VERSÃO INTEGRAL SEM ADAPTAÇÃO
CHARLES DICKENS
CHARLES DICKENS
UM CONTO DE NATAL
Tradução Elisa Nazarian
Copyright © 2026 Autêntica Editora Título original: A Christmas Carol Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem autorização prévia da Editora.
edição geral e preparação
ilustração de capa
Sonia Junqueira
Vito Quintans
assistente editorial
capa
Julia Sousa
Arthur Carrião
revisão
diagramação
Julia Sousa
Guilherme Fagundes
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Dickens, Charles, 1812-1870 Um conto de Natal / Charles Dickens ; tradução Elisa Nazarian. -- 1. ed -- Belo Horizonte, MG : Autêntica Editora, 2026. -- (Clássicos Autêntica) Título original: A Christmas Carol ISBN 978-65-5928-647-8 1. Ficção inglesa II. Título. II. Série. 25-309509.0
CDD-823 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura inglesa 823 Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427
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SUMÁRIO
Primeira estrofe: O Fantasma de Marley...........................7 Segunda estrofe: O primeiro dos Três Espíritos...............31 Terceira estrofe: O segundo dos Três Espíritos................53 Quarta estrofe: O último dos Espíritos...........................83 Quinta estrofe: O final do conto..................................102
primeira estrofe O FANTASMA DE MARLEY
Para começo de conversa, Marley estava morto. Não existe qualquer dúvida quanto a isso. O registro de seu funeral foi assinado pelo clérigo, pelo escrivão, pelo coveiro e pelo agente funerário. Scrooge assinou-o, e o nome de Scrooge tinha valor na Bolsa e em qualquer coisa na qual ele decidisse pôr a mão. O velho Marley estava tão morto quanto um prego de porta. Veja bem: não estou dizendo que conheço, de conhecimento próprio, o que existe de especialmente morto em um prego de porta. Eu mesmo poderia estar propenso a considerar um prego de caixão como a peça de ferragem mais morta em uma loja. Mas a sabedoria de nossos antepassados está nas metáforas, e minhas mãos profanas não devem perturbá-la, ou o país estará perdido. Portanto, peço permissão para repetir, enfaticamente, que Marley estava tão morto quanto um prego de porta. Scrooge sabia que ele estava morto? Claro que sim. Como não poderia saber? Scrooge e ele foram sócios por sei lá quantos anos. Scrooge foi seu único testamenteiro, seu único administrador, seu único procurador, seu único herdeiro, seu único amigo e seu único enlutado. E Scrooge nem se mostrou tão dilacerado pelo triste acontecimento, e sim que era um excelente homem de negócios, celebrizando-o com uma barganha incontestável no próprio dia do funeral. 7
A menção ao funeral de Marley me traz de volta ao ponto em que comecei. Não existe dúvida de que Marley estivesse morto. Isso precisa ser bem entendido, ou não sairá nada de fantástico da história que vou contar. Se não estivéssemos perfeitamente convencidos de que o pai de Hamlet morreu antes do começo da peça, não haveria nada de mais notável no passeio pelas próprias muralhas que ele deu à noite, sob um vento leste, do que em qualquer outro cavalheiro de meia-idade surgindo temerariamente em um local ventoso, depois de escurecer – no cemitério da Igreja de Saint Paul, por exemplo –, para literalmente assustar a mente fraca do filho. Scrooge nunca cobriu o nome do velho Marley na tabuleta de seu negócio. Ali ele ficou, nos anos seguintes, acima da porta: Scrooge e Marley. A firma era conhecida como Scrooge e Marley. Às vezes, novatos nas atividades chamavam Scrooge de Scrooge e, às vezes, de Marley, e ele respondia aos dois nomes. Para ele dava tudo na mesma. Ah! Mas Scrooge era um mão de vaca! Um velho pecador ganancioso que espremia, torcia, agarrava, apertava! Duro e afiado como uma pederneira, da qual nenhum aço jamais extraiu um fogo generoso; era misterioso, reservado, solitário como uma ostra. O frio dentro dele gelava seus velhos traços, mordiscava seu nariz pontudo, encolhia seu rosto, enrijecia seus passos, avermelhava seus olhos, azulava seus lábios finos. E se manifestava astutamente com uma voz rascante. Sua cabeça, as sobrancelhas e o queixo rijo eram cobertos por uma camada de gelo. Sempre levava consigo sua baixa temperatura; gelava seu escritório nos dias mais quentes e não o deixava um grau mais quente na época do Natal. O calor e o frio externos tinham pouca influência sobre Scrooge. Nenhum calor conseguia esquentá-lo, nenhum frio invernal conseguia gelá-lo. Nenhum vento que soprasse era mais implacável do que ele, nenhuma neve que caísse era mais 8
