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Boletim Cultural dos Cemitérios de Lisboa n.º 7

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DEZEMBRO 2025 - NÚMERO 07

Cemitérios de Lisboa

BOLETIM CULTURAL DOS CEMITÉRIOS MUNICIPAIS DE LISBOA


DEZEMBRO 2025 - NÚMERO 07


DEZEMBRO 2025 - NÚMERO 07

ÍNDICE

Editorial....................................................................................................................... 03 Simbologia: Monte Gólgota.........................................................................................

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Monumentos Sepulchraes: Jazigo Castelo Melhor no Cemitério dos Prazeres................

09

Gestão Cemiterial em Díli, Timor-Leste........................................................................

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João Chagas: Centenário da Morte de um Pilar da República......................................

24

Ornitologia Cemiterial Alfacinha: Ecologia e Iconografia............................................. 32 Uma Coleção Osteológica Portuguesa no Canadá (Memorial Coemeteria Olisipponis Collection) e Projeto de Colaboração entre a CML e a Simon Fraser University (SFU)..

46

Pedras e Obras: Remodelação do Edifício da Sala da Espera do Cemitério do Alto de

58

São João.....................................................................................................................

50

Leituras Para a Vida Antes da Morte............................................................................ 54 Notícias: Janeiro a Dezembro 2025.............................................................................

58

Artista Convidado: Victor Henriques............................................................................

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Fotografia: Victor Henriques, 2025

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Depois de duas edições especiais dedicadas, respetivamente, à inauguração do Edifício Saudade e à comemoração do centenário do Crematório do Alto de São João, o Boletim Cultural dos Cemitérios Municipais de Lisboa retoma o seu formato habitual, reunindo um conjunto de contributos que refletem a diversidade temática que o caracteriza. A simbologia é abordada através da análise do monte Gólgota enquanto elemento recorrente na arte funerária dos cemitérios municipais. Em Monumentos Sepulchraes destaca-se o estudo do Jazigo Castelo Melhor, referência no Cemitério dos Prazeres, enquadrado do ponto de vista histórico, arquitetónico e artístico. A dimensão histórica é igualmente aprofundada na evocação de João Chagas, assinalando o centenário da sua morte e o seu percurso político e intelectual. Integra ainda esta edição a apresentação do trabalho desenvolvido em Díli, Timor-Leste, no âmbito da cooperação técnica na área da gestão cemiterial, um estudo dedicado à observação de aves nos cemitérios de Lisboa, contribuindo para o conhecimento da fauna urbana, bem como um artigo dedicado à coleção osteológica Coemeteria Olisipponis Collection, resultado de um projeto de colaboração entre a Câmara Municipal de Lisboa e a Simon Fraser University, no Canadá. Na rubrica Pedras e Obras destaca-se a recuperação da sala de espera do Cemitério do Alto de São João e, antes das habituais notícias, é inaugurado um novo espaço dedicado propostas de leitura. Este Boletim tem vindo a contar, de forma crescente, com a participação de autores externos à Divisão responsável pela sua edição, provenientes de diferentes áreas de conhecimento e contextos profissionais. Este contributo alargado tem permitido enriquecer os conteúdos publicados, diversificar abordagens e reforçar a qualidade e o alcance do trabalho desenvolvido, consolidando o Boletim como um espaço de partilha técnica e científica. Muito obrigada a todos! SARA GONÇALVES

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Cemitério do Alto de São João

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SIMBOLOGIA Monte Gólgota

Ema Câmara

A palavra Gólgota deriva do aramaico Gûlgutâ que significa Caveira. Por sua vez, em latim Caveira é Calvaria. Daí surge a designação de monte Gólgota ou monte do Calvário, dada ao local onde Cristo foi crucificado. O monte Gólgota que se situava nos arredores da antiga cidade de Jerusalém, era uma colina onde se crucificavam aqueles que eram considerados criminosos, segundo o costume imperial durante o domínio do romano até ao século II d. C. Não se sabe ao certo se o nome se deve ao facto de a colina ter a forma de uma caveira ou por aí se terem encontrado as caveiras dos defuntos crucificados. Os quatro santos evangelistas, São Marcos, São Mateus, São João e São Lucas, relatam nos seus evangelhos que Cristo foi levado para o lugar da Caveira ou Gólgota, onde se deu a sua crucificação. Constantino, o imperador romano que se converteu ao Cristianismo e propagou a fé cristã, mandou construir a Igreja do Santo Sepulcro no lugar que se considera ter sido o túmulo de Jesus, que terá sido descoberto, tal como a cruz por sua mãe Helena, no ano de 325 d.C. Actualmente, a igreja está dentro das muralhas da cidade de Jerusalém. No seu Gravura do Livro representando monte Gólgota interior há uma elevação rochosa com erca de 5de metros 5 metros alturad que, supostamente, será composta por rochas do antigo monte Gólgota ou monte Calvário. Os jazigos denominados como monte Gólgota simbolizam o local em que Jesus Cristo foi crucificado.

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Desenho do Processo do J.P. nº 1784 - Cemitério dos Prazeres

A representação do monte Gólgota que encontramos nos nossos cemitérios é habitualmente composta por uma rocha ou pedra esculpida, de forma a parecer uma rocha natural, encimada por uma cruz e entalhada em forma de dois troncos de árvore. Alguns destes túmulos têm placas com epitáfios, outros têm elementos decorativos com diversos simbolismos: crianças, anjos, caveiras, plantas, ampulhetas, etc. O monte Gólgota remete-nos para a tradição cristã e para a crença na ressurreição e na vida eterna e é por isso considerado um símbolo religioso e também de morte e imortalidade.

J.P. nº 1864 Cemitério dos Prazeres

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J.P. nº 1582 Cemitério dos Prazeres

J.P. nº1506 ..Cemitério dos Prazeres


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J.P. nº 1404 | Cemitério dos Prazeres

. Bibliografia

A Bíblia Sagrada, Lisboa, Editora Paulus, 11ª. Edição, 2024 ÁVILA, Pablo Martín, Símbolos religiosos, Didáctica Editora, 2013 CARTER, Joseph, Os Evangelhos Apócrifos, Editora Ísis, 2003 CHETWYND, Tom, Dicionário dos Mitos Sagrados, Lisboa, Planeta Editora, 2004. CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain, Dicionário dos Símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números, Lisboa, Teorema, 2010 Grande Enciclopédia Luso-Brasileira, Lisboa, Editorial Enciclopédia, 1945. WALKER, Bárbara G., Dicionário dos símbolos e objectos sagrados da mulher, Lisboa, Planeta Editora, 2002.

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Fotografia: Victor Henriques, 2025

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MONUMENTOS SEPULCHRAES Jazigo Castelo Melhor no Cemitério dos Prazeres JP 1544 | Rua 15

Filipe Pinheiro de Campos

Na alameda central do Cemitério dos Prazeres, não deixa de ser notada uma construção sob planta acastelada, de dimensões avultadas e proeminência no enquadramento geral. Trata-se do jazigo da casa Castelo Melhor – Condes e, mais tarde, Marqueses do mesmo título.

Jazigo Castelo Melhor (vista geral)

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Trata-se de um jazigo monumental de planta retangular, em forma de castelo com um torreão central cercado em todo o seu perímetro por muralha que isola o mesmo torreão, enquadrando um espaço como se de um fosso se tratasse, com ameias, algumas delas com óculo cego e outras com a Cruz de Cristo. O torreão central, terminado em pequeno frontão simples com acrotérios sem decoração, possui uma bela peça escultórica com a figuração das armas do titular do jazigo: escudo esquartelado: I, de Vasconcelos; II, contra-esquartelado, I e IV com três faixas veiradas, II e III com uma caderna de crescentes de prata (Sousa de Arronches); III, de Faro; IV, de Câmara e coroa de Marquês. Sob as armas inscrevese a legenda “MEMENTO HOMO QUIA PULVIS ES / ET IN PULVEREM REVERTERIS” (Lembra-te homem que és pó e ao pó voltarás).

Jazigo Castelo Melhor - Gárgula

Possui ainda algumas gárgulas grotescas, possivelmente figurando morcegos. A porta, em ferro forjado decorado com alguma profusão vegetalista, é enquadrada num arco de volta perfeita.

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Jazigo Castelo Melhor (pormenor do brasão de armas e das ameias)

A obra, como tantas outras obras de grande valor artístico no campo da arte cemiterial, teve origem nas oficinas do afamado canteiro António Moreira Rato (18181903). A sua primeira oficina teria sido localizada na Rua do Corpo Santo havendo, no entanto, referências a outras no Pátio das Duas Campainhas e na Travessa da Assunção, 105. Mais tarde, por volta de 1860. transfere-se para a Avenida 24 de julho, 298 a 304, de onde sairia a obra em análise. A sua obra foi particularmente reconhecida na Exposição de Paris de 1878 (medalha de bronze), 1879 (prata) e 1900 (ouro) tornando-se assim no canteiro de eleição da elite lisboeta e de muitos outros em diferentes pontos do país. Podemos considerar o monumento como um revivalismo histórico de um castelofortaleza, tão em voga na segunda metade do século XIX, muitas vezes em estilo neogótico ou neomanuelino, se bem que no caso não esteja particularmente presente. O jazigo tem origem na compra de uma parcela de terreno de 4 metros de frente por 5,35 metros de frente a fundo, pela quantia de 762$375 pelo 5.º Marquês de Castelo Melhor, João de Vasconcelos e Sousa Câmara Caminha Faro e Veiga (18411878) que o mandou edificar de acordo com o projeto que deu entrada na Câmara Municipal de Lisboa e veio a ser aprovado por despacho a 21 de fevereiro de 1866 1 .

Jazigo Castelo Melhor (Alçado principal)

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Sabemos que, a 23 de abril de 1867, o jazigo estaria já apto a utilizar, quando recebe os restos mortais de D. Francisca de Vasconcelos e Sousa e de D. Eugénia de Vasconcelos e Sousa falecidas anos antes. Na mesma data deram ainda entrada no jazigo três caixões e oito urnas de ossadas de diferentes pessoas da família Castelo Melhor, não identificados. A 16 de fevereiro de 1924 a propriedade do jazigo foi averbada em nome de D. Maria João Gonçalves Zarco da Câmara e D. José Maria Gonçalves Zarco da Câmara, seguindo depois as diferentes linhas sucessórias.

