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PANDEMIAS E PANDEMÔNIO NO BRASIL ORGANIZADORES

CRISTIANE BRANDÃO AUGUSTO ROGERIO DULTRA DOS SANTOS


Copyright© Tirant lo Blanch Editor Responsável: Aline Gostinski Capa e Diagramação: Renata Milan

É proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, inclusive quanto às características gráficas e/ ou editoriais. A violação de direitos autorais constitui crime (Código Penal, art.184 e §§, Lei n° 10.695, de 01/07/2003), sujeitando-se à busca e apreensão e indenizações diversas (Lei n°9.610/98). Todos os direitos desta edição reservados à Tirant Empório do Direito Editoral Ltda.

Todos os direitos desta edição reservados à Tirant lo Blanch. Av. Brigadeiro Luís Antônio, 2909 - sala 44 Jardim Paulista, São Paulo - SP CEP: 01401-002 www.tirant.com/br - editora@tirant.com.br Impresso no Brasil / Printed in Brazil


ORGANIZADORES

Cristiane Brandão Augusto Rogerio Dultra dos Santos

PANDEMIAS E PANDEMÔNIO NO BRASIL Alberto Emiliano de Oliveira Neto Alexandra Sánchez Ana Carolina Galvão Antônio Pele e Andreu Wilson Bernard Larouzé Bernardo Nogueira Carlos Eduardo Martins Carlos Magno Spricigo Cléber Lázaro Julião Costa Cristiane Brandão Augusto (Org.) Cristiane Pereira Darlan Montenegro Denise Assis Elver Andrade Moronte Evandro Menezes de Carvalho Fabiane Lopes Jane Salvador de Bueno Gizzi Javier Alejandro Lifschitz

João Ricardo Dornelles José Carlos Moreira da Silva Filho Juliana Neuenschwander Junia de Mattos Zaidan Lívia Sampaio Luciana Simas Manoel Severino Moraes de Almeida Marcus Giraldes Marcus Ianoni Mayra Goulart Ricardo Nunes de Mendonça Roddolfo Carvalho Rogerio Dultra dos Santos (Org.) Rute Alonso Sérgio Graziano Tânia Maria S. de Oliveira Vilma Diuana Wilson Ramos Filho (Xixo)

2020


APRESENTAÇÃO Em meio à exponencial quantidade de mortes que assistimos em função da COVID-19, o Brasil tenta sobreviver e enfrentar algumas das maiores tragédias de sua história contemporânea: as pandemias – tanto a derivada da disseminação do coronavírus, quanto as estruturais, dos sistemas de opressão e do Capitalismo – além do pandemônio de um governo caótico, incompetente e de perfil fascista. O presente livro reúne 38 autores e autoras, entre cientistas políticos, economistas, educadores e educadoras, jornalistas, juristas, médicos e médicas, militantes políticos, pesquisadores e pesquisadoras, psicólogas e sociólogos, para discutir a conjuntura nacional nesse período indefinido das restrições mais variadas e de agravamento das crises sanitária e humanitária. Temas como ativismo judicial, biopolítica, cenários pós-pandêmicos, corrupção e patrimonialismo, criminalização da política, democracia, direitos humanos, EaD e ataques à educação, encarceramento e sistema repressivo, fascismo e neofascismo, home office, necrocapitalismo, neoliberalismo, população LGBTI, populismo de direita, precarização do trabalho e dos direitos sociais, racismo, redes de solidariedade, relações entre os poderes, uso político da pandemia no cenário global e violência de gênero são objeto e base de dezenas de análises e reflexões consistentes, que nos permitem vislumbrar que país restará depois da crise. Para facilitar a leitura, organizamos os artigos tematicamente, promovendo uma rápida identificação dos interesses imediatos no sumário. Esta é, assim, uma obra imprescindível para compreender e se posicionar em tempos tão conturbados. Aproveitamos aqui a oportunidade para agradecer imensamente o convite do professor Wilson Ramos Filho (Xixo) para esta publicação, bem como o apoio do Instituto DECLATRA e da Editora Tirant Lo Blanch, constantemente solícitos durante a organiza-


