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MÚSICA, MÚSICA, TRANSGRESSÃO TRANSGRESSÃO E E CONTRACULTURA CONTRACULTURA JOSÉ ANTÔNIO JOSÉ ANTÔNIO GERZSON GERZSON LINCK •LINCK MARCELO • MARCELO MAYORA MAYORA

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CRIMINOLOGIA CRIMINOLOGIA CULTURAL CULTURAL E ROCKE VOL. ROCK2VOL. 2 ACAUAM OLIVEIRA ACAUAM OLIVEIRA GABRIEL ANTINOLFI GABRIEL ANTINOLFI DIVAN DIVAN ADRIAN BARBOSA ADRIAN BARBOSA E SILVA E SILVA GERMANOGERMANO SCHWARTZSCHWARTZ ADRIANA AMARAL ADRIANA AMARAL GUILHERME GUILHERME M. BOES M. BOES ALEXANDRE ALEXANDRE COSTI PANDOLFO COSTI PANDOLFO MARIANA MARIANA DE ASSIS BRASIL DE ASSIS E WEIGERT BRASIL E WEIGERT CAROLINECAROLINE GOVARI NUNES GOVARI NUNES PAULA GILPAULA LARRUSCAHIM GIL LARRUSCAHIM FABRÍCIO SILVEIRA FABRÍCIO SILVEIRA RENATA ALMEIDA RENATADA ALMEIDA COSTA DA COSTA FELIPE VIANA FELIPE ESTIVALET VIANA ESTIVALET THIAGO PIMENTEL THIAGO PIMENTEL BARBOSA BARBOSA LIMA LIMA

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organizadores

José Antônio Gerzson Linck Marcelo Mayora Moysés Pinto Neto Salo de Carvalho

MÚSICA, TRANSGRESSÃO E CONTRACULTURA: CRIMINOLOGIA E ROCK

VOL. 2 Acauam Oliveira Adrian Barbosa e Silva Adriana Amaral Alexandre Costi Pandolfo Caroline Govari Nunes Fabrício Silveira Felipe Viana Estivalet Gabriel Antinolfi Divan Germano Schwartz Guilherme Michelotto Boes

José Antônio Gerzson Linck Marcelo Mayora Mariana de Assis Brasil e Weigert Moysés Pinto Neto Paula Gil Larruscahim Renata Almeida da Costa Salo de Carvalho Thiago Pimentel Barbosa Lima

2020


Copyright© Tirant lo Blanch Editor Responsável: Aline Gostinski Capa e Diagramação: Renata Milan CONSELHO EDITORIAL CIENTÍFICO: Eduardo Ferrer Mac-Gregor Poisot Presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Investigador do Instituto de Investigações Jurídicas da UNAM - México

Juarez Tavares Catedrático de Direito Penal da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Brasil

Luis López Guerra Magistrado do Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Catedrático de Direito Constitucional da Universidade Carlos III de Madrid - Espanha

Owen M. Fiss Catedrático Emérito de Teoria de Direito da Universidade de Yale - EUA

Tomás S. Vives Antón Catedrático de Direito Penal da Universidade de Valência - Espanha

É proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, inclusive quanto às características gráficas e/ ou editoriais. A violação de direitos autorais constitui crime (Código Penal, art.184 e §§, Lei n° 10.695, de 01/07/2003), sujeitando-se à busca e apreensão e indenizações diversas (Lei n°9.610/98). Todos os direitos desta edição reservados à Tirant Empório do Direito Editoral Ltda.

