra colonial, participa na vigília da Capela do Rato (30 de dezembro de 1972) que foi cercada e invadida pela polícia. Entre os perto de uma centena de detidos encontrava-se Teotónio Pereira, que seria preso pela quarta vez em novembro de 1973, permanecendo na prisão do Forte de Caxias até 27 de abril de 1974.
◊ Fotogra as de identi cação de prisioneiro, PIDE, novembro de 1973. Arquivo Pessoal NTP.
7 Pertenciam ao MRAR, entre outros, os artistas visuais José Escada, Jorge Vieira, Manuel Cargaleiro e Eduardo Nery, e os arquitetos Nuno Portas, Diogo Lino Pimentel e Sebastião Formosinho Sanchez.
8 Ver https://nunoteotoniopereira.pt/associativismo/cooperativa-pragma/
o CIDADÃO e o ARQUITETO
Enquanto cidadão e arquiteto, desempenha um papel relevante no domínio do associativismo nas mais diversas áreas, desde as políticas às humanitárias9. Esta atividade é particularmente signi cativa no que respeita à participação continuada nos organismos pro ssionais, onde se inscreve em 1949 – ano em que projeta a Igreja das Águas, no concelho de Penamacor10 –, no então Sindicato Nacional dos Arquitectos. Em 1956, Teotónio Pereira é um dos participantes no Inquérito à Arquitetura Regional Portuguesa, iniciativa impulsionada por Francisco Keil do Amaral e promovida pelo Sindicato, sendo o responsável pela equipa da Estremadura11. Ao longo de cerca de seis décadas, exercendo diversos cargos diretivos, participando e dinamizando grupos de trabalho internos, no Sindicato, na Associação dos Arquitectos Portugueses (a partir de 1978) e, depois, na Ordem dos Arquitetos (a partir de 1998), foi porta-voz das reivindicações e decisões tomadas em defesa do exercício da pro ssão e do direito à Arquitetura. Participa, também com regularidade, em organismos internacionais, tendo presença assídua em encontros no país e no estrangeiro.

O seu primeiro atelier, na rua Rodrigo da Fonseca, constituído em sociedade com os arquitetos Raul Chorão Ramalho, Alzina de Menezes e Manuel Tainha e os engenheiros Ernesto Borges e José de Lucena, em 1957, passa para a rua da Alegria, n.º 15. Em 1963, já com a entrada do arquiteto Nuno Portas como colaborador, o atelier muda para o n.º 25 da mesma rua, sendo desde então e para sempre, o seu
9 Ver https://nunoteotoniopereira.pt/associativismo/
10 Considerada a “Primeira igreja moderna construída após a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, de Pardal Monteiro, em Lisboa (…)”, Tostões (2004), p. 136.
11 Para Teotónio Pereira o trabalho de campo “foi realizado no último momento possível para registar em toda a sua plenitude um mundo prestes a desaparecer”. Esta pesquisa dos arquitetos portugueses correspondia à “necessidade de procurar raízes na arquitetura mais vernácula”, traduzindo “a consciência de uma classe pro ssional que estava a emergir através de um assumir das suas responsabilidades culturais”, sendo neste aspeto que “radica o pioneirismo da iniciativa”, O Portugal desaparecido. Público, 20 dez. 1994.
◊ Atelier da Rua da Alegria, ao fundo Nuno Teotónio Pereira e Bartolomeu da Costa Cabral, e na frente José Maia Santos e António Pinto de Freitas, s/ data. Tostões, A. (Coord.). (2004), p. 45.
atelier. Aí trabalharam, para além de Teotónio Pereira, os arquitetos Bartolomeu Costa Cabral e Nuno Portas, que após o 25 de abril de 1974 irá integrar o governo provisório e, também, Pedro Botelho que permanecerá até ao seu encerramento. O atelier da rua da Alegria foi, e ainda o é, uma referência na cidade, da arquitetura e dos arquitetos. Lugar privilegiado de debate e aprendizagem transdisciplinar, por ele passaram inúmeros jovens recém-licenciados que aí iniciaram o seu percurso pro ssional12 .
◊ Bloco das Águas Livres, 1953. Estúdio Mário Novais. Biblioteca de Arte Fundação Calouste Gulbenkian.
[2.º Prémio Nacional de Arquitetura em 1961, na II Exposição de Artes Plásticas, Fundação Calouste Gulbenkian].
A sua extensa e inovadora obra, desenvolvida ao longo de cerca de seis décadas, foi marcando o país com a construção dos edifícios que projetou, com as intervenções que realizou no património construído, com os planos de urbanização que concebeu13 .
12 Ver nunoteotoniopereira.pt/autobiogra co/um-percurso-na-pro ssao/
13 Para uma visão completa da obra do arquiteto, ver o catálogo da exposição Arquitectura e cidadania: Atelier Nuno Teotónio Pereira, realizada em 2004 no CCB, comissariada por Ana Tostões e João Afonso.
