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Bruno Silveira Rigon Vicente Cardoso de Figueiredo
“BLACK MIRROR” DISTOPIAS DE UM FUTURO PRESENTE
2020
Copyright© Tirant lo Blanch Brasil Editor Responsável: Aline Gostinski Capa e Diagramação: Renata Milan Revisor Técnico: Lucas e Silva Batista Pilau CONSELHO EDITORIAL CIENTÍFICO: EDUARDO FERRER MAC-GREGOR POISOT Presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Investigador do Instituto de Investigações Jurídicas da UNAM - México
JUAREZ TAVARES Catedrático de Direito Penal da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Brasil
LUIS LÓPEZ GUERRA Magistrado do Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Catedrático de Direito Constitucional da Universidade Carlos III de Madrid - Espanha
OWEN M. FISS Catedrático Emérito de Teoria de Direito da Universidade de Yale - EUA
TOMÁS S. VIVES ANTÓN Catedrático de Direito Penal da Universidade de Valência - Espanha
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Bruno Silveira Rigon Vicente Cardoso de Figueiredo
“BLACK MIRROR” DISTOPIAS DE UM FUTURO PRESENTE
2020
SUMÁRIO APRESENTAÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 Os organizadores INTRODUÇÃO – BLACK MIRROR: TECNOPOLÍTICAS DA CONDIÇÃO HUMANA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 Augusto Jobim do Amaral Bruno Silveira Rigon
1ª TEMPORADA
THE NATIONAL ANTHEM ENTRE A OBSCENIDADE DO PODER E A PERVERSÃO DO VOYEURISMO SOCIAL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Bruno Silveira Rigon 15 MILLION MERITS – HIPER-REALIDADE E MERCANTILIZAÇÃO DOS SONOS EM UMA SOCIEDADE DE SIMULAÇÕES . . . . . . . . . . . . . . Gustavo de Lima Pereira Jéferson Campos Nobre TODA (?) A SUA HISTÓRIA – ELEMENTOS PARA PENSAR A FALIBILIDADE DA MEMÓRIA E SUAS CONSEQUÊNCIAS PROCESSUAIS PENAIS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Gustavo Noronha de Ávila Andressa Paula de Andrade ENTRE A MEMÓRIA E O DIÁLOGO – UM ENSAIO/DESCRIÇÃO SOBRE UM RELACIONAMENTO EM DECLÍNIO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . James William Santos
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A REALIDADE TRAZ O VEREDICTO QUE O OBJETO NÃO MAIS EXISTE PEQUENA REFLEXÃO SOBRE LUTO EM BE RIGHT BACK . . . . 99 Estevan de Negreiros Ketzer Renata Guadagnin WHITE BEAR JUSTICE PARK – O PAPEL DA JUSTIÇA NA SOCIEDADE DE CONSUMO E A PENA COMO PARQUE DE DIVERSÃO . . . . . . . . . . . 115 Marion Bach André Peixoto de Souza O GOVERNO WALDO: DA REVOLTA DOS IMPOTENTES AO TOTALITARISMO DISTRIBUÍDO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125 Moysés Pinto Neto WHITE CHRISTMAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 141 Clarissa de Baumont
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3ª TEMPORADA
ESPELHOS NEGROS, DISTOPIAS E AS TIRANIAS DE NOSSOS DIAS . . . . 151 Caroline Valada Becker Celso Rodrigues QUEDA LIVRE – UM ENSAIO SOBRE A INVISIBILIDADE SOCIAL . . . . . . 161 Andréa Ana do Nascimento A TECNOLOGIA NÃO É NEUTRA – REFLEXÕES PARA MUITO ALÉM DE PLAYTEST, O SHOW DE HORROR HIGH-TECH DE BLACK MIRROR . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 171 Bernardo de Azevedo e Souza SHUT UP AND DANCE – O CREPÚSCULO DA PRIVACIDADE . . . . . . . . . . 