empenhada em seu propósito, nenhuma chuva forte, menos aberta a súplicas. O tempo ruim não sabia como afetá-lo. A chuva mais pesada, a neve, o granizo, o gelo só poderiam se vangloriar de uma vantagem sobre ele: em geral, “caíam” com elegância, e Scrooge nunca. Ninguém jamais o parava na rua para dizer, com uma expressão alegre: “Meu caro Scrooge, como vai você? Quando vem me visitar?”. Nenhum mendigo lhe implorava um tostão, nenhuma criança lhe perguntava as horas, nenhum homem ou nenhuma mulher jamais, em toda a vida, perguntou-lhe ao menos uma vez o caminho para tal e tal lugar. Até os cachorros dos cegos pareciam conhecê-lo, e quando o viam indo em sua direção, puxavam seus donos para entradas de lojas e pátios; em seguida, abanavam o rabo, como que dizendo: “É melhor não enxergar nada do que ter um olhar maligno, meu triste amo”. Mas Scrooge pouco se importava. Era isto mesmo que ele queria: seguir seu caminho pelas vias lotadas da vida evitando toda simpatia humana; era o que os conhecidos chamavam de “loucura” de Scrooge. Certa vez, na véspera de Natal, o melhor dia do ano, o velho Scrooge estava ocupado em sua casa contábil. Fazia um frio gélido, o clima estava sombrio, e, além disso, enevoado. Ele podia ouvir as pessoas no pátio, ao relento, arquejando de um lado a outro, batendo as mãos no peito e os pés nas pedras do calçamento para se aquecer. Os relógios da cidade tinham acabado de marcar três horas da tarde, mas já estava escuro. O dia todo passara sem claridade, e velas cintilavam nas janelas dos escritórios vizinhos, como manchas rubras sobre o palpável ar marrom.* O nevoeiro foi se infiltrando em cada fenda e * Na época em que A Christmas Carol foi escrito, Londres era considerada a cidade mais poluída do mundo, usando energia a carvão, tanto como aquecimento quanto para cozinhar, o que tornava o 9
buraco de fechadura, e estava tão denso lá fora que, embora o pátio fosse muito estreito, as casas do outro lado não passavam de meros fantasmas. Ao ver aquela nuvem lúgubre descendo, obscurecendo tudo, daria para se pensar que a Natureza ao redor estava fermentando cerveja* em larga escala. A porta do escritório de Scrooge estava aberta para que ele pudesse ficar de olho em seu escriturário, que, em um cubículo sombrio, copiava cartas. Scrooge tinha um pequeno fogareiro, mas o do seu empregado era tão menor que parecia ter apenas um carvão. No entanto, ele não podia reabastecê-lo, porque Scrooge mantinha o depósito de carvão em sua sala e, com certeza, caso o escriturário surgisse com a pá, o patrão diria que seria necessário eles se separarem. Por isso, o funcionário se enrolava em uma manta branca e tentava se aquecer junto à vela, esforço no qual, não sendo um homem de grande imaginação, ele fracassava. – Feliz Natal, tio! Deus o proteja! – gritou uma voz alegre. Era do sobrinho de Scrooge, que chegou perto dele tão rápido que essa foi a primeira indicação de sua chegada. – Bah! – disse Scrooge. – Baboseira! Esse sobrinho de Scrooge tinha se aquecido tanto andando rápido no nevoeiro e no frio que estava todo resplandecente. Seu rosto bonito estava corado, os olhos brilhavam e a respiração soltava fumaça. – O Natal, uma baboseira, tio! – exclamou o rapaz. – Tenho certeza de que não está falando sério. – Estou – disse Scrooge. – Feliz Natal! Que direito você tem de ser feliz? Que motivos tem para ser feliz? Você é muito pobre. ar marrom e depositava uma camada de poeira escura sobre tudo. (N. T.) * O narrador talvez se refira à fermentação de cerveja a céu aberto, processo bioquímico bastante insalubre, à época. (N. E.) 10
