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Giane Ambrósio Alvares Marcelo Semer Marcia Semer Marcio Sotelo Felippe Patrick Mariano Rubens Casara

Brasil Despedaçado Crônicas de ruptura e barbárie


Copyright© Tirant lo Blanch Brasil Editor Responsável: Aline Gostinski Diagramação: Jéssica Razia A472 da capa: Alvares, Giane Ambrósio Criação Rafael Semer Revisão: Marcelo Felippe Brasil despedaçado : crônicas de ruptura e

barbárie / Giane Ambrósio Alvares...[et al.]. – 1.ed. 2021. 226 p. Presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Investigador do Instituto de

CONSELHO EDITORIAL CIENTÍFICO: - São Paulo : Tirant Eduardo Ferrer Mac-Gregor Poisot lo Blanch, Investigações Jurídicas da UNAM - México

ISBN:

Juarez Tavares

Catedrático de Direito Penal da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Brasil

Luis López Guerra

1. História. 2. Brasil. I. Título.

Ex Magistrado do Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Catedrático de Direito ConsCDU: 94(81) titucional da Universidade Carlos III de Madrid - Espanha

Owen M. Fiss Catedrático Emérito de Teoria de Direito da Universidade de Yale - EUA

Tomás S. Vives Antón Catedrático de Direito Penal da Universidade de Valência - Espanha

A472

Alvares, Giane Ambrósio Brasil despedaçado : crônicas de ruptura e barbárie [livro eletrônico] / Giane Ambrósio Alvares...[et al.]. – 1.ed. - São Paulo : Tirant lo Blanch, 2021. 2 Kb; livro digital ISBN: 1. História. 2. Brasil. I. Título. CDU: 94(81) Bibliotecária responsável: Elisabete Cândida da Silva - CRB8ª/6778

É proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, inclusive quanto às características gráficas e/ou editoriais. A violação de direitos autorais constitui crime (Código Penal, art.184 e §§, Lei n° 10.695, de 01/07/2003), sujeitando-se à busca e apreensão e indenizações diversas (Lei n°9.610/98). Todos os direitos desta edição reservados à Tirant Empório do Direito Editoral Ltda.

Todos os direitos desta edição reservados à Tirant lo Blanch. Avenida Brigadeiro Luiz Antonio nº 2909, sala 44. Bairro Jardim Paulista, São Paulo - SP CEP: 01401-000 Fone: 11 2894 7330 / Email: editora@tirant.com / atendimento@tirant.com www.tirant.com/br - www.editorial.tirant.com/br/ Impresso no Brasil / Printed in Brazil


Giane Ambrósio Alvares Marcelo Semer Marcia Semer Marcio Sotelo Felippe Patrick Mariano Rubens Casara

Brasil Despedaçado Crônicas de ruptura e barbárie


SUMÁRIO Introdução...................................................................................... 9 O foro privilegiado dos assassinos e torturadores......................... 11 Patrick Mariano Brasil despedaçado........................................................................ 14 Giane Ambrósio Alvares Desprezo à democracia é cicatriz que não se esconde.................... 18 Marcelo Semer Judiciário, a máquina de triturar direitos...................................... 21 Marcio Sotelo Felippe Casei com uma feminista.............................................................. 25 Rubens Casara Por que dizer fascismo: o centauro de Maquiavel.......................... 31 Marcio Sotelo Felippe Quem não reagiu está vivo............................................................ 35 Patrick Mariano O dono das ruas............................................................................ 38 Marcelo Semer O protagonismo submisso do Poder Judiciário............................. 43 Patrick Mariano O juiz e o capitão: um projeto autoritário..................................... 46 Marcelo Semer O desatino do general................................................................... 51 Patrick Mariano Uma atroz conveniência................................................................ 54 Patrick Mariano Precisamos falar sobre a “direita jurídica”..................................... 58 Rubens Casara Gente feia, bonita, veado, sapata, hétero, negro, branco, tudo: Roda Viva 50 anos depois...................................................................... 65 Marcio Sotelo Felippe


