Evandro Pontel
LÓGICAS DE EXCEÇÃO A condição humana e a política entre a vida (nua) e o (bio)poder no pensamento de Giorgio Agamben
Evandro Pontel
LÓGICAS DE EXCEÇÃO
São Paulo 2020
Copyright© Tirant lo Blanch Brasil Editor Responsável: Aline Gostinski Assistente Editorial: Izabela Eid Capa e diagramação: Natália Carrascoza Vasco Revisão Técnica: Isis Hochmann de Freitas CONSELHO EDITORIAL CIENTÍFICO: Eduardo Ferrer Mac-Gregor Poisot Presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Investigador do Instituto de Investigações Jurídicas da UNAM - México
Juarez Tavares Catedrático de Direito Penal da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Brasil
Luis López Guerra Ex Magistrado do Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Catedrático de Direito Constitucional da Universidade Carlos III de Madrid - Espanha
Owen M. Fiss Catedrático Emérito de Teoria de Direito da Universidade de Yale - EUA
Tomás S. Vives Antón Catedrático de Direito Penal da Universidade de Valência - Espanha
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Evandro Pontel
LÓGICAS DE EXCEÇÃO A condição humana e a política entre a vida (nua) e o (bio) poder no pensamento de Giorgio Agamben
São Paulo 2020
Para Ricardo Timm de Souza, por ensinar-nos o desafio de pensar radicalmente a vida e aquilo que a circunscreve – enquanto potência que excede suas formas e os modos nos quais se realiza, ainda além do medo, dos enquadramentos e esquematismos que a determinam – a tarefa por excelência nos tempos que correm.
SUMÁRIO AGRADECIMENTOS..................................................................................... 8 EPÍGRAFE....................................................................................................... 9 PREFÁCIO..................................................................................................... 10 1. FONTES DO PENSAMENTO E CRÍTICA DO PRESENTE: UMA ANÁLISE DA CULTURA OCIDENTAL ............................................ 12 1.1 FONTES DO PENSAMENTO E APROXIMAÇÕES METODOLÓGICAS........................................................................... 12 1.2 A AUSÊNCIA DA PRESENÇA: A OBRA DE ARTE E O HOMEM SEM CONTEÚDO...................................................... 22 1.3 O INAPREENSÍVEL: A ESTÂNCIA DA CRÍTICA...................... 28 1.4 INFÂNCIA E HISTÓRIA: A DESTRUIÇÃO DA EXPERIÊNCIA..... 36 1.5 O LUGAR DA NEGATIVIDADE: A LINGUAGEM E A MORTE... 41 2. O EMERGIR DA (BIO)POLÍTICA NO OCIDENTE.............................. 50 2.1 A CENTRALIDADE DA VIDA NA POLÍTICA DO OCIDENTE.... 50 2.2 MICHEL FOUCAULT – O EMERGIR DA BIOPOLÍTICA NO LIMIAR DA MODERNIDADE......................... 55 2.3 GIORGIO AGAMBEN – BIOPOLÍTICA ENQUANTO (RE)PRODUÇÃO DA VIDA NUA...................................................... 68 3. A MÁQUINA GOVERNAMENTAL: EXCEÇÃO, SOBERANIA E GOVERNAMENTALIDADE..................................................................... 91 3.1 VIDA E DIREITO: ESTADO DE EXCEÇÃO E A GUERRA COMO PARADIGMA POLÍTICO..................................................... 