183 Maurício Brum Esteves Daniella Calvano Ferst SAN JUNIPERO – SOBRE – VIVÊNCIAS DAS VULNERABILIDADES DE GÊNERO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 195 Fernanda Martins MENTES MILITARIZADAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 205 Aknaton Toczek Souza Pablo Ornelas Rosa Pedro Rodolfo Bodê de Moraes A ENGENHARIA REVERSA DA POLÍCIA CONTEMPORÂNEA: DISTOPIA EM TEMPOS SECURITÁRIOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 221 Lucas e Silva Batista Pilau AGRESSÃO VIRTUAL, VIOLÊNCIA REAL SOBRE OS ODIADOS PELA NAÇÃO E O LINCHAMENTO VIRTUAL . 237 Mariana Barrêto Nóbrega de Lucena ODIADOS PELA NAÇÃO – A JUSTIÇA É UM PRATO QUE SE COME DOCE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 245 Vera Maria Guilherme
4ª TEMPORADA
EGO VIRTUAL – DO EGO NO MUNDO REAL AO ALTER EGO NO MUNDO DIGITAL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sarah Reis Puthin ARKANGEL: UMA METÁFORA ACERCA DA OBSESSÃO SECURITÁRIA NO CENÁRIO INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEO . . . . . . . . . . . . . Maiquel Ângelo Dezordi Wermuth CROCODILO – O BURACO NEGRO DA VERDADE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Juliana Strehlau NÃO SE TRATA APENAS DE UMA HISTÓRIA DE AMOR – HANG THE DJ E A NOVA RAZÃO DO MUNDO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Felipe Lazzari da Silveira
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SOBRE ENFORCAR O DJ: PEQUENO ENSAIO SOBRE O DIREITO DE RESISTÊNCIA NO CAMPO DA EXCEÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Daniela Zini da Silveira Regiane Aparecida Cargnin Maurício Sant’Anna dos Reis METALHEAD: ESTILHAÇO DO ESPELHO OBSCURO . . . . . . . . . . . . . . . . . . Alexandre Pandolfo José Antônio Linck BLACK MUSEUM: ÉTICA E PUNIÇÃO NA ERA DA RACIONALIDADE . . . Fernanda de Vargas Priscila Flores Prates MAKE IT NEW! O BLACK MUSEUM E O TERRORISMO HIGHT-TECH . . David Leal da Silva Raiza Feltrin Hoffmeister
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CONCLUSÃO BLACK MIRROR E A DISTOPIA DO PRESENTE ��������������������������������������� 337 Vicente Cardoso de Figueiredo
APRESENTAÇÃO A obra que o leitor tem em mãos é fruto da união de diversos autores que possuem um sentimento em comum: apreciam, de alguma forma, o seriado britânico “Black Mirror” ou, pelo menos, sentem-se incomodados com as inquietações suscitadas na série e que, invariavelmente, provocam o pensamento. Além disso, todos eles acreditam que o conhecimento não pode ficar restrito à academia; o saber científico deve ultrapassar as suas fronteiras tradicionais e buscar expandir seus horizontes através do diálogo com as mais diversas formas de arte, dentre as quais o meio audiovisual (costumeiramente o que menos recebe atenção dos pesquisadores, seja o cinema ou até mesmo programas televisivos como os seriados). O presente livro apresenta esse espírito transgressor inerente ao diálogo entre a arte e o conhecimento científico e, para ampliar a comunicação de forma plural aos mais diversos ramos do saber, estrutura-se na forma de coletânea de artigos, na qual os autores buscaram interpretar livremente os episódios da série “Black Mirror” desde o início da primeira temporada até o final da quarta, incluindo o especial de natal. Os artigos foram escritos por autores das mais diversas áreas do conhecimento, como o direito, a literatura, a história, a sociologia, a antropologia, a filosofia, a educação, a