Robert Bryndza nasceu no Reino Unido
Enquanto Erika e sua equipe correm contra o tempo para desvendar pistas, surge uma figura misteriosa: alguém circula pelos bastidores de escândalos e detém informações capazes de abalar autoridades influentes. Até onde irão para proteger seus domínios? E que história une todas as vítimas? Em um jogo de câmeras, mentiras e identidades, Erika precisa montar o quebra-cabeça sem perder o controle. Vingança letal é um thriller eletrizante, repleto de tensão, mistério e suspeitas – uma leitura impossível de largar.
www.robertbryndza.com /bryndzarobert @robertbryndza
Conheça outros livros do autor Robert Bryndza
ISBN 978-85-8235-851-1
9 788582 358511
A aclamada série policial de Robert Bryndza está de volta!
“Uma estrela no crime britânico.” Irish Independent “O mestre do suspense.”
M. J. Arlidge, Arlidge, autor de Da morte ninguém escapa
“Vingança letal é uma leitura cativante e viciante que me segurou do começo ao fim. Um thriller policial emocionante e bem escrito, que cumpre tudo o que promete. Altamente recomendado.” Blog Damppebbles
RO B ERT BRYN DZA
e já morou nos Estados Unidos e no Canadá. Seu romance de estreia, The Not So Secret Emails of Coco Pinchard (2012), deu origem à famosa série de comédia romântica de Coco Pinchard. Em 2016, escreveu A garota no gelo, gelo, primeiro volume da série de ficção policial da detetive Erika Foster, best-seller n.º 1 do Wall Street Journal e do USA Today. Today. Uma sombra na escuridão (2017) também é um dos mais vendidos do Wall Street Journal, Journal, e os três primeiros livros da série já venderam mais de 1,4 milhão de cópias, sendo traduzidos para 24 idiomas. Atualmente mora na Eslováquia com seu marido, Ján Bryndza, com quem escreveu o romance satírico Lost in Crazytown (2013).
A detetive Erika Foster se depara com o desafio mais angustiante de sua carreira. Quando Neville Lomas, um parlamentar de alto escalão, é encontrado morto, nu e amarrado em seu próprio quarto, o caso é encerrado às pressas como morte natural. Mas Erika logo percebe que há algo muito mais sinistro por trás dessa morte: outros dois crimes – o assassinato de um diretor de elenco e o de uma estrela do futebol – revelam a assinatura do mesmo criminoso. As vítimas estão ligadas por detalhes específicos, e as investigações apontam para cinco possíveis suspeitas: todas mulheres, todas idênticas.
VINGANCA LETAL
Erika Foster está prestes a encarar o maior quebra-cabeça de sua carreira.
O mal tem muitas faces. Erika Foster está pronta para todas elas.
“Empolgante e tão cativante quanto os livros anteriores. Vingança letal é um thriller sombrio e habilmente elaborado que os leitores irão devorar de uma vez só. Recomendo muito este livro – e toda a série!” The Book Review Cafe
ROBERT BRYNDZA Autor dos best-sellers A garota no gelo e Uma sombra na escuridão
R O B E RT B RY N DZ A
tradução de
Mabi Costa
Copyright © 2024 Raven Street Ltda Copyright desta edição © 2026 Editora Gutenberg Título original: Lethal Vengeance
Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
editora responsável
capa
Flavia Lago
Alberto Bittencourt (sobre imagem de Adobe Stock)
editora assistente
Natália Chagas Máximo preparação de texto
diagramação
Waldênia Alvarenga
Julia Sousa revisão
Claudia Vilas Gomes
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Bryndza, Robert Vingança letal / Robert Bryndza ; tradução Mabi Costa. -- 1. ed. -São Paulo : Gutenberg, 2026. Título original: Lethal Vengeance. ISBN 978-85-8235-851-1 1. Ficção inglesa I. Título. 25-323394.0 CDD-823 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura inglesa 823 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129
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CAPÍTULO 1 SEXTA-FEIRA, 13 DE JANEIRO DE 2023
P
