
fev.2026

![]()

fev.2026

A revisão da filmografia de Eduardo Coutinho chega ao fim com a exibição de alguns de seus filmes seminais. Em Cabra marcado para morrer, Coutinho transforma um longa-metragem de ficção interrompido pela ditadura em um documentário autorreflexivo que acompanha as consequências coletivas, familiares e pessoais da violência contra lideranças camponesas. Em Santo forte, filmado na ocasião da visita do papa João Paulo II ao Brasil, o cineasta consolida o cinema de conversa pelo qual ficaria conhecido e que gerou obras como o icônico Edifício Master, inteiramente rodado num grande prédio de apartamentos conjugados em Copacabana. Nas semanas que antecedem o Oscar, alguns dos filmes que se destacaram nesta temporada de premiações internacionais estreiam no Cinema do IMS. Indicados ao Oscar de Melhor Filme
Internacional, Sirāt, de Oliver Laxe, fabula uma extenuante busca por uma jovem desaparecida em uma rave nas montanhas do Marrocos, e A voz de Hind Rajab, de Kaouther Ben Hania, remonta à história real da tentativa de resgate de uma jovem menina encurralada pelas tropas israelenses em Gaza. Em relação direta com a literatura, Raoul Peck analisa o legado e os ecos contemporâneos da obra de George Orwell, e Chloé Zhao conta a trágica história familiar que antecede a escrita da peça mais conhecida de Shakespeare em Hamnet: a vida antes de Hamlet, com oito indicações ao Oscar.

[imagem da capa]
A única saída (Eojjeolsuga eobsda), de Park Chan-wook


Em cartaz
A história do som
(The History of Sound)
Oliver Hermanus | DCP
A única saída (Eojjeolsuga eobsda)
Park Chan-wook | DCP
A Useful Ghost – Uma ajuda do além
(Pee chai dai ka)
Ratchapoom Boonbunchachoke | DCP
A voz de Hind Rajab (Sawt Hind Rajab)
Kaouther Ben Hania | DCP
Hamnet: a vida antes de Hamlet
(Hamnet)
Chloé Zhao | DCP
Orwell: 2+2=5
Raoul Peck | DCP
Sirât (Sirāt)
Oliver Laxe | DCP
Cabra marcado para morrer
Eduardo Coutinho | DCP, restauração 2K
Edifício Master
Eduardo Coutinho | Arquivo digital
Santo forte
Eduardo Coutinho | Arquivo digital
Entre os dias 5 e 11 de fevereiro, o Cinema do IMS participa da Semana do Cinema, com ingressos a preços promocionais. Mais informações em cinema.ims.com.br ou na bilheteria dos centros culturais.
16:00 ocupação eduardo coutinho Cabra marcado para morrer (119')
18:30 ocupação eduardo coutinho Santo forte (90')
16:00 ocupação eduardo coutinho Mulheres no front (35')
17:30 A Useful Ghost – Uma ajuda do além (130')
16:00 Orwell: 2+2=5 (119')
18:30 Hamnet: a vida antes de Hamlet (125')
16:00 ocupação eduardo coutinho Edifício Master (110')
18:30 Hamnet: a vida antes de Hamlet (125')
A voz de Hind Rajab (89')
19:00 Sirât (120')
19:00 Orwell: 2+2=5 (119')
16:00 A única saída (139')
18:30 A voz de Hind Rajab (89')
16:00 A voz de Hind Rajab (89') 18:30 A única saída (139')
19:00 A história do som (127')
16:00 Sirât (120')
18:30 A história do som (127')
16:00 Orwell: 2+2=5 (119')
18:30 Hamnet: a vida antes de Hamlet (125') 1/3
16:00 A história do som (127')
18:30 Hamnet: a vida antes de Hamlet (125')
Programa sujeito a alterações. Eventuais mudanças serão informadas em ims.com.br.

história do som
The History of Sound Oliver Hermanus | EUA, Reino Unido, Suécia, Itália | 2025, 127’, DCP (Imagem Filmes)
Em 1917, Lionel (interpretado por Paul Mescal) e David (Josh O’Connor) se conhecem no Conservatório de Boston, unidos pelo amor à música folk. Anos depois, eles se reencontram e partem juntos em uma viagem pelo interior do Maine para registrar canções tradicionais de ex-soldados da Primeira Guerra. Durante essa jornada que transformará suas vidas para sempre, eles descobrem que compartilham muito mais do que a paixão pela música.
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