psicologia, a computação, o design e as ciências criminais. Nota-se, portanto, que a coletânea conta com um corpo multidisciplinar de autores que tiveram o papel fundamental de contribuir para a interpretação de cada episódio. A introdução deste livro é uma entrevista de Augusto Jobim do Amaral realizada pelo co-organizador Bruno Silveira Rigon, transcrita e degravada por Carolina Lourdes Pergher. O desejo e inspiração de escrita desta obra partiram do curso de extensão sobre o seriado ministrado pelo entrevistado no primeiro semestre de 2017 na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC/RS, do qual alguns autores da coletânea, inclusive estes organizadores, participaram. O primeiro episódio da primeira temporada, “The National Anthem”, ficou a cargo de Bruno Silveira Rigon, co-organizador desta obra, que realizou sua análise com enfoque na obscenidade do poder e no voyeurismo social apresentado já desde o início da série. O artigo do segundo episódio, “15 Million Merits”, foi escrito em coautoria entre Gustavo de Lima Pereira e Jéferson Campos Nobre e o diálogo entre o doutor em filosofia e o doutor em computação versou sobre “hiper-realidade e mercantilização dos sonhos em uma sociedade de simulações”,
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tendo como pano de fundo sempre presente a construção teórica de Jean Baudrillard. O terceiro e último episódio da primeira temporada, “The Entire History of You”, foi alvo de análise por mais de um artigo. O primeiro, Gustavo Noronha de Ávila escreve em parceria com Andressa Paula de Andrade, problematizando a falibilidade da memória e suas consequências para o processo penal. O segundo texto é de James William Santos, que dá outro enfoque e busca analisar o relacionamento em declínio que o episódio expõe. O primeiro episódio da segunda temporada, “Be Right Back”, é fruto da parceria entre Renata Guadagnin e Estevan de Negreiros Ketzer, que refletem sobre a questão psicanalítica do luto e da melancolia na trama, sobretudo a partir do pensamento de Sigmund Freud. Já “White Bear”, o segundo episódio, é trabalhado por Marion Bach e André Peixoto de Souza, os quais voltam seu objeto de análise sobre a punição, abordando o papel da justiça na sociedade de consumo e a penalidade enquanto um parque de diversões. Moysés Pinto Neto é o responsável pela escrita sobre o terceiro e último episódio da segunda temporada, “The Waldo Moment”, com o texto intitulado “O Governo Waldo: da Revolta dos Impotentes ao Totalitarismo Distribuído”, que aborda desde a política da avalhação dos palhaços populistas que ocupam o poder até o fenômeno dos trolls. Entre a segunda e a terceira temporada a série lançou um episódio especial de Natal, chamado “White Christmas”, que coube a escrita à Clarissa de Baumont, cuja interpretação contou com uma interessante relação entre a obra “A Christmas Carol” (“Um conto de Natal”, na tradução para o português) de Charles Dickens com o episódio e foi além ao analisar a justiça penal e o papel dado à confissão (mediante tortura) como a “rainha das provas”. O primeiro episódio da terceira temporada, “Nosedive”, contou com dois escritos. O primeiro, oriundo da coautoria entre Celso Rodrigues e Caroline Valada Becker, cujo texto buscou refletir sobre a questão dos mundos distópicos e também a respeito