Dois lados da mesma Avenida: como a especulação imobiliária no 4º Distrito impacta a Vila dos Papeleiros >> Página 8
Antônio Carboneiro, líder comunitário e presidente da Associação de Reciclagem Ecológica da Vila dos Papeleiros (AREVIPA), foi homenageado com um grafite em um muro na comunidade
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A vida na Vila: a rotina dos moradores pelos olhares da nossa reportagem >> Páginas 6 e 7
Museu de Resgates: conheça o Ponto de Cultura que ressignifica bens e objetos considerados “inservíveis” >> Página 11
UMA COMUNIDADE QUE RESISTE
As histórias de quem transforma resíduo em sustento e constrói dignidade, renda e esperança por meio da reciclagem e da força coletiva >> Páginas 3, 4 e 5
EDIÇÃO DIGITAL
ABRIL DE 2026 PORTO ALEGRE (RS)
A arte de Antônio Carboneiro: feitas com palitos de madeira, cola e tampinhas, miniaturas dos carrinhos de reciclagem são vendidas por R$ 80 e podem ser adquiridas pela chave pix 51991972470
Novos olhares sobre a VP
Entrar em comunidades das mais diversas de uma cidade grande como Porto Alegre para produzir jornalismo focado nas realidades distintas que se apresentam é sempre um desafio prazeroso. A proposta das disciplinas de Jornalismo Comunitário e Fotografia no Jornalismo é justamente dar visibilidade para essas comunidades que, normalmente, na mídia hegemônica, não têm vez e voz, ou, se têm, na maioria das vezes são noticiadas em aspectos negativos. Pois bem, nosso intuito nas atividades acadêmicas acima mencionadas vai além das propostas teóricas desenvolvidas em
QUEM FAZ O JORNAL
O Beta Comunidade nasceu para dar voz, contar histórias e tornar visível o que muitas vezes é ignorado. Produzido por estudantes do curso de Jornalismo da Unisinos, nas disciplinas de Jornalismo Comunitário e Fotografia no Jornalismo, o jornal laboratório fortalece o vínculo entre universidade e comunidade ao promover informação de interesse público. Com distribuição gratuita, circula nas comunidades onde é produzido.
bredacao@gmail.com
sala de aula, onde trabalhamos conceitos e abordagens sobre o bom e necessário jornalismo local: é ir a campo, entrar nas comunidades e proporcionar aos nossos alunos que realizem reportagens das mais diversas, essas extraídas de realidades que muitas vezes eles mesmos desconhecem. É o que carinhosamente chamamos de “colocar o pé no barro”, vivenciar a vida real como ela é, contar histórias que são únicas e que nos inspiram. Do ponto de vista da experiência jornalística, os alunos das duas disciplinas trabalham em duplas: o repórter de texto e o repórter fotográfico. Ambas
as professoras, no caso desta edição que está em suas mãos, acompanham todo o processo in loco e orientam a saída de campo durante todo seu trajeto. No caso das fotografias jornalísticas, há todo um cuidado para que, tanto os ambientes, mas principalmente as pessoas que são fontes das entrevistas, sejam mostradas da melhor forma possível, assim como nas abordagens de texto, que têm como desafio evidenciar aspectos nem sempre contemplados pelos veículos de imprensa. Foi com este olhar que entramos na Vila dos Papeleiros, oficialmente Loteamento Santa
Terezinha, em uma ensolarada manhã de um sábado de março para produzir esta primeira edição do Beta Comunidade Conversamos com moradores e buscamos mapear suas realidades, suas histórias e suas necessidades. Depois, voltamos para a redação com a missão de retratar nestas páginas o que vimos, ouvimos e sentimos. Agora, o processo se completa com a sua leitura. Que ela possa gerar empatia, escuta e novos olhares sobre a Vila dos Papeleiros e seus moradores.
TEXTOS – Disciplina: Jornalismo Comunitário. Orientação: Mariana Oselame (marianaoselame@unisinos.br). Repórteres: Beatriz Schleiniger Mello, Pedro Henrique Souza Curi, Ramiro Costa Lemos, Taiana Souza, Tobias Gancedo de Araújo e Vitória Ribeiro dos Santos. IMAGENS – Disciplina: Fotografia no Jornalismo. Orientação: Beatriz Sallet (bsallet@unisinos.br). Fotógrafos: Amanda Pedron Pinheiro, Beatriz Carvalho do Nascimento, Larissa Vargas dos Santos Har, Laura de Oliveira Barbosa, Lívia Kraemer Boaz Dias e Rafael Silveira da Luz. ARTE – Realização: Núcleo Júnior de Comunicação e Design/Marketing. Projeto gráfico, diagramação e arte-finalização: Marcelo Garcia. IMPRESSÃO – Gráfica UMA / Grupo RBS.
