Maria Francisca de Miranda Coutinho
Lógicas De (Des)Ordem VOL.1: Entre o desejo de Ordem e as ordens concretas (O-o)
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JUAREZ TAVARES Catedrático de Direito Penal da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Brasil
LUIS LÓPEZ GUERRA Ex Magistrado do Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Catedrático de Direito Constitucional da Universidade Carlos III de Madrid - Espanha
OWEN M. FISS Catedrático Emérito de Teoria de Direito da Universidade de Yale - EUA
TOMÁS S. VIVES ANTÓN Catedrático de Direito Penal da Universidade de Valência - Espanha
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Maria Francisca de Miranda Coutinho
Lógicas De (Des)Ordem VOL.1: Entre o desejo de Ordem e as ordens concretas (O-o)
SUMÁRIO I. Pressupostos Introdutórios 1. Criação, Autoria e Função de autor 2. Teoria, Práxis e Crítica 3. Apresentação da Obra e Introdução ao Objeto
II. Prolegômenos 1. Sujeito Barrado, Falta e Desejo 2. Das Lógicas da Sexuação às Lógicas de Ordenação 3. Pensar o Político pela Lógica do Todo: Desejo de Ordem (O); Ordens Possíveis (O); Desordem e Exceção (O-O)
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III. Entre o Desejo de Ordem e as Ordens Concretas (O-O)
93 1. Desejo de Verdade, Princípio Ordenador e Mito na Lógica do Todo 93 2. Ordem Fabricada: Mito de Origem e Ordenação Cosmológico e Teológico (A Ordem Social como Subproduto da Ordem Natural) 100 2.1. Crise da ordem fabricada e transição: absolutismo e mercantilismo 122 2.2. Do feudalismo ao absolutismo: policiamento e fabricação da ordem 140
3. Fabricando Ordem: Mito de Origem Teológico e Ordenação Contratual. Mito Político, Soberania e Povo
151 3.1. Liberalismo, ordem e gestão da propriedade 153 3.2. Policiamento e fabricação da ordem no projeto liberal: segurança, defesa da propriedade e capitalismo 175 3.3. Republicanismo: a radicalização do projeto do Povo Absoluto 188 3.4. Mito em operação: Estado, Povo e Capital como enodamento 198 3.4.1. Capitalismo e violência objetiva da estrutura 199 3.4.2. Ordem no capitalismo, personificação e abstração operacional: Estado e Povo 208 3.5. Crise da Fabricação da Ordem e Transição: Mito de Origem Científico e Superação do Welfare State 220
4. Fabricando As Condições Da Ordem Espontânea: Mito De Origem Científico – Big Bang, Evolucionismo – E De Ordenação Pelo Mercado E Costumes? 232 4.1. Hayek: Ataque ao “Racionalismo Construtivista” e Defesa da Ordem Espontânea de Mercado 4.2. Uma Teoria da Justiça para o Neoliberalismo: Nozick e o Libertarianismo 4.3. Ordoliberalismo, Constituição Econômica w Quarta Fase de Policiamento 4.4. Neoliberalismo, Ordoliberalismo e Biopolítica: Fabricando e Gerenciando Formas de Vida pela Lógica de Mercado 4.5. Policiamento na Era do Capital Financeiro Improdutivo: da Quarta para a Quinta Fase
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IV. Conclusões
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IV. Referências
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Para Jacinto, com amor e gratidão.
