Um Pacto de Silêncio - Book Preview

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SHARON BOLTON

SHARON BOLTON

ESPECIALISTAS LITERÁRIAS NA ANATOMIA DO SUSPENSE

Copyright © Sharon Bolton 2021 Todos os direitos reservados.

Tradução para a língua portuguesa © Daniel Bonesso, 2025

Diretor Editorial

Christiano Menezes

Diretor de Novos Negócios Chico de Assis

Diretor de Planejamento

Marcel Souto Maior

Diretor Comercial

Gilberto Capelo

Diretora de Estratégia Editorial

Raquel Moritz

Gerente de Marca

Arthur Moraes

Gerente Editorial Bruno Dorigatti

Editor

Paulo Raviere

Editor Assistente Lucio Medeiros

Capa e Projeto Gráfico Retina 78 e Arthur Moraes Coordenador de Diagramação Sergio Chaves

Preparação

Vinicius Tomazinho

Revisão

Bárbara Parente

Rodrigo Lobo Damasceno Retina Conteúdo

Finalização

Roberto Geronimo

Marketing Estratégico Ag. Mandíbula

Impressão e Acabamento Ipsis Gráfica

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Jéssica de Oliveira Molinari - CRB-8/9852

Bolton, Sharon Um pacto de silêncio / Sharon Bolton ; tradução de Daniel Bonesso. –– Rio de Janeiro : DarkSide Books, 2025. 384 p.

ISBN: 978-65-5598-508-5

Título original: The Pact 1. Ficção inglesa 2. Suspense I. Título II. Bonesso, Daniel

25-1034

CDD 823

Índice para catálogo sistemático: 1. Ficção inglesa

[2025]

Todos os direitos desta edição reservados à DarkSide® Entretenimento ltda Rua General Roca, 935/504 – Tijuca 20521-071 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil www.darksidebooks.com

Para a turma de 2020 de Magdalen College School, em Oxford. Tem sido um ano assustador, mas vocês são estrelas e brilharão cada vez mais.

PARTE UM

Quando a memória daquele verão os visitava, lembravam-se do gosto amargo do rio na boca e dos respingos da espuma da cerveja contra a pele bronzeada; eram dias que começavam após o meio-dia e terminavam com o raiar do sol no leste.

Lembravam-se das longas tardes deitados debaixo das castanheiras em University Parks e do tom particular de rosa dourado projetado nas construções medievais ao pôr do sol. Lembravam-se de quando tinham descoberto a steampunk em Magdalen Bridge e de vestirem-se como vampiros glamurosos naquele mês, desfilando pelos paralelepípedos ao anoitecer, para a diversão — e sustos ocasionais — dos estudantes estrangeiros.

Eles se lembravam das nuvens de poeira nos festivais de música deixando a caca do nariz preta e dos sussurros implacáveis dos traficantes: “Tá a fim de um pó? Precisa de algum bagulho?”. A resposta era sempre afirmativa, e eles nem precisavam perguntar o preço.

Aquele verão não era um tempo de esperança ou promessa, mas de certeza: eles eram os escolhidos, a quem o mundo pertencia, e suas vidas, apenas no começo, seriam longas e brilhantes.

Não podiam estar mais enganados.

SHARON BOLTON UM PACTO DE SILÊNCIO

Naquele verão, todos os dias sempre acabavam a poucos quilômetros de Oxford, com todos na monstruosidade da casa elizabetana da família de Talitha. O pai da Tali raramente estava por perto, e a mãe nunca os incomodava, para falar a verdade, eles mal tinham a certeza se ela estava lá na maior parte do tempo. A geladeira estava sempre cheia graças à governanta (que não morava lá). Ninguém precisava de comanda no bar dentro da casa da piscina, e a Domino’s Pizza, perto de Thame, entregava até meia-noite.

Ficavam quase sempre ao ar livre, cochilando alcoolizados na casa da piscina ou no gazebo circular com teto de folhas em frente ao lago.

Acordavam quando o sol chegava e partiam para casa apenas para seus pais terem a certeza de que ainda estavam vivos. Dormiam durante o dia em suas próprias camas e, por volta das quatro da tarde, estavam prontos para recomeçar. E assim foi o verão inteiro, desde a última prova — a de Latim, que Daniel fez no dia 4 de junho. (Deu tudo certo, ele achava, mas nunca dá pra ter certeza, não é?)

