Coletivo Escuta do Monte Verde

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Escuta do Monte Verde

Zine Clínicas de Borda

Coletivo escuta do Monte Verde

Coletivo escuta do Monte Verde, 2025

Editora n-1, 2025

Embora adote a maioria dos usos editoriais do âmbito brasileiro, a n-1 edições não segue necessariamente as convenções das instituições normativas, pois considera a edição um trabalho de criação que deve interagir com a pluralidade de linguagens e a especificidade de cada obra publicada.

Editores Chefes

Peter Pál Pelbart e Ricardo Muniz Fernandes

Coordenação editorial

Gabriel de Godoy

Projeto gráfico

Isabel Lee Fotos

Nicole Montaño

Organização da coleção

Andréa Guerra e Linnikar Lima

Coordenação da coleção

Andréa Guerra

Comissão editorial das Zines

Andréa Guerra

Linnikar Lima

Gustavo da Silva Machado

Jairo Carioca de Oliveira

Luis Henrique Mello

Luísa Ribeiro Lamardo

Marcela de Andrade Gomes

Maria Elisa da Silva Pimentel

Maria Izabel dos Santos Freitas

Miguel Pinheiro Gomes

Renata Santos Cravo

Vanessa Solis Pereira

Edição e revisão

Luis Henrique Mello

A reprodução parcial deste livro sem fins lucrativos, para uso privado ou coletivo, em qualquer meio impresso ou eletrônico, está autorizada, desde que citada a fonte. Se for necessária a reprodução na íntegra, solicita-se entrar em contato com os editores.

1ª edição | Novembro, 2025 n-1edicoes.org

Zines Clínicas de Borda

Coleção:

1. Coletivo de Psicanálise de Santa Maria (Santa Maria/RS)

2. Pontes da Psicanálise (Recife/PE)

3. Dispositivo de Escuta Periphérica Xica Manicongo (Campo Grande/RJ)

4. QUIMERA: Circulando afetos (Niterói/RJ)

5. Psicanálise na Praça da Alfândega (Porto Alegre/RS)

6. Coletivo de Psicanálise Itinerâncias (Porto Alegre/RS)

7. Ateliê das Migrações (Florianópolis/SC)

8. Rede DIVAM (São Paulo/SP)

9. Coletivo psicanalítico Café Borromeano (São Paulo/SP)

10. Coletivo escuta do Monte Verde (Florianópolis, SC)

COLEÇÃO DE ZINES DAS CLÍNICAS DE BORDA BRASILEIRAS

Freud modifica seu olhar sobre o inconsciente ao longo de sua obra: se, no início, o pensou como profundidade, ao fim nos indica que o inconsciente pulsa nas margens. É desse lugar que nasce a Coleção de Zines das Clínicas de Borda Brasileiras, aberta a novos fascículos, fruto da experiência compartilhada de psicanalistas inconformadxs com as respostas de sua clínica e de sua formação diante da realidade nacional marcada pela brutalidade e pela violência estrutural. Reúne experiências múltiplas e plurais, sem reduzi-las a um “mínimo comum”; ao contrário, afirma o vigor da práxis psicanalítica na transformação de sujeitos, processos, espaços públicos, modos de pertencimento e participação, e nos próprios caminhos de formação.

Nasceram da resistência dos movimentos plurais e das vidas teimadas nas periferias, favelas, praças, margens, estações, ocupações e quilombos. Erguem-se como resposta aos genocídios, suicídios, chacinas, feminicídios e homicídios, às violências do racismo e do desamparo, aos deslocamentos migratórios forçados. Seu fazer é da rua e com a rua: uma psicanálise que transgride as normas burguesas, sustenta o laço transferencial onde a vida pulsa e dá nome, com tempo e presença, a corpos apagados no cotidiano.

