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A Arte Urbana Grafite Do Centro da Capital de Vitória - ES

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UVV – UNIVERSIDADE VILA VELHA ARQUITETURA E URBANISMO

VERÔNICA BARBOSA VIEIRA DA SILVA

A ARTE URBANA GRAFITE DO CENTRO DA CAPITAL DE VITÓRIA

VILA VELHA – ES 2020


VERÔNICA BARBOSA VIEIRA DA SILVA

A ARTE URBANA GRAFITE DO CENTRO DA CAPITAL DE VITÓRIA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Vila Velha como requisito parcial para obtenção do Grau em Arquitetura e Urbanismo. Orientador: Prof. Dr. Giovanilton André Ferreira Carreta, Universidade Vila Velha.

VILA VELHA - ES 2020


VERÔNICA BARBOSA VIEIRA DA SILVA

A ARTE URBANA GRAFITE DO CENTRO DA CAPITAL DE VITÓRIA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Vila Velha como requisito parcial para obtenção do Grau em Arquitetura e Urbanismo, sob a orientação do Prof. Dr. Giovanilton André Ferreira Carreta.

Aprovado em

10

de

tll.Jm?frlcg

de 2020.

COMISSÃO EXAMINADORA

Prof. Dr. Giovanilton André Ferreira Carreta Universidade Vila Velha, Orientador

Mestrarlda Nayara Carolina Segai da Rocha Universidade Vila Velh a, Examinador Interno

Arquiteto Alexandre Ricardo Nicolau Examinador Externo

VILA VELHA - ES 2020


AGRADECIMENTOS

Dedico meu diploma especialmente à minha "Mainha", que nunca deixou de acreditar na minha capacidade para chegar até essa etapa, apesar de todas as dificuldades enfrentadas, que muitas vezes, me fizeram com que eu duvidasse de mim mesma, como na minha recuperação do grave acidente de carro que sofri. Eu espero que um dia eu não apenas seja semelhante a você fisicamente, mas que eu também possa ser, mesmo que uma parcela, da grandiosa mulher que você é. Não posso deixar de agradecer a todos os professores e amigos da universidade, que muito me apoiaram, em especial Pedro Ferreira, vulgo “Pedrão”, e Mariana Brilhante, vulgo “Maris”. Ressalto que não desmerecendo ninguém ao deixar de citar nomes. Obrigada por todo o apoio, eu imensamente desejo que a vida possa retribuir todo o apoio, que me foi essencial nessa jornada. Claro que também agradeço às minhas amigas da primeira instituição, que também foram e sempre serão amigas imensamente importantes na minha vida. “Painho”, eu gostaria de citar a frase que você criou para meu nome, mas por motivos de força maior, a citarei pessoalmente (lembrando a você que eu “puxei” isso de sua personalidade! Meu anjo, disfarçado de meu ogro. E, por fim, gradeço à vida, que é maravilhosa! E que essa seja apenas uma das muitas grandiosas conquistas que espero alcançar! Essa foi só o começo. Amém?

"Você nunca sabe a força que tem, até que sua única alternativa é ser forte." (DEPP, 2014).


RESUMO O grafite, desde o século vinte, é um exemplo de intervenção urbana, seus impactos, desdobramentos e sua relação com a cidade são objeto de estudo deste trabalho. Evidenciou-se, no desenvolver da pesquisa, a evolução presente na história do grafite, a sua inevitável transformação e a maneira na qual foi possível que esse tipo de representação progredisse de apenas rabiscos murais para uma forma de arte valorizada socialmente, como na decoração de interiores e até marketing. Visou-se, com um estudo acerca de algumas intervenções artísticas presentes no centro de Vitória – Espírito Santo, destacar as consequências que o grafite traz para o meio urbano, no espaço arquitetônico e qual a visão dos artistas que compartilham desta cultura e realizam suas intervenções artísticas no meio urbano. Seguindo a pesquisa, fez-se a análise de grafites que retratam o caso de um crime de grande repercussão na cidade durante década de 70. Deste modo, o trabalho constatou algumas das diversas aplicações e tipos de intervenção urbana e suas influências. Palavras-chave: Arte Urbana, Grafite, Pixação, Intervenção Urbana, osgemeos.


ABSTRACT Since the twentieth century graffiti has been an example of urban intervention. The main topic addressed on this study are the impacts, developments, and the graffiti relationship with the city. During the development of the research, it became evident the evolution and the inevitable transformation present in the history of graffiti. It was remarkable how this type of representation progressed from just mural sketches to a socially valuable forms of art, impacting directly in interior designs as well as in marketing. It was aimed, with a study about some artistic interventions present in the center of VitĂłria - EspĂ­rito Santo, highlight the consequences that graffiti brings to the urban environment and the architectural spaces along with the vision of the artists who share this culture and carry out their interventions in the urban environment. The research is followed by an analysis of graffiti on a crime case that had a big repercussion in the city during the 70's. Furthermore, this research approaches the influence and the diverse applications and types of urban interventions.

Keywords: Urban Art, Graffiti, Urban Intervention, osgemeos.


LISTA DE ABREVIATURAS SP – São Paulo MA – Maranhão RJ – Rio de Janeiro Semc – Secretaria Municipal de Cultura de Vitória HIV – Vírus da Imunodeficiência Humana (sigla em inglês) ES – Espírito Santo MSF – Médicos Sem Fronteiras


LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 01: Bota Preta de Alex Vallauri........................................................................10 Figura 02: Protesto durante a ditadura militar.............................................................11 Figura 03: Em meio a Ditadura Militar, sinais de grafite já começam a aparecer no Brasil........................................ ..................................................................................12 Figura 04: Primeira versão do painel na passagem subterrânea que liga à avenida Dr. Arnaldo à avenida Paulista, em São Paulo.................................................................13 Figura 05: Os irmãos Gustavo e Otávio tornam-se referência no grafite e na arte urbana........................................................................................................................14 Figura 06: Gigante de Boston......................................................................................15 Figura 07: “Os Gêmeos” criticaram o que chamaram de "desrespeito à arte"..............15 Figura 08: Grafite na Rua do Rosário 2019.................................................................16 Figura 09: Grafite na rua do Rosário 2020...................................................................17 Figura 10: Pichações na rua Neston Gomes...............................................................18 Figura 11: Grafite de 300m² em um beco do bairro de Jardim Camburi, no Espírito Santo..........................................................................................................................19 Figura 12: Grafites na estrutura da Segunda Ponte....................................................21 Figura

13:

Pixação

de

cunho

político

na

Av.

Mascarenhas

de

Morais.........................................................................................................................22 Figura 14: Projeto “Muros da memória”.......................................................................23 Figura 15: Concurso "Água da Chuva: É pro Lago que Eu Vou, Quero Ir Limpinha!"...24 Figura 16: Exposição “Rabiscos & Rabiscos – Cores Urbanas...................................25 Figura 17: Grafite Copa do Mundo..............................................................................31 Figura 18: favela é cenário de instalação de artista plástico....................................... 33 Figura 19: Galeria Nara Roesler apresenta primeira exposição individual de JR no Brasil...........................................................................................................................34 Figura 20: Mural "Etnias" no Rio de Janeiro................................................................35 Figura 21: "Etnias", próximo ao museu do amanhã.....................................................36 Figura 22: Intervenção na Enseada do Suá................................................................37 Figura 23: Equipamento utilizado durante a realização da intervenção urbana de Vitória.........................................................................................................................37 Figura 24: Vitória: muros do Romão e Forte São João ganham grafite........................38 Figura 25: Grafite em muro do Romão, em Vitória.......................................................39


Figura 26: Praça do Cauê ganha grafite......................................................................40 Figura 27: Ação do projeto "A Arte é Nossa"...............................................................40 Figura 28: Grafite colore os muros do Dnit na avenida Beira-Mar, em Vitória..............41 Figura 29 Intervenção em ponto de ônibus.................................................................42 Figura 30: Localização do Centro da Capital de Vitória...............................................44 Figura 31: Grafite Rua Josué Prado............................................................................51 Figura 32: Grafite Av. Mal. Mascarenhas de Moraes...................................................51


SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO.........................................................................................................7 1.1 PROBLEMA E JUSTIFICATIVA..............................................................................8 1.2 OBJETIVOS............................................................................................................8 1.3 METODOLOGIA.....................................................................................................9 2. HISTÓRICO DO GRAFITE NO BRASIL.................................................................10 2.1 POLUIÇÃO OU ARTE URBANA? ........................................................................17 2.2 AS VERTENTES DO GRAFITE............................................................................27 2.3 GRAFITE EM PROJETOS DE INTERVENÇÃO URBANA E SOCIAL...................30 3. APROXIMAÇÃO COM O OBJETO DE ESTUDO: DE VITÓRIA – ES....................44 3.1 ASPECTOS METODOLÓGICOS.........................................................................44 3.2 ANÁLISE DA ÁREA DE ESTUDO.........................................................................45 3.3 ANÁLISE DAS VISUAIS.......................................................................................50 3.4 GRAFITEIROS CAPIXABAS E O CENTRO DE VITÓRIA.....................................52 4. CONCLUSÃO.........................................................................................................57 REFERÊNCIAS...........................................................................................................55 APÊNDICE A...............................................................................................................65


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1. INTRODUÇÃO Como reflexo da representação da cidade, existem as formas de apropriação do espaço, isto é, experiências consumistas, políticas e culturais. Um exemplo a ser citado com relação às formas de ocupação do espaço são os grafites encontrados nos muros, paredes, calçadas etc. (Leite e Larocca 2010). Arte urbana caracterizada por ser veículo de comunicação e permitir a integração da periferia com o centro, o grafite surge como forma de intervenção urbana e expressão estética, e transforma o cenário de um lugar por completo (Furtado e Zanella 2009). Nesse contexto, a cidade de São Paulo, reconhecida como a capital do grafite mundial, de acordo com Rui Amaral, um dos precursores do grafite na mesma, entrou em um grande e polêmico debate a respeito desse estilo de arte. Após o prefeito João Doria Jr. anunciar no dia 14 de janeiro de 2017 que todos os painéis seriam apagados da Avenida 23 de Maio, alegando fazer parte do programa “São Paulo Cidade Linda”, muitos artistas e parte da população se mostraram revoltados e contrários à decisão tomada pelo Estado (Modelli 2017). Como forma de expressão cultural, e parte da criação da cidade, apagar os grafites é “como apagar a memória da cidade”, de acordo com a artista Lilian Amaral e, segundo o filme “Cidade Cinza”, “a não valorização do Grafite é a não valorização da própria cultura regional brasileira” (Filho 2017,Milhomem 2013). Sem ainda entrar no mérito de que tal ato viola e modifica a identidade visual da cidade. Tendo em vista a discussão em torno do grafite, linguagem artística que tem como palco principal os espaços públicos, esta pesquisa final de graduação tem como objetivo geral estudar e analisar, dentro do contexto histórico e cultural do bairro centro na cidade de Vitória, Espírito Santo, as influências que o grafite traz para a cidade e para a sociedade. Além disso, visa entender parte da construção da identidade visual das cidades para que futuramente venha a torná-la um local mais vivo, mútuo e seguro, onde haverá interação entre os diferentes níveis sociais e possibilitará a vivência da cultura, sem a monotonia consequentemente encontrada nos espaços urbanos. Além de verificar a importância da arquitetura ser utilizada, por esses artistas, como telas em branco que fazem do espaço público mais humanizado e agradável aos olhos.


