GBC REVISTA
BRASIL
ANO1 / Nº1 / 2014
CO N S T R U I N DO
U M
PIB DA CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL
AVANÇA
NO BRASIL Linhas de Financiamento para projetos sustentáveis Crise de abastecimento reabre debate sobre uso consciente da água ENTREVISTA Arq. Siegbert Zanettini o precursor da arquitetura sustentável no país
F U T U RO
SU ST EN T Á VEL
índice
EDITORIAL...................................................> 3 COLUNA GBC..............................................> 6
GREEN PAGES
SIEGBERT ZANETTINI...................> 8
ENERGIAS....................................................> 12 INOVAÇÃO..................................................> 16 PROJETOS EM DESTAQUE.........................> 20 DESEMPENHO.............................................> 22
CAPA
PIB DA CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL.......> 26
ÁGUA............................................................> 30
ESPECIAL EXPO.......................> 36
ND/URBANISMO.........................................> 38 CASA REFERENCIAL...................................> 42 VIDA SUSTENTÁVEL....................................> 48 TENDÊNCIAS...............................................> 50
CERTIFICAÇÕES.................> 54
FINANCIAMENTO........................................> 62
GUIA DE MATERIAIS................................> 66
SOCIAL.........................................................> 68
DEPOIMENTOS........................................> 70
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inovação
GREEN PAGES
ENTREVISTA
Arquiteto Siegbert Zanettini Qualquer uma das mais de 1.500 obras de Siegbert Zanettini possui marcas de inovação e sustentabilidade, temas que ele sempre adotou em seus projetos desde o começo de sua carreira. Conhecido e reconhecido internacionalmente, o arquiteto paulistano é símbolo e sinônimo de construção sustentável e um dos maiores defensores da utilização da ventilação natural. Vencedor de inúmeros prêmios, sendo o mais recente, em 2012, o prêmio David Gottfried Global Green Building Entrepreneurship Award. Nesta entrevista você confere mais sobre sua vida, seus empreendimentos e sua opinião sobre a sustentabilidade (ou a falta dela), no Brasil.
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Revista GBC Brasil. Prof. Zanettini, falenos um pouco sobre a sua trajetória. Zanettini. O que hoje se chama de sustentabilidade, na minha época eu chamava de ecoeficiencia. Desde a construção da primeira casa ecoeficiente, em Atibaia, há 40 anos. O meio ambiente está na definição e implantação da forma arquitetônica em relação ao lugar que ela se implantava e também ao regime geral de clima, de orientação solar, ventos, umidade, coisas que caracterizam cada lugar e espaço. Isso foi muito importante, pois a partir de então eu comecei a ver que o meio ambiente é essencial na arquitetura. Comecei a rever os princípios da arquitetura moderna. Eu achava que ela tinha nascido como causa de uma mudança. Mas com o tempo ela perdeu essa eficiência de causa para se tornar um
estilo. Fui formado neste contexto. Quando comecei a fazer obras efetivamente, tinha algumas coisas que eu não concordava, principalmente quando eu fiz a maternidade da Vila Nova Cachoeirinha, na zona Norte de São Paulo. Ali, eu percebi que precisava rever meus conceitos. Nessa revisão eu comecei a me tornar um explorador de inovações. Eu trouxe o aço para o Brasil, fiz as primeiras madeiras compostas de pinho, aplicações de tintas, vidros temperados. Comecei a mexer com elementos que até então não eram usados como materiais de construção. E principalmente, eu achava que ambientes muitos fechados não tinha a ver com a condição climática do Brasil. A partir daí nunca mais mudei meu foco. Fui sempre desenvolvendo essas questões. Até que em 1992, apresentei o projeto Casa Limpa, que possui todas as características do que hoje se chama sustentabilidade. Todos os meus projetos são extremamente sustentáveis e alguns chegaram a alcançar nível de arquitetura internacional, como o Centro de Pesquisa Petrobras, que é considerado o melhor projeto de ecoeficiência do país. Depois da década de 90, fiz projetos como a Escola Panamericana de Artes no qual se priorizou os elementos naturais, o que chegou a gerar visitação pública, pois lá havia 196 árvores e eu fiz o projeto sem tirar nenhuma delas, além de ser um ambiente diferente daqueles fechados que eram feitos até então, voltados para ambientes internos. Fiz a Escola tão diferente que nenhum ambiente tinha ar-condicionado, a ventilação era natural, sendo que até hoje ela é sombreada pelas árvores. Depois disso, principalmente na década de 70, chegaram ao mercado as famosas caixas de vidro. O vidro não tem massa, não tem como para aguentar a carga térmica, necessitando do uso de ar-condicionado o tempo todo, mesmo porque na maioria das vezes essas caixas não possuem janela. Não sou contra o vidro. Quando usado de maneira correta é maravilhoso, oferecendo transparência e leveza. Mas isso mostrou que a gente tinha razão em focar em novas tecnologias e sistemas limpos para montar uma obra.
