Circuitos da solidão

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CIRCUITOS DA SOLIDÃO

Entre a clínica e a cultura

Circuitos da solidão, 3. ed.

© 2025 Bernardo Tanis

1ª edição, 2003; 2ª edição, 2004

Editora Edgard Blücher Ltda.

Publisher Edgard Blücher

Editor Eduardo Blücher

Coordenação editorial Rafael Fulanetti

Coordenação de produção Ana Cristina Garcia

Preparação de texto Ariana Corrêa

Diagramação Mônica Landi

Revisão de texto Equipe de produção

Capa Juliana Midori Horie

Imagem da capa Equipe Editora Blucher

Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br

Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.

É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora.

Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570

Tanis, Bernardo

Circuitos da solidão : entre a clínica e a cultura / Bernardo Tanis. – 3. ed. – São Paulo : Blucher, 2025.

184 p. : il.

Bibliografia

ISBN 978-85-212-2625-3 (Impresso)

ISBN 978-85-212-2626-0 (Eletrônico – Epub)

ISBN 978-85-212-2623-9 (Eletrônico – PDF)

1. Psicanálise. 2. Solidão. 3. Subjetividade. 4. Psicanálise e cultura. 5. Clínica psicanalítica. I. Título.

CDU 159.964.2

Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise

CDU 159.964.2

1. Solidão e subjetividade

O homem das épocas anteriores encontrava-se na dependência de poucos outros homens, mas estes outros eram individualmente bem definidos e impermutáveis, enquanto hoje em dia dependemos muito mais de fornecedores, mas podemos permutá-los a nosso bel-prazer. Precisamente uma tal relação tem de gerar um forte individualismo, pois não é o isolamento em si que aliena e distancia os homens, reduzindo-os a si próprios. Pelo contrário, é uma forma específica de se relacionar com eles, de tal forma que implica anonimidade e desinteresse pela individualidade do outro, que provoca o individualismo.

(Simmel, O dinheiro na cultura moderna,1896)

Considerações gerais

Os estudos sobre a subjetividade moderna e principalmente as transformações na subjetividade são objeto de interesse de várias áreas do conhecimento, até mesmo da criação de novos campos de pesquisa. Do pioneiro trabalho de Norbert Elias, O processo civilizador (1985/1994a), às arqueologias de Foucault, passando pelo estudo da

infância por Ariès, às ricas pesquisas do grupo de historiadores franceses dedicado à história das mentalidades até os curiosos e interessantes relatos sobre a era vitoriana inventariados por Peter Gay, enfim um sem-número de trabalhos já consagraram a tese de que a subjetividade humana se molda e se transforma ao longo da história.

Ainda estamos longe de tirar todas as consequências e proveitos dessas constatações para a psicologia e as práticas clínicas, entre elas a psicanálise. O que predominou foi o espírito de construtivo e crítico, apontando muitas vezes como as práticas clínicas se consideravam a-históricas e estavam impregnadas de ideologia. Isso, sem dúvida, foi importante em um primeiro momento, pois favoreceu a percepção de até que ponto analistas e outros profissionais da psicologia reificavam seus conceitos ou universalizavam suas teorias indiscriminadamente.

No entanto, nos dias de hoje, sujeitas à desconstrução de certezas do passado e à profusão de teorias sobre o pós-modernismo, as práticas clínicas parecem estar em busca de sua identidade, seja quanto a seus modelos epistemológicos, seja quanto à própria proposta terapêutica. Diante desse quadro, muitas vezes angustiante e desorganizador, soluções apressadas se proliferam. O significante “contemporâneo” é encontrado em praticamente todos os congressos e cursos oferecidos. Como se, ao falar de psicanálise, sem acrescentar o contemporâneo, estivéssemos falando de alguma prática de um passado remoto. Não ouvimos falar em “química contemporânea” ou “matemática contemporânea”. Que fenômeno é esse que está afetando nossa prática e sua representação? Ou, reformulando a questão, será possível para o analista pôr para trabalhar esse imenso manancial aberto pelas ciências sociais e históricas, pelas pesquisas genealógicas? Quando penso em “pôr para trabalhar”, parafraseando mais uma vez a já consagrada expressão de Laplanche, não me refiro à maquiagem de acrescentar o “contemporâneo” ao já conhecido, como as montadoras de automóveis o fazem com modelos que já circulam há