Na noite anterior aos resultados das provas, juntaram-se novamente na casa de Talitha após uma tarde no centro da cidade. Xav sentou-se à beira da piscina com os pés dentro da água, enquanto Amber se ajeitava ao seu lado.

“Eu tô enjoada”, resmungou ela, deixando a cabeça cair apoiada no ombro dele.

“Não vai vomitar na piscina. Da última vez, minha mãe teve que mandar alguém limpar os filtros. Vou pagar caro se acontecer de novo”, avisou Talitha.

Driblando enormes vasos de terracota e estátuas de criaturas míticas, Felix caminhava pelo terraço em direção aos amigos, os dedos da mão direita estavam esparramados por debaixo de uma bandeja com drinques. Seu cabelo, que cresceu desde que terminara as provas, brilhava prateado como o luar que pairava sobre o ombro direito. Seu andar, firme e cativante, o distinguia como um atleta, e, numa inspeção mais minuciosa, era possível confundi-lo com um remador pelos braços bombados, as enormes coxas e o abdômen levemente contraído. As luzes de segurança da área externa ativaram quando ele passou, dando a ilusão de que Felix projetava a própria luz.

“Não é isso, não estou bêbada”, Amber esclareceu com um suspiro, ao mesmo tempo que Felix se aproximava. “Quero dizer que tô enjoada por causa de amanhã.”

“Na verdade, hoje”, Daniel a corrigiu de sua espreguiçadeira.

O menor dos rapazes e o menos atlético, ele nunca tivera o mesmo sucesso com as garotas que seus dois amigos, e, ainda assim, seu rosto era perfeito. Secretamente, os outros se perguntavam se Dan era gay. É óbvio que não haveria problema nenhum caso fosse, desde que não tivesse um crush em Xav ou Felix, porque aí, você sabe, seria bem esquisito.

“A escola abre em seis horas”, ele olhou para seu relógio, “dezessete minutos e cinco segundos. Quatro. Três.”

“Cala a boca”, retrucou Amber.

“Alguém aceita um Manhattan ?” Felix ofereceu a bandeja para Dan. “Duas doses de Bourbon, uma de vermute adocicado e uma pitada de licor de laranja para dar aquela incrementada.”

Felix fora o primeiro a completar 18 anos; os outros, cientes do seu amor por química, compraram de presente um conjunto de coquetel. Logo, preparar drinques se tornou sua nova paixão, a qual encarava com seriedade e amor.

Talitha fez que não quando chegou sua vez; de todo o grupo, era a que menos bebia. Numa conversa específica, quando ela não estava por perto, os outros se perguntaram se seria por causa de algum senso de responsabilidade — afinal, estavam quase sempre na casa dela. “Mé…”, Felix falara com desdém. “Ela tá pouco se fodendo se tiver algum prejuízo por aqui — ela gosta é de se sentir no controle da situação.”

As luzes do terraço se apagaram, deixando o jardim na completa escuridão, exceto pelo brilho azul-turquesa da piscina. Cinco pares de olhos detiveram-se na esbelta figura, pálida como o luar, a deslizar contra os ladrilhos no fundo das águas. O maiô de Megan era de um rosa delicado e dava a impressão de que a garota nadava nua.

“Sou só eu, ou ela anda meio esquisita ultimamente?” Felix agachou-se na beira da piscina para observar a sexta e mais peculiar integrante do grupo. Havia algo de sublime na forma como a garota se movia na água sem mover os braços ou pernas.

“É só a Megan, ela sempre foi esquisita”, respondeu Amber.

“É, só que mais do que o normal.”

“Ela tá mais calada”, observou Daniel.

“Ela sempre foi calada”, insistiu Amber.

Megan flutuou para a superfície. O aclive das nádegas e omoplatas apareceu uma fração de segundo antes de ela ficar em pé. Água correu pela pele que se tornara turquesa na luz da piscina. Ela quase parecia uma sereia, se sereias tivessem cabelo curto e loiro prateado. Talvez aquelas sereias fatais, que atraem e matam marinheiros desavisados. Calada e nunca transparecendo seus pensamentos, Megan estava longe de ser uma sereia do tipo bondosa ou que ajudaria humanos.