. Notas 1

AML, Proc. 8326, volume 1, Cemitério dos Prazeres, 1544

FILIPE PINHEIRO DE CAMPOS

Doutor em Saúde Pública e Medicina Preventiva. Genealogista e investigador nas áreas da Genealogia e História da Família, Arte Cemiterial, Saúde Pública e História da Arte. Professor e formador. Autor de diversas obras nas áreas de investigação enumeradas e colaborador em diferentes revistas nacionais e estrangeiras Voluntário da Câmara Municipal de Lisboa no projeto “Adote uma Rua no Cemitério” pinheirodecampos@gmail.com

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GESTÃO CEMITERIAL EM DÍLI, TIMOR-LESTE Sara Gonçalves

A presença portuguesa em Timor-Leste deixou marcas profundas no urbanismo e na estrutura social de Díli. No entanto, a gestão dos espaços cemiteriais permaneceu, até hoje, uma área de fragilidade e desafio, refletindo as tensões entre tradição e modernidade, entre a espiritualidade e a necessidade prática de um território em crescimento. Um dos eixos do trabalho desenvolvido no âmbito do Projeto de Parceria para o Reforço da Governação Urbana, Inclusão Social e Promoção do Empreendedorismo em Díli financiado pela União Europeia e co-financiado pelo Governo timorense, através da Autoridade Municipal de Díli (AMD), e implementado pelos parceiros UCCLA - União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, AMD e CML, foi a assistência técnica na vertente da gestão cemiterial, procurando apoiar as autoridades locais timorenses na criação de instrumentos de regulamentação, planeamento e valorização dos seus cemitérios.

Reunião de trabalho com equipa local

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O contexto cultural

Em Timor-Leste, o culto dos antepassados é uma das dimensões mais vivas da identidade coletiva. Mais de 96% da população declara-se católica, mas a prática religiosa é marcada por uma fusão entre a fé cristã e uma religião familiar tradicional, centrada nas Uma Lulik — as casas sagradas onde residem as divindades e os espíritos dos antepassados. A morte, nesta visão do mundo, não representa o fim, mas uma passagem. Os falecidos continuam presentes, influenciando a vida quotidiana e exigindo respeito através de rituais e oferendas. Esta conceção reflete-se na forma como os cemitérios são vividos. O Dia de Finados é um dos momentos mais marcantes do calendário: as famílias limpam e pintam as campas, enfeitam-nas com flores, luzes e alimentos, e passam o dia inteiro junto dos seus mortos. Os cemitérios transformam-se, então, em espaços de encontro, celebração e partilha — verdadeiras praças da memória.

Cemitério de Santa Cruz em Dia de Finados

Contudo, a mesma intensidade cultural trouxe desafios urbanísticos e sanitários. A ausência de registos, a falta de planeamento e a sobrelotação dos espaços levaram a uma ocupação desordenada dos cemitérios e, em muitos casos, à criação de sepulturas nos quintais das casas ou nas margens das estradas.

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A realidade diversa dos cemitérios de Díli

Díli conta atualmente com cerca de trinta cemitérios, que podem ser agrupados em três tipologias: públicos, familiares e privados. Os cemitérios públicos — Santa Cruz, Becussi, Bedois, Santana e Kakaulidun — são geridos pela Autoridade Municipal de Díli. Os cemitérios familiares localizam-se geralmente em terrenos privados, nas colinas ou junto das aldeias, e resultam da tradição das famílias manterem os seus mortos próximos. Os privados pertencem a comunidades religiosas ou grupos específicos, como os cemitérios chinês, muçulmano e indonésio.

Cemitério de Santa Cruz

Entre todos, o Cemitério de Santa Cruz ocupa um lugar simbólico ímpar: não apenas pela sua dimensão e centralidade, mas pela memória trágica que guarda — o massacre de 12 de novembro de 1991, momento decisivo na luta pela independência timorense. Ainda hoje, o local é um ponto de peregrinação e reflexão, onde se cruzam a dor e a resistência. Os levantamentos realizados em 2023 e 2024 no âmbito do projeto de cooperação mostraram uma realidade heterogénea: cemitérios como o de Becussi conservam um traçado regular, embora já com ocupação de caminhos e áreas que se previam inicialmente livres.; Santana viu demolidas habitações em redor, prevendo-se uma futura ampliação; Kakaulidun continua a receber funerais apesar de se encontrar formalmente encerrado; Bedois enfrenta limitações de espaço; e o projeto do novo cemitério em Metinaro permanece em fase preparatória, numa área de 25 hectares, cuja distância de cerca de 30 km à cidade de Díli suscita debate entre técnicos e comunidades.

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Cemitério familiar

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Em contraste, os cemitérios familiares — como Rai Kotu, Manleuana ou Beto Tasi – Marinir — revelam o peso das tradições: campas dispersas, sem registo nem delimitação, construídas por vezes com materiais improvisados, onde a cor e a forma traduzem a criatividade e a devoção popular. As cruzes grandes ou “Krús Bo'ot”, presentes em quase todos os cemitérios familiares ou públicos, cumprem um papel simbólico profundo: são o ponto de homenagem a todos os mortos, incluindo aqueles cujos restos se perderam ou permanecem longe da terra natal.

Cemitério de Santa Cruz - “Krús Bo'ot”

O desafio da falta espaço

Um dos principais problemas identificados durante as missões foi a falta de espaço para novos enterramentos — uma realidade comum a muitas cidades do mundo. Atualmente, as soluções conhecidas para responder a esta situação passam pela ampliação dos cemitérios existentes, pela criação de novos espaços de inumação e pela implementação de práticas complementares, como a cremação ou a reutilização de sepulturas através de exumações. A inexistência de práticas regulares de exumação e a forma como as sepulturas são construídas em Díli, com paredes e lajes de cimento, impedem a decomposição natural dos corpos e, por conseguinte, a reutilização das sepulturas.

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A questão não é apenas técnica. As práticas funerárias timorenses estão profundamente ligadas ao respeito pelos antepassados, e qualquer alteração exige diálogo com as estruturas tradicionais e religiosas. Por isso, em novembro de 2024, foi organizado o Seminário sobre Gestão Cemiterial, no Centro Cultural Jorge Sampaio, na Embaixada de Portugal, em Díli. O encontro reuniu mais de setenta participantes, entre os quais representantes municipais, líderes comunitários (Lia-na’in), membros da Igreja e responsáveis governamentais, e constituiu um marco no debate sobre o futuro dos cemitérios em Timor-Leste. O consenso foi notável: a Igreja Católica, pela voz do padre Bernardo Paiva, reconheceu a necessidade de regulamentar as exumações e declarou-se disponível para colaborar na sensibilização das populações; os Lia-na’in, guardiões das tradições locais, manifestaram também concordância, sublinhando que “a tradição é mutável” e que a mudança é possível desde que respeite os rituais e o significado espiritual dos mortos.

Do diagnóstico à ação: o trabalho técnico e legislativo

A partir deste consenso, as missões passaram a concentrar-se na implementação prática das medidas propostas. Durante 2024, foram redigidas propostas legislativas que definem o enquadramento nacional da gestão cemiterial — desde a criação e ampliação de cemitérios até à regulamentação das exumações. Estas propostas foram enviadas ao Ministério da Administração Estatal, que irá conduzir o processo de análise e aprovação. Essas propostas — um Diploma Ministerial e um Decreto-Lei — contemplam aspetos técnicos, culturais e ambientais: desde a escolha dos terrenos e distâncias de segurança relativamente a poços e cursos de água, à definição de prazos mínimos para inumação e exumação, passando pela criação de registos obrigatórios e pela transição progressiva dos chamados cemitérios familiares para gestão municipal. Em paralelo, foi desenvolvido o sistema de registos de enterramentos, adaptado à realidade local. A equipa da Direção de Serviços de Obras Públicas e Transportes da AMD, com o apoio técnico da Câmara Municipal de Lisboa, procedeu ao levantamento detalhado do Cemitério de Becussi, dividido agora em zonas identificadas e numeradas. Foram elaborados modelos de formulários e um Livro de Registo de Enterramentos, que permitirá, pela primeira vez, acompanhar a história e localização de cada sepultura. Também no mesmo cemitério iniciou-se o planeamento das primeiras exumações experimentais, com identificação das campas mais antigas, definição de taxas e preparação de notificações às famílias. A proposta inclui ainda medidas de gestão de resíduos, procedimentos de demolição e reconstrução das campas e normas de segurança e higiene para os trabalhadores.

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Cemitério de Becussi - Ossários novos

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Entre a técnica e o respeito: um trabalho de equilíbrio

O desafio maior deste projeto tem sido encontrar o ponto de equilíbrio entre o rigor técnico e o respeito pelas tradições. Implementar exumações num contexto onde os antepassados são parte viva da comunidade exige mais do que um regulamento: exige empatia, tempo e diálogo. A abordagem escolhida tem sido, por isso, gradual e participada. A sensibilização das famílias, o envolvimento dos Lia-na’in, a mediação da Igreja e a comunicação transparente sobre os motivos de saúde pública e sustentabilidade estão a criar as condições para uma transição culturalmente aceitável. Os estudos apresentados por especialistas, como o médico e ex-Primeiro-Ministro Dr. Rui Maria de Araújo, destacaram os riscos ambientais e sanitários da situação atual — nomeadamente a contaminação dos lençóis freáticos por necrochorume — reforçando a urgência de medidas de planeamento e vigilância ambiental. Mas, mais do que impor soluções, pretende-se criar um modelo que integre conhecimento técnico e sabedoria ancestral.

Cemitério de Becussi - Novos modelos de sepulturas e alinhamento

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Cemitério de Becussi

Um trabalho que permanece em curso

A missão de abril de 2025 encerrou um ciclo de cooperação particularmente produtivo, consolidando os fundamentos técnicos e jurídicos para a gestão moderna dos cemitérios de Díli. Foram definidos instrumentos práticos de registo, procedimentos para exumações e diretrizes para a futura regulamentação municipal. O trabalho realizado permitiu reforçar a articulação entre as equipas técnicas de Lisboa e Díli, promovendo a transferência e adequação de conhecimento e o fortalecimento das capacidades locais. O envolvimento crescente das estruturas municipais, aliado à colaboração das autoridades tradicionais, religiosas e nacionais, constituem um sinal claro de apropriação local do processo e de compromisso com a modernização da gestão cemiterial. O foco recairá agora na implementação local das medidas delineadas: aprovação da legislação nacional, elaboração do regulamento municipal de cemitérios e reforço da formação das equipas, instalação dos sistemas de registo e ações de sensibilização junto da população. Estes passos serão decisivos para que os cemitérios de Díli se afirmem como espaços organizados, adequados às necessidades futuras e respeitadores da memória coletiva.

