Alguns elogios a Animais belos e famintos
Esta leitura envolvente nos convida a respirar nossa humanidade e compreender como nossa alegria cresce quando ajudamos a levar alegria aos outros. Estamos todos conectados, e sempre que alguém experimenta bondade, seja humano ou mais-que-humano, o mundo se torna um lugar melhor. – Gene Baur, residente e cofundador do Farm Sanctuary Halteman é um escritor brilhante, o tipo de autor capaz de fazer até um livro sobre grama crescendo ser comovente. Imagine, então, o que ele faz com um tema que, fora sua família, é o mais importante de sua vida. Simplesmente, Animais belos e famintos é uma leitura espetacular: profunda e divertida, e uma das obras mais bem construídas que já li. Leia este livro, você não vai se decepcionar. – Bruce Friedrich, presidente e fundador do Good Food Institute Por meio da arte de contar histórias, Animais belos e famintos oferece uma ampla gama de razões positivas para adotar o veganismo – dos direitos humanos à saúde pessoal – e, o mais importante, apresenta diversas maneiras de fazê-lo. Profundamente pessoal, o livro é acessível, cheio de bom humor e, acima de tudo, generoso: um incentivo alegre para deixar carne, laticínios e ovos fora do prato. – Lisa Kemmerer, autora de Animals and World Religions e Eating Earth Bem-vindo à visão afirmativa de Halteman para todos nós, animais belos e famintos. Acomode-se na companhia de um autor que acredita em nossa capacidade de transformar fardos morais em dons de consciência e em vidas de abundância. Deixe do lado de fora qualquer sentimento de culpa, vergonha ou condenação: eles não têm utilidade aqui. Neste livro acessível, divertido, comovente e cheio de alegria, Halteman 3
oferece a nós, criaturas vulneráveis e compassivas, uma bússola para a empatia e receitas para o florescimento individual e coletivo. – Carol J. Adams, autora de A política sexual da carne Um argumento visceral a favor da adoção de um estilo de vida vegano pleno de alegria. Um apelo para que aliviemos o sofrimento profundo de nossos companheiros de jornada pela vida, engolidos pela eternidade antes e depois de nós. – Christof Koch, autor de Then I Am Myself the World Este livro é extraordinário. Halteman conduz seus leitores por uma jornada envolvente de reflexão da qual poucos sairão os mesmos. Ele abandona o tom sisudo e moralista tão comum nesse tema, oferecendo, em vez disso, um convite suave e encantador para enxergar e sentir o apelo de comer de outro modo. Desafio você a ler as primeiras páginas com a certeza de que vai apreciar a companhia de Halteman até o fim. – David Clough, professor e presidente do Departamento de Teologia e Ciências Aplicadas, Universidade de Aberdeen Halteman é um pensador brilhante e um contador de histórias talentoso, que escreve com prosa afiada, vívida e belíssima. Página após página, frase após frase, ele transforma até observações às vezes sombrias ou hilárias sobre a condição humana em pura alegria de leitura. Mas o que mais se destaca é sua honestidade: uma transparência retórica e uma entrega tão completas que sua vulnerabilidade em Animais belos e famintos chega a ser incandescente. Sua disposição de expor, sem disfarces, suas falhas humanas – intelectuais, espirituais ou pessoais – sem se defender nem pregar moralismos rígidos, é inspiradora e urgente. Animais belos e famintos é, ao mesmo tempo, um livro corajoso sobre ética alimentar, uma inesperada memória espiritual e uma investigação delicada e rigorosa sobre o que significa ser humano e examinar a própria vida. – Bonnie Nadzam, pesquisadora do Harvard Animal Law and Policy Program 4
Animais belos e famintos é a obra de um filósofo experiente e de um narrador magistral. Profundamente honesto e íntimo, mas também exuberante, o livro não tenta convencer o leitor por meio de argumentos, e sim de modo indireto – com humor, histórias e humanidade –, tornando o veganismo uma opção não apenas sensata, mas desejável e alegre. Ao final, já não há distância entre o que sentimos que devemos fazer e o que realmente queremos fazer. – Andrew Chignell, Universidade de Princeton O veganismo costuma nascer da consciência de um desastre: da crueldade contra os animais, da degradação ambiental, de problemas de saúde evitáveis e de riscos públicos desnecessários. Halteman mostra como podemos reconhecer essas tragédias sem nos deixar abater: podemos responder de formas elevadas, que promovem sentido, felicidade, conexão e amor em nós e em nossas comunidades. Ele revela que adotar o veganismo não é apenas uma resposta ética aos maiores problemas do mundo, mas também um caminho para nos tornarmos nossas melhores versões. Qualquer pessoa que deseje melhorar o mundo – e a si mesma – encontrará neste livro inspiração e sabedoria. – Nathan Nobis, Morehouse College Li Animais belos e famintos em três sessões de leitura em um único dia. Boa parte do que ele tem de bom será imediatamente evidente a qualquer leitor: entusiasmo e empatia; abertura de coração e de mente; uma profusão – no melhor sentido – de histórias divertidas e úteis; uma apresentação vívida da complexidade do sistema alimentar; a ideia de que, porque a comida está ligada às memórias e os animais estão ligados à comida, eles também são lugares de nostalgia – algo que um simples Tofurky [peru de tofu] no Dia de Ação de Graças não resolva; a visão do veganismo como extensão de lições que aprendemos ainda no jardim de infância; as reflexões sobre vergonha, mudança e identidade; a primeira frase de cada capítulo. Foi um prazer ler este convite inteligente, divertido, acolhedor e abrangente para abraçar o veganismo. – Tyler Doggett, professor de filosofia e membro da Pós-Graduação em Sistemas Alimentares, Universidade de Vermont 5
MATTHEW C. HALTEMAN
ANIMAIS BELOS E FAMINTOS Um convite alegre e inspirador ao veganismo
tradução
Rodrigo Seabra
Copyright © 2024 Matthew C. Halteman Copyright desta edição © 2026 Editora Vestígio Esta edição foi publicada mediante acordo com a Basic Books, um selo do Basic Books Group, uma divisão da Hachette Book Group, Inc., Nova York, NY, EUA. Todos os direitos reservados.
