Skip to main content

A MORTE É UM LUGAR CHAMADO PENHA - Igor Mendes

Page 1

igor mendes

A MORTE É UM LUGAR CHAMADO PENHA


igor mendes

A MORTE É UM LUGAR CHAMADO PENHA

3


4


A MORTE É UM LUGAR CHAMADO PENHA

O MUNDO VIVE UMA PALESTINIZAÇÃO — ELIA SULEIMAN

A morte se converteu, nos dias seguintes à maior chacina policial da história do Brasil, ocorrida nos complexos do Alemão e da Penha a 28 de outubro, em assunto nacional. Segundo o Censo de 2020, 54.202 habitantes moram nas treze favelas que compõem o Complexo do Alemão, situado na zona norte da capital fluminense, o que o torna mais populoso que 90% dos municípios brasileiros, embora menos ocupado que o Complexo da Maré, também no Rio, com cerca de 120 mil moradores. Isto já mostra o peso da favelização em toda a dinâmica urbana brasileira em geral e carioca em particular. O Alemão é um dos “aglomerados urbanos” mais pobres da Região Metropolitana do Rio: 63% dos seus moradores vivem com uma renda de até R$ 1.238,00 5


por mês, ou seja, abaixo do salário mínimo1. Isto explica a indiferença do outro lado da cidade partida frente ao implacável banho de sangue: Cláudio Castro, o governador sanguinário, foi aplaudido de pé na Missa de Finados, por fiéis quase todos brancos, em uma igreja da nobre Barra da Tijuca, provavelmente porque incrementou em muito a demanda de velas naquele dia. Em editorial do dia 29 de outubro, o dia seguinte, intitulado “Operação policial no Rio foi resultado de planejamento”, disse sem pestanejar o jornal O Globo: Será preciso apurar se, nos confrontos, houve excessos da polícia. Eventuais denúncias devem seguir as vias institucionais: corregedorias internas e Ministério Público. Foi um exagero, por isso, o pedido do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), por mais informações ao Estado do Rio. Cabe aos estados desenvolver suas políticas de segurança.2 Vitor Hugo Girotto, “Complexo do Alemão tem população maior do que quase 5 mil cidades”. Disponível em: <https://ultimosegundo. ig.com.br/brasil/rj/2025-10-29/complexo-do-alemao-tem-populacao-maior-do-que-quase-5-mil-cidades.html>. Acesso em: 9 dez. 2025. 2 O Globo, editorial de 29 de outubro de 2025, “Operação policial no Rio foi resultado de planejamento”. Disponível em: <https:// oglobo.globo.com/opiniao/editorial/coluna/2025/10/operacao-policial-no-rio-foi-resultado-de-planejamento.ghtml>. Acesso em: 9 dez. 2025.

6

1


O editorialista trata “planejamento” como qualificativo em si. Na verdade, a largamente testemunhada execução de suspeitos já rendidos, a tortura e o desligamento simultâneo das câmeras corporais dos policiais que participaram da operação denotam uma clara inteligência assassina, o que agrava, e não atenua, a situação. Erivelton Vidal Corrêa, presidente da Associação Comunitária do Parque Proletário, que participou do resgate de cerca de oitenta corpos da mata, relatou: “Muitos corpos deformados, com perfurações no rosto, perfurações de faca, cortes de digitais, dois corpos decapitados, a maioria dos corpos não tinha face, essa era a condição”. Entre eles, o de dois irmãos manauaras. “Eles foram mortos abraçados com um tiro na cara cada um e tiveram as digitais cortadas”.

Por fim, ele conclui: “Foi uma arbitrariedade muito grande. A gente sabe que o Estado tem que trabalhar, mas trabalhar direito, o que aconteceu aqui foi um genocídio, uma carnificina”, disse3. 3

Isabela Vieira, “Testemunhas denunciam execuções e torturas no Rio”. Disponível em: <https://www.brasil247.com/regionais/ sudeste/testemunhas-denunciam-execucoes-e-torturas-no-rio-carnificina>. Acesso em: 9 dez. 2025. 7