A única saída
Eojjeolsuga eobsda
Park Chan-wook | Coreia do Sul | 2025, 139’, DCP (Mares Filmes)
Um homem é demitido da empresa de papel onde trabalhou por 25 anos. Algum tempo depois, ainda desempregado, encontra uma solução: eliminar literalmente sua concorrência.
Um projeto que levou mais de 20 anos para ser concluído, o mais novo filme de Park Chan-wook, diretor de Oldboy e Lady Vingança, é baseado no romance O corte (The Ax), de Donald E. Westlake. “Quando li o livro, há cerca de duas décadas, soube imediatamente que queria adaptá-lo para o cinema”, conta o cineasta em entrevista ao portal The Hollywood Reporter. “É uma história que trata tanto do mundo interior urgente de um indi-
víduo quanto das grandes questões sociais que o cercam. Adaptá-la me permitiria explorar essas duas dimensões de maneira totalmente integrada. [...] A tragédia do livro me tocou profundamente, mas senti que havia espaço para uma comédia de humor sombrio, o que poderia resultar em um filme muito divertido.”
“Tive ainda a ideia de acrescentar uma camada à narrativa: a de que a esposa e o filho do protagonista acabariam adquirindo alguma compreensão sobre as coisas terríveis que ele fez. Muitas vezes, quando as pessoas dizem a si mesmas ‘estou fazendo isso pela minha família’, justamente aquilo que estão fazendo – ou a busca por isso – é o que acaba prejudicando ou desmontando essa família. Que paradoxo lamentável. Assim que tive essa ideia, nunca mais quis abrir mão do projeto.”
[Íntegra da entrevista, em inglês: tinyurl.com/ unicasaidapcw]
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

Pee chai dai ka Ratchapoom Boonbunchachoke | Tailândia, Singapura, Alemanha, França | 2025, 130’, DCP (Pandora Filmes)
March está de luto por sua esposa Nat, que faleceu recentemente devido à poluição por poeira. Mas o espírito dela retorna “encarnado” em um aspirador de pó decidido a proteger o marido e a família de padecerem da mesma doença respiratória.
“Minha inspiração inicial para a história é a lenda de Mae Nak, que é uma história de amor proibido entre o fantasma de uma mulher e seu marido vivo. Essa lenda tem enorme significado cultural na Tailândia e já foi adaptada inúmeras vezes para peças, filmes e séries de TV”, conta o diretor Ratchapoom Boonbunchachoke em entrevista disponibilizada no material de imprensa do filme.
“Nas últimas décadas, houve uma crescente conscientização sobre a poluição por poeira na Tailândia. Especula-se que a poluição seja causada principalmente pelas grandes indústrias
do país. Mas além da poeira literal — a partícula minúscula que flutua no ar – o termo “poeira” evoluiu para carregar um significado mais profundo na gíria contemporânea tailandesa, referindo-se a seres humanos tratados como menos que humanos. Inicialmente, as pessoas faziam piada sobre a poluição por poeira: ‘Não é de se estranhar que tenhamos poluição por poeira, porque nosso país está cheio de poeira’. Aqui, poeira não significa apenas partículas suspensas no ar, mas também pessoas sem voz ou poder para determinar as próprias vidas, pessoas facilmente varridas, movidas e apagadas conforme a vontade da classe dominante.”
“Também sinto que os fantasmas, de certo modo, são semelhantes à poeira. Ambos ocupam o lugar errado e o tempo errado.”
“A Tailândia é um país cheio de fantasmas, pois muitos casos de morte não têm encerramento formal – inúmeros assassinatos e desaparecimentos forçados permanecem sem solução. Acho que artistas e, em particular, cineastas são aliados dos fantasmas. Emprestamos nossas ferramentas e habilidades para dar forma às suas palavras. Como fantasmas são difíceis de experimentar diretamente, o cinema é o meio ideal para lhes dar corpo.”
“Além disso, os espectadores talvez notem referências ao contexto político tailandês no filme. Sem explicar demais, menciono um episódio que me inspirou profundamente enquanto desenvolvia o roteiro: a recente onda de destruição da arquitetura do Khana Ratsadon (Partido do Povo). Esse grupo, nos anos 1930, realizou a revolução que transformou a Tailândia em monarquia constitucional. Apesar de falhos e de curta duração,
construíram prédios e monumentos que representavam sua era e seus valores. Há um esforço contínuo de demolir essas construções. Para mim, isso não diz respeito apenas ao apagamento físico, mas também à tentativa de apagar memórias, histórias e ideais revolucionários – um esforço de fazer essas ideias desaparecerem completamente. Esses valores apagados, que falharam em chegar ao presente, são uma outra espécie de fantasma – um fantasma que nós, vivos, também precisamos ouvir.”
O filme teve sua estreia mundial no Festival de Cannes 2025, como parte da seleção oficial da Semana da Crítica, na qual recebeu o Grand Prix AMI Paris.
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