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I - Pressupostos Introdutórios 1. Criação, autoria e função de autor Michel Foucault, na conferência de 1969 “O que é um Autor?”, começa sua exposição indagando: “Que importa quem fala?”1 Tal questão já aparecia no artigo “Morte do Autor”,2 publicado em 1967 por Roland Barthes, e mostra como a escrita desponta como referente privilegiado de análise para pensar como a elaboração de um texto, pela via da linguagem, implica justamente a produção de um sujeito em ato e, ao mesmo tempo, seu apagamento, num produto novo – o texto – , que possui relativa autonomia e circula, gerando efeitos imprevisíveis e constituindo (outros) sujeitos pela via interpretativa. A obra de Foucault marca um ponto nodal no debate sobre apagamento do autor e como, diante do lugar vazio, uma função é exercida. O núcleo da análise é a escrita como “abertura de um espaço onde o sujeito que escreve não para de desaparecer”,3 sendo que “a marca do escritor não é mais do que a singularidade de sua ausência”.4 A função de autor, então, atrelada ao nome de autor, é um desdobramento da função sujeito e é característica de “um modo de existência, de circulação e de funcionamento de certos discursos no interior da sociedade”.5 Ela não está vinculada à atribuição de um discurso a um indivíduo; o autor não estaria do lado do escritor “real”. Mas tampouco remete ao “locutor fictício”. É na cisão e na distância entre ambos que a função de autor se instaura. Os autores produzem não apenas “uma obra”,6 mas algo a mais, que, através dela, a excede. Eles efetivamente produzem “uma possibilidade infinita de discursos”, sendo, assim, “instauradores de discursividade”.7 Isso permite, mais do que a produção de analogias, a constituição de um pensamento em diferença, que, ao mesmo tempo, difere e pertence ao que fundaram. Essa é a grande diferença entre o ato fundador de uma cientificidade e o ato fundador de uma discursividade. Enquanto o ato de cientificidade pode se reintroduzido “no interior da
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FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos. Estética – literatura e pintura, música e cinema. 2.ed. Rio de Janeiro: Forense, 2009, v.3, p. 264. Disponível em: <http://www.foucault.ileel.ufu.br/foucault/textos/estetica-literatura-e-pintura-musica-e-cinema-ditos-escritos-iii>. Acesso em: 22 jun. 2019. BARTHES, Roland. A morte do autor. In: ______. O rumor da língua. Lisboa: Edições 70, 1970. FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos. Estética – literatura e pintura, música e cinema. 2.ed. Rio de Janeiro: Forense, 2009, v.3, p. 268. Disponível em: <http://www.foucault.ileel.ufu.br/foucault/textos/estetica-literatura-e-pintura-musica-e-cinema-ditos-escritos-iii>. Acesso em: 22 jun. 2019; FOUCAULT, Michel. O que é um autor. Bulletin de la Societé Française de Philosophie, an. 63, n, 3, p. 73-104, jul./set. 1969, p. 7. Ibidem, p. 269. Ibidem, p. 274. FOUCAULT, Michel. O que é um autor. Bulletin de la Societé Française de Philosophie, an. 63, n, 3, p. 7, jul./set. 1969. Ibidem, p. 7.
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maquinaria das transformações que dele derivam”,8 o ato de discursividade está em retirada e desequilíbrio quanto às transformações anteriores. Ele, assim, mais do que redefinir um campo, efetivamente constitui um. Esse gesto constitui a possibilidade de um permanente retorno ao texto naquilo em que ele se mantém marcado “pelo vazio, pela ausência, pela lacuna”. 9 Diante disso, o apagamento do escritor permite uma abertura que constitui a função de autor. Isso não significa que o autor não existe, mas que seu aparecimento-obra-desaparecimento reflete um mecanismo pelo qual se coloca em movimento o processo de produção de sentido e de sujeitos pela circulação dos discursos a partir e em relação-diferença ao texto. Foucault é preciso em sua análise, mas deixa escapar dois pontos fundamentais. Primeiro: Foucault corretamente destaca que essa função de autor como instauração discursiva é relativamente rara, não é inerente à escrita em si. O discurso não pode ser integrado num sistema prévio de coordenadas; ele constitui, ao contrário, um novo campo. O que a função autor mostra, portanto, é a produção de uma obra como acontecimento. Ao discorrer sobre sua “teoria do evento”, Alain Badiou dispõe sobre o conceito de “acontecimento”. Segundo ele, um acontecimento ou evento está vinculado à noção de novidade, imprevisibilidade, que rompe um ciclo de repetição e dá início a um processo de verdade. Esse “evento” não pode, pelas regras do saber já estabelecidas, ser configurado como verdadeiro/falso, pois não é calculável a partir da situação. Ele, ao contrário, constitui os próprios referentes de calculabilidade. Diante dessa indecidibilidade, uma aposta se faz necessária para que o processo se afirme em sua novidade. Trata-se de uma aposta de nomeação que diz: “um evento teve lugar”. Esse gesto, ao mesmo tempo constitui e declara um sujeito do evento. Diante dele, instaura-se um processo de fidelização ao evento, que desloca o indiscernível do sujeito ao infinito genérico da verdade que vem a produzir. É, conforme Badiou, um trajeto sem conceito, que, como não se integra em saber prévio, demanda um forçamento de sentindo que produz uma “ficcionalização possível dos efeitos de seu ter-tido-lugar”.10 Ou seja, o forçamento é “a potente ficção de uma verdade acabada”,11 que força saberes novos sem verificação, estando a potência de uma verdade nesse “forçamento hipotétitco”, que busca totalização. O resto, que resiste sempre ao processo, garante que a cadeia de efeitos seja infinita e esteja sempre em movimento.