Sobre cães, cavalos e tanques......................................................... 69 Patrick Mariano O risco à civilização e o surgimento do Homo stupidus stupidus ........72 Rubens Casara O mal-ajambrado Código Moro................................................... 77 Patrick Mariano A morte como política.................................................................. 80 Marcelo Semer Como explicar o Brasil para um extraterrestre.............................. 84 Rubens Casara O caos como política.................................................................... 89 Patrick Mariano A conspiração que destruiu o Estado de Direito no Brasil............ 92 Giane Ambrósio Alvares, Marcio Sotelo Felippe e Patrick Mariano Lava Jato: um projeto de poder..................................................... 95 Marcelo Semer 1964, o ano que não termina...................................................... 100 Marcio Sotelo Felippe Viva a ignorância! Como rir, chorar e enriquecer no mercado da miséria intelectual....................................................................... 103 Rubens Casara Neoliberalismo, genocídio de almas............................................ 112 Marcio Sotelo Felippe Breve roteiro para identificar perseguições políticas através do Sistema de Justiça ....................................................................... 117 Rubens Casara A colonização da realidade: não há alternativa?........................... 125 Rubens Casara Um habeas corpus para a Constituição....................................... 141 Marcelo Semer Ilusões encarceradoras................................................................ 149 Patrick Mariano e Rafael Borges Pacote penal acelera marcha para o milhão carcerário................ 152 Marcelo Semer


O Medo do juiz diante da garantia............................................. 158 Marcelo Semer As filhas de Eva: o caso Mariana Ferrer....................................... 164 Marcio Sotelo Felippe A fábrica da desunião.................................................................. 168 Rubens Casara Um homem honrado................................................................... 173 Marcio Sotelo Felippe Das políticas e das penas............................................................. 176 Patrick Mariano Como explicar a ‘suspeição’ de um juiz criminal para uma criança de 5 anos ........................................................................................ 179 Rubens Casara A reforma administrativa de João Doria: o projeto da indignidade..... 184 Marcia Semer A hora da boiada: a reforma neoliberal para tomar o Estado...... 190 Marcelo Semer O povo dos macacos.................................................................... 194 Marcio Sotelo Felippe Quando o terror bate à sua porta................................................ 199 Marcia Semer Para além da paranoia delirante.................................................. 204 Marcelo Semer O mundo em que vivemos perigosamente................................... 207 Marcio Sotelo Felippe Os especuladores de almas mortas.............................................. 211 Marcia Semer Os meios de produção do imaginário neoliberal......................... 214 Rubens Casara Fascismo de cada dia................................................................... 217 Marcia Semer


A História é perenidade; o mal não pode prevalecer, a desordem e a barbárie não podem prevalecer, o abismo não devorará os homens. Antonio Gramsci 8


Introdução Em 2017 parte dos autores desta coletânea lançou Brasil em fúria, composta por artigos publicados semanalmente na coluna Contra Correntes do site Justificando entre 2014 e 2016. Era um registro de quem acompanhava aquele período de intensa polarização política que precedeu a desintegração do Estado de Direito e a ofensiva contra os direitos do povo brasileiro. Descrevemos naquele momento como observadores, analistas e testemunhas da História o ovo que gestava a serpente. Nossa perspectiva estava traduzida na expressão “Contra Correntes”, que remete a dois sentidos metafóricos. Falávamos das correntes que desde sempre aprisionam o povo brasileiro, os trabalhadores e a massa excluída que de tão precária sequer consegue lograr a condição de trabalhador no sentido rigoroso do termo. Lembramos, na orelha daquele volume, a frase de Rosa Luxemburgo: “quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem”. Por outro aspecto, era também uma alusão à nossa posição crítica relativamente às correntes amplamente hegemônicas na prática do Judiciário e na teoria jurídica. O Judiciário era coadjuvante das forças estruturais que condenavam esta sociedade à iniquidade, a um dos mais impressionantes índices de desigualdade do planeta, ao extermínio da massa de excluídos pela miséria ou pela coerção do Estado (violência policial, sistema prisional). Naquele momento, através de sutis mudanças nos meios de dominação, o Judiciário passou a desempenhar um papel central na desintegração do Estado de Direito e na verdadeira anomia constitucional que propiciou o golpe de 2016. Quando retomamos, a partir de 2018, já então no site da Revista Cult, as colunas semanais sob a denominação Além da Lei – cuja seleção originou a coletânea que o leitor tem em mãos – o monstro já havia emergido. Já estávamos no Brasil despedaçado, sob o domínio de um governo cujo sentido era o de destruir o pouco do que havia de democracia real no Estado e na sociedade. Coube-nos, 9