vinte anos para garantir o mínimo de investimento possível e mais alguns outros de sobrevida. Penso na possibilidade de um diálogo fecundo com a prática clínica e os modelos conceituais e epistemológicos com os quais operam a psicanálise e outras psicoterapias. Essa não é tarefa para uma pessoa, talvez seja o projeto de uma geração, que confrontada com essas questões, não pode se omitir.

Se nos propomos a ampliar o estudo da solidão para além do âmbito específico da psicanálise é porque a consideramos um fenômeno cultural, polifônico e polissêmico, que tem características singulares na modernidade e que seu conhecimento pode trazer um alargamento da compreensão desses estados para o analista e, talvez, esta é minha proposta: enriquecer e aprimorar a compreensão e a clínica desses estados.

Richard Sennett, em um Seminário (proferido com Michel Foucault), apontou seu interesse em estudar a evolução das experiências de solidão como forma de abordar um tema mais amplo e complexo: o desenvolvimento da subjetividade na cultura moderna.

Ainda que não tenha concretizado sua ideia, ele ressaltou as conexões que podem ser estabelecidas entre ambas as esferas, e mais, apresenta de modo irredutível a experiência da solidão como experiência cultural.

Embora a existência da solidão date de tempos remotos, sua experiência obedeceu a diferentes modalidades, assim como seu enfrentamento seguiu diversas estratégias. Ainda mais, o lugar que ocupou e o valor que obteve como experiência subjetiva foram objetos, e ainda o são, de mudanças significativas. No entanto, sua atualidade é inegável, atualidade compreendida nas palavras de Katz (1996): “O que importa é marcar que, pelo fato de alguma coisa nos afetar no presente, isto se impõe como um sinal de que ela insiste em ser examinada, e que o chamado do presente nunca deve ser abandonado” (p. 27).

2. Manifestações da solidão

Introdução

A literatura oferece-nos belas e inquietantes páginas nas quais o tema da solidão é abordado. A psicanálise e a literatura, a começar por Freud, guardam estreitos pontos de contato na tentativa de aproximação da alma humana. Mais nova, a primeira bebe nas fontes da segunda em alguns momentos. Como novo campo de conhecimentos, a psicanálise advogou-se direitos excessivos. Hoje mais madura, menos onipotente, ela pode conviver de um modo menos redutor ao lado dessa fascinante criação do homem.

Acerca da relação entre a psicanálise e a literatura, Ana Cecília Carvalho (1999, p. 59), em um denso e rico trabalho, examina a relação entre ambas focando sua atenção nos limites e possibilidades de uma crítica psicanalítica da Literatura, embora esta não seja a proposta deste livro. Desde Freud, passando por Green, Lacan e Kristeva, todos apontam para as multiplicidades e tensões nesse campo. A leitura da obra de Ana Cecília Carvalho foi extremamente proveitosa,

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pois auxiliou na discriminação do uso que farei da literatura neste livro. Não se trata aqui de interpretar a obra para atingir a subjetividade do autor nem de fazer do texto literário o equivalente ao material associativo de uma sessão de análise. Reconhecemo-nos nas palavras de François Anserment, citado pela referida autora: “Lido de certo modo pelo texto, o leitor não pode acantonar-se na sua interpretação; já o texto o interpreta na medida em que o faz falar” (Carvalho, 1999, p. 67). Os textos nos farão falar das solidões, de psicanálise, da clínica, da cultura.

Se me valho da literatura neste capítulo, será para aprender com ela, obter dela aquilo que aporta ao conhecimento da subjetividade, aquilo que retrata, que nos comove e move a pensar, o que instiga e surpreende, o que gera identificação.