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Ibidem, p. 7. Ibidem, p. 7. BADIOU, Alain. Para uma nova teoria do sujeito: conferências brasileiras. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994, p. 48. Ibidem, p. 48.
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Dito isso, para Badiou, quanto ao evento “artístico”, há obviamente um escritor/artista que produz a obra. Todavia, “el sujeto constituido en el arte por el acontecimiento artístico es, precisamente, el sistema de las obras”.12 É o texto, a obra, o sujeito do evento histórico instaurador de um novo referente de saber que marca um processo de verdade. A verdade “es aquí el conjunto genérico de las consecuencias acontecimentales de esas transformaciones del arte”.13 Inspirado por Mallarmé (assim como Foucault e Barthes), Badiou trata o criador da obra como “causa, por supuesto, porque está incluido en la obra, pero es causa evanescente”.14 Ele, criador da obra, termina reduzido ao nome de autor, que opera como referente unificador que suporta o verdadeiro sujeito da transformação histórica: a obra. Ele, “nome”, fetichiza e reifica do sujeito de carne e osso que produziu, reduzindo-o a nome, sendo o foco nele obscurantizador do fato de que é a obra que permite a abertura de um processo de verdade pela sua incorporação por outros. É nesse sentido que Badiou dá um passo adiante de Foucault, mostrando como a obra, após criada, passa a ocupar o lugar de sujeito do movimento. O que resta ao sujeito que a realizou, seu nome, representa essa “função autor”, que é viabilizar um processo de instauração discursiva de abertura, a ser incorporada por outros. Esse foco no “outro”, que lê e interpreta a obra, remete ao valor da obra pelos efeitos discursivos que produz. É esse o ponto defendido por Barthes. Segundo ele, a morte do autor é necessária para a abertura permitida pela escrita. A questão é deslocar o lugar da verdade, “matar” assim o escritor como titular desse lugar: a Verdade da obra não está na intenção ou no sentido de quem a criou, mas no processo de interpretação e apropriação, com os efeitos concretos e discursivos que engendra. A função autor mostra a circulação da autoria da criação como gestação de algo novo e a autoria como processo de ressignificação, produzida por aquele que toma contato com ela. A função de autor não está em criar algo, mas é efeito de um processo concreto que escapa completamente à vontade de quem fez a obra e suas intenções. Todavia, sem um ato criativo não haveria condições de possibilidade do movimento se instaurar. O segundo ponto negligenciado por Foucault, mas também por Barthes e Badiou, é o ponto lacaniano de análise. A escrita não é apenas produzida por um sujeito. Ela, justamente enquanto é produzida, permite a produção de um sujeito em ato. Após isso, o texto opera como referente-mediador, que permite
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BADIOU, Alain. La filosofia y el acontecimento. Buenos Aires: Amorrotu, 2013, p. 97. Ibidem, p. 98. Ibidem, p. 100.
