V@rvItu – Revista de Ciência, Tecnologia e Cultura da FATEC Itu ITU/SP – No. 8, junho de 2019
QUEM SOMOS NÓS DA SOCIEDADE OCIDENTAL... Um olhar para a construção do sujeito sob o tema da sexualidade Clarice Nunes Ferreira1
FOUCAULT, Michel. A História da Sexualidade I: a vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. São Paulo: Edições Graal, 2011.
Michael Foucault é um filósofo do século XX que alcançou ampla repercussão, pois seus estudos produziram um pensamento transversal, atravessando vários campos do saber como filosofia, ciência, história, biologia e outros. Entre os autores, estudiosos de Foucault, fala-se de três fases do filósofo: arqueologia, genealogia e ética. Denomina-se de fase arqueológica desde a obra “História da loucura” (1961), passando por “O nascimento da clínica” e “As palavras e as coisas”, até a obra “Arqueologia do Saber” (1969). A fase genealógica vai de “A ordem do discurso” (1971) passando por “Vigiar e punir” até “A História da Sexualidade 1 – a vontade de saber” (1976). A fase da ética e da estética fica por conta dos dois volumes que se seguem a História da Sexualidade - “o uso dos prazeres” e “o cuidado de si”, ambos publicados em 1984. O que nos interessa na obra de Foucault é o cerne de sua obra, ou seja, o sujeito, que vimos apontar desde suas primeiras investigações. O sujeito que Foucault nos apresenta é construído pelo contexto histórico-social, esse sujeito é entidade histórica que está presente em qualquer época ou lugar, que é constituído em determinada época ou lugar. Nesse sentido, a potencialidade do pensamento de Foucault instaura novos caminhos para discutir e entender as transformações sociais. Na obra ora resenhada, Foucault não foge a esse preceito, já que o filósofo a faz de maneira magistral sob o tema da sexualidade. Segundo Veiga-Neto (2005, p. 96) “a sexualidade interessa na medida em que ela funciona como um grande sistema de interdições, no qual somos levados a falar sobre nós mesmos, em termos de nossos desejos, sucessos e insucessos, e no qual se dão fortes proibições de fazer isso ou aquilo”. No primeiro capítulo, Foucault nos proporciona uma viagem no tempo. Com o título “Nós, vitorianos”, claramente, o autor resgata em Nietzsche a ironia, pois se trata de um tempo marcado pela rigidez dos princípios moralistas. O autor nos instiga a pensar que somos frutos da era vitoriana ao declarar que Um rápido crepúsculo se teria seguido à luz meridiana, até as noites monótonas da burguesia vitoriana. A sexualidade é, então, cuidadosamente encerrada. Muda-se para 1
Doutora em Educação. Professora de Língua Inglesa nas Fatec Itu e Fatec Jundiaí. claricenferreira@yahoo.com.br.
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V@rvItu – Revista de Ciência, Tecnologia e Cultura da FATEC Itu ITU/SP – No. 8, junho de 2019 dentro de casa. A família conjugal a confisca. E absorve-a, inteiramente, na seriedade da função de reproduzir. Em torno do sexo, se cala. O casal, legítimo e procriador, dita a lei. Impõe-se como modelo, faz reinar a norma, detém a verdade, guarda o direito de falar, reservando-se o princípio do segredo. No espaço social, como no coração de cada moradia, um único lugar de sexualidade reconhecida, mas utilitário e fecundo: o quarto dos pais. Ao que sobra só resta encobrir-se; o decoro das atitudes esconde os corpos, a decência das palavras limpa os discursos. E se o estéril insiste, e se mostra demasiadamente, vira anormal: receberá este status e deverá pagar as sanções. (FOUCAULT, 2011, p. 9)
Nesse sentido, Foucault nos provoca ao apresentar sua “hipótese repressiva”. O autor afirma que a (...) repressão funciona, decerto, como condenação ao desaparecimento, mas também como injunção ao silêncio, afirmação de inexistência e, consequentemente, constatação de que, em tudo isso, não há nada para dizer, nem para ver, nem para saber. Assim, marcharia com sua lógica capenga, a hipocrisia de nossas sociedades burguesas. (FOUCAUT, 2011, p. 10)