Reinstituem o necessário na teoria e na prática ao revisitar as clínicas públicas e populares desde os gestos inaugurais do campo freudiano, agora reviradas pela experiência da Améfrica Ladina. Em elipse, viram o espelho ao avesso, atravessam fronteiras disciplinares e urbanas, e marcam, em ato, o cinismo e a indiferença contemporâneos com novos arranjos de partilha e presença. Saem do consultório individual burguês para ocupar praças, escolas, centros comunitários e plataformas digitais, recebendo analisantes online e em cadeiras ao sol, escutando o sofrimento onde ele se enuncia.

Colocam o pagamento em xeque e não mais no cheque. Trazem a marca do território, da língua, dos sotaques e das

gírias que fazem o Brasil múltiplo, redistribuem-se em cada canto do país e tensionam a circulação do capital e as respostas do inconsciente diante das violações diárias. Interrogam os fundamentos da própria noção de clínica e a lógica excludente da formação do psicanalista, recolocando a psicanálise na polis: atravessada pelas margens, comprometida com o comum e responsável perante as vidas que insiste em escutar.

Elas não estão todas reunidas aqui; esta coleção permanece aberta, chamando novas presenças para seguir escrevendo esta história.

Como escutar um bairro?

Como transferir a clínica para a comunidade?

Como florescer num Monte Verde?

Como transformar a formação em psicologia e psicanálise?

Como estabelecer transferência com uma comunidade?

Como escutar com o corpo no território?

Eduardo, Edson, Ariel, Andrea, Karine, Nicole, Patrícia, Fabiana, Jade, Isadora, Vitória, Kler, Danrley, Martina, Marcella, Maurício, Oraide, Adriane, Gabriela, Caroline, Luana, Sara Gustavo.

Plantando sementes em um terreno já florido: a oportunidade de construir um jardim com a comunidade

O projeto Escuta do Monte Verde começou em 2023 como uma iniciativa de estudantes do curso de graduação em Psicologia da Universidade do Vale do Itajaí, campus Florianópolis. O curso em questão estava em implantação e sua primeira turma havia chegado aos estágios obrigatórios com ênfase em Práticas Psicoterapêuticas. Algumas inquietações surgiram: qual escuta estávamos oferecendo em um consultório que se baseia em uma proposta individualista da psicologia e da psicanálise? As pessoas do entorno da universidade acessavam nossa clínica ou a imagem, por vezes, a produtora de distanciamentos de uma universidade impedia esta aproximação?

Queríamos que o aprendizado da sala de aula tivesse sentido não só ali, mas que se somasse aos saberes comunitários e pudesse oferecer uma escuta implicada.

Com isso em mente, criamos um projeto de extensão que se baseou, desde o começo, na premissa básica do desejo: um grupo de estudantes e um professor, todos com desejo de escutar. Desejo legítimo de forjar a escuta no encontro, e não do teórico potencialmente deslocado da realidade local. A transmis são de uma clínica artesanal, sem espaço para manufaturas. Tanto que, desde o começo, há o questionamento se o que fazemos é, de fato, psicanálise. Porém, qual a necessidade de um enquadre rígido para isso? Estamos abertos para descobrir, no caminho e com a comunidade, o nome do que estamos construindo. Temos pistas de que seja esta psica nálise à brasileira, que tanto foi debatida nos zines da última coleção a partir de brilhantes experiências. Talvez este seja nosso horizonte e por isso estamos aqui.

O que chamamos hoje de Escuta do Monte Verde é um projeto que engloba diferentes intervenções em uma perspectiva radical e localizada, realizadas, em sua maioria, por estudantes do curso de graduação em Psicologia. Os estudantes estão em diferentes momentos do curso. Desde 2023, já contamos com um total de 21 estudantes e, atualmente, temos um grupo de 10. As atividades envolvem estágios obrigatórios e não obrigatórios, além de práticas de extensão.