Universidade do Vale do Rio dos Sinos –Unisinos. Campus de Porto Alegre (RS): Av. Nilo Peçanha, 1600, bairro Boa Vista (CEP 91330-002). Telefone: (51) 3591 1122. E-mail: unisinos@unisinos.br. Reitor: Sergio Mariucci. Vice-reitor: Artur Jacobus. Pró-reitor Acadêmico e de Relações Internacionais: Gustavo Borba. Pró-reitora de Administração: Silvana Model. Diretora da Unidade de Graduação: Paula Dal Bó Campagnolo. Coordenador do Curso de Jornalismo: Daniel Feix.
BEATRIZ SALLET
MARIANA OSELAME
PROFESSORAS ORIENTADORAS
A conquista da dignidade
Como a Vila dos Papeleiros se tornou Loteamento Santa Terezinha e assegurou um CEP para seus moradores
Apalavra “estrelinha” pode ser símbolo, apelido ou enfeite, mas, no Loteamento Santa Terezinha, no bairro Floresta, em Porto Alegre, significa existência. Não no sentido abstrato, mas no que muda de verdade para quem, por muito tempo, viveu sem um endereço oficial e sem a prova de que aquele pedaço da cidade também era seu. Já “Um Mil e Quarenta e Três”, que poderia ser apenas um número comum e vazio de sentido, na antiga Vila dos Papeleiros deixa de ser contagem e marca um ponto que, antes, não podia ser encontrado no mapa. Afinal, até o início dos anos 2000, a dignidade na forma de um CEP ainda não havia chegado aos moradores da comunidade.
Por muito tempo, eles conviveram com uma barreira que ultrapassava a ausência de infraestrutura: era a falta de um endereço. Morador da região há mais de 40 anos, o carrinheiro Heitor Souza lembra: "Antes, tudo era barro, mato e eucalipto, não tinha nada. A gente dizia que morava na Voluntários da Pátria", conta. Sem endereço formal, o acesso a direitos básicos era limitado. Do recebimento de correspondências ao acesso a serviços
essenciais, tudo dependia de um reconhecimento que só viria após dois incêndios que deixaram centenas de moradores desabrigados em 2004 e 2005.
“Quem morava aqui não tinha identidade de moradia. Quando alguém precisava de algum benefício, mandavam para mim, e eu fazia um atestado pela Associação, porque o morador não tinha nada”, relata o presidente da Associação de Reciclagem Ecológica da Vila dos Papeleiros (AREVIPA) e líder comunitário Antônio Carboneiro.
A mudança começou a se desenhar nos anos seguintes. Após os incêndios, a área foi incluída no Programa Integrado Entrada da Cidade (Piec), gerido pela Prefeitura através do Departamento Municipal de Habitação (DEMHAB), responsável pela construção das casas e a implantação da infraestrutura básica. Até então conhecida como Vila dos Papeleiros, a área passou a ser denominada Loteamento Santa Terezinha. Hoje, Um Mil e Quarenta e três e Estrelinha identificam duas das 11 ruas do local. Onde antes havia barro e mato, agora há vias pavimentadas, calçadas estruturadas e pequenas casas. “Na época, os nomes das ruas foram aleatórios. Tem pessoas que ajudaram muito a vila, então eu quero botar o nome delas nas ruas para elas não serem esquecidas”, diz Antônio. O loteamento reúne mais
de 200 lares, com acesso regular à água e energia elétrica, além de coleta de lixo, transporte público nas proximidades e pequenos comércios locais. Há oito anos, Ana Paula Rocha, de 34, é dona de um mercadinho na região, onde também mora há 15. Questionada sobre
o significado de ter um lar, ela destaca a importância de ter seu próprio espaço e a praticidade no dia a dia: “É uma das melhores coisas da vida. Ter o meu espacinho é maravilhoso. E ter um comércio é melhor ainda porque tenho dois filhos e, qualquer coisa que acontece,
eu dou um pulinho ali.”
Na rua Garça Moura, está a Escola de Educação Infantil Marista Menino Jesus, inaugurada em maio de 2007 pela Associação de Mulheres do Loteamento Santa Terezinha em convênio com a Prefeitura de Porto Alegre. O espaço surgiu da necessidade de um lugar onde as crianças pudessem permanecer enquanto os pais trabalham. Ao lado da escola, o Centro Social Marista Irmão Bortolini amplia as ações comunitárias. Apenas em agosto do ano passado um posto avançado de atendimento social foi instalado no loteamento, em um contêiner adaptado, onde são disponibilizados serviços de assistência, saúde e empregabilidade.
Ao longo dos últimos anos, a presença do poder público na região avançou em passos lentos. E é no intervalo entre o que chegou e o que ainda falta, que a “estrelinha” ganha ainda mais sentido. Ela não está apenas grafada numa placa azul, mas nas histórias que agora existem oficialmente, nos endereços que podem ser encontrados e nos cidadãos que, enfim, podem dizer onde vivem. Antes de qualquer registro, foi a resistência que manteve esse lugar de pé, e é ela que ainda escreve, todos os dias, o nome da comunidade no mapa da cidade.