Título original: Hungry Beautiful Animals: The Joyful Case for Going Vegan Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem autorização prévia da Editora. Proibida a venda em Portugal.
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Arnaud Vin edição e revisão de texto
Eduardo Soares capa
Diogo Droschi (Sobre imagem Marina Gorskaya/Adobe Stock) diagramação
Waldênia Alvarenga
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Halteman, Matthew C. Animais belos e famintos : um convite alegre e inspirador ao veganismo / Matthew C. Halteman ; tradução por Rodrigo Seabra. -- 1. ed. -- São Paulo : Vestígio, 2026. Título original: Hungry beautiful animals ISBN 978-65-6002-129-7 1. Animais - Proteção - Aspectos morais e éticos 2. Ativismo 3. Meio ambiente 4. Sustentabilidade 5. Veganismo I. Título. 25-318119.0 CDD-179.3 Índice para catálogo sistemático: 1. Animais : Proteção : Ética vegetarianismo 179.3 Eliete Marques da Silva - Bibliotecária - CRB-8/9380
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Para Susan, minha parceira no amor, na vida, na paternidade e nesta causa. Muito obrigado por me ajudar a enxergar outros animais belos e famintos onde antes eu só via objetos.
Introdução Animais belos e famintos .............................................................. 13 Parte 1 Iluminação: a necessidade de um novo normal vegano .............31 Capítulo 1 Veganismo ou nada: um mundo em crise .....................................33 Capítulo 2 Qualquer coisa, menos vegano: um mundo em negação ............ 53 Capítulo 3 A imaginação vegana: sua perspectiva moral de sempre só que ampliada! ...........................................................................69 Parte 2 Imaginação: a alegria abundante de um novo normal vegano................................................................. 85 Capítulo 4 Seres humanos: rumo ao autoflorescimento e a comunidades mais justas .............................................................. 87 Capítulo 5 Animais: rumo a uma expansão de consciência e ao florescimento de todas as criaturas ........................................... 109 Capítulo 6 Terráqueos: rumo a um florescimento de todos dentro de nosso lar comum..........................................129
Parte 3 Motivação: viver bem em direção a um novo normal vegano ...............................................................145 Capítulo 7 Aspiração: objetivos para o nosso próprio bem vegano ............147 Capítulo 8 Disciplina: exercícios espirituais para se tornar vegano .............163 Capítulo 9 Transformação: vivendo bem como um vegano......................... 179 Agradecimentos ......................................................................... 191 Apêndice A Recursos para explorar a nutrição à base de plantas ................201 Apêndice B Tiramisù vegano cremoso de castanha de caju e coco ..............205 Notas ...........................................................................................208
Introdução
Animais belos e famintos
Nós, seres humanos, somos animais belos e sem dúvida famintos. Sentimos fome de sobrevivência, prazer, pertencimento, florescimento e transcendência, e transformamos comida em energia que alimenta apetites sempre crescentes por sentido, novidade e melhoria. Como criaturas sensíveis, já nos importamos com o mundo desde sempre, desejamos aquilo que ele oferece e nos esforçamos para torná-lo nosso. Basta pensar em uma fatia perfeita de pizza para que nossa boca se encha d’água, nossos dedos comecem a procurar no Google as melhores opções por perto e nossas mentes inventem desculpas plausíveis para um horário de almoço mais longo. Somos criaturas movidas por uma fome poderosa, e a aventura de treinar e satisfazer esses desejos pode nos conduzir ao melhor de nós mesmos – ou nos lançar em direção ao pior. Pode abençoar o mundo ou amaldiçoá-lo. E nós, seres humanos, além de famintos, somos também animais belos. O simples fato de estarmos aqui já é um mistério espetacular, uma improbabilidade transgredida, um fato bruto e deslumbrante em meio a um oceano de possibilidades não realizadas. Estarmos aqui exatamente como somos – com cérebros grandes, caminhando eretos, dotados de capacidades para criar, cooperar e amar – é, no mínimo, de tirar o fôlego. Quem nunca ficou boquiaberto diante da engenhosidade científica e artística da nossa espécie? Ou com os olhos marejados diante da solidariedade nas adversidades? Ou com o coração aquecido por alguém que amamos, ou até por um estranho em apuros? O fato de sermos capazes de algo mais do que mera sobrevivência bruta, de um florescimento coletivo belo de se ver, é uma das esperanças humanas mais antigas e audaciosas, presente desde as pinturas rupestres até os 13
textos sagrados, de Hamilton aos movimentos contemporâneos por justiça. Somos criaturas dolorosamente belas, inclusive – e especialmente – quando nos propomos ao impossível e fracassamos. No entanto, nós, seres humanos, à parte sermos belos e famintos, somos também animais. Nossos desejos e nossa beleza precisam conviver nos corpos vulneráveis das criaturas que somos. Somos limitados pela respiração, pelo sangue, pelos ossos, pelo pertencimento, por uma perspectiva limitada e por seu primogênito: o egoísmo míope. Dependemos de instintos profundos, de hábitos e modos de viver em grupo, bases das quais brota nossa própria existência e que, por isso, obedecemos e tememos desafiar. Podemos nos sair muito bem, mas apenas sob condições que acolham nossas muitas fragilidades e perdoem nossa profunda vulnerabilidade ao sofrimento e à morte. Para sobreviver e prosperar, precisamos aprender a viver em sintonia com nossos companheiros de planeta – humanos e não humanos –, respeitando e cuidando de nossas limitações de criaturas, assim como das deles, enquanto partilhamos um mundo que, com frequência dolorosa, se mostra hostil aos nossos esforços. Todos os animais belos e famintos precisam se adaptar a essas inospitalidades para que seus corpos frágeis possam florescer. Para porcos, elefantes, baleias, cães e seres humanos, a expressão “animais belos e famintos” capta com beleza nossa condição comum – com a beleza suspensa no equilíbrio entre desejo e limitação, sustentada por uma fome que nos impulsiona e por limites invioláveis que nos detêm. Mas nós, seres humanos, somos os únicos animais belos e famintos que desenvolveram estratégias adaptativas tão poderosas para alimentar seus desejos e lidar com seus limites que colocaram em risco a própria capacidade da Terra de continuar nutrindo criaturas vulneráveis e dependentes. Essa fome por mais (e por mais rápido, mais fácil, mais reconfortante) está na origem da nossa ascensão como espécie dominante. No best-seller Sapiens, o historiador Yuval Noah Harari descreve nossos ancestrais mais antigos como “uma raça de cozinheiros”, cuja domesticação do fogo ampliou imensamente a gama de alimentos seguros, práticos e de fácil digestão, libertando os humanos para comer em apenas uma hora por dia, enquanto chimpanzés mastigavam alimentos crus por até cinco horas.1 14