Construímos, assim, espaço para uma clínica periférica, às margens de um saber soberano e colonial. Intencionalmente distantes de uma produção contemporânea de escutas fragmentadas e baseadas em produções diagnósticas sem condução efetivamente clínica. Buscamos desde o princípio uma clínica que se construa na relação e sem o privilégio dos espaços individualizados. Afinal, há que se pensar o sofrimento como algo construído cotidianamente, multideterminado e condicionado também pelas relações de desigualdade, opressão e violência. Aqui, um dos nossos maiores desafios: não há e nunca haverá uma receita para uma escuta que se produz com

Lançamos, a partir disso, alguns questionamentos: como estamos trabalhando a formação para a escuta em uma perspectiva radical na realidade brasileira? Quais estratégias de transmissão da psicanálise estamos utilizando para a garantia de uma prática que seja ética e politicamente implicada com o contexto territorial? Este texto buscará apresentar a experiência do nosso coletivo, que transita em fases de germinação, crescimento, colheita e poda.

Carregamos o nome do Monte Verde pois é neste bairro que realizamos nossas intervenções, que por meio do Conselho Comunitário do Monte Verde (CCMV), tivemos a feliz oportunidade de adentrar no território que é morada para mais de 8 mil pessoas. Este é um bairro da cidade de Florianópolis cuja história oficial data da década de 1980, marco de reconhecimento legal precedido por importante história local de ocupação legítima e espontânea.

Encrustado em um verdejante morro da Mata Atlântica, o bairro surge a partir de ocupações e, especialmente, da divisão territorial de outros dois bairros. À medida que os processos de gentrificação começaram a ganhar força, a região que hoje ganha o nome de Monte Verde passou a ser considerada pouco atraente pela especulação imobiliária, especialmente pelos marcadores da desigualdade que estavam presentes nas relações que ali eram estabelecidas. Por conta da vulnerabilização e precarização das condições de vida, os vínculos comunitários foram elo potente na sustentação do bairro, que passou a vivenciar também situações de violência.

É comum que os moradores vivenciem os efeitos psicossociais da violência em diferentes aspectos, seja associado ao tráfico de drogas ou a própria negligência do Estado, o que produz um vínculo muito particular entre os moradores e com o próprio território. Quando falamos de negligência do Estado, estamos nos referindo a questões de infraestrutura, saneamento básico, saúde e educação. De um lado, há bairros ricos com construções de alto padrão. De outro lado, as casas construídas de maneira colaborativa entre os moradores da região, nosso Monte Verde. Vemos, ao olhar para história, uma divisão territorial evidentemente socioeconômica, racial e, por que não, colonial. Este traço separatista se perpetua ainda e talvez especialmente na língua: para alguns, Monte Verde não

atravessado por aquilo que escapa às palavras do outro e que pulsa em seu corpo, em seu território, em sua fala, em sua presença. É fazer da escuta um espaço de invenção do desejo, que só pode emergir quando desmontamos os dispositivos que nos mantêm em uma escuta seletiva para manutenção da injustiça e da desigualdade.

Com isso, surgem as primeiras atividades do nosso coletivo. A partir de uma perspectiva de escuta coletiva e pública baseada na psicanálise, nos estudos decoloniais e na psicologia social latino-americana, pois compreendemos que a psicologia não deve servir apenas a uma urgência individualizante e patologizante do sofrimento psíquico, como indica Martín-Baró (1998). Há que se apostar em práticas de escuta que sejam coletivas, não apenas individuais, afinal, esta foi a inquietação inicial dos estudantes. Assim, começamos a semear neste Monte Verde, ainda incertos da colheita.

Nossas mudas e suas mudanças

Assim, surge a primeira e mais duradoura atividade: o grupo Acolher e Refletir. Este grupo acontece semanalmente desde 2023, todas as terças-feiras em uma sala que nos foi cedida pelo Conselho Comunitário. Utilizamos a ideia da escuta e da associação livre, portanto, é um grupo aberto do qual qualquer integrante da comunidade pode participar.

A mediação é sempre compartilhada entre, pelo menos, dois estudantes, sob orientação semanal com o supervisor. A ideia é que a escuta seja dividida e que ela circule. Temos uma participação flutuante e percebemos que há ciclos da escuta: há períodos de maior participação, especialmente quando há criação de vínculos significativos entre os participantes e, uma vez que eles são consolidados, que as amizades são criadas, a participação diminui. Ou seja, o grupo foi se posicionando também como um ponto de encontro e fortalecimento de vínculos que extrapolam as paredes da nossa sala. Sem imaginar, este pode ter sido um aprendizado prático sobre uma clínica ampliada ou, como sugere Carvalhaes (2019), uma clínica extramuros.