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1.1 PROBLEMA E JUSTIFICATIVA Feito o aprofundado estudo acerca do tema, questiona-se: É possível fortalecer a relação estabelecida entre a arte urbana grafite como marco urbano dentro do Centro da cidade contemporânea de Vitória por meio do planejamento e de desenhos urbanos? Diante dessa problemática, pode-se observar, com o passar do tempo, a afirmação da hipótese desta pesquisa, de que de fato, hoje o grafite é incorporado pela cidade contemporânea, podendo ser considerado um potencial marco urbano, fortalecido

através

dos

desenhos

e

projetos

do

local,

podendo

assim

consequentemente atingir questões econômicas, culturais, turísticas, entre outros âmbitos.

1.2 OBJETIVOS Observa-se nesta pesquisa, como que suas diversas aplicações e seus diversos tipos de intervenção urbana podem influenciar quem convive dia a dia com a arte no meio urbano. Tem-se então, como objetivos específicos, compreender a importância do grafite como marco urbano dentro da do centro cidade contemporânea de Vitória, quanto arte e cultura. Como objetivos gerais, esta pesquisa se propõe a aprofundar os estudos do grafite enquanto arte e sua relação com o Centro Histórico de Vitória, por meio da análise e mapeamento das obras, que submetidas a avaliações a partir da sua potencialidade enquanto arte e sua conexão com a cidade e as pessoas. Para tanto, o trabalho tem como objetivos específicos: • Realizar pesquisa bibliográfica a respeito da história do grafite no Brasil; • Realizar pesquisa bibliográfica quanto a forma de grafitar de alguns artistas brasileiros mais famosos; • Conhecer e estudar projetos brasileiros de intervenções urbanas que utilizam o grafite; • Selecionar, registrar e estudar grafites existentes no centro histórico da cidade de Vitória, Espírito Santo;


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1.3 METODOLOGIA Para alcançar os objetivos, a metodologia se inicia pela fundamentação teórica de referenciais bibliográficos baseados em artigos acadêmicos, livros, como “O que é Grafite” de Celso Gitahy, “Mundo do Grafite” de Nicholas Ganz e “Grafitti Brasil” de Thames e Hudson, para melhor compreensão da história da arte. Faz-se também o estudo monografias, dissertações, sites, artigos e teses, tais como, “Graffiti e cidade: sentidos da intervenção urbana e o processo de constituição dos sujeitos”, e “Arte, grafite e o espaço urbano”, artigo que trata de intervenções artísticas realizadas em espaços urbanos traz de uma maneira simbólica a relação da mistura, do hibridismo, de sentimentos contraditórios de surpresa, de admiração ou de repulsa, e, nos locais onde podemos encontrá-lo, na instituição cultural ou na rua, geram sempre no íntimo, conflitos e também outras reflexões. As obras ilustradas servem como referências para esta pesquisa. Um dos instrumentos utilizados é por meio da mapeação do Centro de Vitória através do Arcgis, visitas à campo e análises de mapas e imagens de satélite da Terra fornecido e desenvolvido pela empresa Google, tornando possível registros fotográficos das intervenções, resultando na criação de um inventário para ser feita a análise dos resultados obtidos, para um melhor estudo acerca do tema, através destes mapas gerados. Por fim, faz-se uma análise do ponto de vista dos próprios artistas, autores das intervenções mapeadas, por meio de uma entrevista que abrange questionamentos relevantes para um aprofundamento ainda maior deste estudo, integrando opiniões diversas.


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2. HISTÓRICO DO GRAFITE NO BRASIL Como forma de expressão artística e humana, o grafite aparece no Brasil por volta da década de 1950, porém, se consagra apenas em 1970, totalmente influenciado pelos Estados Unidos e também pela Europa. Os artistas brasileiros apresentam um estilo que combina elementos do Grafite francês e norte-americano, dado pela utilização de frases e ilustrações. (Gitahy 1999) De acordo com Blauth e Possa (2012), o surgimento do grafite no Brasil de fato ocorre na década de 1970, principalmente na cidade de São Paulo, pelas intervenções de artistas como Alex Vallauri (Figura 01), John Howard, Carlos Matuck, dentre outros. Tais artistas mantiveram uma produção de rua e realizando registros fotográficos, com a intenção que a qualidade gráfica do grafite prevalecesse e ao mesmo tempo podendo afirmar suas conquistas em espaços públicos. Porém, contrariando os artistas da época, não se esperava que tais produções fossem apropriadas por colecionadores e museus, obtendo assim, um grande reconhecimento comercial por marchands e até mesmo pelas galerias de arte.

Figura 01: Bota Preta de Alex Vallauri (1949–1987), considerado precursor do movimento no país Fonte: Site Medium, 2019.


11 Alex Vallauri (1949–1987), considerado precursor do movimento no país. Ele utilizou diversos suportes para estampar sua arte, além dos muros e paredes da cidade. Seus desenhos eram simples e objetivos em meio ao caos urbano, facilitando a compreensão da mensagem. (CREATIVE STOP, 2019) Segundo Ivan Sudbreck (GITAHY, 1999, p. 23) “a arte sempre será o reflexo social de um povo”. Na década de 1970 a população brasileira enfrentava a opressão do regime militar, ainda assim escreviam seus protestos nos muros (figuras 02 e 03), mesmo que fossem raros. Depois com a livre expressão, artistas brasileiros pioneiros escreveram a história do grafite brasileiro, fazendo de São Paulo, uma das capitais mundiais do grafite.

Figura 02: Protesto durante a ditadura militar Fonte: Site Veja, 2019.


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Figura 03: Em meio a Ditadura Militar, sinais de grafite já começam a aparecer no Brasil. Fonte: Site Word Express, 2014.

Alguns jovens começaram a deixar suas marcas nas paredes da cidade. Uma arte nascida e marginalizada, como um movimento cultural. Como todo artista, o grafiteiro busca sua inspiração em algum tema, que em muitos casos, são urbanos e críticos à sociedade, como um pedido de reflexão àqueles que passam pelos seus murais. (DIAS 2018) A cidade de São Paulo dentre todas as existentes no Brasil, foi a que se destacou por ser uma grande metrópole e assim possuir características mais favoráveis para a difusão do grafite. Logo, passou a ser reconhecida por muitos como a capital do grafite (figura 04), por conta da quantidade, qualidade e variedade das intervenções realizadas no meio urbano (BISSOLI 2011).


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Figura 04: Primeira versão do painel na passagem subterrânea que liga à avenida Dr. Arnaldo à avenida Paulista, em São Paulo. Fonte: Site BBC, 2017.

Os artistas paulistanos cresceram em meio à cultura do Hip Hop, e foi então que eles desencadearam o interesse pelo Grafite. Em meados dos anos de 1980, Gustavo e Otávio (Figura 05) começaram a exercitar a produção de suas obras, mas apesar de toda a influência do hip-hop americano, eles foram atrás de outras referências e conseguiram criar uma linguagem própria dentro do Grafite através de desenhos com traços finos e temas particulares. Isso tudo fez com que eles se afastassem da identidade visual do movimento urbano e consequentemente os fez se destacarem dentre tantos outros grafiteiros. (OSGEMEOS 2017)


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Figura 05: Os irmãos Gustavo e Otávio tornam-se referência no grafite e na arte urbana Fonte: Site Memorial da Democracia, 2004)

Com a expansão da cultura Hip-Hop e sua divulgação pela mídia, houve uma incorporação, um modismo que retira parcialmente as características de transgressão e protesto iniciais do movimento. Alguns dos responsáveis por espalhar e fazer o Grafite ganhar força no país, e ser produzido em grande escala no ano de 1989, foram os gêmeos Gustavo e Otávio (figuras 06 e 07), Speto, Binho, Tinha e o grupo Aerosol. (Bissoli 2011)


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Figura 06: Gigante de Boston. Fonte: Site Veja

Figura 07: “Os Gêmeos” Fonte: Site Exame, 2017

criticaram

o

que

chamaram

de

"desrespeito

à

arte".


16 E ainda hoje, podemos observar traços da influência do Hip Hop em manifestações artísticas do grafite, não apenas em São Paulo, mas também no estado Espírito Santo, como observou-se na primeira vista à campo em 2019 ao local estudado para realização desta pesquisa, no Centro de Vitória, na rua do Rosário. Neste local, havia um grafite que que agregava estando em concordância com o meio na época, como mostra a figura 08:

Figura 08: Grafite na Rua do Rosário. Fonte: Acervo Pessoal, 2019.

Era localizado na porta da, até então, loja de roupas ‘Espaço Hip Hop’, o desenho consistia no nome do estabelecimento e o rosto de uma pessoa com uma combinação de cores roxa, azul e rosa. O Grafite veio da cultura do Hip Hop, sendo assim, tal inscrição se inseria no contexto econômico e social do espaço, chamando atenção do consumidor que passasse pela frente, enaltecendo e enfatizando o estilo e a cultura da loja, recentemente fechada devido à pandemia no primeiro semestre desde ano. Atualmente, o Grafite produzido no Brasil vem se modicando e se diferenciando dos demais, mesmo que em seu princípio tenha refletido forte as características do


17 estilo americano. A loja de roupas ‘Espaço Hip Hop’ foi recentemente substituída pelo estúdio de arte “Iá Estúdio” ilustrado na figura 00:

Figura 09: Grafite na rua do Rosário. Fonte: Página do Facebook do estúdio.

Os novos grafites estão localizados ao lado e na porta do estúdio, substituindo os antigos. O estúdio manteve a loja de roupas ‘Espaço Hip Hop”, mas agora também possui um espaço criativo, voltado para diversas frentes de atuação artística. Composta por artistas experientes e versáteis, autores dos grafites que compõe a fachada do ambiente, que continuam chamando atenção do consumidor que passasse pela frente, apesar das novas diferentes técnicas que compõem as novas artes.