da tirania de nossos dias. Andréa Ana do Nascimento, escritora da segunda interpretação sobre o episódio, fez um ensaio (ou seria um desabafo?) sobre invisibilidade social. Já a análise tecnológica de “Playtest”, segundo episódio da terceira temporada, ficou a cargo de Bernardo de Azevedo e Souza, que buscou demonstrar a transformação do pensamento linear para um mindset exponencial. O terceiro episódio, “Shut Up and Dance”, foi escrito em parceria por Daniella Calvano Ferst e Maurício Brum Esteves, examinando a mudança gerada pelas novas tecnologias que levou ao “crepúsculo da privacidade”. “San Junipero”, o quarto episódio, coube à Fernanda Martins tecer seus comentários, cujo enfoque filosófico recaiu sobre as questões de gênero. O quinto episódio, “Men Against
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Fire”, contou com duas contribuições. A primeira teve a redação realizada por seis mãos, escrito por um trio de autores: Pablo Ornellas Rosa, Pedro Rodolfo Bodê de Moraes e Aknaton Toczek Souza, que analisaram a militarização da vida e das mentes. A segunda é de Lucas e Silva Batista Pilau, cuja abordagem voltou-se para a polícia contemporânea. “Hated in the Nation”, sexto e último episódio da terceira temporada, contou com dois textos de autoras diferentes, Mariana Barrêto Nóbrega de Lucena e Vera Maria Guilherme, mas que tiveram como chave de leitura um assunto em comum: os linchamentos (sobretudo os virtuais), cada qual com seus vieses interpretativos. A quarta temporada apresenta os episódios USS Callister, Arkangel, Crocodille, Hang the DJ, Metalhead e Black Museum. Sarah Reis Puthin trata de questões inerentes ao ego no mundo virtual e real no artigo “Ego Virtual: Do Ego no Mundo Real ao Alter Ego no Mundo Digital”, abordando o episódio USS Callister. Já Maiquel Ângelo Dezordi Wermuth analisa a obsessão pela segurança no cenário internacional partindo no artigo “Arkangel: Uma Metáfora Acerca da ‘Obsessão Securitária’ no Cenário Internacional Contemporâneo”. Por sua vez, Juliana Strehlau traz sua leitura do episódio “Crocodilo” no artigo “Crocodilo: O Buraco Negro da Verdade”. O episódio “Hang the DJ” é tratado por Felipe Lazzari da Silveira no artigo “Não Se Trata Apenas de uma História de Amor: ‘Hang the DJ’ e a Nova Razão do Mundo”, e por Daniela Zini da Silveira, Regiane Aparecida Cargnin e Maurício Sant’Anna dos Reis no artigo “Sobre Enforcar o DJ: Pequeno Ensaio Sobre o Direito de Resistência no Campo da Exceção”. Alexandre Pandolfo e José Antônio Linck abordam o episódio “Metalhead” no artigo “Metalhead: Estilhaço do Espelho Obscuro”. Por sua vez, “Black Museum” recebe a leitura de Fernanda de Vargas e Priscila Flores Prates no artigo “Black Museum: Ética e Punição na Era da Racionalidade” e de David Leal da Silva e Raiza Feltrin Hoffmeister em “Make it New! O Black Museum e o Terrorismo Hight-Tech”. Por fim, a conclusão ficou a cargo de Vicente Cardoso de Figueiredo, co-organizador desta coletânea, que procurou realizar uma interpretação do seriado no conjunto de seus episódios, dando um fechamento ao aglomerado de glosas sobre a série. Deixamos registrado, ainda, agradecimento especial para Lucas e Silva Batista Pilau, autor nesta coletânea, que se dispôs gentilmente à revisar todos os textos da coletânea antes do envio para a editora.
