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Ministério 3 bimestre 2018

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MAI-JUN 2018

Exemplar avulso: R$ 15,50

Uma revista para pastores e líderes de igreja

Vida (in)comum As alegrias e angústias da família pastoral


MKT CPB/William Moraes

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EDITORIAL

Wellington Barbosa

De carne e osso “N

te da Igreja Saddleback, na Califórnia. Kay narra de modo sincero suas lutas pessoais. Filha de um casal pastoral, ela foi assediada quando tinha entre quatro e cinco anos pelo filho de um zelador da igreja. Na adolescência, teve contato com a pornografia enquanto trabalhava como babá dos filhos de um vizinho. Essas feridas profundas acompanharam a jovem que, aos 19 anos, aceitou se casar com Rick, na época, um estudante da Faculdade Batista da Califórnia. Logo após a lua-de-mel, o casal se viu envolto em uma série de problemas relacionados à comunicação, sexualidade, às finanças e aos filhos. Resumindo a situação, Kay afirma: “A compreensão comum daqueles dias era que se você amasse Jesus o suficiente, seu casamento seria feliz. O que nos confundia era que amávamos Jesus de todo o coração e nos comprometíamos com a igreja local. Como as coisas podiam ser tão ruins?” A trajetória de restauração e cura começou quando o casal Warren percebeu que Deus poderia usar as lutas do casamento para que eles se aproximassem do Senhor e um do outro. Assim, apesar dos desafios, Rick e Kay permaneceram juntos, e celebrarão neste ano 43 anos de matrimônio. Infelizmente, nem todos os relatos de dificuldades no contexto da família ministerial terminam bem. Casais pastorais divorciados, filhos rebeldes e relacionamentos superficiais parecem se tornar mais comuns, e a comunidade de fé lamenta e sofre quando acompanha os problemas familiares do pastor e de seus entes queridos. Diante das pressões de uma sociedade cada vez mais distante do ideal divino para a família, é necessário que sejamos proativos na prevenção e na cura das enfermidades que ameaçam a integridade de nosso lar. Isso demanda, em primeiro lugar, reconhecer que somos alvos prioritários das iniciativas do inimigo. Nossa luta

“não é contra seres humanos, mas contra os poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais” (Ef 6:12, NVI). Portanto, negligenciar o aspecto espiritual da dinâmica familiar é permitir que Satanás tenha liberdade para instalar em nossa casa suas minas de rancor, ódio, desentendimento e frustração. Além disso, precisamos avaliar continuamente quais são as principais virtudes e vulnerabilidades de nossa família. Para isso, é necessário nos desfazer das máscaras que muitas vezes utilizamos a fim de aparentar a família perfeita e, com sinceridade, fazer o diagnóstico de nossa convivência familiar. Manter em perspectiva quem somos, o que temos feito bem e o que precisamos mudar fornece informações cruciais para que possamos trabalhar intencionalmente na edificação de um lar fundamentado nos princípios da Palavra de Deus. Às vezes os resultados dessa avaliação são preocupantes, e percebemos que não temos condições de superar sozinhos, como família, alguns de nossos desafios. Por muito tempo houve certo receio em se procurar ajuda externa para resolver os problemas da família pastoral. Atualmente, com a maior disponibilidade de psicólogos e terapeutas cristãos, esse quadro tem mudado. E isso é bom, pois a ajuda desses profissionais capacitados tem sido efetiva em muitos casos complexos do lar ministerial. Por fim, jamais devemos nos esquecer de que o Senhor está ao nosso lado e tem grande interesse em nossa felicidade familiar. Ellen White afirmou: “Unicamente a presença de Cristo pode tornar homens e mulheres felizes. Todas as águas comuns da vida Cristo pode transformar em vinho do Céu. O lar se torna então um Éden de bem-aventurança; a família, um belo símbolo da família no Céu” (O Lar Adventista, p. 28). Que nossa casa seja um pedaço do paraíso na Terra, refletindo a atmosfera celestial e dando mostras de que estamos caminhando rumo ao definitivo Lar!

“

Diante das pressões de uma sociedade cada vez mais distante do ideal divino para a família, é necessário que sejamos proativos na prevenção e na cura das enfermidades que ameaçam a integridade de nosso lar.”

William de Moraes

ós estávamos em um inferno conjugal.” Esse é o título de um artigo assinado por Kay Warren publicado nos Estados Unidos na conceituada revista Christianity Today, em meados de 2017. Diante das muitas notícias de divórcios ou problemas familiares entre pessoas famosas, talvez esse título não chamasse tanta atenção na mídia, se não fosse pelo fato de a autora ser esposa de Rick Warren, pastor conhecido internacionalmente por seu trabalho à fren-

Wellington Barbosa, doutorando em Ministério, é editor da revista Ministério

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Contribua para a A revista Ministério é um periódico internacional editado e publicado bimestralmente pela Casa Publicadora Brasileira, sob supervisão da Associação Ministerial da Divisão Sul-Americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia. A publicação é dirigida a pastores e líderes cristãos.

Orientações aos escritores Procuramos contribuições que representem a diversidade ministerial da América do Sul. Diante da variedade de nosso público, utilize palavras, ilustrações e conceitos que possam ser compreendidos de maneira ampla. A Ministério é uma revista peer-review. Isso significa que os manuscritos, além de serem avaliados pelos editores, poderão ser encaminhados a outros especialistas sobre o tema que seu artigo aborda.

Áreas de interesse •C rescimento espiritual do ministro. •N ecessidades pessoais do ministro. •M inistério em equipe (pastor-esposa) e relacionamentos. •N ecessidades da família pastoral. •H abilidades e necessidades pastorais, como administração do tempo, pregação, evangelismo, crescimento de igreja, treinamento de voluntários, aconselhamento, resolução de conflitos, educação contínua, administração da igreja, cuidado dos membros e assuntos relacionados. •E studos teológicos que exploram temas sob uma perspectiva bíblica, histórica ou sistemática.

• Liturgia e temas relacionados, como música, liderança do culto e planejamento. • A ssuntos atuais relevantes para a igreja.

Tamanho • Seções de uma página: até 4 mil caracteres com espaço. • Artigos de duas páginas: até 7,5 mil caracteres com espaço. • Artigos de três páginas: até 11,5 mil caracteres com espaço. • Artigos solicitados pela revista poderão ter mais páginas, de acordo com a orientação dos editores.

Estilo e apresentação • Certifique-se de que seu artigo se concentra no assunto. Escreva de maneira que o texto possa ser facilmente lido e entendido, à medida que avança para a conclusão. • Identifique a versão da Bíblia que você usa e inclua essa informação no texto. De forma geral, recomendamos a versão Almeida Revista e Atualizada, 2ª edição. • Ao fazer citações bibliográficas, insira notas de fim de texto (não notas de rodapé) com referência completa. Use algarismos arábicos (1, 2, 3). • Utilize a fonte Arial, tamanho 12, espaço 1,5, justificado. • Informe no cabeçalho: Área do conhecimento teológico (Teologia, Ética, Exegese, etc.), título do artigo, nome completo, graduação e atividade atual. • Envie seu texto para: ministerio@cpb.com.br. Não se esqueça de mandar uma foto de perfil em alta resolução para identificação na matéria.


SUMÁRIO

10 Casais pastorais

illie e Elaine Oliver W Fatores que devem ser considerados na promoção de um relacionamento conjugal saudável

14 Sob a armadura

irian Montanari Grüdtner M O que o pastor deve saber (e fazer) para ajudar sua esposa a superar os desafios do ministério

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10 3 Editorial 6 Entrelinhas

A árvore e os frutos

7 Entrevista

ayse Bezerra D O testemunho de uma filha de pastor sobre a influência do ministério do pai em sua vida

21 Panorama 31 Pastor com paixão 32 Dia a dia

Duplo selamento

Jiří Moskala Conheça a diferença e a relação entre o selo do evangelho e o selo apocalíptico

34 Recursos 35 Palavra final

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25 Do Decálogo à Tradição

iego Bispo e Lucas Higor D Os principais argumentos da encíclica papal Dies Domini avaliados à luz da revelação bíblica

28 Líderes da nova geração

Wagner Aragão Dicas para ajudar novos pastores a desenvolver um ministério bem-sucedido

Uma publicação da Igreja Adventista do Sétimo Dia Ano 90 – Número 537 – Mai/Jun 2018 Periódico Bimestral – ISSN 2236-7071 Editor Wellington Barbosa Editor Associado Márcio Nastrini Revisoras Josiéli Nóbrega; Rose Santos Projeto Gráfico Levi Gruber Capa Montagem sobre fotos de William de Moraes Ministério na Internet www.revistaministerio.com.br www.facebook.com/revistaministerio Twitter: @MinisterioBRA Redação: ministerio@cpb.com.br

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Conselho Editorial Carlos Hein; Lucas Alves; Adolfo Suarez, Marcos Blanco; Walter Steger; Pavel Goia; Jeffrey Brown Colaboradores Alberto Peña; André Dantas; Arildo Souza; Cornelio Chinchay; Edilson Valiante; Efrain Choque; Geraldo M. Tostes; Henry Mainhard; Ivan Samojluk; Jadson Rocha; Luis Velásquez; Raildes Nascimento; Rubén Montero; Sidnei Mendes; Tito Valenzuela CASA PUBLICADORA BRASILEIRA Editora da Igreja Adventista do Sétimo Dia Rodovia SP 127 – km 106 Caixa Postal 34 – 18270-970 – Tatuí, SP Diretor-Geral José Carlos de Lima Diretor Financeiro Uilson Garcia Redator-Chefe Marcos De Benedicto Chefe de Arte Marcelo de Souza

SERVIÇO DE ATENDIMENTO AO CLIENTE Ligue Grátis: 0800 979 06 06 Segunda a quinta, das 8h às 20h Sexta, das 7h30 às 15h45 Domingo, das 8h30 às 14h Site: www.cpb.com.br E-mail: sac@cpb.com.br Assinatura: R$ 75,40 Exemplar Avulso: R$ 15,50 Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio, sem prévia autorização escrita do autor e da Editora. Tiragem: 6 mil 5935 / 37849

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ENTRELINHAS

Lucas Alves

Renovação

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m diferentes lugares do mundo, as pessoas fazem promessas com o desejo de alcançar os mais diversos objetivos. Geralmente, essas promessas vão desde conseguir perder peso até dedicar mais tempo à família ou controlar as finanças, por exemplo. Bibianna Teodori, especialista em comportamento, diz que “para alcançar os objetivos, o primeiro passo é definir poucas resoluções para manter o foco”. Pensando nisso, como líderes espirituais, quais deveriam ser nossas principais resoluções a cada dia? Permita-me listar três objetivos que podem fazer a diferença em nosso crescimento pessoal e ministerial. Como líderes, nosso foco principal deve ser as pessoas. Mas, para servir bem é preciso estar em paz com Deus e ter uma visão equilibrada de nós mesmos. Em Romanos 12, Paulo falou sobre isso de maneira pontual:

Renovar o relacionamento com Deus. “E não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformemse pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (v. 2, NVI). A renovação do relacionamento com Deus depende do nosso inconformismo com o mundo e de uma entrega completa a Cristo de tudo o que somos. Para que essa renovação possa acontecer, “é necessário que nos rendamos inteiramente a Ele” (Ellen White, Caminho a Cristo, p. 43). Entregar tudo, todo dia, aos cuidados de Deus, sem temores ou reservas.

o coração [...] e manter então sempre diante de si o Modelo, Jesus Cristo, como exemplo” (Ellen White, Fundamentos da Educação Cristã, p. 107). Reavaliar o relacionamento com os outros. “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros” (v. 10), porque “ninguém vive para si mesmo” (Rm 14:7). Segundo o apóstolo, esse relacionamento se dá com base no amor. No amor fraternal se encontra a expressão mais intensa do nosso cristianismo. Cristo afirmou que Ele Se tornaria conhecido em todo o mundo pelo amor que temos entre nós. O Senhor disse: “Com isso todos saberão que vocês são Meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (Jo 13:35, NVI). Amar é cuidar, é pastorear, é estar ao lado daqueles que precisam de nós ao longo da caminhada rumo ao Céu. Pregar, liderar, planejar e executar são todas atribuições necessárias, mas se há algo que precisa ser a marca de um líder cristão é o amor (1Co 13). Nossos relacionamentos uns com os outros revelam muito do nosso cristianismo. “Cumpre-nos amar e respeitar uns aos outros, não obstante as faltas e imperfeições que não podemos deixar de notar neles” (Ellen White, Mente, Caráter e Personalidade, v. 2, p. 635, 636). Cristo é a razão e a mais pura motivação do ministério que recebemos de Suas próprias mãos. É por meio Dele que servimos melhor o rebanho que nos confiou. Por isso, contemplemos nosso Ajudador, Jesus Cristo. Demos-Lhe as boas-vindas e convidemos Sua graciosa presença. Nossa mente pode renovar-se dia a dia (Ellen White, Mente, Caráter e Personalidade, v. 1, p. 68).

“

Pregar, liderar, planejar e executar são todas atribuições necessárias, mas se há algo que precisa ser a marca de um líder cristão é o amor.”

pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (v. 3). A visão que o líder tem de si mesmo afeta de forma direta a maneira como ele dirige e influencia as pessoas ao seu redor. Por isso, um autoexame nos proporciona mais condições de reconhecer nossas deficiências e necessidades. É preciso “examinar 6

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Divulgação DSA

Rever a relação consigo mesmo. “Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não

Lucas Alves, mestre em Liderança, é secretário ministerial associado para a Igreja Adventista na América do Sul


ENTREVISTA

CLAUDIA BRUSCAGIN

Sem máscaras Gentileza da entrevistada

“Precisamos encarar a realidade de que todas as famílias têm problemas. O que muda é a sua maneira de lidar com eles. Fugir dessa constatação só potencializa as consequências negativas.” por Márcio Nastrini

As peculiaridades da vida do pastor, sua esposa e seus filhos demandam a existência de profissionais da área da psicologia que se especializem em atender essa classe diferenciada de pessoas. No Brasil, a doutora Claudia Bruscagin tem se destacado por sua sólida produção acadêmica aliada à experiência clínica no atendimento de famílias pastorais. Doutora pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Claudia Bruscagin é vice-coordenadora da especialização em Terapia de Casal e Família na PUC-SP; organizadora do livro Religiosidade e Psicoterapia (2008), ganhador do segundo lugar do Prêmio Jabuti (2009) na categoria de melhor livro de Educação, Psicologia e Psicanálise; e autora de diversos capítulos em livros na área de psicoterapia familiar. Além das atividades acadêmicas, ela atua como psicóloga clínica e palestrante em empresas, escolas e igrejas.

coisas não vão bem, e o não saber do que se trata as angustia e aumenta a sensação de solidão e impotência.