Porém, há participantes que são fixos, pois com certa regularidade aparecem para dar notícias: uma trouxe a novidade de ter conseguido terminar os estudos no Ensino de Jovens e Adultos e não se sentia mais como uma “analfabeta”; outro vem falar sobre como tem sido lidar com a perda precoce da filha; outra vem dizer que tem conseguido lidar com a distância da família e fortalecer vínculos comunitários... As histórias se entrelaçam e produzem um espaço que, de fato, sustenta a palavra e o desejo de ser ouvido, criando e perpetuando um dispositivo clínico-político de escuta.

Apesar de termos uma mediação que varia de encontro a encontro, percebemos que os participantes estabelecem uma transferência com o espaço, com o grupo, algo que sustenta a permanência nas atividades. Ao final de cada encontro, os participantes são convidados a registrar palavras que simbolizem a discussão e, com isso, temos construído um registro memorial dos temas que perpassam a escuta

oferecida. Inicialmente, produzimos cartazes que ficaram nas paredes da sala. Atualmente, utilizamos retalhos de tecidos para escrever a palavra e formar uma colcha de retalhos comunitária, que fica exposta em nossa sala.

Aliás, esta ideia dos retalhos surgiu em uma outra atividade direta na comunidade, especificamente na praça que fica próxima da sala onde trabalhamos. Com um grupo de seis alunas, interessadas pela escuta pública possível de ser oferecida pela perspectiva da psicanálise, produzimos um dispositivo clínico que se baseava na seguinte cena: um cavalete com perguntas disparadoras para chamar a atenção da comunidade e pessoas disponíveis para ouvir não só as respostas, mas também o que advinha delas, em associação livre.

A praça ganhou vezes de consultório. Foram muitas as histórias que circularam e, como iniciativa de trazer a memória como elemento central de reconhecimento público, produzimos uma colcha de retalhos que carrega consigo as palavras significativas que emergiram desta escuta. As pessoas escreviam, de próprio punho nos tecidos, a palavra que representava aquele encontro clínico. Foi nesta experiência que tivemos uma importante reflexão sobre o pagamento em espaços de clínicas públicas de psicanálise.

Um dos participantes quase que fixo das nossas atividades era um senhor que, diariamente, jogava xadrez na mesma praça onde oferecíamos escutas. A aproximação com ele, no começo, foi marcada com certa resistência. Afinal, “quem pode confiar num estranho para falar o

que sente?”. Como apresenta Freud (2013) em suas famosas recomendações, se queremos receber intimidade, precisamos entregar, em alguma medida, uma relação que também ofereça intimidade. Aos poucos, no tempo de uma transferência esculpida cuidadosamente sob uma matéria áspera e arredia, ele não só falava sobre seus sentimentos e aflições como, ao final da ação, deu um picolé para cada uma das integrantes do grupo. Em suas palavras, era uma retribuição pelo que havíamos oferecido a ele. Espaço de reconhecimento. Espaço de escuta. Sabemos que a questão do pagamento não se limita apenas a uma troca, há quem dê rios de dinheiro em sua análise e pouco invista nela. Debatemos em nosso grupo a potência da possibilidade que ele ofereceu a sua própria condição de sujeito que pode ser ouvido. Ele ofereceu seu tempo, sua história e investiu em si. O picolé não “pagou” a escuta. O picolé corporifica a transferência.

Também tivemos por um ano o grupo Olhares Entrelaçados, uma proposta de oficina de fotografia que teve o objetivo inicial de produzir um vínculo com o território e, sobretudo, conhecer o bairro. Também na sala que nos foi cedida pelo Conselho Comunitário, semanalmente, duas estudantes ofereciam um espaço de escuta inicial a partir de temas disparadores que eram selecionados pelos participantes e, depois de uma conversa, saíam para registrar fotografias no bairro, contando as suas histórias e, ao mesmo tempo, possibilitando ressignificar o espaço.

