Literatura Bibliotecas ampliam programações culturais
Dudu Nobre Histórias de uma vida dedicada ao samba
Revista E | fevereiro de 2026 nº 8 | ano 32
Bloco na rua Memórias e afetos de quem faz o Carnaval
Tecnologia Impactos da inteligência artificial nas artes
CAPA: Beleza corrosiva (2025), de Giselle Beiguelman. A obra, inspirada em uma fotomontagem de André Breton (1896-1966), reflete sobre os impactos ambientais das tecnologias digitais, a partir de imagens distópicas de um futuro em que os rios são tomados por equipamentos disfuncionais. O trabalho integra a exposição O mundo através da IA, que tem curadoria de Antonio Somaini e está em cartaz no Sesc Campinas até 26 de abril. Reportagem Gráfica desta edição aborda criações e conceitos da mostra, refletindo sobre o impacto da inteligência artificial nas artes.
Crédito: Giselle Beiguelman
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Em estabelecimentos de uso coletivo é assegurado o acompanhamento de cão-guia. As unidades do Sesc estão preparadas para receber todos os públicos.
Promover o bem-estar dos trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo, assim como de seus familiares, constitui o eixo central da atuação do Sesc – Serviço Social do Comércio. Fundada em 1946 a partir de uma iniciativa pioneira do empresariado do setor, a entidade tem como propósito ampliar a qualidade de vida de seu público prioritário e da comunidade em geral, por meio de uma programação ampla e diversificada nas áreas de lazer, esportes, cultura, turismo, saúde e alimentação.
Em 2026, ao celebrar 80 anos de atuação contínua, o Sesc reafirma sua presença e seu papel relevante nas transformações vividas pelo país, especialmente em um contexto de intensa urbanização e crescimento populacional nas grandes cidades. Ao longo de sua trajetória, a instituição soube acolher e responder de forma consistente aos desafios apresentados por esse cenário em constante mudança.
Nesse percurso, os centros culturais e esportivos do Sesc São Paulo, distribuídos por todo o estado, oferecem uma diversidade de atividades, como apresentações artísticas, cursos, oficinas e outras experiências de aprendizado e convivência, que ampliam repertórios e fortalecem vínculos. Dessa maneira, ao compreender e ao se adaptar às demandas do tempo presente, o Sesc mantém-se relevante e atuante no cotidiano de seus diferentes públicos.
Abram Szajman
Presidente do Conselho Regional do Sesc no Estado de São Paulo
Bibliotecas expandidas
Historicamente, as bibliotecas ocupam um lugar essencial na ampliação de repertórios, na formação de leitores e no exercício da cidadania. Mais do que espaços dedicados à guarda e ao empréstimo de livros, elas se consolidam, dia após dia, como ambientes vivos, onde o conhecimento circula, se renova e se constrói de forma compartilhada. Ao assegurar o acesso democrático à informação e à leitura, as bibliotecas contribuem para o fortalecimento do pensamento crítico e para a construção de uma sociedade mais consciente e plural.
Em seus múltiplos usos, as bibliotecas têm se consolidado como territórios de manifestações culturais, ampliando a experiência com os livros por meio de encontros e vivências diversas. Clubes de leitura, conversas com autores, atividades formativas e apresentações artísticas estimulam o diálogo e amplificam a experiência cultural.
Reportagem desta edição da Revista E reflete sobre as bibliotecas em seu sentido ampliado, como lugares de encontro, descoberta e pertencimento, nos quais múltiplos aprendizados se entrelaçam e reafirmam sua importância social nas comunidades. Um convite para expandir a relação com as obras literárias e para compreender esses espaços como um território de fruição cultural. Boa leitura!
Luiz Deoclecio Massaro Galina Diretor Regional do Sesc São Paulo
SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO – SESC
Administração Regional no Estado de São Paulo Av. Álvaro Ramos, 991 – Belenzinho
CONSELHO REGIONAL DO SESC EM SÃO PAULO
Presidente: Abram Abe Szajman
Diretor do Departamento Regional: Luiz Deoclecio Massaro Galina
Efetivos: Arnaldo Odlevati Junior, Benedito Toso de Arruda, Dan Guinsburg, Jair Francisco Mafra, José de Sousa Lima, José Maria de Faria, José Roberto Pena, Manuel Henrique Farias Ramos, Marcus Alves de Mello, Milton Zamora, Paulo Cesar Garcia Lopes, Paulo João de Oliveira Alonso, Paulo Roberto Gullo, Rafik Hussein Saab, Reinaldo Pedro Correa, Rosana Aparecida da Silva, Valterli Martinez, Vanderlei Barbosa dos Santos.
Suplentes: Aguinaldo Rodrigues da Silva, Antonio Cozzi Junior, Antonio Di Girolamo, Antônio Fojo Costa, Antonio Geraldo Giannini, Célio Simões Cerri, Cláudio Barnabé Cajado, Costabile Matarazzo Junior, Edison Severo Maltoni, Omar Abdul Assaf, Sérgio Vanderlei da Silva, Vilter Croqui Marcondes, Vitor Fernandes, William Pedro Luz.
REPRESENTANTES JUNTO AO CONSELHO NACIONAL
Efetivos: Abram Abe Szajman, Ivo Dall’Acqua Junior, Rubens Torres Medrano
CONSELHO EDITORIAL | Revista E Adauto Fernando Perin, Alessandra Goncalves da Silva, Alex Wagner Dias, Alexandre Calderero Lamonato, Aline Estela da Costa, Amanda Cristina da Silva, André Luiz Santos Silva, Andrea de Oliveira Rodrigues, Andressa Kelly Ribeiro Ivo, Anna Raissa Costa Silva, Barbara Caroline da Silva Ramos de Freitas, Bruna Gavioli Ramos, Bruno Correa da Silva, Camila Oliveira Silva, Carolina Vidal Ferreira, Caroline Figueira Zeferino, Chiara Regina Peixe, Christi Lafalce, Claudete Moreira dos Santos Greiner, Claudia Dias Perez Machado, Daniel Tonus, Daniela Monte Rosa, Diana Gama Santos, Diego Polezel Zebele, Edmar Rodrigues de Fátima Júnior, Edson da Silva Horacio, Eliani Hypolito de Souza, Elisangela da Silva Pimenta, Eloá de Paula Cipriano, Everton Farias Valenca Andrade, Felipe Campagna de Gaspari, Fernanda Porta Nova Ferreira da Silva, Fernanda Silva Hoshino, Francisca Meyre Martins Vitorino, Gabriela Camargo das Gracas, Gabriela Carraro Dias, Gabriela Grande Amorim, Geraldo Soares Ramos Junior, Gislene Lopes Oliveira, Giuliano Martins, Glaucio de Souza Santos, Gleiceane Conceição Nascimento, Guilherme Barreto, Isadora Vasconcelos de Oliveira Silva, Joana Joventina Grigorio Pinheiro, Joao Victor Brito da Silva, José Mauricio Rodrigues Lima, Julia Parpulov Augusto dos Santos, Juliana Claudia Gardim, Julio Ibelli, Karen Leal da Silva, Laura Lopes de Freitas, Leandro Nunes Coelho, Leonardo Thomaz Pereira da Silva, Luciana Fernanda Vivian de Lemos, Luciana Gouvea da Cunha, Marcelo Baradel, Maria Rizoneide Pereira dos Santos, Mauro Marçal do Carmo, Milena Ostan da Luz, Priscila dos Santos Dias, Rafael Castori de Andrade, Rafael Lima Peixoto, Renata Barros da Silva, Renato Diego Alves de Jesus, Renato Shigueru Yoshinaga, Romeu Marinho C. Ubeda, Sandra Ribeiro Alves, Sharlene de Souza Queiroz, Silvia Cristina Garcia, Simone Cilli, Stephany Tiveron, Tais Ribeiro Martins, Talita Ferreira dos Santos, Thais Ferreira Rodrigues, Thamires Souza Santos Aguiar, Thiago Fabril de Oliveira, Tiago Marchesano, Viviane Cardoso Trindade, Viviane Machado Lemos, Walter Bertotti de Souza.
Coordenação-Geral: Ricardo Gentil
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Editora-Executiva: Adriana Reis Paulics • Edição de Arte e Diagramação: Lucas Blat • Edição de Textos: Adriana Reis Paulics, Diego Olivares, Marcel Verrumo e Rachel Sciré • Revisão de Textos: Pedro P. Silva • Edição de Fotografia: Nilton Fukuda • Repórteres: Adriana Terra, Diego Olivares, Lúcia Nascimento, Luna D'Alama, Marina Pereira e Rachel Sciré • Coordenação Editorial Revista E: Adriana Reis Paulics, Marina Pereira, Marcel Verrumo e Rachel Sciré • Propaganda: Edmar Júnior, Jefferson Santanielo, Julia Parpulov e Vitor Penteado • Apoio Administrativo: Juliana Neves dos Santos e Talita Ferreira dos Santos • Arte de Anúncios: Alexandre Calderero, Gabriela Batista Borsoi, Leandro Vicente, Rodrigo Losano, Vitor Bravin e Wendell de Lima Vieira • Supervisão Gráfica: Rogerio Ianelli • Criação Digital Revista E: Cleber Paes e Rodrigo Losano • Circulação e Distribuição: Vanessa Zago
Jornalista responsável: Adriana Reis Paulics (MTB 37.488).
A Revista E é uma publicação do Sesc São Paulo, sob coordenação da Superintendência de Comunicação Social Distribuição gratuita. Nenhuma pessoa está autorizada a vender anúncios. Esta publicação está disponível para retirada gratuita nas unidades do Sesc São Paulo e também em versão digital, em sescsp.org.br/revistae e no aplicativo Sesc SP para tablets e celulares (Android e IOS). Fale conosco: revistae@sescsp.org.br
Entre os destaques de fevereiro, atividades físico-esportivas movimentam unidades durante o Sesc Verão
Filósofo Renato Noguera reflete sobre o amor na contemporaneidade, a partir da sabedoria de pensadores de diversas culturas
Lugares de encontros, bibliotecas fomentam a leitura e promovem a cidadania e o acolhimento
Como pessoas se dividem entre os afazeres do dia a dia e os preparativos para desfilar numa das festas mais populares do Brasil
Um dos criadores do tradicional jornal O Pasquim, cartunista Jaguar fez do riso, resistência; e da boemia, arte
Sete décadas após ser criada, inteligência artificial amplia seu impacto com tecnologia generativa, suscitando debates éticos, filosóficos e políticos na arte
dossiê entrevista literatura bio gráfica carnaval
Nilton Fukuda (Entrevista); José Barreta (Bio); Holly Herndon & Mat Dryhurst (Gráfica)
Artigos de Laís Abramo e Jacqueline Moraes Teixeira discutem presença da mulher na sociedade brasileira e desafios para que seus direitos sejam reconhecidos
Comunicadora Roberta Martinelli fala sobre sua trajetória à frente de produções para rádio e televisão no campo da cultura
Da infância embalada por bambas, Dudu Nobre relembra momentos de sua história ligados ao samba e ao Carnaval
João Meirelles (conto) e Pedro Menezes (ilustração)
Conheça algumas das abelhas presentes em São Paulo, insetos polinizadores e responsáveis pela conservação da biodiversidade
Thaís Heinisch
em pauta encontros
Etapas em várias cidades do estado de São Paulo, com percursos e distâncias variados e valores acessíveis.
SOROCABA
8/2
inscrições encerradas
SÃO BENTO [São Paulo] 22/3
inscrições a partir de 25 de fevereiro
CAMPO LIMPO [São Paulo]
26/4
inscrições a partir de 1 de abril
BERTIOGA
17/5
inscrições a partir de 22 de abril
SÃO JOSÉ DO RIO PRETO 7/6
inscrições a partir de 13 de maio
CATANDUVA 5/7
inscrições a partir de 10 de junho
INTERLAGOS [São Paulo] 2/8
inscrições a partir de 8 de julho
PRESIDENTE PRUDENTE 27/9
inscrições a partir de 2 de setembro
GUARULHOS
25/10
inscrições a partir de 30 de setembro
SÃO CARLOS 29/11
inscrições a partir de 4 de novembro
ARAÇATUBA/ CORRIDA DO FOGO 5/12
inscrições a partir de 11 de novembro
Saiba mais em sescsp.org.br/circuitosescdecorridas
Dos versos de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) ao palco do Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros. Até 18/1, o espetáculo Morte e vida Severina, adaptação da Companhia Ensaio Aberto, com músicas de Chico Buarque, contou a jornada do retirante Severino em seu processo migratório e sua luta contra a miséria que assola o mundo. Dando protagonismo a histórias de marginalizados, teve direção musical de Itamar Assiere, cenografia de J.C. Serroni, luz de Cesar de Ramires e figurinos de Beth Filipecki e Renaldo Machado.
Outros navios: Eustáquio Neves apresenta a trajetória artística de um dos nomes mais relevantes da arte contemporânea brasileira. Organizado por Eder Chiodetto, o livro reúne as séries fotográficas de Eustáquio Neves, textos e ensaios críticos sobre sua produção artística, uma entrevista com o fotógrafo e uma cronologia sobre sua vida e obra, revelando como suas imagens constroem uma iconografia da diáspora afro-brasileira e transformam a fotografia em um instrumento de memória e liberdade.
DOSSIÊ
Corpos em movimento
Atividades da 31ª edição do Sesc Verão agitam unidades do Sesc São Paulo até 15 de fevereiro e convidam à prática físico-esportiva
Quem passar pelas unidades do Sesc São Paulo até 15/2 poderá participar das atividades do Sesc Verão 2026, uma programação integrada que celebra o movimento, o bem-estar e a diversidade das práticas corporais.
Nesta 31ª edição, as ações são organizadas ao redor do tema Esporte é movimento e estimulam hábitos mais ativos, promovem a convivência e aproximam o público das múltiplas expressões do esporte contemporâneo. O projeto incentiva a prática regular de atividades físicas por meio de vivências, treinos abertos e bate-papos, entre outros formatos.
Os destaques de fevereiro incluem uma vivência com o medalhista olímpico Caio Bonfim, na qual serão apresentados os fundamentos da marcha atlética, além de demonstrações práticas e uma conversa sobre sua trajetória no atletismo brasileiro. A atividade será realizada no Sesc Jundiaí (5/2, às 20h), Sesc Ribeirão Preto (6/2, às 18h30), Sesc Sorocaba (7/2, às 18h; 7/2, às 20h) e Sesc Taubaté (8/2, às 10h30).
Já a campeã olímpica Ana Marcela Cunha participa de um encontro em que apresenta técnicas da maratona aquática, noções de resistência e
estratégia em águas abertas, além de uma conversa sobre sua jornada, desafios e experiências nas principais competições do mundo. Nas unidades do Sesc Interlagos (7/2, às 8h), Santo Amaro (7/2, às 17h30) e Jundiaí (8/2, às 8h). Outro encontro será com Ana Sátila, da canoagem, em que a atleta apresenta os princípios da modalidade slalom, acompanhada de um relato sobre sua experiência nas competições.
No Sesc Interlagos (6/2, às 13h), Sesc Guarulhos (6/2, às 19h), Sesc Pinheiros (7/2, às 10h30) e Sesc Belenzinho (8/2, às 10h).
Segundo a gerente da Gerência de Desenvolvimento Físico-Esportivo do Sesc São Paulo, Carol Seixas, o Sesc Verão 2026 reforça o compromisso com um esporte que acolhe, dialogando com os territórios e reconhecendo a diversidade dos corpos em movimento. “Mais do que promover atividades, é importante despertar experiências afetivas, nas quais cada pessoa possa descobrir seu jeito de se mover, com liberdade e pertencimento. Quando o movimento se torna um hábito com sentido, ele se transforma em cultura, e o corpo se transforma em potência”, finaliza.
Acesse a programação completa do Sesc Verão em sescsp.org.br/sescverao
Quando o movimento se torna um hábito com sentido, ele se transforma em cultura, e o corpo se transforma em potência
Carol Seixas, gerente da Gerência de Desenvolvimento FísicoEsportivo do Sesc São Paulo
Em fevereiro, Sesc Verão apresenta atletas como Caio Bonfim (foto), Ana Marcela Cunha e Ana Sátila em unidades do Sesc São Paulo.
DOSSIÊ
PERSPECTIVAS SOBRE A MÚSICA BRASILEIRA
Na obra Meu odiado crítico, lançamento das Edições Sesc São Paulo, quatro renomados críticos musicais refletem sobre a cena brasileira em seu momento fundador: Ezequiel Neves (1935-2010), Júlio Medaglia, Sérgio Cabral (1937-2024) e Zuza Homem de Mello (1933-2020). O livro reúne textos publicados originalmente em veículos como O Pasquim, Jornal do Brasil, Rolling Stone e Folha
MITOLOGIA EM CENA
Em cartaz no Sesc Consolação desde 29/1, a montagem Medea, novo projeto do diretor Gabriel Villela, apresenta a versão de Sêneca para o mito grego. Três atrizes estão no papel da personagem-título, em diferentes momentos da peça: Rosana Stavis, Mariana Muniz e Walderez de Barros. Claudio Fontana, Jorge Emil, Letícia Teixeira e Gabriel Sobreiro completam o elenco da produção.
A peça retrata a história da filha de Eetes, rei da Cólquida, que se
da Noite, analisando diferentes aspectos de gêneros como o rock, o jazz, o samba e a MPB. Do elogio apaixonado a Paulinho da Viola à crítica mordaz de Agnaldo Timóteo (1936-2021), a obra resgata quatro vozes distintas que documentaram a utopia sonora dos anos 1970. O livro tem organização de Miguel De Almeida, que também traça o perfil de cada crítico. Saiba mais em sescsp.org.br/edicoes
apaixona pelo grego Jasão quando ele está em uma missão difícil para recuperar o velocino de ouro. O êxito dessa missão ocorre com o auxílio de Medeia. Ao receber de Jasão a notícia de que pretende desposar a filha do rei da cidade onde habitavam, Medeia reage com o que considera a pior das vinganças. Nessa versão, Gabriel Villela enfatiza a força visual do figurino como elemento cênico. Em cartaz até 8/3. Informações e ingressos em sescsp.org.br/consolacao.
Anticapacitismo em pauta
De 27/4 a 11/8, o Centro de Pesquisa e Formação do Sesc oferece o curso online Acessibilidade para a gestão cultural: teorias e práticas anticapacitistas. Realizada às segundas e terças, das 10h às 12h30, a formação propõe a qualificação de gestores da área cultural em instituições públicas, privadas, coletivos e ONGs, assim como educadores, artistas, fornecedores de recursos de acessibilidade, profissionais independentes, pessoas com e sem deficiência que atuam no campo da acessibilidade cultural. O período de inscrição para o processo seletivo será de 2 a 22/2. Saiba como participar em sescsp.org.br/cpf
João Caldas Filho
Em nova montagem dirigida por Gabriela Villela, o mito grego Medea fica em cartaz no Sesc Consolação até 8/3.