Quais são os principais impactos negativos das exigências do trabalho do pastor sobre sua família? Separar a vida particular da vida “pública/pastoral” e encontrar o equilíbrio é uma tarefa muito difícil. Os membros contatam o pastor pelo celular o tempo todo e cobram uma resposta imediata. Os filhos pequenos reclamam que o pai não desgruda do celular, e ou-

A família pastoral tem pouca liberdade para viver livre das expectativas e exigências dos membros. Como administrar essa intromissão velada? Não penso que essa intromissão seja velada. Em geral ela é explícita: “Sua esposa vai cuidar de qual área do departamento infantil?”, “Ela vai pregar aqui quando você estiver em outra igreja?”, “Seu filho é desbravador?” Creio que o pastor, ao chegar em uma nova igreja, deve impor limites. Ele é quem recebe para pastorear a igreja. A esposa, como qualquer membro, pode ajudar voluntariamente nas tarefas

vem do pai que é por causa do trabalho. Muitas esposas reclamam da solidão e da falta de uma vida normal. Os esposos têm muitas visitas ou reuniões à noite, chegam tarde, cansados, querem ficar no “seu canto”, tendo algum entretenimento, e acabam indo para o quarto tarde da noite. A maior parte das esposas trabalha e levanta cedo com os filhos. Nessa rotina, falta tempo para conversar. Muitos pastores querem poupar a esposa dos problemas da igreja e não dividem as preocupações. Por sua vez, elas sentem quando as

da igreja. Assim, na apresentação da família pastoral, a maneira com que o esposo apresenta a esposa é fundamental: ele deve destacar o nome, a profissão e, nesse contexto, pode indicar para quais atividades ela estará disponível. Em relação MAI-JUN • 2018 |

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aos filhos, deve apresentá-los e informar à igreja, por exemplo, que são pequenos e, às vezes, vão falar alto, correr pelos corredores e podem não gostar de ser beijados e abraçados por todos. É importante que a igreja os veja como crianças normais. Essa imposição de limites mostra o cuidado e o respeito que o pastor tem para com seus queridos. Posteriormente, se chegarem reclamações quanto a eles, o pastor deve ouvir os dois lados e sempre proteger sua família, independentemente da posição que ocupa. Com isso não estou dizendo que a família pastoral seja “santa”, mas que deve ser protegida. Por exemplo, os filhos precisam saber que o pai cuida deles em primeiro lugar e que, como pai, também

Quando a família conta suas próprias histórias de vida, esses fatos – difíceis ou engraçados – vão fortalecendo a cumplicidade e a confiança uns nos outros. A elaboração de costumes familiares personalizados (como comemoram aniversários, modo de realizar o culto familiar, etc.) também contribui para consolidar os laços que os mantêm unidos. Além disso, uma família fortalece sua resiliência quando consegue enfrentar seus problemas de maneira proativa, encarando a realidade e buscando meios efetivos e não paliativos para enfrentar as dificuldades. Em resumo, uma família resiliente responde positivamente às condições de estresse de modo único, dependendo do

Quando uma família pastoral se esfacela por problemas com os filhos ou entre o casal, onde pode buscar ajuda? O pastor e sua família precisam ser cuidados, protegidos e pastoreados. vai corrigi-los quando necessário. Quando os filhos e a esposa sentem que são prioritários na vida do pastor, as coisas fluem com mais tranquilidade. Conselheiros e psicólogos têm enfatizado a necessidade de as famílias pastorais desenvolverem seu lado emocional. Como isso pode ser feito? Acredito que a família pastoral deve desenvolver sua resiliência, ou seja, a capacidade de se adaptar bem quando vivemos situações de crise, trauma, tragédia, ameaça ou outra fonte significativa de estresse. A resiliência familiar é desenvolvida quando juntos passamos tempo de qualidade e nutrimos interesses comuns. 8

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contexto, nível de desenvolvimento, da combinação de fatores de risco e de sua visão compartilhada. Como a senhora avalia os desafios das esposas de pastor? Geralmente a esposa do pastor carrega um fardo muito pesado. Cuida da casa, trabalha fora, educa os filhos sozinha na maior parte do tempo, é cobrada pelo comportamento deles e ainda sofre pressão para assumir uma série de atividades na igreja. É preciso entender que ser mulher de pastor hoje é muito diferente do que ocorria há 50 anos. Vejo que algumas mulheres se casam com um pastor por que gostam do ministério, e há aquelas que se dedicam

mais ao pastorado do que o próprio marido. Alguns pastores gostam disso; outros, não, e aí surgem conflitos. Entretanto, a maior parte das mulheres se casa com o homem amado que, nesse caso, é pastor, como poderia ter qualquer outra profissão. Depois que entendem o que significa ser esposa de pastor, deixam claro que “o trabalho é dele, não meu”. Outras se casam e, depois de um tempo, ouvem o marido dizer que sempre quis ser pastor, e que então precisam largar tudo e ingressar no Seminário. Em virtude das dificuldades financeiras, algumas esposas precisam trabalhar de qualquer maneira, longe do apoio da família ou dos amigos, tendo que dar conta de tudo e apoiar “o chamado do marido”. Inevitavelmente, algumas se sentem traídas e, quando assumem um distrito, ficam deslocadas, muitas vezes sem profissão ou não podendo exercer sua profissão. Nesse contexto desafiador, os filhos acabam sendo os mais afetados. Portanto, a esposa do pastor não pode mais ser aquela “mulher sem nome”. Ela tem nome, identidade, competências, profissão, assim como qualquer mulher casada. Ela vai participar dos trabalhos na igreja como qualquer outro membro, não porque seja a “mulher do pastor”. Na prática, como a esposa de pastor pode administrar as diversas demandas referentes aos aspectos familiares, profissionais e eclesiásticos? Ela vai conseguir administrar tudo isso se atuar em conjunto com o marido. Assim, a responsabilidade de cuidar da família deve ser compartilhada na medida das competências de cada um. Isso não quer dizer que essa divisão deva ser exatamente de 50%, mas que o casal precisa desenvolver uma atitude colaborativa. Contudo, chama minha atenção o fato de que algumas esposas não entendem que parte do trabalho do esposo é feita


em seu escritório, em casa. É como se ele tivesse saído para trabalhar. Não é porque ele faz home office que tem que cuidar das crianças todos os dias, o dia todo ou por um período fixo continuamente. Se ele saísse para trabalhar fora, como o casal lidaria com essa situação? Além disso, toda mulher precisa desenvolver sua autonomia. Por isso oriento toda esposa, independentemente da profissão do marido, a aprender a dirigir. Ainda que não tenha dois carros, o casal pode se organizar para dividir o uso do veículo. Também recomendo que faça algum tipo de atividade física para evitar o esgotamento. O exercício físico é fundamental para diminuir a ansiedade e a depressão, manter o peso ou dormir melhor. Com disciplina, 20 minutos de caminhada ao ar livre, quatro vezes por semana ajudam muito!

o tempo e o trabalho. Gerenciar não é fazer tudo nem acompanhar o que se faz o tempo todo. É necessário saber delegar, aceitar maneiras diferentes de realizar as tarefas e confiar na capacidade dos outros. Evidentemente, também não é entregar tudo e só receber notícias. É preciso encontrar o equilíbrio.

O excesso de trabalho por parte do pastor tem sido uma das principais causas de problemas do casal ministerial. Como isso pode ser solucionado? Creio que seria muito útil que os pastores aprendessem mais sobre administração do tempo. Quem faz home office precisa de foco e direção para o trabalho. Por outro lado, vejo que entre os pastores existe um cronograma de atividades que, às vezes, me parece um pouco rígido: estudo pela manhã, visitação durante a tarde e à noite e folga na segunda-feira. No entanto, a visitação só pode ser feita no período vespertino e noturno? Não há possibilidade de flexibilização no horário de estudo? Se a esposa e os filhos trabalham e estudam durante a semana, como a folga na segundafeira será utilizada pela família? Por que não se planejar para que o dia de folga contemple a família como um todo?

Como os filhos de pastor podem ser ajudados por seus pais a conviver com as expectativas que recaem sobre eles por parte dos membros da igreja? De fato, eles sofrem muita pressão por serem filhos de pastor. Muitos membros esperam que eles saibam todas as doutrinas, tirem suas dúvidas quando não conseguem falar com o pastor e que tenham uma vida perfeita. Certa ocasião, um membro de igreja questionou o filho do pastor, de 10 anos, acerca do motivo pelo qual o pastor o havia retirado de determinado cargo. Isso não se faz! Os membros da igreja precisam ser informados de que não podem descontar suas frustrações sobre os filhos do pastor, e que o pastor tomará todas as medidas necessárias para protegê-los. Por isso é importante, logo na apresentação da família à nova igreja, que o pastor estabeleça os limites de proteção aos seus queridos. Uma outra situação que tem chamado minha atenção é a volta dos filhos de pastor para a casa dos pais depois do término da faculdade. Geralmente eles vão para o internato na adolescência e seguem seus estudos do Ensino Médio ao término do Ensino Superior. Já graduados, alguns voltam para casa após viverem por um longo período distantes da convivência familiar. Como estiveram longe dos filhos no período em que eles experimentaram as maiores mudan-

Outro problema é que alguns pastores são centralizadores e entendem que devem estar o tempo todo trabalhando com os membros da igreja. Para mim isso demonstra sua dificuldade em gerenciar

ças, os pais já não sabem mais como conviver com eles. Além de sustentá-los em casa, os pais se deparam com o modo de vida dos filhos que, em alguns casos, já não se alinha mais com o estilo de vida adventista.

Nesse contexto, muitos membros da igreja vão ver, questionar e comentar o que acontece com o filho do pastor... Que conselhos a senhora daria aos pastores para que exerçam melhor sua paternidade? Tenho visto grande número de pastores delegarem às mães o cuidado e a educação dos filhos. Os filhos precisam de ambos! O mandamento diz “honra teu pai e tua mãe”. A quem foi dado o Shemá no antigo Israel? O que Paulo disse sobre o pastor e sua família? Não acredito que o chamado do Senhor para servir a igreja seja justificativa para que o pastor não cuide de seus filhos. Quem será o modelo de homem para o filho e a filha? Por isso, para que o pastor exerça bem sua paternidade, ele precisa de tempo de qualidade com seus filhos. Alguns pastores procuram manter uma postura de pessoas “inabaláveis”, mesmo quando passam por problemas. Como o ministro deve lidar com as dificuldades familiares? De fato, em muitos contextos há uma negação de que o pastor e sua família têm problemas. Entretanto, precisamos encarar a realidade de que todas as famílias têm problemas. O que muda é a sua maneira de lidar com eles. Fugir dessa constatação só potencializa as consequências negativas. Além disso, não podemos nos esquecer de que Satanás ataca intencionalmente as famílias pastorais. Quando uma família pastoral se esfacela por problemas com os filhos ou entre o casal, onde pode buscar ajuda? O pastor e sua família precisam ser cuidados, protegidos e pastoreados. Acredito que os ministros devam ter mais chances de estudo e crescimento pessoal, estar em lugares em que possam manter em perspectiva que são seres humanos como quaisquer outros e poder contar com a ajuda de psicólogos cristãos e pastores que os auxiliem em suas lutas particulares.

Diga-nos o que achou desta entrevista: Escreva para ministerio@cpb.com.br ou visite www.facebook.com/revistaministerio MAI-JUN • 2018 |

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© Jacob Lund | Fotolia

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Casais

pastorais

Desafios contemporâneos Willie e Elaine Oliver

E

stamos casados e atuando no ministério há 32 anos. O fato de ainda estar casados e no ministério depois de todo esse tempo tem tudo a ver com a providência e a graça de Deus. Em realidade, a graça divina faz seu melhor trabalho quando aceitamos o dom que Deus nos oferece e permitimos que esse dom brote e cresça em nosso coração pelo poder do Espírito Santo, cujas exortações escolhemos seguir. Vamos ser realistas: vida de casado não é fácil! Sim, o casamento é algo fantástico, e a vida a dois tem todas aquelas coisas maravilhosas das quais sempre falamos. No entanto, apesar das nossas melhores intenções, a realidade das diferenças, que inquestionavelmente assombram a maioria dos casamentos, nos mantém de joelhos. De fato, isso só pode ocorrer quando decidimos honrar e glorificar Deus em nosso casamento.

Os casais pastorais enfrentam os mes-

que sejam tudo para todos. Especialmente no modo de discipular seus filhos para ser verdadeiros seguidores de Jesus.Além do desafio de não ter tempo suficiente para cumprir todas as suas responsabilidades, o casal pastoral tem que lidar com períodos curtos de permanência nos distritos e mudanças frequentes. Isso o afasta de relacionamentos próximos com seus familiares e amigos, perturbando seu equilíbrio emocional. Somado a isso, é preciso enfrentar as restrições financeiras, já que vivemos em um mundo onde se tornou cada vez mais difícil viver somente com o salário de um dos cônjuges. Com frequência, a esposa do pastor se vê na situação de ter que procurar um novo emprego, o que pode significar muitos meses sem receber seu salário. Isso tudo pode acrescentar ansiedade, tensão e trauma a uma situação naturalmente estressante. Em tempos como esses, os casais pastorais, assim como todos os casais cristãos, precisam reconhecer que

mos desafios que os outros casais, e a maioria dos casais vivencia conflitos similares aos dos casais pastorais. A diferença surge quando o casal pastoral tem a pressão adicional de viver em um aquário, com altas expectativas dos membros de suas igrejas e dos seus líderes, no sentido de

o matrimônio é ideia divina e que foi criado para nosso bem. “Instituído por Deus, o casamento é uma ordenança sagrada, e nunca se deve entrar nele com espírito de egoísmo. Aqueles que pensam em dar esse passo, devem considerar-lhe solenemente e com oração a importância, e

O casal pastoral

buscar conselho divino a fim de saber se estão seguindo uma direção em harmonia com a vontade de Deus.”1 Embora o casamento tenha sido designado por Deus para abençoar a família, Satanás tem feito de tudo para denegrir, depreciar e difamar essa instituição importante. Sendo assim, pode ser que seu casamento esteja indo naturalmente para um estado de alienação. A Bíblia diz em Romanos 3:23 que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”.2 Isso nos lembra que não existem casamentos perfeitos, porque não existem pessoas perfeitas. Entretanto, visto que Deus é mais poderoso do que Satanás, todo casamento pode prosperar quando os cônjuges fazem um esforço intencional para se conectar um ao outro todos os dias por meio da graça e do poder divinos. Uma frase de um autor desconhecido que frequentemente gostamos de citar diz o seguinte: “Casar é fácil. Permanecer casado é mais difícil.” Continuar feliz no casamento ao longo da vida poderia ser considerado uma das artes mais belas. Isso é verdade em relação a todos os casamentos, especialmente os casamentos pastorais, que experimentam tantas expectativas internas e externas. De fato, as expectativas surgem de dentro por causa da necessidade de representar bem Jesus. O conceito muitas vezes pode ser visto como a necessidade de fingir que se tem um casamento perfeito quando não se tem. Claro, quanto mais os casais pastorais se sentirem obrigados a apresentar ao público uma imagem irreal, menos chances terão de atingir esse objetivo devido ao estresse gerado interiormente, dada a realidade das nossas fraquezas humanas. A pressão exterior vem dos outros, muitas vezes dos membros da MAI-JUN • 2018 |

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igreja, e às vezes das famílias, dos amigos, colegas e entidades empregadoras que tendem a cobrar um padrão mais alto dos pastores e de suas famílias do que dos seres humanos “normais”. Para superar esse fardo insuportável, os casais pastorais devem passar muito tempo em oração, buscando relacionamento genuíno com Deus e entre os cônjuges. Falando da necessidade de permanecer em oração, Romanos 12:12 diz: “Alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração.” Por sua vez, Isaías 65:24 declara: “Antes de clamarem eles, Eu responderei; e estando eles ainda falando, Eu os ouvirei.” Ellen White escreveu: “Não há um só capítulo da nossa existência que seja escuro demais para que Ele não possa ler nem dificuldade alguma tão complicada que não possa resolver. Nenhuma calamidade poderá

Assédio digital Na questão do tempo, como um bem a ser administrado, a notória tirania do relógio nunca foi mais real do que estamos vivenciando hoje. O e-mail, o Facebook e as mensagens de texto, com inúmeros aplicativos que surgem todos os dias, tornam qualquer um acessível, em qualquer lugar e a qualquer hora, criando a expectativa de receber respostas instantâneas. Cada dia tem apenas 24 horas nas quais os pastores devem passar tempo a sós com Deus, visitar os membros da igreja, estudar, escrever sermões, participar de reuniões, dar estudos bíblicos, responder e-mails, dormir, comer, fazer exercícios físicos, realizar o culto familiar e se relacionar com parentes e amigos. Depois de cuidar de todas essas coisas, além de não sobrar muita energia para qualquer outra atividade, não há tempo

Todo casamento pode prosperar quando os cônjuges fazem um esforço intencional para se conectar um ao outro todos os dias por meio da graça e do poder divinos.

sobrevir ao mais humilde dos Seus filhos, ansiedade alguma que lhe perturbe o coração, nenhuma alegria que possa ter, nenhuma oração sincera que lhe saia dos lábios, sem que seja observada pelo Pai celestial, ou sem que Lhe desperte imediato interesse. Ele ‘sara os quebrantados de coração, e cura-lhes as feridas’ (Sl 147:3). As relações entre Deus e cada pessoa são tão particulares e íntimas, como se não existisse nenhuma outra por quem Ele houvesse dado Seu bem-amado Filho.”3 12

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significativo para compartilhar com a esposa. E sendo realmente sinceros, na verdade, temos pouco tempo para passar com Deus em oração. Assim acabamos tendo pouco combustível para obter os recursos necessários a fim de ter um ministério eficaz e uma satisfação real na vida.