elo amor de Deus, que isso não seja um pedido de casamento, pensou a detetive-inspetora chefe Erika Foster. Do outro lado do movimentado restaurante, observava Igor conversando com um dos garçons de smoking branco. Tinha coisa sendo armada. Talvez pedindo que escondesse um anel num suflê de chocolate? Era meados de janeiro – uma sexta-feira 13, para ser mais exata. Tudo tinha aquele ar meio desbotado que dura um tempo depois das decorações de Natal serem removidas. O restaurante ficava no alto da OXO Tower, e eles estavam em uma mesa junto à janela. Erika podia ver as margens do Tâmisa lá embaixo. O rio corria como uma faixa de tinta preta, refletindo a cidade iluminada em meio à escuridão. Ela estava exausta após um dia inteiro de papelada e de um depoimento em tribunal enfrentando o advogado hostil de um estuprador reincidente. Aquele lugar era sofisticado demais. Os garçons usavam luvas brancas e havia um excesso de facas e garfos cercando o prato. Além disso, ela estava desconfortável em seu vestido elegante. – Merda – murmurou, quando Igor voltou à mesa, impecável em seu melhor terno preto. Em voz mais alta, perguntou: – O que foi aquilo? – Fui me certificar de que o champanhe estava gelado – respondeu ele, com um sorriso. O garçom apareceu com a garrafa envolta num pano branco, apresentando-a como se fosse um bebê recém-nascido. Igor examinou o rótulo por trás dos óculos de armação de tartaruga e assentiu. O garçom se esforçou um pouco e, então, puxou a rolha com um estalo. 5
– Que belo estouro – comentou Igor. – Sim, senhor. É o padrão da casa – respondeu o garçom, no tom exato entre cortesia e uma leve superioridade. – Quer experimentar, senhora? A senhora aqui adoraria que você deixasse a garrafa na mesa e sumisse, pensou Erika, mas apenas sorriu e assentiu. Ele serviu um pouco na taça dela e recuou. Erika não ligava muito para champanhe e preferia uma latinha de cerveja gelada acompanhada de fritas, mas percebeu a expectativa no olhar de Igor e afastou o pensamento. Estava sendo implicante. Quantas mulheres não adorariam que seu amado as levasse a um restaurante elegante? – Está ótimo – disse ela. O garçom completou as duas taças e olhou para o casal com expressão ligeiramente presunçosa. – É alguma ocasião especial? Aniversário de casamento? – perguntou ele, ajeitando o balde de gelo no suporte e enterrando a garrafa de champanhe ali. – Não somos casados – respondeu Erika. – Ainda não – disse Igor, piscando. Erika sentiu o estômago revirar e tensionou a mandíbula. Ai. Meu. Deus. Ele vai se ajoelhar no meio deste restaurante lotado. Mesmo depois de mais de quatro anos, Erika ainda não sabia como definir o papel de Igor em sua vida. Namorado? Não, isso era coisa de adolescentes. Amante? Nem pensar. Parceiro? Sim, “parceiro”. Talvez os fizesse parecer sócios de um escritório de advocacia, mas era o que soava melhor. – A senhora gostaria de mais pão artesanal? – Não. – Não deixe de desfrutar nossos azeites selecionados. Combinam perfeitamente com o pão. – Maravilha – disse Erika, forçando um sorriso. – A senhora tem alguma dúvida sobre o cardápio? – Não! – cortou ela. O garçom juntou os calcanhares, fez uma reverência rápida e saiu. Do outro lado da mesa, Igor olhou para ela e ergueu a taça. Após o brinde, Erika tomou um gole hesitante, enquanto ele virou quase tudo de uma vez. O tecido do paletó dele esticou no peito, e ela notou um volume. Tinha algo no bolso dele. Ela sentiu um calafrio. É um porta-aliança, ela pensou. Igor estendeu a mão sobre a mesa, pousando-a na dela, e respirou fundo. 6
– Erika, eu... Ela puxou a mão de volta e se levantou bruscamente. – Preciso ir ao banheiro. – Tá bom – disse ele, estranhando. – Está tudo bem? – Aham. Tudo ótimo. Erika atravessou o salão movimentado e quase esbarrou em dois garçons que traziam um bolo de aniversário coberto por velas acesas. Preciso de ar. O corredor do restaurante era estreito e estava tomado pelo vaivém de funcionários. Ela entrou no elevador lotado e apertou o botão para o térreo. Sentia o pânico apertando seu peito. Não conseguia respirar. Os corpos apertados uns contra os outros na cabine minúscula pioravam a sensação. Assim que as portas se abriram, forçou a passagem, ignorando as expressões de desaprovação e irritação. Foi somente quando saiu e respirou o ar frio e cortante que seu coração se acalmou. Fechou as mãos em volta da grade de proteção à beira do rio. A sensação do metal gelado contra sua pele era boa. Embora o celular estivesse lá em cima, na mesa, a