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que outros a reescrevam pela intepretação e pela sua circulação, de modo que efeitos concretos sejam produzidos. A função autor é inerente ao processo da relação hermenêutica entre texto-linguagem-sujeito, num movimento de abertura e transformação. A função autor não cessa de se inscrever, porque o texto abre um conjunto que não totaliza. E esse conjunto não é apenas dos sentidos, mas permite que dentre os efeitos possíveis esteja a constituição de sujeitos nesse processo pela produção e circulação de novos discursos. Foucault, Barthes e Badiou focam na função e na obra, na dimensão em movimento da estrutura, mas a questão é como o apagamento do sujeito é efeito e só é possível mediante sua aparição. Não se é sujeito o tempo todo; a escrita permite esse desvelamento, sendo o apagamento a marca da autonomização do sujeito-obra, que permite, pela sua apreensão e incorporação, que novos sujeitos apareçam e desapareçam, produzindo efeitos concretos e materiais no processo. A escrita, mais do que criar uma obra, marca a diferença entre tempo de pensamento, escrita e fala; e mais, ainda, cria um novo referente de espaço-tempo. Ela constitui aquele que escreve em ato como sujeito, mas permite que algo dele se escreva também e se desprenda como resto. Um resto que ganha “vida própria” e circula. Sendo assim, “que importa quem fala?”. Tudo e nada. Tudo, porque o texto, para surgir, deve ser produzido por alguém. Ele é produto de Um sujeito, inserido de forma singular e particular num contexto cultural. Todavia, ao mesmo tempo, o sujeito se produz enquanto tal na escrita; ele se des(vela). O sujeito se constitui, assim, como um efeito da escrita, que, numa lógica de dois tempos, opera retroativamente só-depois, realocando-o como causa fundante da própria operação de seu aparecimento. O trabalho de escrita confunde autoria e obra, virando do avesso a lógica de causalidade. Quem fala é sempre e, desde já, falado. O processo de escrita, atravessado pelo trabalho do inconsciente, marca, então, na produção do texto, uma posição de sujeito diante de um discurso que revela seu Lugar diante da falta e do desejo. O gérmen da inquietação que move a escrita, o qual é efeito da condição de sujeito inserido na civilização e barrado pela linguagem, marca, numa aposta de verdade sobre a realidade, a deflagração da verdade sobre o desejo do sujeito, em ato, diante de seu mal-estar face à falta fundamental. Sob à escusa de explicar uma questão, o sujeito se revela na própria questão em si e no estilo, num gesto de aposta de verdade pelo forçamento da linguagem que o desvela ao pretender significar a realidade. Assim, o processo de escrita abre a construção de uma posição de sujeito mediante a aposta na produção de um sentido sobre algo. E nada, porque uma vez escrita, a obra ganha vida própria e engendra um processo de abertura que permanentemente a reescreve nos gestos de interpretação e nos efeitos que o processo hermenêutico produz. Quem escreve desaparece, convertendo a obra em si no verdadeiro agente e
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sujeito do processo de circulação e transformação. Enquanto a escrita produz um sujeito, que se perfaz como nome próprio em ato, o nome de autor termina por dar consistência e unidade a uma obra que, vindo dele, mas sobre ele, passa a mover-se produzindo consequências imprevisíveis, inassimiláveis e eternas ante seus desdobramentos. O escritor vivente termina reduzido ao nome de autor. É nesse sentido que Foucault afirma que o escritor é mortal, mas a obra imortaliza o autor.15 Uma forma de se pensar a questão é vincular a noção de autor à de autoridade e confundi-la com a de escritor. A existência de dois significantes (autor-escritor; author-writer) reflete que estamos tratando de dois Lugares distintos. Mas é mais que isso. Para muitos, o autor é “uma unidade sólida que demarca territórios específicos no campo das ideias, constituindo um dos mecanismos de ordenação dos discursos”,16 sendo necessário para segurar a