

NOELLE W. IHLI








ESPECIALISTAS LITERÁRIAS NA ANATOMIA DO SUSPENSE
ask for andrea
Copyright © Noelle West Ihli, 2022
Quaisquer referências a eventos históricos, pessoas reais ou lugares reais são utilizadas de forma ficcional. Nomes, personagens e lugares são produtos da imaginação da autora.
Tradução para a língua portuguesa © Débora Isidoro, 2025
Diretor Editorial
Christiano Menezes
Diretor de Novos Negócios
Chico de Assis
Diretor de Planejamento
Marcel Souto Maior
Diretor Comercial
Gilberto Capelo
Diretora de Estratégia Editorial
Raquel Moritz
Gerente de Marca
Arthur Moraes
Gerente Editorial Bruno Dorigatti
Editor Paulo Raviere
Editor Assistente Lucio Medeiros

Capa e Projeto Gráfico Retina 78
Coordenador de Diagramação
Sergio Chaves
Designer Assistente Jefferson Cortinove
Preparação
Marta de Almeida Sá
Revisão
Liana Amaral
Gabriela Mekhitarian
Finalização
Roberto Geronimo
Marketing Estratégico Ag. Mandíbula
Impressão e Acabamento Braspor
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Jéssica de Oliveira Molinari CRB-8/9852
Ihli, Noelle W. Chame por Andrea / Noelle W. Ihli ; tradução de Débora Isidoro. –– Rio de Janeiro : DarkSide Books, 2025. 256 p.
ISBN: 978-65-5598-565-8
Título original: Ask for Andrea 1. Ficção norte-americana 2. Suspense I. Título II. Isidoro, Débora
25-3462
CDD 813
Índice para catálogo sistemático: 1. Ficção norte-americana
[2025]
Todos os direitos desta edição reservados à DarkSide® Entretenimento ltda Rua General Roca, 935/504 – Tijuca 20521-071 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil www.darksidebooks.com

NOELLE W. IHLI
CHAME ANDREA
POR

TRADUÇÃO DÉBORA ISIDORO



Eu vou te assombrar (mas só porque te amo).
Para Nate.




1
MEGHAN
MONTANHAS OQUIRRH, UTAH
um ano antes
Apesar do peso esmagador do homem em cima de mim, meu cérebro gritava me dizendo para eu correr.
Corre , meu cérebro dizia, enquanto ele grunhia e apertava o cachecol — meu cachecol — em torno do meu pescoço.
Entretanto, em vez de correr, fiquei paralisada, como um rato sob a pata de um gato, até que a pressão e a dor desapareceram de repente.
Ele me olhou por alguns segundos enquanto se levantava, com a boca encurvada numa expressão de desgosto. Estava ofegante. Seu rosto pálido pairava sobre o meu na escuridão; a pinta singular em uma bochecha lembrava um ponto final rígido.
Ele deixou o cachecol rosa esverdeado cair no chão ao meu lado.
Corre , meu cérebro rugiu de novo. corre!
Continuei imóvel. Nem piscava.
Ele se virou para o carro que havia estacionado de maneira precária no acostamento da estrada esburacada de terra.
Só conseguia imaginar o que ele havia deixado no porta-malas. Porém eu sabia que, se não me mexesse, eu acabaria descobrindo.
E foi então que, enfim, eu corri; corri como um raio para as sombras dos pinheiros, onde havia muitos esconderijos, embora não houvesse segurança.
NOELLE W. IHLI CHAME POR ANDREA

Desci escorregando por uma margem íngreme para um leito seco de rio, correndo ainda mais e me esforçando para não cair. Já nem sentia mais a dor no pescoço.
Não sabia para onde estava indo. Tudo o que eu sabia era que precisava estabelecer a maior distância possível entre mim e o impecável Kia Sorento azul. E, o mais importante, eu precisava me afastar do homem elegante de fala mansa que o dirigia, o Agulha — foi assim que o nomeei quando contei a Sharesa sobre nosso encontro iminente. A agulha no palheiro de solteiros do aplicativo MatchStrike: pais divorciados com filhos, acordos complicados de guarda e as fotos constrangedoras no banheiro de academia.
Jimmy era diferente. Com aqueles olhos escuros num tom de âmbar, a barba bem aparada cobrindo o queixo anguloso e um corte de cabelo de risca definida, ele era quase um sósia de Chris Hemsworth.
Quando mostrei sua foto para Sharesa, ela gritou de verdade.
Por outro lado, eu tentava segurar as expectativas. Essa cena dos relacionamentos online não era nova para mim. Depois do meu plantão, peguei um Uber para o Gracie’s Spot, em Salt Lake, e me preparei para conhecer o primo esquisito do Chris Hemsworth. Até mandei uma mensagem para Sharesa quando estava a caminho. Liga para mim em uma hora com uma boa desculpa? Vi os pontinhos aparecerem logo depois de tocar em enviar. Qual é? Você sabe que está sedenta. Revirei os olhos. Mais pontinhos. Eu ligo <3.
Ficamos conversando em uma mesa no fundo do Gracie’s até o bar fechar, às onze da noite. Fui ao banheiro e mandei uma mensagem para Sharesa avisando que, enfim, eu não precisaria de resgate.
Ela respondeu no mesmo instante, como de costume: Sedeeenta. Eu estava lavando as mãos quando um papel preso no espelho do banheiro chamou minha atenção. “Seu encontro não está indo bem? Está se sentindo em perigo ou um pouco incomodada? Mande chamar Andrea no balcão. Vamos garantir que você chegue em casa segura.” Sorri e enxuguei as mãos, sentindo-me grata por não precisar perguntar quem era Andrea. Não nessa noite. Não por causa dele.
Parei de olhar para o papel e observei meu reflexo no espelho. Tinha dedicado mais tempo ao cabelo, que costumo manter reto e solto sobre