2.1

POLUIÇÃO VISUAL OU ARTE URBANA? Inicialmente, o grafite era considerado toda e qualquer inscrição ao longo da

cidade: frases, rabiscos em postes, muros, metrôs, banheiros públicos, calçadas, e outros, como representado na Figura 10, uma inscrição realizada na rua Neston Gomes, no Centro de Vitória. Ao chegar no Brasil, a arte urbana ganha uma distinção


18 entre atividades de grafite e pichação. De acordo com Gitahy 1999, o grafite privilegia o desenho e a arte plástica (Figura 11), já a pichação, dá preferência à escrita, palavras e letras.

Figura 10: Pichações na rua Neston Gomes, Centro de Vitória - ES Fonte: Acervo Pessoal

Esses dois tipos de manifestação utilizam o mesmo material: a tinta, o mesmo espaço: a cidade e a arquitetura, e possuem características iguais como a espontaneidade, a gratuidade, a efemeridade, além de carregarem em si a transgressão. Desse modo, alguns autores (como Renato Ren e os integrantes da crew Made in Chin4) chegam a dizer que o grafite pode ser considerado uma forma de “pichação evoluída” ou uma expressão estética que não exclui a pichação. De acordo com Lara 1996, com o passar do tempo, a pichação passou a se distanciar e criar um estilo próprio, deixando de ser considerada grafite, ou seja, a distinção entre as duas formas de representação se tornou evidente, fazendo com que estas possam caminhar sem interferências de caráter pejorativo.


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Figura 11: grafite de 300m² em um beco do bairro de Jardim Camburi, no Espírito Santo. Autor: Ficore. Fonte: Site GShow, 2015

Porém é indiscutível a existência da semelhança entre esses dois tipos de arte, e assim, observa-se uma rejeição desses por parte da população. A forte relação com as ruas e com o povo que vive às margens da cidade, faz surgir uma má reputação junto com uma proibição atribuída àqueles que ousam fazer representações artísticas urbanas. Diante dessa problemática, Romani Sd, desenvolve uma discussão à respeito da ligação da proibição do grafite e da pixação com o conceito de propriedade pública e privada:


20 Tanto as pichações quanto os graffiti são classificados, seguidamente, como atos de vandalismo... até podem ser considerados como atos de agressão aos direitos do indivíduo (no caso da propriedade privada), ou agressão aos direitos da comunidade (quando os atingidos são os bens públicos), mas deixam margem para outra reflexão: “seriam os espaços públicos que estariam sendo agredidos ou haveria vidas que, sofrendo privações afetivas-políticas-econômicas-culturais-sociaismidiáticas, estariam tentando reagir? (Romani Sd, p.157)

A pixação é considerada uma inscrição panfletária, que assume formas de elementos tais como, palavras, rabiscos, sinais, assinaturas, frases etc. E segundo Machado, seu objetivo central é “desafiar os limites e a ordem estabelecida, às vezes sujar as cidades, chamar a atenção e, até chocar os cidadãos”. Essa ideia de poluição visual e a carga pejorativa implantada na palavra “pichação” não vem apenas da sua prática, mas também da forma em que o brasileiro vê relação que existe entre a arte e o artista, como afirma Caló:

Em diversos exemplos lê-se a palavra pichação em associação a sujeira e a poluição visual. O termo origina-se no elemento complementar antepositivo pich- do inglês pitch (piche;breu); este elemento se desenvolveu desde o século XVII (1797). O verbo pichar (pich + ar), surgiu no século XX. Pode-se afirmar, no entanto, que o termo pichar é aparentemente nativo, brasileiro. (CALÓ, 2005 apud ARAÚJO)

Há quem seja a favor da pichação alegando ter a mesma essência do grafite, sendo uma maneira de se expressar, e que a proibição da prática seria uma repressão à liberdade de expressão, e há quem diga que as duas manifestações são atos diferentes. No caso de (Gitahy 1999), diz: “Mas o grafite e a pichação são a mesma coisa? Não. São posturas diferentes, com resultados plásticos diferentes”. Porém, o que se pode afirmar é que, de fato, seja grafite, ou seja pichação, ambos atuam no meio urbano, vivem uma batalha contra a negação da população, podendo trazer influências negativas para os espaços públicos das cidades, isto é, poluição visual. A partir da expansão da arte de grafitar, despertou-se a atenção da população e provocou discussões nas políticas de intervenção, pesquisas e no ramo das artes. A subjetividade presente na mentalidade popular, de modo geral, ainda não definiu se


21 o grafite é considerado arte ou poluição visual, porém, é inegável que este já foi incorporado ao dia-a-dia. (Ramos 2007) Importante ressaltar ainda que, mesmo sendo tratadas como intervenções transgressoras e análogas, as políticas e técnicas envolvidas no grafite e na pichação são distintas. Mesmo que nem sempre sejam atraentes aos olhos da população, são representações artísticas e não necessariamente devem ser confundidos com poluição visual. Evidente que, apesar de ser classificado como arte, o grafite quando inscrito em locais sem devida autorização se assimila a pichação. Portanto, deve-se observar a importância dos dois objetivos relevantes dessa arte: expressão de vozes marginalizadas e a quebra da monotonia das cidades atuais. Na Figura 12, nota-se essa quebra de uniformidade gerada pela construção civil na edificação da ponte. Vários painéis de grafite foram criados, trazendo mais cor no lugar do monótono cinza, na Segunda Ponte, que liga Vitória à Vila Velha.

Figura 12: Grafites Autor: AQI Luciano Fonte: G1, 2016

na

estrutura

da

Segunda

Ponte,

em

Vitória,

ES


22 Difundida paralelamente as ditaduras e confrontos sociais, a pichação era utilizada para ilustrar a insatisfação social vigente, sendo caracterizada por conter frases de efeito, palavras de ordem e slogans de campanhas políticas como representada na Figura 13.

Figura 13: Pixação de cunho político na Av. Mascarenhas de Morais, Centro de Vitória, ES. Fonte: Acervo Pessoal

Hoje a arte grafite, nascida na rua e muito marginalizada, evoluiu como um movimento cultural, que enxerga na arquitetura, a oportunidade de se expressar através da linguagem universal encontrada no grafite, e uma maneira de atingir diretamente o público alvo que é a população da cidade, saindo apenas do aspecto como arte de protesto da década de 1970, e incorporando atualmente outros âmbitos da vida urbana, podendo ser atrelado a identidade local, ao turismo, fonte de renda de artistas, a políticas públicas e sociais, entre outros aspectos. A forma com qual se tornou reconhecido foi diferente, comprovando que o grafite não possui um estilo único e apenas uma atribuição. É uma arte livre, a qual


23 pode ser utilizada tanto com objetivo expor uma opinião e uma crítica, quanto para expor uma ideia com função decorativa. Na Figura 14 nota-se o início dessa transformação ocorrida na forma de grafitar. É possível enxergar a preocupação, mesmo que mínima, com a aparência através do cuidado com o formato, com o traço e o surgimento da composição de cores. A imagem ainda exemplifica o que Gitahy 1999 diz ter sido a transição da pichação para o grafite:

Figura 14: Projeto “Muros da memória”, grafite do brasileiro Kobra, na Av. Paulista. Fonte: Site Comunicart, 2015.

Pelo fato dos autores utilizarem o espaço público para produzir grafites desrespeitando a lógica da propriedade, o grafite por muito tempo era visto como uma arte marginalizada. Com o passar do tempo foi-se aperfeiçoando suas técnicas de


24 produção e dimensões estéticas, fazendo que a arte se tornasse conhecida por muitos, sendo observada por outra perspectiva. Tal manifestação, que antes se passava despercebida e que incomodava, hoje chama atenção em meio a mesmice e seriedade do cinza que a cidade possui, trazendo assim mais “vida” à sociedade complexa dos dias atuais, com suas cores vibrantes que exalam e criam uma galeria aberta, onde qualquer um pode fazer parte. Esta arte que se originou das ruas acabou então, ganhando cada vez mais espaço em lugares inimaginados. Sua ideia inicial de transgressão veio desaparecendo aos poucos, com a incorporação do grafite como parte de mobiliários urbanos (figura 15) e presente nas paredes de famosas galerias (figura 16), resultando no termo Grafite Décor. (Rodrigues 2012)

Figura 15: Concurso "Água da Chuva: É pro Lago que Eu Vou, Quero Ir Limpinha!" promovido pela Abes com apoio do governo de Brasília. Fonte: Site Ao Vivo de Brasília, 2016.


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Figura 16: Exposição “Rabiscos & Rabiscos – Cores Urbanas, Galeria Trapiche Santo Ângelo, MA. Fonte: Site Imirante, 2019.

A arte evolui tanto, que atualmente possui até mesmo um vocabulário próprio. Conforme a reportagem publicada no Jornal Gazeta do Povo no Caderno G – Paraná, no dia 11 de novembro de 2011, os seguintes termos e gírias estão presentes no vocabulário dos grafiteiros: TERMO Writer

SIGNIFICADO Grafiteiro, praticamente da arte do grafite, escritor urbano.

All City

É considerado aquele que escreve por toda a cidade ou pelo país. Pode se referir a um writer individualmente ou uma crew (gangue). Tem que fazer todo o tipo de escrita (piece, bomb, tag) em todos os locais (muros, trens),

Toy

Writer inexperiente ou que copia grafites alheios. Uma definição antiga de Toy é “trouble on your system”, ou seja, “roubam seu esquema”.

Tagger

Quem não é writer, quem nunca fez um piece (grafite com mais de três cores). Só faz assinaturas. Pichadores também são chamados de scribblers.


26 Old Shool

O início, os precursores do grafite, os que inventaram os estilos clássicos de grafitar.

New School

A nova escola, que está atuando hoje em dia, aprimorando os conhecimentos.

Fresh Bite

Fame

Representante da new school ou new schooler. Aquele que copia o desenho ou até mesmo o estilo dos outros writers. Fama, alguns bons grafiteiros (old school) merecem isso, como Dondi, Phase 2, Dream (R.I.P.), entre outros.

Piece

Grafite feito por um writer com mais de três cores.

3D style ou Computer Style

Tridimensional, com letras de alto teor de complexidade. Criado por Phase 2, é atualmente usado por grafiteiros como Daim, Loomit, Delta, Joker.