obra. Esse é um equívoco crasso. A Verdade da obra não está em si mesma, mas no processo de verdade que engendra, no movimento de produção de sentido e não-totalização que constitui uma cadeia elíptica e infinita. Não se trata de recorrer ao autor para buscar um sentido “autêntico” do texto. O texto não é uma foto do autor. Parte do valor da escrita está justamente em engendrar múltiplas compreensões e produções, que torna inócua e, por que não, contraproducente, a busca de uma decifração possível verdadeira/exata/única. A escrita não é fechamento totalizante (sobre quem e o que se escreve), onde há uma Verdade a ser depreendida; mas é abertura a múltiplas possibilidades de sentido e produção, que por sua vez geram efeitos concretos e materiais. Nas palavras de Barthes, negar um sentido último “liberta uma atividade a que poderíamos chamar contraideológica, propriamente revolucionária, pois recusar parar o sentido é afinal recusar Deus e as suas hipóstases, a razão, a ciência, a lei”.17 O texto abre, assim, um espaço-tempo de múltiplas dimensões. A narrativa do texto é entrecruzada por outros discursos de interpretação e é assim que a linguagem, por abertura e fechamento, circula. A voz da autoria da escrita está na produção-produzida do texto, mas que, por ser linguagem e abertura, permite que, no próprio ato de interpretação, constitua-se ali, também, um sujeito e se abra uma função de autor. Barthes defende a retirada da posição-focal do autor para o leitor. Segundo ele, “para devolver à escrita o seu devir, é preciso inverter o seu mito: o nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor”.18 Mas se autoria é mais
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Aula inaugural no Collège de France pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 3. ed. São Paulo : Edições Loyola, 1996. 16 ALMEIDA, Leonardo P. A função-autor: examinando o papel do nome do autor na trama discursiva. Fractal Revista de Psicologia, Niterói, v. 20, n. 1, p. 222, jan./jun. 2008. 17 BARTHES, Roland. A morte do autor. In: O rumor da língua. Lisboa: Edições 70, 1970. 18 Ibidem. 15
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uma posição de sujeito diante do discurso operacionalizado pela linguagem, a relação escrita-leitura marca justamente, para o leitor, a oportunidade de ali, na compreensão, de fazer-se, pelo texto, autor também. A posição de autor remete justamente ao limite da tensão entre o tudo e o nada; ela se perfaz nesse jogo de tudo-nada que se inscreve pelo texto. O autor é o que resta do sujeito escritor, quando a obra passa a ser o sujeito do movimento histórico. A função de autor, assim, está na criação de um ente textual que delimita a interpretação, mas a permite, também, em abertura. Há a autoria de um referente que é abertura de um novo espaço-tempo e permite processos de verdade e efeitos, sendo o primeiro de todos a produção em ato do escritor como sujeito autoral efeito de discurso. Por essa razão, optou-se de forma agressiva e provocadora, escrever essa obra em primeira pessoa, refletindo o processo de aparição na criação, apagamento na autonomização da obra e reaparição na interpretação, afastando o apagamento pretendido por narrativas contínuas em terceira pessoa, que se pretendem neutras, materializando um suposto hiato entre quem fala, o que se fala e como se fala. O “Eu” que escreve metaforiza justamente a produção de um sujeito em ato, que (se) constitui, mas desaparece no texto como abertura, para que Você, Leitor, se identifique enquanto Eu no processo de interpretação. Numa obra em que se tensiona a noção de ordem e desordem por uma dimensão lógica, o processo de escrita e o estilo marcam justamente a possibilidade de se posicionar de outra forma. Se dizer o sentido é um ato de poder, essa é uma bela materialização de um poder que circula. A verdade dessa obra irá se perfazer nos efeitos concretos que engendrará; e esses efeitos são, também, efeitos de sujeito. Que a função sujeito na criação da obra permita, eventualmente, que a função autor se exerça. Só o tempo dirá.