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Cemitério de Santa Cruz

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Fotografia: Victor Henriques, 2025

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Capa da Illustração Portugueza, N.º 290, 11 de Setembro de 1911 | Hemeroteca Municipal de Lisboa

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JOÃO CHAGAS

Centenário da morte de um pilar da República

Vanessa Batista

Jornalista, panfletário, escritor, diplomata, líder de governo, as facetas de João Chagas são várias e a dimensão da sua figura imensa. Sepultado no Cemitério do Alto de São João, ocupa o centro de uma rua assim planeada como homenagem aos homens que se debateram pela implantação da República, um regime que vence em outubro de 1910, mas cuja luta começa muito antes. Mário Soares assinalava em 1963, nas páginas da revista O Tempo e o Modo, o centenário do nascimento de João Chagas, constatando que: “(...) A maior parte das páginas que escreveu o incomparável jornalista republicano, estuantes de vida e paixão, ou estão dispersas por velhos jornais esquecidos ou estão arquivadas em livros há muito esgotados, verdadeiras raridades bibliográficas 1 ”. Poucos dias antes da publicação da crónica de Soares, o Diário de Lisboa assinalava na sua capa a mesma efeméride, afirmando categoricamente que “ninguém mais do que ele contribuiu para a implantação do regime republicano 2 ”. João Chagas, como muitos que partilharam o seu tempo, permanece hoje na penumbra do reconhecimento nacional. Pontualmente, algumas investigações científicas na área da História, abarcando o período da I República, colocam o seu nome em destaque e análise. No ano em que se assinala o centenário da sua morte, fica o exercício de recordar e homenagear alguém que em vários momentos se destacou como peça fundamental para a política e conjuntura de Portugal. João Chagas nasceu a 1 de setembro de 1863 no Rio de Janeiro, filho de emigrantes portugueses, regressando a Portugal ainda muito jovem. Inicia a sua carreira de jornalista n’ O Primeiro de Janeiro, mas rapidamente é convidado a colaborar com outros títulos da imprensa da época, alinhados com a monarquia vigente, como o Correio da Noite ou O Tempo 3 (este último dirigido por Carlos Lobo de Ávila, que havia tornado o mesmo jornal num órgão do grupo dos “Vencidos da Vida” 4 ). Em 1890, momento de significativa rutura política e profissional, Chagas já era um nome prometedor do jornalismo portuense com 27 anos de idade. Portugal assiste a um particular acontecimento disruptivo internamente e externamente, principalmente na sua esfera diplomática.

João Chagas, Occidente, N.º437, 11 de Fevereiro de 1891 Hemeroteca Municipal de Lisboa

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A ambição do governo português de unir os territórios ultramarinos de Angola e Moçambique, conheceu uma acesa oposição de Inglaterra, a qual se materializou com a apresentação do chamado Ultimatum 5 . A ameaça dirigida ao governo português foi oficializada em janeiro de 1890, mergulhando o país num profundo ambiente de contestação e instabilidade política e social. É neste levantamento nacional de insatisfação e exigência de uma posição firme, por parte do governo e do rei, que João Chagas reconhece na Monarquia a impossibilidade de defender os interesses do país, aderindo ao republicanismo. É desde logo um adepto da urgência da substituição de regime e defensor de uma mudança pela força, colocando um ponto final em séculos de reinados. Chagas coloca assim a sua pena de jornalista ao serviço de causa republicana de forma bastante acérrima. Assina textos acesos sobre a falência da monarquia em Portugal e apela ao apoio da causa republicana em títulos como a Lanterna, Paiz e que funda como a República Portuguesa. João Medina, historiador, refere João Chagas como “um dos políticos que mais sofreu pela sua causa” 6 , o qual se traduz numa série de presenças no cárcere, chegando a ser deportado para África. A mais pesada pena que conheceu deu-se em consequência da participação na Revolta Republicana de 1891, conduzida na cidade do Porto. Durante a revolta desencadeada a 31 de janeiro, Chagas já se encontrava preso por “crimes de imprensa” ligados ao conteúdo publicado na República Portuguesa, mas a falha da revolta e a prisão e perseguição dos seus principais lideres não evitaram que mesmo assim fosse considerado envolvido e com uma pena acrescida. A revista ilustrada Occidente, na reportagem publicada sobre a revolta falhada identificava os principais protagonistas, sublinhando quanto a Chagas que “[…] Sem ter tomado parte na mesma revolta, foi comtudo conservado na cadeia, e incomunicável, por ser considerado um dos que mais concorreu com os seus escriptos para a exaltação dos espíritos […] 7 ”.

João Chagas, Illustração Portugueza, N.º 247, 14 de Novembro de 1910 Hemeroteca Municipal de Lisboa

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João Chagas, publicou poucos anos mais tarde algumas obras que nos permitem ter um conhecimento detalhado sobre os acontecimentos do Porto em 1891, como História da Revolta do Porto de 31 de Janeiro de 1891 (Depoimentos de dois cúmplices) em 1901 e Trabalhos Forçados, no ano anterior. Durante os anos que antecederam a proclamação da República, permaneceu sempre muito ativo na sua contestação pela escrita, e através da sua ação política ativa dentro do Partido Republicano Português. No período identificado como “Franquismo”, destacou-se particularmente na imprensa pelas suas acesas e duras observações sobre a figura de João Franco e a publicação das suas Cartas Políticas em 1908, fazia agitar João Chagas, llustração Portugueza, N.º 247, 14 de Novembro de 1910 cada vez mais os ânimos contra a Hemeroteca Municipal de Lisboa monarquia constitucional. Em janeiro de 1910, participa na reunião do partido onde se lançam os primeiros planos conjuntos com a Maçonaria e a Carbonária para o que viria a ser a investida realizada em outubro do mesmo ano 8 . Instaurada a República com sucesso a 5 de outubro de 1910, uma nova fase era inaugurada no país. João Chagas destacava-se como um dos nomes mais respeitados e reconhecidos nas fileiras republicanas, sendo rapidamente escolhido para uma das mais importantes legações diplomáticas na Europa, Paris 9 . Não tardou que a República voltasse a chamá-lo a Lisboa, sendo nomeado pelo Presidente da República, Manuel de Arriaga, para chefiar o primeiro governo constitucional 1 0 . Tratava-se de um governo constituído para harmonizar as tendências políticas em confronto no Partido Republicano Português. Afonso Costa assumia-se então como líder do setor conotado com um programa de anti-clericalismo acelerado, saneamento das finanças públicas e uma conceção extrema de uma “República para os Republicanos”, posições contestadas nos seus fundamentos por homens como António José de Almeida e Brito Camacho. O primeiro governo, após o Governo Provisório e a eleição do Presidente da República, pretendia assim fazer o país regressar a uma normalidade política e trazer alguma tranquilidade ao funcionamento das novas instituições. Foi constituído por uma série de personalidades distintas, emblemáticas da multiplicidade de tendências presentes no panorama político republicano à data 1 1 .

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O ambiente revolucionário era, porém, propicio à agitação social, traduzida numa vaga de sucessivas greves 1 2 , deixando o governo de João Chagas numa posição cada vez mais frágil perante a opinião pública. Ao cabo de setenta dias, Chagas apresentou demissão alegando uma deslealdade vincada por António José de Almeida através das criticas publicadas no seu jornal, República 1 3 . Terminada a sua curta experiência governativa, retomaria a sua posição diplomática em Paris. Neste seu posto manteve habilmente relações pacíficas e cordiais entre as duas repúblicas, mantendo-se vigilante perante as movimentações de conspiradores portugueses monárquicos presentes em França e aquilo que seria a conjuntura europeia que desaguaria na I Guerra Mundial, em 1914. No seu Diário, publicado e disponível para consulta na Biblioteca Nacional Digital 1 4 , pode ser analisada e entendida a atuação de Chagas enquanto embaixador português antes e durante a guerra. Uma leitura vital para o entendimento da sua posição enquanto defensor da participação portuguesa, a qual o leva a demitir-se e a regressar a Lisboa para publicar um folhetim persuasivo, intitulado Portugal perante a Guerra 1 5 . Muito crítico das ações dos governos de então, Chagas reclamava que a participação de Portugal no conflito era vital para a sua sobrevivência enquanto Estado preponderante na Europa e detentor de territórios ultramarinos. No interregno da sua carreira diplomática, João Chagas chega a ser convidado para formar novo governo em maio de 1915. Tal não se concretiza devido a um feroz atentado de que foi vitima a bordo de um comboio na estação de Entroncamento. O senador José de Freitas disparou cinco tiros, dos quais três atingem Chagas. O senador José de Freitas disparou cinco tiros, dos quais três atingem Chagas. Escaparia com vida sendo transportado com urgência para o Hospital de São José, destacando-se a descrição pormenorizada dos ferimentos publicada pelo jornal A Capital: “[…] O Sr. João Chagas apresentava quatro ferimentos, dos quais o mais importante na cabeça. A bala penetrara no lado direito da testa, sahindo pela maçã do rosto. No trajeto afectara a órbitra. O segundo ferimento, no alto da cabeça, parece resultado de qualquer pancada, sem interessa o craneo. A terceira lesão encontra-se no ombro esquerdo, havendo fractura do terço superior do humero, e o ultimo na mão, perfurada na altura do pulso.

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João Chagas, Revista ABC, N.º 255, 4 de Junho de 1925 Hemeroteca Municipal de Lisboa


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Parece que a bala que atravessou o pulso foi a mesma que penetrou na testa e d’ahi o ter desviado a trajectoria. A essa circunstancia se deve o não ter o brilhante panfletário ficado imediatamente morto 1 6 . […]”. Não chega assim a tomar posse como chefe de governo, profundamente desiludido com a atmosfera política nacional e ruma novamente à capital francesa para ocupar até ao final da sua carreira, o cargo de ministro plenipotenciário da República em França. No pós-guerra, apesar dos esforços conduzidos por Chagas para uma restituição justa para Portugal, enquanto membro do núcleo de vencedores, apenas a integridade do império colonial foi de facto mantida. Regressaria definitivamente a Portugal em 1923, afastando-se da vida política mas mantendo a sua pena afiada na imprensa até ao fim. A 28 de maio de 1925, os jornais vespertinos como o Diário de Lisboa, noticiavam a morte do famoso jornalista e político no Hotel Avenida Palace no Estoril, tecendo verdadeiros elogios à escrita mas também à ação de Chagas enquanto paladino da República. O funeral de João Chagas realizou-se no dia 31, domingo, após o velório que teve lugar nos Paços do Concelho, em Lisboa 1 7 .