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Um projeto sustentável exige uma mudança na maneira de se pensar arquitetura? A questão de sustentabilidade não é só uma questão de arquiteto resolver. Existem também as questões de “insustentabilidade” no Brasil, que é muito mais séria: destruição das matas, açodamento de todos os rios, capeamento total da cidade. Está tudo equivocado. Não adianta querer resolver um projeto, quando se deve olhar primeiro para o espaço. Um projeto é uma consequência do ambiente onde está inserido. Toda a minha arquitetura explora o que o Brasil possui de bom em relação à arquitetura, feitas com o material que havia disponível. A arquitetura contemporânea sai da visão unidimensional, onde o estético era o determinante na arquitetura. Aliás, para mim, a estética é apenas um item da arquitetura. Essa passagem para uma visão holística e sistêmica é o que se característica como arquitetura contemporânea, onde ela não é a soma das partes, ela é o todo. A nossa visão hoje é de um mundo complexo onde todas as ciências participam, mas ao lado da ciência é preciso ter sensibilidade e criatividade. A união desses dois mundos é o que produz a arquitetura.
antigamente era de 400 m2 com quatro dormitórios, agora há espaços com 4 suítes em 90 m2. São coisas em que essa arquitetura do mercado torna terrível para consumir boa parte do que se produz. Aliás, restam poucos arquitetos fazendo coisas boas e de qualidade. De um modo geral, tivemos uma produção enorme de coisas equivocadas em todos os sentidos. O programa Minha Casa, Minha Vida é um desastre arquitetônico e urbanístico. Essa visão que falta eu chamo de pluridimensional. Ela é uma visão holística da obra. Os resultados e as questões científicas que geram uma obra hoje, seja sistemas, instalações, parte computacional, equipamentos novos, etc., tudo isso deve ser integrado. Uma obra deve durar cerca de 50 anos. Esse contexto científico é fundamental para dar base correta para fazer uma área de criação com esses dados e com as necessidades do cliente, seja ele construído, a céu aberto ou não, mas sempre valorizando a vegetação existente.