6 APRESENTAÇÃO

ção e a edição. Registramos um agradecimento especial ao professor Rodolfo Carvalho (UFBA, autor ilustrador) e a todos os autores e autoras que acreditaram na proposta de fazer, em tempo recorde, um livro de circulação gratuita, para o mais democrático acesso aos seus diagnóstico e informações. Por fim, esperamos que este trabalho em equipe sirva como um manancial rico para a compreensão crítica dessa nova e complexa realidade. Rio de Janeiro, 01 de maio de 2020 (Dia do Trabalhador e da Trabalhadora) Cristiane Brandão Augusto e Rogerio Dultra dos Santos Organizadores


“E o som das trombetas por toda a hoste proclama O conselho solene a se realizar No Pandemônio, alta capital De Satã e seus pares: a convocação chamava De todo bando e esquadrão Por local ou escolha, o mais valioso” John Milton, Paraíso Perdido, Livro I (1667) pandemônio sm (ingl pandemonium) 1 Nome imaginado pelo poeta inglês Milton (1608-1674) para designar a corte dos infernos. 2 Conluio de indivíduos para fazer o mal ou armar desordens. 3 Balbúrdia, tumulto MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 1998.


SUMÁRIO DIÁLOGO EM TEMPOS DE PANDEMIAS E PANDEMÔNIO NO BRASIL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13

Entrevista com Eugênio Aragão

PANDEMIA DO CAPITALISMO GLOBAL O BRASIL E A AMÉRICA LATINA NA GEOPOLÍTICA MUNDIAL DA COVID-19 E DO CAOS SISTÊMICO. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27

Carlos Eduardo Martins O USO POLÍTICO DA PANDEMIA E A CRISE DIPLOMÁTICA COM A CHINA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36

Evandro Menezes de Carvalho “AMANHÃ VAI SER OUTRO DIA”? REFLEXÕES SOBRE AS QUESTÕES DO PRESENTE NO MUNDO EM CRISE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45

Juliana Neuenschwander Marcus Giraldes

PANDEMÔNIO NA POLÍTICA O COVID-19 E NOSSO LONGO TRANSE POLÍTICO . . . . . . . . . . . . . . . 63

Darlan Montenegro PANDEMIA: QUAL BIOPOLÍTICA? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77

Javier Alejandro Lifschitz NECROCAPITALISMO E NEOFASCISMO EM TEMPOS DE PESTE . . . 90

João Ricardo Dornelles TRÊS CRISES: SANITÁRIA, ECONÔMICA E POLÍTICA . . . . . . . . . . . 111

Marcus Ianoni ENTRE PANDEMOS E PANDORA: O POPULISMO DE DIREITA EM TEMPOS VIRAIS . . . . . . . . . . . 120

Mayra Goulart Paula Frias Luan Guedes PANDEMÔNIA ET CIRCENCES: BOLSONARISTAS, MORISTAS, FASCISTAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 139

Rogerio Dultra dos Santos


10 SUMÁRIO

PANDEMÔNIO NOS PODERES BRASIL E A PANDEMIA DE COVID-19: A APOSTA CÍNICA E GENOCIDA DE JAIR BOLSONARO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 157

Antonio Pele Andreu Wilson STF E A COVID-19: A HIPERTROFIA JUDICIAL A SERVIÇO DE MEDIDAS NEOLIBERAIS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 164

Sergio Graziano Carlos Magno Spricigo A COVID-19 E OS DIREITOS HUMANOS: A EXPERIÊNCIA DA REDE SOLIDÁRIA EM DEFESA DA VIDA - PE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 171

Manoel Severino Moraes de Almeida BOLSONARO E OS PODERES: A PANDEMIA DO CONFLITO . . . . . . . . . . . 179

Tânia Maria S. de Oliveira

PANDEMIA DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO COVID-19, SINDICATOS E A TUTELA DO TRABALHO . . . . . . . . . . . 193

Alberto Emiliano de Oliveira Neto HOME OFFICE PROMETE SER UM DOS PRINCIPAIS LEGADOS DA PANDEMIA DO CORONAVÍRUS . . . . . . . . . . . . . 206