os ombros. Mais cedo, eu tinha criado ondas que pareciam fios de ouro à luz do restaurante. Retoquei o batom rosa-escuro que havia se tornado minha marca registrada ao longo dos anos e comprimi os lábios, imaginando se ele me beijaria mais tarde.
Bebi duas cervejas durante a noite. Não o suficiente para me deixar bêbada, nem perto disso. Apenas o bastante para me ajudar a relaxar. Porque, na verdade, ele não parecia o primo esquisito do Chris Hemsworth . Era atencioso e divertido. Até a pinta grande na bochecha o deixava mais atraente.
Ele bebeu ginger ale. Isso não me abalou. Eu morava em Utah, afinal. A última coisa de que me lembro é que eu me senti meio quente demais. E muito, muito feliz. As luzes coloridas brilhando nos modernos lustres sputnik pareciam, de repente, ter auras. Então, quando ele se propôs a me levar para casa, em vez de ficar esperando um Uber no frio, eu nem hesitei.
Os bancos tinham aquelas coberturas de papel amassado, como se o carro tivesse sido lavado há pouco tempo.
Essa é a última coisa de que me lembro. Até acordar com as mãos dele — e meu cachecol — apertando meu pescoço. As luzes alegres do Gracie’s haviam desaparecido; tinham sido substituídas pelo cheiro fresco dos pinheiros, pela terra sob meu cabelo e pelo redemoinho escuro do ar gelado da noite. Por alguns instantes, não consegui entender o que estava acontecendo. Não conseguia gritar. Não conseguia me mexer. Não conseguiria nem dizer onde estava. Só sabia que tudo em mim doía.
A lembrança do nosso encontro rompeu a névoa quando vi os olhos dele brilhando em cima de mim. Não eram mais afetuosos nem cor de âmbar, como os vi à mesa do Gracie’s. Esses olhos eram frios. Estavam arregalados. E cheios de fúria.
Pensei no papel no espelho do banheiro do Gracie’s . Mande chamar Andrea.
Andrea não poderia me ajudar agora. Ninguém poderia.
Eu me movi mais depressa do que jamais havia me movido na vida; nem me lembrei do latejar na cabeça e no peito e da pressão esmagadora do cachecol.
Não interessava para onde eu iria. Tudo o que importava era estabelecer a maior distância possível entre nós, mesmo que para isso eu tivesse que correr para dentro do bosque assustador.
Pensei ter ouvido alguém gritar quando me lancei correndo pela margem rochosa do leito do riacho raso. Parecia uma voz de mulher.
Ignorei o chamado e continuei correndo.
Ele não me seguiu. Não precisava.
Porque, quando parei de correr, percebi, assombrada, que não estava ofegante.
Com a mesma velocidade, o assombro se transformou em horror.
Eu não estava ofegante porque não estava respirando.



BRECIA
BOULDER, COLORADO
dois anos antes
Percebi que estava morta da mesma maneira que você percebe que estava sonhando, antes de acordar. Só que de trás para a frente, acho. Porque o pesadelo foi real.
De início, eu não sabia que havia acontecido. Pelo menos durante alguns segundos. Não até me levantar — enquanto meu corpo inteiro continuava imóvel. Olhei para o pijama de cambraia macia que havia vestido ao chegar em casa, ao voltar do trabalho, que agora estava sujo e úmido. Uma das minhas pantufas tinha sido chutado, então, dava para ver o esmalte cor de pêssego descascado nas unhas do meu pé descalço. Meu cabelo comprido e escuro estava coberto com alguma coisa mais escura ainda e pegajosa. Eu não sentia mais o latejar na cabeça ou a horrível pressão no pescoço.
Ele também estava olhando para mim. Não para mim , eu. Para o meu corpo. Para meus olhos cor de avelã, injetados de sangue, que não piscavam. Ele respirava com dificuldade, inexpressivo. Ainda segurava o fio da extensão.
Tinha deixado crescer uma barba tipo Joaquin Phoenix que quase disfarçava a pinta escura na bochecha, mas não a escondia por completo . A mudança o fazia parecer dez anos mais velho do que na última vez que o vi. Se ele usasse essa barba naquela época, talvez não tivéssemos
NOELLE W. IHLI CHAME POR ANDREA