João Chagas, Revista ABC, N.º 255, 4 de Junho de 1925 Hemeroteca Municipal de Lisboa

Passam cem anos da morte de João Chagas no corrente ano, assinalar a sua figura e o seu percurso, é contribuir para o conhecimento da vida política e social do país em finais do século XIX e nas primeiras décadas do século passado, e também da forma de fazer jornalismo de outrora. Em suma, relembrar a figura de João Chagas é continuar a alimentar uma ideia de República livre, justa e fraterna.

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J.P. n.º 6670 Cemitério do Alto de São João

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Notas 1 0

O Tempo e o Modo, Nº8, setembro de 1963, p. 48. Diário de Lisboa, Nº 14624, 31 de agosto de 1963, p. 1. 3 NOVAIS, Noémia - “João Chagas e a ideia de República em Portugal”. Intellèctus, Rio de Janeiro, v. 10, nº1, 2011. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/intellectus/article/view/27693 4 Diário de Lisboa, Nº 14624, 31 de agosto de 1963, p. 4. 5 TEIXEIRA, Nuno Severiano - “Política externa e política interna no Portugal de 1890: o Ultimatum Inglês”. Análise Social, Lisboa, v. 23, nº 98, 1987, p. 694. 6 MEDINA, João - “Varões republicanos: quatro retratos de vultos políticos da I República: Machado Santos, Afonso Costa, João Chagas e Sidónio Pais". Clio, Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, v. 2, 1997, p. 166. 7 Occidente, Nº437, 11 de fevereiro de 1891, p. 35. 8 Para um maior desenvolvimento e notas sobre os antecedentes e acontecimentos do 5 de Outubro de 1910, indica-se como sugestão de leitura a obra O 5 de Outubro por quem o viveu de António Ventura. 9 Ilustração Portugueza, Nº267, 3 de abril de 1911, p. 441. 10 Ilustração Portugueza, Nº290, 11 de setembro de 1911, p. 1. 11 SERRÃO, Joaquim Veríssimo – História de Portugal, v. XI, Verbo, Lisboa, 1989, pp. 102-104. 12 Várias greves ocorreram durante este período, destacamos a dos fragateiros e dos vendedores de jornais. Idem, pp. 107-108. 13 República, Nº294, 7 de novembro de 1911, p. 1. 14 Disponível em: https://purl.pt/25015/4/ 15 NOVAIS, Noémia - “Portugal perante a Guerra. Argumentação e eficácia persuasiva na escrita de João Chagas”. Comunicação & Cultura, Universidade Católica Portuguesa, Nº8, 2009, pp. 71-88. 16 A Capital, Nº1716, 17 de maio de 1915, p. 1. 17 Diário de Lisboa, Nº 1267, 28 de maio de 1925, p. 8. 2

VANESSA BATISTA Licenciada em História, Mestre em História Contemporânea e Pós-graduada em Ciências da Documentação e Informação pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Técnica Superior na Hemeroteca Municipal de Lisboa, onde exerce funções relacionadas com a atividade cultural e cientifica desta instituição.

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Garça-boieira, Ardea ibis | Cemitério dos Olivais, 06-fev-2025

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ORNITOLOGIA CEMITERIAL ALFACINHA ECOLOGIA E ICONOGRAFIA Luís de Oliveira Gordinho

Parte 1: aves residentes e invernantes 1- Introdução À escala global, nos cemitérios, o estudo científico das aves (ornitologia) começou pelo menos na década de 1970, continuando até à atualidade. Pelo contrário, a observação de aves nos cemitérios por amadores, numa perspetiva lúdica e/ou de ciência cidadã, é um fenómeno mais recente, que só ganhou real popularidade nos EUA e na última década. Em Portugal, até 2024, a observação de aves nos cemitérios apenas tinha expressão no Porto. Dois dos cemitérios dessa cidade eram já considerados locais importantes (hotspots) para a observação de aves no portal PortugalAves eBird, com registos desde 2021. A iconografia cemiterial é bastante centrada no estudo de imagens produzidas por escultura em pedra, nomeadamente brasões (heráldica), os escudos de armas das famílias nobres. O significado dessa iconografia (a sua simbologia) tem sido analisado a diversas escalas, desde a global até à da cidade de Lisboa. Os cemitérios são, em regra, mais pobres em iconografia zoológica do que em iconografia botânica e, além disso, esta última tem mais significados implícitos. Talvez por isso, um dos mais conhecidos estudos nacionais de iconografia animal foi feito no Museu Nacional de Arte Antiga e não nos cemitérios.

Rola-turca (Streptopelia decaocto) poisada em pomba de pedra (JP 4426) Cemitério do Alto de São João, 19-fev-2025

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Existem nove cemitérios com área verde no concelho de Lisboa: sete públicos (geridos pela CML) e dois privados (Inglês e Alemão – o cemitério Judeu não tem área verde). A maior parte dos cemitérios tem entre 130 e 200 anos (foram construídos no séc. XIX). As exceções são o Cemitério Inglês, com mais de 300 anos, e o Cemitério de Carnide, com menos de 30. Em 2020, a Divisão de Gestão Cemiterial (DGC) da Direção Municipal de Ambiente, Estrutura Verde, Clima e Energia (DMAEVCE) publicou o livro “Flores de Pedra”, que combina botânica e simbologia como chave para ler muitos monumentos cemiteriais. Produzir um trabalho de ornitologia cemiterial com objetivos semelhantes é uma ideia inovadora e que interessa à DGC e ao Departamento de Ambiente Energia e Alterações Climáticas (DAEAC) da mesma DMAEVCE. Este artigo é um primeiro passo nessa direção, cobrindo os seguintes tópicos: (1) inventário da avifauna diurna e noturna que ocorre nos nove cemitérios de Lisboa durante o inverno; (2) levantamento preliminar da iconografia de inspiração aviária presente nos nove cemitérios, combinando conhecimentos de ornitologia e de simbologia; (6) interpretação qualitativa dos dados obtidos face a diferentes variáveis ambientais, locais e de contexto.

2: Metodologia 2.1. Diurna

O objetivo é amostrar cada área pelo menos três vezes, fazendo coincidir as amostragens com as épocas do ano mais críticas para as aves: Primavera (maio), Inverno (dezembro a fevereiro) e Migração pós-nupcial (agosto a outubro). Até ao momento, foram feitas as amostragens de Inverno (23 novembro a 25 fevereiro) cujos resultados são resumidos no presente artigo. As restantes amostragens estão previstas para 2026 e serão a base de um segundo artigo, sobre espécies estivais nidificantes e espécies migradoras que ocorrem apenas de passagem. O esforço de amostragem diurna foi definido sobretudo em função da área de cada cemitério. Aos dois cemitérios com mais de 15 ha (Alto de São João e Carnide) foi decidido dedicar um dia completo; aos cemitérios com 4 a 12 ha uma manhã, e aos cemitérios com menos de 1,5 ha (Inglês e Alemão) meia manhã. A extensão dos percursos pedestres realizados para amostragem sistemática de aves diurnas na 1.ª volta (Inverno) variou entre 0,5 e 4,4 km. Ao longo do percurso, foram identificados e anotados todos os indivíduos de cada espécie ouvidos e/ou vistos. Após esse primeiro percurso, foi realizado um segundo dedicado exclusivamente a localizar e fotografar arte cemiterial relacionada com aves. Nas amostragens utilizaram-se um binóculo 10x30 e uma máquina fotográfica com zoom 50x.

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Tordo-comum (Turdus philomelos) em sepultura temporária com flores artificiais | Cemitério do Lumiar, 10-fev-2025

2.2 - Noturna

A metodologia de amostragem noturna consiste em escutas passivas de 10 minutos, realizadas de cinco pontos situados a 800+ m de distância uns dos outros, numa quadrícula UTM 10x10 Km. Cada censo é realizado em 3 noites por ano (março, maio e dezembro) e 3h por noite. As escutas iniciam-se 15 minutos após o ocaso do sol. Para o presente caso, selecionaram-se os pontos com boa audibilidade mais próximos dos centróides dos cinco cemitérios situados na quadrícula MC88: Benfica, Ajuda, Prazeres, Inglês e Alto de S. João. Em 2025 apenas foi feita amostragem numa noite (26 de março), cujos resultados são resumidos neste artigo. As restantes visitas estão previstas para 2026. Parte 3: Resultados: Ecologia 3.1 - Aves diurnas Globalmente foram detetados 2.281 indivíduos de 57 espécies de aves nativas ou naturalizadas em Portugal. No conjunto dos nove cemitérios, as espécies mais abundantes foram: gaivota-d’asa-escura, pombo-doméstico, estorninho-preto (Fig. 1A), melro, chamariz, felosa-comum e verdilhão. Como geralmente essas gaivotas não usam os cemitérios, sendo registadas sobretudo a sobrevoar, e a população assilvestrada de pombo-das-rochas que existe em Lisboa teve origem sobretudo em variedades domésticas, estas duas espécies não foram incluídas no mapa de abundância (Fig. 2B). Em termos de prevalência, são de salientar as seis espécies registadas em todos os cemitérios: os já referidos pombo-doméstico, melro, chamariz e verdilhão e ainda o pombo-torcaz e a toutinegra-dos-valados. Do rabirruivo-preto (Fig. 1B) registaram-se 84 indivíduos, em todos os cemitérios menos o Alemão.

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Fig. 1A - Exemplo de uma espécie registada em números elevados nos cemitérios: estorninho-preto | Benfica, 12-fev-2025

Fig. 2B - Riqueza específica de aves nos cemitérios amostrados

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Fig. 1B - Exemplo de espécie registada em números elevados nos cemitérios: rabirruivo-preto | Olivais, 6-fev-2025

Os cemitérios de Carnide, Alto de São João e Lumiar apresentaram os valores mais elevados de riqueza específica de aves; respetivamente 40, 37 e 36 espécies (Fig. 2A). O Os cemitérios do Alto de São João (300) e do Lumiar (284) foram aqueles em que se registaram maiores abundâncias relativas de aves; respetivamente 300 e 284 indivíduos (Fig. 2B).