assim, a crônica de um tempo em que forças políticas e sociais retrógradas nos mergulharam em um período de trevas, trazendo do passado formas políticas e de mando que não se envergonham de sua filiação fascista. Nossos temas foram, como o leitor verá, os reflexos do imaginário neoliberal, crimes contra a humanidade, o desprezo ao ser humano ultrapassando o limiar da barbárie. O fascismo redivivo. O populismo penal, o discurso autoritário que corrompe a Constituição, o empobrecimento cultural. O louvor à morte. O genocídio a que a pandemia deu a ocasião. A eugenia negacionista que conduziu ao extermínio de milhares de brasileiros, especialmente pobres, idosos, negros, indígenas; e que leva agora, no momento em que escrevemos, à morte não em câmaras de gás, mas por asfixia. A tudo o chefe do governo assistiu, incentivou e pontuou morbidamente com gracejos, sorrisos e ironias. Se por um lado lamentamos a sorte de termos sido testemunhas de um tempo tão deplorável, por outro nos sentimos gratificados pela resistência que nossos textos representaram. Esperamos que esta coletânea seja útil aos contemporâneos para ajudar a compreender como isto tudo foi possível e que no futuro seja útil também como um certo registro da tragédia do Brasil, que verá emergir novamente a civilização para, como já ocorreu no antigo fascismo, acertar contas com seus responsáveis. Os autores

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O foro privilegiado dos assassinos e torturadores Patrick Mariano 11 de maio de 2018

Na vida real, enquanto o STF debatia se parlamentares teriam ou não direito à prerrogativa de foro e a grande mídia pautava o tema como solução para a “impunidade”, assassinos e torturadores, caso fossem militares, podem ter seus processos remetidos da justiça comum para uma justiça particular e interna. É que desde 13 de outubro de 2017, o foro privilegiado no Brasil tem sido concedido a militares das Forças Armadas que praticam crimes dolosos contra a vida de civis, embora a Constituição de 1988 confira competência exclusiva ao Tribunal do Júri nestes casos. Ronniely Medeiros de Sousa, pessoa em situação de rua nas entrequadras da Asa Sul de Brasília, foi torturado em 2 de janeiro de 2013 por três policiais militares para que não denunciasse o envolvimento de policiais no tráfico de drogas. Segundo a denúncia do Ministério Público, Ronniely foi algemado, colocado numa viatura e levado até um matagal. Lá sofreu inúmeras agressões, choques com pistolas a laser no pescoço e no braço e teve o pé perfurado por uma barra de ferro. Passados cinco anos dos fatos, o processo por crime de tortura contra os policiais estava pronto para ser sentenciado pelo judiciário do Distrito Federal, não fosse um pedido do Ministério Público, com base na Lei 13.491 de 2017, para que a Justiça Militar julgasse os policiais. Agora, a justiça corporativa da PM pode mandar refazer toda a instrução do processo. Assim como neste caso, outras mil ações penais tiveram o mesmo destino migratório. Somente no Estado de Goiás, o Tribunal de Justiça prevê o deslocamento de três mil processos. 11


