As cores vívidas das pinturas surrealistas dOs Gêmeos levaram a arte de rua brasileira para dentro das galerias internacionais muito antes deles ganharem o merecido reconhecimento aqui. A dupla falou com a Mixmag sobre a carreira e revelou que seus sonhos têm hora marcada e são sua fonte de inspiração
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EXECUTIVO Michael Rushmore, de 51 anos, ama arte. Americano, radicado em Londres, ele é um colecionador sofisticado que tem dinheiro para comprar o que quiser. Entre tantas opções, resolveu colecionar “street art”, literalmente, a arte de rua. Ele notou que as ruas de Londres estão cheias de grafite. Também sabe que, nos últimos 20 anos, na Europa e os EUA grafiteiros - de Basquiat até Banksy - passaram a ser reconhecidos também como artistas plásticos. Seu filho tem até um blog respeitado sobre o assunto (www.vandalog.com). Rushmore fez uma pesquisa para saber quem seria o melhor artista de rua do planeta. Fez uma triagem, descobrindo dois grafiteiros paulistanos - OsGêmeos - e se apaixonou pelo trabalho deles. “Um filtro que eu poderia usar é olhar mais para artistas que têm habilidade de pintar, que usam técnicas de pintura. Nesse sentido, OsGêmeos estão na frente. Foi isso que me atraiu”, disse Michael Rushmore. Há anos que os murais dOs Gêmeos fazem estardalhaços ruídos à cores na selva fechada e cinza de São Paulo. Mas a arte dos irmãos – que são mesmo gêmeos, Gustavo e Octavio Pandolfo, de 36 anos – é muito mais que pichação. Ela lembra mais pinturas surrealistas do que grafite tradicional. Nas suas figuras estranhas e tristes e suas cores vívidas há uma qualidade eterna. Como se eles quisessem te levar para outro lugar. Frequentemente incluem janelas, portas e armários – aberturas para escapar. “Isso mostra que existem outros lugares no mundo. Um mundo interior seu, na sua cabeça”, explicou Gustavo, o mais falante dos dois. Eles começaram fazendo grafite nas ruas. Hoje em dia expõem em galerias e museus do mundo inteiro – incluindo quatro no Brasil, no ano passado, e algumas das galerias mais importantes na Inglaterra, Portugal e Itália. “É, muito louco, né?”, disse Gustavo. “Fomos uns dos primeiros que fizeram isso no Brasil. Levamos o nosso trabalho, que nasceu na rua, para dentro do universo de arte contemporânea.” 66 JUNHO/JULHO 2010
Seu gêmeo Octavio fala menos, mas, fora isso, os dois são quase iguais. Os mesmos óculos redondos, cabelo comprido e camiseta bacana. Têm um jeitão quieto e ao mesmo tempo intenso. São corintianos. Ouvem Pink Floyd e gostam do grafiteiro Banksy, que conheceram pessoalmente: “É um cara muito bom.” Eles têm uma confiança tranqüila, não precisam demonstrar. Na sua sede em São Paulo, eles trabalham num escritório pequeno onde dedilham seus Macbooks numa mesa estampada com uma de suas pinturas. Na prateleira, há um
macaco brinquedo e um modelo de um trem de metrô. O escritório fica no primeiro andar e de sua janela dá para enxergar o enorme estúdio dos dois. Lá tem um chassi de um Ford antigo pendurado no teto, sustentado por cabos – projeto novo do outro irmão, Arnaldo. Há também telas gigantes se encostando pelas paredes. Os irmãos cresceram no bairro de Cambuci. O pai é químico, a mãe, dona de casa. Era uma família “pequena e simples”, contaram. Fizeram o segundo grau na Escola Técnica Carlos do Campos. Quando o hip hop chegou na década de oitenta os www.mixmag.com.br