Denise Assis A PANDEMIA DO NOVO CORONAVÍRUS E O IMPACTO NA SAÚDE MENTAL DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 219

Elver Andrade Moronte A CRISE DO TRABALHO E O COVID-19: O FUTURO NÃO É MAIS COMO ERA ANTIGAMENTE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 229

Jane Salvador de Bueno Gizzi Ricardo Nunes de Mendonça

PANDEMIA DOS ATAQUES À EDUCAÇÃO EDUCAÇÃO TRANSFORMADA EM EAD DURANTE A PANDEMIA: QUEM E O QUE ESTÁ POR TRÁS DESSA AÇÃO? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 247

Fabiane Lopes de Oliveira COVID-19 E OS ABUTRES DO SETOR EDUCACIONAL: A SUPEREXPLORAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO ESCANCARADA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 261

Junia de Mattos Zaidan Ana Carolina Galvão


SUMÁRIO 11

PANDEMIAS DO RACISMO, DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO E LGBTI PANDEMIA DO CORONAVÍRUS E O SEU IMPACTO NA POPULAÇÃO NEGRA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 279

Cleber Lázaro Julião Costa QUE RETORNEM AS GARÇAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 288

Cristiane Brandão Augusto MULHERES BRASILEIRAS, ISOLAMENTO E ESTADO ABUSIVO: SOBREVIVEREMOS? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 301

Livia Sampaio VIOLÊNCIA CONTRA A POPULAÇÃO LGBTI EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 309

Rute Alonso

PANDEMIA DO SISTEMA PENAL A OPORTUNIDADE E O ABISMO – DESLOCAMENTOS CRIMINOLÓGICOS EM TEMPOS DE PANDEMIA . . . . . . . . . . . 319

José Carlos Moreira da Silva Filho COVID-19 NAS PRISÕES: UM DESAFIO IMPOSSÍVEL PARA A SAÚDE PÚBLICA? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 336

Alexandra Sánchez Luciana Simas Vilma Diuana Bernard Larouzé

PANDEMIAS, POESIA E PROSA O MUNDO MÁGICO DE OZ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 347

Bernardo G. B. Nogueira AS RELAÇÕES SOCIAIS FRENTE À NOVA REALIDADE QUE SE DESENHA E A NECESSIDADE PREEMINENTE DE RESPEITO AOS DIREITOS HUMANOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 354

Cristiane Pereira PANDORGAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 359

Wilson Ramos Filho (Xixo)

ILUSTRAÇÕES DAS PANDEMIAS E DO PANDEMÔNIO Roddolfo Carvalho . . . . . . . 24, 60, 154, 190, 244, 276, 316, 344


DIÁLOGO EM TEMPOS DE PANDEMIAS E PANDEMÔNIO NO BRASIL Entrevista com Eugênio Aragão

A entrevista parcialmente transcrita abaixo foi realizada em 28 de abril de 2020. Nela, o Ex-Ministro da Justiça de Dilma Rousseff, Eugênio Aragão, faz uma análise pormenorizada da trajetória recente do país, desde a ascensão do Partido dos Trabalhadores (PT) ao poder, passando pelo “Mensalão”, pelo “Petrolão” – pela “Lava-Jato” –, analisando os motivos e fundamentos do Golpe de 2016 e da chegada de Jair Bolsonaro à presidência. Fala, de forma contundente, do impacto do COVID-19 na solvência institucional do país, do papel dos militares no governo, da politização da justiça, da criminalização da política, dentre outros temas contemporâneos à pandemia e à conjuntura política. Para a entrevista, os organizadores do livro convidaram os professores Darlan Montenegro (UFRRJ), Juliana Neueschwander Magalhães (UFRJ) e João Ricardo Dornelles (PUC-RJ). O professor Rogerio Dultra dos Santos (UFF), coordenou os trabalhos. A entrevista está, na íntegra, no canal da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) no YouTube. Rogerio Dultra - O tema geral da entrevista é política, pandemias e pandemônio. As pandemias são a sanitária e a humanitária, trazidas pelo Covid-19 e aprofundadas pela situação de desigualdade social do país. O pandemônio é por conta do governo caótico do Presidente Jair Bolsonaro, que até o final de abril de 2020 não se acertou com a administração das pandemias. Mas antes de falar da conjuntura imediata, gostaria de voltar um pouco no tempo para estabelecer um quadro analítico mais complexo. O Sr. considera correto dizer que desde a Ação Penal 470 (“Mensalão”), e, em especial, desde a dita “Opera-