Todos os direitos desta edição reservados à Tirant lo Blanch. Av. Brigadeiro Luís Antônio, 2909 - sala 44 Jardim Paulista, São Paulo - SP CEP: 01401-002 www.tirant.com/br - editora@tirant.com.br Impresso no Brasil / Printed in Brazil


organizadores

José Antônio Gerzson Linck Marcelo Mayora Moysés Pinto Neto Salo de Carvalho

MÚSICA, TRANSGRESSÃO E CONTRACULTURA: CRIMINOLOGIA E ROCK

VOL. 2 Acauam Oliveira Adrian Barbosa e Silva Adriana Amaral Alexandre Costi Pandolfo Caroline Govari Nunes Fabrício Silveira Felipe Viana Estivalet Gabriel Antinolfi Divan Germano Schwartz Guilherme Michelotto Boes

José Antônio Gerzson Linck Marcelo Mayora Mariana de Assis Brasil e Weigert Moysés Pinto Neto Paula Gil Larruscahim Renata Almeida da Costa Salo de Carvalho Thiago Pimentel Barbosa Lima

2020


SUMÁRIO APRESENTAÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9

PARTE I - REPRESSÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 TROPICALISTAS NA PRISÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 Marcelo Mayora A CRIMINALIZAÇÃO DO FUNK BRASILEIRO OU O DIA EM QUE RENNAN DA PENHA FOI PARAR NA GAIOLA . 29 Mariana de Assis Brasil e Weigert “O BAGULHO JÁ TÁ DOIDO, JOGA A MÃOZINHA PRO CÉU... É CHOPP E TEL!”: TECNOBREGA E APARELHAGENS NO FRONT DA TERRITORIALIZAÇÃO DA EXCLUSÃO EM BELÉM DO PARÁ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44 Adrian Barbosa e Silva

PARTE II - RUA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 54 PIXAÇÃO: FLUTUAÇÕES ENTRE RESISTÊNCIAS DO COTIDIANO, CRIMINALIZAÇÃO E COMODIFICAÇÃO DAS TRANSGRESSÕES . . . . . . . . . . . . 55 Paula Gil Larruscahim ECOS DO TERRORISMO LÍRICO REVIDANDO E RESISTINDO: POETAS VIVOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71 Alexandre Costi Pandolfo DOS ESPAÇOS, SONS: A CRIMINOLOGIA COMO EXPERIÊNCIA CULTURAL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82 Guilherme Michelotto Boes

PARTE III - RUÍDO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92

BRASIL, 2019: O ATIVISMO PUNK CONTRA O FASCISMO (OU “I LOVE THE SMELL OF POOR DEAD IN THE MORNING”) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93 Salo de Carvalho ATIRE A PRIMEIRA PEDRA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 103 Gabriel Antinolfi Divan


5 SUMÁRIO AUTOR AUTOR

SONHAR OU SOBREVIVER: LIMITAÇÕES AO SONHO NA MÚSICA BRASILEIRA POPULAR . . . . . . . . . . . . . . . . . José Antônio Gerzson Linck RAP PROGRESSISTA, QUEBRADA CONSERVADORA: RECONFIGURAÇÕES DO NEGRO DRAMA NO RAP BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Acauam Oliveira PRODUÇÃO DE PRESENÇA E MEDIAÇÕES NO ABRIL PRO ROCK: UMA ANÁLISE DA TRANSGRESSÃO E DA RESISTÊNCIA DE UM FESTIVAL NO NORDESTE DO BRASIL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Thiago Pimentel Barbosa Lima Caroline Govari Nunes Adriana Amaral REVOLUÇÕES EXEMPLARES DE ATAHUALPA Y US PANQUIS. UM ESTUDO DE ARQUEOLOGIA DAS MÍDIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Felipe Viana Estivalet Fabrício Silveira O ROCK É O FILHO BASTARDO DO BLUES E DO COUNTRY (E DO DIREITO!) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Germano Schwartz Renata Almeida da Costa OS FUTUROS FERIDOS DO RADIOHEAD . . . . . . . . . . . . . . . Moysés Pinto Neto