◊ Entrega do prémio Valmor de 1967 a Nuno Teotónio Pereira, Armando Maia Serôdio, 1968, AML.

Lisboa tem o privilégio de acolher a maioria dos seus projetos, nomeadamente a intervenção que Teotónio Pereira, com participação de Irene Buarque, realizou na galeria do 3.º piso do edifício dos Paços do Concelho (1997-2000), após o incêndio de 7 de novembro de 1996. Muitos outros, com diferentes programas e localizados em várias zonas da cidade, foram premiados. Assim, após a atribuição do 2.º Prémio Nacional de Arquitetura ao bloco habitacional das Águas Livres, em 1961, na II Exposição de Artes Plásticas promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian, atualmente classi cado como Monumento de Interesse Público14, o edifício de habitação nos Olivais Norte, é distinguido com o Prémio Valmor de 1967, a primeira premiação conferida a um edifício de habitação social; o mesmo prémio é concedido, em 1971, ao edifício “Franjinhas”, classi cado como Monumento de Interesse Público15 e, em 1975, à Igreja do Sagrado Coração de Jesus, classi cada como Monumento Nacional16. Em 2008, é atribuído o Prémio Valmor e Prémio Municipal de Arquitetura à estação de metropolitano do Cais do Sodré, recebendo a Urbanização do Restelo as menções honrosas do mesmo prémio em 1987 e 1988. O edifício do antigo Café Lisboa seria reconhecido com o Prémio Municipal Eugénio dos Santos, em 1995, e a recuperação e ampliação do Teatro Taborda recebeu a menção honrosa do mesmo em 1997.


14 Portaria n.º 370/2012, Diário da República, 2.ª série, n.º 156, 13 ago. 2012.
15 Portaria n.º 587/2011, Diário da República, 2.ª série, n.º 118, 21 jun. 2011.
16 Decreto n.º 18/2010, Diário da República, 1.ª série, n.º 250, 28 dez. 2010.
◊ Prémio Valmor de 1967 [edifício de habitação social nos Olivais Norte] , Armando Maia Serôdio, 1968, AML.
◊ Estação de metropolitano do Cais do Sodré, Lisboa. Edwin Verhulst, 2019.
◊ Desenhos da Estação de metropolitano do Cais do Sodré.




No domínio do planeamento e urbanismo, concebe os primeiros planos nos anos de 1950 (Crato, 1955; Fronteira, 1958; Baía dos Tigres, Angola, 1958-1959). Nos anos de 1970, realiza o Plano de Urbanização do Restelo (1970-1972), encomenda da Câmara Municipal de Lisboa, e o Plano Geral de Urbanização de Castelo de Vide (1978-1982). No âmbito do Programa SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local), realiza com Pedro Botelho o Levantamento das Operações Prioritárias nos Concelhos Limítrofes da Grande Lisboa (1974). Nos anos de 1990, efetua o estudo de recuperação e revitalização do Palácio Nacional de Mafra (1994-1998), e o Plano de Pormenor da Zona de Sacavém (PP5), Parque das Nações (1999). O Programa POLIS da Covilhã (2000-2004), no âmbito do qual são desenvolvidas as propostas do Planos de Pormenor da Carpinteira e da Goldra e, posteriormente, o Plano de Mobilidade Pedonal da Covilhã (2003-2004) e o Reordenamento da Zona Marginal do Cais do Sodré (estudo prévio: 2000; projeto: 2004; obra: 2003-), ambos parcialmente executados, constituem os seus últimos trabalhos.
◊ Edifício candidato ao Prémio Valmor e Municipal de Arquitetura 1988, vista geral. Pedro Boffa Molinar, 1988, AML.
◊ Evolução das formas de habitação plurifamiliar na cidade de Lisboa, estudo reeditado pela Câmara Municipal de Lisboa em 2017. Foi publicado pela primeira vez pelos Livros Horizonte, em 1995, com o título Prédios e vilas de Lisboa17 . José Vicente, 2017, CML.
“O gosto por conhecer a cidade [de Lisboa], herdei-o de meu pai”18, refere Teotónio Pereira, paixão que manifestou no modo como nela interveio e nas inúmeras propostas e textos que produziu que a tiveram como tema central, re etindo um olhar atento enquanto cidadão e arquiteto. As suas observações, muitas vezes críticas, mas sempre construtivas, incidiram sobretudo em assuntos como a habitação ou a modernização da capital, passando pelo planeamento e a reabilitação urbana, bem como a proteção e valorização do património19 .
Referência incontornável quer como cidadão, quer como arquiteto, um dos nomes maiores da Arquitetura portuguesa do século XX, Nuno Teotónio Pereira foi alvo de várias homenagens e evocações que sublinharam a sua atividade cívica ou pro ssional,
◊ Nuno Teotónio Pereira, 1999. Arquivo Pessoal NTP.