“Seis horas e quinze minutos”, Daniel a avisou.

“Olha o barulho”, reclamou Talitha. “Se acordarmos minha mãe, ela vai mandar todo mundo ir dormir.”

“É, Dan, cala a boca. ” Amber correu para os degraus da piscina. “Eu sei que me ferrei em teologia.” Ela segurou uma toalha aberta para Megan se cobrir. Talvez tenha feito isso por gentileza e não apenas para esconder o corpo de sua amiga da visão de Xav.

“Ninguém consegue se ferrar em teologia”, argumentou Felix.

“Ela quer dizer que tirou um B”, ponderou Xav.

“Realmente, pra uma prova de teologia, qualquer coisa menos que um A é se ferrar com Deus.”

Amber mostrou o dedo do meio para Felix.

“A gente devia ir dormir.” Megan andou em direção à espreguiçadeira onde deixara suas roupas e começou a colocá-las. “Logo, logo chega o horário dos resultados.”

“Essa é a última coisa que a gente devia fazer.” Escorregando novamente para o lado de Xav, Amber aninhou o rosto no pescoço dele. “Eu quero enrolar o máximo que der.”

“Vocês dois podiam transar. Vai dar uns dois ou três minutos a menos de espera”, disse Felix.

Daniel riu. É possível que Megan também tenha dado uma risadinha, porém escondeu muito bem.

“Se um de nós não conseguir boas notas, talvez não dê para ir pra casa da Tali no sábado”, falou Daniel.

“Como assim?”, questionou Xav, olhando por cima do ombro de Amber.

“Se não conseguirmos notas boas, precisaremos passar pelo processo de verificação para uma nova universidade. Não dá pra fazer isso na Sicília.”

“Pode não parecer, mas tem telefone na Sicília também”, declarou Talitha, afrontada.

“Só estou falando, acho que vamos precisar estar aqui para, você sabe, bolar um plano B.”

Felix, que já matara toda a sua bebida, se levantou. “Não somos o tipo de pessoa que bola um plano B”, anunciou ele. “Vamos todos tirar notas boas. E eu sei como podemos matar o tempo. Dan, você tá muito bêbado?”

Dan balançou a mão direita num sinal de mais ou menos .

“Consegue dirigir?”, perguntou Felix.

“Não mesmo”, respondeu Megan de sua espreguiçadeira.

“Ele é o único de nós que ainda não fez”, disse Felix. “Vai, Dan, você não quer ser o único frouxo do grupo.”

Megan não se deu por vencida. “A gente disse que ia parar.”

“É sua última oportunidade.” Felix pescou a cereja em seu copo vazio e a engoliu. “Amanhã e na sexta, vamos passar festejando com a família. E, no sábado, viajamos de manhã cedinho.”

“Eu faço quando a gente voltar.” Dan se deitou na espreguiçadeira, porém os olhos permaneceram abertos em alerta.

Felix balançou a cabeça. “Não vai dar tempo. Eu estou indo pros Estados Unidos, e a Tali vai ficar na Ilha da Máfia até o final de setembro.”

“Se você disser ‘Ilha da Máfia’ na frente do meu vô, vai amanhecer boiando de barriga pra baixo na piscina”, disparou Tali.

“O que provaria que estou certo”, rebateu Felix enquanto caminhava na direção de Talitha.

Tali era alta, porém todos se tornavam um anão perto de Felix. Ela deu um passo para trás a fim de manter o contato visual. “E, no seu funeral, a gente coloca no epitáfio que você era um espertalhão de merda.”

“Qual é!” Felix a segurou pelas mãos e simulou que a levava em direção à entrada da garagem. “É a nossa última chance de nos divertirmos de verdade. ”

“Não é uma boa ideia”, comentou Megan. “Nas outras vezes, estávamos sóbrios.”

“Falei pra vocês que ela anda meio esquisita”, resmungou Felix, após um olhar de rancor para Megan.

“Eu não estava sóbria”, afirmou Amber.