Trezentos mil anos depois, nossa fome persistente por comida cada vez mais rápida e abundante tem se mostrado um pouco menos libertadora. Tudo bem, Oreos que brilham no escuro na edição de Halloween são um feito, e as airfryers são incríveis.2 Mas as consequências de criarmos e consumirmos oitenta bilhões de animais terrestres por ano estão longe de ser positivas. A ciência do clima alerta que temos menos de uma década para agir com radicalidade e evitar os piores efeitos das mudanças climáticas. E as pesquisas científicas mais prestigiadas sobre como mitigar esse desastre iminente apontam a agropecuária animal industrial como uma das maiores fontes de emissão de gases de efeito estufa causados por humanos. Muitas dessas pesquisas classificam a adoção de uma alimentação à base de plantas como “a maneira mais eficaz de reduzir nosso impacto ambiental no planeta”.3 Diversas vozes respeitadas – da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura aos periódicos Science, Nature e à Comissão EAT-Lancet para Alimentação, Planeta e Saúde – são unânimes: se quisermos salvar o planeta, já passou da hora de deixarmos para trás dietas centradas em animais e migrarmos para alternativas vegetais.4 E não é só o planeta que sofre com os excessos da agropecuária animal industrial. A ciência da nutrição e a epidemiologia revelam que a nossa saúde, individual e coletiva, também está em risco. As altas taxas de doenças relacionadas à alimentação, como câncer, AVC, diabetes e doenças cardíacas, degradam a qualidade de vida, antecipam a morte e sobrecarregam um sistema de saúde já exausto.5 A covid-19 é um alerta vívido dos riscos pandêmicos que enfrentamos por causa da gripe aviária, gripe suína e outros vírus zoonóticos.6 Os produtos de origem animal não apenas estão nos adoecendo, como também ameaçam nossa capacidade de tratar doenças, já que o uso excessivo de antibióticos em criações confinadas é uma das principais causas da resistência antimicrobiana.7 E, para piorar, toda essa catástrofe prática se apoia numa tragédia moral. Mesmo com a ciência do comportamento animal confirmando que os animais são seres inteligentes, emocionais, sociais – que se importam com a própria vida –, e mesmo com o número cada vez maior de pessoas que vivenciam essas verdades no convívio com seus animais de estimação, nossos hábitos alimentares continuam provocando, 15
todos os anos, vidas miseráveis e mortes violentas para bilhões de seres exatamente como eles.8 Não podemos esquecer que o trabalho necessário para criar e abater esses animais está entre os mais degradantes e indesejados do mundo. Um relatório recente da Oxfam o descreveu como sombrio, perigoso, profundamente injusto para pessoas já marginalizadas por racismo e/ ou sexismo – e tão cruelmente acelerado que há trabalhadores usando fraldas por falta de pausas para ir ao banheiro.9 Existe um consenso quase unânime entre especialistas em ética: o sistema alimentar industrial moderno é moralmente indefensável.10 A dura verdade é que nossa fome criou um sistema alimentar que trabalha contra nossa beleza e contra a fome e a beleza de bilhões de outros animais. Esse desequilíbrio está tornando a Terra um lugar muito menos acolhedor para todos nós. Ignorar as consequências cada vez mais perigosas de nossos hábitos alimentares coletivos já não é uma opção para quem deseja evitar o colapso climático – e estar do lado certo da história quando se trata da vida de nossos companheiros animais belos e famintos. No mínimo, aqueles que se preocupam com a viabilidade da vida no planeta Terra e desejam viver de forma ética deveriam se opor ao flagelo da agropecuária animal industrial. Quem tem o privilégio de escolher o que come entre várias opções tem excelentes razões para mudar sua alimentação, como forma de expressar e viver seus valores, e de alimentar a esperança de preservar e melhorar a vida no planeta. O veredito já foi dado. O mundo precisa de muito mais veganos, e as evidências científicas mais contundentes, assim como os argumentos morais mais fortes, indicam que essa transformação global rumo ao herbivorismo precisa acontecer o quanto antes. Ah, aí está ela: a palavrinha com “v”. A palavra que interrompe tudo como o ruído agudo de uma agulha riscando um disco, congelando a cena como num filme ruim dos anos 1980 – segundos antes de o narrador entrar com uma lamentação sobre como sua turma se meteu naquela enrascada. Quer acabar com uma conversa? Diga a palavra com “v”. Quer sabotar uma festa? Avise à pessoa mais estilosa que o bufê é vegano. Quer fazer alguém parar imediatamente de folhear um livro incrível… bom, deixa pra lá. 16