O texto enviado pelo Congresso para sanção por Michel Temer delimitava um tempo preciso de duração para a Lei até 31 de dezembro de 2016, apenas para atender à “segurança” dos jogos olímpicos. No entanto, por pressão da bancada da bala e das Forças Armadas, Temer vetou este dispositivo da proposta tornando a lei atemporal. O veto, somado ao fato de evidente inconstitucionalidade da proposta, foi questionado no STF, que até agora não teve nenhuma pressa para resolver a questão. No ano de 2017, 5.012 pessoas foram mortas por policiais no Brasil – 790 a mais que em 2016. A Anistia Internacional analisou o perfil dos homicídios decorrentes de intervenção policial no Rio de Janeiro, entre 2010 e 2013, e concluiu que 99,5% das vítimas são homens, 79,1% são negros e pardos e 75% são jovens (entre 15 e 29 anos). A letalidade da polícia brasileira tem um destinatário preciso e identificável, portanto: jovem, pobre e negro. O foro mais que privilegiado concedido por Temer já foi objeto de decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos (caso Rosendo Radilla, no México), que se manifestou contra a ampliação da jurisdição penal militar no Estado Democrático de Direito por evidente risco ao juiz natural, a um julgamento justo e imparcial, ofensa ao princípio da igualdade perante a lei e relativização das garantias do devido processo legal e das normas internacionais de direitos humanos. Mas, nada disso parece sensibilizar o STF ou pautar o debate político no Brasil. A letalidade policial é parte da racionalidade do capital para aniquilar, reprimir e sufocar iniquidades sociais. Infelizmente, os crimes contra a vida praticados por agentes do Estado não são meros erros de procedimento ou pontos fora da curva, sua constância e o absurdo quantitativo dos seus números, revelam-se mais como uma deliberada política estatal, daí sua proteção pelo aparato normativo. Assim, o foro privilegiado que interessa é apenas aquele dos parlamentares – veja que o Supremo manteve intacto o de magistrados e membros do ministério público – e não o de torturadores de pessoas em situação de rua. Aliás, a retirada do foro privilegiado foi 12


comemorada por políticos que, agora, junto à maior influência no sistema de justiça nos seus estados, certamente escaparão de serem responsabilizados. Se a letalidade policial é parte indissociável da racionalidade do capital em sociedades extremamente desiguais, sua sustentação política e ideológica é o desprezo e a dessacralização da vida de alguns. Ronniely Medeiros de Sousa agora deverá buscar justiça junto aos colegas de farda daqueles que o torturaram. No Brasil, a polícia tortura e mata. Depois, julga.

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Brasil despedaçado Giane Ambrósio Alvares 28 de maio de 2018

Calo-me, espero, decifro. As coisas talvez melhorem. São tão fortes as coisas! Mas eu não sou as coisas e me revolto. Carlos Drummond de Andrade

Sustentado por um projeto agressivo de retorno ao neoliberalismo, o golpe brasileiro deste terceiro milênio não veio para brincar. Para satisfazer sem limites o apetite insaciável do capital financeiro, o controle do governo federal foi tomado de assalto e, sob o olhar complacente do judiciário, os fundamentos centrais da nossa jovem e combalida democracia vêm sendo destruídos. O rompimento da ordem democrática com a deposição do governo de Dilma Rousseff, porém, não apenas aprofundou a instabilidade política na qual o país já estava submerso, como intensificou as crises vivenciadas no campo econômico, social e ambiental. De lá para cá, com espanto e indignação, presenciamos espetáculos inacreditáveis como a louvação pública de torturadores, a prisão ilegal do ex-presidente Lula e pedidos ou ameaças de intervenção militar. Testemunhamos, quase sem reação, a retirada incessante de direitos históricos do povo trabalhador, o bloqueio por duas décadas dos gastos com educação, saúde e moradia, a extinção de direitos trabalhistas e de políticas relacionadas à reforma agrária e a entrega das riquezas nacionais ao capital estrangeiro. Como se repete na história do Brasil, os escolhidos para o sacrifício e o sofrimento são os mesmos de sempre: os membros das classes sociais subalternas, constituídas pelos antigos e novos miserá14


veis e pelos trabalhadores, e o patrimônio público nacional. Vestidos com as mesmas roupas do passado ou com fantasias modernas, conservadores e reacionários de todo tipo sentem-se fortalecidos, propagam mentira, violência e ódio e já não sentem constrangimento em expor sua ira ancestral contra os pobres ou sujar suas mãos com o sangue do trabalhador, da mulher, do negro, dos indígenas e da população LGBTQ+. Em março de 2018, quem matou e quem mandou matar Marielle Franco e Anderson Gomes chocou o mundo, o que não impediu que cretinos inexpressivos e até autoridades públicas manifestassem seu desprezo pela vida e pela verdade dos fatos. Um edifício inteiro desabou sobre a vida e sobre os parcos pertences das famílias de trabalhadores pobres sem teto que o ocupavam, mas, em vez de indagar as razões pelas quais tão poucos possuem tanto e tantos possuem nada, o que fizeram os meios de comunicação convencionais foi vasculhar motivos para estigmatizá-los, humilhá-los e criminalizá-los. No meio rural brasileiro, a violência permanece e se amplia. Como revela a Comissão Pastoral da Terra, em 2017 algo em torno de 70 trabalhadores rurais foram assassinados em decorrência de conflitos no campo. Coerente com o autoritarismo em voga, foi apresentado o Projeto de Lei 9.858/18, pelo qual se pretende votar, em regime de urgência, alterações da Lei do Terrorismo (13.260/16), incluindo no texto da Lei a ressalva de que ela pode ser utilizada contra movimentos sociais quando ocorrer “abuso de direto de articulação [...] destinado a dissimular a natureza de atos de terrorismo, como os que envolvem a ocupação de imóveis urbanos ou rurais”. A manifestação política realizada por caminhoneiros em 2018 desafiou convicções, expôs contradições, parou o país e escancarou a fragilidade do governo e do sistema. Porém, também nesse episódio, o direito de manifestação foi posto na linha de tiro. A decisão do ministro Alexandre de Moraes, a pedido de Mi15