“Você nunca está sóbria”, retrucou Felix. “Bora, galera, vai levar no máximo uma hora, e o Dan vai se tornar oficialmente um homem.”

“Já falei que ainda nem peguei minha carta”, contestou Daniel.

“Ah, como se isso fizesse toda a diferença. ‘Tudo bem, seu guarda, sei que quebrei todas as regras do código de trânsito, sem mencionar diversas leis, mas olha, aqui está minha carteira de motorista. Podemos ir agora?’”

“Preciso dar uma distraída na mente. Você fica, Megan. Eu vou com você, Dan”, disse Amber, ao mesmo tempo que se levantava.

“Ou vai todo mundo, ou não vai ninguém”, retrucou Felix.

Xav se levantou. “Tô dentro.”

Talitha, Megan e Dan pareciam trocar olhares preocupados; Talitha deu de ombros, fingindo desinteresse. Daniel se levantou com uma expressão consternada, e Megan o seguiu. Quando Felix e Xav concordavam em fazer algo, esse algo acontecia. Era assim que as coisas funcionavam e ponto-final.

Como você pode ver, eles guardavam um segredo naquele verão.

Durante os anos seguintes, nas raras ocasiões em que conversavam a respeito, nunca entraram em consenso sobre como exatamente aquilo começou ou de quem foi a ideia. É possível que no começo ninguém tivesse a real intenção de pôr em prática; talvez fosse apenas uma coisa engraçada de se imaginar. O desafio mais descolado possível; simples e ainda assim tão louco, emocionante e perigoso. Ninguém sabia dizer quando as palavras se transformaram em ações, quando perceberam que ia mesmo acontecer. Tudo que sabiam era que, em determinado momento, estavam todos sentados em volta da piscina da casa de Talitha e, no momento seguinte, estavam acelerando, a 120 quilômetros por hora na contramão da rodovia M40.

A primeira vez ocorreu às três da madrugada. Felix estava ao volante — é claro que tinha que ser ele —, e ninguém viu outro carro passando. Demorou pouco mais de dois minutos, porque Felix dirigia como um maníaco pela pista central. Depois do primeiro minuto, quando nenhum deles disse nada, e todos encaravam a escuridão com olhos e bocas bem abertos, a A40 se transformou na M40. Aceleraram por mais um quilômetro e meio antes de Felix pisar com tudo no freio, fazendo o carro rodopiar, antes de entrarem na saída sete. Dois minutos de risco estúpido e sem sentido, e todos estavam de volta ao lado certo da lei. O interior do Golf Cabriolet da mãe de Felix se encheu com o alto barulho eufórico dos seis. Eles riram, gritaram e se abraçaram. Nenhum deles nunca se sentira tão vivo. Ninguém dormiu naquela noite; beberam e conversaram até depois do amanhecer. Não havia droga que pudesse ser comparada àquilo; eles sabiam que nunca se sentiriam daquela maneira novamente enquanto estivessem vivos. Foi um rito de passagem; uma aposta contra as probabilidades em que saíram vencedores. Eles eram especiais. Porém, até o barato mais forte de todos por fim acaba, e foi só uma questão de tempo até Xav também ter sua vez ao volante. Ele não foi tão sortudo quanto Felix. Ao alcançar a M40, a um pouco mais de 130 quilômetros por hora, Felix, que estava no passageiro, avistou as luzes

SHARON BOLTON UM PACTO DE SILÊNCIO

traseiras de um carro que seguia no sentido correto pela pista oposta. O outro veículo estava um pouco à frente deles, porém, à velocidade que estavam, o Golf o ultrapassaria em breve.

“Para o carro e volta!”, gritou Amber.

“Não, diminui um pouco. Eles podem pensar que saímos da curva e estamos atrás deles”, afirmou Daniel.

“Desliga o farol. Eles não vão ver a gente.” Felix se inclinou sobre o banco do motorista e desligou as luzes do farol.

A noite estava escura, cheia de nuvens e sem luar; o carro estava acelerando às cegas em direção ao vazio. Amber deu um grito, e Xav ligou as luzes de volta.

“Foda-se”, falou ele, pisando fundo no acelerador. O velocímetro subiu para 140, 145, 150. Xav se inclinou sobre o volante, como se tentasse fazer o carro ir ainda mais rápido. Todos os outros congelaram, silenciosos, virando a cabeça em sincronia para a esquerda enquanto alcançavam um grande sedã vermelho na pista oposta.