A voz de Hind Rajab
Sawt Hind Rajab
Kaouther Ben Hania | Tunísia, França, EUA | 2025, 89’, DCP (Synapse)
O mais novo longa-metragem da cineasta
Kaouther Ben Hania (diretora de As 4 filhas de Olfa) conta a história real de Hind Rajab, uma menina de seis anos encurralada em um carro sob o fogo das forças israelenses em Gaza no dia 29 de janeiro de 2024. Pelo telefone, ela consegue pedir ajuda, e a equipe de resgate trava uma tensa luta contra o tempo para encontrar um meio de salvá-la.
Em entrevista a Ahmed Hathout para o portal a shot, a cineasta conta: “Esta história está ancorada na verdade. Todos os acontecimentos são factuais, sabe? Então, o meu trabalho como cineasta foi escolher a melhor forma, a forma mais impactante, de contar essa história. A Sociedade do Crescente Vermelho compartilhou comigo a gravação dessa conversa, e eu parti dessas gravações; tudo estava no som. É um filme sobre o som. É por isso que se chama A voz de Hind Rajab.”
“Você tem imagens, você tem o local, você tem essa menina dentro do carro. Ela fala sobre o tanque ao redor dela. Então já existe algo muito real no elemento de arquivo. Para mim, como cineasta, fazer isso não fazia sentido. É até eticamente questionável encenar a cena de uma menina implorando por ajuda. Essa ideia eu abandonei rapidamente. Considerei por dois segundos. Mas, para mim, não era possível pedir a uma atriz mirim que a imitasse, sabe? Não é algo com o qual eu me sinta confortável.”
“Então, eu precisava da distância perfeita para contar essa história, e essa distância perfeita está com aqueles que ouviram essa voz. E eles não estão em Gaza; estão em Ramallah. De certa forma, eles representam todos nós, sabe, ouvindo e vendo o horror em Gaza, com as mãos atadas e esse profundo sentimento de impotência. O ponto de vista deles, para mim, foi o lugar ideal para fazer um filme impactante. Eu quero proteger a vítima. Não quero proteger o público. Quero mostrar a eles, de forma verdadeira, o horror que aconteceu em Gaza, especialmente contra essa menina. Mas eu precisava fazer isso de uma maneira respeitosa.”
O filme teve sua estreia mundial na competição principal do 82º Festival Internacional de Cinema de Veneza, em 2025, e concorre ao Oscar na categoria Melhor Filme Internacional.
[Íntegra da entrevista, em inglês: tinyurl.com/ hindrajabkbh]
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