carteira e o distintivo estavam na bolsinha brilhante que trouxera consigo. Pensou em caminhar até a estação Waterloo e pegar um táxi. Ao menos adiaria o pedido. Tateando a bolsa, achou um pequeno maço de cigarros: velho e um pouco amassado, mas ainda fumável. Um homem passava; ela pediu o isqueiro. A chama iluminou o rosto magro e vincado dele enquanto ela fazia concha com as mãos para acender. Agradeceu e puxou o primeiro trago, aliviada. – Não há muitos como nós por aí. Digo, fumantes – comentou o desconhecido, que sorriu e foi embora. Erika soltou a fumaça e, sentindo a onda da nicotina, observou um rebocador que passava lutando contra a correnteza. Não fazia muito tempo que voltara a fumar. Um cigarro aqui, outro ali. Ultimamente, mais aqui do que ali. Igor ia mesmo propor que se casassem, assim, de repente? Não viviam juntos. Ele morava em um lugar próximo à casa dela, em Blackheath. Dormiam juntos alguns dias na semana. Se ele fizesse o pedido, tudo mudaria. Igor tinha um filho, Tom, fruto de seu primeiro casamento. Ela se tornaria esposa e madrasta. Não. Ela amava Igor e era muito próxima de Tom, mas não conseguiria. Erika já havia sido casada. Mark trabalhava com ela na polícia e, quase nove anos antes, fora morto em uma operação malsucedida contra 7
o tráfico, junto com outros quatro colegas. Erika estava no comando. Era a oficial responsável naquele dia e acabara responsabilizada pelo fracasso. Ainda carregava o peso da culpa. Era algo que jamais a deixaria. Ela não podia ser uma esposa de novo. Mark fora, e ainda deveria ser, seu marido. O filme De caso com o acaso a impactara profundamente: ela se perguntava se existia outra versão de sua vida em que a van da polícia havia parado de funcionar naquele dia fatídico. A operação jamais teria acontecido, e Erika e Mark viveriam felizes para sempre. O cigarro acabou em pouquíssimo tempo. Deu uma última tragada e atirou a bituca na água. Sentia-se mais calma ali, no frio e no silêncio. Seria honesta, só isso. Amava muito Igor e a vida que levavam juntos. Juntos, mas cada um com seu espaço – e isso teria que bastar. Ele teria que aceitar.
Erika só percebeu que havia entrado no prédio por uma porta diferente quando se viu sozinha no elevador, subindo. Já estava prestes a apertar o botão para voltar ao térreo quando o elevador parou, com um leve ding, e as portas se abriram para um corredor vazio. Ouviu a voz de uma mulher ecoando: – Sim, polícia, por favor... Tem um corpo. Um homem está morto. Erika saiu do elevador. Onde ela estava? Aquele parecia ser um dos andares residenciais do prédio. Havia fileiras de portas brancas com números dourados, e uma mulher mais velha, vestindo calça legging e um suéter puído, estava ao lado de um carrinho de limpeza próximo a uma porta aberta no fim do corredor. Usava luvas de borracha amarelas e enxugava os olhos com o antebraço. O cabelo ruivo era uma confusão desgrenhada, e o rosto estava carregado de maquiagem laranja. – É na OXO Tower, quarto andar, na marginal do Tâmisa. Isso, obrigada. – Está tudo bem? – perguntou Erika. A mulher encerrou a ligação. – Este andar é privado – disse ela, em tom de voz grave. – Só para moradores. – Sou da polícia. A mulher olhou Erika de cima a baixo, reparando no vestido longo, que caía meio desajeitado no corpo. Erika se sentiu agradecida por estar com o distintivo. Quando o mostrou, a mulher mordeu o lábio. Ah, sua expressão parecia dizer, aliviada. 8
– Tem um cadáver lá dentro – falou ela, inclinando a cabeça na direção da porta aberta. – De um homem. Ainda no corredor, Erika deu uma espiada no quarto. Viu uma sala moderna com conceito aberto, janelas amplas com vista para a iluminação noturna do horizonte londrino. – Tem mais alguém lá dentro? – Não. Ele está no quarto, na cama. – Erika notou um par de luvas de borracha pendurado na lateral do carrinho de limpeza. – Normalmente não tem ninguém quando faço a faxina. É a primeira vez que o vejo em... nossa, faz muito tempo. Erika vestiu as luvas de borracha. – Por favor, fique aqui – pediu, e, esquecendo-se completamente de Igor e dos temores sobre o futuro do relacionamento, entrou no flat.