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DIÁLOGO EM TEMPOS DE PANDEMIAS E PANDEMÔNIO NO BRASIL

ção Lava-Jato”, estamos testemunhando um processo de deterioração das instituições políticas brasileiras? Nesse contexto, como o Sr. avalia o Ministério da Justiça sob a “Operação Lava-Jato” e a relação do judiciário com a grande mídia? Houve excesso de republicanismo do PT? Eugênio Aragão - O quadro presente na verdade é o resultado muito claro disso que nós vínhamos falando desde 2016. Que realmente tudo começou com o caso do Valdomiro, e terminamos com Bolsonaro expulsando Moro do seu governo. Isso é uma longuíssima trajetória, extremamente intensa, de 2003 até 2020. Portanto nós temos aí 17 anos de golpismos atrás de golpismos que fatalmente enfraqueceram as instituições brasileiras e o Estado brasileiro e colocaram em xeque a própria validade da constituição do pacto de 1988. A verdade é que a nossa elite nunca aceitou o PT quando este ganhou a eleição. 2003 para eles foi um choque. E tão logo o presidente Lula sentou na cadeira presidencial, começaram as provocações. A partir daí se desenvolve um processo praticamente liderado pela mídia – e o Supremo Tribunal Federal, neste momento, se revela extremamente frágil, incapaz de adotar uma postura contramajoritária e de fazer frente a esse carnaval perpetrado pela mídia contra o governo Lula e contra o PT. Vem 2005 e, apesar das investigações e das tentativas de derrubar Lula, o que se tem é o PT recebendo um número estrondoso de votos, aquilo que se chama onda vermelha se instala na política brasileira: o PT ganhando vários governos estaduais, aumentando sua bancada no congresso. Isso daí tudo acaba aumentando a irritação. Virá, então, a segunda onda, que se dá, agora, com a tentativa rasteira de se tirar no grito o PT do poder. Isso se dá em 2013, logo depois das condenações do “Mensalão”, com as manifestações que, no início, não tinham nenhum tipo de agenda e, aos poucos, tendo a agenda anticorrupção infiltrada pelo Ministério Público e pela Rede Globo. Nós vamos ter, no final de 2013, uma Presidenta Dilma, que no início do ano tinha 75% de aprovação, terminar o ano com 25%. Isto mostra claramente que essas manifestações tinham alvo: foram utilizadas para promover o desgaste da Presidenta Dilma. Este des-


ENTREVISTA COM EUGÊNIO ARAGÃO

gaste foi enorme, porque ela não era, inicialmente, sequer o alvo das manifestações – que era apenas o preço das passagens em São Paulo –, mas conseguiram direcionar essas manifestações contra Dilma Rousseff. Foi o primeiro passo. Em 2014 começa então o “Petrolão”, as investigações da “lava jato”, feitas também de forma estrondosa. Portanto, dentro do precedente do “Mensalão”. Vamos agora ver realmente instalada em Curitiba uma Justiça BBB, em que todo mundo tem aquela curiosidade de todo dia saber o que é que está acontecendo, o que é que está rolando nos processos da “lava jato”. Vamos, nesse processo, ter notícias estrambólicas envolvendo sempre o PT e seus partidos aliados, em uma campanha de saquear a Petrobrás e todo setor. E isso apoiado por informações de inteligência vindas diretamente dos Estados Unidos, governo com qual os lavajateiros negociam, para começar, através do seu próprio procurador-geral da República, que faz questão de várias vezes se dirigir lá e conversar com as autoridades. A “lava jato” consegue, finalmente, em 2018, o seu objetivo: tornar Lula inelegível. Rogerio Dultra - Quando a “lava jato” começa em 2014, fica claro que se tratava de um processo político, pelo menos para quem está coordenando o debate político dentro do partido e em outros setores da vida política nacional. Como você avalia essa trajetória de um Ministério da Justiça que praticamente deixou a “lava jato” funcionar de forma política, de forma abusiva, sem nenhum tipo de anteparo? Eugênio Aragão - Aí houve vários erros. Começando lá [atrás] com Márcio Thomaz Bastos. Aquela agenda anticorrupção, que historicamente era uma agenda do PT, e foi mal conduzida. Criou-se a tal da ENCLA – Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e Lavagem de Ativos, que é um fórum que reúne corporações. Reúne corporações do Judiciário, do Tribunal de Contas, do Ministério Público, da Polícia, sob a batuta do Ministro da Justiça, do DRCI [Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional], para criar instrumentos legislativos, normativos, e institucionais, para tornar mais eficiente o combate à corrupção.