TAIANA SOUZA RAFAEL LUZ
Heitor Souza: mesmo aposentado, segue na luta como carrinheiro
Projeto é rebatizar as ruas para homenagear pessoas da comunidade
4. Trajetória
Entre a Rodoviária de Porto
Alegre e o badalado 4º
Distrito, na entrada da capital gaúcha, vive uma comunidade cuja história se confunde com a própria história da reciclagem na cidade. O local conta com uma associação de recicladores e uma comunidade que busca na rua a sua sobrevivência. A Vila dos Papeleiros, oficialmente Loteamento Santa Terezinha, é um capítulo singular da ocupação urbana de Porto Alegre.
ORIGENS
A comunidade onde hoje se encontra a Vila dos Papeleiros surge no início da década de 1980. A sua formação está diretamente ligada à migração de pessoas em situação de vulnerabilidade do campo para a cidade, muitas chegando sem emprego e encontrando na reciclagem uma forma de sobrevivência.
Inicialmente as famílias construíram barracos improvisados. Com o tempo, essa ocupação se expandiu para áreas próximas. Antônio Carboneiro, líder comunitário que há 26 anos preside a Associação de Reciclagem Ecológica da Vila dos Papeleiros (AREVIPA), conta que, no início, utilizava o seu chapéu tapando o rosto por vergonha da profissão de
História, trabalho e formação de uma comunidade
Loteamento Santa Terezinha reúne gerações de catadores e reflete a evolução da reciclagem na capital gaúcha
“papeleiro” ou de “carrinheiro”, como é chamado quem puxa carrinho de reciclagem. Entretando, logo depois entendeu: “Por que vou ter vergonha de estar trabalhando?”. Carboneiro tem uma longa história de luta pela Vila dos Papeleiros. Foi dele a ideia de
o local se chamar Loteamento Santa Terezinha, pela ajuda que a comunidade recebia de uma igreja com o mesmo nome. Durante a conversa com a reportagem, percebemos o quão Antônio se identifica com o local, tratando-o com carinho, cuidado e amor.
DA TRAGÉDIA À RECONSTRUÇÃO
Um evento trágico em 19 de março de 2004 mudou a face da comunidade: um incêndio de grandes proporções destruiu parte das habitações da vila. Cerca de 600 pessoas ficaram desabrigadas. Graças à ação dos
moradores, não houve mortes. A tragédia mobilizou o poder público. Por meio de recursos do Projeto Integrado Entrada da Cidade (Piec), a comunidade foi reconstruída – 213 novas moradias foram erguidas no local, transformando a antiga vila improvisada no Loteamento Santa Terezinha que conhecemos hoje.
Esse processo representou um marco importante na urbanização da área. Pela primeira vez, os moradores passaram a ter acesso a moradias formais, com infraestrutura mínima e uma organização espacial planejada. Mas a eleição municipal de 2004 trouxe uma mudança significativa na gestão dos resíduos em Porto Alegre. A nova administração, que assumiu em 2005, apontou a necessidade de uma "redefinição institucional e estrutural".
LEIS RESTRITIVAS
Em 10 de setembro de 2008, foi sancionada em Porto Alegre a Lei 10.531, de autoria do vereador Sebastião Melo (PMDB), que instituiu o Programa para Redução Gradativa do Número de Veículos de Tração Animal (VTAs) e Veículos de Tração Humana (VTHs). A lei estipulava o prazo máximo de oito anos para a proibição da circulação desses veículos no trânsito do município.
Um dos moradores mais antigos da Vila dos Papeleiros, Heitor de Souza, 70 anos, ainda percorre diariamente bairros de Porto Alegre com o seu carrinho de coleta
uma longa parceria com Antônio Carboneiro, líder comunitário
O projeto gerou controvérsias desde sua apresentação. Representantes dos papeleiros argumentaram que não haviam sido consultados e que a matéria determinaria inúmeros prejuízos.
CÓDIGO MUNICIPAL DE LIMPEZA URBANA
Em janeiro de 2014, foi sancionada a Lei Complementar 728/2014, que instituiu o novo Código Municipal de Limpeza Urbana de Porto Alegre. O código atualizou regras que vigoravam desde 1990 e passou a se alinhar às diretrizes da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), legislação federal que reorganizou a gestão de resíduos no país. Entre as mudanças, ficou
definido que a coleta regular, o transporte e a destinação final dos resíduos sólidos domiciliares são de exclusiva competência do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU).
