V@rvItu – Revista de Ciência, Tecnologia e Cultura da FATEC Itu ITU/SP – No. 7, junho de 2018
A Leitura da Literatura em Curso de Tecnologia do Centro Paula Souza
Danilo Luiz Carlos Micali1
Resumo. Este trabalho consiste no relato de uma experiência docente de leitura de textos literários em cursos de graduação tecnológica do Centro Paula Souza. Segundo a percepção do professor, a leitura em voz alta e até dramatizada de contos, crônicas, poemas e fábulas, além das redações dos próprios alunos, têm obtido êxito em aulas das disciplinas Leitura e Produção de Textos e Comunicação e Expressão, ambas de cursos presenciais da FATEC Itu (SP). Constatou-se que essa prática tem se revelado válida, considerando que, via de regra, os alunos de cursos tecnológicos fazem pouca leitura, especialmente de textos poéticos e ficcionais. A leitura em voz alta também se torna importante para o estudante fazer uso da oralidade em termos de ritmo, cadência, ênfase e entonação, treinando-o para falar em público. Por outro lado, a literatura tem o poder de convidar os leitores a uma reflexão, pois a arte é imitação da vida, e a poesia e a ficção estão presentes de alguma forma em nosso dia a dia. Palavras-chave: Cursos Tecnológicos; Textos Literários; Leitura. Abstract. The Reading of the Literature in Course of Technology of the Center Paula Souza. This work consists in the report of a teaching experience of reading literary texts in technological graduation courses of the Paula Souza Center. According to the teacher's perception, reading aloud and even dramatized stories, chronicles, poems and fables, in addition to the essays of the students themselves, have been successful in classes in the subjects Reading and Writing Texts, and Communication and Expression, both of courses at FATEC Itu (SP). It was found that this practice has proved valid, considering that, as a rule, students of technological courses do not read much, especially poetic and fictional texts. Reading aloud also becomes important for the student to use orality in terms of rhythm, cadence, emphasis, and intonation, training him to speak in public. On the other hand, literature has the power to invite readers to a reflection, since art is imitation of life, and the poetry and the fiction are present in some way in our day to day. Keywords: Technological Courses; Literary Texts; Reading. Resumen. La lectura de la Literatura en Curso de tecnología del Centro Paula Souza. Este trabajo consiste en el relato de una experiencia docente de lectura de textos literarios en cursos de graduación tecnológica del Centro Paula Souza. Según la percepción del profesor, la lectura en voz alta e incluso dramatizada de cuentos, crónicas, poemas y fábulas, además de las redacciones de los propios alumnos, han obtenido éxito en clases de las asignaturas Lectura y Producción de Textos, y Comunicación y Expresión, ambas de cursos presenciales de FATEC Itu (SP). Se constató que esta práctica se ha revelado válida, considerando que, por regla general, los alumnos de cursos tecnológicos tienen poca lectura, especialmente de textos poéticos y ficticios. La lectura en voz alta también es importante para el estudiante hacer uso de la oralidad en términos de ritmo, cadencia, énfasis y entonación, entrenándolo para hablar en público. Por otro lado, la literatura tiene el poder de invitar a los lectores a una reflexión, pues el arte es imitación de la vida, y la poesía y la ficción están presentes de alguna forma en nuestro día a día. Palabras clave: Textos Literarios; Cursos Tecnológicos; Lectura. 1
Possui Graduação em Letras, Especialização em Fundamentos da Leitura Crítica da Literatura, Mestrado e Doutorado em Estudos Literários pela UNESP. É Docente da FATEC Itu – e-mail: dlcmicali@gmail.com.