DOSSIÊ
POESIA AUDIOVISUAL
O SescTV estreia, neste mês, O menino que engoliu o Sol (2020), série em animação com direção de Patrícia Alves Dias voltada para o público infantil. Com 13 episódios de 7 minutos cada, a produção é inspirada no universo do poeta Manoel de Barros (1916-2014), ambientada
no bioma do Pantanal e conta com a narração do cantor e ator Ney Matogrosso. No primeiro episódio, "Acó Cene", que será exibido no dia 7/2, às 10h, o personagem Manoel revela seus encantamentos pela natureza. A série foi a única representante brasileira finalista do Japan
Prize, a tradicional premiação internacional que, desde 1965, elege os melhores conteúdos produzidos em mídia educativa. Exibições aos sábados, às 10h, com reapresentações domingos, 17h30; segundas, 15h; terças, 9h; e quintas, 18h15. Assista em sesctv.org.br/menino
SescTV exibe a animação O menino que engoliu o Sol (2020), série com direção de Patrícia Alves Dias voltada para o público infantil.
Mergulho na literatura
As unidades do Sesc 24 de Maio e 14 Bis convidam o público a experimentar a literatura em novos formatos. O projeto Sinapses Poéticas - Autofricção, no Sesc 14 Bis, une literatura e performance, expandindo a poética da palavra. Dia 4/2, 19h, a cantora e poeta Letrux se une a Malu Maria para apresentar o trabalho de Laurie Anderson;
já em 11/2, 19h, Verena Smit, Sara Não Tem Nome e Camila Mota investigam a obra de Yoko Ono; e em 25/2, 19h, Mar Becker e Jocasta Germano exploram o universo de Adalgisa Nery. A direção artística e comediação é de Eduardo Beu. No Sesc 24 de Maio, o projeto Ler à Luz da Lua convida o público a participar de leituras dramáticas junto à piscina da unidade, no topo do prédio. No dia 25/2, 20h, a atriz Ana Flavia Cavalcanti e a escritora Lilia Guerra leem trechos de O céu para os bastardos (Todavia, 2023), romance que retrata a vida de uma trabalhadora doméstica brasileira na periferia. Saiba mais em sescsp.org.br/24demaio e sescsp.org.br/14bis
FAÇA SUA CREDENCIAL PLENA
A Credencial Plena do Sesc é um benefício gratuito para pessoas com registro em carteira, que são estagiárias, temporárias, se aposentaram ou estão desempregadas há até dois anos em empresas do comércio de bens, serviços e turismo e seus dependentes familiares. Com a Credencial Plena você tem acesso prioritário e descontos na programação e serviços pagos do Sesc.
Qual
é a validade da Credencial Plena?
A Credencial Plena tem validade de até 2 anos - para desempregados, a validade é de 24 meses contados a partir da data de rescisão do contrato de trabalho.
Como fazer a Credencial Plena?
On-line pelo aplicativo
Credencial Sesc SP ou pelo site centralrelacionamento.sescsp.org.br
Se preferir, nesses mesmos canais, é possível agendar horários para realização desses serviços presencialmente, nas Centrais de Atendimento das unidades.
Quem pode ser dependente na Credencial Plena?
• Cônjuge ou companheiro de união estável de qualquer gênero
• Filho, enteado, irmão, neto, tutelado e pessoa sob guarda com até 24 anos
• Pai, mãe, padrasto e madrasta
• Avôs e avós
Relacionamento com Empresas
É o programa que facilita o acesso ao credenciamento dos funcionários das empresas parceiras dos ramos do comércio de bens, serviços e turismo. Nessa parceria, além do credenciamento, os aproximamos de nossa vasta programação e serviços. Saiba mais em sescsp.org.br/empresas
Acesse o portal para saber sobre a Credencial Plena do Sesc
Ricardo Ferreira
O Sesc que eu vejo
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Coração com coração
Filósofo Renato Noguera se dedica a refletir sobre como as pessoas amam e ressalta a potência dos afetos, a partir da sabedoria de pensadores de diversas culturas
POR RACHEL SCIRÉ
FOTOS NILTON FUKUDA
Quem recebe um abraço de Renato Noguera, às vezes, pode se atrapalhar. O filósofo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) prefere abraçar as pessoas pelo lado esquerdo, de forma que os corações "se encostem". O ato leva em conta uma concepção do Kemet (Egito antigo), que considerava o coração como o centro das emoções, do pensamento do pensamento e do caráter (pra manter o paralelismo) caráter. Neste hábito adotado por Noguera, o movimento também perde o automatismo e ganha consciência assim como acontece quando o nosso raciocínio é iluminado pela filosofia.
“Meu principal objetivo é tentar compreender como as pessoas amam, como elas aprendem a amar e se empenham nesta tarefa, mais especificamente, no que diz respeito a casais”, explica Noguera, que é mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, coordena o projeto de pesquisa “Ética de amar, casais, políticas afetivas, interseccionalidade de gênero, raça e classe”.
Em 2025, lançou o livro ABC do amor: o que a poesia e a filosofia têm a dizer sobre os afetos (Editora Oficina Raquel), em que reúne mais de cem palavras ou expressões para apresentar uma gramática dos afetos e defender a potência revolucionária do amor. “Talvez
uma das questões que me mobiliza seja romper com uma cultura hegemônica calcada no medo”, afirma.
Também é autor de títulos como Por que amamos? O que os mitos e a filosofia têm a dizer sobre o amor (Harper Collins, 2020); O que é o luto: Como os mitos e as filosofias entendem a morte e a dor da perda (Harper Collins, 2022); Mulheres e deusas: como as divindades e os mitos femininos formaram a mulher atual (Harper Collins, 2018) e O ensino de filosofia e a Lei 10.639 (Pallas, 2015) No campo da literatura infantil, publicou O aniversário do João (HarperKids, 2023) e a coleção Nana & Nilo (Hexis Editora), que ganhou versão em animação. Essa atuação também se relaciona à experiência como professor no departamento de Educação e Sociedade do Programa de Pós-Graduação em Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Educação, Contextos Contemporâneos e Demandas Populares da UFRRJ, em que coordenou o grupo de pesquisa “Afroperspectivas, Saberes e Infâncias”.
Nesta Entrevista, Noguera aborda letramento afetivo e masculinidade, tema de sua palestra no Sesc Vila Mariana em dezembro, e fala sobre a importância de uma abordagem pluriversal da filosofia, que considere, por exemplo, pensadores africanos. Também comenta debates contemporâneos sobre o amor e os modelos de relacionamento, e destaca a potência dos afetos.
Não existe nem a melhor nem a pior dinâmica relacional. O mais importante é que as pessoas saibam onde ficam confortáveis, em qual momento da vida elas estão, o que contempla mais o desejo delas naquele momento.
Por que você resolveu organizar seu livro mais recente como um abecedário?
O livro traz vários conceitos relacionados aos afetos, a partir de especulação filosófica ou do campo da psicologia, e eu gostaria de apresentar de modo a proporcionar uma “fácil digestão” para que as pessoas pudessem pensar sobre emoções. A partir de termos com cada uma das letras, como A, de abraço, ou Z, de zelo, eu falo sobre como os afetos amplificam a potência do sistema amoroso ou, de alguma forma, o desorganizam. Por exemplo, o medo é um afeto que, se estiver em alta dose, desorganiza tanto a vida da própria pessoa que sente quanto do relacionamento, pois vai existir mais desconfiança, ciúme, tensionamento. Se um casal tem o que eu chamo de "musculatura afetiva", ele pode ter maneiras de manejar frustrações; caso contrário, às vezes o relacionamento acaba. Talvez a gente tenha que ter mais recursos para amar, para expressar o amor.
De modo geral, nos falta letramento afetivo?
A vida toda, somos convocados para a vivência amorosa. Muitas vezes pode faltar alguma ferramenta, suporte ou rede que nos ajude a acionar isso. Acho que o investimento afetivo é algo muito importante para se fazer. Nós somos seres afetivos. Somos muito mais uma máquina de sentir que pensa do que uma máquina de pensar que sente. São as emoções que nos tornam humanos e sentir talvez seja a única coisa que a inteligência artificial não vai poder reproduzir – a imprevisibilidade de um sistema orgânico que se emociona. A minha proposta é que se eu tenho letramento, se eu sei o que eu sinto, ou seja, como a raiva opera em mim, como o ciúme funciona, talvez eu consiga informar isso de um modo que não seja violento. O letramento afetivo se relaciona a isso, a investigar no corpo, na trajetória, na história de vida, como eu
funciono emocionalmente. Aprender a amar é uma das coisas mais importantes para que a gente não resolva as nossas tensões com um recurso muito antigo da humanidade, que é a violência. Há formas de resolver conflitos que são coloniais. Uma forma de pensar o colonialismo é a violência, que talvez seja a linguagem principal do projeto colonial.
Como você enxerga o amor na contemporaneidade?
Se a gente falar de relação de conjugalidade, o amor romântico entrou em crise, ainda que o amor romântico seja o campeão de bilheteria nas canções, nos romances, no audiovisual. As pessoas têm tido mais informação sobre dinâmicas amorosas e têm deslocado a centralidade do casal para pensar para além de um território especial onde o amor se realiza, compreendendo que a gente tem um campo amoroso vasto, que tem a ver com amizade, interesses, gostos, causas, objetivos, propósitos e pessoas para além da vida conjugal. Agora, no campo da vida conjugal, sem dúvida nenhuma, as pessoas estão pensando mais — nem sempre nomeando — isso que a gente chama de amor confluente, que é diferente da dinâmica do amor romântico.
O que seria o amor confluente?
Em poucas palavras, o amor confluente é justamente a compreensão de que não temos outra metade. Se o amor romântico pressupõe que a alma gêmea se encaixe com a outra, o amor confluente entende que os acordos podem ser refeitos, revistos, e que ninguém pode suprir todas as necessidades emocionais de outra pessoa.
Isso é uma sombra que o amor romântico traz e é uma promessa impossível de ser cumprida: apenas uma pessoa alimentar afetivamente a outra. Então, um campo amoroso mais vasto, uma constelação de vida mais rica, com trabalho, lazer, satisfações em outras áreas, favorece, inclusive, que uma relação conjugal tenha responsabilidade afetiva e tenha bem viver para todo mundo. Um estudo do Anthony Giddens, sociólogo, mostra como a modernidade transforma a vida conjugal e amorosa. Outra autora interessante no campo da antropologia das emoções é a socióloga Eva Illouz, que fala do amor na era do capitalismo, para pensar como a lógica do mercado entra na intimidade. Então são elementos novos, em certa medida, ao longo de períodos históricos, que vão se consolidando e se modificando.
De que maneira você avalia os debates contemporâneos sobre os formatos de relacionamento? Debates sobre temas como não monogamia, poliamor, policonjugalidade, anarquia relacional, têm sido feitos por alguns grupos de modo mais constante, mas não é algo geral. Boa parte da sociedade opera com os marcadores do amor romântico, da traição, do
“felizes para sempre”. De fato, a monogamia é o padrão normativo oficial e vai existir resistência para romper com esse acordo simbólico. Existem outras questões em relações múltiplas que a gente não consegue ainda saber para onde vão, por exemplo, no campo jurídico, que envolvem patrimônio, herança. É necessário também discutir propriedade privada, o capitalismo, há muitas discussões concomitantes. Isso diz respeito a pensar não só os caminhos individuais, mas também qual modelo de sociedade a gente quer, por isso não é fácil. Penso que não existe nem a melhor nem a pior dinâmica relacional. O mais importante é que as pessoas saibam onde ficam confortáveis, em qual momento da vida elas estão, o que contempla mais o desejo delas naquele momento. Não precisamos universalizar nada neste universo, situações sempre são singulares. Esses modelos que têm que ser seguidos funcionam justamente como os três atos da comédia romântica ou dos contos de fada, que terminam com o “felizes para sempre” ou o “até que a morte os separe”. Este, aliás, é um enunciado muito ruim, que pré-autoriza a violência, como se o único critério para o fim de um relacionamento fosse a morte de uma das pessoas. O que isso mobiliza, principalmente, em uma cultura de homens agressores?
É nesse sentido que você propõe um olhar sobre a afetividade que busca resgatar valores como empatia, acolhimento e circularidade, em oposição às tensões da masculinidade tradicional, que muitas vezes nega a vulnerabilidade e o cuidado? Quando a gente fala sobre letramento afetivo, estamos falando em decodificar, mas também em nomear o que a gente sente, em compreender uma gramática das emoções. Como eu me sinto? O que eu faço com o que eu sinto? Nesse percurso, me interesso por essa discussão sobre como a masculinidade tradicional tende a produzir adoecimento, homens mantêm pouca ou baixa conexão com as suas emoções. Gênero não é uma categoria que está colada com sexo biológico. Tem relação direta com o que a gente chama de performance, com aparatos que demarcam diferenças. Por exemplo, as meninas são socializadas muito mais com brinquedos que mobilizam potências emocionais, como bonecas. Os meninos, com brinquedos instrumentais. Um estádio de futebol é um território que dá uma
licença para que homens chorem, se abracem. Então são códigos socialmente construídos, dentro de um percurso simbólico que tem a ver com o patriarcado, o machismo, a misoginia. Dentro das famílias, por exemplo, no campo da parentalidade, uma criança precisa de uma referência, de um amparo de uma pessoa adulta não anônima em seu desenvolvimento. Muitas vezes, a gente aprende a fazer isso sendo pai, sendo mãe, e sempre existiu muita idealização diante disso, na maternidade, por exemplo. Já a paternidade era marcada quase com um consentimento público de ausência. No século XX, o homem podia ser pai sem saber a data de nascimento do filho, ou em qual série estava, mesmo convivendo com a criança. Hoje isso está sendo menos tolerado. Essas reflexões ajudam quem está no esforço da parentalidade, para viver isso sem cobranças, sem buscar ideais. É importante que esse adulto tenha saúde mental, esteja de bem com a sua história, para poder cuidar melhor de alguém, porque sem o autocuidado muito bem trabalhado, cuidar do outro pode ser ainda mais difícil.
Uma das minhas hipóteses de trabalho é que o amor não deve ser conjugado com o sacrifício (...). O amor tem que ser alguma coisa que habite o conforto. Não significa que não vai ter tensão ou atrito, mas isso não é sacrifício.
Seu livro Por que amamos? O que os mitos e a filosofia têm a dizer sobre o amor traz perspectivas africanas, indígenas, orientais, ocidentais que se complementam ao tratar do amor. Como você concilia diferentes abordagens? Eu me interesso por sistemas teóricos variados que possam, de alguma maneira, enfrentar as mesmas perguntas. Como um determinado sistema filosófico responde às perguntas sobre o amor? Quais os modelos éticos de relacionamento em diferentes filosofias? Também uso uma formulação que é foucaultiana [do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984)] da caixa de ferramentas. Dependendo de onde queremos mexer, qual ferramenta vamos utilizar? Fiz meu mestrado nos anos 1990, a gente não tinha margem para trazer alguns debates no campo acadêmico e público, então estudei filosofia alemã, Platão, Schopenhauer (1788-1860), Nietzsche (1844-1900), Freud (1856-1939). São autores que fazem sentido para muitas coisas que continuo fazendo, mas sempre tive interesse em convocar sistemas teóricos que não estavam no rol do mundo acadêmico. O diálogo hoje é possível porque a conjuntura mudou. Talvez uma das coisas mais importantes seja pensar que na antiguidade não existia só filosofia em um único lugar do planeta. Temos textos que são do Kemet, da região do norte africano, anteriores aos textos gregos. Por exemplo, o papiro britânico 10474, do pensador Amenemope. Ele fala sobre o ato cardíaco, da inflamação como uma forma de compreender que alguma coisa não está indo muito bem. Dentro da cultura do Kemet, o coração é o centro das emoções, do pensamento e onde habita o caráter humano. Justamente esse é o órgão que faz a “digestão dos afetos”, conforme uma interpretação de Amenemope feita por mim. Nos mitos do Kemet, a figura de Ausar é responsável por pesar o coração do indivíduo. Por isso que o coração precisa estar leve, para evitar a “indigestão afetiva”.
Isso está relacionado à sua maneira de cumprimentar?
Pessoalmente, acho bom abraçar as pessoas pelo lado esquerdo. É uma questão, obviamente, pessoal. Mas justamente porque é o lado que está o coração. Isso também tem a ver com um experimento que eu passei dentro da terapia de escutar meu coração com um estetoscópio durante uma sessão. Já vi experimentações similares para casal. É uma discussão que a psicanalista
Carla Vergara faz sobre a importância de casais criarem os seus rituais e, dentro dessa pesquisa, alguns casais se organizam para escutar o coração um do outro, seja com o abraço pelo lado esquerdo ou até utilizando o estetoscópio, se for o caso, para perceber a frequência. E isso tem muito a ver também com a noção de ritual, que me interessa bastante e que, para pensar, também convoco a filósofa Sobonfu Somé (falecida em 2017), da etnia Dagara, e o filósofo sul-coreano Byung Chul-Han. O papel da ritualística na vida conjugal pode ser um dispositivo ético para que os casais fortaleçam sua jornada.
Orunmilá é um nome mais conhecido como orixá do panteão iorubano, associado à sabedoria e ao destino, mas você fala sobre ele como um pensador, que o inspirou na ideia dos "biomas afetivos". Como chegou nesse conceito?
Foi a partir do trabalho da filósofa nigeriana Sophie Oluwole (1935-2018), que realizou um estudo comparativo entre Socrátes e Orunmilá, como pais da filosofia, de forma a incentivar o reconhecimento do pensamento filosófico africano. O professor Maulana Karenga também publicou uma tradução do Odu Ifá, que é o sistema utilizado por Orunmilá. A partir desses textos, fiz algumas especulações e surgiu o termo “bioma afetivo” para pensar uma contiguidade dos microcosmos com os macrocosmos, em que a gente habitaria um ecossistema
Aprender a amar é uma das coisas mais importantes para que a gente não resolva as nossas tensões com um recurso muito antigo da humanidade, que é a violência
de afetos. Dentro do pressuposto presente na filosofia de Orunmilá, todos os seres vivos são formados por elementos da natureza, e os afetos se comportariam como os quatro elementos: terra, ar, água e fogo. Foi um trabalho de interpretação filosófica do pensamento de Orunmilá que realizei para lançar luz sobre temas que dizem respeito a todo mundo, como o amor.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2023 apontam que o número de pessoas solteiras superou o de casadas no Brasil. Está mais difícil encontrar o amor?
Volto ao meu lugar de enunciação, que é a filosofia, para dizer que a gente tem que se perguntar um pouco sobre nós mesmos, quem somos, o “conhece-te a ti mesmo”, do Oráculo de Delfos. Uma questão filosófica que sempre permeou o meu trabalho é a necessidade de escutar a própria voz. Ainda mais em uma sociedade em que a nossa escuta é atravessada por muitos ruídos, burburinhos, palavras que estão em nossa boca, mas não são necessariamente nossas. Em tempos de redes sociais, a comparação deixa todo mundo em déficit. Tem muito isso de se medir pelo outro ou por uma ideia do outro materializada em uma imagem que, de repente, não se sustenta. Aí a pessoa não tem o abdômen correto, a altura certa, está fora do peso, nada está correto. O preço de ser uma pessoa amada é ter o corpo perfeito, uma carreira de sucesso? Envolve sacrifícios? Uma das minhas hipóteses de trabalho é que o amor não deve ser conjugado com o sacrifício. Não se sacrifique para amar. O sacrifício é um conceito que é muito frequente no campo religioso, por exemplo, judaico-cristão. O amor pode ter algo de doação, mas não de sacrifício. Pensar o amor fora desse dispositivo é um encaminhamento teórico de que eu gosto. O amor tem
que ser alguma coisa que habite o conforto. Não significa que não vai ter tensão ou atrito, mas isso não é sacrifício.
O que significa pensar o amor como um projeto coletivo e a potência política dos afetos?