– Então vamos lá – devolveu o sobrinho alegremente. – Que direito você tem de estar desanimado? Que motivo tem para ser taciturno? Você é muito rico. Não tendo uma resposta melhor para dar no calor do momento, Scrooge repetiu: – Bah! – acompanhado de – Baboseira. – Não fique irritado, tio! – E de que outro jeito posso ficar, quando vivo em um mundo de tolos como este? Feliz Natal! Chega desse Feliz Natal! O que é o Natal para você senão uma época sem dinheiro para pagar contas, para ficar um pouco mais velho, mas nem uma hora mais rico, uma época para fazer o balanço dos seus livros de registros e ver que cada item deles, em uma rodada de doze meses, mostra-se improdutivo? Se eu pudesse realizar minha vontade – disse Scrooge com indignação –, cada idiota que viesse com esse “Feliz Natal!” nos lábios deveria ser cozido em seu próprio pudim e enterrado com uma estaca de azevinho no coração. Isso sim! – Tio! – suplicou o sobrinho. – Sobrinho! – devolveu o tio com dureza. – Comemore seu Natal do seu jeito, e me deixe comemorá-lo do meu. – Comemorar? – repetiu o sobrinho. – Mas você não comemora! – Então me deixe em paz – disse Scrooge. – Que o Natal lhe faça muito bem! Ele sempre lhe fez muito bem! – Atrevo-me a dizer que existem muitas situações das quais eu poderia ter extraído coisas boas e que não aproveitei – respondeu o sobrinho. – Entre elas, o Natal. Mas tenho certeza de que sempre pensei no Natal, quando ele se aproxima, além da veneração devida a seu nome e origem sagrados, se é que qualquer coisa que diga respeito a ele possa ser separada disso, como uma época boa, generosa, misericordiosa, agradável. É a única época que conheço, no longo calendário anual, em 11
que homens e mulheres parecem, em concordância, abrir livremente seus corações recolhidos e pensar em quem está abaixo deles, como se realmente fossem companheiros de viagem para o túmulo, e não outra raça de criaturas ligada a outras viagens. E sendo assim, tio, embora isso não tenha trazido um quinhão de ouro ou de prata para o meu bolso, acredito que tenha me feito bem e me fará bem. Então, digo: Deus abençoe o Natal! O escriturário, no cubículo, aplaudiu involuntariamente. Tomando consciência imediata de sua impropriedade, cutucou o fogo e apagou para sempre a última centelha. – Se eu ouvir mais um som vindo de você, comemorará seu Natal perdendo sua função – disse Scrooge. – Você é um orador poderoso, senhor – acrescentou, virando-se para o sobrinho. – Eu me pergunto se não acabará no Parlamento. – Não fique zangado, tio. Venha jantar conosco amanhã. Scrooge disse que estaria com ele... sim, de fato, disse, palavra por palavra, e completou afirmando que primeiro o veria naquelas profundezas.* – Mas por quê? – exclamou o sobrinho. – Por quê? – Por que você se casou? – perguntou Scrooge. – Porque me apaixonei. – Porque se apaixonou – rosnou Scrooge, como se aquela fosse a única coisa no mundo mais ridícula do que um “Feliz Natal”. – Boa tarde! – Ora, tio, mas você nunca veio me visitar antes do meu casamento. Por que inventar uma desculpa para não vir agora? – Boa tarde – disse Scrooge. – Não quero nada de você; não estou lhe pedindo nada. Por que não podemos ser amigos? – Boa tarde – disse Scrooge. * Aqui, as profundezas seriam o inferno. (N. T.) 12
– Sinceramente, sinto muito encontrá-lo tão decidido. Nunca tivemos qualquer desavença por algum interesse meu, mas fiz essa tentativa em homenagem ao Natal e manterei meu espírito natalino até o fim. Sendo assim, Feliz Natal, tio! – Boa tarde! – disse Scrooge. – E Feliz Ano-Novo! – Boa tarde! – repetiu Scrooge. Porém, o sobrinho saiu da sala sem uma palavra de rancor. Parou à porta de saída para conceder suas saudações natalinas ao escriturário, o qual, por mais que sentisse frio, era mais caloroso do que Scrooge, porque retribuiu os cumprimentos com cordialidade. – Ali está outro sujeito – murmurou Scrooge, que o entreouvira. – Meu escriturário, com quinze xelins semanais, esposa e família, falando sobre um feliz Natal. Vou me internar em Bedlam.