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V@rvItu – Revista de Ciência, Tecnologia e Cultura da FATEC Itu ITU/SP – No. 7, junho de 2018 1 Introdução A literatura é um fenômeno sociocultural que se manifesta por meio de uma gama variada de gêneros, distintos e indistintos, em estilos literários diversos. Ao representar o mundo através da linguagem, a literatura se constitui numa possibilidade de registro da historicidade do homem. Os personagens da ficção, assim como as pessoas reais, sempre interagem em um determinado contexto social e histórico que registra hábitos, costumes e tradições da sociedade. Por isso, pode-se dizer que todo texto literário é realista, tal como diz Barthes (1997, p. 18) na sua Aula inaugural: “(...) a literatura, quaisquer que sejam as escolas em nome das quais ela se declara, é absolutamente, categoricamente realista: ela é a realidade, isto é, o próprio fulgor do real.” Dentre as muitas faculdades de tecnologia do Centro Paula Souza, espalhadas pelo Estado de São Paulo, encontra-se a Faculdade de Tecnologia de Itu, que oferece cursos superiores de graduação, tais como, Gestão da Tecnologia da Informação, Análise e Desenvolvimento de Sistemas e Tecnologia em Eventos. Os componentes curriculares desses cursos classificam-se em básicos ou específicos e entre os primeiros constam “Leitura e Produção de Textos” (LPT) e “Comunicação e Expressão” (CE). No plano de ensino dessas disciplinas aparece, dentre os objetivos específicos, formar profissionais com visão global, humanística e calcada na ética, razão pela qual os textos literários ganham importância pedagógica pelo seu potencial de trabalhar o caráter essencialmente humano e subjetivo do indivíduo, ao lidar com as paixões, sentimentos e emoções humanas desde que o mundo é mundo. Este relato de experiência docente se baseia tão somente no viés do professor em relação à recepção de textos literários pelos alunos, tendo em vista enriquecer o campo de pesquisa da literatura em cursos superiores de tecnologia, por meio de uma abordagem inicialmente subjetiva, sem metodologia científica. Quando se observa a reação da classe diante da leitura em voz alta e até dramatizada de contos, crônicas, poemas e fábulas, conclui-se que, independente da área de formação do estudante, a literatura brasileira tem o poder de fazê-lo refletir sobre a condição humana e a vida em sociedade, seja em que medida for, considerando tratar-se de alunos de uma Faculdade de Tecnologia.
2 Os textos literários A leitura de textos literários possibilita ao aluno conhecer o estilo particular de cada autor, o que revela o país na sua diversidade regional e cultural. Além do gênero narrativo, que 69
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inclui contos literários, crônicas, fábulas e até redações dos próprios alunos, são lidos poemas de vários autores. Lygia Fagundes Telles, Luis Fernando Veríssimo, Monteiro Lobato, Arthur Azevedo, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Moacyr Scliar são alguns dos autores cujos textos são lidos nas disciplinas LPT e CE. É importante lembrar aos alunos que os textos literários não respondem, mas interrogam o leitor, despertando-o para novas leituras. Segundo estudiosos do gênero narrativo (Gotlib, 1997), o conto é um tipo de narrativa em que realidade e imaginação (ficção) se misturam, e seus limites são imprecisos. Dos três contos de Lygia Fagundes Telles apresentados aos estudantes, Venha ver o pôr do sol, Natal na barca, e A caçada, este último contém um traço insólito que intriga o leitor, peça fundamental no processo de leitura por atribuir sentido ao texto lido. O enredo do conto A caçada (2006) gira em torno de uma tapeçaria que ocupa uma parede inteira de uma loja de antiguidades, e que retrata uma caçada levada a cabo numa floresta. Ao visitar essa loja certo cliente fica fascinado pela peça, a tal ponto que passa a frequentar o local assiduamente como se a cena representada naquela tela o tivesse hipnotizado. A forte atração que o protagonista sem nome passa a sentir pela tapeçaria no decorrer do tempo diegético é logo percebida pela dona da loja e pelo leitor. Essa peculiar sensação de familiaridade por algo ou alguém que se pode experimentar sensorialmente, como se já vivenciada, é denominada déjà vu2, expressão e significado comumente desconhecidos pelos alunos. E o enfoque desse conto, cujo final é surpreendente, será justamente essa estranha relação entre o sujeito e a cena representada na tapeçaria, nada mais importa, a não ser o efeito visceral e perturbador daquela caçada sobre o homem, que se revela ao final como sendo a própria presa. O caráter insólito ou fantástico desse conto remete ao realismo mágico ontológico, em que a palavra “mágico” refere-se “(...) às ocorrências inexplicáveis, prodigiosas ou fantásticas que contradizem as leis do mundo natural e não possuem explicação convincente.” (Spindler, 1993, p. 10). Embora aparentem ter entendido o enredo e gostado da estória, os alunos ficam