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AUTORES Acauam Oliveira: Professor de Literatura da Universidade Federal de Pernambuco. Adrian Barbosa e Silva: Professor de Direito Penal e Sociologia do Centro Universitário do Pará (CESUPA) e da Faculdade Estácio do Pará (FAP). Doutorando e Mestre em Direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA) com período sanduíche na Università di Bologna (UNIBO). Mestre em Sociologia Jurídico-Penal pela Universitat de Barcelona (UB) e Universidad para la Cooperación Internacional (UCI). Especialista em Direito Penal e Criminologia pelo Instituto de Criminologia e Política Criminal (ICPC). Adriana Amaral: professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e pesquisadora do CNPq. Realizou Estágio Sênior (CAPES) na University of Surrey, UK. É coordenadora do Grupo de Pesquisa CULTPOP - Cultura Pop, Comunicação e Tecnologias. Foi DJ, crítica musical e produtora de eventos. Alexandre Costi Pandolfo: Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais (PUCRS/PIBIC-CNPq). Mestre em Criminologia e Controle Social (PUCRS/CAPES). Doutor em Teoria da Literatura (PUCRS/CNPq). Pós-Doutor em Letras (UFPel/PNPD-CAPES). Pós-doutor em Literatura (UFSC/PNPD-CAPES). Caroline Govari Nunes: Mestre e Doutora em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola da Indústria Criativa da Unisinos, com estágio de doutorado no Department of Art History & Communication Studies da McGill University (CAN). Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). É crítica


7 AUTORES AUTOR AUTOR

musical e cobre shows no blog The Backstage https://thebackstageblog.wordpress.com/. Fabrício Silveira: Mestre em Comunicação e Informação (UFRGS). Doutor em Ciências da Comunicação (Unisinos, RS). Pós-Doutor pela School of Arts and Media (Salford University, UK). Atualmente realiza estágio pós-doutoral – bolsa PNPD Capes – junto ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS, em Porto Alegre. Felipe Viana Estivalet: Doutorando em Ciências da Comunicação do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação – Unisinos. Gabriel Antinolfi Divan: Doutor em Ciências Criminais (PUCRS). Professor do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Direito / Mestrado em Direito, da Universidade de Passo Fundo – RS. Coordenador do Projeto de Pesquisa “Estado de Direito, Sistemas de Justiça e Crítica Jurídica: horizontes de uma nova política” (PPGD/UPF). Germano Schwartz: Reitor e Professor do Mestrado em Direitos Humanos da UniRitter. Pesquisador Produtividade em Pesquisa CNPq (Nível 2). Pesquisador Gaúcho (FAPERGS). Guilherme Michelotto Boes: Mestre em Ciências Criminais e Doutor em Ciências Sociais pela PUCRS. José Antônio Gerzson Linck: Mestre e Doutor em Ciências Criminais (PUCRS). Professor da Universidade La Salle. Marcelo Mayora: Doutor em Direito (UFSC). Mestre em Ciências Criminais (PUCRS). Professor da Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Mariana de Assis Brasil e Weigert: Mestre em Criminologia e Execução Penal (UAB), Mestre em Ciências Criminais (PUCRS), Doutora em Psicologia Social e Institucional (UFRGS), professora de Direito Penal e Criminologia.

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AUTORES 8 TITULO TITULO

Moysés Pinto Neto: Mestre em Ciências Criminais (PUCRS); Doutor em Filosofia (PUCRS). Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Luterana do Brasil. Paula Gil Larruscahim: Doutora em Criminologia Global e Cultural pelas Universidade de Kent e Utrecht. Renata Almeida da Costa: Coordenadora e Professora do PPGD (Doutorado e Mestrado) da Universidade La Salle. Salo de Carvalho: Professor adjunto de direito penal e criminologia da Faculdade Nacional de Direito/ UFRJ e professor do programa de pós-graduação (mestrado e doutorado) em Direito da Unilasalle/RS. Mestre (UFSC) e Doutor (UFPR) em Direito. Thiago Pimentel Barbosa Lima: doutorando (Bolsa CNPq) pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Graduado em Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco.