Não é tarefa fácil escolher, dentre a riqueza de material disponível, uma obra para dar o pontapé inicial a este trabalho. No entanto, sempre existe alguma que nos cativa, ou que produz um efeito especial, seja na primeira leitura ou nas subsequentes releituras.

A escolha recai sobre uma série de contos escritos entre o fim do século XIV e início do século XX. Nesse período, a literatura revela muitos dos impasses do sujeito na modernidade, todavia não mais na tentativa de buscar o reencantamento do mundo, como seria no movimento romântico. Pelo contrário, é feita uma abordagem mais realista, crua, que recorre muitas vezes ao fantástico para dele extrair a face mais sombria do Eu em crise. Trata-se também do período em que Freud produz sua obra. Freud já falara sobre essas relações entre o escritor e o psicanalista, comentando que o escritor Arthur Schnitzler era uma espécie de duplo seu. Serão esses indivíduos, sob o impacto da modernidade, que se deitarão no divã freudiano.

Do imenso e apaixonante repertório, alguns autores foram escolhidos sem a pretensão de serem os mais representativos, embora seus nomes façam parte de qualquer boa antologia do referido

manifestações da solidão 59 período. A escolha, muitas vezes, está pautada por um gosto pessoal pela clareza, acuidade e fineza dos relatos, assim como por um pingo de ironia, que os torna fascinantes e nada ingênuos. Espero que o leitor também encontre neles fonte de inspiração e reflexão. Não se trata de retomar os contos sob a chave de uma longa tradição de crítica literária – afinal são contos essenciais para a história da literatura e foram exaustivamente trabalhados, analisados. Mas há um interesse específico voltado para o estudo da solidão, que não contempla essas outras leituras e que a contribuição desses escritores parece extremamente valiosa.

Os contos serão apresentados por meio de sínteses e citações. Cientes de que nada substitui a leitura dos originais, optei por não ficar paralisado por esse fato e procurei transmitir ao leitor o foco da obra que, a meu ver, ilumina o tema da solidão. Após o relato do conto apresentarei um breve comentário para destacar alguns aspectos da solidão aos quais o conto alude, e evocar algumas imagens de solidões de que tomamos conhecimento por intermédio de nossos analisandos. No Capítulo 3, ao discutir psicanálise e solidão, retomarei os contos como subsídios para minha hipótese ligada às múltiplas formas dessa solidão.

Ainda que esta primeira apresentação e comentários já constituam uma amostra da riqueza e multiplicidade de forma que a solidão vem desenvolvendo desde a modernidade.

O homem da multidão, Edgar Allan Poe (1809-1849)

Essa grande desgraça, de não poder estar sozinho.1 (La Bruyére, como citado em Poe, 1978)

1 Ce grand malheur, de ne pouvoir être seul.

3. Solidão e psicanálise

Ameaçadora para sua sobrevivência, a solidão não largará mais esse homem, essa mulher; separados pela primeira vez depois de nove meses de convivência afinada com a mãe, que é arrebatada por esse grito de solidão primeira, por esse grito de necessidade dela, esse grito de vida que, para ela é a primeira linguagem de seu lactante.

(Dolto, Solidão, 1995/1998)

Panorama geral

Na clínica cotidiana deparamo-nos, como não poderia deixar de ser, com múltiplas modalidades de ser na solidão. Isso aponta para certas particularidades de organização do psiquismo. Nem sempre a pesquisa psicanalítica direcionou seu foco para investigar certos estados afetivos. Aspectos estruturais e dinâmicos foram privilegiados, o estudo dos sentimentos estaria, para alguns autores, mais próximo de uma fenomenologia das emoções.

Na minha experiência clínica e na de outros colegas tenho constatado a insistência dessa temática no trabalho analítico com diferentes analisandos. Percebo modalidades singulares da solidão emergirem nas suas vidas e no contexto transferencial.