Déjà vu, pronuncia-se Déjà vi, é um termo da língua francesa, que significa “já visto”. Déjà vu é uma reação psicológica que faz com que o cérebro transmita para o indivíduo que ele já esteve naquele lugar, sem jamais ter ido, ou que conhece alguém, mas nunca o viu antes. Déjà vu é uma sensação que surge ocasionalmente, ocorre quando fazemos, dissemos ou vemos algo que dá a sensação de já ter feito ou visto antes, porém isso nunca ocorre. O déjà vu aparece como um “replay” de alguma cena, na qual a pessoa tem certeza que já passou por aquele momento, mas realmente isso nunca ocorreu. O déjà vu ocorre porque o cérebro possui vários tipos de memória, como a memória imediata, a qual é capaz de repetir um número de telefone e depois esquecê-los. A memória de curto prazo dura algumas horas e a memória de longo prazo, que dura meses ou até anos. O déjà vu é, na verdade, uma falha no cérebro, no qual os fatos que estão acontecendo são armazenados diretamente na memória de longo ou médio prazo, quando o correto seria ir para a memória imediata, dando assim a sensação que o fato já ocorreu antes. Fonte: disponível em https://www.significados.com.br/deja-vu/. Acesso em 14.09.2016. 2
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um tanto perplexos com essa leitura, reação decerto causada pelo caráter ambíguo e fantástico do conto. Vale lembrar que o nível de leitura deles é geralmente baixo, por vezes aliado a certa dificuldade de letramento, o que pode comprometer uma perfeita compreensão já na primeira leitura, sendo às vezes necessária uma releitura parcial ou total. Depois da leitura em voz alta efetuada pelos alunos e pelo professor – que fazem respectivamente as vozes dos personagens e do narrador –, este último, a fim de avaliar a compreensão do estudante sobre o texto lido e promover um possível debate, faz algumas perguntas sobre quem seria o protagonista, sua relação com os demais personagens, o contexto de tempo e espaço, e, finalmente, se alguém saberia resumir rapidamente o enredo, o clímax da estória e seu eventual desfecho ou final. Há alunos que assumem uma atitude meramente passiva, sendo necessário questioná-los para que o debate não se reduza a alguns poucos comentários. O conto Natal na barca (1984) chega a emocionar a classe, sendo lido em voz alta por duas alunas. A narradora da estória é personagem que divide o protagonismo com uma mulher humilde que narra as suas perdas e desgraças. É como se fossem duas narradoras, mas a primeira possui a autoridade de conduzir a narrativa, embora nada se saiba sobre ela, tal como é revelado no início: Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu. (TELLES, 1984, p. 67).
Embora se vestisse humildemente, a mulher com a criança aparentava certa dignidade, com seus olhos claros e extraordinariamente brilhantes. Segundo descreve a narradora, a mulher de rosto pálido era jovem, e o manto escuro e comprido que lhe cobria a cabeça a fazia parecer uma figura antiga. A narradora se debruça na amurada de madeira carcomida e acende um cigarro. “Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal.” (Ibidem, p. 67) O inevitável diálogo entre as duas mulheres surge quase naturalmente, a partir de um simples comentário sobre a água do rio ser de cor esverdeada. A criança choraminga no colo da mulher, ao que a narradora lhe pergunta se era filho dela. “É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um médico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem, mas piorou de repente. (...) Mas Deus não vai me abandonar.” (Ibid., p. 67) Conta ela que aquele era o filho que lhe sobrara, porque o mais velho havia morrido quando estava brincando de mágico em cima do muro, e pulou: “Vou voar! E atirou-se. A queda não 71
V@rvItu – Revista de Ciência, Tecnologia e Cultura da FATEC Itu ITU/SP – No. 7, junho de 2018 foi grande, o muro não era alto, mas caiu de tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos.” (Ibid., p. 68) E continua seu relato, dizendo ser professora e que fora morar com a mãe, depois que o marido a abandonara. A narradora dissimula sua estupefação ao notar que, mesmo diante de tantas desgraças, a pobre mulher estava tranquila e sem a menor revolta. — A senhora é conformada. — Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou. — Deus — repeti vagamente. — A senhora não acredita em Deus? — Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas ... (TELLES, 1984, p. 68).