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Mas [essa] não é uma agenda desinteressada. É uma agenda, sobretudo, de fortalecimento dos poderes das corporações, aquelas que se engalfinham desde 1988 pela posição chave no topo da cadeia alimentar do Serviço Público. O Ministério Público conseguiu isso ao longo desses anos e os outros querem chegar lá também. E essas estratégias de combate à corrupção e lavagem de ativos vai ser um fórum em que, pela primeira vez, vai haver uma confluência dessas corporações briguentas, nesses cargos de briga, e vão eleger, evidentemente, o setor público como o grande problema nacional. Me parece que deveriam ter sido outros os atores dessa estratégia nacional do que propriamente esses setores que são meramente instrumentais, mas não devem ser necessariamente aqueles que pensam o país. Para um advogado a pior coisa é brigar com um juiz. Então isso vai fazer fatalmente com que a “Ética do diálogo” deva prevalecer sobre a “Ética do conflito”. Paralelamente, nós temos um governo e um partido que não entendem “chongas” de Judiciário. O Judiciário para o Lula – e ele falou isso em 2013 – é a grande caixa preta, ou seja, é o grande mistério para a esquerda brasileira. A esquerda brasileira achou que poderia ter nas associações corporativas, como a ANPR, como a Associação Brasileira da Magistratura, como a AJUFE, e coisas do gênero, como aliados. Por quê? Por que enxergou nelas algo parecido com sindicatos. Achava que isso era um sindicato. E nenhuma dessas associações são sindicatos: são corporativas e cartoriais. O que elas querem é abocanhar um naco do Estado para as carreiras que elas representam. Elas não têm, em absoluto, nenhum tipo de necessidade de sindicalização. Por quê? Por que essas carreiras, que estão no topo da administração pública, sofrem de nada. Muito menos de mais-valia. O sindicato existe para que? Basicamente para proteger o Trabalhador da ganância do Capital em cima do trabalho. Então não estamos ali com estruturas sindicais, mas com estruturas patrimonialistas, de entidades que querem se apropriar do Estado. É isso que elas são. Então o PT confundiu isso. Achou que podia dialogar com elas, podia prestigiá-las, e aceitou a tal da lista tríplice para Procurador-Geral da República que, na verdade, foi uma


