para onde voar






a primeira vez que te vi, foi sofrendo no chão gélido de uma estação-tubo. naquele dia eu perdi um panfleto que carregava comigo só para te apanhar e sentarmos em um banco em meio às árvores, ali pertinho. você em meu colo, meu vestido branco manchado de sangue. respiração lenta. eu choro, mas entendo. te entrego de volta à natureza e, no ritual frequente, peço à mãe natureza lhe receber gentilmente. “da natureza você veio e para ela retornará”; por favor, guie essa pequena criatura. foi a última vez que te vi.
morrer em meus braços foi uma constatação de algo sempre meio perdido no in cons ci en te

tudo vai acabar, tudo tem um fim
a maioria dos pássaros que tenho encontrado por aí estão virados barriga ao chão, cabeça de lado, desorientados. penso que devem ter voado tanto que no cansaço, infortunadamente, suas asas falham e colidem com prédios inútil e grotescamente gigantes para lá e para cá. penso também que estavam em busca de um céu menos poluído, trafegado, menos emprediado.


gosto de ouvir os pássaros cantando melodias antigas e você, sem dúvidas, gostava muito de cantar, independentemente dos ouvintes. independente de mim.
pouco a pouco esse mínimo sensível vai se tornando difícil de manter com a cidade se agitando