O enredo atinge o seu clímax quando a mulher com a criança, num tom confessional, volta a falar do filho que perdera. — Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do jardim onde toda tarde ele ia brincar. E fiquei pedindo, pedindo com tamanha força, que ele, que gostava tanto de mágica, fizesse essa mágica de me aparecer só mais uma vez, não precisava ficar, se mostrasse só um instante, ao menos mais uma vez, só mais uma! Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Assim que ele me viu, parou de brincar e veio rindo ao meu encontro e me beijou tanto, tanto... Era tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim. (TELLES, 1984, p. 69).
Esse trecho chega a emocionar os alunos, uma vez que a classe permanece em silêncio. E na sequência o conto caminha para o seu desfecho, quando a narradora, sem saber o que fazer ou dizer, levanta o chale que cobria a cabeça da criança doente nos braços da mãe. “Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o rio. O menino estava morto. (...). A mãe continuava a ninálo, apertando-o contra o peito. Mas ele estava morto.” (Ibid., p. 70) Chocada com a suposta descoberta, a narradora se debruça na grade da barca e respira penosamente. Tudo o que queria agora era sair dali; fugir daquela situação, antes que a mãe descobrisse, mas sente que a mulher se agita atrás dela, anunciando que estavam chegando. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e pôs-se a sacudir o velho que dormia: — Chegamos!... Ei! chegamos! Aproximei-me evitando encará-la. — Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão. Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-la, afastou o xale que cobria a cabeça do filho. — Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. — Acordou?!
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V@rvItu – Revista de Ciência, Tecnologia e Cultura da FATEC Itu ITU/SP – No. 7, junho de 2018 Ela sorriu: — Veja... Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente. E bocejava, esfregando a mãozinha na face corada. Fiquei olhando sem conseguir falar. — Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço. Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. (TELLES, 1984, p. 70).
Os alunos dos cursos de tecnologia da FATEC Itu raramente fazem comentários espontâneos sobre os textos literários lidos nas aulas de Comunicação e Expressão.
É
necessário instigá-los para isso, e com este conto não foi diferente. Foi preciso questioná-los, “cutucá-los”, tirá-los da “zona de conforto” para saber que tipo de reflexão a leitura do texto despertou-lhes. Os alunos ficaram pensativos e os que comentaram, disseram tratar-se de um conto triste e realista. À pergunta do professor se teria ocorrido um milagre de Natal, pelo fato de a criança estar viva, houve quem respondeu que a fé da mãe salvou o filho, enquanto outros apenas sorriram. Da mesma autora, o conto Venha ver o pôr do sol (2006) tem também um final surpreendente, sendo um texto em que predomina o discurso direto dos jovens personagens, Raquel e Ricardo, enamorados no passado e separados no presente. A leitura em voz alta é feita, respectivamente, por uma aluna e um aluno, geralmente jovens, o que desperta mais interesse deles e da classe. O rapaz e a moça são pobres, mas Raquel preferiu um rapaz rico a continuar com Ricardo, que a ama muito e nunca aceitou o fim do namoro.
Este lhe suplica um último
encontro e Raquel cede, sem saber que o local escolhido por ele seria um antigo cemitério abandonado. As interrupções do narrador se limitam a descrever o ambiente, as ações e o semblante dos personagens, que conversam enquanto caminham pelo cemitério, o que imprime certo dinamismo à narrativa. ELA subiu sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde. Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinham um jeito jovial de estudante. – Minha querida Raquel. Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos. – Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do taxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima. Ele sorriu entre malicioso e ingênuo. (...) (TELLES, 2006, p. 224).