Eu me interesso em pensar como o amor tem uma potência regenerativa. De alguma forma, o amor teria um poder curativo. Mas não o amor de uma fantasia, de alguma coisa que seja estratosférica, que não esteja calcada na realidade. A bell hooks [escritora, professora, teórica feminista e ativista estadunidense (1952-2021) traz algo importante: o amor, para além de um sentimento, é uma ação. Então me interessa bastante pensar como essas práticas amorosas favorecem para que o tecido social fique mais saudável, para que a sociedade possa se organizar de uma forma em que os ambientes sociais sejam de segurança psicológica, para que toda a riqueza da humanidade possa se refletir na vida singular de cada pessoa.
Assista a trechos da Entrevista com o filósofo Renato Noguera, realizada no Sesc Vila Mariana, em dezembro de 2025.
ESPORTE É MOVIMENTO
Bibliotecas VIVAS
Lugar de encontros, bibliotecas se fortalecem como espaços onde o fomento à leitura convive com a promoção da cidadania e o acolhimento de pessoas diversas
POR LÚCIA NASCIMENTO
Na zona Oeste de São Paulo, Biblioteca do Parque Villa-Lobos foi inaugurada em 2015 e, além de acesso a livros, incentiva debates e atividades criativas em diferentes linguagens artísticas.
Nilton Fukuda
No famoso conto “A Biblioteca de Babel”, do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), um bibliotecário praticamente cego conduz leitores e leitoras por uma infinita e misteriosa biblioteca. Formada por galerias hexagonais com numerosas estantes, a Biblioteca de Babel contém todos os livros do mundo e serve como metáfora de uma realidade a ser decifrada. Ela é o universo: interminável, infinito.
Apesar de as bibliotecas continuarem sendo detentoras de alguns dos maiores acervos de livros que os seres humanos podem acessar, é também verdade que o papel social delas se transformou muito nas últimas décadas. Mais do que disponibilizarem obras gratuitamente para a população, elas também têm se firmado como um lugar de encontro, onde a leitura e a fruição são incentivadas e o acesso à cidadania se consolida.
“Uma frase de que eu gosto muito diz que as bibliotecas ruins oferecem acervo e as bibliotecas boas oferecem serviços. Mas as bibliotecas excelentes são para as pessoas. As pessoas precisam ser a finalidade das bibliotecas no mundo de hoje”, pondera Sueli Nemem, supervisora geral do Sistema Municipal de Bibliotecas da cidade de São Paulo.
No lugar do silêncio obrigatório e dos livros enfileirados em prateleiras, ganham espaço as leituras coletivas, as performances inspiradas em textos literários, a conversa entre pessoas que pertencem a um mesmo território. Mas o que torna uma biblioteca um espaço de convivência e de promoção da cidadania?
Aline Frederico, professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), lembra que o conceito de biblioteca viva atualiza a ideia de que estes locais funcionem apenas como um depósito de livros ou, no máximo, lugar para acesso por meio de empréstimos. “Uma biblioteca viva incentiva o diálogo com a comunidade, que pode se apropriar desse espaço”, afirma. A biblioteca, assim, se torna ambiente central para o acesso e a produção de cultura, de aprendizado e de convivência. O acervo e os demais recursos seguem sendo fundamentais, mas orientam-se com o foco nos cidadãos e nas comunidades de cada região.
PARA ALÉM DA LITERATURA
De acordo com a sexta edição da pesquisa Hábitos Culturais, realizada em 2025 pelo Observatório Fundação Itaú com o apoio técnico do Datafolha, 65% dos entrevistados já visitaram bibliotecas. A pesquisa, realizada com pessoas entre 16 e 65 anos, nas cinco regiões do país, indicou que, desse total, apenas 20% dos entrevistados frequentaram bibliotecas nos doze meses anteriores à pesquisa. A porcentagem, apesar de ainda ser baixa, é superior às registradas em 2022 e 2023, quando apenas 11% e 14% dos entrevistados, respectivamente, disseram ter visitado uma biblioteca nos doze meses anteriores à pesquisa. Para fomentar os encontros e ampliar os públicos que frequentam esses espaços, incentivando o interesse pelos livros e pela leitura, muitas bibliotecas têm investido em atividades culturais que extrapolam a literatura, sem deixar de lado a relevância dos livros para a formação cidadã. Como exemplo dessa atuação, as bibliotecas municipais da cidade de São
A Biblioteca Hans Christian Andersen, no bairro do Tatuapé, na zona Leste da capital, promove atividades educativas diversas, de oficinas e curso de idiomas a encontros com escritores.
Paulo realizaram 90 atividades gratuitas em apenas uma semana, no mês de dezembro de 2025. “Nós entendemos as programações como atrativo para trazer as pessoas para as bibliotecas”, afirma Sueli Nemem.
A Biblioteca Hans Christian Andersen, no Tatuapé, zona Leste da capital, por exemplo, já promoveu atividades que iam desde oficinas de pintura em aquarela e curso de inglês até encontros com autores premiados, como o que contou com a presença da ganhadora do Prêmio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa 2025, a escritora Silvana Tavano.
Já a Biblioteca Mário de Andrade, no Centro de São Paulo, mantém uma programação regular que inclui um dos clubes de leitura mais longevos da cidade, o Prosa da Mário. Outras linguagens artísticas, como o cinema, a música e as artes cênicas, também são contempladas periodicamente na programação. Em dezembro de 2025, o CineClube da Mário exibiu o filme Malês (2024), dirigido por Antonio Pitanga, e o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo se apresentou no auditório da biblioteca.
Nilton Fukuda
ACOLHIMENTO E PERTENCIMENTO
No livro The Great Good Place (1989) [O melhor lugar], o sociólogo estadunidense Ray Oldenburg (19322022) defende a importância de um “terceiro lugar” de encontro, para além da casa (primeiro lugar) e do local de trabalho (segundo lugar). Esse “terceiro lugar” seria um espaço de convivência comunitária e de trocas, onde fosse possível gerar propósito e pertencimento, contribuindo para o bom funcionamento da sociedade civil e da democracia. Na obra Living Libraries: The House of the Community Around the World (2021) [Bibliotecas vivas: o lar da comunidade ao redor do mundo], publicada pela Biblioteca de Utrecht, na Holanda, as bibliotecas são apontadas como o exemplo perfeito desse “terceiro lugar”. Os organizadores da coletânea defendem que, com o advento da informática e dos documentos digitais, elas precisaram se reinventar e deixaram de ser apenas locais onde encontramos coleções de objetos,
principalmente livros, para serem também centros de produção de informação e, sobretudo, de acolhimento. “A biblioteca precisa ser um território para ser apropriado pela comunidade na qual está localizada. E, para isso, a gente sempre tenta nortear o acolhimento de forma individualizada, conhecer cada pessoa que frequenta o espaço. Isso faz com que as pessoas se sintam importantes dentro da biblioteca”, ressalta Sueli Nemem. A gestora lembra ainda que tal conceito também se aplica a como as regras do espaço serão comunicadas. Afinal, “quando você entra num lugar que é todo cinza, com móveis muito sérios, plaquinhas para fazer silêncio, não comer, não beber, não usar celular, um lugar cheio de nãos, isso não te acolhe”.
Existe, ainda, um cuidado em ampliar as possibilidades de inclusão e de pertencimento das pessoas em seus territórios e grupos sociais. “As bibliotecas são
No Centro de São Paulo, a Biblioteca Mário de Andrade promove uma programação regular que inclui visitação e clube de leitura, além de atividades de cinema, música e artes cênicas, aproximando a população de diversas linguagens artísticas.
hoje o principal equipamento de cultura no Brasil. Mesmo em bairros e cidades menores, que não têm teatros, as bibliotecas estão presentes”, lembra Aline Frederico. “Por isso, elas podem ter um papel fundamental no letramento digital e no uso de tecnologias para a cidadania. Desde oficinas que auxiliem a criar um currículo até cursos que orientem idosos a como usar aplicativos de saúde”, ilustra.
REESCREVENDO HISTÓRIAS
Em São Paulo, o conceito de bibliotecas vivas foi implantado a princípio com os projetos das bibliotecas estaduais instaladas no Parque da Juventude e no Parque Villa-Lobos, ambos na capital. E, nesses casos, tudo começou com uma revitalização de espaços degradados da cidade.
Localizada em Santana, na zona Norte paulistana, a Biblioteca de São Paulo ocupa a área onde antes existiu a Casa de Detenção de São Paulo, conhecida como Carandiru. Em 1992, o local foi palco de um dos massacres mais violentos da história da cidade, considerado uma grave violação dos direitos
humanos. A prisão foi desativada e parcialmente demolida em 2002, substituída pelo Parque da Juventude, onde hoje está o espaço inspirado na Biblioteca de Santiago do Chile - espaço que nasceu a partir da análise das melhores práticas adotadas por bibliotecas públicas, com foco na construção autônoma do conhecimento e na compreensão de que cada visitante traz consigo conhecimentos que podem ser trocados com outras pessoas.
Para o pesquisador e bibliotecário chileno Gonzalo Oyarzún, que assessorou programas de planos de leitura no Brasil e escreveu sobre essas experiências, “desde o início de suas atividades, a biblioteca é utilizada como campo experimental para práticas de leitura, cultura e cidadania. Seu funcionamento baseia-se em uma premissa muito simples: mudar o foco do acervo para a comunidade atendida”.
A Biblioteca do Parque Villa-Lobos, por sua vez, na zona Oeste da capital paulista, foi instalada no lugar onde antes existia um depósito de lixo que foi transformado em parque e inaugurado em 1994. Ali também as ações e os serviços são organizados não apenas para proporcionar acesso à literatura,
AS BIBLIOTECAS SÃO HOJE O PRINCIPAL EQUIPAMENTO DE CULTURA NO BRASIL. MESMO EM BAIRROS E CIDADES
MENORES, QUE NÃO TÊM TEATROS,
AS BIBLIOTECAS ESTÃO PRESENTES.
Aline Frederico, professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP)
à cultura e ao conhecimento, mas para incentivar debates e atividades criativas, permitindo que as pessoas tenham liberdade para utilizar o acervo, conhecer outras pessoas e trocar experiências.
Para Giovanna Sant’Ana, superintendente técnica na SP Leituras, responsável pela gestão da Biblioteca Parque Villa-Lobos e da Biblioteca de São Paulo, uma série de fundamentos norteia essas ações, para que os objetivos sejam alcançados. “Incentivar e fortalecer ações voltadas ao direito e ao desenvolvimento do gosto pela leitura desde a primeira infância, além de garantir educação permanente [é um dos principais pilares]”, pondera.
ESPAÇO DE LIBERDADE
Liberdade é a palavra que define este ideal de bibliotecas onde as pessoas importam tanto quanto os livros. Se antes esses estabelecimentos eram essencialmente lugares prescritivos, onde seguir as regras era o mais importante, atualmente a ideia é que as pessoas se sintam à vontade, com menos normas rígidas. Há, portanto, um redirecionamento do olhar.
“Um dos princípios fundamentais, nesse sentido, é o entendimento da biblioteca como um espaço de liberdade: liberdade de expressão, de escolha sobre o que, como e quando ler, e de acesso amplo e irrestrito a todo tipo de informação, sem qualquer forma de censura ideológica, política ou religiosa”, afirma Giovanna Sant'Ana.
Fomentar ambientes que facilitem a leitura, tentando despertar as pessoas para as potencialidades da escrita, pode ser um dos melhores modos de incentivar o gosto pelos livros por parcelas cada vez mais amplas da população. “Muitos anos atrás, existia uma demanda grande de pesquisa escolar nas bibliotecas públicas, quando não existia ainda no país uma política de bibliotecas escolares. Os estudantes eram o principal público. Depois isso foi se alterando. Os buscadores de informação trouxeram outros acessos. As bibliotecas, então, passaram a ser lugares que, além de oferecerem conteúdo, também geram conteúdo”, aponta Sueli Nemem. E essa é uma tendência que deve se fortalecer nos próximos anos.
Para as próximas décadas, a aposta também está na importância de ofertar recursos tecnológicos
Atividade de circo na Biblioteca Raul Bopp, no bairro da Aclimação, em São Paulo.
UMA FRASE DE QUE EU GOSTO MUITO DIZ
QUE AS BIBLIOTECAS RUINS OFERECEM
ACERVO E AS BIBLIOTECAS BOAS
OFERECEM SERVIÇOS. MAS AS BIBLIOTECAS EXCELENTES SÃO PARA AS PESSOAS.
AS PESSOAS PRECISAM SER A FINALIDADE
DAS BIBLIOTECAS NO MUNDO DE HOJE.
Sueli Nemem, supervisora geral do Sistema
Municipal de Bibliotecas da cidade de São Paulo
para a realização de diferentes iniciativas culturais, além de ampliar os acervos virtuais, sem deixar de lado o acolhimento presencial nas bibliotecas. Atualmente, tanto o estado quanto o município de São Paulo oferecem acesso a acervos virtuais, que podem ser consultados por pessoas do Brasil inteiro.
A BibliON, biblioteca pública digital do estado de São Paulo, teve origem em 2022, e hoje integra acervo, serviços e programação cultural. “A importância desse modelo hoje em dia é que a biblioteca conta com um acervo digital amplo e inclusivo, disponibilizando milhares de títulos em diversos formatos, incluindo livros digitais, audiolivros, podcasts, vídeos e outros conteúdos acessíveis, permitindo que leitores de diferentes perfis e regiões brasileiras possam explorar o universo da literatura e da leitura de forma prática e gratuita”, afirma Giovana. As bibliotecas virtuais também promovem atividades como clubes de
leitura e cursos, ampliando a oferta de atividades culturais para as pessoas que, porventura, não possam frequentar presencialmente esses espaços.
O narrador de Borges no conto "A Biblioteca de Babel" não previu as bibliotecas como elas são hoje. Ele suspeitava que a espécie humana estava a ponto de se extinguir, mas que a biblioteca permaneceria, infinita e incorruptível. Na atualidade, no entanto, é difícil pensar na existência da biblioteca sem as pessoas.
As bibliotecas só existem porque a humanidade existe, e nisso está seu principal trunfo e potência. É o contato entre pessoas que talvez nunca se conhecessem de outras maneiras, e a criação de laços possíveis, o que talvez nos permita repensar os modos de atuação no mundo e na sociedade.
As bibliotecas humanas são uma das nossas formas mais poderosas de derrubar barreiras.
A Seção Circulante da Biblioteca Mário de Andrade conta com mais de 53 mil livros que podem ser consultados no local ou retirados por empréstimo.
para ver no sesc / literatura
Além de acervo diverso e espaço para leitura, bibliotecas do Sesc São Paulo realizam atividades educativas, democratizando conhecimentos e promovendo a cidadania.
DA LEITURA À CONVIVÊNCIA
Em 28 bibliotecas localizadas na capital, interior e litoral, Sesc São Paulo promove literatura, cidadania e diálogos
As bibliotecas do Sesc São Paulo são espaços de encontro, de convivência, de pertencimento, de acolhimento. Atualmente, são 28 bibliotecas no estado: 22 fixas, em unidades da capital, do interior e do litoral; outras seis integram o projeto BiblioSesc, formado por bibliotecas volantes.
Mais do que disponibilizarem acervos, “as bibliotecas do Sesc são espaços vivos de cultura, educação e
convivência social. Por meio de ações artísticas e formativas, promovem o hábito da leitura, o estímulo à imaginação e à criatividade, a democratização do acesso à cultura e o incentivo à aprendizagem”, ressalta Thaís Heinisch, especialista em Literatura e Bibliotecas da Gerência de Ação Cultural do Sesc São Paulo. Entre as programações realizadas, há encontros com escritores, sessões de mediação de leitura e narração de histórias, leituras coletivas e debates. “Além disso, como espaços de convivência, favorecem o encontro, o diálogo e a troca de experiências entre pessoas diversas, fortalecendo os vínculos comunitários, a inclusão social e o sentimento de pertencimento”, completa Thaís.
Entre os destaques de 2026, estão os diversos clubes de leitura realizados nas unidades do Sesc, como o Cai na Prosa, realizado pela unidade de Jundiaí, que discute obras solicitadas
em vestibulares da Fuvest e da Unicamp, traçando paralelos com a contemporaneidade, e o Clube de Leitura - Lendo a América Latina, no Sesc Pinheiros, que foca em autoras contemporâneas e editoras independentes.
PINHEIROS
Clube de Leitura – Lendo a América Latina
Com Vinicius Barbosa (Latina Leitura).
A partir de 19/2. GRÁTIS. Saiba mais em sescsp.org.br/pinheiros
JUNDIAÍ
Cai na Prosa
A partir de 25/2. Retirada de ingressos 1h antes, na Loja Sesc. Saiba mais em sescsp.org.br/jundiai
AVENIDA PAULISTA
Clube do Livro
Com Rodrigo Casarin. A partir de 25/3. GRÁTIS. Saiba mais em sescsp.org.br/avenida-paulista
Nilton Fukuda
Um brinde ao HUMOR
Um dos criadores d’O Pasquim, cartunista Jaguar transformou o riso em resistência e a boemia em arte
POR
DIEGO OLIVARES
Cada artista tem seu processo criativo. Alguns pesquisam bibliotecas inteiras, percorrem museus, colecionam referências. Outros preferem o mergulho interior, vasculhando os próprios traumas e angústias. Já o cartunista Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe – ou simplesmente Jaguar, como o país aprendeu a chamá-lo – encontrava suas melhores ideias na mesa de bar.
Foi justamente em um bar de Ipanema, na capital fluminense, o Jangadeiro, então ponto de encontro da boemia carioca, que ele se sentou com o amigo e jornalista Tarso de Castro (1941-1991), numa noite de setembro de 1969. Entre um gole e outro, decidiram criar um jornal sem patrões, sem hierarquia e com toda a liberdade que a ditadura tentava sufocar. Recrutaram ainda o jornalista Sérgio Cabral (1937-2024), o publicitário Carlos Prósperi (1930-2003) e o cartunista Claudius Ceccon. Nascia O Pasquim, símbolo de irreverência, contestação e, por mais de duas décadas, um espelho debochado do Brasil.
O nome foi invenção de Jaguar. Pegou o termo pejorativo usado para rotular publicações caluniosas e sem credibilidade e o vestiu de orgulho. Era uma forma de se antecipar aos críticos e, também, uma carta de intenções:
irônica e provocativa. Não que aquilo tudo fosse uma brincadeira para ele. É impossível dissociar o veículo da trajetória de seu criador. Jaguar foi o único que esteve do primeiro ao último dia da redação, por onde passaram Henfil (1944-1988), Ziraldo (1932-2024), Millôr Fernandes (1923-2012), entre outros, e colaboradores do calibre de Paulo Francis (1930-1997), Chico Buarque e Ruy Castro. Criou dezenas de personagens, o mais famoso deles, Sig, um rato neurótico e freudiano que funcionava como consciência do jornal.
“Os próprios companheiros reconheciam que Jaguar era o corpo e a alma d’O Pasquim”, escreveu João Baptista M. Vargens, autor de Nos bastidores d’O Pasquim (GMS, 1999). “Ele chegou a empenhar recursos próprios para manter o jornal vivo, mesmo perseguido pela ditadura, com edições apreendidas e a sede incendiada”, recorda. De fato, Jaguar e seus colegas chegaram a ficar três meses presos em 1970, depois de uma colagem que parodiava o famoso quadro Independência ou morte! (1888), de Pedro Américo (1843-1905), em que D. Pedro (1798-1934) aparece imponente em seu cavalo, às margens do Ipiranga. Na versão d’O Pasquim, o imperador bradava: “Eu quero é mocotó!”, refrão de uma música de Jorge Ben Jor.