Limites Então, como um casal pastoral consegue separar tempo para ter a qualidade de relacionamento que faz com que a vida

valha a pena ser vivida? Para que isso aconteça, e para que possamos sobreviver e prosperar, precisamos estabelecer limites razoáveis. Eles podem ser encontrados no contexto de pessoas emocionalmente inteligentes, que têm um alto nível de autoconsciência e que sabem o que querem alcançar durante esse processo. Daniel Goleman sugere: “A autoconsciência é o primeiro componente da inteligência emocional [...] Autoconsciência significa ter uma profunda compreensão das próprias emoções, dos pontos fortes, das fraquezas, das necessidades e dos impulsos [...]. “A autoconsciência se estende ao entendimento dos valores e objetivos de uma pessoa. Alguém altamente autoconsciente sabe para onde está indo e por que [...]. As decisões das pessoas autoconscientes correspondem aos seus valores”. 4 A autoconsciência e a inteligência emocional não vêm simplesmente porque temos mais instrução ou porque somos mais espertos do que os outros. Vêm como resultado de um relacionamento íntimo com Deus e do nosso desejo de honrá-Lo em nosso relacionamento mais íntimo com nosso cônjuge. Esse vem a ser o tipo de inteligência emocional que traz paz. No que se refere à priorização e ao aproveitamento máximo do tempo, Stephen Covey sugere que “um dos piores sentimentos do mundo é quando você se dá conta de que ‘as primeiras coisas’ na sua vida, inclusive sua família, estão sendo empurradas para o segundo ou terceiro lugar, ou ainda mais abaixo na lista. E fica ainda pior quando você se apercebe do que está acontecendo como resultado disso.”5 Permanece a verdade de que não podemos adicionar horas ao nosso dia, mas podemos adicionar ordem e prioridade a essas horas, para que possamos maximizar o tempo que temos com nosso cônjuge a cada dia, a cada semana, a cada mês e a cada ano, a fim de ter o tipo de


O fator dinheiro Enquanto pastores em certas partes do mundo desfrutam de um estilo de vida de classe média ou até média-alta,

especialmente se o cônjuge tem um bom emprego, em outros lugares, pastores sofrem com recursos e salários escassos, e a esposa não consegue trabalho remunerado. No entanto, precisamos aprender a confiar no Deus que adoramos, se quisermos que nossa vida no ministério seja uma bênção para os outros. Precisamos seguir o exemplo de abnegação do nosso Mestre. Sem dúvida, a estabilidade financeira depende tanto da nossa filosofia de fidelidade cristã quanto dos nossos hábitos de consumo. Como seres mortais, a quem foi dado o privilégio de levar pecadores Àquele que é a vida eterna, nós também devemos crer que o Senhor cumpre Suas promessas. Como casais pastorais, temos que reivindicar as promessas que Deus fez no passado e que ainda são válidas para Seus discípulos hoje. A mensagem de Malaquias 3:10 ainda está em vigor e declara: “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na Minha casa; e provai-Me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se Eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida.” Deus promete que não faltarão bênçãos se formos fiéis a Ele. Jesus afirmou: “E eis que Eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28:20); “Deixo-vos a paz, a Minha paz vos dou; Eu não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo 14:27); e o apóstolo Paulo disse: “E o meu Deus, segundo a Sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades” (Fp 4:19).

Ao examinar a realidade dos casamentos pastorais, precisamos prestar atenção ao fato de que, às vezes, é mais difícil do que pensamos. “Muitas pessoas hoje entram no casamento com uma noção individualista de realização pessoal, em vez de se concentrar na realização relacional. Embora nos

Referências

Gentileza do autor

Conclusão

matrimônios bem-sucedidos os casais tenham de encontrar o equilíbrio entre si, é preciso que haja uma contínua conscientização dos interesses do cônjuge como parte da realidade diária. Não há outra maneira de sobreviver e prosperar num relacionamento íntimo como o casamento sem adotar uma perspectiva que inclua os sentimentos e opiniões dos outros, pelo menos, os sentimentos e opiniões da pessoa que escolhemos como nosso cônjuge.”6 Nós o encorajamos a se lembrar da exortação de Paulo: “Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para glória de Deus” (1Co 10:31). Que em seu relacionamento com Cristo você desenvolva a paciência e a bondade necessárias para honrar e glorificar ao Senhor por meio do seu casamento. Nós não apenas esperamos, mas também oramos para que isso aconteça.

Gentileza da autora

relacionamento que resistirá à prova do tempo e dará honra e glória a Deus. Para que as coisas mudem, se essa não tem sido a prioridade da nossa vida, precisaremos desenvolver uma estrutura nova e melhorada pela qual possamos viver. Com certeza, será necessário mudar o paradigma da nossa vida. Isso significa ver e fazer as coisas de modo diferente para conseguir um resultado diferente. Em contraste com outros relacionamentos, que estão constantemente mudando, o casamento deve ser permanente, e entender que as responsabilidades no matrimônio não são adiáveis nos ajuda a aproveitar o dia de hoje para que possamos fazer do nosso casamento a prioridade máxima. Isso significa programar um tempo significativo para passar com o cônjuge todos os dias. Mudar-se de um lugar para o outro ao longo do ministério se torna uma realidade que não pode ser facilmente alterada e que é vista como a natureza do proverbial “monstro” do ministério. Eu (Willie), como filho de pastor, mudei-me várias vezes ao longo da minha infância, e como filho de missionário vivi em pelo menos três países antes de chegar à adolescência. Como casal, já moramos em quatro estados diferentes dos Estados Unidos, em oito casas distintas e tivemos de oito a dez funções ministeriais em três décadas. Cada mudança foi um desafio, e algumas foram mais traumatizantes do que outras. Mas, em cada uma delas, sentimos a mão de Deus e recebemos bênçãos que não trocaríamos por nada. Como o apóstolo Paulo declarou em Filipenses 4:11: “Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação.”

1

Ellen G. White, O Lar Adventista (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013), p. 70.

2

s referências bíblicas são da versão Almeida Revista A e Atualizada.

3

llen G. White, Caminho a Cristo (Tatuí, SP: Casa E Publicadora Brasileira, 2016), p. 100.

4

Daniel Goleman, What Makes a Leader: Why Emotional Intelligence Matters (Florence, MA: More Than Sound, 2013), p. 10, 11.

5

Stephen R. Covey, The 7 Habits of Highly Effective Families (Nova York, NY: Golden Books, 1997), p. 113.

6

illie e Elaine Oliver, “A Beleza do Casamento”, W em Ekkehardt Mueller e Elias Brasil de Sousa, Casamento: Princípios Bíblicos e Teológicos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2015) p. 18, 19.

Willie Oliver, doutor em Sociologia, é diretor mundial do Ministério da Família da Igreja Adventista do Sétimo Dia

Elaine Oliver, doutoranda em Psicologia da Educação, é diretora associada mundial do Ministério da Família da Igreja Adventista do Sétimo Dia

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CAPA

Sob a armadura Um olhar mais atento aos desafios da esposa de pastor Mirian Montanari Grüdtner

É

comum se ouvir no meio ministerial a respeito dos desafios da esposa de pastor. Mas será que o pastor tem uma real percepção das lutas que sua mulher enfrenta? Em 1977, John Gleason identificou 43 problemas relacionados à igreja e à família pastoral, num levantamento feito com 21 pastores e 11 esposas pertencentes a diferentes denominações cristãs.1 As esposas apontaram problemas como lidar com situações inesperadas, raiva, falta de autonomia e resultados no trabalho, perfeccionismo, excesso de atividades, autoimagem negativa, salário inadequado, sentimento de inferioridade, conflito de papéis, problemas familiares, estar na “vitrine”, solidão e patologia dos membros. Na década seguinte, um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Andrews com 167 esposas de pastores adventistas da América do Norte indicou que mais de 30% delas estavam engajadas em Pequenos Grupos evangelísticos, estudavam a Bíblia e os livros de Ellen White.2 Entretanto, apesar da vida devocional e ministerial ativa dessas esposas, mais de dois terços delas não conseguiam manter vínculos permanentes de amizade e sentiam nostalgia e solidão causadas por mudanças frequentes de domicílio, falta de companheirismo na igreja ou fora dela e ausência do esposo. Elas apontaram que as prioridades do marido eram: igreja, Deus, saúde, esposa e, por último, filhos. Cerca de dois terços relataram que o esposo 14

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passava menos de duas horas por dia com a família, incluindo as refeições, e que raramente ou nunca tirava um dia de folga. Além desses desafios, elas também citaram o peso da expectativa dos membros, da Associação, da comunidade e do marido a respeito delas, a falta de reconhecimento no ministério, a incompetência para exercer esse papel e as pressões financeiras. Mais recentemente, nos anos de 2010 e 2011, fiz uma pesquisa com 232 mulheres, das quais 110 eram esposas de pastor em atividade, representantes das Uniões brasileiras, futuras esposas de pastor – cujo namorado ou noivo cursava os últimos dois anos da Faculdade de Teologia – e esposas de pastores jubilados. Elas responderam sobre seus três maiores desafios no ministério, acerca de quais desafios viam que as colegas enfrentavam e, por fim, indicaram os três motivos pelos quais eram esposas de pastor. Os demais participantes eram 79 mulheres e 43 homens, membros da Igreja Adventista, que responderam sobre a maior qualidade, o maior defeito e os maiores desafios da esposa de pastor. Curiosamente, a lista de desafios men-

eclesiástica; além de finanças, educação de filhos, doenças e dificuldades relacionais.3 Assim, é preciso compreender as principais lutas das esposas de pastor para, então, desenvolver atitudes efetivas a fim de ajudá-las a vivenciar sua vida conjugal e ministerial de maneira mais gratificante.

cionados de maneira mais significativa não difere do que se respondeu nas décadas de 70 ou 80. Os principais itens apontados foram solidão; mudanças de domicílio; o peso das expectativas; invasão de privacidade; críticas, cobranças e comparações; conciliar a vida pessoal, familiar, profissional e

lacionam a solidão à genética e, outros, à baixa autoestima. A solidão mencionada nas pesquisas difere da solitude, em que o indivíduo se sente à vontade para se autoconhecer, se adequar, adaptar e superar a si mesmo. Em geral, a solidão da esposa de pastor

Encarando os problemas A partir de minha pesquisa, pude explorar melhor cada ponto mencionado por minhas colegas de ministério. A seguir, gostaria de compartilhar algumas ideias sobre eles. Solidão. Foi o principal desafio apontado pelas esposas entre 20 e 30 anos de idade e pelas esposas de pastores jubilados. As causas mencionadas foram: mudanças frequentes, ausência dos familiares, do marido e dos amigos. A solidão é uma experiência complexa. Cada mulher reage a ela de modo diferente. Diversos estudos sugerem que a modernidade – responsável pelo trabalho em excesso –, a diminuição do número de filhos, os problemas conjugais, a independência feminina, as doenças e o envelhecimento desencadeiam a solidão nas mulheres em geral. Alguns estudos re-


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se refere ao sentimento de desamparo diante de algumas situações. Não se trata necessariamente de estar sozinha, mas pode ser uma dor emocional profunda causada pela carência de intimidade e ausência de relacionamento satisfatório com o marido ou outras pessoas. É um sentimento de isolamento e separação por causa das mudanças, da insegurança para falar de seus problemas ou pelas próprias dificuldades em lidar com suas angústias. Mudanças. Na pesquisa, esse desafio ficou em terceiro lugar para as esposas entre 20 e 30 anos, e em primeiro lugar para a faixa entre 31 e 56 anos.4 Cerca de 40% das esposas na ativa responderam que as mudanças muito frequentes comprometem os estudos acadêmicos, a carreira profissional e dificultam a adaptação delas e dos filhos. As demais mencionaram também o distanciamento dos amigos e familiares, a insegurança e o comprometimento das finanças. Algumas esposas objetaram quanto às mudanças sem prévia consulta à família pastoral. É inegável o esforço dos administradores para ajustar cada obreiro às necessidades do Campo, respeitando as condições da família. No entanto, nem sempre é possível que as expectativas de ambos os lados sejam supridas ao mesmo tempo. Lidar com expectativas, invasão de privacidade, críticas, cobranças e comparações. Esse desafio foi apontado por 29% das esposas entre 20 e 30 anos, e conforme a idade aumentou, a porcentagem diminuiu. Como esse desafio tem relação com a autoestima, a forma de abordar cada situação pode evidenciar fragilidades da esposa do pastor, assim como suas crenças pessoais de certo e errado podem influenciar os relacionamentos e determinar a satisfação pessoal e com o ministério. A esposa pode se ver de uma forma e sentir pressão da parte dos membros, do marido e da Associação para ser diferente. Quanto maior é a distância entre o que esperam dela e o que ela deseja ser ou assumir, maior é a tensão que pode levá-la a uma crise. Conciliar vida pessoal, familiar, profissional e eclesiástica. Esse desafio foi relatado por 16% das mulheres MAI-JUN • 2018 |