saído. Não me entenda mal: adoro uma barba por fazer, mas essa coisa era quase um ninho de passarinho. E o rebaixava de uma nota nove confortável para um belo de um três.
Um ano atrás, tínhamos namorado por uma semana. Como sei disso? Porque ele ficou chateado quando passei nosso “aniversário de uma semana” com minhas amigas. Não consegui entender por que isso o incomodou tanto. Era aniversário da Lanelle. E, como já disse, estávamos juntos havia uma semana. Mesmo assim, falei sobre ele o tempo todo. Não tinha namorado muito desde o fim do último relacionamento, dois anos antes, e era bom voltar a falar a palavra “namorado”. Foi bom responder a todas as perguntas picantes regadas a margaritas de melancia sobre se ele beijava bem (sim), se era bom de cama (não sabia, estávamos só começando) e como nos conhecemos. Essa última pergunta foi mais complicada de responder. Não me orgulhava de, enfim, ter atingido o grau de desespero necessário para criar um perfil no MatchStrike. Por isso, me esquivei da pergunta. Decidi que, se a gente durasse, eu confessaria.
Quando o encontrei a caminho da saída do restaurante depois da festa de Lanelle, não soube o que pensar, de início. Ele sorriu aquele sorriso bonito e agiu como se tudo fosse uma coincidência maluca. E foi assim que contei a história do encontro para Lanelle e minhas outras amigas. Pude perceber que elas o acharam fofo. Que eu tinha me dado bem. Então, ignorei a sensação desagradável no estômago enquanto tentava me lembrar se havia mencionado o nome do restaurante mais cedo. Tinha certeza absoluta de que não havia falado nada.
Aceitei a carona dele para casa, embora isso me obrigasse a deixar meu carro no estacionamento do Barbacoa. No começo, ele só parecia feliz por me ver. Mas, quando lhe perguntei quem havia ido encontrar no Barbacoa, ele meio que mudou de assunto. Então, perguntei de novo. E foi nesse momento que do nada ele explodiu.
Falou sem parar sobre o fato de eu o ter dispensado para sair com minhas amigas. Depois, me acusou de não ter ficado feliz por encontrá-lo no restaurante.
Mais tarde, naquela mesma noite, mandei uma mensagem para ele dizendo que achava que era melhor terminarmos tudo. Ele tentou me


ligar no mesmo instante. Não atendi, e ele ligou de novo. E de novo. Pus o celular no modo avião e fui dormir, ainda sentindo o efeito das margaritas de melancia e arrependida por não ter esperado mais para falar sobre ele com as garotas.
Na manhã seguinte, quando acordei, tinha 22 mensagens esperando por mim no celular. Começaram doces. Ele havia tido um dia terrível e só queria me ver. Entendia por que fiquei chateada. Podíamos tentar de novo? Quando cheguei à última mensagem, eu era uma vadia gorda. Uma vadia gorda que havia desperdiçado o tempo dele. Assim que terminei de ler essa mensagem, chegou outra. Ele podia ver que eu tinha lido as mensagens, então, por que eu não respondia? Eu tinha desperdiçado seu tempo, partido seu coração e, agora, nem respondia às mensagens.
E elas continuaram a chegar durante os três dias seguintes, embora eu não as respondesse. Por fim, bloqueei o número dele e denunciei seu perfil no MatchStrike, intencionando poupar outras garotas de viver o mesmo problema.
Quando as mensagens pararam de chegar, eu me esqueci dele. Redecorei meu duplex. Mudei de emprego e consegui um salário melhor. Cortei uma franja e fiz luzes no cabelo. Apaguei o perfil no MatchStrike depois de um punhado de esquisitos que não passaram nem do segundo encontro. E adotei um gato — um pestinha chamado Frank. Portanto, quando saí de pijama naquela noite para levar o lixo na rua, ele era a última pessoa que eu esperava ver.
A princípio, nem o reconheci com aquela barba horrorosa. Ele estava lá parado de um jeito quase casual, como se, talvez, tudo não passasse de uma coincidência. Como naquela noite no Barbacoa. Mas dessa vez ele estava no meu quintal lateral. Atrás da minha cerca.
Quase gritei. Só me contive quando reconheci seus olhos. Sendo bem honesta, fiquei um pouco aliviada quando vi que não era um desconhecido.
E depois fiquei furiosa. Fazia um ano. Qual era a porra do problema desse cara, para aparecer desse jeito? E me assustar assim? Ele achava que agora eu o aceitaria de volta?