* Ao acompanhar o sobrinho de Scrooge até a porta, o maluco do escriturário deixara entrar outras duas pessoas. Eram cavalheiros corpulentos, de bela postura, que agora, de chapéu na mão, estavam parados no escritório de Scrooge. Traziam livros e papéis e cumprimentaram-no com uma mesura. – Scrooge e Marley, imagino – disse um dos cavalheiros, referindo-se a sua lista. – Tenho o prazer de me dirigir ao sr. Scrooge ou sr. Marley? – Sr. Marley tem estado morto nestes últimos sete anos – retrucou Scrooge. – Morreu sete anos atrás, exatamente nesta noite. * Assim era chamado o Bethlem Royal Hospital, construído em Londres em 1247 como um convento e transformado em hospital em 1330. A partir de 1400, começam a surgir registros de internações psiquiátricas. Durante muito tempo foi um local precário, sujo, pessimamente administrado e com métodos cruéis, chegando a incluir torturas no tratamento das doenças mentais. (N. T.) 13
– Não temos dúvida de que sua prodigalidade esteja bem representada por seu sócio sobrevivente – disse o cavalheiro, apresentando suas credenciais. Certamente estava, porque os dois haviam sido almas gêmeas. Ao ouvir o termo agourento “prodigalidade”, Scrooge franziu o cenho e sacudiu a cabeça, devolvendo as credenciais. – Nesta festiva estação do ano, sr. Scrooge – disse o cavalheiro, pegando uma caneta –, é mais do que normalmente desejável que façamos uma pequena provisão para os pobres e destituídos, que sofrem enormemente nesta época. Muitos milhares necessitam de produtos comuns; centenas de milhares carecem de comodidades comuns, senhor. – Não existem presídios? – perguntou Scrooge. – Inúmeros presídios – disse o cavalheiro, pousando a pena novamente. – E os abrigos?* Ainda funcionam? – continuou Scrooge. – Funcionam. Ainda. – respondeu o cavalheiro. – Gostaria de poder dizer que não. – Então, a Esteira Rolante** e a Lei dos Pobres estão em pleno vigor? – perguntou Scrooge. * No original, workhouse; existentes na Grã-Bretanha do século XVII ao XIX, eram locais em que as pessoas pobres, supostamente, podiam viver e trabalhar. Suas condições eram extremamente duras, igualando-se a sistemas prisionais. Charles Dickens era ferrenhamente contra as workhouses, atacando-as em vários dos seus livros. ** Em inglês, treadmill. Tratava-se de um cilindro giratório composto por degraus acionados pelos prisioneiros, como trabalhos forçados, na moagem de milho ou no bombeamento de água durante grande parte do século XIX. Esse método comportava o emprego de até 24 prisioneiros, muitas vezes separados em compartimentos, e deu origem a vários acidentes, sem falar na exaustão provocada por um período de “trabalho” de até nove horas diárias, com um mínimo de intervalos. (N. T.) 14
– Ambos com a corda toda, senhor. – Ah, pelo que você disse no início, tive medo de que algo houvesse acontecido, impedindo sua continuação tão útil. Fico bem satisfeito de saber disso – disse Scrooge. – Com a impressão de que eles dificilmente oferecem uma alegria cristã para a mente e o corpo da população, alguns de nós estão se esforçando para angariar fundos e comprar um pouco de carne e bebidas para os pobres, além de meios para se aquecerem – retrucou o cavalheiro. – Escolhemos esta época porque, entre todas as outras, é quando a necessidade se faz mais presente e a abundância exulta. Em quanto devo anotar sua contribuição? – Em nada! – Scrooge replicou. – O senhor deseja permanecer anônimo? – Desejo que me deixem em paz – respondeu Scrooge. – Já que os senhores me perguntaram o que desejo, minha resposta é essa. Eu mesmo não fico feliz no Natal, e não posso arcar com tornar os ociosos felizes. Ajudo no apoio aos estabelecimentos que mencionei (eles já custam o bastante), e os que estiverem em má situação devem ir para lá. – Muitos não podem, e muitos prefeririam morrer. – Se eles preferem morrer, é melhor que o façam e diminuam o excesso de população. Além disso, me desculpem, não sei nada a respeito – observou Scrooge. – Mas poderia saber – disse o cavalheiro. – Não é da minha conta – Scrooge retrucou. – Já basta um homem entender de seus próprios negócios e não interferir nos de outras pessoas. Os meus tomam todo o meu tempo. Boa tarde, senhores! Percebendo claramente que seria inútil insistir na questão, os cavalheiros retiraram-se. Scrooge retomou suas tarefas, com uma opinião aprimorada sobre si mesmo e um humor mais leve do que o normal. 15
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