Se alguém me dissesse, há vinte e cinco anos, que eu chegaria ao novo milênio defendendo um mundo vegano como forma de salvar o florescimento das criaturas das garras de um apocalipse moral e climático… Eu teria pegado o primeiro pedaço de carne que encontrasse e o teria lambido de cima a baixo só de pirraça. Naquela época, eu sabia pouco ou nada sobre o que os veganos realmente defendiam – e muito sobre o que pareciam condenar: todos os meus alimentos preferidos, meu bulldog inglês de raça, os zoológicos e aquários que eu amava visitar… e, claro, o sofrimento animal, a morte e outras “chatices” que ameaçavam estragar meu jantar, limitar meu guarda-roupa ou me afastar dos amigos e da família. Talvez eu não seja o vegano mais improvável do mundo, mas, convenhamos, o baralho cósmico não estava a meu favor quando se tratava de mudar minha postura em relação a outros seres. A agropecuária faz parte da minha herança. Meu avô paterno era granjeiro. Meu avô materno era químico de herbicidas. O primo da minha mãe é executivo de uma das maiores produtoras de carne suína dos Estados Unidos. Eu não fui criado no campo, mas algumas das minhas memórias mais queridas da infância envolvem: andar de trator, debulhar milho, explorar os galpões de frango e brincar de pega-pega com meus primos atrás do barracão de abate do meu bisavô. Devo minha existência, minhas aspirações morais e espirituais – e muitas das minhas lembranças mais felizes – a boas pessoas que vivem da agropecuária.11 E, tendo crescido no Meio-Oeste americano, passei a maior parte da vida comendo (e amando comer) produtos de origem animal. Sou o adolescente jogador de futebol americano que devorava, com os colegas da linha ofensiva, bifes gigantes e infinitas porções de camarão empanado nos rodízios de shopping. Sou o tonto que posou para fotos no próprio casamento com a boca cheia de costelas roídas imitando presas. Sou o confeiteiro amador orgulhoso que encantava amigos e parentes transformando dois quilos de queijo mascarpone, uma dúzia de ovos e um pequeno lago de conhaque no tiramisù mais voluptuoso do mundo. Sou também filósofo profissional – e bastante cético. É difícil me convencer de qualquer coisa sem evidências contundentes, e tenho à minha disposição ótimas ferramentas mentais para afastar ideias que 17
não me agradam. Quando um colega filósofo sugeriu, certa vez, durante uma conferência fatídica, que meu sanduíche de carne ao molho francês era prática e moralmente incompatível com as convicções que eu tanto prezava sobre humanidade, animais e meio ambiente… Minha reação foi tentar refutá-lo com unhas e dentes. Cheguei ao ponto de criar um curso universitário inteiro sobre ética alimentar, na esperança de encontrar pelo menos dez argumentos irrefutáveis que o fizessem calar aquela boca beijadora de coelhinhos e me deixasse continuar enchendo a minha com lombo de porco temperado com ervas finas. O que encontrei, para meu choque, foi um conjunto convincente de evidências empíricas e argumentos emocionais, morais e espirituais em forte defesa de uma conclusão que eu desesperadamente queria evitar: não apenas eu tinha todos os bons motivos para me tornar vegano – em benefício da minha família e de mim mesmo –, como também havia razões urgentes para inspirar outras pessoas a se juntar a mim nessa jornada, diante dos custos éticos e ambientais catastróficos da nossa resistência coletiva a mudar um modo de vida suicida. Desde essa epifania e da minha própria decisão de me tornar vegano, passei as últimas duas décadas aprendendo com outras pessoas, escrevendo, oferecendo cursos, palestras públicas e oficinas – fui até cofundador de um festival! – para compartilhar o que aprendi. Então agora você deve estar pensando que vou apontar a “arma climática” para sua cabeça e o “punhal ético” para sua garganta, tentando coagi-lo a comer plantas, certo? Talvez, se eu esfregar sua cara em fatos e argumentos por tempo suficiente, enquanto grito “Buuuuuu!” no seu ouvido bem alto, você se afaste, envergonhado, dos confortos da familiaridade, forçado a considerar obrigações que detesta (pelo menos temporariamente, até ser seduzido pela próxima onda irresistível de aroma do seu prato preferido, aquele mesmo que vem assombrando sua memória desde a primeira menção à palavra com “v”)? Santo Deus, não é nada disso! Essa receita para o fracasso já colocada tantas vezes à prova definitivamente não estará no nosso cardápio. Uma das lições mais importantes que aprendi nos últimos vinte anos é que culpa e acusação raramente levam à transformação.12 Minha esperança, em vez disso, é seduzi-lo, encantá-lo, inspirá-lo com a visão de um mundo vegano tão grandioso que nenhum “-ismo” 18
rígido, com regras padronizadas e infinitas formas de desqualificação, poderia conter. Quero chutar a vergonha e a culpa para o acostamento e abrir espaço para uma vida magnífica de abundância, perfeitamente sintonizada para encantar os animais belos e famintos que somos: uma vida que sacie nossos desejos mais profundos, respeite nossos limites invioláveis e abra espaço para o florescimento de outros animais belos e famintos também. Quero convencê-lo de que todos estamos juntos nessa jornada maravilhosa, não apenas os mais radicais, ambientalmente conscientes ou engajados em justiça social, mas todos que têm fome de aproveitar ao máximo essa oportunidade extraordinária de conduzir um corpo frágil, cheio de necessidades e desejos, em direção ao florescimento mais pleno possível – para todos. Quero articular uma visão da vida vegana tão bela que capture sua imaginação e o convoque à participação não por meio da ameaça da vergonha, mas pelo desejo irresistível de se aproximar daquilo que você ama. Pense em alguém cuja companhia você realmente adora, ou em algo que ache bonito, ou naquela sobremesa de fim de ano que você vai furtar da geladeira às duas da manhã, enquanto a casa toda dorme. Você precisa de um argumento para mais uma rodada de drinks ou outra partida com seu melhor amigo? De uma justificativa para continuar na areia depois do anoitecer, quando a praia já está vazia? De um discurso de vendas para se convencer a repetir o tiramisù? Provavelmente não. Se você for como eu, produtos de reflexão cuidadosa – como argumentos, razões e discursos de vendas – são a última coisa que passa pela sua cabeça em situações assim, porque o desejo já está no comando e você está sentindo isso. O objeto belo do seu desejo está fazendo o trabalho motivacional, então toda essa pressão para forçá-lo a fazer algo menos desejável torna-se completamente desnecessária. Meu mestre nas artes da sedução, quando se trata de uma vida vegana bela o bastante para justificar-se por si só, é o inimitável Bryant Terry.13 Chef celebrado, autor de livros de culinária e ativista por justiça alimentar, tão à vontade cozinhando num pop-up em São Francisco quanto palestrando em Yale, Bryant sempre diz: “Comece pelo visceral, passe pelo cerebral e termine no político” – outra forma de dizer: “Vamos colocar um Isaac Hayes para tocar, encher a casa com o aroma 19