Mural ou produção

Feita por um writer ou uma crew. Envolve no mínimo dois pieces e alguns bonecos.

Roll call

Assinatura de todos os grafiteiros ou da crew, depois de feita uma produção.

Wildstyle

Um estilo complicado, com letras entrelaçadas, dos mais difíceis de se fazer.

Background

Fundo de um piece ou de uma produção. Destaca e preenche mais o desenho e apaga qualquer outra coisa que havia no local antes.

Tag

O básico do grafite, a assinatura do writer. Logotipo. Tags podem ser continuadas com prefixos “One”, “Ski”, “Rock”, “Em” ou “Er”. Geralmente são feitos com marcadores, mas também podem ser feitos com spray.

Tag Reto

Tagging Up

Chamada também de pixação. assinatura criada em São Paulo.

Tipo

Tagear algum lugar difícil para realizar a intervenção.

de


27 Stickers, etiquetas

Forma de bombardear os lugares públicos, onde seria muito flagrante usar um marcador. Usamse então adesivos que foram taggiados antes, que na maioria das vezes diz “hello, my name is...”.

Throw Up

Vômito, estilo simples de letra, usado nos Bombs. Geralmente feito em duas cores.

Getting Up

Fazer um bomb, catar um lugar.

Going Over

Largar fora, fugir, correr da polícia.

Bubble Letters Back to Back

Tipo, estilo de letras em forma de bolha. Estilo criado por Phase 2. Muro preenchido de ponta a ponta. Quando é um trem, chama-se whole car.

Cap

Bico do spray do qual depende o traço. Pode ser fino (skinny) ou grosso (fat).

Insides

Tagear, bombardear os trens, ônibus e outros por dentro.

Window Down Bomb

Piece feito pela janela de um trem ou ônibus. Grafite rápido ou ilegal, geralmente feito na noite nos lugares de difícil alcance.

Buff

Termo usado quando se remove o piece ou bomb. Geralmente em trens, onde é possível limpar.

“Para ser um writer de verdade, é preciso mais que uma ideia na cabeça e uma lata de spray na mão” (Marcos Zibordi). O grafiteiro, conforme Ramos (1994, p.53), “é como um coreógrafo do urbano, que tem a cidade como pano de fundo, como cenário, e os seus transeuntes e/ou habitantes como expectadores da cena cotidiana”. Após sua importante trajetória, a arte hoje completa meio século de história do grafite no Brasil. A arte grafite veio adquirindo seu devido reconhecimento como arte urbana, sendo também utilizada em importantes projetos de intervenção urbana e social, trazendo mais “vida” às cidades.

2.2

AS VERTENTES DO GRAFITE Foram criados estilos e técnicas a partir da diversidade cultural, das múltiplas

nacionalidades e raças presentes no país foram criados estilos inéditos e técnicas a


28 partir da diversidade cultural, das múltiplas nacionalidades e raças aqui presentes no Brasil. Percebe-se também que esses artistas além de terem a intenção e a preocupação de tornar os espaços públicos um local mais agradável, buscam, através de ações em forma de protesto, o reconhecimento do Grafite como algo positivo e uma valorização das artes urbanas com suas intervenções. (Gitahy 1999) Então, com o passar do tempo, junto com o aumento da possibilidade de todos poderem usufruir de um ensino público, aqueles que antes utilizavam o grafite apenas como marca territorial e como uma prática de vandalismo, começaram a perceber que podiam usar esta mais nova expressão artística para se exprimirem. Diante deste contexto, houve uma espécie de reciclagem desta arte, utilizando várias técnicas que já estavam ligadas ao grafite, como o stencil, stickers e poster bombers, para fazer crítica social, ironia, e ser mais facilmente entendida por quem presenciasse. Com os conhecimentos adquiridos através da história da arte e com uma forte influência da cultura pop-art, os artistas começaram por fazer uma mistura e releitura de antigos movimentos e consideradas “artes nobres”, adaptando-os aos dias atuais. (Portelinha, 2016) Gravuras que eram feitas apenas linhas mais simples e não muito elaboradas, passam a ganhar mais cor, mais corpo, mais brilho e sombra, assumindo características diferentes, mais vibrantes e adquirindo uma preocupação maior com a estética. (Gitahy 1999, Bissoli 2011) Tag's formam as intervenções básicas, como a própria palavra já indica, se tratando de uma espécie de assinatura, marca de quem a utiliza, surgindo no contexto nova-iorquino, presente até mesmo hoje. Para criar uma Tag, escolhe-se uma caligrafia que se associe a sua personalidade, para isso, faz-se necessário um estudo dos diferentes tipos de letras. Geralmente confundida com Pichação. (Ferreira, 2016) Após a Tag, diversas técnicas de grafites vêm sendo criados, dentre as mais populares estão os: Trow-up – Após o Tag, veio a possibilidade de realizar pinturas em grandes áreas, resultando no estilo Trow-up, que utiliza poucas cores e geralmente letras arredondadas. (Ferreira, 2016) Bomb (ou Boombing) – como os tags, mas com as letras arredondadas que dispõe de áreas para preenchimento. O throw up é semelhante de estilo simples como


29 o Boombing (Bomb), mas geralmente é feito com duas ou mais cores. (Magalhães, 2015) Wildstyle – Estilo mais complexo, composto por letras que se entrelaçam continuamente em estruturas de difícil percepção. (Cerqueira, 2006) Stencil – Consiste em fazer a tinta do spray passar por uma máscara vazada (espécie de molde) com o desenho que se quer reproduzir. (Savarese, 2013) 3-D (ou Realismo) – Desenhos feitos sem o uso de contorno, mais definidos com sombra, luz profundidade, entre outras técnicas mais realistas. (Ferreira, 2016) Stickers – Adesivos autocolantes, criado na estética da arte de rua. Os stickers não são tão populares como o graffiti ou stencil. Surgem na década de 90 juntamente com as subculturas alternativas que iam aparecendo com grupos de hip-hop. Eram uma forma fácil e rápida de comunicar e fazer marketing às suas bandas e marcas. (Portelinha, 2016) Lambe Lambe – Podem ser feitos como produção de massa, podendo ser produzidos no computador em folhas A3 e A4 contendo mensagens, poesias, palavras ou até mesmo um desenho. Se assemelham aos stickers, mas, diferente deles, não são autocolantes. Os cartazes são colados com cola comercial ou caseira (mais difícil de arrancar). (Faba, 2019) Spray Art – Técnica mais utilizada pelos grafiteiros, utiliza-se a tinta spray ou látex para fazer desenhos à mão livre em superfícies como telas e paredes. Os trabalhos geralmente são pensados com antecedência e rascunhados em papel, nesta etapa também são escolhidas as cores que serão utilizadas nos desenhos. Neste estilo é primordial a qualidade do trabalho, por isso o processo da pintura é mais demorado. (Cerqueira, 2006) Aerógrafo – Se assemelha a técnica anterior, Spray Art, porém de diferencia pelo uso do compressor ligado por uma mangueira a uma “caneta de aerografia” para a produção dos desenhos. Na “caneta” são reguladas perfeitamente a espessura do jato de tinta e a liberação do ar comprimido, permitindo uma grande economia de tinta e uma ótima qualidade na arte por causa do controle na espessura dos traços. (Cerqueira, 2006) Instalações Urbanas – Esculturas e instalações em que geralmente é reutilizado o espaço público ou mesmo materiais que por do local, tentando sempre fazer uma adaptação equilibrada ao ambiente. As Instalações Urbanas geralmente


30 são introduzidas em ambientes mais movimentados. São inspiradas na própria cidade e no que ela pode oferecer, e muito associadas também a performances de atores e outros artistas de rua. São muito utilizadas para campanhas virais e de guerrilha e pelas marcas em ações de comunicação. (Portelinha, 2016)

2.3

GRAFITE EM PROJETOS DE INTERVENÇÃO URBANA E

SOCIAL Como já dito no capítulo anterior, atualmente o grafite sai do espectro apenas como arte de protesto para incorporar outros âmbitos a vida urbana, atrelado a identidade local, turismo, fonte de renda de artistas, atrelado a políticas públicas sociais e, portanto, culturalmente inserido no contexto urbano. A arte urbana, mais precisamente o Grafite, “se mostra como uma forma de comunicação atrativa para os jovens” (Bissoli 2011, p.54), mas além disso, possui a intenção de transformar a cidade, trazer mais vida, mais cor e deixar o ambiente mais agradável. Dessa maneira, juntando tudo isso à responsabilidade de produzir espaços agradáveis aos olhos do observador, e unindo a cor com a cidade de forma harmônica, existem espalhados pelo país, alguns projetos de intervenção urbana. O grafite como arte de rua altera o ambiente urbano através da inserção de mais cores, e consequentemente, mexe com os sentidos de quem passa pelo local e o observa. Desse modo o sujeito gera sua interpretação sobre o lugar, fazendo com que a mudança causada pela expressão artística seja boa ou ruim, aceita ou rejeitada. Ao utilizar o grafite como meio de expor críticas, o artista Paulo Ito ficou bastante conhecido. Autor responsável pela arte da figura 17, que ganhou grande visibilidade durante a Copa do Mundo realizada no Brasil, que criticava os gastos e as prioridades do governo. (REDAÇÃO HYPENESS 2014)


31

Figura 17: Grafite Copa do Mundo. Fonte: (REDAÇÃO HYPENESS 2014)

Grafitado no portão de uma escola localizado no bairro da Pompéia em São Paulo, o desenho que mostra um garoto chorando por comida tendo uma bola de futebol em seu prato, e traz uma crítica bem forte. O Brasil vive ainda numa época de grande desigualdade social, na qual existem problemas sérios de pobreza, falta de segurança e saúde. E mesmo diante desse cenário o governo gastou bilhões para realizar o evento esportivo no país, e nesse contexto, a obra de Paulo Ito retrata uma forte crítica a respeito da situação econômica e social do país. (Carrasco 2014)


32 Através da arte, da criatividade, da tinta, da arquitetura e do meio urbano, Ito encontrou uma maneira de expor sua opinião. Desta forma, conseguiu alertar e voltar a atenção para algo importante que estava acontecendo no país. Sem censura, inserindo o desenho num local de grande fluxo de pessoas e bastante exposto, utilizando da acessibilidade da linguagem visual, o artista conseguiu transmitir a sua ideia e ganhar a atenção não apenas da população brasileira, mas também de outros países com a difusão na internet.