No texto da lei, consideram-se atos lesivos à limpeza urbana “realizar triagem ou catação no resíduo sólido disposto em logradouros públicos, de qualquer objeto, material, resto ou sobra,
O que é a Política Nacional de Resíduos Sólidos
Sancionada em 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) estabelece diretrizes para o gerenciamento do lixo no Brasil. A legislação introduz o princípio da responsabilidade compartilhada entre poder público, empresas e população, além de priorizar a redução, reutilização e reciclagem dos resíduos. A política também reconhece o papel dos catadores como agentes fundamentais na cadeia da reciclagem e prevê a destinação ambientalmente adequada dos rejeitos, com a eliminação dos lixões.
animais e bens foram resgatados nas áreas mais valorizadas da cidade, os moradores da Vila Santa Terezinha aguardavam em frente às suas residências para carregar móveis e pertences para casas de amigos, familiares ou abrigos improvisados. “Só vieram nos resgatar depois que repórteres vieram aqui e mostraram tudo”, contou Jacson Carboneiro, filho de Antônio e morador da Vila dos Papeleiros. Antônio Carboneiro relatou o descaso dos governantes na época. A comunidade só foi resgatada após denúncias feitas por equipes de reportagem. Carboneiro foi uma das pessoas que resistiu em se manter na vila, mas Jacson conseguiu convencê-lo a sair pouco antes da água subir. A cena dramática escancarou uma realidade que a retórica do desenvolvimento e da revitalização frequentemente ocultam: a hierarquia de valor atribuída a territórios e vidas na cidade.
O LUGAR DA MEMÓRIA
A história da Vila dos Papeleiros é também a história da luta por moradia e dignidade em Porto Alegre. Há famílias que pertencem a esse local a diversas gerações, como Marcelo Haak Carvalho, morador há 35 anos, que construiu lá a sua família e criou filhos e netos. Outro exemplo é Hélio Souza, que mesmo aposentado e com 70 anos ainda puxa carrinho pela capital. Muitos que moram ali não tiveram a oportunidade de concluir os estudos e serem alfabetizados, mas, hoje, conseguem que seus filhos e netos tenham esse direito, contando com uma escola ali mesmo, na comunidade.
O FUTURO EM JOGO
seja qual for sua origem”, configurando infração leve. A norma também proíbe a entrega de resíduos recicláveis a pessoas não credenciadas.
A EMERGÊNCIA DAS ENCHENTES DE 2024
Em maio de 2024, praticamente todo o Rio Grande do Sul foi atingido por enchentes e inundações de proporções históricas. Em Porto Alegre, o Guaíba transbordou, alagando diversas áreas da cidade.
Segundo relatos, o resgate dos moradores da Vila dos Papeleiros não foi prioridade das equipes de voluntários ou socorristas. Enquanto outras pessoas,
A Vila dos Papeleiros está hoje no centro de um embate que transcende seus limites territoriais. O avanço da especulação imobiliária sobre o 4º Distrito coloca em questão o direito à cidade de uma população que, há décadas, constrói sua vida e sua identidade naquele espaço. Enquanto o futuro da Vila dos Papeleiros se desenha entre projetos de "revitalização" e a luta pela permanência, uma pergunta permanece: que cidade se quer construir? Uma cidade que expulsa aqueles que a construíram com seu trabalho e sua história, ou uma cidade que integra, protege e valoriza todas as suas populações? A resposta a essa pergunta será escrita nos próximos anos, nos territórios do 4º Distrito, na Câmara de Vereadores, e, sobretudo, na vida cotidiana dos moradores que, entre carrinhos de reciclagem e casas, seguem resistindo.
VITÓRIA RIBEIRO LAURA BARBOSA
Marcelo Carvalho mora há mais de 35 anos com sua família no loteamento; ele mantém
A vida na Vila
Um sábado de março na Vila dos Papeleiros pelo olhar da reportagem do Beta Comunidade
Amanhã de sábado nasce devagar na Vila dos Papeleiros, como quem ainda espreguiça o corpo antes de encarar o dia. As janelas se abrem e surgem vozes, passos e o ranger conhecido das rodas de ferro sobre o asfalto. É um som que anuncia: o trabalho começou. Os papeleiros seguem seu caminho ainda cedo, empurrando carrinhos vazios que, ao longo do dia, vão se enchendo do que a cidade deixou para trás. Papel, plástico, itens que revelam a pressa de quem não olha para onde descarta. Na volta, o cansaço aparece no corpo, mas o carrinho está cheio do que vai se transformar em sustento.
No meio desse movimento, o Museu de Resgates abre as portas. Lá dentro, o que foi descartado vira arte. Do lado de fora, Antônio Carboneiro observa a rua como quem lê um livro já conhecido. Cumprimenta um, chama outro pelo nome, comenta alguma lembrança. Na Vila, ninguém é desconhecido.