Foi por ocasião da redação de um trabalho clínico, a respeito da análise de uma jovem paciente, que entrei em contato com o trabalho de Rosalato (1974): um interessante texto dedicado ao estudo do que ele denomina “Psicopatologia da solidão”. Na época chamava muito minha atenção o uso que essa paciente fazia dos seus sentimentos ligados à solidão, um masoquismo que se instalava na sessão e os convites velados ou explícitos a participar de seu sofrimento, conduzindo o analista a sensações de fracasso e desalento.

Rosalato abriu a perspectiva para o estudo das diferentes modalidades de solidão e do uso que o sujeito pode fazer dessa na relação com o outro. Há uma ênfase nos aspectos narcísicos e sadomasoquistas inerentes a certos estados de solidão. A abordagem estrutural realizada por Rosalato o leva a privilegiar a função da solidão em diferentes estruturas clínicas: histeria, neurose obsessiva, perversões e psicoses. Esse trabalho abriga um particular interesse na medida em que alude à solidão não apenas como estado ou afeto, mas como uso inconsciente (estratégia) que o analisando pode fazer dela. Teremos oportunidade de discutir suas ideias posteriormente, apenas o apresento neste momento pelo seu poder inspirador, para me aventurar nessas paragens desertas, porém cheias de vida.

Ao constatar a limitação de qualquer tentativa redutora que vise homogeneizar esses estados e sentimentos ou afetos a eles ligados, tenho optado por uma atitude investigativa na qual me percebo um visitador de solidões. Nesse território lidamos com campos subjetivos nos quais se destacam temas fundamentais da teoria psicanalítica como: separação, ausência, narcisismo, identificação, dependência, autonomia, capacidade de simbolização e sublimação.

Ao longo do período da pesquisa, realizei um levantamento bibliográfico de trabalhos psicanalíticos voltados para o tema. Os autores serão solicitados no decorrer do texto, à medida que puderem esclarecer certos aspectos das solidões visitadas. Neste capítulo aponto apenas alguns trabalhos clássicos, que servem de referência básica para um pensamento metapsicológico sobre a solidão. Não pretendo ser exaustivo, viso apresentar as perspectivas a partir das quais a solidão foi encarada como objeto de reflexão, criando assim um campo comum com o leitor, com base no qual tentaremos aprofundar nossa compreensão. Acima de tudo iluminar, por meio dos textos, casos e teoria, regiões da subjetividade humana nas quais a solidão se faz presente. Procurar compreender de que forma ela o faz e como ela é e como os sujeitos lidam com ela.

Freud não dedicou à solidão um trabalho específico. Ela é associada, no início da sua obra, a outras duas situações que falam das angústias infantis: o silêncio e a escuridão. Assim, se solidão é associada à angústia na vida infantil será preciso compreender o que liga seus destinos.

Encontramos uma referência esclarecedora:

Muitas dessas fobias são deveras enigmáticas para nós; contudo, outras, tais como o medo de estar só e o medo de estranhos, podem ser explicadas de forma convincente. As solidões, assim como um rosto estranho, despertam na criança um anelo por sua mãe, a quem conhece tão bem: a criança é incapaz de controlar sua excitação libidinal, não consegue mantê-la em suspenso e transformá-la em angústia. Essa angústia infantil deve, pois, ser considerada não como pertencente ao tipo realístico, e sim, neurótico. As fobias infantis e a expectativa ansiosa da neurose de angústia nos oferecem dois exemplos da maneira como se origina a angústia neurótica: transformação direta da

4. Solidão e mal-estar

Sempre haverá um dia em que o pensamento se libere, em que grupos exprimam seu desejo, em que os homens, que saberão ser sós e não souberam suportar a solidão imposta, pôr-se-ão a falar ao mesmo tempo e a construir novos projetos. São eles realizáveis? Impossível responder a uma pergunta dessas. (Enriquez, 1998)

Mal-estar e desamparo

A cultura, como contexto indissociável, está sempre presente no processo de simbolização, logo na estruturação da subjetividade individual. Os diferentes contextos histórico-culturais, como foi possível observar no primeiro capítulo, ganham poder estruturante no binômio solidão e subjetividade. Assim, essa abordagem também nos auxilia na compreensão da questão da solidão no mundo contemporâneo, dominados por uma tecnologia massificante e por saídas narcísicas. Neste capítulo, procuraremos apontar algumas correlações entre certos traços da nossa cultura e a experiência da solidão.