Tal hipótese fica delineada de tal maneira que podemos notar, de fato, a desconstrução da repressão, pois o autor argumenta que essa hipótese é uma ilusão. Se sexo é reprimido, isto é, fadado à proibição, à inexistência e ao mutismo, o simples fato de falar dele e de sua repressão possui como que um ar de transgressão deliberada. (FOUCAUT, 2011, p. 12)
Sendo assim, a repressão é posta pelo autor como discurso, que passa a ser legitimado via regime de verdade que prolifera durante os séculos XVII e XIX. Não digo que a interdição do sexo é uma ilusão; e sim que a ilusão está em fazer dessa interdição o elemento fundamental e constituinte a partir do qual se poderia escrever a história do que foi dito do sexo a partir da Idade Moderna. Todos esses elementos negativos – proibições, recusas, censuras, negações – que a hipótese repressiva agrupa grande mecanismo central destinado a dizer não, sem dúvida, são somente peças que têm uma função local e tática numa colocação discursiva, numa técnica de poder, numa vontade de saber que estão longe de se reduzirem a isso. (FOUCAUT, 2011, p. 18)
Foucault revela que é a partir da tentativa do processo de restrição que o sexo foi posto em evidência, de forma que poder e saber constituem uma ciência da sexualidade. Ao ser posta em discurso, cria-se aparatos para implantar a normalidade, o que o autor chamou de “a implantação perversa”, pois essa colocação do sexo em discurso não estaria ordenada no sentido de afastar da realidade as formas de sexualidade insubmissas à economia estrita da reprodução (dizer não às atividades infecundas, banir os prazeres paralelos, reduzir ou excluir as práticas que não tem como finalidade a geração)? Através de tais discursos multiplicaram-se as condenações judiciarias das perversões menores, anexou-se a irregularidade sexual à doença mental; a infância à velhice foi definida uma norma do desenvolvimento sexual e cuidadosamente caracterizado todos os desvios possíveis; organizaram-se controles pedagógicos e tratamentos médicos; em torno das mínimas fantasias, os moralistas é, também e, sobretudo, os médicos, trouxeram à baila todo o vocabulário enfático da abominação: isso não equivaleria a buscar meios de reabsorver um proveito de uma sexualidade centrada na genitalidade tantos prazeres sem fruto? Toda essa atenção loquaz com que nos alvoroçamos em torno da sexualidade, há dois
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V@rvItu – Revista de Ciência, Tecnologia e Cultura da FATEC Itu ITU/SP – No. 8, junho de 2019 ou três séculos, não estaria ordenada em função de uma preocupação elementar: assegurar o povoamento, reproduzir a força de trabalho, reproduzir a forma das relações sociais, em suma, proporcionar uma sexualidade economicamente útil e politicamente conservadora? (FOCAULT, 2011, p. 43-44)
Ora, a implantação das perversões múltiplas é perversa, afinal ela classifica, ordena e nomeia. Para tal, cria-se dispositivos. Foucault elucida o sentido de dispositivo: Por esse termo tento demarcar, em primeiro lugar, um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais e filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre esses elementos. (FOUCAULT, 2012, p. 364)
O autor, ainda, afirma que dispositivo tem uma função estratégica dominante que atende a uma urgência, inscrito em um jogo de poder ligado às constituições de saber que nascem dele e o condicionam. Nesse sentido, o autor assinala que “o poder funciona como mecanismo de apelação, atrai, extrai essas estranhezas pelas quais se desvela. O prazer se difunde através do poder cerceador e este fixa o prazer que acaba de desvelar” (FOUCAULT, 2011, p. 52), ou seja, no caso do dispositivo da sexualidade, o exame médico, a investigação psiquiátrica, o relatório pedagógico e os controles familiares podem parecer dizer não às sexualidades não produtivas, mas como o autor afirma, “funcionam como mecanismos de dupla incitação: prazer e poder. Prazer em exercer um poder que questiona, fiscaliza, espreita, espia, investiga, apalpa, revela; e, por