Foi quando ele mostrou o fio da extensão. Da minha extensão. Eu o reconheci em câmera lenta quando ele começou a se aproximar de mim. Ainda não havia me lembrado de levar o fio para dentro, depois de usá-lo para ligar as luzes de Natal, que, por fim, me convenci a instalar.
Se quer saber, estrangular alguém é um negócio que leva tempo. Ouvi isso uma vez em um episódio de Investigation Discovery . Posso dizer que demora ainda mais quando é você quem está sendo estrangulada. Minha garganta pegava fogo. Minha cabeça pegava fogo. Meu peito pegava fogo. Até meus olhos pareciam estar queimando. Eu não conseguia emitir nenhum som. Não enxergava nada, e as lágrimas escorriam por meu rosto.
Acho que para ele também estava demorando demais. Porque, no fim, ele bateu minha cabeça no chão de cimento. Depois disso, tudo escureceu. O fogo insuportável se apagou de repente, desapareceu junto com o frio no ar e a sensação do chão molhado, áspero.
Quando vislumbrei pela primeira vez, bem, eu ainda não sabia bem como chamar aquilo… Minha alma? Meu espírito? Meu eco? Foi mais ou menos como olhar para o meu reflexo no espelho. Eu não flutuava na brisa, nada disso. Não era transparente. Só não estava mais viva. Ainda usava o pijama e o chinelo, mas estavam limpos, como alguns minutos antes.
Assim que percebeu que eu estava morta — o que aconteceu um minuto depois que eu mesma percebi que estava morta —, ele saiu correndo pelo portão dos fundos. Fiquei em pé ao lado do meu corpo e da lata de lixo que havia acabado de tirar da garagem.
Fui atrás dele, e logo descobri que conseguia acompanh á-lo com facilidade — algo que jamais poderia ter dito sobre mim mesma enquanto estava viva. Cheguei a segurar seu braço e vi meus dedos tocarem de leve seu ombro. Esperava que eles passassem direto, que atravessassem seu corpo.
A rigor, não se pode dizer que ele não reagiu, mas passou a andar mais depressa na calçada escura, até chegar ao Kia azul que havia deixado no fim da rua.
Quando ele abriu a porta do motorista, mergulhei de cabeça dentro do automóvel. Não ia correr o risco de deixá-lo escapar, se aquela porta batesse na minha cara.


Quando o vi entrar apressado no carro, soube que não podia fazer nada pela garota caída no chão com sangue no cabelo. Não podia fazer nada por Frank, que talvez ainda estivesse dormindo na grande poltrona estofada no meu quarto.
Ninguém me procuraria esta noite. Ninguém perceberia o meu desaparecimento, muito menos que eu estava morta, não até a manhã seguinte, quando sentissem minha falta no trabalho. Ninguém poderia fazer nada para me ajudar agora.
Antes de ligar o carro, ele usou um pacote de lenços umedecidos para limpar as mãos. Com cuidado. De um modo quase delicado. Como se não tivesse acabado de usá-las para enrolar um fio sujo de extensão em volta do meu pescoço ao lado da minha lata de lixo, no meu quintal lateral, até conseguir me fazer parar de respirar.
Quando penso nisso agora, sei que foi nesse momento que decidi que ia assombrá-lo.
Eu o observei do assento do passageiro enquanto ele dirigia. Seus olhos cor de âmbar, negros na escuridão do carro, permaneciam atentos à rua enquanto ele percorria o trajeto de vinte minutos até sua casa.
Não era o apartamento sobre o qual ele me falou no ano anterior — onde alguém com quem ele dividia o espaço costumava deixar as meias na cozinha. Em vez disso, era uma casinha térrea de tijolos no estilo da década de 1970 em Broomfield, com uma lâmpada queimada na varanda.
Eu o segui pela calçada interna até a casa, passando por um triciclo caído sobre um canteiro de flores dominado pelo mato e um emaranhado de Barbies seminuas nos degraus da entrada.
A única lâmpada acesa na varanda piscou quando ele girou a maçaneta e entrou na casa, fechou a porta e me deixou do lado de fora, onde passei um tempo olhando para os brinquedos e para a profusão de azaleias nos canteiros que eu sabia que ele não tinha plantado.
Depois que ele entrou, descobri que não era capaz de atravessar a porta fechada. Então, fiquei feliz por ter entrado no carro quando tive chance.
Fiquei do lado de fora, na varanda, durante algum tempo, porque, apesar de todos os filmes de terror a que tinha assistido, eu não tinha nenhuma informação útil sobre estar morta. Eu poderia fazer a maçaneta