92 3.2 A VIDA QUE RESTA E O CAMPO: O INDIZÍVEL E O TESTEMUNHO................................................................................ 107 3.3 PARADIGMA (OIKONÔMICO) ECONÔMICO DE GOVERNO DA VIDA................................................................. 114 3.4 OFFICIUM E DEVER: O LEGADO OPERATIVO NA ESTRUTURAÇÃO DA ONTOLOGIA OCIDENTAL...................... 127 4. POLÍTICA, INOPEROSIDADE E FORMA-DE-VIDA NA PERSPECTIVA DE UMA ONTOLOGIA DA VIDA............................ 140 4.1 A VIDA ENQUANTO POTÊNCIA QUE EXCEDE SUAS FORMAS.... 141 4.2 POR UMA FORMA DE VIDA INAPROPRIÁVEL: A EXPERIÊNCIA FRANCISCANA...................................................... 158
SUMÁRIO 7
4.3 POR UMA TEORIA DO USO.................................................... 170 4.4 POR UMA FORMA-DE-VIDA: REVERSO E CONTRAPONTO À VIDA EXPOSTA E SUJEITADA....................................................... 188 4.5 POR UMA ONTOLOGIA DA VIDA.......................................... 197 CONSIDERAÇÕES (IN)CONCLUSIVAS.................................................. 207 REFERÊNCIAS ........................................................................................... 214
AGRADECIMENTOS A todos que de uma ou outra forma, direta ou indiretamente, contribuíram no percurso deste estudo, especialmente ao Prof. Dr. Ricardo Timm de Souza, pela profícua, cuidadosa e dedicada orientação na realização deste estudo; pela confiança, amizade e atenção, presença sem a qual essa tarefa seria irrealizável. Ao Prof. Dr. Augusto Jobim do Amaral, presença constante desde o mestrado, pela amizade, apoio, indicação de bibliografias, diálogos e sugestões ao longo da pesquisa. Ao Prof. Dr. Nythamar de Oliveira e (demais colegas editores da Revista Veritas), pelos aprendizados e pela disponibilidade. Ao Prof. Dr. Marcelo Leandro dos Santos, Prof. Dr. André Brayner de Farias e Prof. Dr. José Roque Junges pela disposição, leitura, apreciações e sugestões. Ao PPG-Filosofia, pelo recurso designado para a publicação dessa obra. À família Hochmann de Freitas pela sempre acolhida e amizade. À Isis H. de Freitas, presença amorosa, pelo incentivo e disposição em ler e revisar o texto. À Capes/CNPq, pela bolsa que possibilitou esta pesquisa. Aos professores e secretaria do PPG em Filosofia da PUCRS, especialmente ao Prof. Coordenador do PPGFilosofia PUCRS, Dr. Agemir Bavaresco, pela amizade e pelo apoio. Aos amigos e colegas de caminhada, especialmente Jair I. Tauchen e Nuno Castanheira, pela convivência e partilha. Aos amigos Néstor Sanchez Moreira e Francisco Ernesto Benavides Morales, que, mesmo distantes geograficamente, foram presença animadora nesse caminhar. Ao Prof. Dr. Selvino José Assmann (in memoriam), pela simplicidade e sabedoria, de quem fica a lembrança e a memória de seu legado na tradução das obras de Giorgio Agamben. Aos amigos Olmaro P. Mass e Moises Furmamm pela amizade, apoio e convivência. Ao meu pai Getútio T. Pontel (in memoriam); e minha mãe Arlete T. da Costa Pontel que na distância, e em minha ausência/presente, foi apoio e incentivo permanente.