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entre 31 e 40 anos de idade. Atualmente, a maioria das esposas de pastor estuda e trabalha, tem autonomia financeira e mais ações de apoio do que no passado. Entretanto, o número crescente das que se sentem dominadas pela incerteza, insegurança, depressão, solidão e frustração não parece mostrar que estejam mais realizadas como pessoas e com o ministério. Além das alterações hormonais pelas quais passamos, o modo de vida da sociedade contemporânea nos pressiona a trabalhar, cuidar da família, ter vida social, cumprir prazos e nos manter dentro das finanças. Essa condição que define a mulher pelo que ela faz, pelo que dizem dela e pelo que ela tem está distante do ideal divino e impacta negativamente a vida da esposa de pastor. A pesquisa também constatou que entre os motivos para ser esposa de pastor, 65% das esposas na ativa responderam

Conclusão

amor ao trabalho de Deus, prazer em servir à Causa e resposta ao chamado divino. O restante das respostas incluiu amor pelo marido, crescimento espiritual e emocional, privilégio de ter um esposo como ministro do evangelho, envolvimento no trabalho do esposo, estabilidade financeira, oportunidade de atualização constante, novos amigos, oportunidade de estudo para os filhos e o carinho dos irmãos. A maioria das respostas indicou “o chamado divino” como principal motivação para ser esposa de pastor. Entretanto, algumas participantes não estão seguras disso, pois não se sentem chamadas. São esposas de pastor apenas porque se casaram com um pastor. Segundo Albert Friesen, “quando a esposa não se entende chamada para o ministério, as vantagens podem não ser suficientes para que os conflitos e as crises sejam compensados”.5

No Éden, Deus encarregou o homem do papel da liderança fundamentada no amor. Quanto mais o pastor se aproximar desse ideal, maior satisfação ele, sua esposa e seus filhos experimentarão. Contudo, muitos pastores se tornam tão empolgados e envolvidos com o trabalho que mais parecem estar casados com a igreja. Assim, a esposa fica desprotegida, o pastor fica descoberto e os filhos também. Se o casamento e a família não recebem prioridade na vida ministerial, então se abre uma brecha nos muros de sua casa, por onde o inimigo pode entrar para atingir tanto ele quanto a esposa. Que cada pastor seja um líder que ordene bem o lar e ame a esposa como Cristo amou a igreja. Seja um companheiro compreensivo e confidente de suas angústias, fragilidades e medos. Um esposo que incentive a vida devocional da esposa e dos filhos e os proteja e pastoreie. Dessa maneira, ela encontrará felicidade e realização como esposa de pastor dentro da perspectiva divina, alcançará o equilíbrio em suas múltiplas funções e vivenciará o ministério e seus desafios com disposição e contentamento.

O pastor apoia sua esposa quando: Destina tempo intencional para a interação familiar, separado de compromissos ou distrações virtuais.

Respeita sua individualidade sem cobranças. Não compromete a esposa com a liderança da igreja para funções sem consultá-la. Dá liberdade para que ela ofereça o que pode, dentro de seus limites.

Referências

Ouve a esposa com atenção, sem julgamentos e resoluções imediatistas. Esse é um dos maiores diferenciais das esposas que superam seus desafios.

Prioriza a vontade de Deus por ocasião de um chamado ou transferência. Às vezes, é comum considerar outros fatores, tais como o momento, as necessidades da família, as dificuldades do trabalho ou o emprego da esposa, mas devemos cuidar para não levar em conta apenas as conveniências próprias, em detrimento da vontade de Deus.

Demonstra interesse, valorização e participação nas tarefas domésticas da esposa.

Gentileza da autora

Desenvolve o hábito da comunicação sincera, a fim de que o casal abra o coração. Expor vulnerabilidades gera intimidade e cumplicidade.

1

J ohn Gleason, “Perception of stress among clergy and their spouses”, Journal of Pastoral Care, v. 31, (1977), p. 248-251.

2

arole Luke Kilcher et al, “Estado de ânimo no C ministério: Um estudo da esposa de pastor como pessoa”, O Ministério Adventista, jan/fev 1983, p. 7-12.

3

irian Montanari Grüdtner, “Esposa de pastor: M Um estudo sobre as mudanças de domicílio e suas implicações”, monografia, Curitiba, 2011, p. 17.

4

Idem, p. 24.

5

lbert Friesen, Cuidando do Casamento (Curitiba, A PR: Esperança, 2004), p. 79.

Mirian Montanari Grüdtner, especialista em aconselhamento familiar, é esposa de pastor e escritora

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CONCURSO DE ARTIGOS A revista

está promovendo o

2º Concurso de Artigos para estudantes de Teologia. Todos os alunos matriculados em programas de graduação ou pós-graduação podem participar.

TEMA E REQUISITOS PARA INSCRIÇÃO:

1. Um dos maiores desafios do cristianismo contemporâneo está relacionado ao discipulado. Desse modo, o tema dos artigos deverá relacionar-se com esse assunto. Os textos podem explorar aspectos bíblicos, históricos, teológicos e aplicados que aprofundem a compreensão acerca do discipulado cristão. 2. Os textos deverão ser enviados em MS Word para o e-mail ministerio@cpb.com.br. Por favor, inclua as seguintes informações no cabeçalho do artigo: nome, endereço, e-mail, telefone, afiliação religiosa, nome da instituição educacional em que está cursando Teologia e o título do manuscrito. 3. Ao fazer citações bibliográficas, identifique as fontes. Insira notas de fim de texto (não notas de rodapé) com referência completa. Use números arábicos nas notas. Utilize a fonte Arial, tamanho 12, espaço 1,5, justificado. Os textos deverão conter no mínimo 8 mil e no máximo 15 mil caracteres com espaço.

PRÊMIOS 1º lugar: Coleção Minicentro Ellen G. White

2º lugar: Coleção Comentário Bíblico Adventista

3º lugar: Bíblia de Estudo Andrews

A comissão avaliadora será formada pela equipe editorial da

Ministério, por representantes do Seminário Adventista LatinoAmericano de Teologia e da Associação Ministerial da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Publicação 1. Não haverá devolução dos artigos enviados. 2. Os ganhadores do concurso darão à revista Ministério os direitos de publicação do artigo. Embora os editores pretendam publicar esses textos, a publicação não é garantida.

Data limite de inscrição: 4. Será aceito somente um artigo por autor.

Apoio:

Os textos deverão ser enviados até 30 de maio de 2018

Seminário Adventista Latino-americano de Teologia Associação Ministerial


CAPA

A árvore e os frutos A influência do ministério do pastor na vida de seus filhos Dayse Bezerra

S

er filho de pastor não é algo fácil de ser absorvido pelos que herdam o título. Em cada fase da vida, não se pode ignorar o fato de que ele faz parte do ministério do pai, mesmo que esse não seja seu maior sonho. Desde muito cedo, os filhos de pastor são observados e cobrados pela comunidade cristã. Algumas vezes, são tachados de rebeldes, quando, na

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verdade, estão apenas em busca de uma identidade pessoal independente da que naturalmente assumem. Diante dessa singularidade, o pastor precisa considerar que faz parte de sua missão estar envolvido diretamente na salvação daqueles que serão o exemplo vivo de seus sermões. Ellen White defende essa ideia ao dizer: “Se devidamente conduzida, a educação dos filhos do pastor ilustra as lições que ele dá no púlpito.”1

Utilizando-se de uma famosa metáfora usada por Jesus, podemos dizer que a relação entre pai e filho pode ser conhecida por seus frutos (Mt 7:20). Desse modo, o pastor que deseja ter uma boa e duradoura colheita espiritual relacionada com os filhos deve investir no melhor solo antes mesmo de plantar a semente e demonstrar os devidos cuidados em cada fase da lavoura. É preciso adubar para fortalecer, podar quando necessário e nutrir


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adequadamente para que a planta se mantenha viva e produtiva. A Bíblia ressalta que o ancião/pastor deve ser um pai exemplar e sábio ao conduzir sua própria casa (1Tm 3:4; Tt 1:6). Isso significa que o ministro precisa estar atento ao se dedicar tanto a grandes projetos, evangelismos, resultados, treinamentos e sermões em detrimento ao cuidado de sua família. Sob o ponto de vista humano, Noé poderia ser considerado um dos evangelistas mais fracassados da história. Entretanto, quando Deus lhe deu a ordem para entrar na arca, toda a sua família estava presente (Gn 7:1). Apesar de seus esforços, o patriarca não celebrou nenhum batismo nem converteu grandes multidões, porém, conseguiu salvar o que havia de mais importante: seu lar. Como nos dias de Noé, estamos aguardando a manifestação do juízo divino e a bem-aventurada esperança da vinda de Jesus (Tt 2:13). Contudo, será que nossa família está salva? Não seria este um bom momento para avaliar os frutos colhidos ou que estão sendo produzidos na relação entre pastores e seus filhos? Alguns momentos marcaram minha vida como filha de pastor. Por vezes fui questionada se era feliz por ter nascido em um lar pastoral. Recordo-me de como foi construído o conceito de vida ministerial durante toda a vivência que tive com meus pais. Percebo que muito do que foi feito em meu favor e de minha irmã mais nova, Karla, ocorreu por decisão conjunta deles e por atitudes simples, mas muito impactantes. Neste artigo, quero compartilhar o que me ajudou a aprender a amar o Deus do pastor de minha casa.

sempre foi florido aos meus olhos. Entre espinhos, o perfume das flores sempre exalou mais forte do que os momentos difíceis de mudança, decisão ou desânimo.Contudo, quando os filhos escutam reclamações constantes ou comentários que prejudicam a reputação de pessoas ou do serviço ministerial, abre-se margem para a desvalorização do chamado pastoral. Muitos filhos podem pensar: “Que chamado é esse que parece mais um fardo para meus pais?”, “Que Deus é esse que nos manda para lugares ruins?”, “Que pessoas são essas que só trazem problemas para nós?” Muitas vezes os filhos ficam calados enquanto escutam conversas depreciativas, mas absorvem facilmente esse conteúdo e passam a ter uma visão distorcida dos planos divinos. E os reflexos desse tipo de conduta podem influir diretamente na relação que eles desenvolvem com o Pai Celestial. Isso leva alguns a se manter distantes do ministério, ser mais críticos em relação à igreja ou ter dificuldades com adaptações. Por outro lado, quando eles recebem um bom relatório do ministério, podem servir como pontes de acesso entre outras pessoas e Jesus.

aquele pastor do púlpito, que tanto prega sobre a dependência divina, a necessidade de buscar primeiro Deus e de se alimentar diariamente da Fonte, realmente vive suas palavras. Norm Wakefield e Josh McDowell escreveram em seu livro, A Diferença que o Pai Faz, que “os atos são comunicados, em primeiro lugar, pelo exemplo”. Além disso, ressaltam: “Se os filhos devem aprender pela experiência como amar a Deus, é preciso que vejam isso praticado pelos pais em sua vida diária.”2 Meu pai nem poderia imaginar, mas ao longo do tempo estava criando duas defensoras que sabiam quem ele era de verdade: primeiro, um pastor em casa. Um dia ele me perguntou: “Você não se cansa de ouvir meus sermões?” Respondi que não, porque sempre havia algo diferente a me ensinar sobre eles fora dos púlpitos. Em realidade, isso era mais uma confirmação do que meu pai representava para nós.

Tempo especial

Cuidado com as palavras

Um pastor que vive as mensagens que prega para seus auditórios não precisa pregar sermões a seus filhos. O exemplo é concreto, não é teórico nem virtual. O pastor que transforma a religião que defende em estilo de vida não precisa ter medo de que seus filhos não compreendam a essência do cristianismo. É notório que encontrarão os princípios na prática e no cotidiano da família. Mas, que exemplos são esses? Neste momento vem à minha memória as vezes

O tempo do pastor pode ser administrado por ele. A rotina é feita de acordo com as necessidades do ministério. Mesmo assim, dedicar tempo de qualidade para os filhos pode ser um grande desafio, nesses dias em que parece que 24 horas não são suficientes. O pastor precisa tirar tempo para ser pai, amigo, conselheiro – sem dar sermões –, sonhador, brincalhão, contador de histórias, imitador, cantor e o que mais for preciso para ver seus filhos felizes. Pode ser por um período curto durante o dia ou nas férias em família. Aliás, algo que valorizamos até hoje são as férias em família. É um tempo sagrado para estar juntos, programar algo diferen-

Se existe algo que os filhos fazem por natureza é imitar os pais: o que falam, o que fazem e o que pensam a respeito de tudo, inclusive da igreja. Em todos os momentos do ministério em que estive inserida – e sei que não é um mar de rosas –, o jardim em que estivemos juntos “pastoreando”

em que acordei de madrugada e vi meu pai ajoelhado à beira da minha cama orando por mim; as manhãs em que fui despertada ouvindo hinos que ele cantava enquanto fazia seu devocional pessoal; o fato de que ao folhear sua Bíblia posso encontrá-la quase toda anotada. Isso me mostra que

te e nos conectar uns com os outros. Lamentavelmente, porém, o que se tem visto são itinerários de viagem até interessantes, mas com poucas atividades conjuntas. Cada um se fecha no seu mundo virtual e, ainda que estejam no mesmo ambiente, pouco se olham e raramente conversam. Isso é tempo

O poder do exemplo

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Coração na missão O que mais me impactou como filha de pastor foi que desde muito pequena estávamos envolvidas na missão. Sim, a família toda! Em cada evangelismo, semana de oração ou estudo bíblico, a família ia junto. Não acompanhávamos para ficar apenas sentadas, mas cantávamos, dirigíamos a programação das crianças e contribuíamos com aquilo que era necessário. É claro que havia muitos incentivos. Quando não estávamos muito dispostas, meu pai nos propunha comprar nosso lanche favorito no caminho de volta para casa ou nos presentear com algo interessante. E o estímulo funcionava! O que chama atenção é o fato de que nosso pai não gostava de andar sozinho.

Ele sempre dizia que nossa família era a extensão de sua mensagem. Assim nos sentíamos blindadas e também envolvidas na missão. Foi nessas pequenas atuações que me descobri em muitos ministérios da igreja. Foi elaborando cultos criativos de pôr do sol que organizei meus primeiros eventos. Foi contando histórias para crianças que aprendi a enfrentar o público. Foi inserida no Clube de Desbravadores que fui estimulada a aceitar desafios ousados em favor da igreja. Foi ajudando a montar os equipamentos de mídia do meu pai que desenvolvi o interesse pela minha profissão, o jornalismo. Assim, fui descobrindo meus dons, me sentindo útil e relevante para Deus. Aprendi o sentido de pertencer a uma família que se une para pregar o evangelho de muitas maneiras, mas com um só propósito.

de conhecer mais a Bíblia seria me tornando um pastor.” Com muito esforço, Shaw conseguiu estudar, e hoje é pastor em Manaus, AM. Recentemente, em um concílio de que participou, no momento em que eram apresentados os pastores da Associação, ele foi surpreendido ao ouvir o nome do pastor José Carlos de Aguiar Bezerra. Imediatamente ele o reconheceu. Era aquele pastor, o pai da garotinha! “Na primeira conversa que tivemos disse que o conhecia, e logo lhe contei minha história. Não tenho dúvidas de que a conduta daquele casal pastoral influenciou sua pequena criança desde cedo”, disse o pastor Shaw. A esperança compartilhada por aquela menininha também alcançou os irmãos de Shaw e, finalmente, sua mãe, que também aceitou a mensagem adventista. Jamais imaginei que as histórias contadas com auxílio de um flanelógrafo pudessem ajudar um menino a tomar a decisão de se tornar um pastor. Quando falei com o pastor Shaw, bastante emocionada, disse-lhe: “Amigo, ainda tenho guardadas aquelas histórias em feltro.” Hoje continuo contando as mesmas histórias, agora para meu filho, Arthur, de três anos. Quem sabe um dia ele se torne um pastor? O importante, porém, é que o discipulado vai continuar, e no Céu colheremos muitos frutos. Quero continuar investindo nessa lavoura!