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CAPÍTULO 2
A
s tábuas de madeira do assoalho rangeram sob os pés de Erika. Havia uma estranha quietude no ar – aquele clima pesado que antecede uma tempestade. As luzes da rua invadiam a sala e a cozinha com um clarão cortante, e um leve zumbido rompia o silêncio. Um enorme aquário fora embutido na parede dos fundos, atrás de um sofá em L, grande e claro. Um grupo de águas-vivas de cúpula branca se movia dentro do tanque em sincronia com a bomba de ar, e dois peixes agourentos, achatados e cinza flutuavam, com os olhos vidrados, entre as bolhas. A luz azul do aquário iluminava os armários e a bancada de aço escovado da cozinha. Nada ali parecia barato. Sem nenhum eletrodoméstico à vista, tudo limpo e sem vestígios de uso, era o tipo de ambiente usado apenas em eventos ocasionais, por bufês contratados. Erika atravessou o recinto, passou por uma laje de rocha petrificada em tons de laranja e marrom, cheia de veios, e chegou a uma porta entreaberta que dava para um cômodo anexo à cozinha. Hesitou ao sentir aquele cheiro inconfundível e pútrido de morte ferindo suas narinas. Em seguida, empurrou a porta. As grossas cortinas estavam fechadas, com uma abertura de uns 15 centímetros bem no meio. Um feixe alaranjado atravessava a fresta, iluminando o corpo pálido e nu de um homem branco e grande deitado sobre a cama. Erika não encontrou o interruptor de luz, então, abriu as cortinas, deixando que a iluminação da cidade tomasse o quarto. Não havia móveis além da cama king-size com lençóis pretos. O homem estava de bruços, amarrado, com os braços e as pernas presos atrás das costas, puxados para cima por uma corda que os unia. A cabeça estava arqueada, virada para as cortinas, e havia fita adesiva cobrindo sua boca. A pele dele estava pálida e flácida, como uma massa crua de pudim. Erika estendeu a mão com cuidado e checou o pulso da vítima. 10
É. Estava mesmo morto. Havia um par de calças bege, uma camisa e uma gravata jogados no chão, à direita da cama. Tentando não comprometer as evidências, Erika revistou os bolsos da calça. Encontrou uma carteira de couro e um envelope branco, quadrado e pequeno. A carteira estava vazia, exceto por um único crachá da Câmara dos Comuns, que pertencia a Neville Lomas, membro do Partido Conservador do parlamento, eleito por North East Surrey. O envelope não estava lacrado. Dentro dele, havia três fotografias tiradas com Polaroid. As imagens mostravam Neville Lomas deitado na cama, vestido e aparentemente vivo, olhando fixamente para a câmera com um ar vazio. Na segunda, estava nu, deitado de costas; na terceira, aparecia amarrado com os braços e as pernas presos atrás do corpo. Segurando cada foto com muita delicadeza, bem na pontinha, Erika virou uma a uma. Todas estavam assinadas com uma caneta preta de ponta grossa, em uma caligrafia arredondada, quase infantil:
ANNABELLE – Você está bem? – perguntou uma voz. Erika levou um susto e quase deixou as fotos caírem. A senhora ruiva de voz grave estava na porta do quarto. Erika se lembrou de que seu celular ainda estava no restaurante com Igor. Devolveu as polaroides ao envelope e pediu: – Posso usar o seu telefone, por favor? Os olhos da mulher passaram do corpo na cama para Erika. – Aham. Erika cruzou o cômodo até a mulher e a conduziu de volta para a sala de estar. Precisava chamar a equipe forense com urgência. Sentia a pontada de adrenalina. O homicídio de um parlamentar de alto escalão se tornaria, sem dúvida, um caso de grande repercussão. A mulher parou ao lado do sofá e apoiou uma das mãos no encosto. – Qual é o seu nome? – perguntou Erika. – Ann-Marie Ross. – Ela soltou um longo suspiro. – Posso me sentar um pouco? O rosto enrugado estava repentinamente pálido, e Erika notou que as mãos da mulher tremiam. 11