Como se seu instinto o alertasse, o motorista e única pessoa dentro do veículo se virou para eles. Ele voltou a visão para a frente, conferiu seu espelho retrovisor, então olhou novamente para o lado. O rosto era uma careta de incredulidade.

Felix ergueu a mão direita e acenou.

“Não ultrapassa”, avisou Megan, espremida no meio do banco de trás.

“Deixa o carro emparelhado com ele.”

“Por quê?” Xav ainda estava debruçado sobre o volante.

“Se você ultrapassar, ele vai ver o número da placa.”

“Tem uma luz à frente”, alertou Talitha. “Alguma coisa tá vindo na nossa direção.”

“Merda”, Xav virou o volante para a direita, em direção ao que deveria ser a pista lateral. A luz forte se aproximando estava bem acima do solo e bem distante. Era a luz de um veículo pesado.

“Dá tempo”, falou Felix, sua voz estava rouca de tensão. “A saída é logo ali.”

Xav freou, o carro ao lado seguiu em frente, e a luz que se aproximava ficava mais forte. Uma buzina, grave e enfurecida, rompeu com o som de pneu no asfalto. O ar dentro do carro parecia reverberar com aquele som.

“A saída!”, gritou Felix, enquanto a placa de sinalização, ilegível por estarem no lado oposto da faixa, se tornou visível contra o fundo de árvores e sebes. Xav virou o carro com tudo. Eles estavam indo rápido demais e iriam bater na grade metálica de proteção. Amber gritou. Talitha protegeu a cabeça com os braços. No último segundo, Xav consertou a direção do carro, e eles saíram da autoestrada.

Um mês se passou, e nada foi dito sobre as duas aventuras, até que, numa bela noite, Felix e Talitha tiveram uma discussão sobre mulheres e sua permissão nas forças armadas. Elas simplesmente não têm a coragem necessária, Felix usava de argumento. Para provar que estava errado, como ele tinha certeza de que ela faria, Talitha insistiu em repetir a façanha da autoestrada. Mais uma vez, eles se amontoaram dentro do carro da mãe de Felix — o único grande o suficiente para comportar todos os seis. Felix sentou no assento do passageiro; Megan, a menor deles, sentou no colo de Daniel. A essa altura, cada um tinha o lugar fixo, alternando apenas o condutor.

O percurso transcorreu sem incidentes, até Talitha entrar pela contramão da saída sete e se deparar com um carro da polícia rodoviária no acostamento da A329. Ela entrou em pânico, e o carro morreu.

“Anda logo”, exclamou Felix. “Senão, ele vem atrás do nosso pescoço. Liga esse carro e sai daqui.”

“E se ele viu?” O rosto de Talitha estava branco de medo. “E se mandarem a gente parar?”

“Se você não dirigir, é isso mesmo que vai acontecer.”

Talitha saiu dali, afastando-se do acostamento. Todas as cabeças no carro se viraram para ver a viatura policial, porém ela continuou onde estava. E essa foi a terceira vez que eles saíam ilesos.

Amber estava bêbada quando decidiu ir. Antes mesmo de a garota insistir que era sua vez, um acordo não falado fora instaurado de que, mais cedo ou mais tarde, todos se sentariam ao volante e realizariam aquela proeza por três minutos. Naquela noite, não avistaram outros veículos, e ainda bem, pois Amber certamente não conseguiria reagir a tempo.

Megan, para a surpresa de todos, se provou a mais calma ao volante. Durante as primeiras horas da madrugada de um domingo, ela entrou

na A40 e se deparou com as luzes de um farol ao seu encontro. Antes de qualquer um ter tempo para reagir, ela desviou em direção ao acostamento, pisou fundo no freio até o carro morrer e apagou o farol.

“Todo mundo se abaixa”, sussurrou ela enquanto escondia a própria cabeça debaixo do volante.

Assim que o outro veículo passou voando, ela voltou a ligar o motor e dirigiu a 120 ao longo da pista interna para saírem da autoestrada.