Conclusão Enquanto preparava este artigo fui surpreendida por uma história que ilustra a importância de uma família pastoral unida no cumprimento da missão. Shaw Vidal Pedroso teve uma infância muito sofrida. Abandonado pelo pai e negligenciado pela mãe, o garoto tinha poucos momentos de lazer. Um deles era participar de um encontro realizado aos sábados à tarde na casa de um vizinho. Enquanto o pastor adventista pregava para os adultos, em um quarto ao lado, um grupo de crianças se reunia para ouvir a filha do pastor contar histórias bíblicas utilizando um flanelógrafo. “Eu buscava uma alegria que não tinha em casa. Aquelas tardes de sábado me trouxeram esperança. Consegui ver uma luz no fim do túnel. Os anos se passaram, e eu nunca me esqueci daqueles momentos, pois aquela menina, que tinha quase a mesma idade que eu, sabia muito da Bíblia. Eu queria conhecer a Bíblia como aquela menina. Após alguns anos, me tornei adventista. Descobri que a melhor maneira

Referências 1

Ellen G. White, O Lar Adventista (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013), p. 353.

2

Josh McDowell e Norm Wakefield, A Diferença que o Pai Faz (São Paulo, SP: Candeia, 1997), p. 82, 129.

3

llen G. White, Obreiros Evangélicos (Tatuí, SP: Casa E Publicadora Brasileira, 2014), p. 206.

4

rmand Nicholi, Jr., “Changes in the American A Family”, White House Paper, 25/10/1984, p. 7, 8.

Dayse Bezerra é jornalista e mora em Manaus, AM Gentileza da autora

valioso sendo desperdiçado. Ellen White, escrevendo há cerca de 100 anos, afirmou: “Os filhos dos pastores são, em certos casos, os mais negligenciados do mundo, pela razão de que os pais não estão com eles senão por pouco tempo, e ficam na liberdade de escolher suas ocupações e entretenimentos.”3 Essa negligência tem seu preço. O pesquisador norte-americano Armand Nicholi Jr. descobriu que um pai física ou emocionalmente ausente pode causar baixa motivação para o desempenho da criança; autoestima debilitada; incapacidade de adiar a gratificação imediata para obter recompensas posteriores; e suscetibilidade à influência do grupo e à delinquência juvenil.4 Por isso, o pai precisa desenvolver proximidade com seus filhos. Norm Wakefield e Josh McDowell descrevem as atitudes do pai bem-sucedido nesse processo: Sorri e é otimista, encoraja e elogia, mostra interesse pelos assuntos, talentos e ideias dos outros e está disponível. Desse modo, as aventuras de pais e filhos ficam registradas para sempre na mente e no coração. Até hoje me lembro de muitos momentos especiais que desejo reviver com meu esposo e meu filho.

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PANORAMA

O ateísmo e a Geração Z S e no passado acreditava-se que uma nova geração surgia a cada 25 anos, atualmente a crença é de que isso ocorra num espaço médio de uma década. Além desse compasso acelerado, observa-se que as novas gerações emergem com características cada vez mais distintas de suas antecessoras. Essas distinções influenciam todas as áreas da vida e, de modo especial, as práticas religiosas. Conforme o estudo do Instituto Barna, realizado nos Estados Unidos, intitulado Gen Z: The culture, beliefs and motivations

shaping the next generation, a geração nascida entre 1999 e 2015 demonstra uma atitude fluida em relação à identidade religiosa. Alguns são inclinados à espiritualidade e avessos à religiosidade, e outros são declaradamente ateus. Aliás, o percentual de ateus entre a Geração Z é o dobro do encontrado entre a população em geral. Um dos dados levantados nessa pesquisa foi a percepção dos jovens na faixa dos 13 aos 18 anos quanto ao papel da igreja em sua vida. Os resultados revelam a tensão entre a relevância da comunidade de fé e a possível inconsistência de suas práticas.

PERCEPÇÕES SOBRE A IGREJA ENTRE JOVENS CRISTÃOS

82%

49%

24%

A igreja parece rejeitar muito do que a ciência diz sobre o mundo

A fé e os ensinamentos que eu encontro na igreja parecem superficiais

82%

38%

17%

A igreja é relevante para minha vida

A igreja superprotege os jovens

77%

36%

63%

27%

A igreja é um lugar para encontrar respostas que promovem uma vida significativa

Sinto que posso ser “eu mesmo” na igreja

As pessoas na igreja são tolerantes quanto àqueles que têm crenças diferentes

A igreja se parece muito com um clube exclusivo

As pessoas na igreja são hipócritas

A igreja não é um lugar seguro para expressar dúvidas

Fonte: Instituto Barna, “Atheism doubles among generation Z”. Disponível em <https://goo.gl/4G3T2t>.

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EXEGESE

Duplo selamento As distinções entre o selo do evangelho e o selo escatológico Jiří Moskala

A

Bíblia fala de dois selos de Deus. A carta aos Efésios menciona o primeiro, e o livro do Apocalipse fala do segundo. Enquanto o segundo nos é mais familiar, por fazer parte da compreensão adventista sobre os eventos do tempo do fim, o primeiro pode não ser tão conhecido. Esses dois selos são diferentes, mas se complementam. Somente aqueles que receberem o primeiro selo poderão receber o segundo. O primeiro selo nos dá a segurança da redenção. Ele é concedido no começo da jornada espiritual a todo aquele que aceita Jesus como Senhor e Salvador. O segundo é nossa garantia escatológica, pois sua função é cumprida exatamente no tempo do fim, pouco antes do fechamento da porta da graça. Um estudo desses dois selos pode nos dar uma nova dimensão, uma nova percepção, um compromisso renovado e uma profunda alegria.

O selo do evangelho A carta aos Efésios menciona o primeiro selo duas vezes. A primeira menção está em Efésios 1:13, 14: “Em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados [esphragisthēte]1 com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da Sua propriedade, em louvor da Sua glória.”2 Paulo declarou que, no momento em que alguém se entrega a Cristo e O aceita como Salvador, o Espírito Santo 22

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sela essa pessoa em Cristo para o dia da redenção. Eu chamo isso de “selo do evangelho.” A sequência do pensamento na passagem de Efésios precisa ser notada: (1) ouvimos a palavra da verdade, o evangelho da salvação; (2) cremos em Jesus Cristo; (3) fomos selados pelo Espírito Santo; e (4) o Espírito Santo é dado a nós como penhor (arrabōn, Ef 1:14; 2Co 1:22) ou como primícia (aparchē, Rm 8:23, 24). O “selo” aqui se refere àquele ato divino pelo qual o Espírito Santo se torna penhor e fiador da nossa salvação e redenção. Dessa forma, o Espírito Santo garante nossa herança. Ele assegura nossa redenção desde que permaneçamos fiéis ao nosso chamado até o fim do tempo, quando seremos a propriedade de Deus por completo e teremos um perfeito relacionamento com Deus face a face.3 O dom do Espírito é como um pagamento antecipado da herança que temos em Deus. Essa primeira recompensa garante o pagamento completo no futuro. O Espírito é a parcela inicial da nossa salvação. Ele também é nossa garantia de que a plena herança futura e a salvação serão entregues. A salvação não depende dos nossos atos, realizações ou desempenho, pois ela é unicamente obra de Deus. A palavra grega arrabōn significa “depósito, penhor, garantia daquilo que está por vir”. A palavra é usada também em 2 Coríntios 1:22, onde o selamento e a garantia são colocados juntos, e em 2 Coríntios 5:5,

onde a atividade inteira aponta para Deus, que “nos preparou para esse propósito, dando-nos o Espírito como garantia do que está por vir”. Isso nos leva à segunda passagem sobre o primeiro selo de Deus. Aqui Paulo advertiu os crentes quanto ao relacionamento deles com o Espírito Santo: “E não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados [esphragisthēte ] para o dia da redenção” (Ef 4:30).4 A expressão grega ocorre apenas duas vezes no Novo Testamento, aqui e em Efésios 1:13, e sempre em relação à crença em Jesus. Note que na vida de um crente, a afirmação de Paulo sobre o selamento efetuado pelo Espírito Santo, em ambos os textos, é um evento passado: “fostes selados”. Os crentes em Cristo são selados pelo Espírito Santo para o evento escatológico da redenção total. A vida de obediência é o resultado natural de uma fé viva. O selamento é dom de Deus. É Sua resposta à nossa resposta ao Seu amor. Uma vez que o Espírito Santo habita em nós, não devemos desapontá-Lo nem entristecê-Lo por meio de ações e condutas erradas: “Longe de vós, toda amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda malícia” (Ef 4:31). O conselho de Paulo no sentido de não entristecer “o Espírito de Deus” (Ef 4:30) é um apelo direto: não façam como o povo de Israel no passado (ver Is 63:10). Por que viver em oposição Àquele que nos concedeu o selo? Por que colocar em risco nosso destino eterno?


O selamento tem vários significados, entre eles, três devem ser notados: (1) sinal ou prova de autenticidade; (2) sinal de propriedade; e (3) sinal de aprovação. Por meio do selamento, Deus declara que pertencemos a Ele, somos Dele, e Ele aprova e aceita nossa fé para que possamos crescer Nele e ter uma vida autêntica de amor, fé e esperança (2Co 13:13, 14; 2Pe 3:18). Todas essas nuances são relevantes para o selamento divino daqueles que creem. Como sinal de propriedade, o selamento indica pertencimento, bem como aprovação de um produto. Isso traz um sentimento de validade e autenticidade: “Ora, é Deus que faz que nós e vocês permaneçamos firmes em Cristo. Ele nos ungiu, nos selou como Sua propriedade e pôs Seu Espírito em nossos corações como garantia do que está por vir” (2Co 1:21, 22, NVI). “Foi Deus que nos preparou para esse propósito, dando-nos o Espírito como garantia do que está por vir” (2Co 5:5, NVI). Mediante nossa união com Cristo, passamos novamente a pertencer ao Senhor, e o Espírito Santo coloca Seu selo em nós para ratificar esse novo relacionamento (Ef 1:13; 2:11). Não há dúvida quanto à salvação, porque o Espírito Santo é o fiador dessa experiência (cf. Jo 5:24; Ef 2:4-10). Tendo crido, somos selados pelo Espírito para o dia da redenção. É significativo que o selamento pelo Espírito é mencionado nas duas partes de Efésios. Na primeira parte (capítulos 1-3), que é mais doutrinária, Paulo apresentou o indicativo do evangelho, ou a raiz da nossa salvação, e nos lembrou do nosso chamado e das riquezas da graça de Deus. Na segunda parte (capítulos 4-6), Paulo descreveu as consequências e demandas de uma vida salva, isto é, o imperativo do evangelho e do comportamento ético,

O selo apocalíptico

exortando os seguidores de Cristo a viver de maneira apropriada ao seu chamado. Nenhum de nós pode selar a si mesmo. O selamento é um ato de Deus por nós no qual não há “mas” nem “talvez”. Permanecendo em Cristo, temos segurança da salvação.

ção teocêntrica. Nós não podemos tomá-la em nossas mãos. Não possuímos a salvação. Ela vem a nós como um dom preparado por Deus que podemos somente aceitar ou rejeitar. Deus nos possui, e pertencemos a Ele. Precisamos permanecer “em Cristo”, assim como Paulo diria.5 Jesus é o fiador do

O segundo selo de Deus é descrito no livro do Apocalipse. Esse selo não contradiz o primeiro, mas é concedido aos redimidos como sinal de que pertencem ao Senhor. Eles vivem no tempo do fim, um pouco antes do fechamento da porta da graça. O propósito desse segundo selo não focaliza a salvação ou redenção, mas expressa a derradeira proteção e vindicação redentiva. Se o primeiro é o selo do evangelho, o segundo pode ser chamado de selo escatológico ou apocalíptico. Esse selo apocalíptico (sphragis) é mencionado no livro do Apocalipse, onde os fiéis seguidores de Deus o recebem perto do fim dos tempos para que sejam capazes de passar pelos eventos finais e ser protegidos das sete últimas pragas (Ap 7:2, 3; 9:4; 14:9). Esse selo é o oposto da marca (charagma) da besta. O mundo é advertido a não receber a marca da besta (Ap 13:16, 17; 14:9, 11; 16:2; 19:20; 20:4), porque ela será colocada sobre aqueles que rejeitarem a graça salvífica de Cristo e se colocarem do lado de Satanás. No livro do Apocalipse, aqueles que tiverem o selo de Deus na sua fronte serão protegidos do derramamento da ira divina e poderão ficar em pé naquele grande dia (Ap 6:17; 7:3). Portanto, não é por acaso que a trípice mensagem angélica é concluída com a declaração do Espírito Santo aos filhos de Deus: “que descansem das suas fadigas, pois as suas obras os acompanham” (Ap 14:13). Esses fiéis são a herança de Deus, descansando no Senhor até o dia da redenção. A salvação nunca foi um empreendimento antropocêntrico, mas uma realiza-

nosso selamento, porque Ele recebeu um selo de aprovação em Sua obra em nosso favor quando viveu na Terra. “Porque Deus, o Pai” “confirmou [Jesus] com o Seu selo” (Jo 6:27).