chel Temer, na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 519, sinaliza a chancela e cumplicidade do STF em relação a esse autoritarismo e ao Estado de Exceção. Moraes, plagiando os Atos Institucionais do regime militar, suspendeu os efeitos de todas as decisões judiciais que “obstarem os pleitos possessórios formulados pela União” e que porventura impeçam “a imediata reintegração de posse das rodovias federais e estaduais ocupadas em todo o território nacional, inclusive nos respectivos acostamentos”. Aflitos, observaremos nos dias que seguem as consequências da autorização do emprego das Forças Armadas para desobstrução das rodovias, mas essa banalização representa a imposição e assimilação silenciosa de uma ditadura e da tirania. No horizonte, apenas uma certeza: somente a organização e a luta popular podem nos trazer alguma vitória. *** Escrito em 2018, ainda no curso do governo de Michel Temer, o texto acima apontou parte das angústias que vivenciávamos naquele momento histórico. Passados quase três anos da publicação do texto, a situação brasileira agravou-se para patamares antes inimagináveis. Eleito presidente do Brasil numa campanha de mentiras e violência, ao tomar posse, Jair Bolsonaro deu andamento a um projeto genocida e fascista, que incluiu o programa de destruição dos direitos históricos dos trabalhadores, assumiu com vigor a agenda neoliberal e tenta destruir com perseguição e violência as organizações dos trabalhadores. Ainda que não tenha conquistado hegemonia na sociedade, este governo sustenta-se no interesse de parte da elite no desmonte do Estado, no apoio dos militares e da extrema direita fanática que sempre existiu no país. Em meio à pandemia da Covid-19, esvazia-se com gravidade o valor da vida humana. 16


Em janeiro de 2021, com o agravamento da crise econômica e com quase 200 mil brasileiros mortos em decorrência do Coronavírus e do descaso e incompetência do governo, é anunciado o fim do auxílio emergencial para os pobres, que se viram ainda mais vulneráveis em decorrência da pandemia. Depois da espera angustiante pelo desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19, o governo não se prestou a adquirir imunizantes e não há no horizonte planejamento para a vacinação em massa da população brasileira, como já está ocorrendo em outras partes da América Latina e do mundo. Trata-se de um projeto de morte que se desenvolve com a complacência dos meios de comunicação convencionais e que encontra resistência tão só nas ações de solidariedade dos movimentos populares brasileiros, que doam alimentos para as populações mais vulneráveis. A construção de uma grande frente progressista, com uma agenda comum pela vacinação já, em defesa do Sistema Único de Saúde, pelo auxílio emergencial, por emprego e alimentação saudável para todos, contra as privatizações, pela tributação dos mais ricos e fora Bolsonaro é o grande desafio da classe trabalhadora neste momento histórico.