APRESENTAÇÃO A história deste livro já foi em grande parte contada por Pedro da Silva Moreira, então Vice-Presidente do CAAR, no que poderíamos considerar como seu primeiro volume, “Criminologia Cultural e Rock”, escrito em co-autoria pelos quatro organizadores e publicado há nove anos na coleção “CriminologiaS: Discursos para a Academia”. Ele começa em 2009 com um minicurso elaborado em conjunto com os estudantes por um de nós, Moysés Pinto Neto, durante sua passagem na Faculdade de Direito da UFRGS a partir de alguns insights pontuais que percorriam as aulas de Criminologia, em geral com finalidade de ilustrar com exemplos certas transformações histórico-culturais. A partir do ano seguinte, com a passagem de Salo de Carvalho pela mesma Faculdade, o evento ganhou asas e recebeu o acréscimo de José Linck e Marcelo Mayora, tornando-se múltiplo e com mais de uma edição. Sabíamos que havia uma expectativa por aproximações contraculturais no campo do Direito, mas não pensávamos que o evento seria tão bem recebido. Depois da UFRGS, o evento passou por uma quase “turnê” pelo Rio Grande do Sul, em diversas faculdades (UFSM, UPF, FURG, UniRitter, UCPEL, entre outras), e pelo resto do Brasil (Rio de Janeiro, Santa Catarina, Brasília e Paraná). Eram outros tempos. Em pleno 2010, o Direito do qual saíamos vinha finalmente desacorrentando-se do formalismo cafona e da prisão dogmática dos engravatados para aventurar-se em novas experiências que envolviam em escala cada vez maior a aproximação com literatura, cinema e outras artes. O ambiente de otimismo com o futuro e a visível transformação política - com uma juventude emergente cheia de energia e sedenta por conhecimento e engajamento - alimentavam uma sinergia de elementos que confluíam nos pequenos acontecimentos que cada um desses eventos sintetizava.


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Nesse mesmo período, por exemplo, Salo e Moysés juntaram-se a Felipe de Oliveira para montar o projeto Criminologia de Garagem, programa de debates criminológico com a mesma pegada do rock em um Youtube ainda desabitado do engarrafamento de conteúdo e influenciadores que hoje o povoam. A recepção foi igualmente ótima. Nem tudo foram flores. Houve situações em que nossas falas, que cobiçavam um tom mais subversivo, acabavam sendo engolidas pelo espetáculo circense que são os congressos jurídicos nas suas showlestras, ou simplesmente descontextualizadas em meio a palestras sobre recursos e protocolos para advogados. Mesmo assim, o evento circulou e acabou desaguando na escrita e publicação de Criminologia Cultural e Rock, com quatro textos que traduziam uma boa parte do que abordávamos nas palestras. As transformações continuaram aceleradas e depois de tentarmos adaptar o evento a uma nova composição mais múltipla sem sucesso acabamos “dando um tempo” até retomar a ideia em 2019. Hoje, certamente o clima é completamente diverso. Por boas razões, é quase impossível imaginar um evento que abordasse exclusivamente o rock (embora já houvesse pinceladas de MPB, samba e rap anteriormente) em um contexto no qual tantas coisas explosivas aconteceram na música. E, quase simetricamente, seria impossível hoje pensar em um evento com a composição que imaginamos naquela época, ignorando questões de gênero, raça e outros debates fundamentais que ingressaram e transformaram a esfera pública brasileira. Por outro lado, o clima em que é lançado é completamente distinto: da euforia subversiva passamos à resistência ao fascismo. Em um ambiente saturado pela retórica do ódio, do ressentimento e da aniquilação da alteridade, afirmar a vida nas suas expressões criativas é condição para sobreviver e imaginar outros mundos possíveis. Esse sempre foi um lugar típico no qual a arte, a contracultura e o pen-


APRESENTAÇÃO 11

samento em geral se sentiram muito à vontade, e é ecoando os que resistiram em outras épocas e resistem hoje que o livro foi pensado.