Nem o período na prisão militar foi capaz de azedar seu humor. “Nunca bebi tanto. Não é piada: foi a fase mais feliz da minha vida. Acordava e pensava: ‘O que tenho para fazer hoje? Nada!’”, disse Jaguar, em entrevista ao jornal O Globo, em 2014. “Subornava os guardas para ter cachaça. Bebia do gargalo e jogava num matagal atrás da cela.”
Nos bastidores, O Pasquim funcionava mais como uma república estudantil do que como um escritório. As reuniões se estendiam madrugada adentro, embaladas por chope, cigarros e discussões acaloradas sobre política, futebol e outros temas. Sob sua batuta de editor, o jornal ganhou um ritmo próprio, entre o improviso e a genialidade. Foi ele quem consolidou a linguagem d’O Pasquim: o humor como crítica social, a entrevista como espetáculo e a informalidade como método. Era Jaguar o responsável pela transcrição das famosas entrevistas da publicação, que eram extremamente literais, a ponto de incluir rubricas como “fulano bebe um gole de uísque” ou “ciclano tosse”.
Também foi ali que consagrou a assinatura estilística pela qual ficou conhecida: desenhos rudimentares que ora viam o inusitado de situações cotidianas, ora pegavam carona nas pautas políticas e sociais do país. Ele mesmo não se considerava um grande desenhista, mas um bom observador. Profundo conhecedor das principais referências internacionais do gênero, seu traço era influenciado pelo trabalho do romeno Saul Steinberg (1914-1999), radicado nos Estados Unidos, famoso pelas ilustrações na revista The New Yorker; pelo belga Kamagurka, do time do periódico francês Charlie Hebdo, e do francês Siné (1928-2016), contemporâneo de quem ficou amigo e estabeleceu parcerias, como no livro Siné & Cia., publicado pela editora Civilização Brasileira em 1968.
Entre os artistas nacionais, era grande admirador do cartunista mineiro Borjalo (1925-2004), o primeiro do ramo a quem mostrou seus rabiscos. “Eram uma porcaria. Se fosse eu, nem dava atenção”, confidenciou à revista Bravo!, em 2007. Borjalo gostou
Walter Craveiro/Flip
Jaguar trabalhou no jornal O Pasquim do primeiro ao último dia do periódico, por onde passaram desenhistas como Henfil, Ziraldo, Millôr Fernandes, entre outros, e colaboradores do calibre de Paulo Francis, Chico Buarque e Ruy Castro.
dos desenhos, mas implicou com a assinatura porque ainda constava o nome de batismo Sérgio Jaguaribe. Disse que assim, ele nunca emplacaria, e tascoulhe o apelido pelo qual passou a ser chamado.
HUMOR DE TERNO E GRAVATA
Jaguar já carregava, desde o nascimento, uma característica rara: era de 29 de fevereiro, um dia que só está presente no calendário dos anos bissextos. Brincava que, ao invés dos 93 anos de idade, que completou até sua morte, em agosto do ano passado, ele tinha apenas 23. Afinal, foram poucas as vezes em que pôde comemorar o aniversário na data exata.
Filho de uma família de classe média, cresceu na zona Sul carioca e estudou no Colégio Pedro II. Na juventude, ingressou no curso de Arquitetura, mas abandonou os estudos antes de se formar. Sofria de asma desde a infância e, numa tentativa de se mostrar mais forte do que o físico de magricelo poderia sugerir, entrou para o exército no início da década de 1950, no qual também permaneceu pouco. Seu primeiro desenho publicado veio em 1952, na coluna de humor “Penúltima Hora”, do jornal Última Hora, que circulava no Rio de Janeiro.
Trabalhou por quase duas décadas no Banco do Brasil, seguindo uma tradição familiar: o pai e seu irmão também foram funcionários longevos da instituição. Para quem conhece sua figura pública, é até difícil imaginá-lo de terno e gravata em um mundo de carimbos, planilhas e horários fixos – uma antítese de tudo o que viria a representar no humor gráfico brasileiro.
Mas o tempo atrás de balcões, caixas e mesas do banco acabou sendo decisivo para sua arte. Foi lá, entre pilhas de papéis e colegas burocratas, que conheceu Sérgio Porto (1923-1968), cronista que ficou famoso sob o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta e que via os desenhos de seu subordinado ganharem as páginas de revistas como O Semanário e Manchete. A amizade entre os dois ultrapassou o expediente: Jaguar começou a ilustrar textos e livros do escritor, ajudando a dar forma visual àquele humor ácido e urbano que retratava o Brasil efervescente da industrialização e do desenvolvimento social, pregados pelo então presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976).
O traço de Jaguar, ainda em formação, já carregava algo de indomável. Chamava a atenção uma ironia que
parecia vir de dentro, do incômodo com a ordem e com as certezas da classe média à qual pertencia. Ele não desenhava para agradar, mas para cutucar. Até por isso, tinha dúvidas sobre a viabilidade financeira de ter apenas o desenho como fonte de renda, o que fez com que permanecesse no banco até 1974.
Era daqueles tipos que perdiam o amigo, mas não a piada. “Minha primeira impressão quando o conheci foi péssima”, disse, entre risos, Zélio Alves Pinto, jornalista, cartunista e artista plástico, um dos poucos colegas de redação d’O Pasquim ainda vivos. “Ele era muito gozador. Qualquer que fosse a circunstância, ele encontrava um aspecto humorístico para ressaltar, até mesmo nos momentos mais inapropriados.” Nem todos levavam aquilo numa boa, e às vezes o clima esquentava, até mesmo entre os amigos. Nada, porém, que abalasse seu bom-humor.
“Ele tinha um olhar crítico, mas também era extremamente sereno”, descreve o cartunista. “Durante a ditadura, era ele quem vinha a descobrir ângulos que a gente sequer tinha notado”, complementa. Ao lado de Fernando Coelho dos Santos, Zélio Alves Pinto foi o curador da exposição O Pasquim 50 anos, realizada entre 2019 e 2020 no Sesc Ipiranga, que propunha uma imersão na redação do jornal e trazia centenas de réplicas das ilustrações do célebre cartunista e de seus parceiros.
Os próprios companheiros reconheciam que Jaguar era o corpo e a alma d’O Pasquim. Ele chegou a empenhar recursos próprios para manter o jornal vivo.
João Baptista M. Vargens, autor de Nos bastidores d’O Pasquim (GMS, 1999)
BOEMIA E DISCIPLINA
Ao mesmo tempo em que era um sujeito munido de um gracejo na ponta da língua ou de uma caneta, Jaguar levava muito a sério seu trabalho. “Ele sempre foi uma pessoa muito disciplinada com os afazeres dele”, lembra Celia Regina Pierantoni, sua companheira desde 1989. “Às vezes, as pessoas pensam que o boêmio não tem disciplina, mas era o contrário: se tinha uma charge para entregar, não aceitava nenhum outro compromisso até que aquilo estivesse feito.”
Mestre em Medicina e professora universitária recém-aposentada, Celia conheceu o cartunista no bar, como não poderia deixar de ser. Ela estava com amigos no tradicional Lamas, no bairro do Flamengo, quando Jaguar se aproximou. Jantaram juntos e, a partir daquela noite, não se desgrudaram mais. “Ele era muito atencioso, tinha muito cuidado. Gostava de acordar e fazer o café para mim, estava sempre procurando alguma coisa para me agradar”, recorda a viúva. Está documentada que a recíproca era verdadeira. “Somos muito parceiros”, definiu o artista, em entrevista à revista Piauí, em 2016. “Celia sabe que não tenho capacidade de sobreviver por minha conta, que preciso de cuidados especiais. Ela me salvou”, completou.
Juntos, cruzaram o caminho para a sobriedade de Jaguar, que bebia álcool desde a adolescência. Foram mais de seis décadas de copos em profusão, até que em 2010, aos
Sig, o mais famoso personagem criado por Jaguar, um rato neurótico e freudiano que funcionava como consciência do jornal O Pasquim
78 anos, depois de um carcinoma no fígado e dois AVCs, o médico ordenou que parasse de uma vez por todas. “Eu virava doze latas de cerveja por dia, fora o chope, o uísque, o gim, a cachaça”, confessou à Piauí. “Hoje cumpro o dever de casa e me limito à cerveja sem álcool. Quinze latinhas diárias ou mais. Falam que, em cada uma, há 0,5% de álcool. Não é tão ruim. De 0,5 em 0,5, chega-se a um resultado expressivo”, arrematou, com o sarcasmo intacto.
Jaguar nunca quis procurar os Alcoólicos Anônimos, pois dizia ser um “alcoólico notório”. Suas aventuras pelos bares do Rio de Janeiro foram registradas no livro Confesso que bebi – Memórias de um amnésico alcoólico (Record, 2001). Nesta mistura de guia, álbum ilustrado e coleção de pequenas crônicas, ele percorre as lembranças de estabelecimentos de todas as estirpes, com um carinho especial pelos “pés-sujos”, aqueles em que o luxo ficava fora do cardápio. Entre os bairros do roteiro, estão Gávea, Leblon, Ipanema, Copacabana, o Centro do Rio, Vila Isabel, além de outros municípios como Itaipava e Parati, até chegar em São Paulo.
A longa lista também faz parte do desejo que deixou expresso quando escreveu a autorização de cremação: queria que suas cinzas fossem espalhadas pelos bares que frequentou. Até o momento em que falou com esta reportagem, Celia ainda não tinha dado conta do pedido. “Eu já tracei a estratégia, mas foi ficando difícil para mim. Comecei a me emocionar muito”, admite. “Como ele não deu prazo, posso deixar um pouquinho mais para frente, né?”.
TORCEDOR DE SOFÁ
Afastado de seu habitual reduto etílico, Jaguar passou boa parte de seus últimos anos próximo a outra de suas paixões: o futebol. Via dezenas de partidas, por semana, na TV, dos campeonatos europeus aos brasileiros. Vascaíno desde jovem, mudou de time já na velhice, quando passou a torcer pelo Flamengo, alegando ser o clube mais perto de onde morava. “Das poucas brigas que tivemos, boa parte delas era porque ele se recusava a sair de casa para assistir a algum jogo”, revela Celia, que, sem poder contrariar, juntou-se ao marido no hobby. “Depois de algum tempo, ele passou a dizer que eu entendia mais de futebol do que ele. Hoje eu continuo acompanhando, mesmo sozinha.”
Como um craque que revigora sua energia a cada grito de gol da torcida, Jaguar também gostava de sentir que suas charges faziam a alegria do povo. “Ele não se contentava em desenhar para si, precisava da reação das pessoas. Gostava
de mostrar para nossa secretária, para o rapaz que cuida da garagem, antes da ilustração sair em algum lugar”, narra a companheira. Com o fim d’O Pasquim, em 1991, colaborou por muito tempo em veículos importantes como os jornais Folha de S.Paulo e O Dia, além publicações alternativas. Uma delas foi a revista Bundas, criada por Ziraldo em 1999 para ser uma espécie de herdeira espiritual do veículo criado por Jaguar, mas que durou pouco tempo.
LEGADO E DESAPEGO
Antes da união com Celia, Jaguar teve dois filhos do casamento com a escritora, tradutora e jornalista Olga Savary (1933-2020), com quem esteve de 1955 a 1980 – o mais novo, Pedro, faleceu em 1999, aos 41 anos. A mais velha é a também escritora e ilustradora Flávia Savary, com quem Jaguar trabalhou no livro infantil A roupa nova do arco da velha (Cidade Nova, 2014). Apesar dessa participação, não eram muitos próximos. O próprio cartunista disse em entrevistas não ser um homem muito ligado às relações familiares.
Seu DNA profissional, ao menos, segue vivo entre uma nova geração com quem sempre se deu muito bem, trocando conselhos, indicações de obras e até doando material do próprio acervo. Para André Dahmer, um dos principais chargistas brasileiros contemporâneos, autor de tiras que são publicadas diariamente na Folha de S.Paulo e no jornal O Globo, o maior legado de Jaguar não está nas páginas que desenhou, mas na maneira como
encarava o próprio ofício. “Ele tinha uma coisa assim meio de monge zen, budista, de não se levar a sério, mesmo sendo uma grande figura brasileira em sua área”, analisa.
Esse desapego beirava o inacreditável. “Ele dizia que quando acabava de desenhar e mandava para o jornal, ele botava no lixo. Ou seja, ele jogou fora quase tudo que fez”, ressalta. O gesto, que para muitos soaria como loucura, para André Dahmer simbolizava liberdade. “Imagina só o desprendimento real, né? Quando soube disso, durante uma entrevista que gravei com ele, quase caí para trás”, recorda.
Essa simplicidade se estendia aos gestos cotidianos. “Uma vez ele me ligou e falou: ‘vou jogar umas coisas fora, uns livros, enfim, se você quiser, vem aqui pegar, porque eu vou jogar amanhã.’ E aí, eu cheguei lá com uma mala de aeroporto, para levar as coisas: todos os livros assinados por artistas importantíssimos, brasileiros, gringos. Em algum momento, ele pegou a charge ‘Eu quero mocotó’ e falou: ‘Guarda isso com você bem guardado, porque todos nós fomos presos por causa desse trabalho aqui’.”
Hoje a ilustração decora a parede da sala de Dahmer.
O traço de Jaguar pode até não ter nascido para ser perfeito, mas verdadeiro. Era o desenho de quem observava o mundo com um olho rindo e o outro inquieto. Viu o Brasil de perto, com a caneta e o copo, e traduziu o absurdo em humor. Ao fim, deixou uma lição simples e rara: rir de tudo não é desdém, mas uma forma de continuar prestando atenção.
N'O Pasquim, Jaguar e outros profissionais desenharam e escreveram um capítulo da História da Imprensa no Brasil.
Guilherme de Souza
gráfica
Imagem do documentário
A ARTE DO ALGORITMO
The Oasis I Deserve (2024), dirigido por Inès Sieulle.
As obras da exposição Ònà Irin: caminho de ferro são dispostas em meio aos trilhos da instalação Ogum (2023).
Desenvolvida há setenta anos, inteligência artificial amplia seu alcance, rediscute o humano e suscita questões éticas, filosóficas e políticas
POR LUNA D’ALAMA
Otermo inteligência artificial (IA) surgiu na década de 1950 para designar modelos computacionais e algoritmos capazes de gerar dados, fazer detecções, classificações, previsões, reconhecimentos e análises. A partir dos anos 1990, avanços tecnológicos e a disponibilidade de grandes volumes de dados, com alta complexidade e velocidade, chamados de big data, permitiram o aprendizado de máquinas cada vez mais eficazes. Um dos momentos mais memoráveis ocorreu em maio de 1997, com a vitória do supercomputador Deep Blue, da empresa estadunidense IBM, sobre o então campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov.
A evolução da IA continuou em escala exponencial nos anos 2000, até que, no fim de 2022, a companhia OpenAI, também com sede nos Estados Unidos, lançou o ChatGPT, introduzindo ao público geral a inteligência artificial generativa (capaz de criar conteúdos originais a partir de comandos dos usuários e padrões aprendidos, numa tentativa de imitar a criatividade humana), tornando-a parte do dia a dia de muitas pessoas, que já a usam em diversas funções: para escrever e-mails, marcar consultas médicas, gerenciar finanças e planejar viagens, entre outras atividades.
Ao mesmo tempo que fascina, a presença massiva da IA na nossa rotina suscita múltiplas questões éticas, filosóficas e políticas. Seus impactos também já são sentidos no campo das artes contemporâneas e da cultura audiovisual, transformando o
modo como imagens são capturadas, geradas, alteradas, descritas, difundidas e vistas. Há quinze anos, artistas vêm explorando esses dilemas por meio de diferentes mídias, questionando a participação e a interferência cada vez maiores da inteligência artificial nas sociedades.
É o caso da artista e professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP) Giselle Beiguelman, que trabalha com IA desde 2020 em sua produção teórica e artística, e agora apresenta duas obras na exposição O mundo através da IA, em cartaz até 26 de abril no Sesc Campinas (Leia mais em Criado por IA). Em 2022, a artista inaugurou a exposição Botannica Tirannica no Museu Judaico, em São Paulo; e, desde então, a mostra já itinerou pelo Sesc Taubaté e por instituições do Rio Grande do Sul e de países como Canadá, Alemanha, Itália e Paquistão. A autora de Políticas da imagem: vigilância e resistência na dadosfera (Ubu, 2021) avalia que, nos últimos seis anos, houve uma verdadeira revolução com a abertura das plataformas de grandes modelos de linguagem natural.
“Quando concebi Botannica Tirannica para criar seres híbridos e discutir nomes preconceituosos na botânica clássica, desenvolvi todo o conjunto de dados e o machine learning (aprendizado de máquina) a partir de modelos treinados. Atualmente, em plataformas como ChatGPT e Midjourney, você não tem mais esse controle de como a IA está processando as informações. Ela se tornou uma infraestrutura blindada. Então, nesse jogo de perguntas e respostas dos prompts de comando, não é mais possível saber quais dados estão sendo mobilizados para determinada demanda”, explica. A artista destaca, ainda, a força cada vez maior das empresas e dos agentes envolvidos, tanto nos Estados Unidos quanto na China, o que tem mudado a IA radicalmente e cada vez mais rápido.
A professora também expõe no Sesc Campinas a obra Beleza corrosiva, uma videoinstalação em grande escala, criada com a ferramenta Sora para questionar, por meio de imagens distópicas – em que rios são tomados por equipamentos obsoletos –, os impactos ambientais das tecnologias digitais. Além de um vídeo de três minutos e meio em looping, a obra inclui uma estação para doação de lixo eletrônico pelo público, formando pilhas de descartes que, ao fim da mostra, serão doadas para cooperativas de reciclagem. “A obsolescência programada [estratégia da indústria para criar itens com vida útil curta, forçando o consumidor a substituí-los rapidamente] agora já é desprogramada, ou seja, acabou a responsabilidade social, virou um consumo absurdo e desenfreado. Por isso, proponho uma obra participativa, com chamada à consciência e à responsabilidade das pessoas”, reforça a artista.
Para Giselle Beiguelman, a ruína presente em Beleza corrosiva também aponta para um futuro distópico e possível, pois as máquinas se impõem sobre o ecossistema. “Precisamos tensionar, compreender e problematizar as estruturas, alteridades e potências da inteligência artificial, criando estratégias para desobedecer a normatividade estatística e algorítmica”, ressalta. Ela acredita, ainda, na existência de outras inteligências além da humana – incluindo a dos vegetais. “A inteligência não é uma prerrogativa nossa, mas distribuída e sistêmica. Assim como a IA, as plantas também têm sua própria inteligência, comunicam-se e interagem entre si, com o ambiente ao redor, fazem mutualismo, são companheiras. Temos muito a aprender com elas”, considera.
La quatrième mémoire (2025), de Gregory Chatonsky.
Chronique du soleil noir (2023), de Gwenola Wagon.
La quatrième mémoire (2025), de Gregory Chatonsky.
À esquerda: Ars Autopoetica (2023), de Sasha Stiles. Acima: Man in Arab Costume (2020), de Nouf Aljowaysir.
xhairymutantx (2024-2025), de Holly Herndon & Mat Dryhurst.
a pena vermelha
e a pintura ritualística da iniciação.