ENTREVISTA COM EUGÊNIO ARAGÃO

concessão contra a soberania popular. Agora, no momento em que o Presidente não escolhe mais e sim quem escolhe é a carreira de meia dúzia de burocratas concursados, qual é a legitimidade desse Procurador Geral? Qual é o accountability desse Procurador Geral? Então esse Procurador-Geral não tinha compromisso nenhum com o projeto de Estado que se estava construindo. E isso é errado. O Procurador-Geral, escolhido pelo Presidente da República, faz parte de um projeto político do Presidente da República. Ainda que ele seja independente. Mas ele faz parte de uma cosmovisão de Estado que foi eleita. Foi aquela que a população pediu que se instalasse no Palácio do Planalto e se regesse o país por um mandato. Foi um grande erro. Juliana Magalhães - Ouvindo o Sr. falar, Ministro, parece que o PT talvez tenha errado por um excesso de republicanismo, por acreditar que as instituições funcionavam realmente de uma maneira autônoma e que eram instituições democráticas. Acreditou em republicanismo e institucionalismo. Acreditou que essas instituições eram democráticas. E, talvez, um equívoco maior não tenha nem sido acreditar nisso, mas não conhecer as instituições, o autoritarismo que é subjacente a estas instituições. O Ministério Público que ganha uma independência que é muito grande e necessária com a Constituição de 1988, mas que se tornou uma carreira e extremamente elitizada nos últimos anos, com uma mentalidade que reproduz a mentalidade da elite brasileira, conservadora, reacionária. Mas, sobretudo, o Judiciário, que carrega consigo uma herança autoritária. Uma continuidade do Judiciário autoritário da Ditadura Militar. Então, eu fico imaginando, nós ainda não aprofundamos a presença dos militares nessas instituições, como o Judiciário na Ditadura Militar e, depois, no pós-Ditadura Militar. Uma tendência que está se produzindo agora com o governo Bolsonaro. Então se os governos do PT têm errado talvez pelo excesso de republicanismo – não sei se isso é um erro, na medida em que as instituições é que não estavam preparadas para isso –, hoje nós temos um presidente que “não está nem aí” para os princípios republicanos. E a grande pergunta é como as institui-

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ções podem fazer frente a esse presidente que todos os dias desdenha das instituições, desdenha da própria Constituição? Ele está levando o país cada vez mais ao caos e o povo cada vez mais em direção à morte. Hoje o Brasil passou o número de 5 mil mortes pelo COVID-19. Isso significa que nós já temos mais mortos que a China. Então acho que é importante também nós pensarmos: o papel das instituições no governo do PT a agora. Como é que as instituições podem reagir a esse governo, a esse desgoverno Bolsonaro? Eugênio Aragão - Eu, em primeiro lugar, não atribuiria o excesso de republicanismo ao PT. O PT, na verdade, é uma colcha de retalhos. São inúmeras tendências, e muitas pessoas estavam extremamente incomodadas naquele momento. Não há, absolutamente, dentro do PT, qualquer tipo de consenso a respeito desse excesso de republicanismo. El[e] surge precisamente através do interesse de grupos de juristas de terem um protagonismo dentro do governo, mas sem bater naqueles que são suas potenciais galinhas dos ovos de ouro como advogados, que é o judiciário. Não tenho dúvida nenhuma que grande parte das indicações para o Supremo, para o STJ, seguiu essa lógica, a lógica da advocacia: a lógica de “eu vou me dar bem, porque eu vou colocar pessoas que eu conheço no judiciário e, mais tarde, quando eu for para banca, todo mundo vai me conhecer”. Juliana Magalhães - O senhor acredita que agora que a situação se inverteu, agora que precisamos que as instituições funcionem para impor limites ao executivo, que isso pode acontecer? Eugênio Aragão - Eu acredito que Bolsonaro, para começar, como disse o presidente Lula outro dia, ele é cria do Moro. E não o contrário. O Bolsonaro está no governo porque Moro deu todas as condições para ele chegar lá. Então esse não é um governo que vai enfrentar o Judiciário. Esquece. E nem o Judiciário, necessariamente, vai entrar em confronto com ele. Não vejo desse jeito. Há um inquérito no Supremo Tribunal Federal a partir da “troca de tapas” entre Moro e Bolsonaro. Mas esse inquérito, a meu ver, não chega longe. Na verdade, o que vai se estar discutindo ali? Se aquilo que Moro falou é verdade ou não é