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Pensar as transformações sociais que estão em curso e o papel da tecnologia nesse processo se mostra cada vez mais fundamental e o seriado “Black Mirror” apresenta-se como um meio artístico vital que trás pontos inquietantes aos telespectadores e nos coagem à refletir sobre tais questões. A angústia que a série proporciona pode ser constatada pelo não tão sutil sentimento ou percepção de um “futuro presente” ou de um “presente futuro”, isto é, de um futuro não tão distante, que já está de alguma forma aqui presente, acontecendo nos dias de hoje, ou seja, de um presente que já possui características assustadoras daquelas sociedades apresentadas no futuro. Embora tenhamos a tendência de naturalizar ou de nos abstermos de pensar nesse processo, nós, os inquietos, os pensadores, os irresignados, os inconformados, os loucos, não conseguimos ignorar e deixar de pensar criticamente nesse por vir que já está aí e aqui. Por isso, “Black Mirror”: Distopias de um Futuro Presente é a singela contribuição que oferecemos aos leitores e à comunidade em geral para perceberem o mal-estar do curto-circuito temporal que a série expõe e, a partir disso, refletirmos sobre nossa sociedade contemporânea. Os organizadores
INTRODUÇÃO
BLACK MIRROR: TECNOPOLÍTICAS DA CONDIÇÃO HUMANA1 Augusto Jobim do Amaral2 Bruno Silveira Rigon3
Bruno Rigon – O que, em termos gerais, pode o seriado Black Mirror nos proporcionar de leitura sobre nossa condição contemporânea? Augusto Jobim – Para tentar perceber o que o Black Mirror teria, por assim dizer, de distopia, devemos antes atentar para as problematizações a que ele conduz acerca do contemporâneo. Ele tem a capacidade de atualizar os dilemas que a tecnologia comporta. Ou seja, em termos muito gerais, poderíamos dizer que estes instrumentos, estes dispositivos tecnológicos – como os audiovisuais, nesse caso especificamente uma série de televisão –, possuem a capacidade de não apenas interrogar, mas de jogar uma lupa sobre o contemporâneo. Assim, uma crítica do presente, hoje em dia, passa por tentar perceber de maneira mais ampla o que se passa. O Black Mirror tem a capacidade de não ser aquilo que normalmente se pensa dele: ser meramente uma distopia futura. Não se trata disso. Este é um dos grandes problemas de quando se lê distopias – obras literárias que depois são transfiguradas para o cinema, como “Laranja Mecânica” (Anthony Burgess), “Fahrenheit 451” (Ray Bradbury) ou mesmo “1984” (George Orwell). Em todas elas, tendenciosamente, inclinamo-nos a lê-las como se fossem algo do futuro, e não é este o caso. Elas têm a capacidade, exatamente, como uma boa literatura, de instigar ou tentar representar algo do que se passa. Aquilo que é um sintoma mesmo do presente, aquilo que é apresentável no presente, só que com uma leitura ampliada, por isso que o Black Mirror, entre outras séries [hoje estou particularmente fascinado por Years and Years, da BBC one, de 2019] e filmes, têm a possibilidade de fazer uma problematização do contemporâneo. 1 2 3
Transcrição e degravação da entrevista realizada por Carolina Lourdes Pergher. Professor permanente dos Programas de Pós-Graduação em Filosofia e em Ciências Criminais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). Doutorando e Mestre em Ciências Criminais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). Professor de Direito Penal e Criminologia na Universidade de Caxias do Sul (UCS). Coordenador da Especialização em Direito Processual Penal Contemporâneo Aplicado, convênio entre UCS e o Instituto Brasileiro de Direito Processual Penal (IBRASPP).