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Desprezo à democracia é cicatriz que não se esconde Marcelo Semer 4 de junho de 2018

Poucos dias depois do resultado da eleição presidencial de 2014 ser anunciado pelo TSE, centenas de pessoas cobriram a avenida Paulista com pedidos de impeachment ou, se não, de uma enigmática e até então incompreensível intervenção militar. Os líderes derrotados foram um pouco mais prudentes, mas nem tanto. Insinuaram fraude e pela primeira vez na história de nossas tão bem-sucedidas urnas eletrônicas subscreveram um quase estudantil pedido de recontagem de votos. Em uma semana já era possível compreender bem as dificuldades que Dilma Rousseff teria para iniciar seu segundo mandato. As eleições de 2014 simplesmente não haviam acabado. A desconfiança imputada ao processo eleitoral – seletiva, pois para outros cargos a urna teria funcionado a contento – não era mesmo mais do que uma demonstração simbólica de irresignação. Mas foi se recheando com toda sorte de fake news, o combustível adulterado do amplo processo de deslegitimação da democracia – esta epidemia que se alastraria pelo país. A ânsia de interromper um governo que nem havia começado, por fatos que orbitavam entre os deslizes do passado e os temores do futuro, impedia que o presente se iniciasse. Ao final, os interesses imediatos se colocaram à frente das instituições: era preferível chegar mais cedo ao poder do que preservar a regra do jogo em busca de uma alternância que os sucessivos fracassos eleitorais vinham impedindo. Nesse frenesi, houve de tudo um pouco. Liberais que reclamavam da excessiva presença do Estado deram as mãos àqueles que pretendiam pura e simplesmente o retorno aos anos de chumbo, onde até o pensar podia ser objeto de uma, digamos, intervenção 18


militar. Houve pareceres por encomenda, deputados com preços e jornalistas imbuídos de uma missão. O mercado apostou todos os seus cifrões na queda do governo – ainda que Dilma tivesse, no desespero, recrutado, também de forma incompreensível, um dos mais confiáveis porta-estandartes do sistema financeiro. Não era suficiente. A janela de oportunidades que estava prestes a se abrir não tinha termo de comparação. Um saco de maldades que só um presidente não-eleito teria condições de proporcionar, o programa prêt-à-porter para um governo de patrões: privatizações, internacionalizações, desmontagem da legislação trabalhista. E uma forma de precificar os derivados de petróleo da qual iríamos nos arrepender em pouco tempo. Os perigos de uma economia mal gerida, a corrupção em escala ou a perda de sustentação política. Um anticomunismo redivivo, uma mistura explosiva de ódio e ressentimento, um quê não desprezível de machismo. Tudo, enfim, se juntou para justificar a inusitada aliança que reuniu a fina flor do mercado, o bizarro grupo de jovens mais fascistas que liberais, a república messiânica e midiática dos bacharéis e os políticos até então poupados pela mídia camarada. Tudo envolto em argumentações jurídicas de baixa densidade, mas que foram mais do que suficientes para um Supremo que se mostrava pouco disposto a exercer sua função contramajoritária e zelar pela Constituição. Abriu-se a temível porta da desinstitucionalização. E quem diz que é fácil fechá-la? O pânico moral de que se revestiu a chamada luta contra a corrupção encontra seu limite quando as denúncias batem às portas daqueles que tão fortemente a empunharam, levando a uma encruzilhada que estanca a persecução ou, ao menos, diminui sua rapidez e intensidade. Nem todos os processos correm; nem todos os réus vão presos. O paradoxo se instaura: ou a lei não é para todos ou é para todos e não sobra ninguém. A economia continua com seus percalços e perspectivas sombrias, ainda que a imprensa tenha passado a elogiar docilmente a metade cheia de um copo sobre o qual cansou de avisar que estava vazio. 19


O desemprego em altas proporções é sempre um condimento perigoso para movimentos de massa. Mas o pior nem está no posto sem gasolina ou no mercado desabastecido: está na desilusão para com a democracia e nas portas laterais que os interesses poderosos ensinaram a forçar. Mais de trinta anos de uma Constituição ameaçada de extinção ou apenas prestes a se recolher à sua própria insignificância. Normas que tutelam direitos fundamentais vem sendo desprezadas a olho nu; o arcabouço social de que se revestiu a Carta Cidadã foi suspenso por uma lei que dura vinte anos; o populismo tomou conta do espírito daqueles que juraram defender os seus princípios. A democracia está longe de ser um objeto descartável. Seu desprezo gera cicatrizes que não são fáceis de esconder. Mas o pior dessa bagunça toda é o fato de que aqueles que tanto se esforçaram para tirar as coisas do lugar são justamente os primeiros que se apresentam com credenciais para arrumar a casa.

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