EPÍGRAFE O mundo contemporâneo, em seu veio principal e por exigência inelutável do tardo-tecno-capitalismo, é de facto uma imensa e infernal máquina, ou maquinismo, de transformação contínua de qualidades, singularidades, em quantidades, generalidades, ou seja, de transformação do diferente em indiferenciado [...] Mas desde o século XX, e ainda mais nas intempéries desse início de século e milênio no qual habitamos, o real debate-se exatamente nesta contradição: o “está consumado” – “consumado” que não significa, ao fundo, senão a violentação do passado e do futuro no presente totalizante –, sua impessoalidade escatológica, deixa por trás de si um volume imenso de restos, traços, espectros, espessuras, sonhos vivos, não aceitos, não relacionados, não resolvidos. O maciço de ruínas benjaminianas continua seu crescimento aparentemente inelutável. E, em meio a esses fatos, as hipócritas promessas de felicidade, esses espíritos vagantes, insuflam-se sempre novamente de aceitabilidade no mundo de escolhas muito escassas. Ricardo Timm de Souza Se a política parece, hoje, atravessar um eclipse permanente, no qual se apresenta em posição subalterna em relação à religião, à economia e até mesmo ao direito, isso é porque, na medida em que perdia consciência de seu estatuto ontológico, ela deixou de se confrontar com as transformações que progressivamente esvaziaram de dentro suas categorias e conceitos. Giorgio Agamben Um dia a humanidade brincará com o direito, como as crianças brincam com os objetos de uso, não para devolvê-los a seu uso canônico e, sim, para libertá-los definitivamente dele. Giorgio Agamben Sonhar é estar insatisfeito com o existente, querer algo mais, investir no novo, fazer do horizonte a própria morada, do caminhar a maneira constante de ser. Acreditar que a realização do homem é possível, apesar, de todas as amarras criadas por ele mesmo ou pela sociedade. Giovanni Corso
PREFÁCIO O estado de exceção, hoje, atingiu exatamente eu máximo desdobramento planetário. G. AGAMBEN Pensar é transpor. E. BLOCH
Os redemoinhos e labirintos do tempo presente ressaltam uma urgência peculiar, proposta inequivocamente a quem deseja pensá-lo, esse tempo, com consequência: abdicar absolutamente de soluções fáceis, planas e tentadoras. A complexidade dos meandros civilizatórios e das obras de cultura sempre benjaminianamente bárbaras configuram uma paisagem peculiar, resultado do cultivo desordenado de uma imensidade de fatores que não se dá a uma abordagem que não seja radical. É nas raízes temporais, espaciais – sociais e históricas – do mundo contemporâneo, em todas as configurações nas quais se podem ex-por, que se localiza a esperança de superar as tantas cartas de boas intenções inócuas que a ocidentalidade nos legou e nas quais tanto se apostou. Um mundo que queima em todas as suas dimensões, desde a natureza sufocada pela expropriação desmedida de seus constitutivos em nome da ganância de Mamon até as dimensões inconscientes individuais e sociais incapazes de lidar com a tentação pertinaz de Thanatos, este mundo significa um desafio filosófico excepcional, sujeitando quem se aventura no entremeio dos horrores ao perigo limítrofe de ser tragado pela tangência dantesca com o horror inominável. E, todavia, tal é o problema filosófico por excelência, hoje: partir “das coisas e dos problemas”, como dizia Husserl, para ir além da opacidade que parece, à primeira vista, instransponível. Giorgio Agamben, o ator pasoliniano, o esteta teólogo-jurista, o grande filósofo que oferece um dos mais amplos e profundos repertórios de penetração no universo das realidades contemporâneas, dá bem testemunho da coragem necessária para profanar o estatuído; esta tem sido, até agora, a súmula e o movente de sua obra. E, todavia, como todas as grandes obras, o pensamento agambeniano abre mais portas do que fecha. Exige, a bem de seu aggiornamento (sim!) e de sua melhor compreensão, não somente o domínio técnico-filosófico de sua estrutura,
PREFÁCIO 11
