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família serviremos ao Senhor” (Js 24
OBSERVATÓRIO BATISTA
Deus - versão 2.0
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Lourenço Stelio Rega
Creio que o Deus morto por Nietzsche foi agora ressuscitado, numa versão mais sofisticada ao sabor da terceira modernidade, conhecida como Hipermodernidade ou Pós-modernidade. Esta tentativa vem desde a primeira modernidade, no Éden, após a queda de Adão, quando ele quis ser como Deus declarando a sua independência em busca de sua autonomia.
Nova tentativa de um upgrade de Deus foi feita na segunda modernidade, iniciada por volta da época cartesiana, lançando-se o ser humano como fonte absoluta da verdade. Período chamado simplesmente de Modernidade. Em todas estas versões há uma transposição em que o ser humano busca ser o seu próprio Deus. Nesta última versão, o Humano-deus já não usa mais a capacidade da independência de escolha (Éden - primeira modernidade) ou a razão como sua garantia de afirmar a verdade por si (a chamada Modernidade), mas a sua natureza mais primitiva (cérebro instintivo ou reptiliano, numa linguagem antiga da Neurociência) como fonte de verdade ética e moral. A sua vontade de potência (Nietzsche, sua índole ou seus instintos, em termos ontológicos e não psicanalíticos) é que regulam, legislam, legitimam determinam as suas decisões. É uma ética irresistível representada em frases como “porque quando você se dá conta já rolou” ou como na música popular intitulada “Deixa a vida me levar” que diz “fiz o que estava a fim de fazer… meu coração mandou … eu fiz”, ou ainda “o meu coração está em paz…” ou mesmo, “… isto me faz feliz!”. O relativismo de hoje não é mais conceitual, isto é, não precisa ser necessariamente explicado ou legitimado, mas simplesmente vivido. “Meu coração mandou, eu fiz e acabou!” E, então, como as pessoas nesta condição buscam Deus? Buscam um Deus que atenda suas demandas e desejos pessoais em vez de buscar a razão de suas vidas em Deus e no seu Plano da Criação. Nesta versão, Deus deixa de ser Deus e passa a ser uma espécie de garçom, súdito ou “gênio da garrafa” que deve atender aos desejos infinitos das pessoas, que se tornaram o próprio deus. Vemos isso também na Teologia da Prosperidade e Teologia de Mercado. Parece-me que nem a adoração contemporânea escapa disso, com a ênfase na transcendentalidade como que numa espécie de “yoga/aeróbica gospel”, em que as sensações místicas subjetivas são as únicas válidas. É preciso considerar que o ser humano não foi criado para ser Deus, mas para ser simplesmente humano. Se continuarmos avaliando o que é ser humano à luz do paradigma da Modernidade (segundo Éden) ou Pós-modernidade (terceiro Éden), não compreenderemos o real sentido da vida. Anderson (Neo), no filme “Matrix”, negou a sua suposta liberdade tomando a pílula vermelha e encontrou a realidade. Nós precisamos negar a nossa suposta liberdade em que normalmente vivemos, voltando ao estado edênico, aí encontraremos a verdadeira liberdade para qual fomos criados. É o paradoxo do Cristianismo - o negar-se a si mesmo e caminhar em direção à ressurreição para a uma nova vida (Lucas 9.23; Romanos 6) e para o estado de nova criatura (II Coríntios 5.17) à luz do Plano da Criação, aqui encontramos a liberdade e a autonomia para a qual fomos criados. Pois, a liberdade que exercemos no mundo nos tem levado ao caos, conflitos, egoísmo e destruição. A liberdade e autonomia proposta no Plano da Criação é compatível com a nossa natureza modelada por Deus, uma autonomia que necessita ser aprendida. Aliás, a salvação, mais do que uma apólice de seguro contra o incêndio do inferno ou um bilhete para o céu, é a porta de entrada para essa nova vida, afinal, “foi para a liberdade que Cristo nos libertou! Portanto, permanecei firmes e não vos sujeiteis outra vez a um jugo de escravidão” (Gl 5.1). Infelizmente, nossa pregação ética se lastreou mais no legalismo do Antigo Testamento e temos deixado de compreender essa liberdade e autonomia que o Evangelho nos concede. E, assim, o Deus versão 2.0 também poderá ser um Deus do chicote e do legalismo, não da recuperação, não do discipulado transformador de vidas. Mas é possível prosseguir compreendendo também o Deus versão 2.0 como um Deus utilitarista, pragmático, institucional, ativista-compulsivo, quando transformamos essencialmente o Cristianismo em atividades, estruturas, instituições e eventos, que devem ser meios e resultados de vida transformada, não fim em si mesmos. Quando pensamos na Igreja apenas como instituição ou organização, quando judicializamos a vida da Igreja e até da denominação, quando medimos nossas vidas primeiro pelo que fazemos em vez de primeiro pelo que somos, temos também o Deus versão 2.0. Enfim, a nossa vida só tem sentido em Deus, versão única e completa, nós só necessitaremos, então, sermos humanos, simplesmente isso. Humano, simplesmente humano! Para fazer contraponto a Nietzsche. n
Segundo o coração de Deus (só que sim!)