“Chega dessa brincadeira, né?”, sugeriu ela, quando todos voltaram para a casa de Tali. “A sorte sorriu pra gente nessa, mas sem chance de a gente se arriscar assim de novo.”

Abalados pelo medo, todos concordaram, e ninguém tocou no assunto novamente. Até a noite de hoje.

E agora, ao que tudo indicava, era a vez de Daniel.

Pouco depois das três da manhã, a rua que saía do bairro de Talitha estava tão vazia que não se enxergava vivalma. O carro andava com o teto retrátil aberto, pois Amber ainda se sentia enjoada. O ar noturno cheirava a madressilva, o que parecia um bom presságio; e a lama com estrume, o que não parecia algo tão bom.

Daniel era péssimo ao volante, mesmo dirigindo devagar. O carro acelerava aos trancos, e a direção pendia pros lados numa vã tentativa de consertar os solavancos. Quase acertaram uma parede na pequena ponte sobre o rio.

“Presta atenção.” Felix, como de costume, estava no assento do passageiro.

“Não estou acostumado com esse carro”, reclamou Daniel.

“Tá”, respondeu Felix, enquanto se aproximavam do cruzamento com a London Road. “Todo mundo sabe o procedimento se formos parados. Estávamos voltando pra casa da Tali. O Daniel não tinha certeza do caminho e se perdeu. Estamos todos um pouco bêbados, e ninguém prestou muita atenção. ‘Estamos extremamente arrependidos e envergonhados e nunca faremos isso novamente, seu guarda.’”

“Você não precisa fazer isso, Dan”, falou Megan sem ouvir uma resposta.

“Todo mundo de cinto?”, perguntou Xav.

“Se segura, Meg”, avisou Talitha.

“Sem pensar duas vezes, segue reto pela faixa do meio”, comentou Felix, ao mesmo tempo que Daniel virava à direita no cruzamento e dirigia pela estrada de acesso que os levaria para a A40. “Você vai ter que acelerar, tá muito devagar.”

Daniel aumentou a velocidade do carro para cinquenta por hora; a curva na estrada era fechada em direção ao sul, depois para o sudeste. A entrada correta — e única legalmente permitida — fazia quase uma volta completa em direção a Oxford. Continuando em rumo ao sudeste, a faixa se bifurcava com uma via de entrada para a A40 e outra de saída.

Divisas pretas e brancas surgiram, indicando que todos os veículos deveriam virar à esquerda, depois vieram as placas de entrada proibida que flanqueavam o lado direito da faixa. Era impossível ser mais claro sobre o lado que deveriam seguir. Daniel deu um gemido baixo.

“Segura a onda.” Felix se inclinou para a frente, como se esticasse o pescoço para dar uma olhada na pista que estavam prestes a entrar.

“Ai, meu Deus, odeio essa parte.” Amber afundou o rosto no ombro de Xav. Talitha se inclinou para agarrar o encosto de cabeça do assento de Felix.

“E vai”, disse Felix no momento crucial. O carro virou à direita, passou as placas de proibida a entrada e entrou na contramão da A40. A pista dupla sem iluminação à frente estava vazia.

“Graças a Deus, obrigada, Senhor”, balbuciou Talitha.

“Você vai ter que acelerar”, avisou Felix. O carro mal andava a cinquenta por hora. “São só quatro quilômetros. Vai levar menos de três minutos se você pisar fundo no acelerador.”

Com a mandíbula travada e sem piscar, Daniel pisou fundo no acelerador. O velocímetro subiu para 60 quilômetros por hora, 80, 90. A linha branca que dividia as pistas passava em rápidos flashes .

“Ninguém atrás”, avisou Megan.

“A gente tem que ir mais rápido.” Felix batia os dedos impacientes no painel como se fosse uma bateria.

“Tá devagar demais, Dan.” A voz de Xav estava angustiada pela tensão.

O câmbio berrou quando Daniel subiu a marcha de maneira desajeitada.

“Tem uma raposa. Cuidado com a raposa!” Amber apertou o ombro de Daniel.

“Puta que pariu, Amber!”, surtou Talitha.

“Tudo bem, tá tudo sob controle.” Daniel dirigiu para a pista mais próxima do canteiro central.