mas a transposição de sua rica letra, que corre o constante e natural perigo de permanecer, por algum motivo, encravada em uma dobra do tempo. Essa transposição é condição de sua própria sobrevivência e florescimento, hoje necessários como nunca. É a essa transposição filosófica que se propõe Evandro Pontel na presente obra Lógicas de exceção - a condição humana e a política entre a vida (nua) e o (bio) poder no - pensamento de Giorgio Agamben. A par de evidenciar um extraordinário domínio da obra agambeniana, o autor pretende, consequentemente e com sucesso evidente, ir além da própria obra, criando condições para que pensamentos, conceitos e categorias emersos ao longo do já longo e tão profícuo labor do filósofo italiano joguem o jogo dialético de mútuo esclarecimento e, tão importante quanto, de mútuo estranhamento. Desse modo, categorias já consagradas na história do pensamento contemporâneo – talvez a mais conhecida seja a de “estado de exceção” -, às quais estamos todos tão acostumados, rebrilham novamente desde o fundo de si mesmas, des-compreendendo sua prévia compreensão, desencontrando-se de si mesmas, à Adorno, e reaparecendo por detrás das sombras e do ressecamento com os quais o desvario contemporâneo ameaça todo pensar e toda criação. Em uma herança de generosa infidelidade, Pontel nos incita a reler Agamben e o mundo no qual este pensou e pensa, outra vez, e ainda uma outra... Que este livro encontre os leitores abertos ao seu convite inadiável, eis o que desejamos. Ricardo Timm de Souza
Outubro de 2020
1. FONTES DO PENSAMENTO E CRÍTICA DO PRESENTE: UMA ANÁLISE DA CULTURA OCIDENTAL Esse capítulo inicial visa apresentar as fontes do pensamento de Giorgio Agamben na perspectiva de uma leitura crítica da cultura ocidental e da modernidade, tomando como ponto de partida as obras que precedem o projeto homo sacer, com o objetivo de explicitar que a compreensão de toda a proposta filosófica de Giorgio Agamben necessariamente precisa ter presente essa direção, pois entendemos que os pilares de todo pensamento agambeniano estão alicerçados e (ex)postos de modo ímpar nessa parte preambular. Isso se tornará explícito por meio da abordagem dos temas presentes nesse âmbito: desde a questão metafísica [fundamento negativo] em uma leitura crítica do legado do pensamento metafísico ocidental, a condição humana em um cenário de niilismo crescente nas sociedades; o estatuto da obra de arte [autonegação] e o artista como homem sem conteúdo, a estância da crítica e o exercício filosófico de negatividade, o fim da experiência e a linguagem, eixos articuladores e fundamentais para se compreender a estrutura política nos tempos que correm.
1.1 FONTES DO METODOLÓGICAS
PENSAMENTO
E
APROXIMAÇÕES
A figura de Giorgio Agamben ocupa um lugar cada vez mais destacado no panorama do pensamento contemporâneo.1
Giorgio Agamben, filósofo e jurista italiano, ocupa atualmente uma destacada posição no cenário do pensamento contemporâneo. Considerado um dos mais influentes pensadores da atualidade, sobretudo por inaugurar uma abordagem inovadora e original, analisa a contemporaneidade e o que ainda pode significar agir politicamente. Nesse sentido, desenvolve uma análise profunda acerca do agir político nos tempos atuais, navegando por vários campos do saber, desde o direito, a filosofia, a biologia, a teologia, a história e a estética, o que lhe proporciona a elaboração de um pensamento inovador, uma leitura crítica acerca da estruturação da política no Ocidente e a cultura moderna, bem como os reflexos desse processo na condição humana nos tempos que correm. 1
CASTRO, Edgardo. Introdução a Giorgio Agamben: uma arqueologia da potência. Trad. Beatriz de Almeida Magalhães. Belo Horizonte: Autêntica, 2012, p. 9.
FONTES DO PENSAMENTO E CRÍTICA DO PRESENTE: UMA ANÁLISE DA CULTURA OCIDENTAL
Sua teorização proporciona uma leitura crítica acerca da estruturação da política no Ocidente, o instituto jurídico-político que demarca as democracias ocidentais, o estado de exceção tornado regra, técnica de governo – “[...] que requer que haja porções sempre mais numerosas de residentes desprovidos de direitos políticos e que, no limite, todos os cidadãos sejam reduzidos a vida nua [...]”2 – em um paradigma de governabilidade de domínio planetário do reino da oikonomia da vida.3 A constatação inicial que possibilita o exercício filosófico e crítico do presente, precisa tomar como ponto de partida: O “estado de exceção tornado regra”, que tudo habita, mesmo, e apesar de tudo, os sobreviventes. Essa constatação inicial, sem a qual tudo o que segue é finalmente ininteligível. Mas apenas a constatação inicial, pois o que se lhe segue é a tarefa: a desconstrução do opaco, ou seja, da violência, a crítica da razão violenta, a desidolatrização dos ídolos.4