se mover, se me concentrasse de verdade? Não. O que aconteceria se eu gritasse? Tentei. Eu me ouvia bem, mas, considerando a reação do homem que passava pela rua com o cachorro, ninguém mais me ouvia.
Bem, não foi bem assim. O cachorro, um schnauzer cinza, parou e olhou diretamente para a varanda.
Senti uma ponta de esperança. “Ei, amig ão! Oi! ” O schnauzer rosnou baixinho. Farejou o chão. Depois, continuou andando. O dono nem desviou o olhar da luz azulada da tela do celular.
Dei as costas para o cachorro inútil e me sentei na escada da varanda. Observei minhas mãos — o reflexo das minhas mãos. Vi como elas descansavam sobre o reflexo dos meus joelhos. O modo como meus pés repousavam sobre o concreto rachado. Quase sem tocar o chão, como se eu fosse feita de alguma coisa pouco mais pesada que o ar.
Tentei afastar uma folha no degrau e a vi se mover de uma forma quase imperceptível, tanto que nem saberia dizer se tinha sido a brisa da noite.
Você está morta , eu disse a mim mesma com firmeza. Pode ficar triste.
Quando minha tia preferida morreu em um acidente de automóvel, o amortecimento da negação durou uma hora. Foi um choque muito grande. Não consegui absorver o impacto. Quando a realidade, por fim, se impôs, tive a sensação de que todo o ar deixava meu corpo. Foi esse o sentimento. Entretanto, dessa vez, a coisa horrível havia acontecido comigo. Vi silhuetas turvas se movendo atrás do vidro granulado da janela da cozinha, acima do canteiro de flores. Pisei nas azaleias e vi meu reflexo se fragmentar pelos espaços entre as plantas. Elas não se moviam. Eu me movia.
Teria sido algo muito fascinante, caso eu não tivesse acabado de ser assassinada; no entanto, aquilo me deu uma ideia. Eu não conseguia atravessar paredes. Nem segurar nada. Era como se tivesse o poder do ar noturno. Não do vento, nem isso. Do ar.
Passei um tempo pensando nessa ideia, vendo as folhas das azaleias dançando com a brisa leve. Levantei a mão e tentei agarrar algumas flores no arbusto mais próximo. Dessa vez, observei com mais atenção quando minha mão escorregou como fumaça entre dois grandes botões cor-de-rosa.
Não era vento; era ar. Mas o ar podia ir aos lugares. E isso me deu uma ideia.


Contornei a casa até encontrar o portão lateral, que estava fechado. Dali eu podia ver o quintal que ladeava a casa e as latas de lixo através das ripas. Foquei o ar entre as ripas e segui em frente.
Atravessei a cerca com facilidade.
Olhei para uma portinhola de gato meio aberta na entrada da garagem. Passei por ela também. Nenhum problema.
A luz estava acesa, iluminando uma garagem bem-organizada e algumas fileiras de caixas empilhadas de um lado e uma minivan do outro. Olhei rápido para as caixas. Estavam etiquetadas: cozinha, banheiro, quarto etc. Um rolo de etiquetas e um marcador permanente tinham sido deixados em cima da caixa no alto da pilha.
Ele estava se mudando.
Ouvi um barulho atrás de mim e me virei a tempo de ver um gatinho malhado entrar na garagem pela portinhola.
“Oi, gatinho”, falei em voz baixa, e juro que ele se sentou e olhou direto para mim por alguns segundos, antes de se acomodar na frente de uma tigela com comida para gato. Eu o segui e me abaixei ao lado dele, enquanto o gato comia. Pensei em Frank e em seu miado melódico. Ele devia estar arranhando o carpete ao pé da escada em sinal de protesto por ainda não ter sido alimentado.
Eu sabia que não podia chorar lágrimas de verdade. Mesmo assim, senti o ardor familiar no fundo dos olhos e a tristeza se espalhando dentro de mim. Nunca mais sentiria o pelo macio embaixo do queixo de Frank, nem ouviria seu ronronado rouco quando ele se deitava ao meu lado na cama e fechava os olhos.
Esse sentimento cresceu, e eu ouvi um estalo abafado antes de a garagem mergulhar na escuridão.
Paralisada, ouvi o chiado baixo do filamento na lâmpada.
“Acho que eu fiz isso”, cochichei para o gato, que continuou comendo. Havia pequenos pontos de luz em volta da porta de entrada da casa dele. Caminhei até lá e ouvi vozes abafadas vindas de lá de dentro.
Uma hora atrás, ele havia tirado tudo o que eu tinha.
Eu não sabia como, mas jurei que retribuiria o favor.