Porque o Grafite tem essa coisa maravilhosa, seja rico, seja pobre, goste ou não de arte, a pessoa vê e grava aquela imagem, ainda que a esteja vendo da janela de um ônibus. (PIZA 2017)

Grandes intervenções urbanas também são realizadas, em maior escala, como o projeto “Women”, realizado pelo fotógrafo francês, que se identifica como JR, no Morro da Providência, Centro do Rio de Janeiro (Figura 18).


33

Figura 18: De “olhos” bem abertos, favela é cenário de instalação de artista plástico francês Fonte: Site The New Yorker, 2011

O trabalho é parte do projeto 'Women', que já fotografou mulheres tanto das periferias das cidades europeias como de aldeias africanas. No Brasil, as lentes de JR estão apontadas para as mulheres que perderam filhos e parentes por conta da violência policial, criando uma perspectiva da identidade local. JR e sua equipe cobriram a enorme escada que atravessa a parte alta da favela, território de disputa entre traficantes e policiais, com a imagem da avó de um dos meninos assassinados (figura 19).


34

Figura 19: Galeria Nara Roesler apresenta primeira exposição individual de JR no Brasil. Fonte: Site Patrícia Brandão, 2019.

Os moradores a reconheceram e entenderam o poder da arte, até os traficantes permitiram que o francês passasse 25 dias cobrindo suas fachadas de tijolo com os rostos doloridos das mães, amigas e avós daqueles meninos, mulheres anônimas que só queriam um bairro melhor. As fachadas das casas da Providência ganharam as faces das suas moradoras e a atenção da mídia. (Brandão 2019)


35 No Rio de Janeiro há um mural na fachada do Boulevard Olímpico (figura 20), criado para a Olimpíada Rio 2016, assinada pelo brasileiro Eduardo Kobra, que possui 15 metros de altura e, de comprimento, 170 metros. A magnitude desta obra ganhou o título de maior grafite do mundo feito em equipe, pelo Guiness World Records, o famoso livro dos recordes. A equipe levou 70 dias para a criação da obra de cerca de 2,6 mil metros quadrados, que retrata cinco etnias indígenas dos cinco continentes. (Gurgel 2016)

Figura 20: Mural "Etnias" no Rio de Janeiro (RJ). Fonte: Site Go Hurb, 2019. A obra faz uma referência às origens dos povos, atletas e visitantes, presentes no Rio de Janeiro para os jogos olímpicos e paralímpicos oriundos de todas as regiões do planeta. O painel localizado no trecho de mais de três quilômetros restaurado, no centro do Rio de Janeiro, para receber os turistas com shows e transmissão das competições, virou um dos pontos preferidos para selfies de registro da visita. "Etnias" simboliza a paz e a união entre os povos reforçando o ideal olímpico que é representado pelos cinco aros olímpicos coloridos. (GURGEL, 2016)

Na obra, observa-se cinco indígenas que representando os povos dos cinco continentes: os huli, da Nova Guiné, na Oceania; os mursi, da Etiópia, na África; os kayin, da Tailândia, na Ásia; os supi, da Europa; e os tapajós, das Américas (figura


36 21). Para alcançar sua tamanha proporção, o mural precisou de 180 baldes de tinta acrílica e 2.800 latas de spray. A equipe utilizou sete elevadores hidráulicos para realizar a cobertura da parede com a obra artística. (Gurgel 2016)

Figura 21: Mural "Etnias", próximo ao museu do amanhã. Fonte: Site Panrotas, 2016.

Na capital do estado do Espírito Santo, também existem diversas intervenções urbanas que utilizam o grafite. Nota-se, que as pessoas estão cada vez mais aprendendo o Grafite como um ofício, com o seu uso pela prefeitura e pela grande participação delas nessas intervenções artísticas. Destaca-se o projeto “Arte É Nossa”, iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura de Vitória (Semc), que possui a intenção transformar a cidade numa galeria de arte a céu aberto. (MOURA 2017) Quem passa pela Enseada do Suá, próximo ao Tribunal de Contas da capital de Vitória, na Rua Attalides Moreira de Souza, se depara com uma bela obra de arte que vem chamando bastante atenção (Figura 22 e 23). Ela retrata três dos importantes pontos turísticos da Grande Vitória, como o Convento da Penha, Terceira Ponte e Pedra da Cebola, obra realizada pelo artista gráfico AQI Luciano. (MOURA 2017)


37

Figura 22: Intervenção na Enseada do Suá chama atenção de quem passa pelo local Fonte: Site Gazeta Online, 2019

Figura 23: Equipamento utilizado durante a realização da intervenção urbana de Vitória Fonte: Site Orguel, 2017.


38 Outras regiões também são beneficiadas pelo projeto “A Arte É Nossa” como os bairros Romão e Forte São João, onde foram grafitados dois muros, com uma extensão de 260 metros quadrados, aproximadamente, e, na Rua José Martins da Silva (figura 24). De acordo com um dos autores da obra, a ideia para a pintura era contribuir com o fortalecimento do senso de comunidade. “Em um dos muros, a narrativa visual faz menção à história do bairro e da rua, por ela possuir grande importância para o desenvolvimento local (G1, 2017).

Figura 24: Vitória: muros do Romão e Forte São João ganham grafite que resgata história dos bairros. Fonte: Site Repórter Capixaba, 2017.

O primeiro muro simboliza o trabalho dos moradores mais antigos do bairro, retratando a conquista no trabalho de abrir a rua e o esforço dos moradores em carregar tudo que precisavam levar para casa nas costas. Por isso a pintura cria um diálogo com as pessoas de gerações passadas, que viram e participaram de todas as mudanças. (G1, 2019) E na outra parede é direcionada aos mais novos (Figura 25), principalmente as crianças, tratando-se dos sonhos, da criatividade e da responsabilidade e participação dos mais jovens na construção desse futuro. Procuraram trabalhar o carinho, o orgulho e o entendimento de que aquele lugar é especial e único. (G1, 2019)


39

Figura 25: Vitória: grafite em muro do Romão, em Vitória. Fonte: Site G1, 2017.

A intervenção realizada na Praça do Cauê, também pelo projeto “A Arte É Nossa”, dificilmente é passada despercebida pelas as pessoas que acessam a Capital vindas da cidade Vila Velha, como mostra figura 26 e 27. Para a revitalização da praça, primeira ação foi a demolição dos muros que cercavam a praça e a retirada dos gradis. Futuramente a revitalização ainda ganhará outras melhorias, o espaço caminhos para ampliar a circulação de pedestres, rampas de acessibilidade e novo paisagismo. A Prefeitura desenvolveu um projeto para o espaço se tornar mais humano e acolhedor para os moradores locais. O projeto inclui também a manutenção das quadras de tênis e poliesportivas cercadas, ajustes nos jardins, além da implantação de espaços para caminhadas. (SILVEIRA, 2017) “Segundo a matéria publicada pelo site CC News Brasil, o grafite foi inspirado em experiências de profissionais de MSF que trabalharam em projetos voltados para o diagnóstico e atendimento de pessoas que vivem com HIV.” (2017)


40

Figura 26: Praça do Cauê Fonte: Site CC News, 2017.

ganha

grafite

que

reforça

a

luta

contra

a

Aids

Figura 27: A ação teve o apoio do Secretaria Municipal de Cultura (Semc), por meio do projeto "A Arte é Nossa". Fonte: Site da Prefeitura de Vitória, 2018.

Outro projeto capixaba de destaque, se chama "Cores e Valores" (Figura 28). O projeto de Vitória leva arte para os muros do Dnit, em Bento Ferreira. Imagens de caminhão, navio, trem, bicicleta e monumentos do Estado, como o Convento da


41 Penha, dão cor ao muro do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), na avenida Beira-Mar, em Vitória. Os grafites fazem parte deste projeto, do bairro Jesus de Nazareth, que ganhou o edital da prefeitura de Vitória para fazer a arte na capital. (GUEDES, 2019) “Modais de Transporte” foi o tema que de origem aos primeiros traços que iniciaram marcados por um grupo de grafiteiros coordenados por Nico, como é conhecido o artista Nicholas Marcos Duarte do Nascimento. (GUEDES, 2019) O guia de turismo do bairro e colaborador do grafite, Fernando Martins Ribeiro, contou que a ideia do projeto é continuar a iniciativa contando a história do bairro pela Afonso Salo. Os desenhos vão do muro da Polícia Rodoviária Federal até a entrada desta rua. Na segunda etapa do projeto, a intenção é mostrar a cultura e a história de Jesus de Nazareth. (GUEDES, 2019)

Figura 28: Grafite colore os muros do Dnit na avenida Beira-Mar, em Vitória. Fonte: Site ES 360, 2019.


42 Ainda na cidade de Vitória existe o projeto “Pontos de Arte” que tem como objetivo transformar e tornar os pontos de ônibus um local mais alegre e agradável. Desenvolvido a partir de uma parceria da Secretaria Municipal de Transportes, Trânsito e Infraestrutura Urbana com a Estudante de Arquitetura e Urbanismo da Ufes, Maiara dos Santos Dias. O projeto busca criar uma interação com a sociedade por meio de desenhos, poemas, canções e representações abstratas feitas por meio da arte de grafitar, conforme a Figura 29. (KOBE 2012)

Figura 29: Intervenção em ponto de ônibus. Fonte: Site da Prefeitura de Vitória, 2012.

De acordo com o secretário municipal de Transportes, Trânsito e Infraestrutura Urbana, Domingos Sávio Gava, a iniciativa é muito bem-vinda. "Nossos abrigos são depredados diariamente. São inúmeros cartazes colados, além de bancos, teto e vidros arrancados. Também é muita sujeira deixada e o trabalho realizado com a manutenção é muito grande. Por isso, estamos incentivando esse projeto, disponibilizando esses equipamentos para que virem realmente pontos de arte, valorizando-os e, quem sabe assim, a população tenha um novo olhar para esse patrimônio, que é público". (KOBE 2012)


43 Repara-se, então, mais uma nova função atribuída ao ato de grafitar. Utilizando espaços próximos à população em que atinge grande número de pessoas diariamente, e considerando as circunstâncias urbanas favoráveis do entorno, descobre-se a capacidade que tal manifestação possui de influenciar por quem se depara com elas.


44

3. APROXIMAÇÃO COM O OBJETO DE ESTUDO: DE VITÓRIA – ES. Após a realização de pesquisas bibliográficas acerca de alguns conceitos do tema proposto por este trabalho, influência do grafite nos centros urbanos, foi determinada uma área para análise objetivando observar mais de perto e colocar em prática o que foi estudado. Buscando assim, resultados que ajudem a compreender a relação das artes urbanas com a cidade. A área escolhida para realizar o estudo de campo no momento atual, ano de 2020, foi o bairro centro na cidade de Vitória–ES (mostrado em vermelho na Figura 30, espaço que possui história, pequenas e grandes intervenções artísticas, edifícios históricos, contemporâneos e um grande fluxo de pessoas e de serviços.