de molho barbecue de romã e pêssego, e repartir o pão juntos antes de colocarmos nossos chapéus de pensar e conspirarmos para resolver os problemas do mundo”. Ao atuar como consultor no desenvolvimento de seu livro Afro-Vegan, fui eu quem acabou servido com um prato generoso dessa abordagem embebida de gratidão e beleza como primeiro passo para o veganismo, e isso me marcou profundamente. Bryant me ensinou que, se quisermos mesmo engajar as pessoas na construção de um mundo melhor – e precisamos! –, devemos primeiro convidá-las a uma experiência que amem, para que as conexões entre seus desejos mais profundos e o mundo melhor que precisamos criar brilhem juntas sob a égide da beleza. Imagine, por um instante (por mais improvável que pareça agora), que a visão de um mundo vegano o movesse à ação não por uma obrigação temida, mas por um desejo profundo. Que se tornar vegano parecesse mais com se servir de uma segunda porção de tiramisù do que com arranjar tempo para limpar a casa. Como seria essa visão? Como seria experimentá-la, deixar-se levar por sua beleza? Que vento ela colocaria em suas velas, e que rumo novo poderia dar ao seu cotidiano? Espero que este livro ofereça respostas inspiradoras a essas perguntas, porque sejamos honestos: o entusiasmo coletivo pela necessidade urgente de um novo normal vegano está longe de ser uma realidade. A dura verdade é que a maioria das pessoas preferiria saltar de paraquedas sem o paraquedas do que adotar o veganismo. Como observa Farhad Manjoo em um apelo apaixonado publicado no New York Times – “Parem de zombar dos veganos” –, “o estereótipo do vegano presunçoso, irritante e enamorado de si mesmo é algo que criou raízes culturais profundas”, a ponto de, segundo um estudo, “os veganos serem vistos mais negativamente do que os ateus” e serem “apenas um pouco mais tolerados do que os usuários de drogas”.14 Não é difícil entender por que o veganismo é amplamente percebido como um verdadeiro estraga-prazeres. Todos conhecem os supostos lados negativos. Para começo de conversa, muitos dos sinais mais óbvios de sucesso material e domínio cultural estão fora de cogitação. Diga adeus à lagosta, ao filé mignon, ao estofamento de couro, aos pets exóticos, aos casacos de pele, aos sapatos de camurça azul e à caça e pesca esportivas. 20
Deixando esses luxos de lado, veganos enfrentam restrições indesejadas até mesmo em relação a marcadores culturais e religiosos caseiros: adeus ao querido peru de Ação de Graças, ao tender de Natal, aos kebabs de cordeiro do Eid, ao peito bovino assado no Shabat. Do lado de fora, para muitos, ser vegano inevitavelmente parece uma receita para uma vida triste, solitária, de autoprivação e julgamento dos outros. Nas palavras imortais do meme do guaxinim sorridente: “Começo conversas com ‘Como sou vegano…’ quando não quero mais ser amigo de alguém”. Para piorar, os próprios veganos muitas vezes assumem tacitamente esse enquadramento negativo e transmitem a importância do veganismo como se seu coração espiritual estivesse em se abster de certas coisas ruins. Vê essa fazenda industrial horrenda? Isso é errado! Não apoie! Vê esses experimentos médicos cruéis em animais? Isso é abominável! Pare de tomar esses medicamentos! Olhe esses babuínos apáticos e entediados! Que vergonha! Chega de zoológicos! Na minha visão, é indiscutível que há uma necessidade urgente de direcionar nossa atenção moral a esses e outros contextos que perpetuam a crueldade contra os animais.15 Mas o tamborilar incessante de más notícias, às vezes comunicado num tom percebido como condescendente ou até de desprezo, acaba encobrindo o ponto principal: há muitos bens positivos que inspiram as pessoas a se tornarem veganas e muitas vantagens reais (para as pessoas, os animais e o planeta) em transformar isso em um modo de vida. E o espírito de julgamento que pode emanar desse enquadramento negativo do veganismo não se restringe aos que estão fora do “clube”. Veganos costumam ser ainda mais duros consigo mesmos, carregando em silêncio a vergonha profunda de não conseguirem abrir mão de absolutamente tudo. Chocolate barato no Halloween. Amostras grátis no supermercado. Pizza de graça no trabalho. Sapatos preferidos. Mesmo depois que todos os cintos de couro delinquentes foram expulsos do armário, a ameaça da inautenticidade paira sobre cada vacina contra a gripe (cultivada em ovos!), colher de chá de açúcar refinado (com carvão de ossos!), ou taça de vinho (clarificado com bexigas de peixe!). Se os próprios veganos frequentemente caem na armadilha da culpa e da autocrítica, não é surpresa que o resto do mundo mal consiga 21
imaginar o que seria uma vida vegana plena. E essa falta de imaginação, essa incapacidade de conceber o veganismo como uma vida boa, verdadeira e bela, pode nos assombrar nos recantos mais profundos da experiência. Basta entrar na sala de um colega vegano para ser bombardeado por perguntas defensivas que reverberam em nosso corpo físico, social, emocional, intelectual e moral: Será que eu sobreviveria sem queijo? Minha família me deserdaria se eu parasse de caçar? Os seres humanos não são mais importantes do que os animais? Animais não são um presente de Deus para nosso conforto e prazer? Como eu conseguiria correr uma maratona comendo só arroz e brócolis no vapor? Agora eu deveria começar a julgar meus amigos por comerem costela? Essas perguntas quase sempre desestimulam qualquer aprofundamento, e com razão. As forças que resistem ao veganismo, evocadas por essas questões, não são brincadeira. O prazer. A lealdade familiar. O sentimento humano de comunhão. A gratidão ao divino. A preocupação com a saúde. O conforto da amizade. O medo da rejeição. Essas estão entre as forças mais poderosas que moldam quem somos. Ter coragem para tentar reconfigurar esses padrões é uma tarefa gigantesca. Dizer o contrário é subestimar o quão profundamente enraizados estão nossos hábitos alimentares e nossas atitudes em relação aos animais. Mas mesmo que encontremos coragem para expandir nosso horizonte imaginativo a ponto de enxergar o veganismo como algo promissor e até empolgante, um outro desafio logo se impõe: a fragilidade da nossa força de vontade. É fácil se imaginar escolhendo o chili vegano em vez do sanduíche de pastrami, ou optando por um tênis de lona no lugar de um salto de couro de cobra – se ambas as opções estivessem ali, lado a lado, igualmente acessíveis, num cenário neutro, sem pressões externas. Mas tomar essas decisões na vida real é outra história: elas podem significar mais tempo na cozinha, um custo maior, a perda de certos prazeres, piadinhas de amigos ou o olhar desconfiado da família. Imaginar-se feliz e realizado como vegano, portanto, e ainda por cima cultivar diariamente as atitudes e ações necessárias para isso, pode parecer como lidar com duas tarefas completamente diferentes. Não apenas essas habilidades não surgem naturalmente para a maioria das pessoas, como também vão frontalmente contra muitos hábitos reconfortantes e prazeres enraizados. Só de imaginar nunca mais comer 22