Hamnet: a vida antes de Hamlet Hamnet
Chloé Zhao | Reino Unido | 2025, 125’, DCP (Universal Pictures do Brasil)
A história de Agnes – a esposa de William Shakespeare – enquanto ela luta para lidar com a perda de seu único filho, Hamnet. Uma história humana e comovente que serve de pano de fundo para a criação da peça mais famosa de Shakespeare.
Em entrevista a Lily Ford para o portal The Hollywood Reporter, a diretora conta que por muito tempo não entendia Hamlet, até fazer contato com o romance de Maggie O'Farrell que inspira seu filme. “Eu vi os dois [filmes, o de Laurence Olivier e o de Michael Almereyda], mas nunca os compreendi de verdade. A história é muito sombria, muito densa. Ela fala bastante sobre experiências humanas extremamente difíceis pelas quais esse jovem passa em um curto espaço de tempo, e depois ele morre no final. Vi esses filmes na casa dos 20 anos, então acho que não os compreendi. Eu havia lido a peça
antes. Nunca a tinha entendido da forma como a entendi quando li o romance da Maggie. Quando li o romance, pensei: ‘Nossa’. Passei a olhar para Hamlet de uma maneira completamente diferente.”
“Ao fazer este filme, usei Hamlet como um receptáculo quase sagrado e, na nossa versão da história, sabemos de onde vem essa inspiração –as duas condições humanas fundamentais: o amor e a morte. É assim que, na nossa história, [Shakespeare] dá origem a Hamlet. Para fazer um filme como esse, é preciso mergulhar muito profundamente nessas duas emoções. Uma delas é um pouco mais fácil do que a outra – não para todo mundo; para algumas pessoas, o amor é muito difícil. Então, eu diria que já tinha visto Hamlet antes, mas nunca senti em relação a essa peça o que sinto agora.”
Hamnet: a vida antes de Hamlet recebeu oito indicações ao Oscar, entre elas Melhor Filme, Roteiro Adaptado e Melhor Atriz, para Jessie Buckley.
[Íntegra da entrevista, em inglês: tinyurl.com/ hamnetcz]
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

Orwell: 2 + 2 = 5
Raoul Peck | EUA, França | 2025, 119’, DCP (Alpha Filmes)
Raoul Peck (diretor de Eu não sou seu negro e Ernest Cole: achados e perdidos) explora a vida e obra de George Orwell, autor de clássicos da literatura como 1984 e A revolução dos bichos. O documentário foca na relevância atual de sua crítica ao totalitarismo, vigilância e manipulação da verdade, especialmente através de conceitos como o duplipensar (“2 + 2 = 5”) explorado em 1984, mostrando como seus alertas sobre poder e controle ressoam hoje em líderes populistas, mídias sociais e desigualdade. A partir da obra de Orwell, o filme de Peck ergue um aviso urgente sobre o autoritarismo contemporâneo. Em depoimento veiculado junto ao material de imprensa do filme, Raoul Peck diz:
“Apenas três anos atrás, quando nos foram oferecidos os direitos exclusivos sobre toda a obra de George Orwell pela Universal Pictures, perguntamo-nos: por que George Orwell? Por que agora?”
“Hoje sabemos. Ele viu tudo. Analisou tudo. Alertou a todos nós. Parece até irônico que hoje todos queiram reivindicá-lo, especialmente neste mundo que já mudou tanto.”
“Ele é exaltado como um profeta do fim dos tempos. Vilipendiado como um traidor da causa socialista. Demonizado como um colonizador. Usado como escudo por oportunistas neoconservadores. Seguido como um profeta por aqueles que buscam uma fé cega. Ainda assim, ele permanece sozinho, espinhoso e desafiador. Um visionário. Um anarquista disfarçado. Um repórter de cabeça dura e coração sensível. Um criador de ficções que revela o mundo como ele realmente é.”
“Orwell. Seu nome tornou-se um adjetivo poderoso – ‘orwelliano’ – para sinalizar mecanismos autoritários e aspectos mutantes do nosso mundo contemporâneo: vigilância, censura, corrupção política, fake news, lutas de classe, as seduções do poder, o duplipensar, algoritmos, drones, guerras permanentes, a distração como modo ostensivo da repressão moderna. Suas frases e ideias literárias são onipresentes, em novas versões ou em suas formas originais: ‘Big Brother’, ‘Polícia do Pensamento’, ‘Dois Minutos de Ódio’, ‘buraco da memória’, ‘Novilíngua’, ‘duplipensar’, ‘não pessoa’ e ‘crime de pensamento’. Ele está em toda parte agora.”
“Em nossos tempos atuais de incerteza, este é o momento certo – quase um século depois – para confrontar o mito com a realidade, à luz do perigo claro e presente de hoje, em que 2 + 2 é definitivamente igual a 5.”
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