Figura 30: Localização do Centro da Capital de Vitória. Fonte: Site da Prefeitura de Vitória.

3.1

ASPECTOS METODOLÓGICOS Após a análise teórica a respeito do grafite e do meio em que ele é inserido,

fez-se a escolha do Centro da Capital do Espírito Santo como área de estudo, e realizada a verificação de alguns aspectos urbanísticos como: uso predominante do solo, principais vias, fluxo de veículos e de pedestres e sua relação com a localização


45 dos grafites mapeados para entender melhor como a cidade se relaciona com a arte urbana. Ainda dentro da região do Centro de Vitória, foram selecionados alguns pontos e grafites específicos e realizadas análises visuais para compreender de que forma a manifestação artística influência no dia a dia, no local, na construção e a concepção visual do espaço. Para isso, foram realizadas visitas à campo e registros fotográficos, porém de maneira limitada em virtude do início da pandemia do COVID19 em todo país. Desta forma, foram utilizados recursos digitais como mapas e imagens de satélite fornecidos e desenvolvido pela empresa Google, que auxiliou no levantamento de informações quanto a predominância do uso do solo das edificações da área, e de importantes visuais presentes. Produziu-se então uma análise dos fatores que caracterizam o espaço e que também influenciam a criação das paisagens urbanas que estão relacionadas com os grafites identificados. Tudo com a intenção de observar todas as variáveis existentes e chegar a um resultado mais completo, relevante e realista.

3.2

ANÁLISE DA ÁREA DE ESTUDO O centro de Vitória foi o principal palco das atividades comerciais, de serviço,

lazer e moradia na época do surgimento da cidade até os anos 1960. Era considerado antigamente a região mais dinâmica e valorizada principalmente por conta das suas características físicas, que dificultava o acesso de possíveis invasores, e da existência do Porto. (BOTELHO 2004) Porém, o grande desenvolvimento dos setores de comércio e portuário resultou em várias mudanças, uma delas um acelerado crescimento populacional, e começou a exigir uma expansão que a área central não tinha como oferecer. Deste modo se iniciou, então, um processo de descentralização e a região que era considerada mais importante e fundamental, foi perdendo todo o seu valor e sofrendo esvaziamento demográfico, descaracterização de edifícios históricos e de certa forma danificação da paisagem urbana. A mudança do poder público e da classe média para os locais que foram aterrados, paralelo à costa, foi o principal agravante dessa deterioração. (BOTELHO 2004)


46 Mesmo diante desse cenário o Centro de Vitória nunca se tornou um local sem função, totalmente abandonado, portanto, continuou tendo atividades de diversos setores, e atualmente encontra-se em processo de requalificação, pela própria ação de habitantes e até mesmo pela ação do poder público, por meio de projetos urbanos junto aos artistas. A valorização do patrimônio histórico e o interesse em restaurar edifícios antigos fomentou a necessidade de investir novamente nesta área tão rica em cultura e história. (Botelho 2004)


MAPA 01 – CENTRO DE VITÓRIA PRAÇA COSTA PEREIRA

LEGENDAS:

• PREDOMINÂNCIA DO USO DO SOLO:

TEATRO CARLOS GOMES

SEM USO COMERCIAL

PRAÇA PRESIDENTE GETÚLIO VARGAS

RESIDENCIAL PRINCIPAIS VIAS PRAÇAS

3

OUTROS (ENSINO, SAÚDE, LAZER, ETC.)

17

7

8 33

GRAFITES EXISTENTES:

6 1

20 2 9 31 37

27 4 35 15 28 14 5 16 38 32 39 10 36 22 23

21 18

19

PORTO DE VITÓRIA CATEDRAL PALÁCIO ANCHIETA

CENTRO CULTURAL SESC GLÓRIA

11

13 12

26 40 34

30 25 29


GRAFITES EXISTENTES 1.

PAINÉL DE COMÉRCIO NA RUA DOM FERNANDO

UM DOS DIVERSOS GRAFITES MODERNOS DO GRUPO “CREW” PELO CENTRO, ESTE NA RUA DIONÍSIO ROSENDO

2.

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020

6.

PAINÉIS DE LOJAS COM GRAFITES INSPIRADOS NA NATUREZA AUTOR JOÃO PAULO POSTIÇO

FONTE: SITE G1, 2020

11.

AV. MASCARENHAS DE MORAIS AUTOR: FREDONE FONE

FOTO ENVIADA PELO ARRTISTA

16.

COMÉRCIOSS NA AV. JERÔNIMO MONTEIRO. AUTOR: RENATO REN

FONTE: ACERVO PESSOAL

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020 MURO EXTERNO DO PORTO DAS ARTES. AUTOR: RENATO REN

7.

FONTE: SITE DA PREFEITURA DE VITÓRIA, 2020 RUA DR. ARISTÍDES CAMPOS, ESQUINA COM A AV. PRINCESA ISABEL

12.

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020

17.

RUA WILSON FREITAS AUTOR: DREDONE FONE

FOTO ENVIADA PELO ARTISTA

3.

FACHADA DE UM CHAVEIRO NA RUA GRACIANO NEVES

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020

8.

RUA WILSON FREITAS

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020

13.

GRAFITES PRÓXIMOS À SECRETARIA DE ESTADO DA FAZENDA

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020

UM DOS DIVERSOS GRAFITES MODERNOS DO GRUPO “CREW” PELO CENTRO, ESTE NA AV. MASCARENHAS DE MORAIS

18.

FONTE: ACERVO PESSOAL

ESTÚDIO DE ARTE NA RUA DO ROSÁRIO ESTÚDIO. AUTOR: STARLEY

4.

FONTE: PÁGINA DO FACEBOOK DO ESTUDIO PAINÉIS DE LOJAS COM GRAFITES INSPIRADOS NA NATUREZA AUTOR JOÃO PAULO POSTIÇO

9.

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020 LOJA DE INSTRUMENTOS

14. MUSICAIS, AV. JERÔNIMO MONTEIRO

FONTE: ACERVO PESSOAL

19.

GRAFITE NA AV. GETÚLIO VARGAS

FONTE: ACERVO PESSOAL

MURO DA FAFI – ESCOLA DE MÚSICA E DANÇA AUTOR: RENATO REN

5.

FONTE: SITE G1, 2020

10.

ARTE EM RELEVO ENTRE A AV. PRINCESA ISABEL E ESQUINA COM A RUA BARÃO DE ITAPEMIRIM. AUTOR: ANTÔNIO V. SANPAIO

FONTE: ACERVO PESSOAL

15. ESCADARIA DJANIRA LIMA

FONTE: ACERVO PESSOAL

20.

GRAFITE NA RUA DUQUE DE CAXIAS

FONTE: ACERVO PESSOAL


GRAFITES EXISTENTES 21.

GRAFITE NA AV. MASCARENHAS DE MORAIS.

UM DOS DIVERSOS GRAFITES MODERNOS DO GRUPO “CREW” PELO CENTRO, ESTES PRÓXIMOS A AV. JERÔNIMO MONTEIRO

FONTE: ACERVO PESSOAL UM DOS DIVERSOS GRAFITES MODERNOS DO GRUPO “CREW” PELO CENTRO, ESTES NA AV. PRINCESA ISABEL

26.

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020 GRAFITE NA RUA GERALDO OSÓRIO, EM MOBILIÁRIO URBANO

31.

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020

36.

GRAFITE NA AV. PRINCESA ISABEL

FONTE: ACERVO PESSOAL

22.

FONTE: ACERVO PESSOAL

27.

GRAFITE LOCALIZADO LOGO ATRÁS DO TEATRO CARLOS GOMES. AUTORA: NKLPK

FOTO ENVIADA PELA ARRTISTA GRAFITE NA RUA BARÃO DE

32. ITAPEMIRIM. AUTOR: RENATO REN

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020

37.

MURO DA EEFM MARIA ORTIZ

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020

23.

24.

GRAFITES NA RUA JOSUÉ PRADO

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020

28.

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020

GRAFITE NA RUA DO ROSÁRIO, ANTIGO PRÉDIO DO IAPI. AUTOR: RENATO REN

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020

33.

GRAFITE NUMA ESCADARIA DA AV. JERÔNIMO MONTEIRO AUTORA: NKLPK

FONTE: FOTO ENVIADA PELA ARTISTA. ESQUINA DA RUA ENG. PINTO PACCA COM A AV. PRINCESA ISABEL

38.

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020

PAINÉL DE LOJA NA AV. PRINCESA ISABEL

29.

RUA GOVERNADOR JOSÉ SETTE

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020 MUROS DA FACULDADE DE MÚSICA DO ES. AUTOR: FICORE KABELERA

34.

FONTE: ACERVO PESSOAL UM DOS DIVERSOS GRAFITES MODERNOS DO GRUPO “CREW” PELO CENTRO, ESTES NA AV. JERÔNIMO MONTEIRO

39.

GRAFITES NA AV. MASCARENHAS DE MORAIS

25.

FONTE: ACERVO PESSOAL

30.

RUA DR ARISTÍDES CAMPOS

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020 UM DOS DIVERSOS GRAFITES MODERNOS DO GRUPO “CREW” PELO CENTRO, ESTE NA AV. JERÔNIMO MONTEIRO

35.

FONTE: ACERVO PESSOAL

40.

FACHADA DE UM ESTACIONAMENTO PRIVADO NA AV. GETÚLIO VARGAS

FONTE: STREET VIEW – GOOGLE, 2020


50 Ao produzir o Mapa 01, conclui-se que esta área central da capital agrega, então, edificações, monumentos e estruturas de maior relevância histórica e funcional tanto no contexto local quanto estadual. Alguns desses locais são, o Porto de Vitória, a Catedral Metropolitana, o Teatro Carlos Gomes, a Praça Costa Pereira, Centro Cultural Sesc Glória e o Palácio Anchieta que é a sede do Governo do Estado. Todos estes locais estão localizados conforme o Mapa 01, além da representação do uso do solo predominante de cada espaço. A partir desde primeiro mapa produzido, é possível observar que o Centro realmente possui uma ampla variedade de atividades e setores, bastante comércio, turismo e habitações. Quando se observa o centro é notável que uma das suas grandes características é o grande fluxo de pedestres e veículos, além do que ele possui importantes, grandes e largas avenidas como, Av. Jerônimo Monteiro e Av. Princesa Isabel, localizadas tanto no Mapa 01 quanto no Mapa 02 abaixo, porém as ruas do interior do bairro são predominantemente pequenas e estreitas, o que dificulta ainda mais o deslocamento principalmente de automóveis Nota-se um menor número de manifestações nestas ruas.