NOELLE W. IHLI CHAME POR ANDREA
3 SKYE
KUNA, IDAHO
agora

Naquele verão, ele ia muito ao café Daily Grind quando eu estava de plantão. Isso não me incomodava. Eu até esperava animada, na verdade. Ele me dava gorjetas. Era bonitinho. Um dos poucos brancos em Idaho que não tentava puxar conversa para descobrir de onde eu era de verdade , nem aproveitava a oportunidade para testar seu espanhol ruim.
(Para decepção de minha mãe, fiz apenas um ano de espanhol como matéria eletiva no fim do ensino fundamental.)
Ele me chamava de “Dolly”, porque eu usava uma camiseta da Dolly
Parton na primeira vez que ele entrou e pediu um chocolate quente. Nunca bebia café. Sempre chocolate quente. Isso era um pouco incomum, então, eu me lembrava do pedido. Comecei a desenhar uma carinha sorridente no copo, ao lado do nome dele. James.
“Obrigado, Dolly”, ele sempre dizia com um sorriso que me fazia corar. E eu, é claro, murmurava alguma coisa acanhada e me afastava para ir preparar o próximo pedido. Seus olhos cor de âmbar — juro, pareciam ser de ouro escuro, líquido — me seguiam, mas eu fingia não notar.
Ken, o gerente, brincava comigo de vez em quando por causa disso. Falou que eu deveria anotar meu número de telefone no copo, na próxima vez que ele aparecesse. “O cara do chocolate quente que é a


cara do Chris Hemsworth está flertando com você”, Ken comentou, arqueando as sobrancelhas. “A bola está no seu campo, pão de mel.”
Quase segui sua sugestão. Pensei nisso algumas vezes enquanto torrava o bagel de um cliente ou acrescentava 5,5 doses de calda de caramelo ao frappuccino de alguém. Era constrangedor admitir — até para mim mesma — que nunca tinha ido a um date de verdade, muito menos tomado a iniciativa para isso. Dizia a mim mesma que a faculdade serviria para isso. Quando chegasse lá, no outono, trocaria de pele, de algum jeito, e me libertaria da timidez ao passar pela entrada do campus da Idaho State University.
Não era incomum vê-lo três ou quatro vezes por semana naquele verão; no entanto, algumas semanas antes da data marcada para a minha partida para a isu, ele sumiu. Senti uma tristeza estranha por causa disso, como se tivesse perdido minha oportunidade, ou coisa parecida. Imaginava o rosto dele enquanto trabalhava, melancólica por pensar que, talvez, nunca mais o veria. Ele aparentava ser bem mais velho que eu, devia ter quase trinta. Mas era tão bonito com aqueles olhos cor de caramelo, o cabelo escuro e a pinta que lhe dava um ar dramático de celebridade, que eu nem me importava com isso.
Tive a sensação de que era o destino em ação quando, no último dia de trabalho antes de eu partir para a isu, ele passou pela porta com aquele sorriso largo e pediu o de sempre. Senti o rosto esquentar enquanto tentava me convencer a anotar meu número no copo de chocolate quente. Disse a mim mesma que seria um treino, acho. Para provar que estava pronta para a faculdade (não estava). Mas amarelei. Eu iria embora em dois dias, então de que adiantaria?
Contei para ele que aquele era meu último dia de trabalho. Disse a ele que era quase certo que não nos veríamos de novo no Daily Grind. Tive a impressão de que a notícia o deixou desapontado de verdade num primeiro momento, mas depois ele deu de ombros. “Bem, vou sentir sua falta, Dolly.”
Meu rosto ficou ainda mais quente, e eu fingi que a máquina de expresso estava vazando até ele ir embora. Idiota , disse a mim mesma. Eu me lembrava das palavras ofensivas em espanhol.
Terminei meu turno às quatro horas e entreguei o meu avental e o crachá de funcionária. Abracei Ken e prometi a ele que mandaria mensagens. Então saí e caminhei em direção ao ponto de ônibus. Estava prestes a tocar na setinha verde e mandar uma mensagem para minha mãe, para falar sobre o jantar — “ pupusas em nosso food truck preferido?”; eu não tinha almoçado e estava faminta —, quando vi um carro reduzir a velocidade ao meu lado no estacionamento do shopping. Era ele.
Ele olhou para mim com aquele sorriso, como se estivesse tão surpreso quanto eu. Como se fosse o destino. Então, disse: “Oi, Dolly. Quer uma carona?”.
Nem hesitei. O universo me dava uma segunda chance, depois de eu ter estragado tudo mais cedo — e todas aquelas outras vezes. Ignorei com facilidade minha voz interior que perguntava baixinho o que ele ainda estava fazendo no shopping deserto, duas horas depois de que o vi pela última vez.
“É claro, por que não? ”, respondi, satisfeita com minha voz firme, apesar de sentir o coração batendo forte no peito. Não é nada muito importante , disse a mim mesma. Ele não é um desconhecido. Ajeitei meus cachos, que estavam caóticos, como sempre depois de um dia de trabalho.
Em seguida, entrei no Kia azul e afivelei o cinto de segurança.
“Não quer comer alguma coisa antes?”, ele perguntou.
Senti meu coração se acalmar um pouco.
“Quero! Estou morrendo de fome”, respondi, corando e olhando para a pinta em seu rosto. Isso transformava a situação em um date . Eu mal podia esperar para contar tudo ao Ken, mais tarde. Ele ficaria muito orgulhoso de mim.
Ele sorriu.
“Então, vou te levar ao meu lugar preferido, ok? É meio fora de mão, mas vale a pena.”
A voz na minha cabeça se manifestou de novo. Morei em Kuna durante toda a minha vida. Não havia muitos lugares que eu não conhecesse. Sobretudo lugares que serviam comida.
“Que lugar é esse?”, perguntei.