Os dois selos comparados Tanto no selo do evangelho quanto no selo apocalíptico, a obra é realizada pelo Espírito Santo. O primeiro, o selo do evangelho, é colocado sobre todos os que aceitam Jesus como seu Salvador e no momento em que O aceitam (2Co 1:22; Ef 1:13; 4:30; 2Tm 2:19). O segundo, o selo apocalíptico, é colocado naqueles que receberam o primeiro selo e que estarão vivos e fiéis ao seu chamado durante os dias apocalípticos que ocorrerão pouco tempo antes da segunda vinda de Jesus (Ap 7:3, 4, 14-17). O primeiro é um selo de salvação, declarando que a pessoa é salva por Cristo e faz parte da família de Deus, mantendo esse status enquanto permanecer fiel a Ele. O segundo é um selo de proteção que guarda os fiéis durante o tempo de perseguição que ocorre no período apocalíptico. O primeiro é um selo de aceitação, o outro, um selo de confirmação final. O primeiro selo é uma declaração inicial de que a pessoa pertence a Cristo e é colocado no momento em que ela aceita Jesus. O segundo confirma a fidelidade em seguir ao Cordeiro e à liderança de Deus na sua vida, fazendo Sua vontade, guardando Seus mandamentos e vivendo de acordo com Sua Palavra durante as horas finais da Terra (Ap 7:14-17; 12:17; 13:10; 14:4, 5, 12; 17:14; 19:10). O primeiro selo é colocado no momento da aceitação de Jesus como Salvador, e os redimidos permanecem com ele enquanto se mantêm fiéis ao seu chamado. O segundo selo é colocado naqueles que receberam o primeiro selo e vivem durante os dias apocalípticos, fiéis ao seu chamado. Embora o selo do evangelho possa ser quebrado pelo abandono da fé, o selo apocalíptico é permanente. MAI-JUN • 2018 |

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À medida que a história do mundo chega ao fim, haverá circunstâncias tão angustiantes que as pessoas terão que decidir de que lado estarão: com Deus ou com as forças do mal representadas no Apocalipse pelo dragão, pelas bestas do mar e da terra, pelo falso profeta e pela imagem da besta (ver Ap 13-18). O livro do Apocalipse menciona que durante o tempo do fim, Deus colocará Seu selo apocalíptico sobre Seu povo (Ap 7:1-4). Com base no ensinamento bíblico, apoiado pelos escritos de Ellen White, pode-se afirmar que o selo apocalíptico será dado somente aos fiéis seguidores de Deus após a derradeira crise global, imediatamente antes do fechamento da porta da graça. Nesse tempo, a imagem da besta surgirá com suas demandas vigorosas. Ellen White diz: “A imagem da besta será formada antes que termine a graça. Isso será a grande prova para o povo de Deus, pela qual será decidido seu destino eterno [...]. “Esta é a prova pela qual o povo de Deus tem que passar antes de ser selado. Todos os que demonstrarem sua lealdade a Deus, observando Sua lei e recusando aceitar o falso dia de repouso, se colocarão sob o estandarte do Senhor e receberão o selo do Deus vivo. Os que renunciarem à verdade de origem celestial e aceitarem o domingo como o sábado de repouso receberão a marca da besta.”6 Além disso, ela explica quando a marca da besta será recebida: “Ninguém recebeu até agora o sinal da besta. Ainda não chegou o tempo de prova. Há cristãos verdadeiros em todas as igrejas, inclusive na comunidade católico-romana. Ninguém é

anjo advertir os homens contra a adoração da besta e de sua imagem, será traçada com clareza a linha divisória entre o falso e o verdadeiro. Então os que ainda persistirem na transgressão receberão o sinal da besta.” “A passos rápidos aproximamo-nos desse período. Quando as igrejas protestantes se unirem com o poder secular para amparar uma religião falsa, à qual se opuseram os seus antepassados, sofrendo com isso a mais terrível perseguição, então o dia de repouso papal será tornado obrigatório pela autoridade combinada da Igreja e do Estado. Haverá uma apostasia nacional que só terminará em ruína nacional.”7 Ellen White afirma ainda: “A observância do domingo não é ainda o sinal da besta, e não o será até que saia o decreto compelindo as pessoas a venerarem esse falso sábado. Chegará o tempo em que esse dia será a prova, mas esse tempo ainda não veio.”8 Mais uma vez, quando ocorrerá o selamento escatológico? Com base nos escritos de Ellen White, podemos afirmar o seguinte: (1) esse selamento ocorrerá somente depois que o protestantismo apostatado se unir com o catolicismo para impor a guarda do domingo; (2) a lei dominical entrará em vigor e servirá de catalisador para levar as pessoas a escolher entre a lei de Deus e as exigências humanas; (3) somente então começará o tempo de identificação com o selo de Deus e a marca da besta. O selamento apocalíptico começará somente depois que a lei dominical for promulgada. A controvérsia final entre o sábado e o domingo distinguirá aqueles que

condenado sem que haja recebido iluminação nem se compenetrado da obrigatoriedade do quarto mandamento. Mas quando for expedido o decreto que impõe o falso sábado, e o alto clamor do terceiro

são leais daqueles que optarem por se aliar a Satanás. Ellen White declara: “O sábado será a pedra de toque da lealdade [...] Quando sobrevier aos homens a prova final, será traçada a linha divisória entre os

que servem a Deus e os que não O servem. Ao passo que a observância do sábado espúrio em conformidade com a lei do Estado, contrária ao quarto mandamento, será uma declaração de fidelidade ao poder que se acha em oposição a Deus, a guarda do verdadeiro sábado, em obediência à lei divina, é uma prova de lealdade para com o Criador. Ao passo que uma classe, aceitando a sinal de submissão aos poderes terrestres, recebe o sinal da besta, a outra, preferindo o sinal da obediência à autoridade divina, recebe o selo de Deus.”9 Referências

Gentileza do autor

O tempo de receber o selo apocalíptico

1

E sphragisthēte é um verbo no aoristo do indicativo passivo, na segunda pessoa do plural, que significa “vocês foram selados” ou “marcados” (do verbo sphragizō, “selar, lacrar com um selo”).

2

alvo indicação contrária, todas as passagens S bíblicas são da versão Almeida Revista e Atualizada.

3

presença do Espírito Santo na vida dos crentes A não é apenas evidência de sua presente salvação em Cristo, mas também um penhor e garantia de sua herança futura, e pagamento antecipado dessa herança. Paulo também falou sobre ter as primícias do Espírito (Rm 8:23, 24).

4

referência ao “dia da redenção” é a ênfase especial A paulina em Efésios, e seu contexto aponta para a segunda vinda de Cristo (ver Ef 1:14).

5

expressão “‘em Cristo’, com suas 164 ocorrências, A 36 das quais estão em Efésios, muito provavelmente seja o tema central ou, pelo menos, um tema central” em Paulo. Klyne Snodgrass, The NIV Application Commentary: Ephesians (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1996), p. 57.

6

llen G. White, Comentário Bíblico Adventista do E Sétimo Dia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014), v. 7, p. 1090, 1091, ênfase acrescentada.

7

llen G. White, Evangelismo (Tatuí, SP: Casa E Publicadora Brasileira, 2016), p. 234, 235.

8

llen G. White, Comentário Bíblico Adventista do E Sétimo Dia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014), v. 7, p. 1092.

9

llen G. White, O Grande Conflito (Tatuí, SP: Casa E Publicadora Brasileira, 2014), p. 605.

Jiří Moskala, doutor em Teologia, é reitor do Seminário Teológico Adventista do Sétimo Dia da Universidade Andrews

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TEOLOGIA

Do Decálogo à Tradição Os 20 anos de publicação da encíclica Dies Domini

©Neurobite | Fotolia

Diego Bispo e Lucas Higor

P

ublicada em 31 de maio de 1998, a encíclica Dies Domini, de autoria do então papa João Paulo II, veio realçar a importância do descanso dominical para os círculos católico-romanos.1 Ao que parece, a principal preocupação em pauta era a perda de significado do domingo diante das condições socioeconômicas e culturais da época, que ameaçavam reduzir a solenidade religiosa do dia a um mero descanso físico.2 Frente àquela realidade, o papa esclareceu que seu objetivo era “recuperar as profundas motivações doutrinais que estão na base do preceito eclesial, para que apareça bem claro a todos os fiéis o valor imprescindível do domingo na vida cristã”.3 Para tanto, sua abordagem vai desde a observância do sétimo dia pelo próprio Deus, conforme destacada na narrativa de Gênesis, até a suposta transferência dessa solenidade para o primeiro dia da semana, em comemoração à ressurreição de Cristo. Ao discorrer sobre o assunto, Alberto Timm comenta que a encíclica Dies Domini surgiu da tentativa católica de construir uma teologia bíblica a respeito do domingo.4 Biblicamente, porém, é possível constatar que as Escrituras não fazem menção a outro dia como sendo o dia de repouso religioso, senão ao sétimo dia da semana, o sábado. Nesse contexto, haveria respaldo bíblico para defender o chamado “argumento da transferência” apresentado por essa encíclica papal? O mandamento da observância do sábado contido no Decálogo foi, de fato, substituído pelo descanso dominical?

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Dies Domini e suas pressuposições A teologia católica, assim como qualquer outra, é fundamentada em pressupostos que norteiam sua interpretação das Escrituras e de sua fé. Assim, é válido pontuar, mesmo que brevemente, dois pressupostos básicos que, presentes também nas entrelinhas da encíclica, proveem uma base argumentativa para a crença na transferência do sábado para o domingo: a doutrina da sucessão apostólica e o papel da Tradição na interpretação bíblica. A Igreja Católica defende a ideia da sucessão apostólica,5 crendo, desse modo, possuir uma relativa pureza doutrinária ininterrupta desde sua fundação. Por isso, as referências históricas de cristãos primitivos observando o domingo são consideradas como normativas para a prática cristã contemporânea.6 Quanto ao papel da Tradição para sua hermenêutica, a Igreja de Roma deixa claro que as Escrituras têm a “Sagrada Tradição” – a maneira com que o evangelho é transmitido dentro do contexto eclesiástico ao longo da história7 – como “a regra suprema de sua fé”.8 Em outras palavras, a Bíblia não é a única regra de fé e prática para o catolicismo, como geralmente se admite no meio protestante (sola Scriptura). Assim, toda interpretação bíblica católica – inclusive a encíclica –, estará norteada por sua própria Tradição.

Interessante é notar que a encíclica, bem como o Catecismo da Igreja Católica,10 não descartam o sábado como tendo perdido sua validade, tampouco defendem a revogação do dia de adoração apontado pelo Decálogo. Antes, João Paulo II afirma que “mais do que uma substituição do sábado, o domingo constitui a sua perfeita realização [...], seu desenvolvimento e plena expressão”.11 Para ele, o descanso de Deus na criação e a salvação de Seu povo prefigurada pelo êxodo que, sob a antiga aliança, constituíam o significado do sábado, encontram seu cumprimento na morte e ressurreição de Jesus. Tendo esse grandioso evento ocorrido em um domingo, conclui-se que “o sentido do preceito veterotestamentário do dia do Senhor é recuperado, integrado e plenamente revelado” em Cristo. Assim, “do sábado passa-se ao primeiro dia depois do sábado, do sétimo dia passa-se ao primeiro dia: o dies Domini torna-se o dies Christi! ”12 À luz da Bíblia, porém, não há base para sustentar tal argumento.

Dies Domini à luz da Bíblia

Dies Domini e seu conteúdo bíblico

Ao se considerar qualquer controvérsia a respeito do dia de repouso e adoração, tal discussão sempre girará em torno das páginas do Novo Testamento. Afinal, as repetidas referências ao sétimo dia no Antigo Testamento o colocam acima de qualquer questionamento (Gn 2:1-3; Êx 16, 20:8-11; Dt 5:12-15; Ne 13:15, 16; Is 58:13, 14; Jr 17:1927; Ez 20:12, 20). A própria encíclica admite que Cristo, quando realizava curas no dia de sábado,

Uma leitura superficial da encíclica Dies Domini é suficiente para notar que o ponto fundamental a partir do qual se constrói todo o “argumento da transferência” é o evento da ressurreição de Cristo. Considerando-a como o “dado primordial sobre o qual se apoia a fé cristã”, toma-se o fato de tal evento haver ocorrido no primeiro dia da semana como o indicativo de que este se torna, por excelência, o dia do descanso cristão.9

longe de indicar sua perda de validade, aprofundou o significado libertador desse dia (Mt 12:9-13; Lc 13:10-17, 14:1-6; Jo 5:2-9).13 Na sequência dos evangelhos, o livro de Atos “revela que o único dia em que os apóstolos estiveram envolvidos em serviços de culto [...] foi o sábado” (At 13:14, 42, 44; 16:13; 17:2, 18:4).14 Kenneth Strand também sugere que essas evidências, além de apontar para o fato de que Cristo e os apóstolos mantiveram o sábado como dia

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de descanso religioso, indicam ainda que não houve outro dia sendo honrado como dia de adoração senão o sétimo dia.15 É inquestionável que a ressurreição de Cristo, evento de importância ímpar para a fé cristã, ocorreu em um domingo (Mt 28:1; Mc 16:2, 9; Lc 24:1; Jo 20:1, 19). Mas isso justificaria a substituição do sábado pelo domingo como dia de adoração? Alberto Timm destaca que há uma imposição retroativa da tradição pós-apostólica – a qual veremos a seguir – ao texto bíblico, distorcendo assim o significado natural das passagens em questão.16 Em realidade, nenhum texto neotestamentário relaciona a ressurreição a um novo dia de adoração.

Dies Domini e a Tradição Longe de ser uma prescrição do Novo Testamento, a observância do domingo como dia de culto encontra sua origem na história do cristianismo, cujo desenvolvimento não é simples de ser detalhado. É importante salientar, como apresentado por Samuele Bacchiocchi, que a origem da observância dominical é resultado de uma interação entre fatores do judaísmo, do paganismo e do cristianismo,17 além de um longo processo histórico. Inicialmente, como assegura Kenneth Strand, o domingo não era um substituto para o sábado, de tal modo que ambos foram igualmente observados no período do cristianismo apostólico.18 Provavelmente sua origem como comemoração cristã esteja ligada à Festa das Primícias que, no Novo Testamento, é relacionada à ressurreição de Cristo. Nesse contexto, seria natural que os primeiros cristãos – em sua maioria cristãos judeus – comemorassem as primícias em honra à ressurreição. Essa festividade, entretanto, ocorria anualmente. Posteriormente, porém, deve ter-se convertido em uma celebração semanal.19 De fato, a substituição efetiva do sábado para o domingo deve ser creditada à história da Igreja de Roma. Desde muito


Conclusão

Referências

Apesar dos argumentos usados por João Paulo II serem bem elaborados, nenhum dos textos bíblicos utilizados por ele no desenvolvimento de sua tese diz de maneira objetiva que o sábado foi substituído pelo domingo como dia de repouso. Contudo, à luz de sua própria perspectiva, esse fato não consiste em um problema teológico para o catolicismo. Admite-se, porém, que “os cristãos [...] assumiram

1

João Paulo II, Dies Domini. Disponível em <https://goo.gl/2ZsED9>.

2

D ies Domini § 4.

3

Dies Domini § 6.

4

lberto R. Timm, O Sábado na Bíblia: Porque Deus A Faz Questão de um Dia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2010), p. 97.

5

Dies Domini § 3.

6

Por exemplo, nos § 19, 23, 46 e 47.

7

. Ribeiro. “A Revelação nos Concílios de Trento e A Vaticano II”, em Teocomunicação, v. 36, nº 151 (p. 55-74), p. 64.

Gentileza do autor

como festivo o primeiro dia depois do sábado, porque nele se deu a ressurreição do Senhor”.26 Relembrando o papel da Tradição para a interpretação da fé católica e da doutrina da sucessão apostólica, assume-se que “era justo que os cristãos [...] se sentissem autorizados a transpor o significado do sábado para o dia da ressurreição”.27 Em última instância, recorre-se à Tradição e à suposta autoridade apostólica da Sé Romana para justificar a transferência do sábado para o domingo. Essa realidade parece deslocar a controvérsia sábado versus domingo para além da discussão bíblica, chegando aos pontos mais fundamentais da Teologia Cristã: a noção de Revelação e a interpretação das Escrituras. Como alerta Bacchiocchi, “para aqueles cristãos que defendem suas crenças e práticas exclusivamente pelo princípio reformador do sola Scriptura, observar o domingo como o dia do Senhor sobre a autoridade da tradição da igreja e não sobre a autoridade das Escrituras é um dilema paradoxal”.28 Atualmente, os recorrentes debates nos círculos cristãos sobre o tema, bem como os movimentos de apoio ao descanso dominical ao redor do mundo,29 aparentemente enraizados no “argumento da transferência”, realçam a necessidade da teologia adventista reafirmar sua crença no sábado bíblico à luz de sua perspectiva profética (Ap 13).