A Iaô, da série Yabás, é apresentada com
(Ekodidé)
À esquerda: Beleza corrosiva (2025), de Giselle Beiguelman. Acima: estampa What Do You See (2019), do projeto de arte coletivo YOLO9000.
para ver no sesc / gráfica
CRIADO POR IA
Em cartaz no Sesc Campinas até abril, mostra O mundo através da IA debate impactos da inteligência artificial, com obras que refletem sobre tecnologia, sociedade e decolonialidade
Após passar pela França, a exposição O mundo através da IA pode ser conferida pelo público no Sesc Campinas até 26 de abril, reunindo obras de artistas contemporâneos de quinze países da América Latina, Europa, África, Oriente Médio e Oceania. A mostra levanta questões sobre o uso da inteligência artificial na vida social, na formação humana, na produção artística e no meio ambiente.
Com curadoria do estadunidense Antonio Somaini, professor de cinema, mídia e cultura visual na Universidade Sorbonne Nouvelle (Paris 3), a exposição integra a programação da Temporada França-Brasil 2025 e convida o público a mergulhar nas tensões,
potências e desafios da IA no mundo contemporâneo. Entre as técnicas utilizadas nas obras, estão instalações multimídia e mistas, vídeos, projeções, impressões em papel, acrílico, digital e 3D.
Um dos destaques brasileiros – que atualiza a exposição apresentada na França – é a artista visual e diretora criativa Mayara Ferrão. Com a obra Álbum de desesquecimentos (2024 – em curso), ela propõe a reimaginação de cenários possíveis e a reconstrução simbólica do passado a partir de lacunas deixadas pelos arquivos coloniais do país, com a ausência de registros visuais sobre experiências afetivas e íntimas de mulheres negras e originárias.
“Faço um uso crítico de tecnologias contemporâneas para reimaginar histórias que foram apagadas ou silenciadas. Criar imagens de mulheres negras vivendo afeto, delicadeza, vínculos amorosos, erotismo e reciprocidade foi uma maneira de me lembrar que existimos para além da dor, da luta e da resistência exaustiva. Ao escrever comandos, reorganizei o modo como eu mesma via meu corpo e minha história. A IA se tornou um espaço de fabulação onde pude experimentar narrativas que me foram negadas”, pontua.
A artista sabe que os sistemas e algoritmos não são neutros e
que reproduzem preconceitos e exclusões históricas, como o racismo e o sexismo. “Meu trabalho com a IA nasce desse conflito: entre repulsa e fascínio, entre medo e desejo, entre sobrevivência e imaginação. Álbum de desesquecimentos é uma forma de me manter viva enquanto artista e mulher negra. E a obra se expande para uma dimensão mais ampla, quase transatlântica, dialogando com histórias que atravessam o Brasil, as Américas e a diáspora africana. Faço a IA imaginar o que ela não foi treinada para ver e, nesse gesto, reivindico não só presença, mas também autoria. Questiono quem tem direito à memória, quem pode produzir tecnologia e quem será lembrado. Pois, antes de imaginar futuros, precisamos reivindicar passados”, finaliza.
CAMPINAS
O Mundo Através da IA Curadoria de Antonio Somaini. Até 26 de abril de 2026. Terça a sexta, das 9h30 às 21h30. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h. GRÁTIS. Saiba mais em sescsp.org.br/campinas
Obra da série Álbum dos Desesquecimentos (2024), de Mayara Ferrão, criada com IA.
LANÇAMENTO
Show comemorativo de 25 anos da banda paulistana, referência da música instrumental e alternativa brasileira.
Visite a loja virtual e conheça o catálogo completo sescsp.org.br/loja
/selosesc
Disponível em
não posso, TENHO ENSAIO
Histórias de pessoas que se desdobram para ensinar, aprender e se aprimorar a fim de participar de blocos e escolas de samba durante o Carnaval
POR ADRIANA TERRA
Éum domingo à tarde diferente. O ensaio da escola de samba Vai-Vai é no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, um evento especial na véspera de Natal em um dia ensolarado e quente. A pedagoga e professora de educação infantil Martina Damasio chega acompanhada da mãe, a assistente social e trancista Rosana Aparecida Damasio. Ali, a filha é ritmista e a mãe integra a ala das baianas. O envolvimento maior com a agremiação do coração ocorreu em 2006, quando o tio de Martina, Pingo, passou a ser o primeiro mestre-sala da escola do Bixiga. Ao assistir a um ensaio técnico no Anhembi, Martina, então com onze anos de idade, percebeu que seria difícil não estar perto de tudo aquilo. “Eu fiquei encantada”, conta.
Rosana se tornou baiana. Martina, que queria ser passista e desfilou na ala das crianças, acabou se apaixonando também pelo ritmo: aprendeu um pouco de tamborim, chocalho e agogô, instrumento com o qual desfila desde 2016 na Bateria Pegada de Macaco da VaiVai (antes, saiu em 2015 tocando o instrumento na Estrela do Terceiro Milênio, escola do Grajaú, zona Sul paulistana). Neste ano, ela também desfilará na ala de chocalho da Pérola Negra. Ao longo dos últimos anos, a fim de evoluir, fez diversas escolinhas – oficinas para quem quer aprender ritmo dentro das agremiações. “Eu gosto quando tem uma apresentação mostrando o instrumento e falando sobre o que ele significa na bateria. É muito importante o ritmista
saber o que está tocando e por que ele está tocando”, acredita.
Para cumprir a intensa agenda nos meses que antecedem a folia, Martina costuma ser bastante organizada com horários. “Busco fazer as minhas coisas de trabalho na segunda, na terça e na quarta. Se eu tenho relatório, plano de aula, por exemplo, eu faço nesses dias, porque na quinta já é dia de ensaio”, explica. Equilibrar as tarefas para estar preparado para o Carnaval e dar conta da rotina de trabalho também é um desafio que Raphael Amaral conhece bem. No mês de janeiro, ele tem ensaio quase todos os dias da semana, com apenas um dia livre. Professor de geografia no ensino fundamental, Amaral é ritmista nas escolas de samba
Barbara Murakawa
Entre os saberes, as histórias e os afetos, pessoas se preparam há meses para fazer a festa do Carnaval. Na foto, detalhe de participante na Bateria Bela Brisa, em São Paulo.
Vai-Vai e Torcida Jovem, comanda a Bateria Bela Brisa, que acompanha os blocos Cordão do Jamelão e Baianidades, e toca no bloco Calor da Rua, todos na capital paulista.
A rotina mais puxada na folia é de uma década para cá, mas a vivência no Carnaval é antiga e vem de família, na cidade de Santos (SP). Seu tio era da ala de compositores da X-9 Pioneira e seu pai o levava para um bloco quando pequeno. “O pessoal colocava o som e a galera ia seguindo a carreta. Chamava Banda da Marechal”, lembra. Depois, a família passou a desfilar na Última Hora, outra escola de samba da cidade. Ele ficava de olho na bateria, mas a relação com os instrumentos se deu via fanfarra escolar, na qual tocou bumbo e lira por anos. Na faculdade, com as baterias universitárias, aproximou-se da caixa e aprendeu também o agogô. Ao se mudar para a capital paulista, procurou se manter perto dessa paixão.
Para compensar os dias em que não consegue participar de ensaios, Amaral tem alguns métodos, como
treinar em casa durante alguns minutos diariamente, solfejar o samba (fazer uma leitura cantada do ritmo), emular os “desenhos” da bateria na mão e assistir a vídeos. Ouvir o samba-enredo sem parar no fone de ouvido nesse período, claro, é regra.
FAMILIAR E INTERGERACIONAL
Não é raro que a relação com o Carnaval se dê por influência familiar. Em especial, quando se trata de escolas de samba, o convívio entre gerações é fundamental, garantindo a manutenção dessa cultura a partir de um aprendizado contínuo. “São espaços onde as pessoas têm trocas com diferentes faixas etárias, tem a ala das crianças, a parte dos jovens e adultos, a velha guarda. Você tem a diversidade etária e outros tipos de diversidade, então é um espaço onde se aprende vivenciando. O samba não foi ensinado em escola de música, ele nasce da comunidade e é transmitido de uma geração a outra: as crianças aprendendo não apenas o instrumento, o passo de dança, mas os fundamentos,
os rituais, o que significa beijar o pavilhão, por que você reverencia os mais velhos... Tanto que eu nem gosto de falar ‘o samba’, eu falo ‘a cultura do samba’”, diz Juliana Barbosa, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e jurada do prêmio Estandarte de Ouro, que celebra os destaques do Carnaval das agremiações do Rio de Janeiro.
Além de pesquisar samba e Carnaval há duas décadas, Juliana vive esse universo desde criança. E, no caso dela, a referência familiar também foi importante. “Meus pais eram de blocos carnavalescos no Rio de Janeiro, mudaram-se para o Paraná e aqui buscaram encontrar um pouco do Carnaval”, conta. O pai de Juliana, no caso, era do Bafo da Onça, e a mãe, do Cacique de Ramos. “Só a maior rivalidade do Carnaval carioca”, diverte-se. Ao se mudarem para Londrina (PR), foram desfilar em uma escola de samba e sua mãe, convidada a ser baiana. No entanto, a roupa que chegou na véspera era pequena. A matriarca não titubeou: pegou o vestido de noiva, passou a tesoura e fez a saia de baiana servir lindamente.
No Centro Cultural São Paulo (CCSP), pessoas de diferentes profissões participam de oficinas gratuitas da Bateria Bem Bolada.
Nilton Fukuda
“Se tem paixão maior que essa, você pegar um vestido que está guardado há mais de trinta anos, que tem toda uma simbologia, para fazer a fantasia caber para desfilar um dia, eu não sei o que é paixão. Então é uma coisa que eu vi dentro de casa, uma casa em que a gente sempre atravessou madrugadas assistindo aos desfiles na TV, e que também virava ateliê, que ao terminar o Carnaval tinha purpurina e lantejoula para todo lado”.
É justamente a paixão que ela percebe ser um ingrediente determinante na dedicação para a festa, que vai muito além dos quatro dias institucionais de folia. Quando se trata de agremiações, ela destaca os encontros (feijoadas, reuniões) que ocorrem durante todo o ano, e mesmo os ensaios que começam muitos meses antes de fevereiro, apesar de se intensificarem no verão. Já no caso dos blocos, universo do qual participa também como foliã, ela percebe como o pré-Carnaval tem se tornado mais longo com o crescimento da folia de rua em diversas cidades pelo país. Além disso, o surgimento de novos grupos e o interesse por eles têm estimulado aulas de percussão e outros saberes ao longo de todo o ano.
Ela cita como exemplo Curitiba (PR), onde mora, uma cidade que não tem tanta tradição carnavalesca quanto outras capitais, mas onde ocorrem hoje quase oitenta saídas de blocos no pré-Carnaval. Além de oficinas de instrumento, Juliana diz que o grupo mais notório da cidade, o bloco Garibaldis e Sacis, promove oficinas diversas, incluindo de maquiagem, que será dada neste ano pelo artista
Nello Romanov, autor de penachos que ela sempre compra antes de ir ao Rio para a Sapucaí. “Então é uma movimentação criativa, cultural, econômica e de formação mesmo, porque a gente acaba aprendendo um monte de coisa”, destaca a pesquisadora.
BLOCO NA RUA
Nem a chuva do fim de tarde de uma terça-feira de dezembro desanima a turma que se encontra em uma área aberta do Centro Cultural São Paulo (CCSP), na capital. Ali, pessoas de diferentes profissões e idades participam de oficinas gratuitas da Bateria Bem Bolada. Quem ensina o grupo são músicos com uma longa trajetória no Carnaval. No caso de Diógenes dos Santos, ou Dida Batucada, sua avó era baiana da escola de samba santista União Imperial, na qual os primos e primas tocavam na bateria. “A minha prima Ana Paula, que é a mais velha, foi quem ensinou todos a tocarem: caixa, cuíca, repinique, agogô, e o forte dela era a frigideira. O surdo de terceira eu também aprendi com ela. Então minha relação com o samba vem através da minha família, do candomblé e da minha relação com o bairro do Bixiga também”, revela ele, que começou sua trajetória musical aos 13 anos na escola de samba Vai-Vai, na qual tocou surdo por décadas, e ao longo de sua carreira como percussionista já participou de gravações de diversos artistas, incluindo Mateus Aleluia.
A bateria é um dos projetos do qual Dida faz parte no campo da educação musical. Para ele, a questão da inclusão, especialmente
de gênero, é um ponto fundamental nesse tipo de oficina. “É o que vai fazer a cultura se perpetuar por mais anos e também trazer uma nova linguagem, para que seja um ambiente mais flexível para todos os gêneros”, acredita. O músico recorda que seu primeiro instrumento foi a cuíca, e que o repinique ele busca se aprimorar hoje com seu amigo Pupa, com quem divide o comando das oficinas da Bem Bolada. Pupa também tem uma caminhada extensa no Carnaval e no samba. “Eu sou do candomblé e a gente sempre teve música em casa, meus pais, meus tios. A minha tia, que é a minha mãe de santo, vem do Lavapés, a primeira escola de samba de São Paulo. Eu desfilei lá, depois eu fui para o Vai-Vai, já tive grupo de pagode… Aprendi vendo, ouvindo, e as coisas que eu aprendi tocando como ogã, cambondo [cargo nas religiões de matriz africana em que se fica responsável por tocar o atabaque], eu levei para os instrumentos”, conta ele, exemplificando o que foi falado pela pesquisadora Juliana Barbosa sobre os ensinamentos do samba.
Pupa começou tocando atabaque, repique de mão e repinique, instrumento com o qual tem mais afinidade hoje. “O ‘ensinar’ é muito de um dom, porque não são todos que tocam que têm uma didática boa para compartilhar, mas para mim é bom, importante e prazeroso, porque ensinando a gente está aprendendo também”, diz ele. Nas oficinas da Bem Bolada, os grupos são divididos de acordo com os instrumentos e a experiência das pessoas com o ritmo – se são mais iniciantes ou já sabem tocar um pouco, por exemplo. Ao fim, todos ensaiam juntos.
Completa o trio de professores-mestres da Bem Bolada André Andrade, “mais conhecido como André do Tamborim”, conta. Viciado em samba-enredo desde a infância
época em que, ao lado dos irmãos, aguardava ansioso o Natal para ouvir o CD das escolas —, ele teve a oportunidade de desfilar aos 14 anos em uma ala da Vai-Vai. No entanto, ao ver a bateria, quis estar lá. Aprendeu tamborim, instrumento que há três décadas o acompanha. “Para mim, é legal fazer esse lance das escolinhas porque eu não tive essa oportunidade, tive que aprender na marra, então é gostoso deixar esse legado”, conta.
Foi justamente nas escolinhas e outras formações que Mariana
Harumi Cruz Tsukamoto, que se define como gateira, corintiana, aprendiz de batuqueira e professora, aprendeu e vem se aprimorando nos instrumentos que toca hoje em diversos blocos carnavalescos. Foliã desde criança, quando vivia no interior paulista e ia a bloquinhos e salões com a família e amigos, ela se animou com a efervescência do Carnaval de rua em São Paulo, que já frequentava enquanto público. Desde 2015, a festa vem registrando um crescimento exponencial e, em 2025, a Prefeitura calculou 601 blocos (número oficial). Em outras capitais, como Belo Horizonte e Rio de Janeiro, o cenário é parecido. Mas para Mariana o estímulo não foi só esse: em 2019, ela fazia
Pedagoga e professora de educação infantil Martina Damasio com a mãe, Rosana, em ensaio da escola de samba Vai-Vai em São Paulo.
40 anos, estava recalculando rotas e pensando nas coisas que gostaria de fazer, e ainda vivia o luto por seu pai. O momento reflexivo a levou a se envolver com algo que a encantava: o ritmo.
De lá para cá, foram muitas aulas. Começou aprendendo agogô, instrumento que tocou por um ano no bloco Pagu, em 2020. Veio a pandemia de covid-19: seguiu online em oficinas, desenvolvendo interesse pelo pandeiro. “Fui procurar professores do instrumento e fiquei muito nele, nesse período de aulas virtuais”, conta. Participou também de uma oficina de confecção de xequerê, o que a empurrou a aprender a tocá-lo. “Esse processo de construir o instrumento te leva para uma outra conexão”, diz. Depois, foi aprender alfaia na escolinha do bloco Batuntã, ainda virtualmente.
Hoje, Mariana organiza a rotina de professora universitária na Universidade de São Paulo (USP) com os muitos ensaios dos blocos em que toca. No Abacaxi de Irará e no Cordão de Micaela, toca xequerê (ou agbê), instrumento com o qual acredita ter mais autonomia, herança de formações como as que teve com a mestra Gio Paglia, do movimento Agbelas e diretora do instrumento na Portela, escola de samba do Rio. No Batuntã, toca alfaia. Já na Fanfarra Camaleoa transita entre o xequerê e o tambor de mão, que toca no Saia de Chita. Apesar de adorar tocar, ela não abre mão de fazer uma programação de Carnaval para ver outros blocos e curtir. Gosta, genuinamente, de estar na rua: “Sou foliã, acima de tudo”, define-se.
para ver no sesc / carnaval
Programação diversificada atrai foliões com diferentes perfis em unidades do Sesc São Paulo. Na zona Leste, dia 16/2, às 15h, o Sesc Itaquera recebe o Arrastão do Frevo, cortejo do Núcleo Fervo.
PARA CAIR NA FOLIA
Em fevereiro, unidades do Sesc São Paulo reúnem programações para públicos com diferentes gostos e idades brincarem o Carnaval
A programação carnavalesca agita as unidades do Sesc São Paulo neste mês, em atividades de múltiplas linguagens e para todas as idades. São shows, apresentações artísticas, oficinas de artes visuais e filmes para pessoas com diferentes preferências, a maioria gratuitos, com opções presencial e online.
Na região central da capital paulista, o Sesc 24 de Maio recebe o Afoxé Omodé Obá, que apresenta um cortejo ao som do ijexá e celebra memórias ancestrais negras e as tradições dos afoxés nas ruas da cidade. A atividade será no dia 7/2, às 17h. Na zona Norte,
o Bloco Ritaleena apresenta no Sesc Casa Verde o show Fruto Proibido, que mistura samba-reggae, ijexá e frevo em versões carnavalescas dos clássicos de Rita Lee. Dia 14/2, às 16h.
Na zona Leste, dia 16/2, às 15h, o Sesc Itaquera recebe o Arrastão do Frevo, cortejo do Núcleo Fervo, orquestra de sopros e percussão, dançarinos, cabeções e bonecos gigantes que celebram o carnaval de rua pernambucano, do interior de São Paulo e de outras manifestações populares brasileiras.
Confira outros destaques da programação.
SESCTV
Meu Mundo é Hoje: Homenagem a Wilson Baptista
Show em celebração ao cantor e compositor carioca, gravado no Sesc Vila Mariana, com Claudia Ventura, Elza Soares (1930-2022), Trio Samba de Fato, dentre outros nomes. Dia 4/2. Quarta, 22h
SANTO AMARO
Fanfarra Careta
Cortejo musical resgata marchinhas e brincadeiras populares em uma grande festa coletiva. Dias 14 e 16/2. Sábado e segunda, 14h. GRÁTIS.
PINHEIROS
Orquestra Modesta
Show Carnaval para pequenos foliões, inspirado nos tradicionais bailinhos para famílias. Dias 15 e 17/2. Domingo e terça, 13h30. GRÁTIS.