outro lado, prazer que se abrasa por ter que escapar a esse poder, fugir-lhe, enganá-lo ou travestí-lo” (FOUCAULT, 2011, p. 52). Ao instalar as múltiplas perversões, criam-se espaços onde se pode ou não falar sobre sexo e de que forma isso pode acontecer, “mediante múltiplos dispositivos de poder, foram solicitados, instalados, isolados, intensificados, incorporados” (FOUCAULT, 2011, p.55). Além disso, “o crescimento das perversões não é um moralizador que acaso tenha obcecado os espíritos escrupulosos dos vitorianos. É produto real da interferência de um tipo de poder sobre os corpos e seus prazeres” (FOUCAULT, 2011, p. 55). Através de uma rede de mecanismos vimos crescer o interesse pelo sexo ao inverso de sua repressão. Afirma o autor que no “avanço dos poderes, fixam-se sexualidades disseminadas, rotuladas segundo uma idade, um lugar, um gosto, um tipo de prática” (FOUCAULT, 2011, p. 56). Essa proliferação da sexualidade a partir de dispositivos de poder gera um campo de intervenção, que é garantida pela sua lucratividade, ou seja, “(...) por intermédio da medicina, da psiquiatria, da prostituição e da pornografia, vincularam-se ao mesmo tempo a essa concentração analítica do prazer e a essa majoração do poder que o controla” (FOUCAULT, 2011, p. 56). Nesse sentido, prazer e poder se entrelaçam e não se anulam, criam por meio de mecanismos, excitação e incitação. A história da sexualidade, assim como a história de nossa civilização é a história dos discursos. Institucionaliza, no século XIX, por exemplo, o discurso da ciência, “nesse momento 116
V@rvItu – Revista de Ciência, Tecnologia e Cultura da FATEC Itu ITU/SP – No. 8, junho de 2019 os prazeres mais singulares eram solicitados a sustentar o discurso da verdade sobre si mesmos, discurso que deveria articular-se não mais àquele que fala do pecado e da salvação, da morte e da eternidade, mas ao que fala do corpo e da vida” (FOUCAULT, 2011, p. 73). As discussões sobre a possibilidade de constituir uma ciência do sujeito aponta aí como uma ciência-confissão atrelada ao projeto do discurso científico. Essa confissão sexual na forma científica é apontada pelo autor: - “através de uma codificação clínica do ‘fazer falar’”, ou seja, a confissão de si mesmo para alguém legitimado a ouvir tais confissões sob procedimento aceitável cientificamente: “a narração de si mesmo com o desenrolar de um conjunto de sinais e de sintomas decifráveis; o interrogatório cerrado, a hipnose com a evocação de lembranças, as associações livre” (FOUCAULT, 2011, p. 74); - “através do postulado de uma causalidade geral e difusa: o dever de dizer tudo e o poder de interrogar sobre tudo encontrarão sua justificação no princípio de que o sexo é dotado de um poder causal inesgotável e polimorfo” (FOUCAULT, 2011, p. 75); - “através do princípio de uma latência intrínseca à sexualidade”, isto é, extrair a verdade sobre o sexo não é só difícil como é também camuflada, pois faz parte de sua natureza; - “através do método da interpretação”, quer dizer, aquele que escuta legitima, perdoa, condena ou isenta, ele produz o discurso da verdade, fazendo da sexualidade, algo a ser interpretado; - “através da medicalização dos efeitos da confissão: (...) o domínio do sexo não será mais colocado, exclusivamente, sob registro da culpa e do pecado, do excesso ou da transgressão e sim do regime do normal e do patológico” (FOUCAULT, 2011, p. 77). Talvez, neste momento, identificamos que a sexualidade, nesta obra, compõe apenas um tema ilustrativo para que o autor desenvolva o que já apontamos como o cerne de sua obra: a constituição do sujeito. Os dispositivos de poder e de saber vinculados aos dispositivos de verdade e de prazer, tão diferentes da repressão não são secundários ou derivados: trata-se, portanto, de levar a sério esses dispositivos e de inverter a direção da análise: ao invés de partir de acordo com o que supomos saber, é necessário considerar esses mecanismos positivos, produtores de saber, multiplicadores de discursos, indutores de prazer e geradores de poder. É necessário segui-los nas suas condições de surgimento e de funcionamento e procurar de que maneira se formam (...) os fatos de interdição ou de ocultação que lhes são vinculados. Em suma trata-se de definir estratégias de poder imanentes a essa vontade de saber. E, no caso específico da sexualidade, constituir a ‘economia política’ de uma vontade de saber. (FOUCAULT, p. 83)