dois tinham 15 anos e ficaram encantados. Começaram a fazer um pouco de tudo – cantar, criar raps, tocar como DJs. E pintar. Era a pintura o que melhor faziam. Gostavam de tudo que a cultura tem. “A liberdade de expressão. Você pinta, faz o que você quiser. Dribla as leis.” Fizeram sucesso em São Paulo pintando imagens surrealistas na cidade inteira. Foram para fora do país pela primeira vez em 1999. “Chegamos em Munique, imagina? Uma das cidades mais caras da Alemanha”, contou Gustavo. “Munique é uma cidade muito chique, certinha, perfeita. Fez a gente realmente pensar, comparar. Apesar de a gente se conformar que Brasil é o que é”, adicionou. Próxima parada, Inglaterra. Ali, Octavio ficou impressionado com a preservação da história e lembrava do filme do Pink Floyd, The Wall. “É um pais antigo, que passou por várias coisas. Você começa comparar com Brasil, com o que a gente tem aqui, o que foi explorado daqui, o que foi roubado daqui”. Mas a viagem deu certo. “Quando as pessoas viram o nosso trabalho, perceberam que era uma coisa diferente, de um estilo diferente”, se lembrou Gustavo. “Daí quebrou a porta, e a gente começou fazendo muita coisa lá.” No ano de 2008, OsGêmeos fizeram uma obra na parte exterior do Tate Modern, o museu mais famoso de Londres, durante uma exposição dos grafiteiros de São Paulo. No mesmo ano, a Prefeitura de São Paulo apagou um mural famoso dos irmãos, na 23 de Maio, que eles haviam feito em 2001. “E como a lei era Cidade Limpa, limparam tudo mesmo, inclusive o mural”, disse Gustavo. OsGêmeos decidiram repintar o mural. Conseguiram patrocínio – não queriam que nenhum dinheiro público fosse usado. Foram até a prefeitura e disseram: “vamos pintar de novo”. “Eles www.mixmag.com.br
perceberam que fizeram a maior cagada em ter limpado aquilo”, disse Gustavo. “Nos deram a permissão.” Esse ano, o muro foi coberto de novo – dessa vez, por um grupo de artistas anarquistas, os mesmos que picharam paredes, pilares e corrimões na Bienal de 2009. Os irmãos não querem comentar o assunto. No final do ano passado, o MASP realizou uma exposição de arte urbana. OsGêmeos não estavam lá, mas fizeram uma outra – na FAAP, também na capital paulistana, transformando uma sala enorme num outro mundo: com um mural de um mar de xadrez, povoado por criaturas meio animais, meio humanas. “Exposição em galeria foi mais uma descoberta. Ela nos dá um espaço em que podemos nos expressar através de outros elementos, não só da pintura, mas também da escultura, instalações. É uma coisa que não dá pra fazer na rua”, disse Gustavo. “Nosso trabalho fica muito mais amplo assim.” Muito do trabalho dos irmãos é inspirado por sonhos. “Pintamos muitos sonhos”, explicou Gustavo. “Sonho todos os dias. E o sonho tem horário: é na parte da manhã. Das seis as oito.” Seus sonhos são vívidos. “Narrativo, com imagens, as vezes
abstrato... Não segue um roteiro”, contou. “A gente só lembra de manhã. E depois esquece. Mas acontece todo dia. Todo dia!” Gustavo mostra o estúdio enquanto fala. Numa parede, estão pendurados pequenos armários pintados, obras antigas dos irmãos, em cima de uma mesa grande, pintada com tinta grossa que cria diferentes tipos de relevo. É quase um mapa 3D. “É um novo experimento de textura”, explica. Sua arte está sempre em evolução, ganhando bastante inspiração da natureza. “Transformação e evolução. É necessário, faz parte do universo”, explicou Gustavo. “A gente é muito pequenininho em relação a natureza.” É um ponto de vista inesperado para quem ainda mora no meio de uma metrópole gigante. “Pois é”, respondeu Gustavo. “Eu acho que o fato da gente ter criado esse universo paralelo foi por ter crescido em São Paulo, uma cidade em que você não respira. A pintura fez a gente abrir essa porta, essa janela. Se vivêssemos numa praia, numa floresta, a gente não pintaria esse tipo de coisa. Eu acho que essa é a nossa missão aqui. Uma delas.” JUNHO/JULHO 2010 67