Fig. 2A - Abundância relativa de aves, excluindo pombo-doméstico e gaivota-d’asa-escura, nos cemitérios amostrados

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Com base na Lista Vermelha das Aves de Portugal Continental de 2022, destacam-se quatro espécies consideradas ameaçadas ou quase ameaçadas (estatuto de ameaça; cemitério/s em que foi detetada): açor (VU=Vulnerável; Alto de S. João – Fig. 3C), peneireiro-de-dorso-malhado (VU; ASJ, Carnide e Lumiar), garça-boieira (VU; Olivais e Lumiar - foto p. 32) e maçarico-bique-bique (NT=Quase Ameaçada; Carnide).

Fig. 3C - Exemplo de espécie registada em números reduzidos nos cemitérios, mas que se destaca por outras razões: açor | Alto de S. João, 19-fev-2025

Além dessas, são de referir (motivo; cemitério/s): ganso-do-Egito (invasora de controlo prioritário na UE; Carnide – Fig. 3A), perdiz-vermelha (23 indivíduos; Lumiar, Carnide e Ajuda – Fig. 1C), gaivota-de-patas-amarela (nidificação provável; Prazeres e Ajuda – Fig. 3B), águia-calçada (invernada e/ou migração; Alto de São João, Olivais e Prazeres), periquitão-de-cabeça-azul (35 indivíduos; 4 cemitérios), cartaxo (3 indivíduos; Carnide), e lugre (31 indivíduos; 4 cemitérios).

Fig. 3A - Exemplo de espécie registada em números reduzidos nos cemitérios, mas que se destaca por outras razões: ganso-do-Egito | Carnide, 24-nov-2024

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Fig. 1C - Exemplo de espécie registada em números reduzidos nos cemitérios, mas que se destaca por outras razões: gaivota-de-patasamarelas | Ajuda, 14-fev-2025

Fig. 3A - Exemplo de espécie registada em números elevados nos cemitérios: perdiz-vermelha | Lumiar, 10-fev2025

Como amostra do que poderá surgir num futuro livro sobre ornitologia cemiterial alfacinha, foi aqui incluído o mapa de abundância relativa de uma típica espécie exclusivamente invernante: a felosa-comum (107 indivíduos registados em 8 dos 9 cemitérios). O mapa mostra que os cemitérios de Benfica e dos Olivais foram os mais importantes para esta espécie no inverno de 2024/ 2025 (Fig. 2C).

Fig. 2C - Abundância relativa de felosa-comum nos cemitérios amostrados

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3.2 - Aves noturnas

Apenas foi detetada uma ave noturna: dois pios de contacto distantes de coruja-domato, ouvidos do Cemitério Inglês, mas provavelmente vindos do Jardim da Estrela. No entanto, as visitas noturnas também forneceram informação relevante sobre outra fauna. Por exemplo, foi identificada uma população de coelho no Alto de São João, que poderá explicar o elevado número de aves de rapina diurnas registado nesse cemitério (junto com a abundância de pombo-doméstico e a presença de galinhas). Além disso, só a visita noturna permitiu confirmar a presença de gatos assilvestrados no Alto de São João , único cemitério em que não haviam sido registados de dia. Os dados de ciência cidadã do portal eBird revelam quais as espécies de aves noturnas que ocorrem na envolvente dos cemitérios. Na envolvente dos cemitérios municipais, existem registos de praticamente todas as três espécies mais comuns: coruja-das-torres, coruja-do-mato e mocho-galego (Figs. 4 e 6). As exceções são a envolvente de Carnide, onde não há registos de coruja-do-mato; e a envolvente do Alto de São João, onde só foi registada coruja-das-torres. Na envolvente dos cemitérios privados, praticamente não há registos de rapinas noturnas. A exceção, é a coruja-domato no Cemitério Inglês.

Fig. 4A - Espécie de rapina noturna comum em Lisboa, ilustrada com arte cemiterial: coruja-dastorres | Prazeres, 20-fev-2025

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Fig. 4B - Espécie de rapina noturna comum em Lisboa, ilustradas com arte cemiterial: coruja do mato | Alto de São João, 19-fev-2025


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Fig. 6A - Alguma da iconografia aviária mais inusitada encontrada no Inverno de 2024-2025 (baseado numa amostra de 85 obras de arte cemiterial): toutinegra-dos-valados | Lumiar, 10-fev-2025

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4:Resultados: Iconografia

Estes resultados são preliminares, uma vez que, nas visitas da primavera e outono de 2026, se conta recolher mais informação. Além disso, a DGC também possui informação sobre o tema, que será adicionada à recolhida pelo autor e tratada em conjunto. Aqui, olhamos apenas para uma subamostra de 85 obras de arte cemiterial relacionada com aves (83 únicas e 2 repetidas). Verifica-se que os cemitérios dos Prazeres e do Alto de São João são os que têm mais obras desse tipo (Fig. 5A), e que o motivo mais frequente é o pombo (ordem Columbiformes - foto p.33), 20% mais comum que o mocho (Strigiformes) e a águia (Accip itriformes), que surgem em segundo lugar ex aequo (Fig. 5B).

Fig. 5A

Fig. 5B

Muitos desses pombos correspondem a representações da pomba da paz com um ramo de oliveira no bico. O pelicano (Pelecanidae), que surge em quatro lugar ex aequo com o pato (Anatidae), foi identificado sobretudo pelo contexto e respetiva simbologia. Surge invariavelmente a alimentar as crias com o próprio corpo, embora frequentemente com morfologia de cisne (Cygnus sp .). Até ao momento, foram identificadas 13 espécies ou grupos de espécies distintos. Entre as mais inusitadas, incluem-se toutinegra-dos-valados, galinhola e guincho-comum (Fig. 6A, 6B e 6C). Como no presente trabalho não foi possível obter fotografias de aves noturnas vivas, o tópico 3.2 foi ilustrado com iconografia das espécies relevantes 5: Discussão

Os resultados obtidos mostram que os cemitérios são locais a ter em consideração na monitorização e promoção da biodiversidade urbana. Embora os resultados sejam preliminares, já é claro que essa promoção passará por alterar certas condicionanteschave da biodiversidade. Condicionantes como o número de árvores velhas, o número de cavidades (em árvores e edifícios), a disponibilidade alimentar (coelhos, pombos assilvestrados, etc.), o número de elementos de água, a abundância de predadores (gatos assilvestrados), etc. Mesmo que, através de gestão ativa, haja uma evolução favorável dessas condicionantes, vão sempre existir diferenças entre cemitérios.

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Cada cemitério tem a sua identidade ecológica, não só em virtude de caraterísticas endógenas (como área, percentagem de cobertura arbórea e por prados, etc.) mas também devido à envolvente e ao contexto em que se insere, desde a simples distância à frente ribeirinha, à forma mais complexa como se enquadra no Corredor Verde (CV) mais próximo. A propósito desta última questão, salienta-se que três dos cemitérios integram o CV Periférico (Benfica, Carnide e Lumiar); e outros três situam-se entre o Vale de Alcântara e o CV de Monsanto, mas fora destes (Prazeres, Alemão e Inglês). Os restantes dois são únicos nos corredores verdes que integram: CV Oriental (Alto de São João) e CV dos Olivais.

Fig. 6B - Alguma da iconografia aviária mais inusitada encontrada no Inverno de 2024-2025 (baseado numa amostra de 85 obras de arte cemiterial): guincho-comum, Ajuda, 14-fev-2025

Fig. 6C - Espécie de rapina noturna comum em Lisboa, ilustradas com arte cemiterial: mocho-galego | Prazeres 20-fev-2025

6: Divulgação e próximos passos

A divulgação pública do presente trabalho iniciou-se a 18 de outubro, com a publicação de uma notícia no jornal Público. Teve continuidade no dia 23 do mesmo mês através da realização da atividade “À descoberta das Aves do Cemitério de Carnide”, integrada na Semana Cultural dos Cemitérios de Lisboa. O trabalho foi ainda apresentado ao meio científico no Encontro Nacional de Ciência Cidadã (ENCC), que decorreu em Oeiras nos dias 13 e 14 de novembro, com a comunicação “Biodiversidade dos Cemitérios de Lisboa: ciências profissional e cidadã juntas”, estando igualmente presente no portal da Rede Portuguesa de Ciência Cidadã. Os próximos passos ligados mais diretamente à informação aqui apresentada serão as amostragens de aves de 2026: diurnas e noturnas em maio, só diurnas em setembro, e só noturnas em dezembro. Subsequentemente, tentar-se-ão implementar algumas medidas de gestão ativa. Ainda é cedo para as definir a todas, mas cita-se uma cuja conveniência já é evidente: a instalação de caixas-ninho para corujas nos cinco cemitérios amostrados de noite.

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7: Agradecimentos

Expresso a minha gratidão a Maria João Telhado, Sara Gonçalves, Gisela Monteiro, Sérgio Palmeiro, Andrew Swinnerton, Pedro Oliveira e Alexandre Vaz pelos seus contributos para o presente trabalho.

Fig. 6 - Alguma da iconografia aviária mais inusitada encontrada no Inverno de 2024-2025 (baseado numa amostra de 85 obras de arte cemiterial): galinhola | Ajuda, 14-fev-2025

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LUÍS DE OLIVEIRA GORDINHO Luís de Oliveira Gordinho Trabalha a tempo inteiro como biólogo desde 1999, tendo coordenado o 3.º Atlas Nacional de Aves Nidificantes. Desde junho 2024, é técnico superior do Departamento de Ambiente, Energia e Alterações Climáticas da CML. Em 2020 concluiu doutoramento em Biodiversidade, Genética e Evolução.