* * * O livro é dividido em três partes. Na primeira parte, o foco está na repressão, algo que sempre permeou as contraculturas na sua tensão com as forças da ordem. Marcelo Mayora trabalha a relação entre tropicalistas e Ditadura Militar a partir do episódio da prisão de Gilberto Gil. Mariana de Assis Brasil e Weigert reflete sobre a recente prisão do funkeiro Rennan da Penha e o quadro repressivo que cai sobre o funk “proibidão” na periferia. Finalmente, Adrian Silva aborda um festival de tecnobrega no Nordeste a partir da tensões com a polícia e os processos de estigmatização dos envolvidos. Na segunda parte, intitulada simplesmente “rua”, os textos percorrem as urbanidades insurgentes que tornam a luta na cidade uma das principais formas de subversão na contemporaneidade. Assim, Paula Gil Larruscahim conecta a Criminologia Cultural com a cultura do pixo, apresentando as resistências grafitadas pelos muros das cidades. Alexandre Pandolfo, por sua vez, narra a resistência dos poetas vivos, intervenções urbanas promovidas pela juventude negra que se baseiam em poderosas performances poéticas resistindo contra o extermínio generalizado. Finalmente, Guilherme Boes narra sua própria relação com os sons da cidade na correlação entre a progressiva audição que foi adquirindo ao mesmo tempo em que vivia sua pesquisa em torno às transgressões na urbe. Finalmente, a terceira parte, intitulada “ruído”, aborda diretamente a relação entre música e contracultura a partir de variados contextos. Salo de Carvalho e Gabriel Divan, cada um a seu modo e de formas bem distintas, abordam o punk e sua atualidade como forma de resistência, passando por The Clash, Dead Kennedys, Sex Pistols e a cena hardcore brasileira anti-autoritária. Salo aborda o contraponto ao fascismo característico do punk em face da emergência


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do governo Bolsonaro. Gabriel passa pela experiência do The Clash como subversão da cena na sua eclosão no importante ano de 77. José Antonio Gerzson Linck aborda a temática do sonho e seu bloqueio na música popular brasileira, percorrendo imagens de futuro e pesadelo que perpassam artistas tradicionais como Chico Buarque e Ivone Lara, assim como contemporâneos como Racionais e 509E. Acauam Oliveira perpassa o rap e o negro drama aproveitando para pensar as transformações na periferia brasileira nas últimas duas décadas, sempre em um constante excesso em relação a representações mais estáticas do que pode significar a cena hoje em dia em relação ao que já foi, por exemplo, nos anos 90. Thiago Pimentel Barbosa Lima, Caroline Govari Nunes e Adriana Amaral abordam o Festival Abril pro Rock como fenômeno transgressor no contexto de resistência articulado também em torno à oposição ao governo Bolsonaro e tendo como elemento de mediação o peso, cuja noção agregadora é traduzida na presença. Felipe Viana Estivalet e Fabrício Silveira abordam a banda gaúcha Atahualpa y Us Panquis a partir da arqueologia das mídias, apresentando uma análise das variações (pela variantologia) nas recepções de diferentes exemplares musicais (samplers, remix, mashups, etc), terminando por abrir uma relação de ruptura com o passado que o recebe sem simplesmente o reproduzir nostalgicamente. Germano Schwarz e Renata Costa traçam um paralelo entre a história do direito e a história do rock. E, fechando o volume, Moysés Pinto Neto busca compreender as variações nos últimos álbuns do Radiohead a partir da temática dos futuros feridos na era do Antropoceno.


Parte I

REPRESSÃO


TROPICALISTAS NA PRISÃO Marcelo Mayora1

INTRODUÇÃO Neste texto tratarei da prisão de Caetano Veloso e Gilberto Gil, iniciada em dezembro de 1968, poucos dias após a promulgação do Ato Institucional n. 5. Para tanto, percorrerei a narrativa de Caetano sobre sua experiência de sequestro institucional, que consta no capítulo Narciso em Férias, do livro Verdade Tropical2.