Depois de convencê-la a caminhar até um local do cemitério onde haveria um jazigo da família dele, donde se podia contemplar um maravilhoso pôr de sol, Ricardo acaba por 73
V@rvItu – Revista de Ciência, Tecnologia e Cultura da FATEC Itu ITU/SP – No. 7, junho de 2018 trancafiar Raquel nesse lugar, apesar das súplicas da garota que percebe tardiamente haver caído numa armadilha. O conto termina com o grito lancinante de Raquel presa diante da morte iminente e a certeza de Ricardo de que ninguém poderia salvá-la. Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda. (TELLES, 2006, p. 232)
O final trágico desse conto reproduz uma situação bastante comum na realidade, como reconhecem os alunos. Com frequência são noticiados pela mídia homicídios ocasionados por supostos finais de relacionamentos que na verdade não acabam, porque uma das partes não aceita o rompimento. Ao apelar para a violência, o agressor deve pensar que se o companheiro(a) não for dele(a) não será de mais ninguém. Esses três contos de Lygia Fagundes Telles ilustram perfeitamente o fato de que existem obras literárias que salientam ainda mais as mazelas do nosso cotidiano, mostrando um horizonte até mais sombrio do que aquele vivenciado diariamente na realidade. Como diz Leyla Perrone-Moisés, Na sua gênese e na sua realização, a literatura aponta sempre para o que falta, no mundo e em nós. Ela empreende dizer as coisas como são, faltantes, ou como deveriam ser, completas. Trágica ou epifânica, negativa ou positiva, ela está sempre dizendo que o real não satisfaz. (PERRONE-MOISÉS, 2015, p. 104)
Fica evidente a preferência de um número maior de alunos por textos humorísticos, a exemplo das crônicas bem humoradas de Luis Fernando Veríssimo, tal como acontece com Atitude Suspeita (1993). O texto é iniciado por uma mensagem de alerta do narrador, dizendo que qualquer pessoa pode, em algum momento da vida, comportar-se de um modo considerado “suspeito” por alguém. Sempre me intriga a notícia de que alguém foi preso “em atitude suspeita”. É uma frase cheia de significados. Existiriam atitudes inocentes e atitudes duvidosas diante da vida e das coisas e qualquer um de nós estaria sujeito a, distraidamente, assumir uma atitude que dá cadeia! (VERÍSSIMO,1993, p. 6)
A repetição da expressão “atitude suspeita” no decorrer da narrativa, tanto da parte do suspeito, quanto da parte dos policiais e do delegado, é o que torna esse conto hilário. Já em outra crônica do mesmo autor Árvore genealógica (s/d), o narrador está ausente, uma vez que o texto reproduz do começo ao fim o diálogo das personagens, mãe e filho. O rapaz, ao revelar para a mãe a homossexualidade dele e da irmã, também comunica o desejo de 74
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ter dois filhos com seu parceiro, através da inseminação artificial, e com a ajuda da irmã e da namorada dela que doariam os óvulos. A leitura em voz alta é feita de forma dramatizada por uma aluna e um aluno, que fazem respectivamente as vozes da mãe e do filho. É uma narrativa satírica que faz a classe rir bastante por representar uma situação já não tão inusitada para os dias atuais, como quando foi escrito e publicado, há mais de quinze anos. Embora retrate um contexto familiar ainda fantasioso para a sociedade do início deste século, esse texto antecipou uma realidade social atualmente vivenciada por algumas famílias brasileiras, outra prerrogativa da arte literária, que imita a vida e vice-versa. De acordo com Hodgart (1969), a sátira surge em decorrência da combinação entre fantasia e realismo na ficção. A leitura fácil e a interpretação correta das crônicas de Luis Fernando Veríssimo devem-se à forma como esse autor faz funcionar os mecanismos linguísticos e discursivos em seus textos.