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Fotografia: Victor Henriques, 2025

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UMA COLEÇÃO OSTEOLÓGICA PORTUGUESA NO CANADÁ (MEMORIAL “COEMETERIA OLISIPPONIS COLLECTION”) E O PROJETO DE COLABORAÇÃO ENTRE A CML E A SIMON FRASER UNIVERSITY (SFU) Ângela Silva Bessa e Hugo Cardoso

A 19 de Setembro de 2019, a Câmara Municipal de Lisboa e o Departamento de Arqueologia da Simon Fraser University (Canadá) assinaram um protocolo original e inovador de colaboração no apoio à investigação e formação científicas em Antropologia Biológica e áreas afins. Este protocolo serviu de base para um projeto de investigação científica liderado pelo Professor Hugo Cardoso (Simon Fraser University) e financiado pelo Social Sciences and Humanities Research Council of Canada. O projeto prevê uma série de iniciativas de divulgação na comunidade, entre as quais a exposição “Uma História Viva dos Cemitérios de Lisboa: Ética, Ensino e Investigação sobre o Esqueleto Humano”, que esteve patente no espaço museológico do Cemitério dos Prazeres, e um documentário em produção. Para além destas iniciativas, o projeto contempla no seu cerne o empréstimo de ossadas humanas não reclamadas nos cemitérios da cidade de Lisboa à Simon Fraser University, para fins de investigação e formação. No Verão de 2023, as ossadas de 60 indivíduos foram enviadas para o Canadá. Nasceu, assim, um acervo único – a Memorial Coemeteria Olisipponis Collection, que pretende abrir novos caminhos no desenvolvimento de projetos científicos bem como no ensino de antropologia, arqueologia e osteologia no país de acolhimento. Seguindo normas nacionais e internacionais, os restos mortais de cada indivíduo foram individualmente transportados em caixas de zinco soldadas que começaram a ser meticulosamente abertas no Outono de 2024.

Caixas de zinco soldadas

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Decorre, agora, a cuidadosa limpeza e o minucioso inventário de cada peça óssea para que, num futuro próximo, sejam estudadas por alunos e investigadores visitantes.

Limpeza das peças ósseas

Também os sudários, os caixões de madeira e outros elementos de cultura material que acompanharam os indivíduos serão alvo de análise e restauro com o objetivo de conservar o espólio funerário associado. Além do ensino e da investigação científica, a Memorial Coemeteria Olisipponis Collection tem vindo a ser utilizada como meio de disseminação e comunicação científicas a nível nacional e internacional, divulgando a evolução das práticas funerárias portuguesas, salientando a importância da criação e da curadoria de coleções osteológicas, e servindo de contexto para discussões éticas sobre a utilização científica de esqueletos humanos.

Exemplo de caixão e sudário

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Uma singularidade deste acervo é o facto de os indivíduos nele contidos estarem documentados por via dos dados demográficos constantes nos registos dos cemitérios e também disponíveis no registo civil de óbito e de nascimento. Estes dados demográficos têm vindo a ser pesquisados e recolhidos a partir dos assentos de óbito disponíveis em formato eletrónico e de livre acesso na Torre do Tombo, ou solicitados diretamente aos arquivos distritais e conservatórias locais. A Memorial Coemeteria Olisipponis Collection permanecerá apenas temporariamente no Canadá, retornando ao Munícipio de Lisboa como consta do acordo entre as duas instituições envolvidas no projeto. Para informações adicionais e atualizações sobre o projeto, sugere-se a consulta do site do mesmo em: https://www.sfu.ca/cardosolab/research/COM-COLLECTION.html .

Caixão de ossadas

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ÂNGELA BESSA Doutorada em antropologia forense pela Universidade de Coimbra, Angela Silva Bessa é, atualmente, investigadora de pós-doutoramento na Universidade de Simon Fraser (Canadá).

HUGO CARDOSO É atualmente Professor Catedrático no Departamento de Arqueologia e co-diretor do Centro de Investigação Forense da Universidade Simon Fraser, em Burnaby (Canadá). É doutorado em Antropologia pela McMaster University, Ontário, no Canadá.

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Fotografia: Victor Henriques, 2025

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PEDRAS E OBRAS REMODELAÇÃO DO EDIFICIO DA SALA DE ESPERA CEMITÉRIO DO ALTO DE SÃO JOÃO

Venília Caeiro

Caracterização do existente - Identificação dos problemas

O edifício alvo da intervenção situa-se anexo à entrada principal do cemitério. Possui planta retangular em piso térreo, com paredes de alvenaria de pedra e cobertura em quatro águas revestidas a telha marselha apoiada em estrutura de madeira, que se encontrava parcialmente podre e a necessitar de substituição.

Edifício da sala de espera e Instalações Sanitárias Publicas

Com área de implantação de 76,84m 2 , estava dividido por três zonas não comunicantes com acessos independentes diretos para o exterior: duas instalações sanitárias e uma sala de espera, de construção antiga e degradada.

Entrada das I.S. no lado oposto á entrada para a sala de espera

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Guarita para os funcionários da segurança


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Nenhuma destas zonas respeitava a legislação em vigor em termos de acessibilidades, devido à presença de degraus no acesso, nem em termos de dimensões e equipamentos para pessoas com mobilidade reduzida ou condicionada. oCom a alteração dos espaços interiores do edifício pretendia-se também resolver um problema pertinente: o pessoal da segurança do cemitério, que é feita vinte e quatro horas, estava instalado à entrada, numa guarita de reduzidas dimensões e com infiltrações, sem conforto térmico nem condições de higiene e segurança.

Proposta de alterações

Planta do espaço existente Planta proposta

Otimizando o espaço existente conseguiu-se instalar no mesmo edifício uma sala de espera/descanso para os utentes, instalações sanitárias publicas, e ainda uma sala destinada aos funcionários da segurança com acesso exclusivo. Esta sala vai permitir a instalação de cacifos pessoais, secretária de apoio e acesso direto às instalações sanitárias. As instalações sanitárias ficaram equipadas com peças em aço inox adequadas a pessoas com mobilidade condicionada, como barras de apoio, espelho rebaixável ou torneiras de botão.

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Instalações sanitárias publicas: Antes

Instalações sanitárias publicas: Depois

Para permitir o acesso ao interior do edifício a pessoas com mobilidade condicionada, e respeitando o DL n.º 163/2006 de 8 de agosto, é proposta uma nova entrada para a sala de espera destinada ao público, convertendo-se uma janela em porta no alçado nordeste. A porta actual, que possui um degrau, será mantida, passando a servir de acesso destinado exclusivamente para a área destinada aos funcionários da segurança.

Sala de espera: Antes

Sala de espera: Depois

Obra | Interior

Os pavimentos existentes, em mármore, foram removidos e substituídos por material cerâmico mais confortável e menos derrapante. O revestimento em madeira das paredes foi retirado, assim como as molduras internas dos vãos, sendo mantidas as portadas e respetivas guarnições, que foram recuperadas e pintadas; as caixilharias foram substituídas por outras mais eficientes, em alumínio lacado e vidro duplo, garantindo maior durabilidade e menor manutenção.

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As paredes das instalações sanitárias foram revestidas com painéis laminados a alta pressão (HPL) que visam facilitar a limpeza, promovendo a higienização dos espaços, assim como prevenir o aparecimento de fungos. As redes de eletricidade e águas foram substituídas assim como a iluminação e os aparelhos de ar condicionado substituídos por outros mais eficientes. Os tectos falsos, removidos durante a recuperação do telhado, foram substituídos por painéis de gesso cartonado suspensos com estrutura metálica, a um nível inferior ao existente anteriormente para maior conforto. Obra | Exterior

As paredes exteriores foram picadas e novamente rebocadas e pintadas com esquema cromático similar ao existente. A cobertura foi recuperada, com substituição de todos os elementos em madeira apodrecidos ou em mau estado de conservação, e novamente revestida com telha cerâmica. Conclusão

Pode-se concluir que, com esta recuperação/remodelação, o edifício ficou mais adequado à utilização, quer pelos funcionários quer pelos munícipes, através das melhorias em termos térmicos e acústicos e pelo novo acesso, que permitirá a todos, incluindo os munícipes de mobilidade reduzida/condicionada, aceder ao edifício de forma segura e facilitada. A construção original manteve o exterior praticamente idêntico e em harmonia com o edifício adjacente (secretaria), respeitando a traça original das alvenarias, cantarias, vãos e coberturas.

Sala de espera: Depois

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LEITURAS PARA A VIDA ANTES DA MORTE Joana Rita Sousa

As perguntas e a curiosidade sobre a morte fazem parte da vida das pessoas mortais; não só das pessoas adultas, mas também das crianças e dos jovens. Algures entre o medo e um certo fascínio, habitam perguntas vitais sobre este assunto fatal. Queremos conversar sobre o tema, mas ao mesmo tempo evitamos o tema. Será que ler um livro pode ajudar? Confio que sim. A leitura partilhada, em casa ou na escola, pode resultar num momento de escuta e de partilha de perguntas e curiosidades sobre o tema da morte. Neste tópico, as minhas recomendações flutuam entre os livros informativos, que nos relatam a visão científica sobre a morte, bem como os rituais em torno da mesma; e os livros que convidam a explorar o tema e o nosso interesse por ele. Seguem-se sugestões de leitura para a vida antes da morte, para crianças, jovens e pessoas adultas Estes (e outros) livros têm sido essenciais para me ajudar a criar as Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais que acontecem nos Cemitérios de Lisboa, desde Outubro de 2024. Boas leituras! .

Enquanto vamos sobrevivendo a esta doença fatal, de Nelson Nunes, Zigurate Enquanto vamos sobrevivendo a esta doença fatal é um livro sobre a ooooooooo oooooomorte, da autoria de Nelson Nunes, para quem a morte se apresenta ooooooooooooooooocomo um grande ponto de interrogação. O autor pergunta pela o ooooooooooooooooooomorte, conversa com outras pessoas sobre a morte, pensa sobre oooooooooooooooooooo a morte, escreve sobre a morte. A morte. Essa palavra que só oooooooooooooooooooo parece bonita quando se fala em "morrer de amor"

A história mais pequena do mundo, de Lia Ferreira (edição de autora) Este pequeno livro alberga a história mais pequena do mundo, onde o início e o fim estão separados por poucas páginas. É um dos livros mais divertidos e fatais que li nos últimos tempos.

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¿Así es la muerte?, de Ellen Duthie, Anna Juan Cantavella e Andrea Antinori, Wonder Ponder Tem curiosidade em saber que perguntas fazem as crianças e os jovens sobre a morte? Nesse caso, este livro é o ideal, pois é comporto de 38 perguntas que chegaram de vários pontos do mundo. Ellen Duthie e Anna Juan Cantavella procuraram responder da melhor forma possível a essas perguntas. Frequentemente, as respostas apresentam-nos outras perguntas. Superg ig ante, de Ana Pessoa e Bernardo P. Carvalho, Planeta Tangerina Conhecemos a personagem deste livro num dia simultaneamente feliz e triste da sua vida. O avô do Edgar morre e a Joana beija o Edgar pela primeira vez. Como é que um fim e um princípio podem conviver assim, num só dia?