Qual o cenário internacional atualmente? Cite bons exemplos. Em San Francisco, há um museu de ciência que serve ao público, que mostra toda a riqueza da fauna e da flora, é bem montado. Há projetos diversos de qualidade para se exemplificar onde o cuidado científico é essencial. Norman Foster possui dois projetos em Londres e Frankfurt fantásticos que apresentam desenhos que fazem a ventilação cruzar, possibilitando um funcionamento correto do prédio. Já o Richard Rogers possui uma obra que me marcou em 1977, o Centro Georges Pompidou, em Paris, que para mim é o começo do período contemporâneo, que alguns arquitetos seguem até hoje. Ambos possuem partes científica, funcional e estética muito bem resolvidas. Há também alguns do passado que pra mim são imbatíveis. Uma obra significativa para mim é a Casa da Cascata de Frank Lloyd Wright, uma das mais completas que eu conheço, de
Em relação à sustentabilidade na construção civil, você acha que existe uma demanda dos clientes ou isso nasce da solução do projeto? Há dois mundos. Um deles é aquele que faz sustentabilidade por uma questão mercadológica, esse vem do cliente. Boa parte dos clientes pede. Já eu prefiro fazer isso para dar condições corretas ao projeto e qualidade arquitetônica. Isso acontece muito no Brasil. Houve um período onde todo mundo queria a (certificação) ISO. Todo mundo queria atender e seguir as regras do mercado. E as regras do mercado dificilmente mudam. E não é para mudar. O cliente já está condicionado para consumir aquele espaço. Hoje, por exemplo, é vendido o metro quadrado de construção. Um apartamento
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Economia rumo à sustentabilidade Construir de maneira sustentável gera economia de energia e água, aumento na criação de empregos, saúde e qualidade de vida e, principalmente, diminuição de emissão de gases na atmosfera. E tem gerado cada vez mais riqueza. Desde 2007, quando o primeiro edifício da América Latina, localizado no município de Cotia – SP, recebeu a certificação LEED - Leadership in Energy and Environmental Design – a indústria da construção sustentável tem crescido incessantemente. Questões ligadas a sustentabilidade estão diariamente entre os assuntos mais comentados no mundo e as atenções com o meio ambiente e com o destino dos recursos naturais tem ganhado força nos últimos anos, principalmente, na sociedade brasileira. Segundo uma pesquisa realizada pelo Ibope e pela CNI – Confederação Nacional da Indústria – com 2.002 pessoas acima de 16 anos de todas as regiões do país, o número de pessoas preocupadas com o tema subiu de 80% para 94%
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A Construção Sustentável LEED é um sistema de certificação e orientação ambiental internacional, usado em 143 países, que garante que um prédio é ambientalmente saudável. O primeiro edifício a recebê-la foi uma agencia do Banco Real. Com a aquisição da instituição pelo Banco Santander, todas as práticas sustentáveis foram adotadas em todas as agências bancárias do grupo. Após este esforço pioneiro, a transformação do setor acelerou. Embora não seja o único sistema de certificação, o LEED possui maior reconhecimento internacionalmente, certificando edifícios comerciais, residenciais, instalações industriais, laboratórios, supermercados, restaurantes, hotéis edifícios públicos e até museu e escolas. Segundo um estudo realizado pela GBC Brasil e EY em 2013, o custo de construção de um edifício verde é, em média, 1% a 7% mais alto do que uma construção tradicional. Em compensação, o retorno sobre o investimento é de 9,9% maior para as construções novas e 19,2% para os edifícios já existentes. Além disso, o investimento em construção sustentável pode reduzir despesas de con-
Economicamente falando domínio em até 10% de um edifício de 50 a 60 anos, calculado com base na economia de água energia e custos operacionais como manutenção e renovação.Ou seja, a despesa adicional é absorvida ao longo do tempo. No que diz respeito aos custos da construção de um empreendimento verde, é importante ressaltar a menor emissão de gases de efeito estufa, utilização eficiente de recursos naturais e de materiais com baixo impacto ambiental e reutilização destes. Para José Moulin Netto, fundador e vice-presidente do Conselho Consultivo do GBC Brasil e conselheiro do WGBC aplica-se o termo de green building às edificações que procuram minimizar o impacto ambiental durante sua construção e, principalmente, durante sua operação e que buscam um ambiente saudável e produtivo para as pessoas que ali viverão ou trabalharão, conforme publicado na introdução para a edição brasileira do livro “Tornando nosso ambiente construído mais sustentável” de Greg Kats.