Ele balançou a cabeça.
“Você vai ver.”
No caminho, ele fez algumas perguntas. Perguntou sobre minha família. Se eu tinha ido visitar El Salvador (uma vez, quando eu era bebê). De que tipo de música eu gostava. O que eu queria estudar. Se era uma pessoa matinal ou uma coruja. Pergunta atrás de pergunta. Como se eu fosse a pessoa mais interessante do mundo. E tudo com aquele sorriso. Olhando para mim de modo discreto ao entrar na interestadual em direção a Boise.
Eu me convenci a relaxar. Boise ficava a trinta minutos dali, mas tinha mais restaurantes.
Passei a me concentrar no que ele estava dizendo e tentei me divertir. Ele contava uma história sobre uma das pessoas com quem dividia a casa, alguém que levou um litrão de cerveja, em vez de um barril, na última festa que fizeram. Dei risada, porque não sabia bem qual era a diferença entre um e outro, porém não queria demonstrar. Ele parecia meio velho para ainda estar fazendo festinhas em casa, mas o que eu sabia da vida?
Cinco minutos depois, ele deu seta para sair da interestadual. Olhei para a placa. Blacks Creek. Kura-Mora Road. Meu estômago revirou. Ele não mudou de tom, continuou contando a história. Estive em Blacks Creek Road uma vez para fazer uma trilha. Até onde eu sabia, não havia restaurantes por ali. Só colinas e cânions.
Meu estômago começou a doer.
“Você pegou a saída certa?”, perguntei com o tom de voz mais suave possível. Ainda temia estragar tudo. Ferir os sentimentos dele. Desapontá-lo.
Revelar que eu era uma menina que nunca teve um encontro de verdade, nem beijou um garoto. Que Ken — que tinha um namorado — era o único homem com quem eu convivia.
“Nunca esteve no Moe’s?”, perguntou, me olhando com uma expressão de surpresa autêntica. “E cresceu aqui?” Então, ele sorriu, e acreditei nele. Só por precaução, decidi mandar uma mensagem para minha mãe.
“Ah, o Moe’s?”, blefei. “Sim, sempre quis conhecer.” Engoli em seco ao tirar o celular do bolso da jaqueta. “Vou avisar minha mãe. Eu disse que voltaria para casa cedo.”

Enquanto falava, olhei para a tela e não vi nenhum risquinho.
Meus polegares pairavam sobre a caixa de texto enquanto eu lia várias vezes a última mensagem da minha mãe. Te quiero, mi’ja.
A sensação de enjoo voltou. E, quando olhei para ele, vi que estava me observando. Forcei um sorriso.
Ele reagiu com naturalidade.
“Não tem sinal por uns dois quilômetros, mas, depois daquela colina, vai ter pelo menos metade da potência, três risquinhos. Nenhum problema. Se quiser, paro lá e você manda a mensagem.”
A passagem imediata de pavor para alívio me deixou tonta, e dessa vez o sorriso foi verdadeiro. Talvez o Moe’s existisse. Talvez estivesse tudo bem. Eu estava nervosa por nada. Como sempre.
“Quero”, respondi, tão espontânea quanto pude. “Ela vai ficar preocupada, se eu não der sinal de vida.”
Alguns minutos depois, fizemos uma curva na estrada. Havia uma placa logo adiante, “Saída do Rancho”, e ele reduziu a velocidade e deu seta para entrar em uma via que era pouco mais que uma trilha de terra. Olhei para o meu celular enquanto os pneus rangiam contra a superfície irregular e rochosa.
Ainda sem sinal.
Ele falou como se lesse meus pensamentos, apontando para fora do carro.
“Se ainda estiver sem sinal, aquele lugar ao lado do riacho deve resolver seu problema.” E sorriu. “Eu o descobri por acaso quando meu amigo Greg teve que urinar no caminho.”
Dei risada e saí do carro, olhando para o celular enquanto caminhava em direção ao riacho.
Ainda sem sinal.
Levantei o celular, dei mais alguns passos e tentei de novo.
Nada.
E foi então que ele me agarrou por trás. Uma das mãos puxou minha cabeça pelo cabelo. A outra segurou meu pescoço enquanto me jogava no chão. Caí de bruços, mas o único som que consegui emitir foi um grunhido abafado quando os joelhos dele me imobilizaram.