O que a chama iluminou, de Afonso Cruz, Companhia das Letras Afonso Cruz partilha duas experiências quase fatais numa das suas viagens literárias a Santiago do Chile. O escritor convida-nos a pensar sobre fins: o fim da vida, o fim das coisas, o fim do mundo tal qual o conhecemos. Que princípios podemos encontrar nos diferentes fins?

O que é a vida?, de Oscar Brenifier (Dinalivro) A proposta de Oscar Brenifier convida a perguntar sobre a morte. Encontramos várias perguntas e diferentes pontos de vista sobre a vida. A leitura deste livro permite-nos aprofundar o tema da vida com uma atitude perguntadora. Não é que as respostas não importem; porém, a atitude que se pretende cultivar é a de parar para contemplar as perguntas.

JOANA RITA SOUSA joana rita sousa é mortal, filósofa e perguntóloga. Em 2024 criou as Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais. Publicou o livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças, em 2025. Imagem: Fundación Santa María de Albarracín, Rubén Vicente

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Fotografia: Victor Henriques, 2025

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VISITA DO MESTRADO DE SEGURANÇA E HIGIENE NO TRABALHO

No dia 1 de Março de 2025, a turma de mestrado em Segurança e Higiene no Trabalho da Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Lisboa realizou uma visita de estudo ao Cemitério dos Prazeres, no âmbito do módulo de Higiene Industrial. Acompanhados pela Prof.ª Ana Rodrigues e pela Eng.ª Catarina Ricardo (CML/DMRH/DSHS – Departamento de Saúde, Higiene e Segurança), os alunos observaram um conjunto de tarefas executadas pelos operacionais coveiros do cemitério, colocando questões e acompanhando os procedimentos. De seguida, participaram numa visita guiada ao Jazigo dos Duques de Palmela, considerado o maior jazigo privado da Europa. A visita encerrou com um momento de partilha entre alunos e docentes, permitindo consolidar os conhecimentos adquiridos ao longo do módulo e reforçar a importância do trabalho diário desenvolvido pelos profissionais dos cemitérios municipais. A experiência contribuiu para uma compreensão mais ampla dos desafios da Higiene Industrial em contextos reais, aproximando a formação académica das práticas concretas no terreno.

Turma de Mestrado em Segurança e Higiene no Trabalho da Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Lisboa

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LANÇAMENTO DOS GUIAS ILUSTRADOS A capela do Cemitério do Alto de São João encheu-se na tarde de 22 de Março para a apresentação dos novos guias ilustrados bilingues dedicados ao Cemitério dos Prazeres e ao Cemitério do Alto de São João. Em parceria com a London College of Communication, os novos guias integram a colecção de mapas Cartografia para a Portuguesia, de Maria da Gandra, responsável pelo conceito e pelo design, que, para este trabalho, desenhou à escala todos os jazigos escolhidos. A investigação e os textos ficaram a cargo de Gisela Monteiro, investigadora da DGC. Todos os participantes receberam uma cópia dos mapas, seguindo-se uma breve visita guiada no Cemitério do Alto de São João. Para mais informações sobre a colecção Cartografia para a Portuguesia pode consultar o site https://maisportuguesia.com/ ou enviar email para guiascemiterios@gmail.com

Guia Ilustrado do Cemitério dos Prazeres e Guia Ilustrado do Cemitério do Alto de São João

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INAUGURAÇÃO DO EDIFÍCIO SAUDADE No dia 4 de Abril de 2025 foi inaugurado o Edifício Saudade, um espaço multiconfessional da Câmara Municipal de Lisboa, preparado para acolher rituais fúnebres de pessoas de todas as confissões religiosas e também de pessoas não crentes. O edifício, construído na década de 1990, foi recuperado e adaptado para responder às necessidades actuais da população lisboeta e à diversidade cultural da cidade. Composto por um conjunto de salas de velório e de apoio, desprovidas de qualquer símbolo religioso, o Edifício Saudade inclui igualmente um crematório e uma sala de tanatopraxia devidamente equipada. Aproveitando a luz natural através de clarabóias e janelas amplas, o espaço foi decorado com mobiliário sóbrio, adequado à sua função, procurando proporcionar conforto num momento difícil.

O descerramento da placa pelo Presidente da CML, o Engº Carlos Moedas e pelo Presidente da CLRP, o Prof. Vera Jardim

A inauguração contou com a presença do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Eng. Carlos Moedas, bem como do Prof. José Vera Jardim, Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa em Portugal. A cerimónia terminou com uma breve visita ao interior do edifício. O momento marcou simbolicamente o início de uma nova etapa na forma como a cidade acolhe e acompanha as famílias em luto, reforçando o compromisso de Lisboa com a dignidade, a inclusão e o respeito pela diversidade cultural e religiosa. A inauguração foi também assinalada pelo lançamento de uma edição especial deste Boletim.

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INVESTIGAÇÃO SOBRE CARTAS DE LUTO APRESENTADA NO CONGRESSO INTERNACIONAL EM ARQUEOLOGIA PÓS-MEDIEVAL De 10 a 13 de Abril decorreu, no Museu Nacional de Arqueologia e no Museu de Marinha, o Congresso Internacional em Arqueologia Pós-Medieval 2025. Na manhã de 12 de Abril foi apresentada a investigação Loneliness and love: ten years of a grieving husband’s letters, por Joel Santos e Tânia Casimiro, em parceria com a DGC. Neste trabalho foi analisado um conjunto de cartas de luto, encontradas num jazigo abandonado, escritas por um homem cuja esposa faleceu. A sua leitura e análise permitem uma reflexão sobre a solidão humana e a viuvez, integrando-se este estudo num projecto mais amplo actualmente em desenvolvimento.

Joel Santos durante a apresentação no Mosteiro dos Jerónimos

Este trabalho reforça ainda a importância de uma articulação constante entre a investigação académica e as instituições públicas, permitindo aprofundar o conhecimento sobre práticas funerárias e memória social e valorizando a colaboração interdisciplinar que sustenta estes estudos.

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VISITA AO TEMPLO RADHA KRISHNA DA COMUNIDADE HINDU DE PORTUGAL No dia 30 de abril, na sequência da inauguração do Edifício Saudade, a chefe da Divisão de Gestão Cemiterial, Dr.ª Sara Gonçalves, acompanhada pela coordenadora do edifício, Dr.ª Eugénia Abrantes, e pelo técnico superior Dr. Rui Maurício, visitou o Templo Radha Krishna da Comunidade Hindu de Portugal. Esta visita permitiu aprofundar o conhecimento das práticas e rituais religiosos, em particular os associados à morte, contribuindo para uma melhor adequação das respostas às necessidades desta comunidade na utilização do Edifício Saudade.

Visita ao Templo Radha Krishna

Este trabalho de estudo e aprendizagem sobre os rituais das diferentes comunidades religiosas presentes em Lisboa tem vindo a ser desenvolvido no âmbito da preparação da abertura do Edifício Saudade, encontrando-se actualmente em fase de conclusão uma publicação que reunirá os resultados deste processo.

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Fotografia: Victor Henriques, 2025

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VISITA DOS ITINERÁRIOS CULTURAIS DO CONSELHO DA EUROPA Entre os dias 11 e 13 de junho, reuniram-se representantes europeus dos Itinerários Culturais do Conselho da Europa para uma Training Academy, organizada pela Destination Napoleon e pela ITER VITIS, em conjunto com a Rota Histórica das Linhas de Torres e a Associação dos Municípios do Vinho. Após o programa oficial, que decorreu em Torres Vedras, Arruda dos Vinhos e Vila Franca de Xira, foram organizadas várias visitas temáticas, incluindo uma visita ao Cemitério dos Prazeres, em Lisboa.

Visita no Cemitério do Prazeres Imagem: Catarina Oliveira

Durante a manhã do dia 14, os participantes tiveram oportunidade de conhecer aquele que é considerado o mais emblemático cemitério de Lisboa, com destaque para as especificidades culturais associadas à morte e aos rituais funerários em Portugal. A visita incluiu ainda o Jazigo dos Duques de Palmela. Esta iniciativa contribuiu para recordar a importância dos cemitérios históricos, reforçando o seu valor enquanto espaços de património, memória e diálogo intercultural, e promovendo a sua valorização no contexto das rotas culturais do Conselho da Europa

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PATRIMÓNIO CEMITERIAL EM DÍALOGO ENTRE LISBOA E PORTO ALEGRE Foi publicado no Brasil, pela Santa Casa da Misericórdia de Porto Alegre, um novo volume da série Experimentações, com apoio financeiro do Governo dos Açores. Dedicado ao património, o volume intitula-se Experimentações do Patrimônio – Interfaces e Conexões Atlânticas e pode ser descarregado gratuitamente no site do Centro Histórico Cultural da Santa Casa de Porto Alegre. Entre os vários artigos reunidos no livro encontrase Patrimônio artístico-funerário de Porto Alegre, Rio Grande do Sul (Brasil) e Lisboa (Portugal), escrito em parceria por Luiza Neitze de Carvalho e Gisela Monteiro, dedicado ao património cemiterial e à comparação entre as duas realidades. As autoras identificam pontos de contacto entre o património funerário de ambas as cidades, apresentando artistas e canteiros portugueses activos no Brasil, bem como «brasileiros torna-viagens» — portugueses que regressaram a Portugal após longos anos no Brasil — trazendo consigo influências estéticas e culturais que se reflectem nos mausoléus que mandaram edificar. Em paralelo, são destacadas práticas de divulgação e promoção do património cemiterial desenvolvidas em ambos os lados do Atlântico.

As autoras: Gisela Monteiro e Luiza Neitze de Carvalho

Este volume reforça a relevância de promover diálogos transatlânticos no estudo do património, estimulando abordagens comparativas que enriquecem a compreensão das heranças culturais partilhadas e contribuem para o reconhecimento do património cemiterial como um campo de investigação emergente e um espaço de memória com dimensão internacional.

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Cemitério do Alto de São João - Símbolos e mitos da antiguidade clássica - como identificar? por André Ferreira

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4.ª SEMANA CULTURAL NOS CEMITÉRIOS

A 4.ª Semana Cultural nos Cemitérios decorreu de 18 a 26 de outubro de 2025, reafirmando os cemitérios como espaços de património, arte e reflexão, abertos à comunidade e a novas formas de experiência cultural. Coordenado pela Câmara Municipal de Lisboa, o programa estendeu-se por todo o país, envolvendo uma ampla rede de parceiros e municípios. Em Lisboa, as actividades tiveram lugar nos Cemitérios dos Prazeres e do Alto de São João — ambos classificados pela ASCE como cemitérios de relevância significativa — bem como nos Olivais, Lumiar e Carnide. Entre os destaques esteve a oficina de filosofia para crianças e famílias, que mais uma vez convidou os participantes a explorar a vida e a mortalidade através do diálogo e da criatividade, e a sessão de observação de aves no Cemitério de Carnide, oferecendo uma nova perspetiva sobre a vida natural que prospera nestes espaços.