2. Teoria, práxis e crítica A proposta deste trabalho consiste em realizar uma teoria crítica. Todavia, é preciso deixar claro o que isso significa. No início da sua obra “Violência”, Slavoj Žižek critica o que ele chama de um sentimento de urgência antiteórico que domina a esquerda atual. A ideia de que não teríamos tempo para refletir, pois a necessidade de ação concreta é imediata, impediria que compreendêssemos as causas dos problemas, tornando, muitas vezes, a “ação pela ação” catártica e contraproducente. Ele questiona: Quer dizer que não devíamos fazer nada? Ou só ficar sentados à espera? Ao que deveríamos ter a coragem de responder: “SIM, é isso mesmo”. Há situações em que a única coisa realmente “prática” a fazer é resistir à tentação da acção imediata, para “esperar e ver” por meio da análise crítica e paciente.19
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ŽIŽEK, Slavoj. Violência: seis notas à margem. Lisboa: Relógio D’Água, 2009, p. 14.
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Essa proposição provocadora, que poderia ser sumarizada na frase “não aja, pense”, não deve ser compreendida como a defesa de uma posição idealista, que desvaloriza a importância da ação, colocando o lugar da verdade, da transformação e da produção no campo exclusivo das ideias. Trata-se, na verdade, de uma crítica à uma postura equivocada decorrente de uma leitura reducionista da 11ª tese de Marx sobre Feuerbach, de onde se depreendeu que, ao afirmar que “[os] filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; porém, o que importa é transformá-lo”,20 Marx estaria expurgando da teoria qualquer função no processo de transformação. A questão é de todo complexa. Toca no problema da redução da práxis à ideia de ação pela ação, que fetichiza o agir, tornando-o uma prática irrefletida que acaba impedindo que verdadeiras mudanças tomem parte. A falsa radicalidade termina por produzir um também falso sentimento de agir producente, mas que tem como resultado a manutenção ou reforço das coisas como já estão. Esse ponto é retomado por Žižek em duas outras reflexões. Em “A coragem da desesperança”, ele relaciona esse agir impulsivo com o que denomina “pseudoconflitos”,21 antagonismos que representam duas possíveis escolhas igualmente não desejáveis, mas que mantêm o espectro de produção das alternativas possíveis intocado, pois são expressão da mesma contradição imanente ao capitalismo. Ou seja, conflitos cujo papel é “precisamente bloquear a explosão das verdadeiras lutas”.22 Esses conflitos carregam um germe da insatisfação das pessoas com a forma como a sociedade se apresenta a elas. Todavia, há claramente uma dificuldade de se passar do ódio à rebelião e, após, ao novo. Segundo Žižek, “o problema é que nós quase nunca temos essa tríade em sua progressão lógica: o ódio caótico se dilui ou se transforma em populismo direitista; a rebelião tem êxito, mas perde força e se compromete de muitas maneiras”.23 Žižek destaca que parte do problema é que esses protestos (segundo ele, Occupy Wall Street, Ferguson, caso Syriza, etc.) seriam o que Walter Benjamin chama de “meios sem fim”: eles carecem de uma estratégia de longo prazo, pois não há propriamente um programa que permita pensar as bases de construção de uma nova forma de ordenação social, que toque no campo imaginário-simbólico que estabelecem os costumes, saberes e desejos que permeiam a vida cotidiana. Ou seja, o “agenciamento” “deixa intocado o problema-chave de como passar do protesto agenciador à imposição de um novo poder, de como esse novo poder 20 21 22 23
MARX, Karl. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stimer, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845-1846). Apple Book. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 1349. ŽIŽEK, Slavoj. A coragem da desesperança: crônicas de um ano em que agimos perigosamente. Rio de Janeiro: Zahar, 2019, p. 11. Ibidem, p. 11. Ibidem, p. 11.