MAPA 02 – CENTRO DE VITÓRIA LEGENDAS:

ESCADARIA SÃO DIOGO

COMERCIAL PRINCIPAIS VIAS

TEATRO SESC GLÓRIA

GRAFITES EXISTENTES:

PRAÇAS

ROTA TURÍSTICA EXISTENTE

ESCADARIA DJANIRA LIMA

RELEVÂNCIA HISTÓRICA

1-

CONVENTO SÃO FRANCISCO

6-

PRAÇA COSTA PEREIRA

2-

IGREJA NOSSA SENHORA DO CARMO

7-

TEATRO CARLOS GOMES

8-

IGREJA DO ROSÁRIO

9-

PALÁCIO ANCHIETA

3-

IGREJA DE SÃO GONÇALO

4-

IGREJA DE SANTA LUZIA

5-

CATEDRAL METROPOLITADA DE VITÓRIA

10 -

2 1 8

FAFI – MÚSICA E DANÇA

7 4

3 ESCADARIA DIONÍSIO ROSENDO

5

6

10

9

MUSEU DE ARTES DO ES CATEDRAL CENTRO ESCADARIA CULTURAL SESC MARIA GLÓRIA ORTIZ


52 A escolha do Centro Histórico da Capital para que fosse nessa área a ser realizada a pesquisa de campo e a análise, se deu principalmente por ser bem movimentada, agitada e consequentemente possuir muitos grafites espalhados pelo bairro, por mais que seja a localização de patrimônios históricos, conforme registros de grafites próximos à rota turística existente, logo, próximos à monumentos e edificações de maior relevância histórica. Com ambos os mapas observa-se que as intervenções urbanas estão localizadas principalmente nas avenidas Jerônimo Monteiro e Princesa Isabel, em diferentes edifícios e espaços, tanto públicos quanto privados, mas principalmente em locais não abandonados, mas sim, de ampla visualização, considerando que onde foram realizados os grafites são locais com maior fluxo de pessoas. Nos horários compreendidos entre sete e oito horas da manhã, e no final da tarde a partir das 18 horas às 20 horas são os momentos de fluxo de pedestres e principalmente de veículos, pois dentre esses horários há maior fluxo de ida e volta do trabalho. E com toda a transformação urbana e descentralização do Centro, fez com que essa região se tornasse uma ligação entre as cidades vizinhas, Vila Velha, Cariacica e Viana, com os bairros Jardim da Penha e Praia do Canto, pequenos centros comerciais e de serviço. Por fim, uma das conclusões que se pode chegar é de que o Centro de Vitória passou e continua passando até hoje por mudanças que junto com suas características principais criam um ambiente propício à realização e manifestação de artes urbanas como o grafite e a pichação. E que esse tipo de expressão e comunicação busca realmente espaços que os possibilitam atingir um maior número de pessoas, trazendo a criação de diferentes sensações em cada indivíduo que se deparam com a arte.

3.3

ANÁLISE DE VISUAIS Durante algumas das diversas análises realizadas através da ferramenta

Google Earth, foram incorporados outros grafites ao levantamento inicial, representados nas Figuras 31 e 32. Observando mais detalhadamente o grafite localizado na esquina da Avenida Mal. Mascarenhas de Moraes com a Rua Josué Prado é possível perceber o impacto


53 que ele gera no local, primeiramente pelo seu tamanho e extensão e depois pelas figuras e cores utilizadas.

Figura 31: Grafite Rua Josué Prado. Fonte: Street View, Google Maps (2020).

Inscrito por toda região do muro de um estacionamento, não é possível passar pelo local e não perceber a presença dessa intervenção. A arte toma posse do elemento arquitetônico, que é a parede, com desenhos de diferentes estilos e formas. Gravuras abstratas, caricaturas, números e letras trazem uma nova identidade e personalidade para o lugar, dando ainda um outro sentido à fachada externa do lote que não apenas a beleza estética, mas o papel de interagir com as pessoas que passam e observam, e de criar um espaço mais alegre.

Figura 32: Grafite Av. Mal. Mascarenhas de Moraes. Fonte: Street View, Google Maps (2020).


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A partir da estrutura dos desenhos e das cores vivas empregadas como o amarelo e o vermelho, a sensação que é transmitida pela junção da arte urbana com a arquitetura é de um ambiente integrado, comunicativo e que permite o desenvolvimento cultural. Ao realizar um rico levantamento de grafites, mapeando-os, constata-se que no centro da cidade efetivamente se encontram diversos movimentos e intervenções urbanas tanto em prédios históricos quanto em edifícios recentes. Por todo o Centro de Vitória são estão espalhados os mais diversos tipos e estilos de grafite que abordam diversos temas, desde críticas políticas, ao realismo, com ilustrações de pessoas famosas de qualquer parte do mundo. Todas as intervenções modificam de alguma forma a arquitetura e o cenário urbano do local em que está inserido, seja negativamente ou positivamente, sempre se apoiando e usufruindo dos elementos arquitetônicos externos das edificações que fica em contato direto com a cidade e a população.

3.4

GRAFITEIROS CAPIXABAS E O CENTRO DE VITÓRIA Realizou-se uma pesquisa sobre o grafite, por meio de entrevista estruturada

(apêndice A), com alguns dos autores das intervenções mapeadas para a presente pesquisa. A escolha dos entrevistados ocorreu em função do maior número de artes mapeadas no Centro de Vitória pelos autores selecionados. Teve como objetivo captar a visão dos artistas sobre a relação entre arte do grafite com a cidade, para aprofundar ainda mais os conhecimentos acerca do tema. feitas entrevistas foram realizadas através de chamadas de áudio via WhatsApp, e para preservar a segurança dos artistas, eles foram identificados com seus respectivos codinomes. Foram entrevistados os Grafiteiros Fredone Fone, NKLPK, Renato Ren, e a crew Made In Chin4. Iniciou-se a entrevista perguntando o que os influenciaram a serem grafiteiros, o que os fizeram buscar esta arte. Ambos os entrevistados relataram que tiveram grande influência do Skate, cultura que todos compartilham, exceto pela NKLPK, que diz que seu ingresso ao mundo do grafite se deu pela influência de um ex-namorado, que sempre foi grafiteiro. Ela o ajudava preenchendo seus trabalhos, então foi


55 aprendendo e se identificando com a arte. Quando romperam o relacionamento, ela deu continuidade, tendo hoje diversos grafites espalhados pelo Centro de Vitória. Perguntado qual a importância o grafite tem para o meio urbano, todos foram homogêneos ao apontarem como o grafite faz com que haja democratização do meio urbano por meio da arte,

que com ele as pessoas locais podem passar uma

mensagem, que talvez não poderia ser passada a diante por outro meio. O uso desta arte acaba resultando na comunicação entre as pessoas e o meio urbano, de uma forma pública, sem sofrer algum tipo de censura. Durante as respostas desta mesma pergunta surgiu a dúvida: se a Pixação se incluía ao tema, já que a entrevista era acerca do grafite. A partir dessa dúvida lhes foi questionado se de fato há alguma diferença (na opinião de cada entrevistado), e se sim, qual ou quais seriam. Todos disseram acreditar que o grafite e a Pichação são da mesma família, que são estilos diferentes. Para afirmar essa informação, relataram como a Pichação é um estilo brasileiro, e que em outros países, o que aqui no Brasil é considerado um Pixo, nos outros países é grafite. A crew Made In Chin4 disse que, mesmo sendo estilos diferente de uma mesma arte, associa a Pixação intervenções que tem mais caráter de competitividade entre os “pichadores”: Há mais competição no Pixo, como em quem chega mais longe, quem vai mais alto, quem pega o trem mais difícil, entre outras coisas do tipo. Pode até mesmo ser um esporte, além de ser, simultaneamente, uma arte urbana (MADE IN CHIN4, 2020).

A partir desses depoimentos, perguntou-se se eles já sofreram de algum preconceito ou se realizar suas intervenções sempre foi algo tranquilo e bem aceito. Todos afirmaram que já sofreram algum tipo de preconceito de certa forma, e alguns deles chegaram até mesmo a serem presos pela prática. Mas todos já sofreram, principalmente durante o início de suas histórias como grafiteiros. KNLPK deixou a mensagem “Não sou bandida, sou artista” (NKLPK, 2020). Com base nas diferentes vertentes identificadas sobre o grafite na parte conceitual deste trabalho, os autores foram questionados sobre qual vertente o trabalho de cada um se encaixa com maior frequência. A maioria citou que o uso no início era pelas Tags, que foram experimentando outros estilos depois, de acordo com o aprimoramento de cada um, passando a utilizar também outros estilos, como o Lambe-lambe, Bomb, e Draw Ups. A crew Made In Chin4 que respondeu utilizar um estilo próprio, também inovador, o grafite com Realidade Aumentada, que acreditam


56 ser um novo estilo que a própria crew lançou. Esse estilo consiste em grafites com “Code”, ao serem scanneado, criam imagens em movimento no celular, tudo por meio da realidade aumentada – como o do aplicativo “Pokémon Go”, febre em 2016. Além disso, ainda é possível, dar vida aos stickers da crew, normalmente colados em postes e caixas de energias. A próxima questão foi para saber, na opinião dos artistas, as motivações do Centro de Vitória ser a região da cidade com a maior concentração de intervenções de grafite, comparativamente com outras regiões da cidade como Jardim Camburi, Enseada do Suá e Jardim da Penha, que alguns deles apresentam população maior. Disseram que o Centro compartilha muito dessa cultura do grafite, e que a maioria deles, tanto os entrevistados quanto os outros grafiteiros que compartilham dessa cultura, residiam na região, o que facilita bastante as intervenções serem naquele lugar. Mas o motivo principal é como o Centro serve como uma espécie de “vitrine” desta arte e, como possui grande fluxo de pessoas, suas obras ganham maior visibilidade, e isso é bastante importante para todos. Almejam atingir um grande número de pessoas, e serem reconhecidos, como explicou Fredone Fone: Acho que o fator principal é que o Centro é ser o centro, não é? É a “vitrine”, e a gente (quem faz grafites) quer ser visto, temos “sede” por sermos vistos. Imagine o que é ser visto para quem mora nos bairros de periferia, por exemplo, se eu fizesse grafites na apenas na Serra Dourada, bairro onde resido, ninguém saberia que eu existo. Ninguém além das pessoas que também lá residem. Já no Centro, lugar onde todos passam, teria muito mais visibilidade. Então é o melhor caminho para quem quer ser visto, às vezes por ego ou vaidade, mas como falar que é isso, quando estamos falando de pessoas que são invisíveis? Que são, na verdade, “invisibilizadas”? É uma vontade de existir, de sermos vistos, reconhecidos, e de ter espaço. Costumo dizer que o primeiro pedacinho que tive na Praia do Canto, foi quando fiz um grafite, lá tive um pedaço de muro para mim, do mesmo jeito quando tive meu primeiro pedaço na Praia da Costa, onde também há um pedacinho meu, onde fiz um grafite. Ou que já tive, pois já pode ter sido apagado. Se não fosse através do grafite, como eu teria? (FREDONE FONE, 2020).