Mais adiante, o mercado “Toke de Chefe" reúne gente na calçada. As cadeiras vermelhas já estão ocupadas, o que parece ser costume. Lá dentro, Luís Silva e Ana Conceição seguem com a rotina que já dura oito anos, preparando as marmitas encomendadas pela vizinhança.
O calor não demora a chegar. Antes do meio-dia, o sol já domina tudo. As mangueiras entram em cena, os adultos esfregam a calçada e as crianças as transformam em brincadeira para se refrescar. Roupas coloridas ocupam os varais. Mas há quem prefira a sombra, onde a conversa vai longe e o chimarrão passa de mão em mão.
Há quem esteja ali desde quando tudo era só terra e mato. Hoje, o que se vê são histórias construídas aos poucos, casa por casa, família por família. A sensação é de que a Vila cresceu sem pressa, mas também sem parar.
E talvez seja isso o que mais chama atenção na Vila dos Papeleiros: o que parece rotina carrega muito mais do que o olhar apressado consegue ver. É trabalho, é batalha, é memória, é convivência. Mostra a importância de um serviço muitas vezes invisibilizado e de um lugar onde a vida é construída coletivamente, todos os dias. Ali, o cotidiano guarda mais do que revela.
BEATRIZ SCHLEINIGER MELLO
Ocanto dos pássaros e os latidos dos cachorros cortavam o silêncio de um sábado de março no Loteamento Santa Terezinha, também conhecido como Vila dos Papeleiros. Apesar de a região se encontrar espremida entre duas das principais vias de acesso a Porto Alegre, as avenidas Castelo Branco e Voluntários da Pátria, a pouca movimentação, salvo algumas pessoas na rua e um grupo que se reunia em frente a um comércio, dava ares de um local mais afastado da vida urbana, longe da metrópole.
A poucos metros dali, uma das zonas mais valorizadas nos últimos anos é o centro das atenções da segunda gestão do prefeito Sebastião Melo (MDB), eleito em 2021 e reeleito em 2024. O 4º Distrito contrasta com o Loteamento Santa Terezinha e evidencia as desigualdades sociais que podem ser vistas apenas ao cruzar a avenida Voluntários da Pátria, sendo alvo de questionamentos acerca da falta de investimentos em uma comunidade que espera ansiosamente por respostas.
Segundo o presidente da Associação de Reciclagem Ecológica da Vila dos Papeleiros (AREVIPA), Antônio Carboneiro, em um levantamento da própria associação, existem famílias no local há cerca de um século. Antigamente, a região era uma área rural, sem urbanização e com pouca presença do poder público. Apenas no ano 2000 a Vila dos Papeleiros foi devidamente regularizada pelo Departamento Municipal de Habitação (DEMHAB) e recebeu os primeiros aportes públicos como a construção de moradias populares, luz elétrica, água e esgoto, assim como os CEPs que englobam a região.
Atualmente, de acordo com o Censo Demográfico de 2022 do IBGE, são 962 moradores na Vila dos Papeleiros,onde a principal atividade é, justamente, a reciclagem de materiais descartados pela população de Porto Alegre. Conforme o militante do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), Alnilam Orga, a estimativa é de que sejam mais de cem mil quilos por mês. “As toneladas de materiais variam bastante, mas estima-se de 110 a 130 toneladas de resíduos recicláveis por mês, vendidos soltos em big bags ou enfardados”, afirma.
Não há dúvidas de que o trabalho dos catadores é fundamental para que a reciclagem possa ser feita em Porto Alegre. Contudo, o
Os dois lados da mesma Avenida
Cortados pela Voluntários da Pátria, a Vila dos Papeleiros e o 4º Distrito são retratos opostos na Zona Norte de Porto Alegre
crescimento do 4º Distrito invisibiliza as necessidades da comunidade que, inclusive, relata perseguições por parte das forças de segurança.
O NOVO 4º DISTRITO
A região é formada por cinco bairros da Zona Norte de Porto Alegre: Floresta, Navegantes, São Geraldo,
Humaitá e Farrapos. Até 2021, esse local, que já teve um grande boom econômico no século XX, passava por um período de abandono após a desendustrialização. Em dezembro do primeiro ano de mandato do prefeito Sebastião Melo, o município apresentou o programa +4D, que foi lançado em 2022 com um financiamento de R$ 1
Prédio recémconstruído, a poucos metros da Vila dos Papeleiros, se destaca na paisagem urbana, enquanto a VP permanece sem investimentos e infraestrutura adequada
bilhão que a prefeitura obteve através de bancos internacionais. A proposta é transformar o 4º Distrito em uma área com maior desenvolvimento e ocupação. Conforme um levantamento exclusivo obtido pelo Beta Comunidade junto à Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre, entre 1º de janeiro de 2021 e 23 de março de 2026 foram aprovados 244 projetos, gerando 30.399 novos espaços entre habitações e locações comerciais.