Nilton Fukuda
MULHERES NA SOCIEDADE
Oque significa ser mulher no Brasil hoje? Uma em cada quatro mulheres afirma que há mais aspectos negativos do que positivos, revela a 3ª edição da pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado, realizada pela Fundação Perseu Abramo, em parceria com o Sesc São Paulo, lançada em 2025. Um quadro que mostra a profunda necessidade de mudanças sociais estruturais para atender aos desafios impostos a 51,5% da população brasileira – 104,5 milhões de mulheres, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
De abrangência nacional, a pesquisa acompanha recuos e avanços sociais em relação ao enfrentamento às desigualdades de gênero nas últimas três décadas, investigando questões como violência, saúde, trabalho e cuidados. Entre os principais desafios citados pelas entrevistadas, estão as desigualdades no mercado de trabalho e a violência contra a mulher – no ano passado, o número de casos de feminicídios ultrapassou a taxa de anos anteriores, em diferentes estados do país.
“Apesar da promulgação da Lei Maria da Penha (nº 11.340/2006) e de outros marcos legais, como a Lei do Feminicídio (nº 13.104/2015), o reconhecimento do direito das mulheres a permanecerem vi-
vas segue condicionado ao investimento contínuo em políticas públicas de educação para a equidade de gênero, de proteção e de enfrentamento das múltiplas formas de violência de gênero”, avalia a antropóloga Jacqueline Moraes Teixeira, professora doutora no Departamento de Saúde e Sociedade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).
Também se perpetua por gerações a atribuição da mulher como principal responsável pelas tarefas domésticas e pelos cuidados de filhos e idosos. “São necessárias políticas públicas que ampliem a oferta de serviços de qualidade capazes de garantir o direito ao cuidado a todas as pessoas que dele necessitem e, ao mesmo tempo, liberem o tempo das mulheres para que elas possam exercer os seus direitos em outros âmbitos da vida, como a educação e a formação profissional, a participação no mercado de trabalho e na vida pública em igualdade de condições com os homens”, defende a socióloga Laís Abramo, Secretária Nacional de Cuidados e Família do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.
Neste Em Pauta, Laís e Jacqueline apresentam dados e propostas para que as mulheres tenham sua existência valorizada e respeitada, assim como seus direitos, de fato, reconhecidos.
Mulheres e o trabalho de cuidado
POR LAÍS ABRAMO
A Lei nº 15.069, sancionada em dezembro de 2024, reconheceu de forma inédita no Brasil o direito ao cuidado (entendido como o direito a receber cuidado, a cuidar e ao autocuidado) e instituiu a Política Nacional de Cuidados. Mas do que estamos tratando quando falamos de cuidados? E o que isso tem a ver com a vida das mulheres?
De acordo com essa lei, cuidado é um trabalho, uma necessidade e um direito de todas as pessoas. Trata-se do trabalho cotidiano de produção de bens e serviços necessários à reprodução e à sustentação da vida e à garantia do bem-estar das pessoas. Inclui tarefas como: a preparação de alimentos, a manutenção da limpeza, a organização e gestão dos domicílios, e o apoio a atividades diárias como dar banho em um bebê, ajudar uma pessoa idosa ou com deficiência que necessita do apoio de outras pessoas para se alimentar, se higienizar, se locomover pela casa ou ir a uma consulta médica.
É um trabalho sem o qual nenhum outro trabalho é possível, além de um bem público essencial para a reprodução da força de trabalho, do funcionamento da sociedade e da economia. Ao longo da história, esse trabalho de cuidados tem sido realizado principalmente pelas mulheres no interior de suas famílias, consumindo muitas horas diárias e, em geral, sem o reconhecimento como um trabalho.
Isso cria muitas dificuldades para que as mulheres possam estudar, se qualificar, trabalhar fora, construir carreiras profissionais, participar da vida pública. Principalmente, as mulheres mais pobres, as negras, as mães solo, as que vivem nas zonas rurais ou nas periferias urbanas. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) de 2024, para 32,6% das mulhe-
res de 16 anos e mais que não estavam ocupadas, a principal razão para não procurar um emprego ou não estar disponível para trabalhar era a necessidade de cuidar da casa, dos filhos e filhas e de outros parentes. Essa cifra era maior para as mulheres negras (37,6%), em comparação com as brancas (29,3%), e chegava a 85,3% entre as mulheres que tinham filhos de zero a três anos – metade das quais eram adolescentes e jovens de 15 a 29 anos.
Essa é apenas uma das tantas evidências de que a organização social dos cuidados no Brasil (ou seja, a forma pela qual o trabalho de cuidados é realizado e por quem, e como as pessoas e as famílias recebem cuidados) é injusta e desigual. Isso porque está baseada no trabalho não remunerado das mulheres no interior das famílias. Ou no trabalho mal remunerado e precarizado das mulheres, quando é realizado profissionalmente, em uma das diversas categorias profissionais do trabalho de cuidados, como é o caso das trabalhadoras domésticas. Esse é um forte elemento de reprodução da pobreza e das desigualdades de gênero e raça.
A 3ª edição da pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Públicos e Privados, realizada em parceria entre a Fundação Perseu Abramo e o Sesc, traz novas e importantes evidências sobre o tema. Apresenta dados consistentes que não deixam dúvidas a respeito da sobrecarga das mulheres em relação ao trabalho doméstico e ao cuidado com os filhos, muitas vezes, sem qualquer apoio financeiro dos pais das crianças, e as consequências que isso acarreta.
Entre as mulheres entrevistadas, 93% são responsáveis pelos afazeres domésticos, 66% cuidam das crianças, quando elas não estão na creche ou na escola (em outros 23% dos casos, quem cuida das crianças é a mãe ou a sogra, ou seja, em 89% dos casos, as crianças são cuidadas pelas mulheres da família) e quase metade delas cria os filhos sozinha, sendo que 47% não recebe pensão ou qualquer tipo de auxílio financeiro dos pais das crianças. Apenas 38% recebem pensão regularmente dos pais das crianças. Vale notar que o número de mulheres com filhos menores de idade que vivem apenas com elas triplicou entre 2010 e 2023, passando de 16% a 43% nesse período.
É necessário promover a corresponsabilidade entre homens e mulheres e entre as famílias, a comunidade, o Estado e o setor privado pela provisão de cuidados
outras pessoas (mãe, pai, irmã/o), ou o fato de a própria mãe trabalhar (12%); o marido prefere que elas fiquem em casa cuidando (6%). Vale notar que, em 2001, quando foi feita a primeira edição da pesquisa, essa porcentagem era muito maior: 72%.
As mulheres começam a cuidar desde muito cedo (muitas vezes quando são crianças e adolescentes) e continuam a fazê-lo até idades avançadas, quando frequentemente já precisam de cuidados. A pesquisa mostra que cerca de 30% das pessoas que cuidam das crianças, quando não estão na escola, têm 60 anos ou mais, ou seja, são pessoas idosas. Além de injusta e desigual, a organização social dos cuidados é insustentável. A sociedade brasileira está envelhecendo rapidamente e o tamanho das famílias está diminuindo. Portanto, o modelo tradicional de cuidados – baseado, fundamentalmente, nas famílias, e dentro delas, nas mulheres – será cada vez mais incapaz de dar conta de uma crescente necessidade de cuidados.
A pesquisa também evidencia a preocupação das mulheres com o fato de os horários das creches e das escolas e as jornadas de trabalho remunerado não serem compatíveis, trazendo muitas dificuldades para equilibrar as necessidades de cuidar das crianças e o exercício do trabalho remunerado. Tudo isso tem um efeito muito negativo na saúde física e mental das mulheres, na possibilidade de realizarem seus projetos em outros âmbitos da vida, como estudar e trabalhar remuneradamente. E são barreiras fortíssimas para atingir o objetivo da igualdade de gênero e de raça no mundo do trabalho e na sociedade.
Quando indagadas sobre as razões para terem parado de trabalhar, quase a metade (48%) das entrevistadas fez referência a questões associadas ao trabalho de cuidados: filhos ou gravidez (30%); necessidade de realizar trabalho doméstico, cuidar de
A sobrecarga de trabalho de cuidados, para as mulheres, parece ser ainda maior no caso dos cuidados com a pessoa idosa. Além da dificuldade para trabalhar fora, as entrevistadas relatam como consequência problemas como: falta de liberdade; muita responsabilidade; problemas de saúde/saúde mental; custo financeiro; impossibilidade de cuidar de si própria.
Justamente por isso é necessário transformar essa realidade. São necessárias políticas públicas que ampliem a oferta de serviços de qualidade capazes de garantir o direito ao cuidado a todas as pessoas que dele necessitem e, ao mesmo tempo, liberem o tempo das mulheres para que elas possam exercer os seus direitos em outros âmbitos da vida, como a educação e a formação profissional, a participação no mercado de trabalho e na vida pública em igualdade de condições com os homens. É necessário promover a corresponsabilidade entre homens e mulheres e entre as famílias, a comunidade, o Estado e o setor privado pela provisão de cuidados. Esses são os objetivos centrais da Política Nacional de Cuidados.
Laís Abramo é socióloga, mestre e doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), Secretária Nacional de Cuidados e Família do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome desde 2023. Foi diretora da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), entre 2015 e 2019, e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil, entre 2005 e 2015. É professora na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e na Escola de Sociologia e Política.
Mulheres: direito à vida
POR JACQUELINE MORAES TEIXEIRA
Você já pensou que, para as mulheres, o direito à vida tem relação direta com o orçamento público? No final do ano de 2025, fomos bombardeadas por dados que revelam o crescimento da violência contra as mulheres em âmbito nacional. Nesse cenário, trajetórias brutalmente interrompidas se cruzam quase como em um jogo de similitudes: a violência emerge, de forma recorrente, do espaço doméstico e do desfecho de relacionamentos afetivos.
A Constituição Federal de 1988 representou um marco ao afirmar a igualdade formal entre homens e mulheres, criando bases normativas para a ampliação da equidade de gênero no país. Contudo, foi a partir da pressão dos movimentos feministas e da incorporação da perspectiva de gênero que o Estado brasileiro passou a reconhecer formas específicas de violação de direitos. A Lei Maria da Penha (nº 11.340/2006) exemplifica esse processo ao enquadrar a violência doméstica como um problema público e como violação de direitos humanos, rompendo com a concepção de que se trataria de uma questão restrita ao âmbito privado.
Apesar da promulgação da Lei Maria da Penha e de outros marcos legais, como a Lei do Feminicídio (nº 13.104/2015), o reconhecimento do direito das mulheres a permanecerem vivas segue condicionado ao investimento contínuo em políticas públicas de educação para a equidade de gênero, de proteção e de enfrentamento das múltiplas formas de violência de gênero. Nesse sentido, torna-se imprescindível discutir a construção de uma agenda de financiamento público voltada à criação e à promoção de políticas que sustentem a igualdade de gênero.
A compreensão do orçamento público como arena política permite evidenciar seu potencial tanto para o enfrentamento quanto para a reprodução
de desigualdades estruturais. As decisões relativas à alocação de recursos não são neutras, sobretudo em contextos marcados por assimetrias históricas de classe, raça e gênero. Assim, o orçamento opera como um mecanismo central de mediação entre o Estado e a sociedade, capaz de materializar – ou limitar – o reconhecimento de direitos.
Esse processo de vinculação entre gestão orçamentária e uma agenda de direitos emerge de um repertório construído a partir de reuniões, conferências e campanhas promovidas pela Organização das Nações Unidas (ONU), desde a década de 1970. Tais iniciativas buscaram produzir uma linguagem capaz de fomentar e gerir direitos voltados a diferentes grupos sociais, com destaque para o enfrentamento da fome e da mortalidade infantil, no campo dos direitos de crianças e adolescentes; a equidade de gênero e a proteção das mulheres, impulsionando o debate sobre direitos sexuais e reprodutivos; e a equidade racial, fomentada pela necessidade de criminalizar o racismo e promover políticas de reparação.
No contexto brasileiro, a inserção de um debate mais qualificado acerca da relação entre orçamento público e políticas de equidade de gênero está diretamente associada à indexação de gastos previstos nos Planos Plurianuais (PPAs). Trata-se de um dispositivo legislativo que estabelece critérios, indicadores e pisos para os gastos públicos na esfera federal. Desde o início do século 21, os PPAs têm se consolidado como um espaço de disputa política em torno da representatividade de políticas públicas voltadas a grupos historicamente marginalizados no reconhecimento de direitos civis, fortalecendo não apenas o repasse de recursos, mas também os mecanismos de fiscalização e transparência da execução orçamentária.
Não é possível pensar as iniciativas de gênero previstas nos PPAs sem mencionar a implementação do Orçamento Mulher pelo Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA), no início dos anos 2000. Essa experiência constituiu um marco relevante na institucionalização da perspectiva de gênero nas políticas públicas, especialmente nos pro-
Torna-se imprescindível discutir a construção de uma agenda de financiamento
público voltada à criação e à promoção de políticas que sustentem a igualdade de gênero
cessos de planejamento e execução orçamentária, sobretudo por meio do aprimoramento de mecanismos de monitoramento e acompanhamento.
A produção sistemática de relatórios anuais pelo CFEMEA desempenhou papel central nesse processo, ao evidenciar tanto os retrocessos na efetivação de políticas voltadas às mulheres quanto as disparidades entre o planejamento orçamentário e sua execução. Esses diagnósticos contribuíram para ampliar o debate no âmbito do Congresso Nacional, fomentando a deliberação crítica sobre a responsabilidade do Estado na promoção da igualdade de gênero.
No cenário internacional, a difusão dos Orçamentos Sensíveis ao Gênero (OSG) representa uma resposta institucional ao reconhecimento de que os processos orçamentários tradicionais tendem a ser “cegos” às desigualdades de gênero e, consequentemente, a reproduzir ou aprofundar disparidades socioeconômicas entre mulheres e homens. No Brasil, apenas em 2023, gênero e raça passaram a ser indexados como eixos transversais em planos e orçamentos públicos no âmbito do governo federal e de alguns estados.
No plano subnacional, experiências de políticas orçamentárias sensíveis a gênero e raça foram implementadas no Ceará, no Rio de Janeiro e no Acre, ainda que com metodologias distintas daquelas adotadas pela União. Entretanto, avaliações baseadas exclusivamente na distribuição demográfica dos recursos são insuficientes para aferir as discriminações que afetam mulheres e pessoas negras no
acesso e na execução das políticas públicas, tornando fundamental articular medidas distributivas a uma compreensão das dinâmicas culturais que estruturam as desigualdades.
A construção de uma agenda orçamentária sensível a gênero e raça depende, de maneira decisiva, da conjuntura política. No caso brasileiro, a transversalidade no orçamento público foi descontinuada em 2016 e retomada apenas em 2023, evidenciando sua vulnerabilidade às mudanças de orientação governamental. Pensar a produção de orçamentos sensíveis à promoção da equidade de gênero implica disputar a priorização de investimentos em políticas de enfrentamento da violência doméstica e do feminicídio. Lidar com essa epidemia exige, portanto, uma disputa que extrapola a organização misógina da política institucional, orientando-se para a construção e a sustentação de repertórios de investimento em proteção, cuidado e humanização das mulheres.
Jacqueline Moraes Teixeira é antropóloga, professora doutora no Departamento de Saúde e Sociedade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). É pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), nas áreas de gênero, raça, sexualidade e religião; tesoureira adjunta da Associação Brasileira de Antropologia e membro do comitê editorial da Cadernos Pagu, além de orientadora plena no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de Brasília (UnB).
Nas ondas DA ARTE
Apresentadora
de rádio e televisão, Roberta Martinelli amplia os horizontes da cultura e diz sim aos desafios
POR MARINA PEREIRA
FOTOS NILTON FUKUDA
De dentro do estúdio da Rádio Eldorado, em São Paulo, Roberta Martinelli esboça um sorriso largo ao recordar sobre o início da sua trajetória profissional no universo da música. Após desistir do curso de Direito no penúltimo ano, e encantada com as artes cênicas, resolveu entrar para a escola de teatro Célia Helena. Não tardou, começou a cursar Rádio e TV na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Como ela diz, se tem tempo para fazer, ela topa qualquer projeto. O entusiasmo, evidente na sua carreira, também se reflete no percurso que a levou aos vários caminhos que trilhou, seja na rádio, na televisão ou na literatura.
Atua como apresentadora do programa Cultura Livre, exibido na TV Cultura desde 2011, projeto criado, segundo ela, quando estagiava na Rádio Cultura AM, em 2009. Roberta ainda conduz
o Som a Pino e o Clube do Livro, ambos na Rádio Eldorado FM. Apresenta, junto ao maestro Júlio Medaglia, o Prelúdio, concurso de música clássica da TV Cultura, que dá visibilidade a jovens instrumentistas.
Neste Encontros, a comunicadora reflete sobre o papel da curadoria e crítica musicais, a mediação em diversas plataformas, o universo da literatura no rádio, além de outros assuntos relacionados à pluralidade que a sua profissão proporciona.
GAROTA DE IPANEMA
Cursei Direito durante quatro anos e, nessa fase, trabalhei em um tribunal de pequenas causas por mais de um ano. Havia um chefe que me falava para eu ser cantora. “Você tem uma voz tão bonita, vai ser cantora, você é tão
ruim aqui”, ele dizia. Nesse período, uma diretora de teatro que estava se formando na Universidade de São Paulo (USP) me chamou para fazer um musical sobre o Vinicius de Moraes (1913-1980), buscava alguém para interpretar a Garota de Ipanema. Mas eu era muito tímida, então, fui fazer o teste de voz e cantei mal. Mesmo assim, passei. Quando decidi fazer essa peça, desisti do Direito e entrei no Teatro Escola Célia Helena. Após me formar, fui trabalhar como assistente de direção do Nelson Baskerville, posição que ocupei durante algum tempo.
MÚSICA PELO CAMINHO
Nunca considerei o universo da música como uma possibilidade profissional. No repertório das profissões que eu poderia seguir, não pensava em trabalhar com rádio, escolher a música. Eu fui trabalhando conforme as oportunidades apareceram e, de repente, eu estava no mundo da música. Inclusive, eu lembro quando, no início da carreira, me uni ao jornalista Ronaldo Evangelista, da Folha de S. Paulo, muito conectado à música, e à profissional de rádio Biancamaria Binazzi. Juntos, fizemos alguns drops para a programação da Rádio Cultura, que batizamos de “Música Livre, o som da web na Rádio Cultura”. Na época, buscávamos músicas do My Space [rede social com influência na cultura pop e na música no início dos anos 2000] para fazer esse trabalho, que foi um embrião para o que seria o Cultura Livre, um programa que integraria essa nova geração de artistas.
INÍCIO NA RÁDIO
Quando fazia Rádio e TV na FAAP, surgiu uma oportunidade de estagiar na Rádio Cultura AM. Comecei esse trabalho em janeiro de 2009 e, em setembro do mesmo ano, fiz o piloto do que hoje é o programa Cultura Livre. Na época, já existia uma programação de música brasileira maravilhosa, mas mas só tocava artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gal Costa (19452022), Elza Soares (1930-2022), Maria Bethânia. Nesse período, eu e meus parceitos de criação frequentávamos a casa noturna Grazie a Dio! [na Vila Madalena, em São Paulo], que apresentava shows de nomes como Tulipa Ruiz, Marcelo Jeneci, Lulina, Rômulo Fróes, e eu falava para a equipe: “Esse pessoal ainda não têm disco, mas vai lançar e isso vai ser legal”. Quando eu apresentei o piloto do programa, o diretor [Eduardo] Weber me falou: “Roberta, mas você não vai conseguir chegar no programa 83 só com um material desses”. Hoje, a caminho do ano 17 do programa, brinco com ele que já fiz mais de 6 mil episódios.