Tentei gritar. Tentei girar o corpo para tirá-lo de cima de mim. Tentei lutar.
Meu único foco era conseguir tirar as mãos dele do meu pescoço.
Quando fazia o quarto ano, o menino que morava na casa ao lado da minha — o nome dele era Dewey — se afogou na banheira de hidromassagem do quintal dos fundos. Ele tentou entrar na água enquanto a mãe fazia o almoço, e a cobertura caiu em cima dele. Depois disso, passei a ter dificuldade para pegar no sono à noite. Não conseguia deixar de pensar em como aquilo devia ter sido para ele.
N ão conseguia pensar em maneira pior para morrer do que por afogamento
Até este momento.
Não deve ter demorado mais que uns dois minutos até eu perder a consciência, mas os segundos pareciam se expandir enquanto tentava — em vão — encontrar um jeito de fazê-lo parar.
Quando a escuridão, por fim, me engoliu, a dor e a pressão desapareceram com a luz.
Quando a luz reapareceu, ainda conseguia ouvi-lo grunhindo atrás de mim. Ainda via a terra e o cascalho embaixo do meu rosto. Todo o resto estava entorpecido.
No entanto, para meu espanto, rolei para longe das mãos dele.
Fiquei horrorizada, mas ele nem percebeu. Porque a garota de cabelos escuros e cacheados, deitada na terra com o rosto voltado para baixo, não se mexeu.
Já tinha visto aqueles especiais do programa Dateline sobre pessoas que tiveram experiências fora do corpo. Experiências de quase morte. Percebi bem rápido que era isso que estava acontecendo.
“ sai de cima de mim”, gritei e me atirei sobre ele.
Meus punhos socavam suas costas com a mesma força das asas de uma borboleta.
“Para, para, para!”, gritei de novo.
Sabia que ele não podia me ouvir. Não tinha certeza nem de que eu mesma conseguia me ouvir.
A garota no chão — eu — não reagia mais. Seus lábios estavam azuis. Uma longa linha de saliva escorria de um canto de sua boca. Os olhos não estavam fechados, mas também não estavam abertos.
O som distante de um veículo na interestadual foi o que o fez parar. Não era perto, no entanto não havia um lugar onde se esconder ali, além de algumas sálvias rasteiras e o riacho raso.
Vi quando, enfim, se levantou e inspecionou as mãos; depois, voltou para o Kia azul.
Nem olhou para trás, para o corpo no chão.
Quando ouvi os pneus do carro derrapando no cascalho da estrada, esperei acontecer. Minha alma se reunir ao corpo sem vida e sujo no chão de terra.
Eu me sentei e permaneci o mais perto possível do meu corpo.
“Ele foi embora”, sussurrei. “Pode acordar.”
Eu me imaginei voltando ao corpo, foquei toda a atenção no que senti nos momentos antes de tudo ficar escuro. Eu me deitei ao meu lado, esperando sentir de novo, de repente, toda a dor, o desespero para respirar. Era isso que acontecia no episódio de Dateline. A pessoa se via fora do corpo e, de repente, pá, voltava para ele. Ou algum tipo de ser amoroso aparecia para avisar que ainda não era sua hora de encontrar Deus.
“Volta”, sussurrei. Pensei em minha mãe, já em casa depois de um dia de trabalho, tentando descobrir por que eu ainda não havia chegado.
Querendo saber por que eu não havia mandado uma mensagem. Se eu ia querer duas ou três pupusas .
Meu celular estava caído na terra ao meu lado. Consegui ver um canto preso embaixo da minha coxa.
Quieto, silencioso.
Como eu.





TRÊS MULHERES ASSASSINADAS
PELO MESMO HOMEM. ELAS VOLTARAM E QUEREM VINGANÇA.
Em Chame por Andrea, a história é narrada da perspectiva de três mulheres — Meghan, Brecia e Skye — que, à primeira vista, não têm nada em comum, mas são unidas por um destino terrível: todas foram brutalmente assassinadas pelo mesmo serial killer, um homem charmoso, que as encontra online. Noelle W. Ihli — nome em ascensão entre os fãs de thrillers e elogiada por autores como Freida McFadden e John Marrs — constrói um suspense psicológico de tirar o fôlego, em que a linha entre o mundo dos vivos e dos mortos é tênue e perigosa. Um thriller que transcende o limiar de vida e morte, dando voz à dor das vítimas e criando um suspense inventivo de tirar o fôlego com uma mensagem poderosa de coragem e justiça.