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BLACK MIRROR: TECNOPOLÍTICAS DA CONDIÇÃO HUMANA
Antes de entrarmos em episódios específicos, seria interessante contextualizar o seriado. Ao contrário do que normalmente pode transparecer nos episódios, a série não surge do nada, de modo inédito [é uma série criada em 2011. O primeiro episódio, “The National Anthem” (O Hino Nacional), foi transmitido em dezembro de 2011]. Ela é francamente inspirada, o próprio Charlie Brooker afirma isso, no “The Twilight Zone”, uma série da década de sessenta. É a primeira grande série “distópica” que a gente consegue ver na televisão, ainda em preto e branco. O “The Twilight Zone” é uma das primeiras grandes séries que, não só introduziram o aspecto de uma “distopia futurista” – entre muitas aspas exatamente pelo exposto acima –, como também passou a veicular questões sobre racismo em um mundo supostamente ficcional. Então é muito interessante, porque há uma tremenda preocupação comum neste campo, e não é diferente com o casal Charlie Brooker e Konnie Huq. Já nas primeiras entrevistas que Brooker deu sobre o Black Mirror dizia algo que bem resumiria a série: “eu tento interrogar as consequências previstas da tecnologia”. Precisamente isso. Ele não está tentando fazer propriamente um exercício distópico ou algo descolado do contemporâneo. Não mesmo! Ele está fazendo uma inquirição sobre as consequências previstas da tecnologia. Ele ainda afirma: “trata-se da forma como vivemos agora ou como viveremos daqui dez minutos se formos desastrados”. Exatamente isso. Por quê? Porque as distopias tem uma função, sobretudo, de exercer ou de funcionar como um esclarecimento através do desconforto. Ele diz nessa mesma entrevista “ninguém vai entender a nossa crise através de um choro, implorando ajuda ou algo parecido...”. O criador do seriado produz exatamente o inverso: tenta capturar a atenção através dessas estratégias, tentando pintar essas consequências previstas e imprevistas da tecnologia e o lado escuro, o lado obscuro da nossa adição por gadgets. Este, para mim, é o precioso a ser analisado: uma espécie de tentativa de capturar as tendências algoritárias [“algoritarismos”, expressão de Jesus Sabariego] de nossa tecnologia. Pegando o mote do primeiro episódio, sempre houve uma inquietação particular sobre o nome do seriado: por que Black Mirror? Por que Espelho Negro? Não podemos esquecer de uma coisa: o espelho negro, esse fundo líquido que representa olhar para um anteparo, para um ecrã negro, dando a sensação de profundidade e de infinito, sempre foi nas sociedades tradicionais uma técnica de bruxaria. Poucos lembram-se disso, os antropólogos lembram-se muito melhor do que nós evidentemente. Olhar para um caldeirão negro, escuro, profundo e com uma sensação de infinito, mas que, ao mesmo tempo, reflete, produzindo uma difração da própria imagem. A pessoa olha e fica tudo meio quebrado. Trata-se, portanto, exatamente
AUGUSTO JOBIM DO AMARAL E BRUNO SILVEIRA RIGON
uma técnica de bruxaria para visualizar o futuro a partir da deformação artificial das imagens que se refletem no presente. Isso sempre foi uma técnica dos povos tradicionais em tentar ver o futuro. É muito interessante. Por isso Black Mirror. Brooker, nessa mesma entrevista, dizia: “o título é a maneira que nós encontramos de expressar todo tipo de muro, de limite, de ´desk´, de uma plataforma ou de algo que está na palma da mão”. Avança: “frio e brilhante como o screen de uma televisão, de um monitor ou de um Smartfone”. Essa é a fundamentação do Black Mirror. É a maneira de capturar aquilo que está a nossa mão naturalizado, explorado o tempo inteiro e, dessa maneira, tentar visualizar a partir das nossas deformações de utilização, o que implicaria visualizar o futuro em termos desses dispositivos. Bom, dito isso de maneira genérica, tentando introduzir o que significa o Black Mirror, o que significa essa série, poderíamos tentar ver o que alguns episódios apontam – o que o livro obviamente irá explorar muito melhor que esta minha entrevista introdutória. Cada episódio abre inúmeras possibilidades de enfrentamento para a reflexão. Sem esquecer que Brooker é um fantástico cineasta, provado através da realização de um trabalho como este. O formato do Black Mirror é de cinema. Os episódios podem ser analisados isoladamente sem qualquer tipo de prejuízo. Isto talvez