QUANDO EU ME ENCONTRAVA PRESO NA CELA DE UMA CADEIA “Não diga que você deixou esses filhos da puta lhe deixarem nervoso”, disse o pai para o filho, naquela ocasião já sem as fartas melenas, na chegada a Salvador, após dois meses de prisão. Na terceira parte do livro Verdade Tropical Caetano Veloso relata e reflete de modo pungente sobre sua experiência nas prisões da ditadura. Ainda que a história não resulte em morte e não carregue a radicalidade da tortura física (em sentido estrito), o texto sensível de Caetano aponta para o absurdo dos regimes autoritários e para o ridículo de seus personagens. Caetano e Gil dormiam no apartamento do primeiro, acompanhados das irmãs Dedé e Sandra, então suas companheiras, no Centro de São Paulo, nas redondezas da Ipiranga com a Avenida São João, quando a campainha tocou. A empregada doméstica Hilda não 1 2

Doutor em Direito (UFSC). Mestre em Ciências Criminais (PUCRS). Professor da Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Veloso, Caetano. Verdade Tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Doravante referenciarei apenas a página do livro, entre parênteses, no corpo do texto.


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AUTOR AUTOR

TROPICALISTAS NA PRISÃO

disse acorda amor, mas constrangida bateu na porta do quarto: eram os homens. A narrativa de Caetano remete diretamente a O Processo, de Kafka: o autor de Alegria Alegria é Joseph K. e na sala do apartamento estão policiais: “nenhum deles usava farda ou qualquer outro signo exterior que revelasse sua função” (p. 351). O fato é que, embora à paisana, eram agentes da Polícia Federal. Caetano conta: “um deles, então, fez uma sugestão que primeiro me pareceu estapafúrdia mas logo me encheu de medo: é melhor você levar sua escova de dentes” (p. 348). Os policiais disseram que buscariam Gilberto Gil, que morava a poucas quadras, e então o amigo ainda conseguiu avisá-lo sobre o que estava ocorrendo e lhe sugeriu que retornasse ao próprio apartamento, para esperar os policiais. Foi o que fez Gil. Caetano narra que “vê-lo surgir à porta do edifício me fez sentir como se eu é que estivesse trazendo os policiais para prendê-lo” (p. 350). Ambos já estávamos num caminhonete robusta, na companhia daqueles homens a quem nunca tínhamos visto e cujas maneiras e aparência eu nunca imaginara que viesse um dia a ver de perto (...) Tampouco a caminhonete era uma viatura de polícia que pudesse ser reconhecida com tal. (...) Assim, nós nos sentíamos como vítimas de um sequestro comum, embora de certo modo soubéssemos que estávamos exatamente inaugurando um período em que, no Brasil, cada vez mais pessoas sentiriam medo das autoridades e não dos delinquentes, culminando com o refrão de Chico Buarque nos anos 70: “Chame o ladrão!” (p. 351).

Os policiais levaram os artistas para a sede da Polícia Federal no Rio de Janeiro, onde ficaram o dia todo “numa sala grande cheia de agentes atarefados” (p. 354). Não foram submetidos a qualquer tipo de interrogatório e a noite foram conduzidos à outra viatura que os levaria não se sabia para onde. “As primeiras fardas que vi mudaram o tom das coisas em minha cabeça” (p. 354), conta Caê. Então Caetano e Gil estavam sob a guarda de “soldados fardados portando armas grandes e negras” (p. 354), na sede do I Exército, no Centro do Rio de Janeiro, ao lado de Central do Brasil, na Ave-

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MARCELO MAYORA

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nida Presidente Vargas. Se a música Enquanto seu lobo não vem, do disco Tropicália, de 1968, fosse posterior à prisão, poderíamos supor que tratasse do episódio: Vamos passear na floresta escondida/ meu amor/ vamos passear na avenida/ vamos passear nas veredas no alto/ meu amor/ há uma cordilheira sob o asfalto/ A Estação Primeira de Mangueira/ passa em ruas largas/ passa por debaixo da avenida Presidente Vargas/ Vamos passear nos estados unidos/ do Brasil/ vamos passear escondidos/ vamos desfilar pela rua onde a Mangueira passou/ vamos por debaixo das ruas/ Debaixo das bombas/ das bandeiras/ debaixo das botas/ debaixo das rosas dos jardins/ debaixo da lama/ debaixo da cama/ debaixo da cama.