Destes projetos, quase 100 são via +4D, o que representa cerca de 40% dos empreendimentos na região exclusivamente feitos por empresas privadas que investiram o capital para retorno próprio. Para fomentar a chegada de capital privado no bairro, em outubro de 2022 a prefeitura anunciou incentivos fiscais para os investimentos do Programa +4D. Os edifícios construídos passaram a contar com a isenção do Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) e a isenção do Imposto de Transmissão de Bens Imóveis (ITBI). Contudo, em dezembro de 2025 a Câmara Municipal aprovou o corte desses benefícios que custavam aos cofres
públicos R$ 2,4 milhões por ano, algo que não caiu bem para a base do governo e para os empresários da região. Enquanto acontece o embate entre o Executivo e Legislativo, quem termina por ficar esquecida é a população do Loteamento Santa Terezinha, que não consegue alavancar pautas em prol da comunidade pelo fato de o 4º Distrito estar sob os holofotes do poder público.
“EU ESCOLHI SER PAPELEIRO”
Há 18 anos, Jacson Carboneiro é catador na Vila dos Papeleiros. Pai de dois filhos, ele sempre sustentou sua família através do ofício. Há um ano, em uma operação da Polícia Civil, em conjunto com a Brigada Militar e com apoio da Secretaria Municipal de Segurança (SMSEG), o carrinho de Jacson foi levado por estar na rua, assim como outros. A partir daí, ele ficou sem trabalho. “Pra mim foi um assalto a mão armada, pegaram algo que é meu só porque estava em cima da calçada. Eles levaram diversos carrinhos, quebraram diversos galpões e tiraram a minha ferramenta de trabalho”, lamenta. Hoje, Jacson trabalha junto com Cristiano Sant’Anna
no Museu dos Resgates, além de ter transformado a fotografia em profissão também. Sant’Anna é jornalista e fotógrafo. Entre 2017 e 2019 realizou uma série de fotografias em parceria com Jacson na Vila dos Papeleiros, durante seu Mestrado em Artes Visuais. Desde então, participa de projetos e colabora com o Museu. “Quando aconteceu tudo aquilo eu não sabia fazer nada além de ser catador. Não podia sair botando a cara à tapa e, quem sabe, ir para um caminho errado. Hoje eu gosto de fotografar, o Cris me ajuda muito com isso”, relata.
Para o morador da Vila dos Papeleiros, o maior problema é a legislação do município, que proíbe que os catadores recolham o lixo reciclável de áreas públicas. “Eu posso pegar um metro cúbico do lixo
“Eles levaram diversos carrinhos, quebraram diversos galpões e tiraram a minha ferramenta de trabalho.”
Jacson Carboneiro Morador da Vila dos Papeleiros
orgânico das lixeiras que tem na cidade, mas eu não posso pegar o lixo reciclável de cima da calçada porque é do poder público. Eles (município) nos proíbem de reciclar através de leis e multas de R$ 4 mil.
A gente vem com uma luta contra essas leis há mais de
oito anos. Se eu escolhi ser papeleiro, é porque eu quero trabalhar com isso”.
Carboneiro é categórico ao afirmar que não faz política para nenhum partido, mas, questionado sobre a atual gestão, ele critica a forma como a comunidade é tratada. “No governo do PT a gente vivia na paz. Não sou político, não puxo pra lado nenhum, mas pelo menos a gente não era perseguido, a gente não era marginalizado”, lembra.
Ele ainda levanta um questionamento que é pauta central do Loteamento Santa Terezinha quando a comunidade se une para pedir maior zelo pelo local em frente à Câmara Municipal. “Se eles pegassem todo o dinheiro que colocam no 4º Distrito, investissem em nós, dessem cursos profissionalizantes, não
precisaria mais utilizar os cofres públicos para isso. O lixo é muito rico, ele pode levar ao luxo”, conclui o morador da Vila dos Papeleiros.
O QUE DIZ A PREFEITURA?
Esta reportagem buscou respostas sobre a Operação Lei e Ordem – Via Dignatatis, deflagrada no dia 17 de julho de 2025 pela Polícia Civil e Brigada Militar com apoio da Secretaria Municipal de Segurança (SMSEG). Nessa operação, 12 pessoas foram presas, além de serem apreendidos 24kg de fios, cabos, dinheiro em espécie, aparelhos celulares, tesoura, seringa, porções de crack, um veículo automotor e dez carrinhos de catadores. Questionada sobre os relatos da ação, e para onde foram encaminhados os carrinhos recolhidos na data, a pasta preferiu não se manifestar. Segundo o secretário-geral de Governo de Porto Alegre, André Coronel, “a Prefeitura tem atuado de forma integrada e com ações transversais na região, especialmente a partir da operação realizada em julho do ano passado. Desde então, foram removidas mais de 180 toneladas de resíduos, realizadas ações de limpeza, zeladoria, drenagem e iluminação pública, além da presença permanente da Guarda Municipal. Também foi implantado um posto avançado temporário que, em seis meses, realizou mais de 2 mil atendimentos gratuitos à população nas
Acima, Jacson Carboneiro, trabalhador que expõe sua revolta por situação que compromete seu sustento e limita suas oportunidades
áreas de saúde, assistência social, empregabilidade e cidadania”.