tenha sido o que a mim mais me atraiu na série. Bruno Rigon – Qual a sua leitura sobre o primeiro episódio The National Anthem (“O Hino Nacional”)? Augusto Jobim – Este em particular é de extrema relevância. Valeria relembrar de maneira muito genérica o roteiro de “O Hino Nacional” (“The National Anthem”). A princesa real Suzana é sequestrada. Ao primeiro ministro britânico é apresentado um pedido incomum de resgate, algo obsceno. A mídia tradicional encontra-se incapaz de discutir o que essa demanda representa e vira tudo uma grande espuma de especulação, piadas etc. Entretanto, como o prazo para o resgate se aproxima, os eventos começam a ganhar um impulso surreal, elevando a tensão do episódio. É muito interessante, pois o episódio, em parte, aproxima-se e é inspirado no contexto das eleições gerais para o Reino Unido em 2010. Esse recorte é fundamental e poucos lembram-se disso, mas oito dias antes das eleições de 06 de maio, Gordon Brown, que era o primeiro ministro e tentaria a reeleição, dá uma entrevista para uma grande rede de televisão britânica, fato que depois o obrigou a se desculpar. Ele foi pedir desculpas na casa de uma senhora chamada Gillian Duffy. Por que digo isso? Porque ele deu uma entrevista às vésperas da eleição, em uma rede famosíssima de televisão britânica e sai com o microfone de lapela ligado. O Black Mirror não inventa, ele surpreende pela veracidade dos fatos. Ele sai com o microfone ligado, vai para a rua e se encontra, antes de entrar no
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próprio carro, com uma série de eleitores. Vem essa senhora e começa a abordá-lo “e os imigrantes? O que você vai fazer com a falta de emprego? Essas pessoas estão roubando nosso emprego!”. Ele não responde e entre no carro. Quando ele entra no carro, obviamente pensando que o microfone está desligado, diz “essa velha, intolerante e fanática”. Só que isso foi gravado e jogado na televisão. De fato essa mulher era isso, uma aposentada reacionária. Mas tamanha foi a pressão da mídia, pois não podia dizer um negócio desses, foi obrigado explicitamente depois a pedir desculpas. O primeiro ministro foi à casa da mulher na outra semana dizer “eu não podia ter feito isso…”. Então, Charlie Brooker pega esse contexto e questiona: Quem é que estava no comando naquele dia? Não era ninguém, não era a mídia, era um sentimento perverso de politicamente correto, uma coisa anômala, uma coisa perversa que o primeiro ministro teve de se submeter. Algo que não sairia de maneira nenhuma ao público se torna um escândalo às vésperas de uma eleição. Além disso, no episódio “O Hino Nacional” o sequestrador impõe que o primeiro ministro tenha um ato sexual com um porco, dentro de uma moldura muito estrita. A moldura estreita não tem nenhuma novidade. Eram as regras do movimento cinematográfico “Dogma 95”. É o movimento de cinema lá da década de 90, dinamarquês, de onde sai, por exemplo, Lars Von Trier e Thomas Vinterberg, fundador do movimento. Filmes como o “Idioterne” (“Os idiotas”) da trilogia de Lars Von Trier – que segue com “Dance In The Dark” e “Breaking The Waves” – foram montados como o Dogma 95. O Dogma 95 era exatamente aquele movimento que impunha determinadas maneiras de filmar, de realizar as filmagens. Inaceitável o final determinadamente cortado, o nome do diretor não aparecer nos créditos, as filmagens eram feitas em um local sem cortes, ou seja, tem uma série de mecanismos que identificavam o Dogma 95, que é exatamente como os “terroristas” impõem que se realize o ato sexual com o porco. Mas algo interessante do primeiro episódio, além das questões e do enfoque direcionado a questões securitárias, é pensar “O Hino Nacional” como uma parábola da era do Twitter, pois tudo passa a ser monitorado através dos índices do Twitter. No início o primeiro ministro tem apoio, depois o dedo da princesa aparece, nesse momento despenca o seu apoio, gerando a repulsa de todos. O episódio vai demonstrar, através dessa jogada toda, que quem planejou tudo isso foi um vencedor de um prêmio literário, o prêmio Turner. O gancho do episódio é que ele tenta provar como é possível realizar algo tremendamente importante e grandioso que é a libertação da princesa do reino e isso ser ignorado completamente por todos durante a audiência daquele espetáculo bizarro na televisão do primeiro ministro copulando com um porco.