Neste local ocorre uma cena digna de Buñuel: um general está sentado em uma mesa e os compositores estão do lado oposto da sala, distantes. O general os olha fixamente e então toca uma campainha. Depois de “intermináveis minutos”, dois soldados chegaram “trazendo bandejas como o jantar do general. Era galinha. Ele fez calmamente sua refeição na nossa frente, como se estivesse num palco” (p. 356). Na sequência, os compositores baianos foram levados, em viatura do Exército, para o quartel da polícia do Exército, na Tijuca. “Fui jogado numa solitária mínima onde só havia um cobertor velho no chão, uma latrina e um chuveiro que lhe ficava quase exatamente por cima” (p. 357), recorda Caetano. O autor nos oferece uma análise da experiência prisional, no contexto da repressão política à arte, digna de nota. Nela está presente a temática do tempo no cárcere, que passa de modo diferente: “os dias daquela semana na solitária da Polícia do Exército às vezes são lembrados por mim como um só dia que pareceu durar uma eternidade” (p. 359). Os efeitos subjetivos do cotidiano em uma cela, capaz de embaralhar o pensamento e gerar efeitos duradouros: “hoje sei que saí (venho saindo) da prisão como quem sai de um sonho, ao passo que, enquanto preso, eu julgava Santo Amaro, o Solar da Fossa e a TV Record é que tinham sido um sonho do qual não era possível sair” (p. 359). A vivência na instituição total impõe-se de tal forma, como excesso de realidade, que todo

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TROPICALISTAS NA PRISÃO

resto parece irreal. A mente do artista “se esforçava para não sucumbir de todo à impossibilidade de compatibilizar as lembranças com a situação que era vivida então” (p. 359) e “se nunca ver ninguém era um fato que contribuía decisivamente para criar essa impressão, outra limitação – que se perpetuou por todo o período da prisão - a intensificava: não ter acesso a espelhos. Com efeito, por dois meses não vi meu próprio rosto” (p. 359). No transcorrer dos dias o diálogo com um velho comunista (para quem cantava, a pedido, Súplica, de Orlando Silva), o tráfico de livros e o início do banho de sol produziram um estímulo que encorajou o preso a acreditar que o mundo de fora da prisão era real. Ênio Silveira, dono da Editora Civilização Brasileira, preso no mesmo local, lhe forneceu clandestinamente livros (a leitura era proibida): O estrangeiro e O bebê de Rosemary. O primeiro conseguiu extrair de Caetano um verdadeiro entusiasmo, “o chamado prazer estético”. O segundo foi considerado um livro instigante, mais hollywoodiano do que o filme que depois veio a ser feito e um incentivo aos mecanismos da paranoia. Caetano conta: “essas leituras (...) me divertiram e, ainda que fosse só pela intensificação do medo, fizeram o tempo passar” (p. 367). A espera era pelo interrogatório, pois até aquele momento as razões da prisão eram desconhecidas. Isto não ocorreu no quartel da polícia do exército e dias depois de ingressarem neste local os amigos tropicalistas estavam nos fundos de um camburão, na total escuridão (p. 370). O carro em que estávamos não era do exército nem da Polícia Federal. Talvez pertencesse à Polícia Militar. É mais provável que fosse da Polícia Civil, pois lembro de dois ou três homens à paisana tomando os assentos da frente. Isso dava a impressão de que qualquer coisa podia acontecer conosco sem que ninguém se desse conta. Um aparelho repressor tão confuso, sem mandado de prisão, sem interrogatório e com tantas polícias envolvidas, produzia a sensação de que tínhamos sido atirados num inferno de que os solavancos no escuro e as curvas fechadas ao som do grito dolorido mas impiedoso da sirene eram apenas um indício (p. 371).