Esperar que as próprias forças policiais e o Ministério Público, partícipes da chacina, sejam capazes de investigar de maneira independente os diversos crimes cometidos no fatídico dia 28 não pode ser fruto da ingenuidade nem da insensatez do sóbrio editorialista acima citado: é apenas cumplicidade com as mortes. De fato, ele teria obrigação profissional de saber que apenas 3,6% das mortes cometidas por policiais no Rio de Janeiro entre 2011 e 2023 resultaram em denúncia por parte do órgão4. Esta abordagem é apenas uma defesa mais sofisticada, e, neste sentido, mais perigosa, do genocídio da juventude pobre e negra, compatível, aliás, com o notório apoio da família Marinho ao golpe de 64 e ao aparato de repressão e morte que ele erigiu, que seguiu quase inalterado após a Constituição de 1988. Realmente, as atrocidades ocorridas na mata da Vacaria ainda ecoam aquele trágico 31 de março5. 4

8

5

Amanda Audi, “MP arquiva maioria das investigações contra policiais no Rio e em São Paulo”. Disponível em: <https://apublica. org/nota/mp-arquiva-maioria-das-investigacoes-contra-policiais-no-rio-e-em-sao-paulo/>. Acesso em: 9 dez. 2025. “A Constituição de 1988 cometeu o erro de reunir no mesmo Título V (”Da Defesa do Estado e das Instituições”), três capítulos: o capítulo I (“Do Estado de Defesa e do Estado de Sítio”), o capítulo II (“Das Forças Armadas”) e o capítulo III (“Da Segurança Pública”). Nossos constituintes não conseguiram se desprender do regime autoritário recém‑findo e terminaram por constitucionalizar a atuação de organizações militares em atividades de polícia (Polícia Militar) e defesa civil (Corpo de Bombeiros), ao lado das


Num certo sentido, houve uma intensificação da letalidade policial, sem que o método em si seja novo. Chacinas policiais são acontecimentos tristemente banais no Rio de Janeiro pós-ditadura militar: Vigário Geral (1993), Complexo do Alemão (2007), Jacarezinho (2021) e tantos outros. Mas quando se salta de vinte e tantos corpos para cento e vinte e tantos, há mais do que uma intensificação: há uma explosão. Daqui em diante, o que passa a existir e a nos ameaçar é uma outra coisa. No presídio do Carandiru, São Paulo, em 1992, a polícia matou 111 presos e isso marcou a memória nacional, basicamente, como crime e como tragédia. “Cento e onze presos indefesos, mas presos são quase todos pretos”. Nada parecido ocorre agora, mesmo porque, lamentavelmente, um setor considerável dos intelectuais dito progressista, que não se cansa de repetir que “a favela é potência” – expressão aliás vazia, pois quem diz potência precisaria afinal completar: de quê –, se calou diante da barbárie: decapitações, rostos desfigurados, tiros na nuca, facadas, tortura. As boas causas polícias civis. As polícias continuaram constitucionalmente, mesmo em menor grau, a defender mais o Estado que o cidadão. (...) E mais: manteve, em linhas gerais, a estrutura do aparelho policial criado durante o regime militar.” Jorge Zaverucha, “Relações civil-militares: o legado autoritário da Constitução Brasleira de 1988” in Edson Teles e Vladimir Safatle. O que resta da ditadura. São Paulo: Boitempo, 2010, p.54. 9


são as que promovem os nossos empregadores e anunciantes, não é mesmo? Cinismo, frieza burguesa. Mas não só silêncio: vimos muitos âncoras e comentaristas “respeitáveis” – e mesmo amigos e colegas de trabalho –legitimarem o massacre. Isto lembra uma passagem do historiador Eric Hobsbawn sobre a feroz carnificina que se seguiu ao Onze de Setembro chileno, no qual, segundo ele, a esquerda subestimou “a facilidade com que homens e mulheres bem vestidos adquirem um gosto por sangue”6. O que torna este nazifascismo contemporâneo particularmente insidioso é que ele não opõe em uma grande batalha final, verticalmente, 1% de opressores malvados contra 99% de oprimidos. Este é um esquema e, como todo esquema, uma mera simplificação. Este nazifascismo contemporâneo é particularmente insidioso na medida em que é um nazifascismo geográfico. Ele secciona os próprios oprimidos espacialmente e, com isso, os divide7. A luta passa a ser por 6