Gentileza do autor

cedo, teólogos cristãos de Roma, ao lado dos de Alexandria, eram os que não apenas mantinham o domingo como dia de celebrações religiosas, mas também manifestavam atitudes negativas em relação ao sábado, como demonstraram Justino Mártir e Barnabé de Alexandria, por exemplo.20 Samuele Bacchiocchi assinala que, sendo formada em sua maioria por cristãos conversos do paganismo, a igreja romana tomou medidas com o intuito de salientar suas distinções quanto aos judeus, que viviam em constante tensão com o Império Romano.21 Sem dúvida, o contexto antijudaico do período foi um dos mais importantes fatores para a substituição do dia cristão de adoração.22 Bacchiocchi esclarece que a escolha do domingo em si relaciona-se também com a difusão dos cultos ao Sol comumente comemorados no Império Romano no primeiro dia da semana. Os cristãos teriam assumido esse dia, não porque estivessem desejosos de adorar ao deus-Sol, mas porque o dia estaria relacionado à nova criação e ao simbolismo do “Sol da Justiça”,23 algo que ainda permanece presente na própria encíclica Dies Domini.24 Posteriormente, as leis dominicais do Império e o íntimo relacionamento existente entre este e a Igreja, que se desenvolveu de Constantino a Justiniano, acabaram assinalando a substituição do sábado para o domingo, por volta do oitavo século.25

8

C onstituição Dogmática Dei Verbum § 21. Disponível em <https://goo.gl/tzyKwD>.

9

Dies Domini § 3.

10

C atecismo da Igreja Católica § 2168 a 2176. Disponível em <https://goo.gl/dhMZPa>.

11

Dies Domini § 59.

12

Dies Domini § 18.

13

Ibid.

14

enneth Strand, “Como o domingo tornou-se o K popular dia de culto – parte 1”, em Parousia, n. 1, v. 3 (p. 67-72), jul-dez 2004, p. 70.

15

enneth Strand, “O sábado”, em Raoul Dederen K (ed.), Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2011), p. 565.

16

Alberto R. Timm, O Sábado na Bíblia, p. 77.

17

Samuele Bacchiocchi, From Sabbath to Sunday: A Historical Investigation of the Rise of Sunday Observance in Early Christianity (Roma: The Pontifical Gregorian University Press, 1977), p. 308.

18

enneth Strand, “Como o domingo tornou-se o K popular dia de culto – parte 1”, p. 67.

19

enneth Strand, “Como o domingo tornou-se o K popular dia de culto – parte 2”, em Parousia, n. 1, v. 4 (p. 63-72), jan-jun 2005, p. 64, 65.

20

Ibid, p. 64.

21

Samuele Bacchiocchi, From Sabbath to Sunday, p. 307.

22

enneth Strand, “Como o domingo tornou-se o K popular dia de culto – parte 2”, p. 65.

23

amuele Bacchiocchi, From Sabbath to Sunday, S p. 307-309.

24

Dies Domini § 27, 64.

25

enneth Strand, “Como o domingo tornou-se o K popular dia de culto – parte 2”, p. 68-70.

26

Ibid., grifo nosso.

27

D ies Domini § 63, grifo nosso.

28

Samuele Bacchiocchi, From Sabbath to Sunday, p. 311.

29

er, por exemplo, a Aliança Dominical Europeia. V Disponível em <https://goo.gl/q1rNpA>.

Diego Bispo é aluno de Teologia do Unasp, Engenheiro Coelho

Lucas Higor é aluno de Teologia do Unasp, Engenheiro Coelho

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MINISTÉRIO

Líderes da nova

geração O que os pastores millenials precisam saber para ser bem-sucedidos no ministério Wagner Aragão

M

des, como indisposição para ouvir e vontade de questionar, dificuldade para lidar com a hierarquia e indecisão e ansiedade na hora de tomar decisões. Contudo, esses jovens não podem ser definidos apenas por algumas características negativas, porque também apresentam 28

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eu filho adolescente me disse que seu desejo é ser pastor. Senti alegria, mas confesso que fiquei apreensivo só em imaginar como estará o mundo quando ele, possivelmente, estiver atuando no ministério. Lembrei-me das palavras do apóstolo Paulo ao jovem pastor Timóteo: “Nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis” (1Tm 3:1, NVI). Os desafios que a nova geração de pastores tem enfrentado são diferentes do passado. O pós-modernismo se caracteriza não apenas por mudanças na ciência, nas artes, na política, na economia, nas relações humanas, mas também na religião. À medida que o tempo avança, o mundo passa por transformações complexas que afetam o ministério pastoral trazendo grandes desafios. Nesse sentido, há cinco aspectos fundamentais que podem ameaçar o êxito da jornada ministerial: (1) a falência de princípios bíblicos e valores cristãos; (2) a profissionalização do ministério em detrimento à sua natureza vocacional; (3) a supervalorização do secularismo, materialismo e antropocentrismo; (4) as tentativas de fragmentação da família e de seus valores; e (5) o sentimento de desamparo, oriundo de um exacerbado individualismo latente na sociedade pós-moderna. Os pastores que nasceram nas décadas de 80 e 90 e que atuam no ministério atualmente fazem parte da geração Y. Conforme aponta Sidnei Oliveira, essa geração tem algumas vulnerabilida-


qualidades que eram inexistentes ou foram pouco desenvolvidas nas gerações anteriores.1 Os pastores da geração Y, ou millenials, têm melhor preparo acadêmico, mentalidade voltada para inovações, energia e disposição para demonstrar maior produtividade quando colocados diante de desafios que demandem criatividade. 2 Eles também conseguem executar várias tarefas ao mesmo tempo com muita espontaneidade e facilidade. Todos esses aspectos agregam valor, mas não são suficientes para garantir o êxito na trajetória ministerial. Formação acadêmica e habilidades técnicas são importantes, mas caráter e consagração são indispensáveis.

Ministério de êxito Além do conhecimento acadêmico obtido no seminário, os pastores necessitam desenvolver um estilo de vida regido por princípios e valores divinos, especialmente no contexto pós-moderno. Alguns fatores são de fundamental importância nesse sentido. Vida devocional. Paulo escreveu ao jovem pastor Timóteo: “Exercite-se na piedade” (1Tm 4:7, NVI) e “fortifique-se na graça que há em Cristo Jesus” (2Tm 2:1, NIV). Para nutrir a natureza espiritual é necessário dedicar tempo para ouvir a voz de Deus por meio das Escrituras e da oração. Em Lancashire, Reino Unido, uma senhora idosa ouviu de seus vizinhos que o sucesso do pastor deles era devido a seus dons, estilo de linguagem e maneira de proceder. A idosa discordou deles com a seguinte declaração: “Não é isso! Eu lhes direi o que é. Seu pastor está muito unido com o Todo-Poderoso.”3 A oração põe o pastor em contato imediato com a Fonte da Vida e serve-lhe de escudo para cumprir seu dever e vencer as tentações. Integridade. A integridade é essencial no ministério como em nenhuma outra atividade. Ela se fundamenta no relacionamento autêntico com o Senhor e no

exercício do pastorado segundo o modelo de Cristo. Atualmente, a maior necessidade da liderança pastoral não está relacionada com questões de metodologia, dinheiro, gestão ou de números, mas de integridade. Mais do que nunca, a “obra de Deus requer homens de alto poder moral para se empenhar em sua divulgação, [...] homens cujo coração seja fortalecido com santo fervor, homens de firme propósito que não sejam facilmente abalados, que possam renunciar a todo interesse egoísta e dar tudo pela cruz e a coroa. A causa da verdade presente está precisando de homens que sejam leais à retidão e ao dever, cuja integridade moral seja firme, e cuja energia seja comparável à generosidade da providência de Deus.”4 Disposição para servir. O apóstolo Paulo frequentemente se referiu a ele mesmo como “servo” (diakonos) ou “escravo” (doulos).5 Doulos enfatiza a sujeição completa do ministro ao Senhor, e diakonos aponta para seu serviço em favor da igreja e do rebanho de Deus.6 Em 1 Coríntios 4:1, Paulo usou o termo grego hyperetes para especificar o serviço pastoral. Essa palavra, muito rara no Novo Testamento, geralmente era usada para descrever o escravo das galés greco-romanas que remava sob o comando do seu senhor.7 Segundo o apóstolo, o pastor é um servo de Cristo, totalmente submisso a Ele. Por isso não deve se valer do ministério para satisfazer seus interesses pessoais. O ministério não deve ser exercido na estrada do carreirismo nem sob os holofotes da fama. João Batista afirmou acerca de Cristo: “Importa que Ele cresça e eu diminua.”8 O pastor não deve almejar o pódio, mas procurar se realizar no lugar em que Deus o colocar; não deve desejar conforto, mas o precioso auxílio do Espírito Santo. O pastor serviçal terá clara compreensão do dever e das aspirações altruístas. Sua vida será influenciada por um nobre desígnio que o colocará acima dos motivos sórdidos.9 Cultivar hábitos saudáveis. Atualmente, o estresse ocupacional é uma das

principais causas de danos à saúde. Pastores estão sujeitos a um alto nível de cansaço mental devido às diversas exigências de sua atividade. O estresse compromete a saúde física. Doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão, câncer e obesidade têm vitimado muitos ministros do evangelho. Um estudo realizado em 2008 verificou que os pastores correspondiam a 26% da amostra de pacientes cristãos vítimas de depressão.10 Escrevendo aos pastores, Ellen White mencionou que alimentação saudável, temperança, exercício físico e repouso ajudam o servo do Senhor no desempenho de suas atribuições, concedendo-lhe vigor mental para tomar as decisões corretas. Os pastores “devem obedecer às leis da vida em sua maneira de viver e em sua casa, praticando os sãos princípios e vivendo saudavelmente”.11 O sucesso da obra do Senhor depende em grande medida do bom estado de saúde dos obreiros, principalmente no mundo estressante como o nosso. Valorizar a família. Uma família pastoral bem estruturada fará toda a diferença no ministério. Não é da vontade do Senhor que o pastor sacrifique a família por causa do trabalho, permitindo que o excesso de atividades afete o relacionamento com a esposa e os filhos. Um dos maiores desafios para o ministro é se dedicar ao pastorado sem perder de vista sua família. Por outro lado, a família não deve ser empecilho para que ele realize seu ministério. Família e ministério devem andar juntos. Para manter o equilíbrio entre esses dois polos é importante que o pastor estabeleça três prioridades relacionadas à família: (1) o bem-estar espiritual da família;12 (2) dedicar tempo à esposa e aos filhos, pois “o tempo que investimos na família mostra a importância que damos a ela. Não basta ter qualidade, é preciso quantidade que também seja suficiente para suprir as necessidades de cada membro envolvido”;13 e (3) viver um cristianismo autêntico no lar, porque a convivência familiar não tolera máscaras. MAI-JUN • 2018 |

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do sucesso para um gerenciamento eficaz do tempo está em concentrar-se nas prioridades que realmente são importantes e em uma ação coerente com elas.” 16 O que é importante e o que é urgente influem

da mesma forma na esDiagrama de prioridades17 colha de prioridades. Atividades importantes e urgentes devem ser Contudo, determinaUrgentes resolvidas imediatamente das atividades devem (situações críticas). Importante ser priorizadas de acorAtividades importantes, mas Não do com diferentes crinão urgentes, devem ser urgentes planejadas e colocadas dentro térios. O diagrama ao de prazos compatíveis. lado ajuda a entender Atividades urgentes, mas como classificar as atiUrgentes não importantes, devem ser vidades, conforme seu reduzidas, eliminadas Não ou delegadas. grau de relevância. importante Não • Execute as tareSupérfluo urgentes fas diárias. (a) Anote todos os compromissos para o dia, ava3 Ellen G. White, Obreiros Evangélicos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014), p. 255. liando o tempo necessário e estabele4 cendo limites; (b) organize as tarefas em Ellen G. White, Testemunhos para a Igreja, (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2015), v. 3, p. 23. blocos de trabalho, mas com flexibilidade; 5 Cf. Rm 1:1; 1Co 3:5; 2Co 4:4; Gl 1:10; Fp 1:1 e Tt 1:1. (c) concentre-se nas atividades essenciais e 6 Lothar Coenen e Colin Brown, Dicionário possíveis de resolver; e (d) realize as tarefas Internacional de Teologia do Novo Testamento, (São com determinação. Existem alguns aplicaPaulo: Vida Nova, 2000), v. 2, p. 2035. 7 tivos que podem auxiliar no cumprimento Gerhard Kittel, Theological Dictionary of the New Testament, (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1964dessas tarefas. 1976), v. 8, p. 533, 534.

Conclusão O serviço pastoral é a mais elevada obra que o cristão pode almejar. Essa solene tarefa exige esforço diligente para levar pecadores a Jesus. Ellen White escreveu que o “ministro de Cristo precisa ter aquele perdurável amor pelas pessoas, um espírito de abnegação e sacrifício próprio. Deve estar disposto a dar a vida, se necessário, à obra de salvar seus semelhantes por quem Cristo morreu”.18 Este é o tempo em que os pastores devem se manter concentrados no serviço do Mestre. Devem ter determinação e zelo pela Causa, a fim de perseguir o grande propósito de seu ministério, até que finalmente possam dizer como Paulo: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2Tm 4:7, ARC).

Sidnei Oliveira, Geração Y: O Nascimento de uma Nova Versão de Líderes, (São Paulo: Integrare Editora, 2010), p. 76.

2

Ibid.

J oão 3:30 na versão dos Monges de Maredsous (Bélgica), 38ª ed. (São Paulo: Editora Ave Maria, 1982).

9

Ellen G. White, Obreiros Evangélicos, p. 114.

10

Pérsio R. Gomes de Deus, As Influências do Sentimento Religioso sobre os Cristãos Portadores de Depressão, dissertação de mestrado em Ciências da Religião (São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2008), p. 106.

11

Ellen G. White, Obreiros Evangélicos, p. 231.

12

Ibid., p. 204.

13

J osué Gonçalves, 104 Erros que um Casal não Pode Cometer (São Paulo: Editora Mensagens Para Todos, 1999), p. 29.

14

Ellen G. White, Obreiros Evangélicos, p. 204.

15

Sidnei Oliveira, “Você é Imediatista?”, Exame (São Paulo: Editora Abril), 14/10/2013.

16

Lothar J. Seiwert, Se Tiver Pressa Ande Devagar (São Paulo: Editora Fundamento, 2004), p. 123.

17

Ibid.

18

Ellen G. White, Testemunhos para a Igreja, (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2015), v. 2, p. 151.