um brunch de aniversário com ovos ou vestir um suéter de lã já parece difícil o bastante. Mas encontrar força de vontade para continuar quando a conta do mercado aumenta, as roupas estilosas e bem-feitas se tornam mais difíceis de encontrar, e seus restaurantes preferidos não têm nada apetitoso no cardápio… bem, isso pode parecer simplesmente impossível de suportar! Nosso dilema, portanto, é complexo. Estaríamos muito melhor, como indivíduos e como sociedade, se o veganismo se tornasse o novo padrão. Ser vegano traz benefícios significativos tanto no plano pessoal quanto no coletivo, e é uma das chaves para enfrentar problemas ambientais e éticos catastróficos, como a crise climática, doenças alimentares, pandemias globais, bactérias super-resistentes, exploração de trabalhadores e crueldade contra os animais. Mas ser vegano é impopular, até mesmo malvisto. As pessoas, em geral, estão muito mais familiarizadas com os supostos ônus do que com os benefícios, tanto porque o veganismo costuma ser apresentado de forma negativa (e às vezes com um tom de julgamento), como uma reação a más notícias, quanto porque o mundo, já cético, está sempre pronto para apontar qualquer contradição como prova de que o veganismo não passa de balela moralista. Nesse contexto, é difícil para a maioria das pessoas imaginar o que levaria alguém a se tornar vegano, e, mais ainda, como elas próprias poderiam fazer essa transição sem comprometer aspectos de sua identidade que parecem inegociáveis para uma vida feliz e saudável. E mesmo que alguém tenha a capacidade imaginativa de desejar essa mudança, ainda resta o velho obstáculo de encontrar força de vontade para levá-la adiante, diante de custos financeiros, sociais e físicos que parecem intransponíveis. Tornar o mundo seguro para um novo normal vegano, portanto, exige soluções para três problemas centrais, que chamo de os desafios da iluminação, da imaginação e da motivação. O desafio da iluminação é resgatar a decisão de se tornar vegano da má fama e da desinformação, oferecendo uma argumentação clara e convincente sobre a urgência prática e moral dessa escolha, com base em visões científicas e éticas amplamente aceitas pela maioria das pessoas. Mas, embora iluminar o caminho dessa forma possa remover 23
obstáculos importantes e demonstrar que o veganismo está em harmonia com crenças e compromissos predominantes, isso muitas vezes não é o bastante para entusiasmar as pessoas a embarcar nessa jornada. Afinal, é uma coisa reconhecer que algo está em nosso melhor interesse, e outra bem diferente é desejar fazê-lo. Animar-se com o desafio de reimaginar o mundo ideal e abraçar com entusiasmo tudo o que ele tem a oferecer é o segundo passo do processo. O desafio da imaginação, então, é traçar uma visão de um mundo vegano tão verdadeiro, belo e bom que capture nossa imaginação e alimente nosso desejo de adotar o veganismo não apenas porque devemos, mas porque aspiramos a concretizar os inúmeros bens que nós, nossos vizinhos, os outros animais e a Terra poderíamos alcançar com essa mudança. Por mais que essa reimaginação de um mundo vegano evoque o desejo de transformação, as realidades concretas da vida frequentemente sabotam até os planos mais bem elaborados e os anseios mais sinceros. O desafio da motivação, portanto, é construir um conjunto de ferramentas estratégicas – envolventes, acessíveis e inspiradoras – que nos ajudem a encontrar forças para adotar e manter o veganismo mesmo (e especialmente) quando não conseguimos realizar plenamente nossas aspirações num mundo imperfeito. O objetivo deste livro é mostrar como podemos enfrentar esses três desafios de maneira acolhedora e inspiradora, de modo que leitores de todos os perfis saiam dele iluminados sobre a urgência prática e moral do veganismo, energizados com a promessa de um mundo vegano e encorajados a dar os passos concretos possíveis rumo a esse ideal, de acordo com seus talentos, dons e circunstâncias. Não é coincidência que minhas estratégias para enfrentar esses desafios correspondam diretamente às ideias de verdade, beleza e bondade – os “transcendentais” que filósofos de tradições tão diversas quanto o hinduísmo, o neoplatonismo e o cristianismo consideraram representar os desejos mais profundos da humanidade: o desejo de ser iluminado pela verdade nua e crua da nossa realidade, em vez de ser enganado pelas ilusões de um paraíso falso; o desejo de ser elevado pela beleza de criaturas fascinantes e lugares inspiradores, em vez de ser degradado por companhias repulsivas e ambientes opressivos; e o 24