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vai funcionar em oposição ao antigo”.24 Essa é a segunda reflexão: o agir pelo agir negligencia o fato de que a verdadeira transformação não está no ato em si, mas nos efeitos vistos apenas no “dia seguinte”: “O que teria acontecido no dia seguinte à vitória do povo: como eles iriam (re)organizar a sua vida cotidiana?”.25 Retornando elipticamente ao início da exposição, o que Žižek aponta é, por um lado, que nem toda ação pode ser qualificada como transformadora e, muito menos, como práxis. Por outro lado, a ação implica uma escolha, mas escolha sem reflexão é um puro meio sem fim. Dito isso, sua demanda pelo retorno ao pensar mostra que essa relação entre teoria e práxis demanda que se supere, também, a ideia da “teoria pela teoria”. Se a boa ação demanda um “pensar”, que pensar adequado é esse? Esse problema já havia sido brilhantemente discutido por Theodor Adorno em 1969, nas “Notas Marginais sobre Teoria e Práxis”. Logo no início, ele já expõe sua preocupação: Dever-se-ia formar uma consciência de teoria e práxis que não separasse ambas de modo que a teoria fosse impotente e a práxis arbitrária, nem destruísse a teoria mediante o primado da razão prática, próprio dos primeiros tempos da burguesia e proclamado por Kant e Fichte.26
Problemas fruto da separação entre teoria e práxis: (i) práxis arbitrária; (ii) teoria impotente e destruída pelo primado da razão prática. O sujeito abstrato transcendental como locus da Verdade,27 pautado numa racionalidade sempre-igual,28 implica a perda da experiência enquanto espontaneidade, imprevisibilidade e insegurança, e termina fundando uma ideologia da pureza do pensamento que impede que se veja a teoria como uma forma de práxis ante seu telos, bem como estabelecendo um agir desfigurado e vazio de conceito, que não conhece outra medida senão ele próprio e volta sobre si como fetichização.
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Ibidem, p. 16. Ibidem, p. 15. ADORNO, Theodor W. Notas marginais sobre teoria e práxis (1969). Disponível em: <https://www. marxists.org/portugues/adorno/1969/mes/notas.htm>. Acesso em: 11 abr. 2020, p. 1. Note-se que, embora Kant seja um dos alvos de ADORNO, ele próprio não se enxergava produzindo uma teoria separada da prática; ou melhor, não identificava como isso poderia ser efeito da teoria que pensava. Ao contrário, ele escreve o texto Teoría y Práxis justamente para demonstrar a aplicação de sua teoria no campo prático moral, político e cosmopolita. KANT, Immanuel. Teoría y práxis. Disponível em: <https:// www.philosophia.cl/biblioteca/Kant/teoria%20y%20praxis.pdf>. Acesso: 11 abr. 2020. Tal ponto é também debatido por Herbert Marcuse, na obra “O Homem Unidimensional”. Ele propõe uma crítica da forma como a racionalidade tecnológica retira a individualidade e a liberdade, colonizando seu pensamento e codeterminando suas ações. Ademais, ela gera um sistema totalitário de controle e dominação social, reduzindo a racionalidade individual à técnica e instrumentalização, tornando o pensamento acrítico, segundo o qual a construção de uma alternativa de forma de vida e de sociedade ficam alijadas. O pensamento unidimensional, para Marcuse, opunha-se ao dialético, porquanto só o último permitiria uma possível transformação, já que partira da pressuposição da diferença, do dissenso e não integração. No unidimensional, o homem apenas se submete aos poderes existentes, de forma cada vez mais intensa e totalizante, de modo que sequer é capaz de conhecer suas verdadeiras necessidades e faculdades, porquanto encontra-se alienado, reificado e instrumentalizado. O homem está, assim, desumanizado, enredado num sistema de exploração, manipulação e doutrinação. Não há verdadeira política. Ele aposta na produção de uma teoria social dialética e crítica, que permitam pensar as contradições, tensões e conflitos, de modo a produzir um ultrapassamento da situação rumo a luta, mudança e resistência, reinstaurando a crise e o conflito. MARCUSE, Herbert. O Homem Unidimensional: estudos da ideologia da sociedade industrial avançada. São Paulo: EDIPRO, 2015.