PESQUISADORA MUSICAL
Quando comecei a trabalhar com música, entrava em uma van para acompanhar um festival e só havia homens mais velhos. Lembro que ficava falando sobre datas e discos para provar que eu também podia ser da “turminha”. Quando eu entro na van hoje, há muito mais mulheres, mas os homens ainda são maioria. Há quem diga que sou uma “pesquisadora musical”, que é um título engraçado, mas confere uma seriedade, algo que é difícil de conquistar. A partir do meu recorte, eu crio um panorama crítico da música brasileira, mas não me considero uma crítica, porque não escrevo críticas de música e não me considero apta para isso. Há quem faça isso muito bem, embora o espaço da crítica tenha diminuído. Antigamente, se alguém esculachava um disco em um jornal, era uma catástrofe. Hoje, temos tão pouco espaço para falar de um disco que, normalmente quando se fala, fala-se bem. Então, me considero uma comunicadora que, a partir de programas, traça um panorama crítico da música brasileira.
CURADORIA MUSICAL HOJE
Não sou contra os algoritmos, mas não sou uma pessoa que se guia apenas por eles. Eu mando neles ainda. Muita gente conhece novos artistas por sugestão dos algoritmos e isso é muito precioso: quanto mais pessoas e algoritmos ajudarem a música a se espalhar, melhor. Quando eu penso a programação da rádio, por exemplo, eu a enxergo dentro de um contexto, de um caminho, e conto uma história. Nesse ano, fizemos uma pesquisa com os ouvintes na Rádio Eldorado e recebemos muitas mensagens como “Só a Rádio Eldorado para me apresentar uma cantora chamada Ana Frango Elétrico”. Penso que há um lugar que o algoritmo não alcança. Não que ele não chegue na Ana Frango Elétrico, ele chega, mas ninguém vai saber quem é ela se não pesquisar. Existe um contexto, um jeito de chegar nas pessoas. O programa Som a Pino foi pensado considerando isso. Essa é uma função que algoritmo não tem.
EU ME CONSIDERO UMA COMUNICADORA QUE, A PARTIR DE PROGRAMAS, TRAÇA UM PANORAMA CRÍTICO DA MÚSICA BRASILEIRA
CULTURA LIVRE X SOM A PINO
Quando comecei o programa Cultura Livre na rádio AM, ele tinha traços do Som a Pino, que apresento hoje na Rádio Eldorado FM. O Cultura Livre se tornou um programa na TV Cultura, ganhou equipe, roteiristas, mas acho que ele foi perdendo também. A minha batalha hoje na TV Cultura é conseguir retomar esse frescor que o programa já teve. Por melhor e mais correto que ele esteja, não apresenta aquela ousadia inicial, que o Som a Pino tem. No ano passado, quando Jards Macalé (1943-2025) morreu, me lembrei do programa de que ele participou. Era uma sexta- -feira, dia em que eu tinha telefone aberto para os ouvintes. Ele falou: “Vamos atender ao telefone nós dois”. E aconteceu de um tudo, eu nunca me esqueço de que um ouvinte ligou e falou “Jards, eu amo aquela sua música Maracatu Atômico”, e ele respondeu “Eu também amo essa música, mas ela não é minha. É do Jorge Mautner e Nelson Jacobina, mas os dois são fera e tal”. A gente se divertiu tanto, foi tão legal. Então, o Som a Pino tem essa característica de ousadia,
de entrega e de um programa em que “tudo acontece”. Já o Cultura Livre se tornou uma plataforma importante para o registro de música. Mas é bonito porque alguns artistas consagrados continuam participando dele por valorizarem esse lugar de descoberta e do início, algo valioso para os artistas novos. O programa se tornou uma chancela.
GARIMPAR ARTISTAS
É muito importante circular e estar em festivais, até porque eu tenho essa dificuldade financeira de não conseguir trazer os artistas para os programas. É valioso que esses lugares sejam ocupados e que, quanto mais experiências, melhor. Com o passar do tempo na profissão, vamos formando uma rede de contatos também. O disco Maria Esmeralda (2024), produzido pelos artistas Cravinhos, Thalin, VCR Slim, Langelo e Pirlo, por exemplo, foi uma história muito inusitada. Um amigo do meu pai me mandou o disco do filho, que tinha uma banda, e pediu para eu não contar como havia recebido, porque o músico tinha vergonha. Ouvi, adorei o disco
e comecei a mandar em vários grupos. Até hoje, o VCR Slim, que é o filho desse amigo do meu pai, não sabe como eu soube do disco.
LIVROS NO RÁDIO
Eu sou a pessoa que lê o tempo todo. Quando eu comecei a trabalhar com música,sempre brincava aqui na redação: “Um dia eu vou trabalhar com literatura só para ganhar livro, porque vocês ganham livro, e eu só ganho disco”. Em uma ocasição, eu falei isso em voz alta para o Emanuel Bonfim, o diretor artístico, e ele me respondeu: “Você quer fazer? É só fazer. Não existe programa de rádio sobre literatura. Vai ser legal”. Em 2025, estamos encerrando a quinta temporada do Clube do Livro na Rádio Eldorado FM. É um projeto intenso. Eu leio todos os livros previamente e releio para realizar cada entrevista. Estou sempre atenta a alguma obra sobre a qual eu tenho que falar. Recebo pessoas que acabam vivendo histórias curiosas com os livros, como a atriz Mônica Iozzi, que leu uma obra da escritora Elena Ferrante para o programa. Ela nunca havia lido a Ferrante nem participado de um clube do livro, mas foi muito legal, porque a obra escolhida tinha muito a ver com a Mônica. Às vezes, o programa e os livros criam essa magia. Em 2026, teremos novidade, esse clube vai ampliar e virar algo mais inovador, ainda mais intenso.
A radialista e apresentadora Roberta Martinelli esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 11 de dezembro de 2025. A mediação do bate-papo foi de Ligia Moreli, gerente da Gerência de Difusão e Promoção do Sesc São Paulo.
inéditos
FATA MORGANA
POR JOÃO MEIRELLES
ILUSTRAÇÕES PEDRO MENEZES
inéditos
Uma hora da manhã. O banheirão partiria às quatro da tarde. Qual o que! A maré, sempre a maré é o descargo recorrente... A maré atrasou a entrada das carretas. O grão do Marajó, campos devastados, o mato vira carvão. O comandante Corta-Trovão pôs a cara pra fora: “tudo que é porcaria que mexe pra direita! Já!” E, o povaréu, exausto de quatro dias de Carnaval, chuva e leite-de-onça, moveu-se sonambulamente, sob os perjúrios da marujada, comprimindo-se para o bordo indicado. Seu Joãozinho-Cheiroso, vendedor de boi, vinha com a carga rebolando na gaiola. A bostaria da boiada se derretia e se misturava ao barro dos carros. Não havia o que disfarçasse a catinga dos bois, o chorume combinado ao óleo diesel.
Duas da manhã. Assim que saiu na Baía do Marajó, o piloto sentiu o vento frio antes de vê-la: tempestade de março, águas crescidas, água das águas... À noite até notou a friagem que sorrateava. Era vento destrovoado, só sibilando, rasteiro, escorregando-se sobre a água. O trovão, todos temiam, passava por baixo e por cima das redes, nenhum ser vivo se inertava; mas, sem trovão, como seria?
O piloto deu o alerta. Corta-Trovão não disfarçava a preocupação. Quando divisou a nuvem-mãe, embranqueceu e fez um sinal sutil ao piloto: “corta tudo à direita, ligeiro, na manha”, e que não temesse virar a proa em direção ao oceano-mar.
Três da matina. O ferro-velho lutava e não se movia, ondas encapeladas. Corta-Trovão rendeu o piloto, comentava de si pra si: “pororoca doida!”. A sensação é de que a embarcação arredava, mesmo com o motor a força máxima. Até então, todos dormiam. Um radinho de pilha aqui, um berreiro de menino mijão ali... Daí pra frente, a primeira onda-mãe cravejou seu lanço na lateral direita da proa e lavou o convés. Veio tocando aquela fedentina bovina pra parte de trás. Em tempo, jogou a porcariada pra dentro da lanchonete e ascendeu ao primeiro piso, onde a maioria cochilava nas redes. O povo acordou na sopa de lama fétida e água salgada, carregando de um tudo, no escuro. Marianita estrebuchou
no chão. Tabéfe! Barulheira de gente desrumada... “Acode, acode”, imaginando o barco a pique. O ferro-velho rangeu e desrangeu, e se reaprumou. Susto? O povo conhecia as destrambelhices da máquina e seguiu no galeio de rede.
Quatro horas. O piloto avista Belém. As luzes pálidas bruxuleavam qual velas distantes. Todos viram a carreira de ratos se jogando na água, as baratas seguindo. Um cidadão, Titica, sacou o celular e fez a tal foto famosa, flasheada, dos bichos correndo pra água! Foi a única mensagem a chegar a Belém. Depois, silêncio. Pros de Belém que esperavam o primeira-hora e, até divisaram o vulto da balsa, essa foi a última imagem do Comandante Nelson, o nome do banheirão. Pra desgosto da mulher do senador que era dono dos donos de barco, isto era uma desgraceira; afinal, deveriam mostrar as maravilhas do Pará: praias, misses, búfalos, pastagem verde, gado gordo, procissão; mas, ratos! Valha-me-Deus! De outras partes de Belém, também se avistou o barco. Foi o Maninho-do-Amendoim, o Mendoim, quem o reconheceu. E, logo a nuvem cobriu o barco e Mendoim foi cuidar da vida, ensacar os amendoins-de-cada-dia em papelotes cônicos, pintar papelinhos com mensagens alvissareiras. No depoimento à televisão, que tal-qualmente correu o mundo, afirmou, peremptoriamente: “o bólido vinha bubuiando lá pelas tantas sumiu, sim, sinhô!” Tava era contente. “Mina de bom!”
Cinco da matina. A névoa cobria a vista, de lá e de cá. Até novas fotos chegaram, mas vinham sempre borradas, fora de foco. Depois, silêncio. Segundo o boletim da Marinha, não havia embarcação nesta zona.
Seis da madruga. O alerta do desaparecimento soou na Capitania dos Portos. Era oficial. Os primeiros helicópteros partiram em direção à zona que o barcão fora visto e reportaram: “céu de brigadeiro, o rio Pará é moreno”. Em breve, viriam as balsas e navios, as do Arapari, Barcarena, Macapá, Breves e dariam com o barcão à deriva. Nem um sinal.
Sete da matina. Os parentes chegavam, esbaforidos, saídos da noite, carregando travesseiros e toalhas.
Oito da matina. Era o assunto nas ruas. Ordem do Almirante: as embarcações que chegam ou partem de Belém devem deixar seus passageiros e seguir para a grande varredura. Mas, nada do Comandante Nelson... Quem teve a primeira visão foi Tia Dáli. De sua fala de curandagem veio algo como “canal fundo”, e “finalmente ligou o rio Amazonas e o Tocantins embaixo do Marajó”. Depois, Tia Dáli dormiu por dois dias. Esta visão foi escondida, mas, como tudo em Belém, vazou...
Nove. Padre Joãozinho se inteirou do sucedido pelas carolas que frequentam as missas. Teve a ideia de tocar os sinos da cidade, combinaram-se por rede social e, ao meio-dia aquele carrilhonaço!
Dez da manhã. A muvuca formada. Familiares, curiosos, digladiam por espaço no Ver-o-Peso. Carros e ônibus não passam. Parecia dia de procissão. Também no Ver-o-Peso os ratos se jogaram na água. Os urubus se foram em direção ao Marajó. O povo via aquela revoada e pensava na lenda do urubu do Ver-o-Peso...
Meio-dia. O Ver-o-Peso ferve. As erveiras preparam um banho geral para que a Cobra Grande se rasgue dos baixos da catedral e resgate o ferro-velho – “pelamordedeus!”. O peixe frito acabou. O açaí tá que é água. O calor derrete os ferros do Bolonha. A maioria vai pra casa, tomar um banho. O feriado se decretou por sua própria conta.
Uma da tarde. Uma política, senadora, aquela que nunca viera ao Veropa deu as caras. “É a fofoqueira”, gritavam, “vai pra Oropa, aqui é o Veropa” e se riam. A tal até tentou ligar o desaparecimento ao oponente, parva...
Duas da tarde. A cidade dorme, só as televisões estrangeiras se postam na frente do cais, lesos.
Três da tarde. Pássaros marinhos, que jamais voaram sobre Belém estão a disputar o peixe com os poucos urubus e garças que ficaram tomando de conta a Pedra do Ver-o-Peso.
Cinco e meia. Finalmente, os ônibus furam o bloqueio. O ritmo da vida retoma.
Meia noite. O sino das igrejas repica. Cidade alguma, na história deste país, ouvira tal clamor pela boca dos sinos! Juntos, Belém em vigília. Sentam-se na calçada, ajoelham-se no chão. Televisores desligados, velas acesas. A cidade murmurando rezas. O Comandante Nelson não deu as caras.
Segundo dia. Bateu cinco da matina, os clarões de luz já vinham na presepada do novo dia. Circulam as listas de desaparecidos e elogios a este e a aquele... Eram 292 passageiros e dezoito tripulantes. Gente pra dedéu.
Sete dias. Os pastores se digladiam para oferecer o melhor culto.
Nove dias. Até minha mãe, que não desgruda os olhos da TV se cansou do assunto. Nada muda. A tal nuvem veio pra ficar.
Dez dias. Com a nuvem sobre Belém começam a sumir coisas, gentes. Ontem o navio da Marinha que ficava parado no Porto escafedeu-se. A tripulação estava de férias. Os pobres dos vigias foram no lugar deles.
Quinze dias. A vontade das famílias era abrir logo os inventários...
Vinte e um dias. Foi um vendedor de peixe da Pedra que matou a charada! Um jornalista que passava pelo local registrou: “eu vi, eu vi a nuvem! Fata Morgana. A nossa consciência”. E, emudeceu, sumiu. O jornalista ficou com aquilo ricocheteando na cabeça e me contou – “Fata Morgana”. E, como, o peixeiro sabia disso?
Vinte e nove dias. Avistou-se qualquer coisa e isso espalhou um suspiro expectativo. Pouco mais ou menos ou nada a acrescentar, balela!
Trinta dias. É caso para acionar as polícias internacionais, os barcos clandestinos chineses? As frotas de fora que pescam lagostas, pargos, e levam golfinhos e baleias e os vendem na Ásia?
Mil horas, ou quarenta e um dias e pico! Este o tempo que os comandantes de todo o planeta têm como certo e inabalável que não praz sentido seguir em buscas. Diacho, não! Silêncio silenciado, silenciosamente, às mil horas e um, os navios de resgate desaparecem, sem se vestigiar, sem explicados. Há cargas nos portos, há gente para as fainas muitas; mas em buscas sem o sentido que o tempo concorre, não.
Quarenta e dois dias. Os moradores de rua de Belém desaparecem. Dizem que seguiram a grande nuvem. Os depoimentos impressionam. Foi encomendado? Pelo jeito, raros são os que se interessam sobre o povo da rua. Há suspeitas que alguns... aproveitaram... Deixa pra lá...
Nove meses. Sem sinal de algo novo ou possivelmente novo.
Três anos e meio. Esperava-se que as questões referentes à balsa se findassem e se desse por encerrado este capítulo da navegação da Amazônia.
Cinco anos. Em conversa com meu amigo ali na beira: “vejas tu, são passados cinco anos...” Diversos populares, tanto em Belém, como no navio que seguia na mesma rota viram, de longe uma balsa e esta desapareceu. Naquele dia, navios entrando na baía também... De igual tamanho do Comandante Nelson... Fata Morgana. Lembrei-me do peixeiro! Desse dia em diante, o nevoeiro foi pra outro lugar, não sei. A alguns é a mudança climática, a outros, obras de satanás. Falam que seria a maneira da balsa se comunicar conosco. Nada se apurou e seguimos na santa ignorância de nossos dias. Fata Morgana.
João Meirelles é gestor de organizações da sociedade civil, escritor e ativista socioambiental. Paulistano, reside entre Belém, Pará e Ribeirão Preto, São Paulo. Atua em organizações do terceiro setor há quarenta anos, 26 dos quais à frente do Instituto Peabiru. É autor de 16 livros, metade sobre a Amazônia, entre os quais Frans Krajcberg: a natureza como cultura (Edições Sesc e Edusp, 2024), O abridor de letras (contos) (Record, 2017, Prêmio Sesc de Literatura) e Livro de ouro da Amazônia (Ediouro, 2004).
Pedro Menezes é designer gráfico, ilustrador e escritor. É doutor e mestre em Design pela Escola Superior de Desenho Industrial da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), com pesquisas sobre livros infantis ilustrados e capas de livro no Brasil. Trabalha para o mercado editorial criando capas, projetos gráficos, escrevendo e ilustrando livros. Tem 14 livros infantis ilustrados publicados. Em 2025, lançou os livros Tempo nosso e A flor que voava.
NOBREZA DO SAMBA
Músico, compositor e cantor, Dudu Nobre cresceu
embalado por bambas e, desde a infância traçou sua história na avenida da música brasileira
POR RACHEL SCIRÉ
FOTOS NILTON FUKUDA
“Sambando eu vou/ Na brincadeira/ Sou criança, sou Brasil/ Sou a pátria brasileira.” Com esses versos, o músico, compositor e cantor Dudu Nobre levou à avenida seu primeiro samba-enredo pela escola-mirim Alegria da Passarela. Era 1984 e, com menos de dez anos de idade, ele já assinava parceria com Beto Sem Braço(1940-1993), compositor gravado pela turma do Cacique de Ramos e um dos autores de “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”, samba-enredo antológico que deu o último campeonato à escola Império Serrano, em 1982.
A convivência com bambas não era novidade para o menino que cresceu cercado por nomes como Wilson das Neves (padrinho de batismo) e Zeca Pagodinho (padrinho musical), além de Nelson Cavaquinho (1911-1986),
Clementina de Jesus (1901-1987), Dona Ivone Lara (1921-2018) e Beth Carvalho (1946-2019), nas rodas de samba organizadas por sua mãe. Ao perceber o interesse do filho, Dona Anita o presenteou com um cavaquinho e o colocou para estudar piano clássico. Com dez anos, Dudu foi aluno de Joaquim Nagler, que foi contemporâneo de Noel Rosa (1910-1937). Depois, cursou a Escola Brasileira de Música e estudou cavaquinho com Henrique Cazes, Mauro Diniz, Alceu Maia e Wanderson Martins.
Passou a adolescência como músico de Almir Guineto (19462017), Pedrinho da Flor, Dicró (1946-2012) e Zeca Pagodinho. “O aprendizado que eu tive com cada artista que acompanhei foi me formando", relembra. “O Almir, por exemplo, era um gênio absurdo. No meio de um som
catastrófico, ele olhava para trás e dizia: 'Major, afina a segunda corda'.” Autor de sucessos como “Posso até me apaixonar”, “No mexe mexe, no bole bole”, além de “Vou botar seu nome na macumba” (com Zeca Pagodinho) e “Água da minha sede” (com Roque Ferreira), Dudu ganhou projeção como compositor e iniciou a carreira solo em 1999.