10

7

Eric Hobsbawn, Viva la revolución: a era das utopias na América Latina. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p.449. Marildo Menegat captou bem essa espacialização das classes sociais, quando anotou: “A segregação dos territórios sempre foi uma heterotopia perseguida pelas sociedades de classe. (...) Nas metrópoles dos países periféricos, esta segregação é uma estratégia tanto de frieza social, requerida para a naturalização da relação violenta com as classes subalternas, como de garantia do usufruto dos bens provenientes da superexploração que


estar entre os eleitos do lado de lá dos muros, sejam físicos (fronteiras, check points) ou simbólicos (considerados esteticamente hígidos e homogêneos). O que significou a expressiva votação de Trump, com um claro programa anti-imigrantes, entre o eleitorado imigrante latino, por exemplo? Louvamos os que conseguem realizar a passagem como bem sucedidos. A sua salvação individual é estandardizada nas múltiplas telas como se fosse uma redenção coletiva. Do lado de cá, resta o fatalista “achou o que procurou”, ou o apocalíptico “salve-se quem puder”. O individualismo agressivo, não raro fantasiado de empreendedorismo, é popular mesmo entre a juventude pauperizada, tanto quanto o darwinismo social era popular na Londres vitoriana, porque ela jamais conheceu qualquer outra realidade a não ser essa. “A luta pelo meu pão, o resto que se exploda”. Justificar os massacres com base na consciência que nasce desse estado de coisas é uma tautologia: é como dizer que num dia de chuva as pessoas usam guarda-chuvas porque está chovendo. Truque barato, banalidades travestidas de pesquisas.

caracteriza estas sociedades dentro do regime de concorrência mundial. Faz parte, portanto, de uma economia básica de distribuição dos espaços, que implica a construção de dois territórios dentro de uma mesma sociedade”. Marildo Menegat, Estudos sobre ruínas. Rio de Janeiro: Revan, 2012, p.11. 11


Ruth Gilmore, a famosa abolicionista norte-americana, disse que “a liberdade é um lugar”. No capitalismo de nossos dias, a morte é também um lugar. Como bem demonstraram os pesquisadores libaneses Noura El Masry, Zina Sawafÿ, Gretchen King e Sami Baroudi, em um artigo intitulado “Hierarquias de gênero na cobertura do genocídio: uma análise da desumanização dos homens palestinos na mídia ocidental”8: Objetivamente, a evocação, pela mídia ocidental, da imagem orientalista do homem árabe como um estuprador violento desumaniza os homens palestinos ao enfatizar sua hipersexualidade e violência, deslegitimando sua história e seu direito de resistir. Mais importante ainda, essa desumanização torna necessário o assassinato desses homens, pois os retrata como monstros e legitima o genocídio do povo palestino por Israel.

Na América Latina, o monstro, ou o inimigo a ser abatido, é o pobre favelado, negro ou indígena, sobre os quais desabam os implacáveis estigmas da hipersexualidade

12

8

Noura El Masry, Zina Sawafÿ, Gretchen King e Sami Baroudi, “Gender hierarchies in reporting genocide: an analysis of the dehumanization of Palestinian men in Western media”, Communication, Culture and Critique, 2025. Disponível em: <https://doi. org/10.1093/ccc/tcaf032>. Acesso em: 9 dez. 2025. Tradução livre do autor.


e da violência – inclusive na maior parte das abordagens culturais. Continuam os pesquisadores: A mídia ocidental humaniza as vítimas israelenses com narrativas detalhadas de suas experiências, enquanto as vítimas palestinas são frequentemente reduzidas a estatísticas, gerando empatia assimétrica apesar das discrepâncias no número de mortos.

É um discurso milimetricamente pensado para legitimar o genocídio, lá e cá. Segundo o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI/UFF), entre janeiro de 2007 e outubro de 2025, houve 707 operações policiais que resultaram em mortes na Região Metropolitana do Rio, com 2905 vítimas civis e 31 policiais9. Apesar da brutal disparidade, na maior parte das vezes apenas as últimas geram comoção. Pouquíssimas lágrimas são derramadas pelas vítimas do Estado, pois elas são, afinal, objetos sem contexto e sem história. Mesmo quando inocentes são vitimados (casos de João Pedro ou de Herus Mendes), o senso comum se contenta em dizer: efeito colateral. Trata-se de uma transplantação macabra e precisa da desumanização aplicada pelas forças 9

Mariana Alvim e Rafael Barifouse, “Mortes em megaoperação no Rio são mais do que o dobro do recorde anterior de letalidade”. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/ cj97wwv2kndo>. Acesso em: 9 dez. 2025. 13


de ocupação israelenses em Gaza para o discurso da (in)segurança pública no Rio de Janeiro. E sim, neste sentido, da “guerra ao terror” praticada pelos Estados Unidos no Afeganistão e do Iraque, onde chegou ao paroxismo a desumanização do “outro”, entendido como figura absolutamente abstrata a ser neutralizada por “meros indícios”10. É este o paradigma que se quer adotar, agora oficialmente, no Brasil. O inimigo, afinal, como diz o filósofo, é alguém cuja história não se ouviu11. Democracia e fascismo, ou Estado de direito e terrorismo de Estado, portanto, convivem no mesmo tempo, divergindo no espaço. Não atingem a todos os “oprimidos” igualmente, porque há entre os lugares extremos uma série de zonas intermediárias, em geral, de classe média baixa, que não se identifica como oprimida. Há,