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MARCELO MAYORA

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A descrição de um aparelho repressor tão confuso e com tantas polícias envolvidas nos ajuda a ver que a repressão do regime autoritário não foi instrumentalizada apenas pelas agências militares. Também as demais polícias, notadamente a federal, a civil e a militar estiveram intimamente envolvidas com as arbitrariedades. Agora Caetano e Gil estavam noutro quartel da polícia do exército, na Vila Militar, em Deodoro, Rio de Janeiro. Nesta ocasião, foram entregues aos “novos hospedeiros militares” e tratados com alguma violência física: “algemados com as mãos para trás, levamos alguns empurrões e trancos enquanto nos apressavam o passo” (p. 372). Nesse segundo quartel, os tropicalistas foram presos “em xadrezes grandes, onde vários outros já se encontravam presos” (p. 372). Na cela de Caetano, eram “garotos de alguma associação católica de bairro ligada a alguma padre de esquerda” (p. 372), ao passo que Gil “estava na companhia de vários escritores e jornalistas famosos”, como Ferreira Gullar, Antônio Callado e Paulo Francis (p. 373). Neste quartel onde fazia “um calor de ficção científica” (p. 373), também havia presos comuns, “ladrões e contraventores das redondezas da vila, pequenos criminosos da Zona Norte” (p. 379). Também neste local convivia-se com a tortura e ouvia-se “gritos horrendos vindos do corredor” (p. 379). Caetano recorda que esta experiência na Vila Militar o fez “ter uma ideia diferente da sociedade brasileira, a ter uma medida da exclusão dos pobres e dos descendentes de escravos” que as estatísticas nunca lhe dariam (p. 379). Quem sabe a inspiração para as composições de Haiti ou Fora da Ordem? “Um dia pensei que ia morrer”: Um dia pensei que ia morrer. Um soldadinho vindo até a grade do xadrez e ficando olhando para mim com uma expressão de medo e pena. Parecia nitidamente saber de algo horrível que estava prestes a me acontecer, sobre o que ele não me podia dizer nada. (...) Era mesmo indubitavelmente perceptível que iam fazer alguma coisa física comigo. Eu podia ler no ritmo dos atos e das falas de todos, no próprio desenrolar do caminho à minha frente, que eles iam fazer

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AUTOR AUTOR

TROPICALISTAS NA PRISÃO

algo drástico com meu corpo. Eu sabia que não se tratava de sexo, nem de tortura, nem mesmo uma surra: era evidentemente uma coisa simples e limpa – um gesto só – a que eles davam um ar pomposo mas não denso o bastante para que eu pensasse que iam me matar. No entanto, foi exatamente isso que eu pensei quando, no trecho final da alameda, onde já não havia senão uma porta aberta numa última casinha, o oficial ordenou que eu parasse e não olhasse para trás. (...) Parei em obediência à ordem, e senti como que um soco gelado dentro da minha barriga, no centro do meu corpo, e de repente minhas pernas não existiam. Não caí, contudo. Esperei um tiro. Mantinha-me de pé com uma firmeza digna que não correspondia ao desfalecimento que só eu sabia estar sentindo. O oficial mandou que eu virasse à direita e entrasse na casinha cuja porta estava aberta. Era a barbearia do quartel. O barbeiro já estava com a tesoura e a máquina nas mãos para derrubar minha famosa cabeleira” (1997, p. 381).

A saga dos tropicalistas ainda continuaria e dias depois foram transferidos para outras prisões. Caetano foi levado para um Quartel dos Paraquedistas do Exército e Gil para outro. Neste local a vida tornou-se “fisicamente mais digna” (p. 388), as visitas da esposa Dedé foram permitidas e os banhos de sol regularizados. Caetano reflete com sensibilidade sobre a experiência, notando, por exemplo, a alegria e o prazer que sentiu ao passar a ter acesso a revistas com fotos de mulheres, bem como por poder estar perto de sua companheira Dedé; que “nunca amou tão intensamente as mulheres quanto quando estava no quartel dos para-quedistas” e que nunca os homens lhe foram “tão asquerosos e repelentes”. O filho de Dona Canô conta: “um mês entre militares me fez rejeitar, com asco, o homem como possível objeto sexual” (p. 393). A música e a inspiração também se fizeram presentes. Certo dia um oficial iniciou uma conversa amena sobre música popular, que resultou em um pedido para que o artista cantasse Fracasso, de Francisco Alves, o que foi atendido: “sob um sol brutal, com um cano de metralhadora às costas, eu cantava suavemente para o oficial do dia: ‘... Porque só me ficou da história triste desse amor/A

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