Alexsandro Oliveira
coordenadoria de Comunicação da Juventude Batista Brasileira
Hoje, quero falar com você sobre um assunto incômodo: o pecado e a forma como lidamos com ele. A famosa história de Davi é nosso ponto de partida. Ele havia sido ungido rei de Israel, após uma visita do profeta Samuel à sua casa (I Samuel 16.1-13). Samuel examinou um a um os filhos de Jessé, pai de Davi, e encantou-se por todos eles, a ponto de precipitar-se em suas escolhas. Só que o Senhor tinha um outro plano: queria o caçula da família, que estava esquecido cuidando das ovelhas no campo. Naquele dia, a vida de Davi mudou, e então ele foi ungido rei. Dali em diante, Deus foi mostrando de várias maneiras, que estava com Davi. Até Golias, o gigante inimigo, ele derrubou mesmo com a sua aparente fragilidade. Mas um dia, Davi caiu. Em resumo, ele tomou para si Bate-Seba, que por sua vez era esposa de Urias, um soldado do seu próprio exército, e eles adulteraram. Como se não bastasse, tramando fazer dela sua esposa, Davi encomendou a morte de Urias, uma outra traição cruel. Nessas horas, a cabeça dá um “bug”, né? Como Davi foi escolhido para ser rei? Deus errou na sua escolha? Aí entra a outra parte da história. Deus resolveu enviar a Davi um profeta, chamado Natã, para repreendê-lo por esses graves erros cometidos. Davi não hesita em confessar o seu pecado imediatamente, e isso me faz pensar algumas coisas: Davi estava disposto a mudar (Salmo 51.2);
Sabia que Deus era quem poderia transformar o seu coração (Salmo 51.10); Não estava preocupado com reputação ou poder, mas em não ter mais comunhão com o Senhor (Salmo 51.11); Aceitou as consequências do erro (2 Samuel 12.14-23).
Esse conjunto de características me fazem apostar com fé que Davi, apesar do seu erro, continuava sendo o homem que Deus escolheu para liderar o Seu povo. Seu coração, embora vacilante, retornou para o centro da vontade de Deus, mesmo que tenha precisado de uma “dura” de Natã. O que me faz pensar também em como precisamos de pessoas assim nos dias de hoje, capazes de confrontar o pecador com o seu erro, a fim de que haja cura. Imagina o estrago que Natã faria, se ele entregasse a palavra que Deus deu a Davi para outras pessoas? O nome disso é fofoca, e não procede de Deus, além das consequências serem todas as possíveis, menos a restauração de quem necessita. Encerro esta reflexão, desejando profundamente que alcancemos a maturidade em Deus para sermos como aprendemos nesta história. Se e quando cairmos, que tenhamos a maturidade de Davi para buscar em Deus a cura, mas se virmos o nosso irmão do lado fraquejar, que sejamos Natã, confrontando em amor, e entendendo que, no fim das contas, a nossa condição pecaminosa nos iguala, e que é só pela graça de Deus, independente de quem somos, que podemos recomeçar. n