14

10 “Segundo a CIA, ‘homens em idade militar’ que faziam parte de um grande agrupamento de pessoas em determinada região, ou que tinham contatos com outros suspeitos de militância ou com terroristas, podiam ser considerados alvos para ataques de drones. Para a realização de um ataque não era necessário uma identificação positiva. Bastavam alguns dos ‘indícios’ que a Agência definira para identificar suspeitos de terrorismo”. Jeremy Scahill, Guerras sujas. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p.332.. A demora de vários dias na identificação dos suspeitos executados e presos na chacina do dia 28 de outubro mostra bem que ali se matou primeiro e se investigou (se é que se investigou) depois. 11 Slavoj Žižek, Violência: seis reflexões laterais. São Paulo: Boitempo, 2014, p.73.


inclusive, bolsões de miséria nas áreas abastadas e enclaves remediados nas áreas conflagráveis. Por isso, este fascismo policial-racial que temos aqui é tão complexo e tão perigoso. Ele não é produto do bolsonarismo, mas o antecedeu, chocou e sobreviverá a ele. Quem falar em crítica social no Brasil de hoje deixando de lado a questão prisional, as chacinas nas favelas e o complexo sistema de segregação que começa entre os intelectuais colaboracionistas12, passa por um Judiciário e Ministério Público altamente militarizados e termina com um policial preto ou pardo assassinando um adolescente preto ou pardo em uma viela (ou, o que essencialmente é o mesmo, um adolescente preto ou pardo de uma facção assassinando um adolescente preto ou pardo de outra facção) – simplesmente não entendeu o que está acontecendo ou, pior, condescende com esse estado de coisas. Lênin disse, nos primeiros anos do poder soviético, referindo-se à persistência da diferença de tratamento entre homens e mulheres, “raspe um comunista e ache um filisteu”. Pode-se dizer sem receio sobre certos “progressistas” brasileiros: raspe um democrata e ache um capitão do mato. Com efeito, Washington Quaquá, vice-presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, disse sobre a malfadada 12 Expressão que tomo emprestada e adapto, sob minha inteira responsabilidade, da querida professora Vera Malaguti. 15


16

operação que depois, tardiamente, o próprio Lula classificaria como uma matança: “Ninguém enfrenta fuzil com beijinhos”. Este é o mesmo político que prestou solidariedade aos irmãos Brazão, que expressam os porões do submundo do Rio de Janeiro e estão presos acusados de ordenar o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018. Estes democratas seletivos descobrirão, talvez tarde, que a sede de sangue que começa nesses territórios de exceção termina sempre por engolir os ditos moderados que se julgam capazes de controlá-la, o que também se comprova nos Estados Unidos de Trump e na Israel de Netanyahu. Talvez o mundo inteiro não seja mais do que uma continuidade dos complexos da Penha e do Alemão. É preciso reagir enquanto há tempo.


18


igor mendes é escritor e professor, autor de diver-

sos livros e ensaios sobre o Rio de Janeiro do século XXI. Estreou na literatura com A pequena prisão (n-1 edições, 2017), relato sobre sua passagem no cárcere em decorrência de sua participação nas manifestações populares de 2013 e 2014. Finalista do Prêmio Jabuti (2021), é mestrando em Geografia Cultural pela Uerj e integrante da Academia Brasileira de Letras do Cárcere.


O livro como imagem do mundo é de toda maneira uma ideia insípida. Na verdade não basta dizer Viva o múltiplo, grito de resto difícil de emitir. Nenhuma habilidade tipográfica, lexical ou mesmo sintática será suficiente para fazê-lo ouvir. É preciso fazer o múltiplo, não acrescentando sempre uma dimensão superior, mas, ao contrário, da maneira mais simples, com força de sobriedade, no nível das dimensões de que se dispõe, sempre n-1 (é somente assim que o uno faz parte do múltiplo, estando sempre subtraído dele). Subtrair o único da multiplicidade a ser constituída; escrever a n-1. Gilles Deleuze e Félix Guattari


dezembro_2025


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
A MORTE É UM LUGAR CHAMADO PENHA - Igor Mendes by n-1 edições - Issuu