ENTREVISTA COM EUGÊNIO ARAGÃO

verdade. Com o que é que se pode calçar aquilo? Com as mensagens de WhatsApp do Moro? Com as mensagens de WhatsApp de Bolsonaro? E logo o Moro querer usar as mensagens do WhatsApp dele como prova? Quando ele não aceitou a prova das mensagens dele do Telegram em relação à “Vaza-Jato” [divulgadas pelo site The Intercept]? São coisas muito curiosas que vão acontecer aqui nos próximos meses em relação a esse processo. E o Congresso Nacional? Ah, o Congresso Nacional, primeiro: o Senado hoje é bolsonarista. E a Câmara dos Deputados, hoje, tem um centrão em torno de 200 deputados que estão sendo cooptados pelo Bolsonaro. Então não vejo chances, hoje, claras e aritméticas, para um impeachment, para um processo de impeachment. Eu também não acredito muito nesse processo do Supremo. O fato é que Celso de Mello sai em novembro. E quem vai herdar o gabinete dele? Alguém indicado pelo próprio Bolsonaro. Ou seja, esse inquérito vai acabar parando na mão de alguém indicado pelo Bolsonaro. Este é o fato que nós vamos ver. A menos que alguém faça a rodada das Turmas [do STF] e alguém da Primeira Turma vá para a Segunda Turma, como já aconteceu antes. Mas, se isso não vier a acontecer, o que vamos ter é um Ministro indicado pelo Bolsonaro sendo o relator de um inquérito contra o Bolsonaro. Sinceramente acho que isso aí não vai muito longe. Então, a verdade é a seguinte: essa briga do Moro com o Bolsonaro, que nós estamos assistindo agora, é uma enorme cortina de fumaça em cima dos problemas sérios de gestão da crise sanitária que nós estamos passando. O importante hoje é salvar vidas. E é isso que nós temos que colocar como prioridade política. Nós não podemos abstrair para essa briguinha e esquecer que a crise que o Brasil está enfrentando hoje é a crise do COVID-19. É essa que é a verdadeira crise brasileira! É essa que está matando principalmente pobre! Vamos ver em Manaus! O estado completamente desaparelhado! Um SUS em frangalhos! E que agora não tem nem mais lugar no cemitério! Os cemitérios estão fazendo valas comuns e colocando em diversas camadas os caixões para não ocupar espaço! O número de óbitos exorbitante!

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Sendo que a estatística deste governo não retrata essa realidade. Porque é um governo que não faz teste! Nós estamos num voo cego! Nós não sabemos o que é que está acontecendo em volta. Só sabemos que a realidade é muito pior do que isso que o governo está dando através dos dados de notificação. E isso ainda contando com uma pressão permanente do Governo Federal em cima dos governadores para soltarem as amarras e acabarem com isolamento social, fazendo com que as pessoas voltem pras ruas, voltem a trabalhar, sem que a gente saiba o que está acontecendo. Enquanto isso, a gente está se distraindo com esse BBB, que é esse esbofeteamento de Bolsonaro e de Moro. Esse é o problema. João Ricardo Dornelles - Eu queria jogar pra você, Eugênio, uma análise mais ampla, colocar o Brasil dentro da avaliação Geral, do cenário Global da crise que é sanitária; mas, não existe uma crise separada da outra, é política, sanitária, econômica, ou seja, o mundo futuro está sendo discutido hoje, o mundo futuro que a gente não sabe se é daqui a seis meses, a um ano, a dois anos. Não temos a menor ideia. E o que é a saída e como vai ser essa saída, não temos bola de cristal. Mas, como é que você imagina isso dentro do cenário? O Brasil, nesse cenário, talvez seja um elo mais fraco, não no sentido de uma ruptura emancipatória, mas um dos elos mais fracos nesse processo global que estamos vendo. Eugênio Aragão - O problema é que com esse governo que se instalou na eleição de 2018 nós não podemos contar em que se discutam prioridades e nós teríamos prioridades para esses tempos que estão por vir. A principal prioridade, me parece, para o Brasil, hoje, era definitivamente assumir o saneamento, a saúde, a moradia e a renda mínima como suas principais agendas e políticas econômicas. Só assim nós estaremos preparados para o que está por vir, porque com um povo faminto, desempregado, vivendo em ruelas em que o esgoto corre a céu aberto, sem água potável em suas residências, muitas vezes nem sequer com água corrente; vivendo apertado um ao lado do outro, em ambientes que são verdadeiras culturas viróticas e bacterianas; nós não podemos achar que o Brasil vai sair dessa crise bem. Não tem como. Não adianta falar agora em grandes projetos de infraestrutura, fazer


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