Conforme a secretaria, a Vila dos Papeleiros recebe ações específicas voltadas à qualificação urbana e inclusão social por meio de programas como o Recomeço, lançado em dezembro de 2025, focado na capacitação e geração de renda para catadores e recicladores. Sobre o diálogo com a população, o secretário reconhece o problema e afirma que, desde julho de 2025, foram realizados encontros com moradores e lideranças. Ainda de acordo com Coronel, a restrição para retirada de materiais recicláveis em passeio público não está mais em vigor desde dezembro do ano passado. “O novo Código Municipal de Limpeza Urbana (Lei Complementar 1060/2025) avançou justamente nesse ponto. A proposta inicial previa restrições à catação em logradouros públicos, mas esse dispositivo foi retirado durante a tramitação, garantindo a continuidade da atuação dos catadores”, afirma. A Lei está disponível na íntegra no site da Prefeitura Municipal.
TOBIAS ARAÚJO AMANDA PINHEIRO
Crianças transformam a VP também em um lugar de brincadeiras
Carboneiro exibe sua nova criação: um barco feito somente com materiais recicláveis, como caixa de leite e palitos de picolé
A história de quem persiste
Na Zona Norte de Porto Alegre, a história de um líder comunitário ajuda a explicar como a organização social altera realidades invisíveis
Atrajetória de Antônio
Viana Carboneiro e dos seus 79 anos de idade não começa na Vila dos Papeleiros. Começa antes, em Viamão, e passa por um movimento comum a tantos brasileiros: a mudança em busca de melhores condições de vida. No caso dele, o destino foi Porto Alegre, mais especificamente uma comunidade que por muito tempo esteve à margem das políticas públicas e da própria cidade.
A chegada à Vila dos Papeleiros, em 1999, teve um motivo direto e familiar. Um de seus filhos já morava ali. Foi esse vínculo que o levou ao local que, anos depois, se tornaria o centro de sua atuação e de sua história. O que poderia ser apenas mais um deslocamento acabou se transformando em ponto de virada.
Desde 2000, Carboneiro passou a se envolver com a realidade dos catadores e catadoras da região. Não como observador, mas como parte dela. A reciclagem, ali, não era discurso ambiental ou política pública estruturada. Era sobrevivência. E foi a partir dessa vivência que ele começou a organizar, junto com outros trabalhadores, formas de dar mais dignidade à atividade.
A liderança surgiu ao natural. Não foi construída a partir de fora, nem por designação formal. Foi sendo reconhecida na prática, no cotidiano, na capacidade de mobilizar pessoas e buscar soluções.
A organização dos catadores foi um dos primeiros passos, permitindo melhores condições de trabalho e algum grau de estrutura em um cenário marcado pela informalidade. Com o tempo, a atuação se ampliou. A pauta deixou de ser apenas o trabalho e passou a incluir as condições de vida da comunidade. A luta por endereço fixo para os moradores da Vila tornou-se uma das principais
demandas. Carboneiro esteve diretamente envolvido nas negociações que levaram à implementação desse direito na Vila, uma mudança concreta, visível e estrutural.
Há cerca de cinco anos, a trajetória sofreu uma ruptura. Um acidente resultou na perda de uma das pernas e o afastou definitivamente da atividade como carrinheiro. A mudança poderia ter significado o fim de sua atuação. Não foi o que aconteceu.
“Se eu morrer hoje, eu já aproveitei tudo o que tinha que aproveitar”, comenta. “Eu sou uma pessoa justa, sabe? Desse atropelamento, o culpado fui eu”, afirma Antônio enquanto sorri.
Esse processo revela uma característica central de sua atuação. A capacidade de permanecer. Ao longo dos anos, sua presença deixou de estar associada apenas ao trabalho e passou a representar continuidade. Ao mesmo tempo em que mantém vínculo direto com a comunidade, também participa de negociações e articulações que exigem diálogo
com o poder público. É um tipo de liderança que nasce da base, mas que aprende a operar em diferentes níveis.
Dentro de casa, essa trajetória é acompanhada de perto. Um dos 14 filhos de três casamentos, Jacson Carboneiro foi quem nunca se afastou da convivência com o pai e hoje também atua na preservação dessa história. Foi ele quem criou o Museu de Resgates, em parte como forma de registrar e manter viva a trajetória de Antônio. Para Jacson, o que define o pai é a resistência. “O orgulho que eu tenho dele é fora de série”, diz. A admiração passa pela capacidade de seguir mesmo diante das dificuldades. “Se fosse eu no lugar dele, acho que já teria desistido. É muita pressão, muita luta.”