“A rodovia tá vindo aí”, anunciou Xav.

“Nunca mais eu faço isso”, Talitha se queixou.

“Quase lá”, falou Felix. “Muda para a pista central quando puder. Vai facilitar na curva.”

Talvez a curva na estrada tenha pegado todos de surpresa. Numa hora, tudo à frente estava escuro, e, no momento seguinte, uma luz cegante se aproximava em alta velocidade. Surgindo do nada, outro carro apareceu.

Amber deu um grito.

“O acostamento!”, berrou Felix.

Todos foram jogados para a frente pela brusca freada, enquanto o odor acre de fluido de freio preenchia o interior do carro. Felix tomou o controle do volante das mãos de Daniel, e o carro virou de súbito para a direita. Deveria ser o suficiente.

Porém, o outro carro copiou a manobra, como se um enorme espelho estivesse na frente deles. Ficaram a centímetros de colidir. Daniel congelou, encarando com os olhos esbugalhados.

Felix rodou o volante no sentido contrário. O carro deu um pinote e pareceu gritar. Puderam ouvir o guincho dos freios e o toque de uma buzina. A luz encheu o carro, iluminando seus rostos horrorizados. Houve uma fração de segundo de silêncio, então o outro carro se foi, e eles ficaram parados na estrada. O mundo havia parado de girar.

Minúsculos ruídos insistentes preencheram a noite, e levou algum tempo para perceberem que o som vinha do motor, como se ele protestasse diante do tratamento recebido. Atraída pelas luzes dos faróis, uma mariposa pousou no para-brisa, e, no meio do silêncio sepulcral, conseguiram ouvir seu gentil arfar de asas. O que foi que vocês fizeram?

O inseto parecia perguntar. O que foi que vocês fizeram?

“Merda.” Felix mergulhou a cabeça entre as mãos e falou por entre os dedos. “Tira a gente daqui, Dan. Agora.”

“Não batemos”, respondeu Daniel. “Aquele carro. A gente desviou dele, não foi? Alguém me fala que a gente desviou.”

“Ele bateu”, sussurrou Megan, como se, ao falar baixo o suficiente, tudo aquilo não passasse de imaginação. “Acertou uma árvore ou alguma outra coisa.”

Ninguém se moveu.

“Dan, a gente tem que sair daqui.” Felix o segurou pelo ombro. “Sai daí. Eu dirijo.”

Daniel não mostrou resistência aos chacoalhões de Felix. Seu corpo estava sem reação.

Xav se inclinou para perto do banco do motorista. “Dan, não dá pra ficar aqui. Alguém pode chegar.”

SHARON BOLTON UM PACTO DE SILÊNCIO

Talitha afastou a mão de Felix do ombro de Daniel. “Dan, por favor”, falou ela de maneira gentil. “A gente tá morto se ficar aqui.”

Daniel girou a chave na ignição. Nada aconteceu.

“De novo, tenta de novo”, gritou Felix.

Na segunda vez, o motor deu partida. Daniel manobrou o carro até o acostamento e o desligou.

“Que porra você tá fazendo?”, indagou Felix. “A gente tem que vazar daqui.”

O cheiro de borracha queimada no interior do carro era insuportável. Nenhum som se ouvia do lado de fora.

“Temos que ver se eles estão bem”, afirmou Amber.

“Tá maluca?”, Felix a interrompeu sem paciência. “A gente vai tomar no cu por causa disso. Dan, me dá as chaves.”

“A Amber tem razão”, concordou Xav. “Precisamos ir lá conferir.”

Dan olhou pelo retrovisor e fechou os olhos com força. Na pista oposta, um veículo entrou na autoestrada e passou acelerado.

“Vou lá ver.” Megan se sentou no painel lateral do carro. Ela balançou as pernas para tentar sair.

Devagar, sem conseguir focar direito e com os quadris trêmulos, Xav abriu sua porta. No lado oposto, Talitha fez a mesma coisa.

“Eu juro, se vocês saírem, deixo todo mundo aqui”, ameaçou Felix. “Meg, volta pro carro.”

“Eu vou”, voluntariou-se Xav. “Não deixem que ele vá embora sem mim.” Mas ele não saiu do lugar.