desejo de experimentar a grande bondade de florescer dentro de nossos limites, em vez de sofrer as doenças provocadas por não respeitá-los. Convido você a enxergar a vida vegana sob uma ótica movida pelo desejo, não pela culpa. Que encontre nesse caminho a atração por aquilo que, no fundo, você realmente quer, e não a obrigação de seguir expectativas que não ressoam com quem você é. E que melhor forma de alcançar esse resultado do que estruturar essa visão a partir da realização dos três desejos humanos mais profundos? As três partes deste livro foram escritas com o objetivo de enfrentar os desafios da iluminação, da imaginação e da motivação com uma estratégia feita sob medida para animais belos e famintos como nós, que desejam, acima de tudo, verdade, beleza e bondade. A Parte I enfrenta o desafio da iluminação ao esclarecer a urgência prática e moral de estabelecer um novo normal vegano, explicando por que essa urgência soa como uma má notícia para tanta gente, e demonstrando que, apesar da relutância coletiva, a promessa do veganismo pode ser apresentada de forma convincente com base em visões e compromissos morais que muitos de nós já valorizamos profundamente. Apesar das aparências, um mundo vegano é algo que muitos de nós já desejamos, mesmo que ainda não tenhamos nos dado conta disso. A Parte II enfrenta o desafio da imaginação ao recorrer a essa fonte de desejo para desenvolver uma visão bela e holística do que os veganos defendem, esclarecendo as muitas formas interligadas pelas quais estabelecer um novo normal vegano poderia impulsionar o mundo rumo a um estado mais verdadeiro, mais belo e melhor para os seres humanos, os demais animais e o planeta. A Parte III enfrenta o desafio da motivação ao traduzir as aspirações gerais da imaginação vegana em metas realistas adaptadas às nossas circunstâncias específicas. Ela propõe um regime disciplinado, mas flexível, de práticas diárias que motivem o progresso constante em direção a essas metas, e desenvolve uma estratégia para discernir e se alegrar com os avanços graduais da transformação, em vez de lamentar o que ainda está incompleto ou imperfeito. Mas mais importante do que o objetivo deste livro é sua alma: o espírito que o anima e que, espero, possa envolver você no trabalho de Animais belos e famintos e acompanhá-lo em cada etapa, despertando 25
um senso de propósito e solidariedade muito maior do que a simples soma das partes. Se você já fez parte de uma equipe esportiva ou de uma torcida, de uma comunidade religiosa ou de um movimento político, de uma força-tarefa determinada no trabalho, ou até de um grupo de amigos inseparáveis enfrentando juntos um desafio comum, sabe o quanto é crucial que esse esforço coletivo tenha alma. Que exista entre vocês um espírito de unidade capaz de transcender as fragilidades individuais e, de algum modo, revelar e mobilizar o melhor de cada um conforme os desafios aumentam e o calor se intensifica.16 Há muitas formas de pensar o que é alma e de onde ela vem, mas aqui vou entendê-la como uma química elevadora e agregadora, algo que une participantes dispostos em torno de uma causa comum e os sustenta para que realizem juntos um trabalho importante. A alma deste livro – sua química vital – é a aspiração de que cada um de nós formule sua própria resposta convincente a uma pergunta simples, mas transformadora, que pode nos tornar imparáveis juntos: E se o mundo soubesse tanto sobre as coisas verdadeiras, belas e boas que os veganos defendem quanto sabe sobre as coisas falsas, feias e ruins às quais eles se opõem? E como seria canalizar nossos talentos e dons únicos para catalisar esse despertar cultural? Imagine como a percepção pública sobre o veganismo poderia mudar se deixássemos de descrevê-lo como um conjunto de privações frente ao que é falso, feio e ruim, e passássemos a reimaginá-lo como uma aspiração por um mundo que é verdadeiro, belo e bom. Como observa Keeanga-Yamahtta Taylor de forma profunda, “nenhum movimento social começa perguntando o que é possível; ele costuma ser impulsionado pela imaginação do que poderia ser”.17 Na sua forma mais envolvente, o desejo de tornar-se vegano não trata de negar a vida como ela é, mas de abraçar, com imaginação, a vida como ela poderia ser, visualizando um mundo em que não precisamos explorar, abusar e oprimir outros seres para desfrutar de uma alimentação abundante e saudável, de um estilo inovador, de uma consciência expandida sobre a vida dos outros, de uma verdadeira conexão entre espécies com criaturas inteligentes, emocionais e sociais, e de uma esperança renovada por justiça social e estabilidade climática. 26
Ao dar destaque ao poder que essa visão positiva da vida vegana tem de capturar a imaginação, minha esperança é substituir as caricaturas populares dos veganos – como hipsters julgadores, ascetas fora da realidade ou seguidores de dietas da moda – por uma imagem muito mais convincente do veganismo como uma jornada razoável, compassiva, pragmática, inclusiva e, no fim das contas, inspiradora, rumo a uma vida mais plena num tempo de crise moral e ambiental sem precedentes. Reformular o sentido de “tornar-se vegano” tem sido meu sonho ao longo da última década. Durante anos, o enquadramento negativo padrão da vida vegana tem sido uma fonte constante de frustração no meu ensino, na minha escrita e na minha atuação como defensor da causa. Sempre me frustrou profundamente o fato de que uma visão de mundo enraizada em valores morais amplamente aceitos, como querer ser saudável, bem-informado, justo, compassivo e útil aos que precisam, seja frequentemente comunicada e recebida – às vezes até por quem tenta viver essa visão (me declaro culpado!) – como uma negação radical, julgadora, excludente e solitária da vida. A mudança de perspectiva que resulta de reimaginar a vida vegana a partir das coisas verdadeiras, belas e boas que os veganos defendem (em vez das falsas, feias e ruins às quais se opõem) foi para mim ao mesmo tempo profundamente inspiradora e libertadora. Na minha vida pessoal, essa visão me afastou da rigidez, da ansiedade e até do desespero por não conseguir fazer tudo perfeitamente e me aproximou de uma vivência mais livre, confiante e até alegre em relação ao que estou tentando realizar. No ensino e nas palestras, essa mudança gerou muito mais curiosidade, entusiasmo e empoderamento entre o público, e muito menos defensividade, desânimo ou vergonha silenciosa. Compartilhar com você essa visão abundante da vida vegana, neste livro, é, sem exagero, a realização de um sonho – e é a minha resposta à pergunta anterior sobre como canalizar meus dons e talentos únicos para catalisar esse despertar cultural. Nos próximos nove capítulos, vamos desenvolver todas as ferramentas de que você precisa para formular sua própria resposta única a essa pergunta, para que você e o mundo possam receber o presente transformador da sua contribuição pessoal a essa química elevadora. 27