17 Este estudo, que decorreu entre 1977 e 1978, foi apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e realizado com a colaboração de Irene Buarque. Em 2013, todo o material relativo a este trabalho foi doado pelos autores à Câmara Municipal de Lisboa.
18 nunoteotoniopereira.pt/autobiogra co/memorias-inacabadas-8-a-paixao-por-lisboa-pela-cidade-pelo-territorio/
19 Parte destas re exões foram compiladas no livro Temas e polémicas (1964-2007), editado pela CML em 2011.
◊ Mural homenagem a Nuno Teotónio Pereira em Alvalade, da autoria de João Samina, 2017. Junta de Freguesia de Alvalade.
algumas das quais a título póstumo20. Outras tantas, em vida21, reconheceram-lhe, na primeira pessoa, o empenho, a dedicação e a qualidade do seu trabalho, a marca indelével de um homem discreto, que nunca perdeu a esperança no futuro, um cidadão interventivo que sempre comunicou através da sua solidária e generosa mão de arquiteto.
20 Re ra-se, entre outras, a homenagem organizada pela CML, através de um mural evocativo junto ao Mercado de Alvalade, da autoria do artista urbano João Samina (2017), e a realização de múltiplos eventos, ao longo de 2022 (ciclo de conversas, debates, exposições, itinerários em Lisboa, concertos, etc.), que assinalaram, não só na capital, o centenário do nascimento do arquiteto Nuno Teotónio Pereira. Ver nunoteotoniopereira.pt/premio-nuno-teotonio-pereira-2/
21 A título de exemplo, re ra-se: atribuição da Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (1995) e da Ordem do Infante D. Henrique (2004), Doutoramento Honoris Causa pelas Faculdades de Arquitetura do Porto (2003) e de Lisboa (2005), Medalha Municipal de Mérito, Grau Ouro (CML, 2010), e ainda a homenagem pelos 60 anos de carreira promovida pela Ordem dos Arquitetos (2010). Em 2012 é distinguido com o Prémio “Árvore da Vida- Padre Manuel Antunes”, atribuído pela Pastoral da Cultura da Igreja Católica portuguesa e, em 2015 com o Prémio Carreira da Universidade de Lisboa.
◊ Nuno Teotónio Pereira no Atelier da Rua da Alegria, 2005. Arquivo Pessoal NTP.
Assim, considerando, entre outros aspetos, a “excelência do seu percurso pro ssional, (…), bem como o [seu] reconhecido legado” e o facto do arquiteto Nuno Teotónio Pereira constituir “uma referência incontornável no panorama arquitetónico português do século XX” e, salientando ainda, “a par da sua atividade pro ssional” o seu “papel determinante na defesa intransigente dos valores da Liberdade e da Democracia, antes e depois do 25 de Abril de 1974”, a Câmara Municipal de Lisboa deliberou a atribuição do topónimo “Nuno Teotónio Pereira” à “Rua C na Malha 34 do PUAL”.
A sua “paixão por Lisboa, pela cidade, pelo território”22, cará, a partir de agora, perene no tempo e no espaço da sua cidade.
22 nunoteotoniopereira.pt/autobiogra co/memorias-inacabadas-8-a-paixao-por-lisboa-pela-cidade-pelo-territorio/
BIBLIOGRAFIA
_Pereira, N. T. (1996). Escritos: 1947-1996: Selecção. FAUP Publicações.
_Pereira, N. T. (1996). Tempos, lugares, pessoas. Contemporânea Editora.
_Pereira, N. T. (2004). Um testemunho pessoal. In Arquitectura e cidadania: atelier Nuno Teotónio Pereira (pp. 43-49). Quimera Editores.
_Pereira, N. T. (2011). Lisboa: Temas e polémicas. Câmara Municipal de Lisboa.
_Pereira, N. T., & Buarque, I. (2017). Evolução das formas de habitação plurifamiliar na cidade de Lisboa. Câmara Municipal de Lisboa.
_Roseta, H. (2004). [Sem título]. In Arquitectura e cidadania: atelier Nuno Teotónio Pereira (pp. 9-10). Quimera Editores.
_Tostões, A. (Coord.). (2004). Arquitectura e cidadania: Atelier Nuno Teotónio Pereira. Quimera Editores.
_nunoteotoniopereira.pt
◊ Autorretrato, s/ data. Arquivo Pessoal NTP.
EDIÇÃO_ Câmara Municipal de Lisboa
PRESIDENTE _ Carlos Moedas
PRESIDENTE DA COMISSÃO MUNICIPAL DE TOPONÍMIA _
Diogo Moura
DIREÇÃO MUNICIPAL DE CULTURA_ Laurentina Pereira
DEPARTAMENTO DO PATRIMÓNIO CULTURAL_ Jorge Ramos de Carvalho