De repente, num movimento que surpreendeu a todos, Daniel saiu pela porta do motorista e permaneceu olhando em direção à estrada. Vendo uma oportunidade, Felix pulou para fora e contornou o veículo pela frente. Antes que o amigo alcançasse o assento do motorista, Xav se esticou para a frente e tirou as chaves da ignição. Por fim, ele próprio saiu do carro. Amber deslizou pelo banco e o seguiu. Do outro lado, Talitha fez o mesmo.

Os seis adolescentes, abatidos, encararam o desastre que haviam causado.

O outro carro, um Astra branco, estava a cerca de trinta metros de distância. As rodas traseiras ainda estavam no acostamento, mas a

dianteira desaparecera no matagal. Os faróis iluminavam a vegetação e o tronco de uma árvore.

A árvore parecia acusá-los, a sensação era que, se fechassem os olhos, poderiam ouvi-la gemer de dor. Então, o silêncio foi cortado pelo som de um grito do interior do carro. Parecia uma voz tênue, aguda e apavorada.

“Acho que é uma cri…” Amber parou, incapaz de terminar a frase. Xav caminhou em direção ao Astra.

“Me dá a chave”, exigiu Felix. “Xav, passa a chave pra cá, porra.”

Ignorando-o, Xav avançou mais um passo. Megan também, vendo a própria movimentação numa sombra vaga pela luz dos faróis. A gritaria parou, sendo substituída pelo som de batidas contra o vidro.

Xav pegou seu celular.

“O que você tá fazendo?”, exigiu saber Talitha.

“Precisamos de socorro.”

Colocando as mãos em volta, ela fechou o celular. “Não podemos chamar a emergência.”

“O Dan pode dar a volta com o carro”, sugeriu Xav. “Podemos falar que estávamos viajando pela pista certa e houve um acidente. Não sabemos como aconteceu.”

“O Dan tá bêbado”, observou Amber. “Ele vai acabar indo pra cadeia.”

“Talvez não.” Xav se afastou de Talitha. “E se for, será por um curto período de tempo. A gente pediu por isso, não tem como se safar dessa.”

“Fumaça”, sussurrou Megan. “Tem fumaça subindo do capô. Vai pegar fogo.”

“Tá legal, tá legal.” Felix se virou para encará-los, suas mãos estavam erguidas como se estivesse em rendição. “O plano é o seguinte. A gente vê se eles estão bem, e aí volta para o carro. Dirige até o orelhão mais próximo e chama uma ambulância de lá. Ninguém precisa se identificar.”

“Não dá pra deixar eles aqui”, ponderou Megan.

Felix se aproximou, e Megan desviou o olhar diante da expressão ameaçadora. “É bem provável que eles estejam bem.” Ele olhou nos olhos de cada um. “Foi só uma batidinha. Nem sequer acertaram a gente. Xav, eu e você vamos lá para dar uma conferida agora. Beleza?”

Sem tirar os olhos do Astra, Xav assentiu.

“Desliga o motor”, recomendou Talitha. “Vocês têm que fazer isso. É a ignição que solta faíscas.”

“Vai dar tudo certo, pessoal. É tranquilo.” Felix colocou a mão no ombro de Xav. “Voltem pro carro e esperem por nós. Dan, senta atrás. Eu volto dirigindo.”

Daniel e as garotas permaneceram onde estavam, enquanto Felix e Xav andavam em direção ao carro. Eles percorreram metade da distância quando uma erupção brilhante de fogo surgiu no capô do carro.

Talitha deixou escapulir um gemido de aflição. Um segundo depois, o tanque de combustível do Astra explodiu.

SEIS AMIGOS, TRÊS MORTES E UM PACTO DE SILÊNCIO COM HORA MARCADA PARA TERMINAR.

Um verão promissor que se tornou um pesadelo eterno. Seis adolescentes privilegiados decidiram festejar sua última noite antes da universidade, mas uma brincadeira idiota resultou em tragédia. Diante do pânico de todos, Megan, a garota mais talentosa do grupo, propôs assumir toda a culpa, libertando os amigos para seguir suas carreiras. Em troca, cada um concordou em lhe dever um “favor” após sua libertação da prisão. Agora, chegou a hora de cobrar o preço.

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