Wagner Aragão é pastor em Brasília, DF

Referências 1

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Gentileza do autor

O pastor tem a sagrada responsabilidade de ser em sua casa “um exemplo das verdades que ensina”.14 Relacionamentos saudáveis. Muito embora o conceito de comunidade tenha influenciado a sociedade moderna, a maioria das pessoas continua vivendo de modo individualista, sentindo-se sozinhas no mundo real, mesmo quando estão conectadas pelas redes sociais. Isso exige que o pastor seja versátil em habilidades que são necessárias em uma comunidade relacional, como comunicação clara, confiança, perdão, aceitação do outro e humildade. Também é necessário estabelecer uma estratégia que viabilize suas igrejas a desenvolver um estilo de ministério relacional semelhante ao que havia na igreja apostólica, em vez de um ministério de técnicas e programas desenhados para fazer a igreja crescer. É necessário criar em nossas congregações um ambiente que seja acolhedor e reflita o amor de Cristo. Aproveitamento do tempo. Ociosidade é um defeito altamente prejudicial aos pastores. Nestes dias de “tempos líquidos”,15 onde tudo se modifica de forma quase que instantânea, o mau gerenciamento do tempo é fator de risco para o ministério pastoral. Por outro lado, o bom gerenciamento pode potencializar seu tempo de forma inteligente. Veja algumas sugestões: • Trace seus objetivos e obtenha uma visão clara deles. Traçar objetivos é retirar os excessos que atrapalham a visão de todo o planejamento. • Defina tarefas estratégicas. Concentre forças naquilo que você domina melhor e pode ser empregado para obter melhores resultados dentro de seus objetivos. • Planeje prioridades efetivas. “A chave

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PASTOR COM PAIXÃO

José Calixto

Missão em meio ao perigo

O

projeto de evangelizar as grandes cidades se constitui algo fascinante e desafiador; pois, geralmente, os lugares de maior concentração populacional têm se tornado cada dia mais ameaçadores. Desse modo, os pastores tendem a enfrentar grandes dificuldades no cumprimento da missão. Em 1998 fui designado a trabalhar numa cidade que passava por uma forte onda de criminalidade. Diante do desafio, minha esposa, Daisy, se perguntava, com lágrimas nos olhos: “Será que Deus não tem outro lugar melhor para que possamos cumprir a missão?” Após um curto período no novo distrito, a saúde emocional de minha esposa começou a piorar. Entretanto, sempre tivemos a convicção de que o melhor campo para o pastor realizar seu ministério é o indicado pela igreja. Assim, procuramos nos manter fortes e motivados, mesmo que as inconveniências ameaçassem nos abater. Diante das dificuldades crescentes, passamos a clamar ao Senhor para que nos tirasse de lá ou fizesse com que nos adaptássemos melhor ao local, porque desejávamos realizar o trabalho sem que nossa saúde fosse afetada. Certa manhã, ao ler um texto de Ellen White, senti que a luz do Céu naquele momento brilhava sobre nossa vida. Ela escreveu: “Os mensageiros de Deus nas grandes cidades não devem sentir-se desanimar com a impiedade, a injustiça, a depravação a que são chamados a enfrentar enquanto procuram proclamar as alegres novas da salvação. O Senhor aspira confortar cada um desses obreiros com a mesma

mensagem que deu ao apóstolo Paulo na ímpia Corinto: ‘Não temas, mas fala, e não te cales; porque Eu sou contigo, e ninguém lançará mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade’ (At 18:9, 10) [...] Em cada cidade, cheia como possa estar de violência e crime, há muitos que, devidamente ensinados, aprendem a se tornar seguidores de Jesus” (Ellen White, Profetas e Reis, p. 272). Que mensagem inspiradora! Ela nos ajudou a compreender melhor o propósito de Deus para nós. Além disso, também trouxe alívio aos parentes mais distantes, que nos propunham até a compra de coletes de proteção. Sendo assim, começamos a confiar mais e a desistir do pensamento de sair daquele lugar. Imagine se Deus tirasse todos os cristãos das grandes cidades: o que seria

dos ímpios que vivem nelas? Refletindo sobre isso, passamos a encarar a missão de maneira mais feliz e seguros de que, quando Deus nos chama, Ele protege, guia e capacita, não importa onde ou em quais circunstâncias nos encontremos. Assim, com o coração alegre e, ao mesmo tempo, com as devidas cautelas, fazíamos visitas e conferências em comunidades perigosas, sempre confiando na proteção dos anjos do Senhor. Enquanto observava os perigos daquela cidade, considerei que Jesus parecia não ter feito uma boa escolha ao deixar o Céu para vir à Terra e ficar exposto ao inimigo. Contudo, em minhas reflexões, me veio à mente a seguinte indagação: “Quem não iria ao pior lugar do mundo para buscar e salvar um filho que estivesse nas garras de malfeitores?” Esse pensamento trouxe a compreensão de que não importa quão difícil seja o lugar, o amor de Cristo por Seus filhos chega lá, sem conhecer contratempos nem limites. Após alguns anos nos sentimos maravilhados ao recordar daqueles que, não tendo nem como se alimentar direito, se entregavam inteiramente ao trabalho do Senhor. Por meio de suas mensagens e de um estilo de vida inspirador, eles cuidavam da igreja como sendo algo precioso, sem temer participar do combate da fé, para exaltar o poder da cruz de Cristo. Os exemplos que vimos naquela cidade nos deixaram preciosas lições, que nos inspiram a cumprir melhor a missão designada por Cristo, onde quer que for. José Calixto é pastor em Venda Nova do Imigrante, ES

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DIA A DIA

Erico Tadeu Xavier

Reuniões de comissão pode levar a reunião a fracassar. “Caso não houvesse disciplina e governo eclesiásticos, a igreja se esfacelaria; não poderia manter-se unida como um corpo” (Ellen White, Testemunhos Seletos, v. 1, p. 390).

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Preparação da agenda. Analise e agende previamente os pontos a ser discutidos e estabeleça as prioridades. Faça isso em parceria com a pessoa responsável pela secretaria da igreja. Caso a agenda tenha algum tema polêmico, duvidoso ou complexo, o dirigente pode buscar orientação com seus líderes na Associação/Missão, antes de levar o assunto para a comissão. | MAI-JUN • 2018

Pontualidade e duração. O dirigente deve zelar pela pontualidade, ou seja, estabelecer o horário de início e de término da reunião. Isso significa ter uma estimativa quanto ao tempo que deverá ser gasto em cada item. Caso um assunto esteja se demorando mais do que o previsto, é recomendável suspendê-lo para ser analisado separadamente, e então apresentá-lo novamente em outra reunião da comissão. A duração de uma comissão não deveria exceder a duas horas. Participação e respeito. O dirigente da comissão deve estimular o respeito mútuo e a participação de todos nos assuntos a ser tratados. O líder eficiente conta com a participação, cooperação espontânea e boa vontade das pessoas sob sua direção. Ele consegue cooperação e respeito pela sua competência, paciência, ética e espiritualidade. Não dá ordens: dá o exemplo. Orientação e foco. Cabe ao dirigente orientar e conduzir a discussão de acordo com a linha central de cada item, conforme os princípios bíblicos de administração eclesiástica. Ele deve ficar atento para não permitir divagação ou perda do foco. A falta de experiência ou descuido do dirigente

Gentileza do autor

A

comissão da igreja é constituída por um grupo de líderes locais eleitos por voto da congregação segundo o critério estabelecido pelo Manual da Igreja Adventista do Sétimo Dia (2015). Sob sua responsabilidade estão (1) a alimentação espiritual dos membros; (2) o evangelismo; (3) a preservação da pureza doutrinária; (4) a defesa das normas cristãs; (5) a recomendação de transferência de membros; (6) as finanças da igreja; (7) a proteção e manutenção do patrimônio da igreja; e (8) a coordenação dos departamentos da igreja. Quando essa comissão se reúne, o dirigente (pastor ou ancião) deve estar devidamente preparado para conduzir os trabalhos com eficiência e espiritualidade. Para que isso ocorra, alguns detalhes são muito importantes:

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Conclusão e votação. O dirigente deve conduzir a discussão de cada item e seus desdobramentos procurando ressaltar os aspectos positivos em primeiro lugar e, depois, corrigir os elementos negativos que, porventura, se fizerem presentes. Cumpre-lhe também levar os integrantes da comissão a uma decisão sobre cada assunto. Finalmente, ele deve pedir apoio e voto para que as propostas da comissão sejam apresentadas à igreja e votadas por seus membros. “Nem sempre as reuniões de comissões agradam a Deus. Alguns têm comparecido [...] com espírito indiferente, endurecido, crítico, não amoroso. Esses podem produzir grande dano, pois com eles está o maligno, que os conserva no lado errado. Não raro sua atitude insensível para com medidas que estão sendo estudadas produz perplexidade, retardando decisões que deveriam ser tomadas. [...] Com a esperança de chegar a uma decisão, prolongam suas reuniões até altas horas da noite. [...] Deixem que o Senhor leve a carga. Deem tempo para que Ele ajuste as dificuldades. [...] Se forem concedidos ao cérebro períodos apropriados de repouso, os pensamentos serão claros e incisivos, e os trabalhos serão feitos com rapidez” (Ellen White, Testemunhos para a Igreja, v. 7, p. 256). Erico Tadeu Xavier, doutor em Teologia, é professor no Seminário de Teologia do Instituto Adventista Paranaense, em Maringá, PR


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“Seja seu primeiro objetivo tornar o lar aprazível.” Ellen G. White

(O Lar Adventista, p. 24)

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RECURSOS

Amar Outra Vez: Para Começar de Novo no Casamento Rinaldo Berbert, Ultimato, 2011, 88 p. Numa relação conjugal há erros e acertos. Nessa caminhada, hoje é o tempo em que tudo pode ser melhor. O amor é mais poderoso do que a força da mágoa. O perdão é a cura das memórias amargas. Amar Outra Vez fala dos encontros e desencontros conjugais que acontecem nas melhores famílias. E, todos sabemos que a maquiagem não tem o mesmo resultado de uma cirurgia corretiva. Não podemos, e Deus não quer, que nos contentemos com retoques. Quando parece não mais haver possibilidade, a luz das Escrituras nos mostra clareiras onde só havia escuridão. O livro apresenta o caminho para promover a cura matrimonial. Trata-se de leitura obrigatória para pastores e membros da igreja.

El Pastor y su Familia Brian e Cara Croft, Portavoz, 2016, 176 p. Muitas vezes os pastores, ocupados em servir suas igrejas, estão se esquecendo de suas responsabilidades como esposos e pais. Como consequência, suas relações familiares acabam sendo impactadas. Esses pastores lutam pela sobrevivência de seu casamento, e seus filhos crescem nutrindo ressentimentos contra a igreja. Contudo, isso não precisa ser assim. Com perspicácia, Brian e Cara Croft apresentam em El Pastor y su Familia um retrato das cargas e expectativas que o ministério cristão impõe sobre a família pastoral e destacam que há esperança de suporte e restaruração em Jesus Cristo. Os autores oferecem conselhos práticos e ressaltam a emoção de servir ao Senhor como família ministerial. O livro inclui um guia de perguntas para casais e grupos de estudo.

Kerygma A revista Kerygma publica materiais de caráter científico em Teologia e é mantida pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), campus Engenheiro Coelho. Ela oferece acesso livre e imediato ao seu conteúdo, seguindo o princípio de que disponibilizar gratuitamente sua produção acadêmica ao público proporciona maior democratização do conhecimento. Trata-se, portanto, de uma excelente ferramenta para que pastores e líderes cristãos estejam a par dos estudos realizados no contexto acadêmico e possam se beneficiar das mais recentes reflexões teológicas produzidas na Faculdade de Teologia do Unasp. Site: https://revistas.unasp.edu.br/kerygma

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PALAVRA FINAL

Marcos Blanco

Pastores e malabaristas “I

dida. Às vezes ele pode se deixar levar tanto pelas pressões externas que sua atenção se volta apenas para os de fora. Entretanto, a missão do pastor, que antes de ser pastor é esposo e pai, começa no lar. Ellen White disse que “nossa obra para Cristo deve começar com a família, no lar. [...] Não existe campo missionário mais importante do que esse” (Serviço Cristão, p. 198).

Assim, se o pastor prejudica sua família ao descuidar dela em seu afã de pastorear a igreja e evangelizar os incrédulos, cedo ou tarde isso acabará afetando o ministério que ele “priorizou”. As histórias de Nadabe e Abiú e Hofni e Fineias são tristes exemplos de líderes religiosos que não atenderam seu primeiro campo missionário, talvez por cumprir com as demandas de seu segundo campo missionário, a ponto de perder a quem mais deveriam ter pastoreado. Alguns se perguntam: “Que decisão eu deveria tomar se perceber que minha responsabilidade como esposo e pai está em conflito com minha função como pastor?” Acredito que deveríamos responder a essa pergunta com outra pergunta: “Essas atribuições são verdadeiramente incompatíveis?” Obviamente, a resposta para esta última pergunta é não! Se assim fosse, teríamos que adotar o celibato como condição imprescindível para ingressar no ministério. Cada família é única, singular. Por isso não se pode esperar que ela se adapte a generalidades ou receitas prontas. Nesse sentido, ninguém melhor do que você sabe o que se requer para manter o equilíbrio entre sua família e seu trabalho, excetuando Deus, é claro! Contudo, o objetivo sempre deveria ser o mesmo: salvar nossa família e cumprir a missão perante a igreja e o mundo (nessa ordem). Da mesma forma que Jesus estabeleceu prioridades entre a salvação individual e os relacionamentos familiares, existe uma hierarquização com respeito ao nosso dever quanto à nossa família e nosso ministério. Assim, de nada adiantará haver “ganhado o mundo inteiro”, batizando milhares de pessoas, se perdermos nossa família pelo caminho. Se completarmos nosso quadro de prioridades colocando Deus em primeiro lugar, Ele fará com que os demais aspectos da vida se mantenham em equilíbrio.

“

É possível ter uma família feliz, amorosa e, sobretudo, cristã, ao mesmo tempo que se desfruta de um ministério produtivo, bem-sucedido e pleno.”

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magine a vida como um jogo, em que você faz malabarismo com cinco bolas que são lançadas ao ar. Essas bolas são trabalho, família, saúde, amigos e o espírito. E você tem de mantê-las todas no ar. Logo você entenderá que o trabalho é como uma bola de borracha. Se deixá-la cair, ela baterá no chão e voltará para você. Contudo, as outras quatro são de vidro. Se caírem ao chão, elas se quebrarão e ficarão permanentemente danificadas. Nunca mais serão as mesmas. Você deve entender isso e lutar pelo equilíbrio em sua vida.” Muitos conhecem essa ilustração contada por Brian Dyson num discurso de graduação no Instituto de Tecnologia da Geórgia, em setembro de 1991; e todos nos sentimos identificados com um malabarista em meio a todos os compromissos, responsabilidades e expectativas próprias ou de outros que temos que satisfazer. A verdade é que todos os pais e mães que trabalham lutam para manter o equilíbrio entre a profissão e a família. Longe de estar alheios a essas demandas, pela natureza própria de seu trabalho, o pastor pode perceber que se encontra na encruzilhada de ter que servir a dois senhores, ou seja, escolher entre a família e o trabalho. Jesus afirmou que a família poderia ser um obstáculo para alguém se tornar um verdadeiro discípulo. Em Seus ensinos, disse que poderíamos ser chamados a deixar nossa família (Mc 10:28-30) ou que ela poderia se tornar o nosso pior inimigo (Mt 10:34-39). Com essas afirmações, Cristo não estava dizendo que a vida cristã e a família sejam incompatíveis, mas simplesmente estabelecendo prioridades. Por outro lado, isso não significa que o pastor deva colocar seu trabalho acima de sua família, sacrificando seus entes queridos em favor de uma missão mal enten-

Marcos Blanco, doutorando em Teologia, é editor da revista Ministério, edição em espanhol

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