Ele também destaca o esforço permanente em dar visibilidade ao trabalho dos catadores. “Ele vai em reunião, conversa, explica, educa as pessoas sobre o nosso trabalho”, conta. “Ele sempre diz que a gente é meio ambientalista.”
Há também um aspecto que vai além das melhorias materiais. Ao participar do Museu de Resgates e estimular iniciativas como a biblioteca da Vila dos Papeleiros, Carboneiro contribui para a construção de identidade e memória local. Em um ambiente frequentemente marcado pela invisibilidade, essas ações ajudam a afirmar que ali também há história, cultura e produção de conhecimento. Mais de duas décadas depois de sua chegada, a relação com a comunidade já não é circunstancial. É constitutiva. Aquele território deixou de ser apenas lugar de moradia e se tornou espaço de atuação, de construção coletiva e de pertencimento.
A história de Carboneiro, nesse sentido, é a de alguém que transformou uma mudança motivada pela família em um compromisso duradouro com o lugar em que decidiu ficar.
RAMIRO LEMOS LARISSA HAR
A arte de reciclar “bens inservíveis”
Ponto de Cultura reconhecido pelo MinC desde 2024, Museu de Resgates transforma em arte o que foi coletado na rua
Existem várias formas de contar a história de um lugar. Alguns optam pela escrita; outros pela encenação folclórica, mas raramente se encontra quem dispõe de vontade e recursos para criar uma espécie de santuário, muito menos quem cria um museu para contar as histórias por trás das obras de desconhecidos. Mas em Porto Alegre, mais especificamente na rua Perdigão, número 23, existe
um espaço dedicado a contar as histórias de “bens inservíveis”, reunidos por papeleiros que residem na chamada “VP” – a Vila dos Papeleiros, oficialmente Loteamento Santa Terezinha. Lá, no Museu de Resgates, estão expostas as mais diversas obras de arte, desde moedas antigas à máscara do personagem Jason Voorhees, tão temido no filme “Sexta-Feira 13”.
A ideia de movimento é sempre presente no espaço que existe desde 2019, já que a composição do lugar é o elo entre o que vem da rua e adentra as portas do museu. “Hoje pode estar de uma forma e amanhã, talvez, um
papeleiro pode me presentear com alguma coisa e eu precise adaptar... eu gosto disso, dessa mudança”, opina Jacson Carboneiro, criador e curador do espaço de arte que fica na sua própria residência.
São três andares regados por detalhes e diversidade artística que se misturam com a vida de quem quer contar a história do lugar onde vive e, ao mesmo tempo, precisa cuidar de uma família. “O museu foi a escola que eu não tive. Aqui, pude aprender muitas coisas que não sabia”, afirma.
Segundo o dicionário de Oxford, museu é um “edifício onde objetos de interesse artístico, cultural, histórico
ou científico são guardados e exibidos ao público”. O Museu de Resgates preenche esses requisitos, mas, como todo museu, também precisou de uma validação artística adicional. Hoje, o local é um Ponto de Cultura, nome dado a entidades, coletivos ou grupos reconhecidos pelo Ministério da Cultura (MinC) que desenvolvem atividades continuadas em comunidades. Eles integram a Política Nacional de Cultura Viva, atuando na base comunitária para promover diversidade, cidadania e gestão compartilhada.
O reconhecimento veio em fevereiro de 2024, quando a certificação do Cadastro
Nacional de Pontos e Pontões de Cultura foi emitida e assim salvaguardou as ações externas dos artistas Jacson e Antônio Carboneiro, pai e filho, e do fotógrafo e também idealizador do espaço Cristiano Sant’Anna, para além das paredes, impactando cerca de duas mil pessoas por ano. Para além de contar histórias, o Museu de Resgates cumpre o papel de exercitar o pensamento do que é considerado arte, ressignificando a ideia de que o lixo não existe e evidenciando que reciclar é uma forma de fazer artístico que garante a sustentabilidade.
Fachada e detalhes internos do Museu de Resgates e Jacson Carboneiro na última foto
LARISSA HAR
Sem livros.
Sem respostas
Desde 2018, a Política Nacional de Leitura — Lei 13.696/18 — reconhece a leitura e a escrita como essenciais para assegurar a plena cidadania e uma vida digna, tornando-as um direito do cidadãos. No Rio Grande do Sul, atualmente existem 233 bibliotecas públicas e comunitárias. Nenhuma delas na Vila dos Papaleiros. A única iniciativa era idealizada por Antônio Carboneiro, o “Carrinho Biblioteca”, que foi recolhido pela prefeitura em julho de 2025. A administração municipal não soube informar para onde ele foi levado, e a população da Vila dos Papeleiros ficou à margem. Sem livros e sem respostas.