– Nunca tinha visto ele assim... tão detalhadamente. Ann-Marie tateou os bolsos da legging e tirou um maço de cigarros amassado, uma pequena imagem de madeira da Virgem Maria e um celular antigo com a tela rachada. Estava prestes a deixar tudo na mesinha de centro, mas Erika esticou o braço e tomou os objetos da mão dela. – Não pode, esta é uma cena de crime. Foi então que Erika percebeu que o que pensara ser uma imagem da Virgem Maria era, na verdade, um isqueiro. – Perdão. Fiquei meio tonta... Daqui a pouco melhoro. Isso é lá de Lourdes. – Ann-Marie seguiu o olhar de Erika. – Fui com a minha irmã e a minha mãe. – Você é religiosa? – Não. E isso não influenciou a gente. Brigamos o tempo todo. Ann-Marie entregou o celular. Erika ligou para a central de Lewisham Row e pediu que uma equipe de reforço e a perícia fossem até lá. – A que horas você chegou neste andar e abriu a porta do flat? – Só uns minutinhos antes de você. – Você trabalha aqui em tempo integral? – Eu trabalho em tudo que é lugar. – Esses flats são residenciais? – São, sim. Mas eles preferem que a gente chame de “apartamentos”. Tem esse andar, o de cima e o de baixo. Nós temos que limpar uma vez por semana. – “Nós”? – Sim, o pessoal da agência que me passa os trabalhos. Hoopers Limited. – O homem morto é dono deste apartamento? – Não sei. Ele está todo amarrado. – A voz dela falhou pela primeira vez, e Erika percebeu que a compostura que a senhora vinha mantendo era só fachada. – Você conhece os moradores, alguém com quem eu possa falar? – Você acha que eles dão conversa pra gente como a gente? Vejo todo tipo de pessoa entrando e saindo. Nunca são as mesmas. Às vezes, temos que faxinar depois das festas... Ela franziu o nariz. – Esse povo rico aparenta ser arrumadinho, limpinho... Mas é pura enganação. São uns nojentos. Erika ouviu o barulho do elevador passando pelo andar. 12
– Obrigada por me deixar usar seu celular – disse Erika, devolvendo o aparelho, o maço e o isqueiro a Ann-Marie. Depois que ajudou a senhora a se levantar, as duas voltaram juntas até o corredor do edifício. As portas do elevador se abriram com um ding, revelando dois policiais uniformizados. Um homem e uma mulher, ambos brancos. Os rostos jovens estavam avermelhados pelo frio lá fora, e gotas de chuva marcavam os coletes refletivos. – Quarto andar, apartamento seis. Deve ser no final do corredor – disse uma voz pelo rádio preso à lapela da policial, repetindo o que Erika informara por telefone. – Você é da equipe de limpeza? Pode, por favor, se retirar da área? – disse a policial, ao avistar a porta do apartamento escancarada. Em seguida, estendeu o braço para conduzir Erika e Ann-Marie para longe dali. – Sou a detetive-inspetora chefe Erika Foster – respondeu Erika. Os dois policiais a examinaram dos pés à cabeça, notando as luvas de borracha e o vestido longo preto com lantejoulas. – Eu vou é ficar feliz de sair daqui – disse Ann-Marie, segurando a alça do carrinho de limpeza e tentando virá-lo no espaço apertado. – Sou a policial Dahlia Beck. Este é meu colega Glenn Constance – disse a jovem agente. Ela era linda, com olhos castanhos grandes e uma boca pequena, de lábios projetados. Fez Erika se lembrar de uma atriz novata escalada para o papel de policial em uma série de TV. O uniforme, de tão novo, mais parecia um figurino. O colega, Glenn, era igualmente bonito. Mandíbula bem marcada, cara de galã, mas sem a mesma confiança de Dahlia. Erika podia ver que ele engolia em seco o tempo todo e que os olhos revelavam certo receio. – Boa noite, senhora – cumprimentou ele. Ann-Marie ainda tentava manobrar o carrinho no corredor. – Pode deixar isso aí, por favor? – disse Erika. – Preciso que a senhora fique aqui e preste um depoimento. O rádio de Dahlia apitou. – Aqui é a central. Como posso ajudar? Câmbio – disse uma voz. Dahlia manteve os olhos em Erika e apertou o botão do rádio. – Há uma mulher aqui dizendo ser a detetive-inspetora chefe Foster, mas ainda não fizemos uma identificação formal. Câmbio – relatou. Erika sentiu a irritação subir. Identificação formal? Não sou o cadáver aqui. Com 1,80 metro de altura, Erika era mais alta que Dahlia. Inclinou-se 13
e puxou o rádio preso na lapela da jovem. Estava decidida a não apresentar seu distintivo para aquela novata insolente. – Aqui é Erika Foster. É você, Vicky? Câmbio – disse, reconhecendo a voz com quem falara minutos antes. – Sim, senhora. Câmbio. – Pode confirmar para a policial Dahlia Beck aqui que já temos reforço e perícia a caminho? Câmbio. – Eles estão a uns doze minutos de distância. Câmbio. Erika soltou o rádio e viu no rosto de Dahlia que a irritação agora era mútua. – Só estou fazendo meu trabalho, senhora – disse Dahlia. Erika se virou para Glenn. – Parece que o morto é Neville Lomas, membro do parlamento pelo Partido Conservador. Ainda não tenho uma identificação formal. Vá até a recepção, por favor, e veja se consegue mais informações. – Sim, senhora. – Eu tenho um trabalho para você – disse Erika, voltando-se para Dahlia. – Preciso que vá até o restaurante no último andar.
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