Sirât
Oliver Laxe | Espanha | 2025, 120’, DCP (Retrato Filmes)
Pai e filho chegam a uma rave nas montanhas do Marrocos em busca de Mar – filha e irmã –, que desapareceu meses antes em um evento semelhante. Cercados por música eletrônica e por uma sensação crua e desconhecida de liberdade, eles saem distribuindo a foto da jovem. A esperança vai se apagando, mas os dois persistem e seguem um grupo de frequentadores rumo a uma última festa no deserto, confrontando os próprios limites.
Em depoimento disponível no material de imprensa, o diretor Oliver Laxe reflete:
“No meu filme, todos os personagens são forçados a encarar a morte. Eles a olham diretamente nos olhos. Em O gosto da cereja, Kiarostami confronta a morte de forma tão direta que o filme acabou se tornando um hino à vida. Essa dialética foi uma inspiração clara para mim aqui. Assim,
Sirāt é um filme sobre a morte. Mas, acima de tudo, é um filme sobre a vida – sobre a sobrevivência depois de ter tocado as profundezas mais extremas.”
“Quis fazer um filme como o melhor do cinema europeu – um cinema de aventura mágica – sem perder a riqueza sensorial da imagem. Um filme que pudesse ser um espetáculo e, ao mesmo tempo, uma experiência que te sacode, que te atinge, que te rasga ou que escava algo em você. Curiosamente, muitas vezes é no minimalismo – e no mais radical – que isso se alcança. Acredito que encontrar esse equilíbrio é incrivelmente difícil. O filme se desmaterializa gradualmente à medida que avança.”
“O cinema geralmente nasce do fogo, e, quando vemos algo na tela, ele pode perfurar como um relâmpago. Mas o som – o som nasce dentro do espectador. Ele já está nas partículas do corpo, moléculas que respondem à vibração da música e ganham vida. Trabalhar com David Letellier (Kangding Ray) foi uma grande honra no meu percurso artístico. Nunca havíamos trabalhado juntos antes, apesar de termos afinidades musicais. Quis traçar uma jornada – do bruto, feroz, mental, técnico – ao mais destilado, transcendente e sereno. Criar o ponto em que as sonoridades se encontram. Onde a narrativa e a melodia se entrelaçam. Ali onde o grão da imagem vibra em sintonia com o grão da distorção do som. Sonhei com a materialidade sonora da imagem ocupando o centro do palco – um ponto em que pudéssemos ver música e ouvir imagens. Acabamos criando uma paisagem sonora simbiótica com os lugares – onde
o deserto, sua presença espectral e a própria música tornam-se paisagens da consciência.”
Sirât foi vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes em 2025. O filme teve ainda duas indicações ao Oscar, nas categorias Melhor Filme Internacional e Melhor Som.
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
A exposição Ocupação Eduardo Coutinho, com curadoria de Carlos Alberto Mattos e da equipe Itaú Cultural, apresenta a trajetória de Eduardo Coutinho, sua obra e seu processo de criação. Um rico material audiovisual, somado a documentos, objetos e fotografias de seu acervo pessoal e de amigos e colegas de profissão, ajuda a conhecer e relembrar o cineasta. Concebida e apresentada pelo Itaú Cultural em São Paulo, a mostra esteve em cartaz no IMS Rio, e agora chega a Poços de Caldas, onde ganha uma nova expografia e uma programação de atividades paralelas.
Durante todo o período da exposição, o Cinema do IMS apresenta uma seleção de filmes do diretor, junto a textos críticos e outras atividades, em uma programação realizada em parceria com a VideoFilmes e o CECIP.
Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

Cabra marcado para morrer
Eduardo Coutinho | Brasil | 1962-1984, 119’, DCP (Cinemateca Brasileira), restauração 2K
Em matéria de 1985 para o Jornal do Brasil, Roberto Mello escreveu: “As filmagens começaram em fevereiro de 1964. Coutinho pretendia contar a história de João Pedro Teixeira, líder da liga camponesa de Sapé, na Paraíba, assassinado em 1962. Não queria atores profissionais: que os personagens fossem interpretados pelos próprios camponeses. Dezessete anos depois, Coutinho volta à região, consegue encontrar Elizabeth e, através do filho mais velho, Abraão, investiga o destino dos outros dez filhos e de todos os envolvidos no projeto. Ele exibe os originais filmados há tanto tempo, os camponeses se alegram com seus rostos, mais jovens, vivem a emoção do reconhecimento e o jogo de identificações. Vinte anos depois, Coutinho conclui seu filme, um épico contado com clareza, paciência e perseverança, por alguém que confia no trabalho e nos dias. Uma experiência original na cinematografia brasileira.”
Eduardo Coutinho marcou a história do cinema de não ficção com o lançamento de Cabra marcado para morrer. Passados mais de 40 anos do lançamento do Cabra, o filme de Coutinho poderá ser revisto no cinema em cópia restaurada. Em 2022, o Instituto Moreira Salles lançou um ebook de acesso gratuito com o roteiro original de Cabra marcado para morrer, digitalizado a partir de uma fotocópia do datiloscrito de 1964, com anotações do cineasta. A obra foi organizada por Carlos Alberto Mattos, também autor de um ensaio crítico que acompanha a publicação. O livro pode ser acessado em: bit.ly/imscabra.