Na questão do tema que cada artista costuma abordar, Fredone acredita Grafitar mais, principalmente, a palavra “Fone”, junção provinda do seu apelido “Fred” e da palavra “one” (número um em inglês), diz que ao assinar seu nome pela cidade, sente como se fosse um artista assinando um quadro, já que sempre trabalhou como ajudante de pedreiro, seu pai, ajudando na construção deste grande quadro que é a cidade, feita por vários pedreiros. Logo, Fredone grafita com mais frequência as famosas “Tags”, assim como Renato Ren, que diz também grafitar nesse mesmo estilo, só que também grafitando o nome de sua crew, além do seu próprio. E quando


57 não utiliza letras, Renato ilustra personagens de mistura entre o abstrato e figurativo, trabalho no qual ele vem mais trabalhando ultimamente. Já NKLPK, logo respondeu grafitar utilizando o tema “Respiro na Selva”, que consiste em grafitar a natureza, como flores, manifestando com sua arte a resistência que a natureza tem em meio ao concreto, afirmando o estudo que diz que se o homem parar de podar e limitar as vegetações inseridas no meio urbano, a natureza pode dominar todas as construções. Diz realizar esse seu conceito de arte principalmente em locais abandonados, ilustrando como a natureza naquele local procura “respirar”. Suas flores, o que geralmente grafita, causam menos reações negativas, por serem mais delicadas, em comparação aos outros grafites. E, por último, a crew Made In Chin4 falou sobre sua maior inspiração de seus desenhos vinda dos anos 1990, sobretudo com referências aos movimentos vaporwave e old school – próximos da música eletrônica e do skate, respectivamente. A interface do programa que a crew usa é baseada no Windows 95, plataforma de computador que marcou gerações. Ao final da entrevista lhes foi preguntado sobre o que é mais satisfatório nas criações de suas artes, quase todos disseram como é satisfatório ao conseguir realizar sua intervenção sem que ocorra nenhum problema, como, por exemplo, algum enquadro da polícia, situação em que a maioria já sofreu. Mas Renato Ren respondeu:

É muito satisfatório o impacto que o grafite pode causar na paisagem, junto às pessoas que por lá passam, convivendo com a interferência que minha arte pode proporcionar, que me dão um bom retorno quanto ao meu trabalho, o que é gratificante (RENATO REN, 2020).

Para finalizar a entrevista, deixei em aberto para eles deixarem algo que gostariam de manifestar sobre o grafite, que não foi dito durante a entrevista. O grafiteiro Renato Ren iniciou deixando sua mensagem, seguida do Fredone Fone e, por fim, a mensagem da grafiteira NKLPK, respectivamente:

Me peguei pensando nesses últimos dias em como o grafite já sofreu diversas transformações e perseguições, e que mesmo assim ele sobrevive até os dias atuais, pelo mundo inteiro. Então essa arte veio para ficar. E é bom ver gente querendo participar dela, aprender sobre ela, e querer assim poder participar da paisagem urbana (RENATO REN, 2020).


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Acho muito importante que todos possam enxergar a cultura vinda da periferia, não ignorando as outras culturas, mas atribuindo o mesmo valor às mesmas. A cultura da periferia não pode ser vista como uma cultura inferior, e mesmo que a pixação seja um crime, ela não deve ser tratada como os demais, sendo alguns imensamente piores, porque além de crime, também é uma cultura que deve ser respeitada como uma cultura de excelência, bem como as diversas culturas vindas das elites (FREDONE FONE, 2020). Grafite é uma manifestação que existe desde os primeiros sinais das civilizações humanas, os manuscritos feitos nas paredes egípcias, até antes disso, as ilustrações feitas nos interiores das cavernas, já podemos chamar de grafite. Então, você saber fazer a leitura do seu tempo, através dessas mensagens escritas nas paredes, é algo muito importante, porque a gente já vem fazendo essas intervenções desde os tempos em que hoje nos entendemos como civilização. É difícil as pessoas aceitarem essas intervenções feitas atualmente, mas não é uma questão de olhar para a intervenção e gostar e achar bonito, é uma questão de entender que aquilo foi feito por algum motivo artístico, ou algum outro motivo importante, mesmo que pessoal. O que hoje pode ser visto com maus olhos pode ser, muitas vezes, o passo inicial de um grande artista. Muitos que hoje são renomados artistas começaram dessa maneira, escrevendo algo nas paredes das escolas, que depois passaram para muros, e que hoje evoluíram para um grande muralismo, que podemos ver em São Paulo e em Belo Horizonte, por exemplo. Então, não é uma questão de gosto, é uma questão de aceitação (NKLPK, 2020).

Após realizada a entrevista, chega-se à conclusão de que as atividades da pixação e do grafite são análogas, sendo o pixo um estilo brasileiro, que se iniciou na cidade de São Paulo, e depois se espalhando para outras regiões, inclusive no Centro de Vitória. Pôde-se também concluir que os grafiteiros querem ser reconhecidos e respeitados, como todas as diversas artes são, e que de fato, uma simples pichação em alguma parede da cidade, pode ser o passo inicial de um grande artista, como foi o caso dos "artistas contemporâneos brasileiros mais reconhecidos mundialmente, Os a dupla que compõe Os Gêmeos. Essa arte contemporânea, muitas vezes serve como "válvula de escape” da desordem e do cinza da no meio urbano, dando mais “vida” com seus universos seres ou frases em diversas vertentes. Já vindo ganhando respeito, tal arte deixou de apenas encontrada em muros abandonados, mas como hoje pode ser encontrada em diversas interfaces, de murais a fuselagem de aviões, surpreendendo.


59

4. CONCLUSÃO O desenvolvimento do presente estudo possibilitou o conhecimento acerca do grafite, sua origem e história no Brasil e os fatores relevantes na caracterização desse tipo de intervenção urbana até passar a ser considerado uma representação artística. A partir do conhecimento aprofundado dos atributos do grafite, é possível vislumbrar o potencial de transformação social, seja como manifestações de ideologias ou por simplesmente tornar a cidade um espaço mais acolhedor, fazendo uso da arquitetura como elemento de suporte e aumentando assim a humanização do espaço urbano. Além disso, observa-se a relação do grafite fora das paredes, isto é, o que esta arte acrescenta a sociedade e as diversas maneiras que pode ser usado, dependendo exclusivamente da criatividade do artista, aceitação do público para a difusão da arte. O presente estudo, junto ao mapeamento realizado por meio de visitas a campo, pode-se afirmar que é possível fortalecer a relação estabelecida entre a arte urbana grafite como marco urbano dentro do Centro da cidade contemporânea de Vitória por meio do planejamento e de desenhos urbanos. Considerando também a importância e relevância do assunto, qualquer tipo de intervenção urbana e social deve ser objeto de estudo, sobretudo o grafite e o seu vasto leque de possibilidades na renovação de vidas, momentos, histórias e espaços. Após este estudo, observa-se com outro olhar as intervenções presentes na cidade de Vitória – Espírito Santo, atentando para os benefícios trazidos, e na capacidade de transfiguração do ambiente. Tal manifestação artística, com o passar do tempo foi agregando novos valores, funções e técnicas a fim de suprir necessidades advinda da população. Passar a ser representado dentro de grande galerias e exposições através do seu reconhecimento bem como por conta das demandas do capitalismo. Entretanto determinada expansão se dá em meio à dificuldades relatando as lutas de artista como Os Gêmeos para conquistar espaço e aceitação. Contudo a prática e a difusão desta arte só são possíveis através da arquitetura que se torna elemento essencial para tal. É por meio dos muros, fachadas, paredes e estruturas que o grafite é executado, tendo, por vezes, a necessidade de refletir o estilo arquitetônico presente no local. Quando ocorre enxerga-se os benefícios, sejam eles uma crítica positiva, negativa ou mesmo a exposição de uma informação


60 completamente distinta ao local. Uma forte expressão de reconhecimento, dando visibilidade a públicos, temas e debates muitas vezes invisibilidades pela política e a sociedade, assim como deve ser considerada, esta arte urbana, um potente instrumento do Direito à Cidade para todos. Por fim, dados os objetivos propostos na introdução deste e realizando-se os estudos acerca da influência do grafite, percebe-se o inegável potencial de transformação, de diversas maneiras, que a difusão das intervenções urbanas pode trazer. Portanto, acredita-se que o grafite, visto como representação artística restaura a influência da arquitetura no espaço urbano, além de viabilizar importantes manifestações políticas e culturais.


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APÊNDICE A – ENTREVISTA 1. Existem diferentes vertentes entre a arte urbana, queria saber qual a diferença, na sua opinião, entre a pichação e o grafite? Com qual das vertentes seu trabalho mais se encaixa? Vertentes como, por exemplo, Wildstyle e Lambe lambe. 2. Para você, qual a importância que o grafite tem para o meio urbano (lugar onde está inserido)? 3. Sempre foi tranquilo para você realizar suas artes? Já teve algum problema ou sofreu preconceito? 4. O que o fez buscar o grafite? Como foi o início da sua arte? 5. Outros bairros, como Praia do Canto e Jardim Camburí, não possuem tantos grafites quanto o Centro de Vitória, por quê? 6. Identifiquei uma de suas intervenções no Centro, por que da escolha desse local? 7. Quais temas sua arte mais aborda? Qual o porquê desse tema? 8. O que lhe é mais satisfatório em todo o processo de desenvolvimento de seus trabalhos? 9. Muito obrigada pela entrevista, para finalizar, quero deixar aberto um momento agora para você mandar algum recado para as pessoas que não foi dito aqui, sinta-se à vontade para falar o que quiser.


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