São procedimentos narrativos que alcançam um público de faixa etária
diversificada, formando leitores proficientes e atentos às múltiplas possibilidades de uso da linguagem. O humor irônico quase sempre presente seria fruto dessa estratégia de construção da ficcionalidade, de acordo com Brait (1996), para quem a ironia pode ser enfocada tanto da perspectiva linguística quanto filosófica. O conto Negrinha (2014), de Monteiro Lobato, é um texto cuja ironia contundente destoa da alegre literatura infanto-juvenil pela qual o escritor tornou-se mais conhecido. Escrito há quase cem anos no português então praticado, Negrinha é um conto extenso, pleno de significados, e com um final triste, aspectos que tornam sua leitura mais densa. Também se observa nesse conto a capacidade da literatura de registrar fielmente o momento vivido pela sociedade de determinada época, com seus hábitos, costumes, tradições e contradições. Quando esse conto foi escrito e publicado já eram passados aproximadamente trinta anos desde a “Abolição da Escravatura”. Lobato promove uma dura crítica sobre a realidade dos negros pósabolição, tal como ilustra o seguinte excerto da narrativa, que reproduz em discurso indireto livre o pensamento preconceituoso da “excelente” D. Inácia: A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos – e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo – essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! (LOBATO, p. 71)
Como diz Antonio Candido (2009, p. 55), a função social de uma obra literária tem a ver com “o papel que a obra desempenha no estabelecimento de relações sociais, na satisfação de necessidades espirituais e materiais, na manutenção ou mudança de uma certa ordem na sociedade.” Conforme mostrado no fragmento supra, na ordem social pós-abolição, a discriminação e o preconceito racial sobreviveram e ainda persistem até os dias de hoje. 75
V@rvItu – Revista de Ciência, Tecnologia e Cultura da FATEC Itu ITU/SP – No. 7, junho de 2018 Duas crônicas de Fernando Sabino lidas em classe também discutem o preconceito racial da sociedade brasileira de cinquenta anos atrás. Preto e Branco (1962) e A última crônica (s/d) são textos escritos na década de 60 que registram o modus vivendi da sociedade daquela época, o que faz os alunos perceberem a evolução social e linguística ocorrida no decorrer de meio século. A crônica engraçada de Arthur Azevedo, Plebiscito (1890) mostra para os alunos de hoje como era o dia a dia no lar de uma família brasileira de classe média no final do século dezenove, e como é importante saber consultar corretamente o dicionário. Nesse texto, a forma da linguagem do narrador e personagens remete ao português lusitano, com os verbos no infinitivo ao invés do gerúndio, e expressões idiomáticas não familiares aos brasileiros de hoje. A crônica O jardim em frente (s/d) de Carlos Drummond de Andrade é de tamanha singeleza, que as opiniões se dividem quanto à possibilidade da situação narrada acontecer na realidade atual. Uma senhora idosa interrompe uma importante reunião dos executivos de uma empresa para pedir ao presidente autorização para enterrar seu canário morto no jardim do prédio onde se realiza a reunião. Nas aulas de LPT e CE também são abordados os gêneros intertextuais, tais como, paródia, paráfrase, resumo e resenha. No caso da paródia são utilizados textos literários consagrados para ilustrar o conceito teórico, tais como, por exemplo, o poema da “Canção do Exílio” original e respectivas versões paródicas, a narrativa (conto maravilhoso) do “Chapeuzinho Vermelho” e suas releituras. Vale lembrar que o gênero textual “resumo” interessa especificamente ao aluno conhecer e praticar, uma vez que ele deverá apresentar um trabalho de conclusão de curso (TCC) que contém um resumo.
3 Considerações finais Durante os semestres em que essa prática foi adotada, nunca aconteceu de qualquer aluno dizer já haver lido algum dos textos literários escolhidos pelo professor, fato que por si já justifica as aulas de leitura. E a leitura em voz alta também é importante para o estudante fazer uso da oralidade em termos de ritmo, cadência, ênfase e entonação, treinando-o para falar em público, atributo desejável em qualquer profissão. Finalmente, com a intenção de complementar e dar continuidade a esta experiência docente, ampliando o ponto de vista subjetivo aqui adotado, partir-se-ia, num segundo momento, à aplicação de uma abordagem qualitativa e quantitativa, com aplicação de questionário objetivo aos alunos dos cursos de tecnologia da FATEC Itu e sua posterior coleta, tabulação, e interpretação de dados. 76
V@rvItu – Revista de Ciência, Tecnologia e Cultura da FATEC Itu ITU/SP – No. 7, junho de 2018 4 Referências ANDRADE, Carlos Drummond de. O jardim em frente. Disponível em: http://www. jornalolabaro.com.br/web/variedades/o-jardim-em-frente-por--carlos-drummond-de-andrade/. Acesso em: 29 dez. 2017. AZEVEDO, Artur. Plebiscito. Contos fora de moda 1894. Disponível http://www.casadobruxo.co m.br/poesia/a/artura02.htm. Acesso em: 31 dez. 2017.
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