Santo forte
Eduardo Coutinho | Brasil | 1999, 90’, Arquivo digital (CECIP)
Em 5 de outubro de 1997, durante a visita do papa João Paulo II, uma equipe de cinema visita a favela Vila Parque da Cidade, situada na Gávea, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Os moradores assistem à missa celebrada pelo pontífice no aterro do Flamengo. Em dezembro, a equipe volta à favela para descobrir como seus moradores vivem a experiência religiosa. Católicos, umbandistas ou evangélicos, todos eles têm em comum a crença numa comunicação direta com o mundo espiritual através da intervenção, em seu cotidiano, de santos, orixás, guias ou do Espírito Santo. Em uma entrevista a Valéria Macedo, originalmente publicada na revista Sexta Feira, em abril de 1998, Coutinho descreve o plano para o seu próximo filme. Mais tarde, seria conhecido pelo diretor como um marco na sua carreira, um momento definidor do tipo de documentário pelos quais ficaria conhecido. Na entrevista de
1998, Coutinho diz: “Para mim o que interessa é fazer filme de conversação. Minha vontade agora é fazer um filme que tenha uma hora e meia de duração, 100 horas filmadas em vídeo, sobre religião no Brasil. Vou pegar uma favela de 2.000 pessoas. Tem uma antropóloga que está fazendo uma pesquisa sobre esse tema numa favela do Rio. O que há no Brasil é uma luta de santos de que ninguém conhece a dimensão, pelo menos no cinema. Em cada momento da vida, está presente o mágico, cada ato tem significado. São histórias extraordinárias. Não me interessa filmar os rituais afros, os caras matando animais, só a fala me interessa, a narração das experiências. Falar de religião, você acaba entrelaçando histórias de família, sexo etc. E você descobre a coerência daquelas pessoas, elas não são loucas. E pessoas de religiões diferentes, você vai ver, são pai, filha. Só me interessa trabalhar no micro e ir até o fim. Se não, pode ficar uma coisa um pouco estéril e superficial: ‘O mosaico do Brasil’. E gosto de trabalhar no singular, não procurar o caso típico. Eu sou apaixonado por esse caráter obsessivo da fala, dos santos, e queria que fosse um filme tão obsessivo quanto é o pensamento deles.