Durante as caminhadas, os participantes cruzavam com conhecidos e lugares que tinham significados para eles, trazendo à tona diversos elementos. No território, nos deparamos com a história dos ipês amarelos: um dos participantes passava propositalmente por aquela rua para ir ao mercado, mas ficou decepcionado ao ver os ipês serem cortados, sentimento também compartilhado por outros participantes. Ao falar disso e fotografar, as pessoas acessaram memórias e situações de luto que, agora, possuem o tom amarelado daquele ipê.

Houve também a senhora que nos levou até a rua de sua casa, apontando para ela, após dividir conosco, durante meses, o processo de uma reforma que precisou esperar quinze anos para acontecer. Na sua fala, a alegria de quem realizou um sonho. Na fotografia, a concretização do desejo. Também destacamos a adolescente que, durante as caminhadas, encontrava alguns de seus colegas da escola e se dava conta de como precisou crescer mais rápido que seus amigos por conta da situação familiar. Nenhum deles havia passado pelo que ela passou. Curiosamente, era a única adolescente em um grupo de pessoas, em sua maioria, com mais de 30 anos. De alguma forma, em suas palavras,

De acordo com Jorge Broide (2019), “escuta territorial” significa a necessidade de “colocar o próprio corpo” no território para escutar o outro. Se abrindo fisicamente e emocionalmente para o espaço em que vivem e trabalham, permitindo que o outro expresse suas histórias, sentimentos, recordações que pulsam por onde andam, captando sua relação com o ambiente e o passado que se torna vivo no presente.

Durante a saída para fotografar e no momento de retorno para compartilhar, apareciam as associações que os participantes faziam de suas vidas. A associação livre, elemento central na psicanálise, assim como a atenção flutuante, foi utilizada como um guia para a nossa escuta ao abrirmos mão de qualquer tentativa de ordenamento sobre o material que surgia. Pelo contrário, permitimos que este conduzisse nossa atenção, através do encadeamento das palavras que surgissem.

Trouxemos, assim, perguntas mais vagas e abertas, que serviam como disparadores do discurso dos sujeitos. Por exemplo, a senhora que fotografou um banco no tema “melancolia” e a fez falar sobre a importância das pessoas em nossas vidas. Para ela, a experiência da velhice,

infelizmente, era marcada por um sentimento de solidão, e não precisaria ser assim. Assim como quando fotografou, no tema “amizade”, um rapaz sentado sozinho que também a fez achar que ele estava solitário, identificando-se com a situação. Os significantes “alegria”, “resiliência”, “pressão” e “culpa” predominaram em muitas das discussões.

As lágrimas surgiram quando uma participante fotografou um tronco cortado (aquele mesmo ipê, lembram?), e o relacionou com sua vida, atravessada por diversas dificuldades e sofrimentos. Assim como uma fotografia de uma família caminhando na praça, seguida da frase “é raro ver uma família completa aproveitando o tempo juntos”, também retomando seu sentimento de solidão diante da vida.

Ao final dos encontros, ela informa o quanto aquele espaço foi determinante na produção de laço consigo mesma. Todo o grupo foi convidado para seu aniversário na pizzaria mais tradicional do bairro. Quais os limites da transferência na comunidade? É possível ir à pizzaria nesta clínica que construímos no cotidiano do território? Talvez seja melhor inverter a pergunta: o que não é possível?

Este grupo finalizou com uma exposição no espaço universitário, a qual contou com a curadoria dos próprios participantes que, emocionados, disseram ter a oportunidade de ocupar um espaço que jamais imaginaram: artistas reconhecidos dentro de um espaço comunitário e universitário.