O destino dessa jornada é uma compreensão convidativa, fortalecedora e inclusiva do veganismo vivido no cotidiano – que abandona o objetivo desmoralizante de alcançar, de uma vez por todas, uma identidade individual perfeita, em favor de um empreendimento prático, mas inspirado, rumo a uma aspiração coletiva: fazer o melhor que pudermos, com entusiasmo, dentro dos nossos limites e sempre de forma imperfeita, para viver em direção a um mundo vegano mais verdadeiro, mais belo e melhor. Em vez de enquadrar nossas tentativas individuais de virar vegano como a busca irreal por um estado fixo e padronizado de ser (uma identidade “livre de crueldade”), vamos imaginar essa escolha como uma jornada libertadora de tornar-se: uma trajetória única para cada pessoa, moldada pelo que sua situação individual e comunitária inspira e possibilita. É por isso que faço questão de evitar o termo “veganismo” para descrever a visão de mundo e o conjunto de práticas que espero embelezar neste livro. Na minha experiência, os “-ismos” raramente são acolhedores. Mesmo quando são inclusivos, costumam ser percebidos como inflexíveis e centrados em identidades. Não importa o quão simpáticos e receptivos os veganos sejam (e, na minha experiência, geralmente são!), o “veganismo” parece oferecer pouco espaço para se desviar das expectativas rígidas e julgamentos de valor que muitos acham alienantes – mesmo aqueles que estão abertos a seguir nessa direção. “Tornar-se vegano”, em contraste, é uma atividade aberta, contínua, aspiracional, que ganha forma por meio da prática de um conjunto evolutivo de exercícios.18 Cada pessoa pode estar em um ponto diferente dessa jornada – no início, no meio, num momento de estagnação, ou num renascimento provocado por um novo livro de receitas ou por um amigo inspirador –, mas a aventura de tornar-se vegano dura a vida inteira, e é ação, não identidade. Ninguém “é vegano” no sentido de ter dominado a prática ou alcançado o ideal por completo. Estamos sempre em processo de nos tornar veganos, não importa há quanto tempo estejamos nesse caminho. Ao adotar deliberadamente a linguagem de “tornar-se vegano” em vez de “aderir ao veganismo”, estou propondo uma visão da vida vegana progressiva e voltada para a ação, e não perfeccionista ou centrada na identidade. Quero abrir espaço para qualquer pessoa que esteja 28
minimamente curiosa com essa visão vegana, para que possa assumir a aspiração de “estar a caminho”, mesmo que suas práticas diárias ainda estejam distantes do ideal. Seja você um vegano nível hard que não come nada que projete sombra (como Lisa Simpson), ou alguém que resolveu testar uma receita vegana nova por semana como primeiro passo, o que importa é que você está se tornando vegano – movendo-se em direção a essa bela visão, por meio da prática disciplinada e concreta que seus contextos atuais permitem. Mas quem é você, caro leitor, e como posso garantir que este livro seja útil para você? Meu objetivo é escrever com tal grau de humildade, de acolhimento e de entusiasmo que qualquer pessoa possa se beneficiar! Se você é “veg-curioso”, mas ainda vê o veganismo como uma fantasia radical, elitista e restrita a mato, espero que este livro o convença de que aspirar a tornar-se vegano é uma das melhores coisas disponíveis para pessoas razoáveis, emocionalmente inteligentes, moralmente centradas e que desejam alinhar seus recursos e sua atuação com os ideais que professam. Se você é um carnívoro em conflito, tentando encontrar formas de lidar com a dissonância cognitiva e se motivar a adotar uma alimentação mais herbívora, espero que este livro o ajude a deixar de lado a culpa e a vergonha, e dê o primeiro passo com coragem rumo a uma vida com menos ansiedade e mais alegria. Se você é um pai ou mãe preocupado, tentando entender por que seu filho de repente passou a recusar seus pratos favoritos e a protestar na porta de restaurantes, espero que este livro ajude a esclarecer e dar sentido a esses novos compromissos, revelando como eles ressoam profundamente com valores familiares mais antigos, que você mesmo transmitiu com tanto carinho. Se você é um ativista ou empreendedor se perguntando de que forma a promessa de um novo normal vegano pode potencializar – ou talvez complicar – as causas ou os negócios aos quais tem dedicado sua vida, espero que este livro o ajude a intensificar seus esforços de formas instigantes e até então inimagináveis. Se você é um orgulhoso produtor de carne, pescador, caçador ou escalpelador, e a visão de um mundo vegano lhe parece absurda, 29
ameaçadora ou ambas as coisas, espero que este livro contribua, ao menos em parte, para reduzir a distância entre nós, de preferência criando espaços de terreno comum, apesar das grandes diferenças; mas, no mínimo, permitindo que você compreenda e respeite melhor o seu adversário. E se você já é um aspirante a vegano, talvez carregando o peso de expectativas que parecem impossíveis de cumprir (como eu já senti tantas vezes), espero que este livro o ajude a entender melhor suas aspirações veganas, a persegui-las com mais leveza e constância, e a ganhar confiança com estratégias envolventes para convidar outras pessoas a se juntar a essa jornada. Embora este livro não tenha como foco principal “pregar para convertidos”, eu adoraria ajudar o coro a aprender algumas músicas novas e belas, capazes de encantar e envolver plateias cada vez maiores. Talvez você até se identifique com vários desses perfis hipotéticos. Eu mesmo já fui cinco dos seis, muitas vezes ao mesmo tempo – e sim, “pescador orgulhoso” foi um deles. Quem quer que você seja e em qualquer ponto da jornada em que esteja, saiba que este livro nasce de um desejo sincero de ser radicalmente inclusivo, e de reservar um lugar especial para você nesta mesa farta. Como você descobrirá nas próximas páginas, o estado do mundo é tal que precisamos de todos à mesa. A visão é grande o suficiente para que cada um encontre seu lugar. E a estratégia para alcançá-la é flexível o suficiente para acolher as pessoas exatamente onde estão. A reimaginação da vida vegana que inspirou este livro não trata de alcançar uma identidade vegana específica como indivíduos, mas sim de caminhar juntos, cada um por seus próprios caminhos, em direção a um mundo vegano belo, desejável para os seres humanos e significativamente melhor para todos os animais belos e famintos bem como para o lar terrestre que nos sustenta.
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