144 circuitos da solidão: entre a clínica e a cultura

Gostaria de retomar aqui a distinção feita por Mezan, assinalada na introdução deste livro, sobre o termo subjetividade. Ela poderia ser compreendida como experiência de si ou como condensação de uma série de determinantes. Essa segunda acepção é a que nos interessa no momento, à medida que situa o que entendemos por contexto.

Essa perspectiva é suficientemente ampla e esclarecedora para nossos objetivos, quais sejam, destacar esse movimento que vai do mundo para o Eu individual, e contribui para sua conformação, sem cair nas teorias ultrapassadas que opõem psique e mundo, ora vendo o segundo como projeção do primeiro, ora vendo a primeira como determinada exclusivamente pelas forças do segundo.

O primeiro capítulo deste livro aponta os ideais sobre os quais foi construída a ideia de Modernidade: a emergência do individualismo, a fé na razão e na ciência, o liberalismo como doutrina econômica. A esse longo, mas firme processo, que leva à consolidação da individualidade se contrapõe o Modernismo. Como aponta Birman (2000):

Com efeito, com o modernismo, os reinos do eu e da razão são postos em questão. Sua soberania e sua autonomia caem por terra, atingidos mortalmente em sua soberba. (p. 117)

Marx, Freud e Nietzsche são os autores que marcaram a crítica da modernidade e de suas promessas. Isso porque tanto no campo da economia e da consciência como no da produção da verdade, eles revelaram o descentramento do sujeito a partir das ideias de: luta de classes na história, das pulsões que desestabilizam a ilusão identitária e da dimensão do poder inerente à produção do conhecimento. Assim, conclui Birman (2000): “o modernismo é a consciência crítica da modernidade. Até mesmo sua autoconsciência” (p. 119).

Se há algo que se revela no movimento que o modernismo e sua crítica instauram é o desamparo do sujeito na modernidade, que de algum modo tinha sido enunciado pelo Romantismo e por sua proposta de reencantamento do mundo como tentativa de contrastar seu impacto, como apontamos no primeiro capítulo. Mas, se o Romantismo se constituiu como revolta, o Modernismo o faz de forma diferente: visando a uma crítica das falácias da modernidade.

Os contos trabalhados no segundo capítulo testemunham em parte essa crise, em que a solidão se faz sintoma. Os “circuitos da solidão”, por nós evocados, apontam alguns dos recursos que a psicanálise desenvolveu para mapear a subjetividade individual, para a qual a consciência e a ideia de um Eu unificado e racional naufragaram.

Embora Freud desenvolva a psicanálise no campo da subjetividade individual, está muito distante de ser um idealista. O homem, para Freud, está enraizado tanto no seu corpo biológico e pulsional, como nas instituições sociais normativas, que são matéria-prima na constituição desta subjetividade. Isso se revela em alguns textos fundamentais, talvez a mais conhecida seja a vertente pulsional, como apresentada nos Três ensaios sobre a sexualidade, Pulsões e seus destinos, Introdução ao narcisismo e Para além do princípio do prazer. Mas não menos importantes são seus trabalhos voltados para a cultura.

Se “Totem e tabu” (1913/1986m) pode ser considerado como o texto no qual Freud funda miticamente a emergência do simbólico na cultura, “O mal-estar na civilização (1930/1986f) será o texto que introduzirá a condição trágica do mal-estar inerente à condição pulsional do ser desejante. Não há harmonia possível entre pulsão e cultura, a não ser uma permanente gestão do conflito. Freud vai construindo o conceito de desamparo como correlato dessa condição.

Joel Birman é, entre nós, um dos autores mais dedicados à reflexão sobre a questão do mal-estar na modernidade e que tem procurado resgatar, em vários trabalhos, o pensamento freudiano nessa área.

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