Além destes dois grupos, também realizamos desde 2024 uma atividade de Horta Comunitária, a qual tem o objetivo de oferecer um espaço aberto para plantio e cultivo de plantas medicinais e hortaliças. Este espaço também é na sede do CCMV e, semanalmente, duas estudantes estão disponíveis em um mesmo horário para auxiliar

a comunidade nas atividades da horta, oferecendo uma escuta ao mesmo tempo que realizam as atividades. Em dias de chuva, o grupo vai para uma sala fechada e conversa sobre a relação de cada um com a terra e com o cuidado de plantas, o que sempre produz efeitos discursivos interessantes nas metáforas com relações e, até mesmo, autocuidado.

A partir de 2025, tivemos uma importante reflexão sobre o espaço que ocupamos para realizar nossas atividades. Ali, antes de ser uma sala do CCMV, era um posto da Polícia Militar, a qual por muito tempo foi alvo de sentimentos de segurança, mas também de medo e receio por parte da comunidade em decorrência de certas intervenções na comunidade. Nas paredes, inclusive, ainda encontramos marcas de trocas de tiros. Nosso desafio está em tentar ressignificar o espaço que, por muito tempo, funcionou como proteção, mas também vigilância, controle e punição. Percebemos que para produzir elos significativos com a comunidade precisamos reconstruir simbolicamente aquele espaço. Por isso, iniciamos ações que deixam o espaço mais acolhedor: mudamos as cortinas, trouxemos mobiliário aconchegante (muitas doações!) e iniciamos um clube de leitura a partir da construção de uma biblioteca comunitária. Quem diria que o desejo de escutar implica isso tudo? Percebemos que, além do desejo, precisamos, sobretudo, criar condições para que a escuta aconteça. Precisamos saber se a comunidade tem o desejo de ser escutada e, se sim, de qual forma. Por isso, nossas experimentações, esta artesania constante, exigem da nossa parte estudo, reflexão e paciência.

Em uma das supervisões, marcadas por reflexões práticas da viabilidade das intervenções, elaborações teórico-técnicas, fizemos um exercício sobre o que nos fazia estar ali. Como denominador comum, surgiu a ideia de “oxigenar a comunidade”. Epa! Espera aí! Quem somos nós para oferecer oxigênio? Vejam o lugar que as armadilhas coloniais nos colocam, uma prepotência já conhecida do saber universitário. Que bom que refletimos sobre tudo isso. Que bom que a formação crítica se faz fazendo e não faz disso um erro, mas uma poda, como citamos no começo. Queremos respirar juntos, aproveitar dessa produção viva e constante que a comunidade nos oferece para reconfigurar o modo como escutamos, direcionando para um movimento necessário na escuta psicanalítica (Machado, 2023). Que sejamos mutuamente o adubo.

Sobre a colheita possível: a aposta em uma

jardinagem não exploratória

Percebemos que há uma produção contínua de cuidado em diferentes espaços e que, aos poucos, tem se inserido na comunidade do Monte Verde, mas não sem desafios. Desde o início, sentimos certa resistência em relação às atividades coletivas, afinal, como vou falar do meu sofrimento com alguém que pode estar morando do lado da minha casa ou, até mesmo, conhecer alguém sobre quem quero desabafar?

A proximidade dos vínculos, neste caso, pode mostrar uma barreira, afinal, nos foi ensinado que o sofrimento precisa ser compartilhado com alguém de vinculação distante e pouca aproximação afetiva.

Tentamos romper um pouco esta lógica em uma escuta radical que aproxima e não distância. Na formação em Psicologia, estudantes podem encontrar outras abordagens da produção do cuidado psicoterápico que ganham o lugar de “verdade” em uma narrativa de ser baseada em evidência, a qual demanda a figura de um agente da escuta neutro e distante. Mas qual evidência pode ter uma escuta radical? É sabido que este enquadre discursivo não nos cabe. Porém, talvez, a partir de uma possível evidência localizada na experiência, é possível dizer que este trabalho traz a evidência de uma escuta territorial. Lidamos hoje com alguns desafios de participação, alguns de nossos grupos se esvaziam e, durante algumas semanas de supervisão, entendemos isso como um problema. E se, ao invés disso, tentarmos escutar como um sintoma? Em uma análise, também precisamos aprender a

escutar o silêncio e é nisso que temos apostado nestes encontros sem participação: o que este silêncio tem a dizer? Por exemplo, depois de três semanas sem nenhum participante no grupo Acolher e Refletir, em 2024, recebemos uma pessoa que falou sobre a perda de alguém muito especial pela comunidade por suicídio. A comunidade respondeu com um silêncio. Um silêncio de quem precisa do tempo da elaboração, uma temporalidade própria diante da perda.