Edifício Master
Eduardo Coutinho | Brasil | 2002, 110’, Arquivo digital (VideoFilmes)
Durante uma semana, Eduardo Coutinho e sua equipe conversaram com 27 moradores de um enorme edifício de apartamentos em Copacabana. Entre eles, um casal de meia-idade que se conheceu pelos classificados de um jornal, uma garota de programa que sustenta a filha e a irmã, um ator aposentado, um ex-jogador de futebol e um porteiro desconfiado de que o pai adotivo, com quem sonha toda noite, é seu pai verdadeiro. Uma oportunidade de assistir a um dos grandes documentários da carreira de Eduardo Coutinho. Em 2002, o filme recebeu o Kikito de Ouro de Melhor Documentário no Festival de Gramado e o Prêmio de Melhor Documentário pela crítica da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Em entrevista a Ruy Gardnier, Eduardo Valente e Cleber Eduardo para a revista Contracampo, Coutinho relata:
“O filme nasceu da ideia da Consuelo Lins, que trabalha comigo, de fazer um filme sobre um prédio em Copacabana. Eu então roubei a ideia, com o consentimento dela, porque me interessava filmar em um universo com limites claros. Não queria fazer filme sobre a classe média, mas sobre um universo que não se conhece. Tinha de ser em prédio grande, de apartamentos conjugados e com perfil familiar, caso contrário inviabilizaria a filmagem. O desafio seria extrair um material interessante de pessoas normais. É muito mais fácil fazer um filme sobre marginais que sobre pessoas de classe média.”
“No caso do Master, achei que ia me lascar. As experiências de vida eram menos fortes, as pessoas eram mais fechadas, a narrativa das experiências era menos rica. Eu precisaria de muitos personagens para dar um filme. Não haveria relatos extraordinários. A diversidade de experiências é que seria essencial naquele universo. Tinha de ser um filme longo, de quase duas horas, com 27 apartamentos. Cortamos 10. Também não podia ter eixo temático, ao contrário de Santo forte e Babilônia 2000. O prédio é apenas uma pista falsa. Isso era um complicador dramatúrgico. Como eu ordenaria esse material se havia todos os temas possíveis? Decidi pela montagem caótica. Procurei conservar a ordem da filmagem, que não tinha um padrão. Isso não leva ninguém a ter certeza do que virá depois de cada personagem. Não há uma regra.”
“Talvez pelas histórias de vida do Edifício Master serem menos extraordinárias que as de Santo forte e Babilônia 2000, fica mais evidente que o importante é como os personagens falam de si e não o que eles estão falando. A garota de programa sintetiza essa ideia ao dizer que precisa acreditar em suas mentiras para contá-las. Não interessa, então, nem se o relato é verdadeiro. Interessa a narrativa em si.”
[Íntegra da entrevista em: bit.ly/ecedmaster]
Cinema do IMS
Coordenador | Curador
Kleber Mendonça Filho
Supervisora de curadoria e programação
Marcia Vaz
Programador adjunto
Thiago Gallego
Produtora de programação
Renata Alberton
Assistente de programação
Lucas Gonçalves de Souza
Projeção
Fagner Andrades e Gilmar Tavares
Revista do Cinema do IMS
Produção de textos e edição
Thiago Gallego e Marcia Vaz
Diagramação
Marcela Souza e Taiane Brito
Revisão
Flávio Cintra do Amaral e Juliana Travassos
Os filmes de fevereiro
A programação do mês tem apoio do CECIP, da Cinemateca Brasileira, da produtora Mapa Filmes do Brasil, das distribuidoras Alpha Filmes, Imagem Filmes, Mares Filmes, Pandora Filmes, Retrato Filmes, Synapse, Universal Pictures do Brasil e VideoFilmes.
Agradecemos a Camila Leal Ferreira, Claudio Apolinario, Claudius Ceccon, Dinah Frotté, Elisa Ximenes, Giulia Aguiar, Guilherme Albani, Guilherme Terra Silva, Juliana Martins, Laura Liuzzi, Maria Carlota Bruno, Mariana Decassia.
Curadoria da exposição: Carlos Alberto Mattos e equipe Itaú Cultural Realização e curadoria da mostra de filmes: Cinema do IMS
Parceria:


Ingressos à venda pelo site ingresso.com e na bilheteria do centro cultural, para sessões do mesmo dia. No ingresso.com, a venda é mensal, e os ingressos são liberados no primeiro dia do mês. Ingressos e senhas sujeitos à lotação da sala. Capacidade da sala: 85 lugares.
Com apresentação de documentos comprobatórios para professores da rede pública e privada, estudantes, crianças de 3 a 12 anos, pessoas com deficiência, portadores de Identidade Jovem, maiores de 60 anos e titulares do cartão Itaú (crédito ou débito).
Devolução de ingressos
Em casos de cancelamento de sessões por problemas técnicos e por falta de energia elétrica, os ingressos serão devolvidos. A devolução de entradas adquiridas pelo ingresso.com será feita pelo site Programa sujeito a alterações. Eventuais mudanças serão informadas no site ims.com.br e no Instagram @imoreirasalles. Confira as classificações indicativas no site do IMS.


A voz de Hind Rajab (Sawt Hind Rajab), de Kaouther Ben Hania
Visitação: terça a sexta, das 13h às 19h. Sábados e domingos, das 9h às 19h.
Entrada gratuita.
Sessões de cinema: Quinta a domingo. Rua Teresópolis, 90 CEP 37701-058
Cristiano OsórioPoços de Caldas ims.pc@ims.com.br
ims.com.br
/institutomoreirasalles @imoreirasalles @imoreirasalles /imoreirasalles /institutomoreirasalles