Foucault apresenta quatro conjuntos estratégicos que desenvolvem dispositivos específicos de saber e poder sobre o sexo: a histerização do corpo da mulher; a pedagogização do sexo da criança; a socialização das condutas de procriação; a psiquiatrização do prazer perverso. Desses conjuntos destacam-se: a mulher histérica, a criança masturbadora, o casal malthusiano, o adulto perverso. Tudo isso trata da produção da sexualidade. 117
V@rvItu – Revista de Ciência, Tecnologia e Cultura da FATEC Itu ITU/SP – No. 8, junho de 2019 Não se deve concebê-la como uma espécie de dado da natureza que o poder é tentado a pôr em xeque, ou como um domínio obscuro que o saber tentaria, pouco a pouco, desvelar. A sexualidade é o nome que se pode dar a um dispositivo histórico: não à realidade subterrânea que se apreende com dificuldade, mas à grande rede da superfície em que a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação ao discurso, a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências, encadeiamse uns aos outros, segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder. (FOUCAULT, 2011, p. 117)
Nesse sentido, o autor nos propõe outro aparato, que está ligado diretamente à sexualidade, o dispositivo de aliança. “O dispositivo de aliança se estrutura em torno de um sistema de regras que define o permitido e o proibido, o prescrito e o ilícito; o dispositivo de sexualidade funciona de acordo com técnicas móveis, polimorfas e conjunturais de poder” (FOUCAULT, 2011, p. 117). O dispositivo de aliança está diretamente relacionado com a economia por “desempenhar na transmissão ou na circulação das riquezas”, enquanto o dispositivo da sexualidade “se liga à economia através de articulações numerosas e sutis sendo o corpo principal – corpo que produz e consome” (FOUCAULT, 2011, p. 118). Foucault sustenta os elementos das relações de poder, ou seja, a intensificação do corpo à sua valorização como objeto de saber, a partir da articulação entre os dispositivos de aliança e de sexualidade e reforça a ideia de que foi em torno dispositivo de aliança que o de sexualidade se instalou. Segundo Machado, Foucault complementou a genealogia da sociedade disciplinar no último capítulo de História da Sexualidade – a vontade de saber: (...) com o correr da pesquisa, ele [Foucault] descobriu que os dispositivos de sexualidade não apenas do tipo disciplinar, isto é, não atuam unicamente para formar e transformar o indivíduo pelo controle do tempo, do espaço, da atividade e pela utilização de instrumentos como a vigilância e o exame. Além de constituírem uma “anátomo-política do corpo humano”, centrada no corpo considerado como máquina, eles também se realizam por uma “biopolítica da população”, pela regulação das populações, por um “biopoder” que age sobre a espécie, com o objetivo de assegurar sua existência (MACHADO, 2012, p. 29).
Culmina, portanto, no final da obra de Foucault que o discurso da sexualidade, a partir de Freud, não se trata de libertação, mas se funda em mecanismos/dispositivos de controle de vida. Foucault (2011, p. 160) afirma que “(...) o sexo tornou-se o alvo central de um poder que se organiza em torno da gestão da vida, mais do que da ameaça da morte.” Longe de ser reprimida, a sexualidade está permanentemente acendida. Pelos mecanismos de poder, nos tornamos sujeitos; pelo dispositivo da sexualidade, nos tornamos sujeitos.
Referências FOUCAULT, Michel. A História da Sexualidade I: a vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. São Paulo: Edições Graal, 2011. FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2012. 118