À descoberta das aves no Cemitério de Carnide por Luis Gordinho

O programa incluiu ainda as aguardadas visitas noturnas e o Dia Aberto no Cemitério dos Prazeres, em parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que recebeu centenas de visitantes para explorar jazigos e monumentos notáveis normalmente encerrados ao público. Nesta ocasião, foram distribuídos folhetos bilingues gratuitos (português e inglês), apoiando a descoberta da história do local e da sua notável arte funerária.

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A programação contou igualmente com a participação do Panteão Nacional, gerido por Museus e Monumentos de Portugal, e do Museu de São Roque, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, cujas visitas integradas na Semana Cultural registaram uma elevada procura.

Panteão Nacional

Igreja de São Roque

Entre as actividades mais concorridas destacaram-se as visitas temáticas Figuras Forenses — que exploraram casos criminais reais que marcaram a sociedade portuguesa nos séculos XIX e início do XX, assim como a vida de investigadores, juristas e criminologistas — e Pessoas em Pessoa, dedicada ao poeta Fernando Pessoa, à sua família e amigos.

Visita temática Figuras Forenses Imagem: Daniela Conceição/CML

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Para além de Lisboa, o evento expandiu-se a outros dez municípios — Setúbal, Palmela, Vila Franca de Xira, Barreiro, Caldas da Rainha, Figueira da Foz, Santarém, Torres Vedras, Aveiro (através do Museu Funerário Fernando Oliveira) e Porto (através da Irmandade da Lapa, que gere o Cemitério da Lapa, igualmente classificado pela ASCE).

Cemitério dos Capuchos, Santarém Imagem: Câmara Municipal de Santarém

Cemitério Irmandade da Lapa, Porto Imagem: Irmandade da Lapa

Cemitério de Nossa Senhora da Piedade, Setúbal

Centro Crematório de Aveiro Imagem: Museu Funerário Fernando Oliveira

Um dos momentos altos da semana foi a 1.ª Conferência Interdisciplinar sobre Cemitérios, realizada a 24 de outubro, em Lisboa.

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Centenário do Crematório do Alto de São João

A Semana terminou com a celebração do centenário do Crematório do Alto de São João, marco assinalado pelo lançamento de uma edição especial deste Boletim especialmente dedicada a essa efeméride. A boa recepção e participação nesta 4a edição confirma o crescente interesse do público e das instituições pelos cemitérios enquanto espaços culturais, educativos e de encontro. A 5.ª Semana Cultural nos Cemitérios já está agendada para 2026, decorrendo de 10 a 18 de outubro, prometendo reforçar esta dinâmica e alargar ainda mais o diálogo entre património, comunidade e território.

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LISBOA ACOLHEU A 1.ª JORNADA INTERDISCIPLINAR SOBRE CEMITÉRIOS No dia 24 de outubro de 2025, Lisboa recebeu a 1.ª Jornada Interdiscip linar sobre Cemitérios, reunindo cerca de 90 participantes, entre académicos, investigadores e profissionais de património, num debate dedicado à memória, à identidade urbana e ao papel dos cemitérios enquanto espaços culturais e sociais. O evento, que decorrer no auditório dos Serviços Sociais da Câmara Municipal de Lisboa, contou com comunicações e mesas redondas que exploraram diferentes abordagens disciplinares, incluindo arqueologia, história, arquitectura, estudos culturais e conservação do património funerário. Foram discutidos temas como a preservação de mausoléus e esculturas, a documentação de cemitérios históricos, a relação entre memória coletiva e espaço urbano, bem como estratégias de divulgação e envolvimento da comunidade. Organizada no âmbito da 4.ª Semana Cultural nos Cemitérios, a jornada constituiu um espaço de partilha de experiências e boas práticas entre profissionais e académicos, reforçando a importância da colaboração interdisciplinar para a valorização e estudo dos cemitérios enquanto património vivo. O encontro sublinhou também a necessidade de uma articulação contínua entre investigação académica e políticas públicas, promovendo cemitérios não apenas como locais de descanso, mas como espaços de cultura, educação e reflexão social.

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Fotografia: Victor Henriques, 2025

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LISBOA GREEN HUB INTEGRA SUSTENTABILIDADE E PATRIMÓNIO CEMITERIAL

A Câmara Municipal de Lisboa lançou no dia 23 de Setembro a plataforma digital Lisboa Green Hub, reunindo informação sobre Ambiente, Sustentabilidade, Clima e Economia Circular, com acesso a projetos, actividades e recursos educativos da cidade. A plataforma inclui ainda os sete cemitérios municipais, disponibilizando conteúdos das visitas guiadas, bem como folhetos e mapas em PDF para download gratuito, permitindo ao público explorar estes espaços culturais e patrimoniais à distância. Entre os recursos estão materiais que apresentam a história, a arte funerária e os itinerários de visita, valorizando o património cemiterial e incentivando a participação da comunidade.

Com navegação simples e ferramentas interativas, o Lisboa Green Hub reforça a sensibilização ambiental, promove práticas sustentáveis e aproxima a comunidade do património e da cultura urbana, combinando educação, descoberta e inovação digital.

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BIODIVERSIDADE DOS CEMITÉRIOS DE LISBOA NO ENCC 2025

No dia 13 de novembro de 2025, durante o 3.º Encontro Nacional de Ciência Cidadã (ENCC), foi apresentada a investigação Biodiversidade dos Cemitérios de Lisboa, conduzida por Luís de Oliveira Gordinho, técnico superior do Núcleo de Monitorização Ambiental, Energética e de Sustentabilidade, em colaboração com DGC, ambos da Direção Municipal de Ambiente, Estrutura Verde, Clima e Energia da Câmara Municipal de Lisboa. O trabalho destacou o papel dos cemitérios como habitats urbanos relevantes para fauna e flora, sublinhando a importância da articulação entre investigação científica e ciência cidadã para a monitorização e preservação da biodiversidade.

Fotografia: Patrícia Tiago/ Biodiversity4All

A participação integrou o programa do ENCC 2025, realizado em Oeiras, reunindo investigadores e cidadãos interessados na promoção de práticas de ciência e educação ambiental. O estudo reforça a relevância de considerar os cemitérios não apenas como espaços de memória e cultura, mas também como áreas de conservação urbana, onde a colaboração entre cidadãos e investigadores contribui para a valorização da biodiversidade e para a promoção de cidades mais sustentáveis e conscientes do seu património natural.

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CONFERÊNCIA CIVITAS MORTUORUM DEDICADA À ARQUITECTURA CEMITERIAL DE LISBOA

No dia 9 de Dezembro de 2025 realizou-se, no Museu Arqueológico do Carmo, em Lisboa, a conferência Civitas Mortuorum: Uma Síntese da Mimése Artística da Arquitectura da Cidade na Arquitectura do Cemitério, organizada pela Comissão de Estudos Olisiponenses da Associação dos Arqueólogos Portugueses. A conferência foi proferida por Gisela Monteiro e teve por base a sua dissertação de mestrado em História da Arte, desenvolvida na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH), dedicada à análise da arquitectura cemiterial enquanto reflexo das dinâmicas urbanas e artísticas da cidade.

Ao longo da sessão foram abordadas as relações entre a arquitectura da cidade e a dos cemitérios públicos, evidenciando a forma como estilos, modelos e linguagens arquitectónicas urbanas foram transpostos para os espaços funerários, ao longo de mais de um século de evolução urbana. A iniciativa reuniu investigadores, profissionais e público interessado em património, arquitectura e história urbana, contribuindo para aprofundar a reflexão sobre os cemitérios enquanto espaços culturais integrados no tecido da cidade.

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Fotografia: Victor Henriques, 2025

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VICTOR

HENRIQUES

Nascido em Lisboa em janeiro de 1971, licenciado em Serviço Social pelo Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa, descobriu o seu interesse e paixão pela Fotografia aos 10 anos de idade com a velhinha máquina Kodak de seus pais. Fotógrafo amador, poeta de Facebook e Assistente Social por vocação, procura na linguagem urbana, solitária e poética da street photography os íntimos segredos filosóficos da

existência humana, feita de sombras obscuras, movimentos fugazes, paisagens banais e pessoas anónimas. Se fotografar é "colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração" (Henri Cartier-Bresson), para VH, a Fotografia é também a prova definitiva de que as coisas aparentemente efémeras podem afinal de contas, tornarem-se eternas. "Fotografar Cemitérios" sempre foi para mim bem mais do que a mera fotografia casual. Talvez a questão real seja uma procura filosófica e gire em torno de como sinto o vazio. Mas qual "vazio"?... O vazio da vida, da esperança, o vazio existencial que a Morte afinal substancia. E o curioso é que a Fotografia que faço nos Cemitérios com o seu olhar frio da objectiva, surpreende-me sempre bastante, pois ao invés de encontrar esse "vazio", verifico que as fotos que trago são afinal de uma realidade preenchida: pela beleza, pela arte, pelas ideias e pelo Tempo.

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FICHA TÉCNICA

PROPRIEDADE:CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA | DIREÇÃO MUNICIPAL DO AMBIENTE, ESTRUTURA VERDE, CLIMA E ENERGIA | DIVISÃO DE GESTÃO CEMITERIAL EDIÇÃO: DGC COORDENAÇÃO: SARA GONÇALVES PESQUISA, CONTEÚDOS: ANA MOREIRA, EMA CÂMARA, GISELA MONTEIRO, SARA GONÇALVES E VENÍLIA CAEIRO DESIGN: INÊS RIBEIRO APOIO NA REVISÃO : DAVID BILÉU DGC- DIVISÃO DE GESTÃO CEMITERIAL-R. DO RIO ZEZERE 1600-755 LISBOA PERIODICIDADE: SEMESTRAL | FORMATO: DIGITAL

DGC - DIVISÃO DE GESTÃO CEMITERIAL - R. RIO ZEZERE 1600-755 LISBOA NÚMERO ESPECIAL | FORMATO: DIGITAL

WWW.LISBOA.PT |CEMITERIOS@CM-LISBOA.PT


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