Na ausência de participantes, somos convocados a uma reflexão autocentrada: o que estamos fazendo para não vir ninguém? Ou melhor, o que não estamos fazendo e deveríamos fazer para poder receber mais pessoas? Acreditamos que uma escuta radical deve entender a temporalidade como algo maleável e o silêncio também como algo que está sendo dito, porém não só isso: há que se ter uma escuta que circula para o território, para a comunidade.

Assim que chegamos, uma das maiores demandas do próprio CCMV foi de atendimentos individuais, especificamente direcio nados para transtornos do neurodesenvolvimento e autismo, algo que tem ganhado grande destaque nas práticas da psicologia.

Oferecemos pontualmente alguns acolhimentos individuais e seguimos fazendo isso por meio da nossa Clínica Escola, enten dendo que há uma demanda trazida pela própria comunidade neste sentido. Porém, apostamos em uma escuta coletiva como saída de um sentimento de isolamento promovido pelas próprias lógicas de exclusão e desigualdade. Para desorganizar a estru tura de exclusão, é preciso produzir laço.

A formação em psicanálise na universidade é possível? Como potencializar a transmissão no espaço da universidade? Muitos estudantes que buscaram o projeto não apresentaram, num primeiro momento, um interesse pela psicanálise em si. No entanto, há um interesse legítimo por uma escuta radicalmente direcionada para a democratização do cuidado. Será que para oferecer uma escuta precisamos de uma fidelidade a uma psicanálise tradicional? Percebemos que ela se reinventa. Há uma neces sidade de reinvenção. Hoje, a realidade brasileira se destaca na construção de uma psicanálise periférica, direcionada para um desejo ainda não nomeado pelas teorias europeias. Neste sentido,

percebemos também que, para fazer uma escuta que tenha sentido para o território em que estamos atuando, precisamos fazer desta escuta algo mais territorial a partir da inserção em espaços como terreiros e casas da doutrina espírita, espaços onde esta comunidade produz e sustenta laços.

Se nos perguntarem, hoje, o que estamos escutando no Monte Verde, nossa resposta é: ainda não sabemos. E ficamos felizes por não saber e, por isso, seguimos escutando, pois, afinal, como diz Isildinha Baptista (2021), a escuta psicanalítica precisa se deslocar das certezas clínicas para fazer lugar ao não-sabido, ao que se produz entre corpos marcados pela exclusão. Do contrário, ela repete o gesto colonial de apagar o outro. Queremos ver florescer o outro. Assim como há quase três anos temos visto florescer em nós a possibilidade de uma escuta outra.

Qualquer dia desses, venham tomar um café conosco. A escuta é aberta, pública e será assim enquanto fizer sentido para a comunidade e nosso desejo sustentar a proposta.

Referências

Broide, J. (2019). A clínica psicanalítica na cidade: escuta territorial e dispositivos clínicos em situações sociais críticas. Revista Brasileira de Psicanálise, 53(3), 201-215.

Fizeram parte da escrita deste texto:

Gustavo da Silva Machado, professor responsável

Luana Nunes Machado

Isadora Sammi Clausen

Vitória Martins Limas

Sara Lima

Oraide Oliviera

Danrley Souza

Marcella Borges Bottaro

Patrícia Nunes

Nicole Montaño

Além destes autores, gostaríamos de agradecer imensamente a atuação de Latrônico e Maria, grandes parceiros do Conselho Comunitário do Monte Verde. Sem o apoio e a parceria de ambos, nenhuma atividade seria possível.

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