Entre idas e vindas no universo do Carnaval, venceu mais de 40 disputas de sambas-enredo, como o samba apresentado pelo Salgueiro neste ano, que assina com outros parceiros. Ao comentar a extensa parceria, faz cálculos e traz números que atestam a realidade das “Super Escolas de Samba S/A”, que Beto Sem Braço havia previsto já naquele samba de 1982. Neste Depoimento, Dudu Nobre rememora a infância, celebra a carreira e comenta o cenário das escolas de samba.
depoimento
origens
Cresci em uma família que tem os paralelos da nossa sociedade. Minha mãe negra, neta de canavieiros de Campos (RJ), camareira; meu pai branco, de uma família de funcionários públicos no Ceará, engenheiro. De um lado, uma rapaziada que fez bonito na faculdade e, de outro, pessoas que não tiveram tantas oportunidades. Todos queriam ter sido artistas, mas não puderam se dedicar como aconteceu comigo, minha irmã [Lucinha Nobre, premiada porta-bandeira do Carnaval carioca] e meu primo [músico e ator Seu Jorge]. Quando eu era pequeno, meu pai tinha uma demolidora e construtora. Ele comprava terrenos e montava casas, restaurantes, lanchonetes que a minha mãe comandava. Nessa época, em 1978, 1979, existiam dez rodas de samba fixas no Rio de Janeiro e três eram da minha mãe, que foi pioneira em pagar cachê para os músicos de samba. Antes, o pessoal tocava pela cerveja, pela sopa, todo mundo tinha outros empregos. E tinha as festas lá em casa, que começavam na sexta e terminavam na segunda, para onde os sambistas iam depois.
cavaquinho
Foi um privilégio ter crescido nessas rodas de samba, ser acarinhado por artistas como o Grupo Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Almir Guineto, Nei Lopes, Martinho da Vila, Beth Carvalho, Alcione, Luiz Carlos da Vila, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara. Eu morava em um prédio que o meu pai tinha construído, em Vila Isabel. O porteiro tinha um cavaquinho velho, que as crianças usavam para brincar, mas eu ficava imitando o que via nas rodas. Minha mãe comprou o cavaquinho, o Arlindo Cruz (1958-
2025) me ensinou a colocar as cordas, o Adilson Victor me ensinou a afinar. Quando começava o samba, eu pegava o instrumento, aparecia um músico e me mostrava uma posição, outros ensinavam a tocar percussão e, quando percebi, já estava tocando, foi muito natural.
escola
Num sábado, estava parado na porta de casa vendo o pessoal chegar para a feijoada. Aí estaciona um Monza duas cores e desce um homem cheio de ouro. Era o Osmar Valença (1929-2003), presidente do Salgueiro. Ele estava montando uma escola de samba mirim das crianças da Tijuca, Vila Isabel, Grajaú e Andaraí, e queria que eu fosse lá tocar cavaquinho. A ideia do Osmar era que um compositor consagrado fizesse o samba com uma criança. O Beto Sem Braço achou que eu era abusado quando disse que ia fazer o refrão, porque o refrão é o principal, mas eu fiz, ele gostou e ganhamos o samba-enredo. Eu nem sabia que aquilo dava dinheiro, mas quando chegou o Carnaval, o Beto me levou na Sociedade Administradora de Direitos de Execução Musical do Brasil (SADEMBRA). De repente, comecei a andar com o Beto Sem Braço em tudo que era samba e favela, o que era algo "emocionante" para uma criança. Era um negócio um pouquinho mais pra frente, né?
artista
Desde os dez anos, eu toco na noite e ganho meu dinheirinho com direito autoral. Quando ia tocar no Cacique de Ramos, por exemplo, os ônibus paravam de circular meia-noite e só voltavam às cinco da manhã. Eu terminava de tocar, tirava um cochilo lá, pegava o ônibus, descia em Vila Isabel e ia para a escola carregando o cavaquinho. Era uma coisa meio doida, a moçada
na escola de classe média alta querendo ouvir Sigue Sigue Sputnik [banda britânica de new wave dos anos 1980] e eu curtindo Bezerra da Silva(1927-2005). Com 13 anos, eu tocava com o Almir Guineto; com 15 pra 16, fui tocar com o Pedrinho da Flor e o Dicró, e o Zeca apareceu com 19. Com 20 anos, comecei a ser gravado como compositor e com 25, gravei o meu primeiro disco. A minha vida era uma maluquice, porque eu ficava no mundo do “samba de meio de ano” e também no Carnaval. A Alegria da Passarela virou Aprendizes do Salgueiro, em que também ganhei samba. Depois fui para Herdeiros da Vila Isabel, para a Estrelinha da Mocidade e finalizei no Império do Futuro. Com 16 anos, já era semifinalista de samba-enredo na Mocidade Independente de Padre Miguel.
pagode
Minha carreira solo aconteceu sem que eu planejasse. No samba, sempre existiu a questão da renovação. Na década de 1990, com o estouro dos grupos de pagode, recebi muitos convites. Tinha quem dissesse: “Pô, tá maluco, vai ficar nessa, cantando samba? Daqui a pouco esses caras morrem e isso aí vai acabar”. Ao mesmo tempo, havia uma preocupação muito grande em relação ao caminho do samba tradicional, o chamado samba de partido alto, que eu me mantive fiel. Muitos dos meus pares foram para outro lado e ficaram pelo caminho. Eu adoro o pagode da década de 1990, muita coisa boa saiu dali, mas tinha muita coisa descartável. Fora os oportunistas, né?
cantor
Como músico, alcancei o ápice quando fui tocar na banda do Zeca Pagodinho. O músico acabou trazendo o lado compositor. Com
24 anos, escrevi “Posso até me apaixonar”, que foi a segunda música mais tocada no Brasil no ano. Tive música de trabalho com Beth [Carvalho], Martinho [da Vila] e Fundo de Quintal. Meu nome ficou em alta como compositor e acabou puxando o cantor. Mas o cantor de samba só vai aprender a interpretar mesmo depois de dez, quinze anos de carreira. Aí você entende o sorriso do Martinho da Vila, a divisão do Zeca Pagodinho, a colocação vocal e a interpretação do Emílio Santiago (1946-2013), as medidas do canto da Alcione e até a rouquidão da Beth Carvalho. Hoje, com mais de 25 anos de carreira, estou bem encaminhado para virar um cantor de samba. Somos cronistas do dia a dia e quem melhor canta a música é o próprio compositor.
samba-enredo
O enredo às vezes traz um tema político, mas hoje a questão econômica é muito forte no Carnaval – a escola que menos faturou em 2025 ganhou 11 ou 12 milhões de reais. Isso só de arrecadação ligada
à avenida, não estou falando de enredo patrocinado, movimentação na quadra, venda de shows... Então existe a cultura do Carnaval, mas isso não é o mais forte hoje em dia. Quando a gente tem a possibilidade de falar de um tema extremamente necessário, como foi o “Hutukara” [samba-enredo do Salgueiro em 2024, sobre o povo Yanomami], é muito gratificante, mas mesmo nessa situação a gente saiu um pouco do enredo. A onda ali era falar do indígena de forma mais amável e fomos para um lado de luta. O compositor tem liberdade quando encontra uma brecha, porque tem carnavalesco que não se desprende do projeto artístico e não aceita que o samba traga outra temática.
carnaval
Do ponto de vista do compositor, eu vejo isso com um pouco de tristeza, mas é que realmente virou uma indústria. Eu fiquei muito tempo distante do Carnaval e só voltei em 2014 porque a minha escola, a Mocidade, estava passando por um momento de turbulência. O monstro que me afastou no
passado foi justamente a necessidade de ter um financeiro forte, algo que se consolidou de tal forma que hoje você não consegue disputar um samba em uma escola do grupo especial do Rio de Janeiro por menos de 200 mil reais. Por isso tem aquele monte de gente assinando junto. Tem o cara do financeiro, o que cuida do audiovisual, quem faz porque gosta, o que busca a alcunha de compositor ou quer conquistar uma presença política na escola. Eu não boto um real, vou lá com o cavaco, a voz e a caneta. De qualquer forma, é emocionante ver um samba seu na Marquês de Sapucaí, mas o caminho hoje é sem volta porque, economicamente, o Carnaval tomou outra proporção.
Assista a trechos desse Depoimento com o músico Dudu Nobre, realizado em 22/10, no Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc São Paulo.
Cronista do dia a dia, Dudu Nobre compôs mais de 40 sambas-enredo vencedores do Carnaval. Entre eles, está o samba apresentado pelo Salgueiro neste ano, que assina com outros parceiros.
Nilton Fukuda
ALMANAQUE
De flor em flor
Com mais de sessenta espécies só no estado de São Paulo, as abelhas nativas sem ferrão são um dos principais polinizadores e responsáveis pela conservação da biodiversidade
POR MARINA PEREIRA
Cerca de 70% das fibras naturais usadas para a produção das roupas que vestimos até o alimento que consumimos são resultado da polinização (transferência de grãos de pólen da parte masculina para a parte feminina da planta), realizada principalmente pelas abelhas. “Esses insetos têm uma importância muito grande no equilíbrio ambiental e preservam até 90% das matas, dependendo do bioma, além de ajudarem na manutenção da produção agrícola”, afirma Gustavo Alexandre, coordenador do Programa Abelhas Nativas da Fundação Florestal e gestor da Área de Proteção Ambiental (APA) do Carmo, em São Paulo.
No entanto, as abelhas e outros polinizadores, como borboletas, morcegos e beija-flores, estão cada vez mais ameaçados pelas atividades humanas. O grande desafio para preservar as abelhas, segundo o especialista, é evitar a fragmentação das matas originais e ter um regramento no uso de agrotóxicos. “Quanto menos abelhas no ambiente, mais escassa será a produção de alimentos”, alerta.
Criado em novembro de 2020, o Programa Abelhas Nativas da Fundação Florestal surgiu com o intuito de conscientizar a população sobre a importância ecológica das abelhas. Para ajudar na identificação das espécies que habitam o estado de São Paulo, o programa desenvolveu uma coleção de fichas de identificação com suas principais características. Esse material, disponibilizado gratuitamente na internet, tem sido utilizado como fonte de pesquisa: “Sempre há alguém novo querendo conhecer o projeto, principalmente as crianças. Elas já saem com a mente aberta, e acabam orientando os próprios adultos”, conclui. Neste Almanaque, apresentamos cinco (das mais de sessenta) espécies de abelhas que você pode encontrar pelas ruas do estado.
As abelhas, como a jataí (Tetragonisca angustula), desempenham um papel importante no equilíbrio ambiental e na preservação das matas.
Com cerca de 5 milímetros, a jataí é uma polinizadora de plantas nativas e cultivadas, como morango, alecrim-do-campo e angelim.
JATAÍ
Espécie amplamente conhecida e encontrada em meliponários — locais dedicados à criação, manejo e preservação de abelhas nativas sem ferrão, como os da APA do Carmo —, a jataí (Tetragonisca angustula) é uma polinizadora de plantas nativas e cultivadas, como morango, alecrim-do-campo e angelim. Com cerca de 5 milímetros, possui o corpo amarelo alongado e olhos verdes, o comportamento
manso, não oferecendo risco à população. Seu ninho é facilmente encontrado em árvores ocas, muros, caixas de luz e fornos de churrasqueira, caracterizado por uma entrada em forma de tubo de cera ou cerume. Na entrada, ficam as abelhas-guardas, responsáveis pela vigilância, que protegem o ninho contra abelhas ladras e outros predadores. A espécie é produtora de um mel mais líquido, com propriedades medicinais.
Nilton Fukuda
ALMANAQUE
As abelhas Euglossa sp., conhecidas como abelha das orquídeas, são uma importante polinizadora de plantas silvestres e agrícolas.
MIRIM-DRORIANA
Espécie nativa sem ferrão, a Plebeia droryana, conhecida como mirim-droriana, apresenta um comportamento dócil e é encontrada em ambientes naturais e urbanos. Possui papel relevante na preservação da flora local, polinizando flores de pequeno porte, como mulungu-do-litoral e ingá-rosa. Com 3 milímetros, em média, é reconhecida por apresentar uma mancha amarela em forma de gota na frente da cabeça e o corpo escuro. Seu ninho pode ser observado em partes ocas de árvores, de muros e rochas, normalmente com uma entrada em formato de lábio, constituída de cera e própolis. Como estratégia de proteção, cria outras entradas na colmeia, que servem como uma guarita de vigia, onde algumas abelhas fazem patrulha contra o ataque de predadores. Produz mel em pequena quantidade, reconhecido por ser muito saboroso.
ABELHA DAS ORQUÍDEAS
De tons metálicos nas cores verde, azul e violeta, uma língua longa, maior que o corpo, olhos verdes ou escuros, com quatro asas e antenas longas, as abelhas Euglossa sp., popularmente conhecidas como abelha das orquídeas, são uma importante polinizadora de plantas silvestres e agrícolas. Vivem em ambientes naturais, especialmente em áreas com vegetação nativa com presença de orquídeas, nas quais coletam as suas fragrâncias usadas no processo reprodutivo. A espécie tem comportamento manso e não oferece risco à população. As suas colmeias podem ser encontradas em furos de galhos, ramos de árvores ou arbustos, entre raízes de orquídeas, cavidades, no solo ou em espaços entre estruturas de madeiras, sem uma entrada definida, apenas com um furo para acesso, fechado durante a noite para a proteção. A espécie não produz mel, mas faz uma mistura de pólen com concentrado de néctar para as crias. Têm, em média, de 13 a 20 milímetros. Muitas vezes, são mortas por serem confundidas com moscas varejeiras.
Em espaços naturais e urbanos, é possível encontrar a Plebeia droryana, popularmente chamada de mirim-droriana, espécie com comportamento dócil e polinizadora de flores de pequeno porte.
Guilherme
URUÇU-AMARELA
Espécie de maior porte entre as abelhas sem ferrão, a bugia ou uruçu-amarela (Melipona mondury) é muito conhecida pela produção de mel e importância ecológica. Com tamanho médio entre 11 e 13 milímetros, seu corpo é de cor amarelo-ouro, coberto de pelos amarelados. De comportamento dócil, vive em ambientes naturais e é responsável pela polinização de plantas como grumixama, aroeira-pimenteira e urucum. Seu ninho pode ser observado no interior de partes ocas de árvores grandes, com a entrada de material composto por barro, própolis e resina, criando uma estratégia de camuflagem. Seu mel é popular, com uma acidez leve e marcante, que lembra um licor.
MANDAÇAIA
Entre povos indígenas, mandaçaia significa “vigia bonito”. A espécie Melipona quadrifasciata anthidioides possui esse nome popular porque, na entrada da sua colmeia, existe sempre uma abelha à vigia. Com 10 milímetros em média, cor negra, quatro listras amarelas transversais até o centro do abdômen, tem um comportamento dócil, mas pode fazer revoada, caso seu ninho seja perturbado. É encontrada em ambientes naturais e faz a polinização de plantas como pau-jacaré, capixingui, cereja-do-mato, candeia-da-serra, entre outras. Seu ninho pode ser encontrado em buracos de árvores grandes, com a entrada formada por sulcos de barro e própolis por onde só passa uma abelha por vez. O seu mel é bastante aromático, com sabor entre o doce e o azedo, e toques frutais.
A uruçu-amarela (Melipona mondury) é uma importante produtora de mel. Também desempenha papel essencial na polinização de plantas como grumixama, aroeira-pimenteira e urucum.
Nilton Fukuda
Leitura e afetividade
A biblioteca está presente na minha vida desde a infância. E quando eu penso nos meus primeiros momentos em uma biblioteca, a imagem que surge nos meus pensamentos é da minha avó Anita. Para fazer os trabalhos escolares, aqueles maiores de final do semestre, ela sempre me levava à Biblioteca Mário de Andrade, no Centro de São Paulo. Ficava longe de casa, mas acordávamos cedo, pegávamos o ônibus e passávamos o sábado todo ali. Ela pesquisava comigo os livros e encontrávamos juntas os capítulos que pareciam mais interessantes para os temas dos trabalhos. Não me lembro dos temas nem dos resultados, afinal, como diz João Guimarães Rosa (1908-1967), “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.
As lembranças da biblioteca e da minha avó se confundem dentro de mim. O amor pela minha avó, o amor pela biblioteca. Um amor que nasceu a partir de outro. E que fez brotar ainda mais um amor: a literatura.
Os livros foram essenciais para a construção da minha subjetividade. Clarice Lispector (1920-1977) me ajudou, por meio de seus escritos, a entender que “a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar”.
Em outras palavras, a autora me ajudou a sentir a alegria, mesmo que muitas vezes possa ser uma alegria difícil, já que a alegria reside na travessia, na aceitação corajosa de existir com todas as suas complexidades e dores.
Em 2013, quando iniciei meu trabalho no Sesc Itaquera, foi uma grande felicidade ficar responsável pelo BiblioSesc. Foram três anos e meio presenciando
cotidianamente a leitura fazer parte da vida de diversas pessoas. A presença da biblioteca na minha vida alcançava outra dimensão, em que eu podia contribuir para que outras pessoas também pudessem ter suas subjetividades atravessadas pela literatura.
Após a experiência do BiblioSesc, o convívio com a biblioteca continuou acompanhando a minha trajetória profissional, primeiro no Sesc Ribeirão Preto, no qual exerci a coordenação de programação, e, agora, na Gerência de Ação Cultural, como parte da equipe de Literatura e Bibliotecas. Estou muito feliz por estarmos, nesse momento, nos dedicando à expansão da rede de bibliotecas do Sesc São Paulo por entender que a leitura tem um papel fundamental na preservação e transmissão da memória, na ampliação de nossas concepções de mundo e no conhecimento da nossa própria condição de existência. Alberto Manguel nos ensina que “os livros podem não alterar nosso sofrimento, os livros podem não nos proteger do mal, os livros podem não nos dizer o que é bom e o que é belo”, mas “os livros nos abrem miríades de possibilidades”.
As bibliotecas e a literatura fazem – e continuarão fazendo – parte do meu caminho, tanto pessoal quanto profissional, e agradeço imensamente à minha avó Anita por todo o afeto, o amor e o carinho, que contribuíram de forma tão significativa com a minha história e a minha paixão pelos livros.
Thaís Heinisch é formada em Filosofia, pela Universidade de São Paulo (USP), e em Jornalismo, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Atua como técnica de Literatura e Bibliotecas na Gerência de Ação Cultural do Sesc São Paulo.
sábado todo ali. Ela pesquisava comigo os livros e encontrávamos juntas os capítulos pareciam mais interessantes para os temas dos trabalhos. Não lembro dos temas dos resultados, afinal, como diz João Guimarães Rosa (19081967), “o real não está na saída nem na chegada: dispõe para a gente meio da travessia”. desde a infância. E quando eu penso nos meus primeiros momentos em biblioteca, a imagem que surge nos pensamentos é da minha avó Anita. fazer os trabalhos escolares, aqueles maiores de final do semestre, ela sempre me levava à Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo. Era longe casa, mas acordávamos cedo, pegávamos ônibus e passávamos o sábado todo ali. Ela pesquisava comigo os livros encontrávamos juntas os capítulos pareciam mais interessantes para temas dos trabalhos. Não me lembro temas nem dos resultados, afinal, diz