Embora o PIB brasileiro de 2012 tenha se mantido fraco, o setor de construção terminou o ano com um crescimento de 4% e comemorou o aumento de 5,8% na taxa de emprego. Ainda segundo o estudo da GBC Brasil e EY, não se espera que o crescimento do setor da construção seja tão alto como visto entre 2006 e 2010, mas o progresso no segmento de infraestrutura deve ser impulsionado tanto pelo aumento de investimento de empresas privadas quanto por parte do setor público, a partir de iniciativas como o Programa de Aceleração do Crescimento, novas concessões para portos, aeroportos, rodovias e imóveis. O estudo afirma que este crescimento tem sido acompanhado por um moderado mas contínuo aumento de número novos edifícios que utilizam a certificação LEED. Em 2010, edifícios verdes representavam 3%, um percentual que dobrou no ano seguinte e superou 9% em 2012. É importante lembrar que as porcentagens calculadas são baseadas no número de edifícios submetidos a certificação e seu valor de mercado projetado por metro quadrado.
Evolução dos empreendimentos certificados e registrados no Brasil
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Bairros planejados. Produzindo a cidade sustentável
Qualidade de vida, sustentabilidade, democratização dos ambientes, espaços comunitários como escolas, parques, postos de segurança e de saúde, incentivo ao uso de bicicletas, privilégio ao pedestre, etc. A lista de vantagens é tão extensa que é possível viver com todos os recursos necessários sem sair de um bairro planejado
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nd/urbanismo
C
riados a partir de uma necessidade por cidades mais organizadas, que promovam qualidade urbana, infraestrutura e sustentabilidade, os bairros planejados surgiram para oferecer trabalho, moradia, estudo e diversão em um espaço integrado ao meio ambiente. Planejar um bairro é a forma mais eficaz de pensar no futuro de uma cidade. Este planejamento deve ser feito a partir das carências de um espaço e de sua população, introduzindo condutas que os proteja contra os excessos da ocupação imobiliária. Além disso, os bairros planejados evitam o desenvolvimento de aglomerados informais que não oferecem qualidade de vida aos seus moradores, danificam a cidade, prejudicam a vizinhança
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com a desvalorização dos imóveis e agravam a criminalidade e representam um grande problema para os governantes. Construir lugares que são, ao mesmo tempo, acessíveis e desejados pelas pessoas é fundamental para o crescimento de qualquer economia. “Pense no tempo gasto nos deslocamentos - que é o tempo que poderia ter sido gasto de forma produtiva no trabalho, em atividades físicas ou com a família”, propõe Jon Jensen, Consultor Técnico da Magrann Associates. Para Jensen, qualquer instituição privada ou pública com um horizonte de planejamento a longo prazo necessita olhar para o impacto ambiental como um fator importante em sua exposição ao risco futuro, incluindo a sustentabilidade como um dos aspectos inerentes de seus projetos.
Já segundo Cristina Hana Shoji, Diretora Técnica de Sustentabilidade Green Design Consultoria Sustentável, o Brasil possui uma defasagem de 30 mil unidades habitacionais ao ano. O desenvolvimento de novos bairros planejados com tipologia e perfis de renda variados, como Habitação de Interesse Social (HIS) e Habitação de Mercado Popular (HMP), são mais atrativos e acessíveis a perfis de renda variados, estimulam a inclusão e a diversidade social, evitando a segregação e promoveriam comunidades mais dinâmicas.
PASEO VERDE
O maior exemplo de bairro planejado é o Paseo Verde, na Filadélfia, que foi o primeiro bairro sustentável dos Estados Unidos
a receber as certificações LEED ND & LEED HOMES ambos nível Platinum em 2013. Para Shoji, as certificações são importantes porque são validações por uma terceira parte independente sobre o atendimento de parâmetros mínimos pré-estabelecidos. Elas estimulam o mercado de produtos e serviços sustentáveis, apoiam o desenvolvimento da normalização, acrescentam valor agregado em termos de resultados mensuráveis e propiciam qualidade de vida ao usuário final; além do desenvolvimento da consciência ambiental de todos os envolvidos. “Os benefícios também indicam que estes empreendimentos apresentam menores riscos, pois atendem processos aplicados internacionalmente e que potencialmente podem atrair investimentos e incentivos fiscais.”, resalta.
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