A leitura acerca da formação da cultura ocidental, – a condição humana – exposta no decorrer das obras, desde o período que precede a obra Homo sacer: o poder soberano e a vida nua5, e a inauguração do projeto filosófico que leva o nome da obra inicial, a partir da qual o pensador italiano passa a delinear suas pesquisas genealógicas, em que seu pensamento passa a ter maior notoriedade e expansão, o torna um dos interlocutores centrais na contemporaneidade para aqueles que se propõem discutir a política em um viés filosófico. Isto é, essas obras se constituem em lócus privilegiado na composição de seu pensamento, motivo pelo qual acreditamos que, uma análise acerca da condição humana e da fundação da política no Ocidente, precisa necessariamente remontar às bases da formulação do pensador italiano, o que, por conseguinte, tornará possível captar e explicitar os elementos centrais presentes desde as obras primigênias, que proporcionam uma análise prospectiva da fundação da cultura e da política no Ocidente. A trajetória filosófica do pensador italiano, nascido em Roma no ano de 1942, formado em Direito, Filosofia e Teologia, remonta ao ano de 1970, quando 2 3
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AGAMBEN, Giorgio. Meios sem fim: notas sobre a política. Trad. Davi Pessoa Carneiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2015, p. 120. Frente ao amplo crescimento do interesse pelo pensamento de Giorgio Agamben, destacamos as seguintes obras que se constituem em exposições introdutórias ao seu pensamento: MILLS, Catherine. The Philosophy of Agamben. Acumen: Stocksfield, 2008; DURANTEYE, Leland de la. Giorgio Agamben: a critical introduction. Stanford: Stanford University Press, 2009; MURRAY, Alex. Giorgio Agamben. Routledge, Abbingdon, 2010; CASTRO, Edgardo. Introdução a Giorgio Agamben: uma arqueologia da potência. Trad. Beatriz de Almeida Magalhães. Belo Horizonte: Autêntica, 2012; SALZANI. Carlo. Introduzione a Giorgio Agamben. Genova: Il Melangolo, 2013. SOUZA, Ricardo Timm de. Ética como fundamento II: pequeno tratado de ética radical. Caxias do Sul: Educs, 2016, p. 17. AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua I. Trad. Henrique Burigo. 2. ed. Belo Horizonte: UFMG, 2010.
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LÓGICAS DE EXCEÇÃO - EVANDRO PONTEL
publica sua primeira obra intitulada O homem sem conteúdo. Entretanto, somente aproximadamente duas décadas depois seria revisitada e republicada, alcançando o devido reconhecimento, em uma investigação estética articulada com a ética e a política. Essa obra, juntamente com as três obras subsequentes, Estâncias (1977) Infância e História (1978) e A linguagem e a morte (1982), de acordo com Edgardo Castro, constituem um ciclo e podem ser vistas como uma leitura crítica da modernidade, “[...] que começa com a questão da arte e conduz até a ética e a política, das quais se ocupará em obras posteriores [...] [Nelas] elege seus temas e seus autores de referência, formula suas hipóteses, forja seu vocabulário e vislumbra os problemas que deverá enfrentar.”6 Desse modo, perceberemos que, por meio dos temas expressos nesse conjunto de obras que vão desde a obra de arte, a metafísica ocidental, a estética, a linguagem e o modelo de racionalidade que se desenvolve no Ocidente, os efeitos da técnica e a tecnificação no fazer humano e a experiência, conformam uma leitura crítica da constituição da condição humana no Ocidente. Esses aspectos são centrais para se entender a política nos tempos que correm, desde a relação de exceção, o evento fundador da política, até a compreensão de biopolítica, produção e reprodução da vida nua, produto resultante de um poder soberano constituído, em vista de indicar a proposta de uma política que vem que possa romper com o duradouro eclipse presente no campo político da atualidade. Frente a esse panorama e a ampla gama de questões implicadas na investigação filosófica do pensador italiano, de acordo com Edgardo Castro, “[...] a compreensão dos trabalhos sucessivos depende, em grande medida, de haver seguido esse percurso”7. Isto é, em vista de possibilitar a compreensão dos proble6
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CASTRO, Edgardo. Introdução a Giorgio Agamben: uma arqueologia da potência. Trad. Beatriz de Almeida Magalhães. Belo Horizonte: Autêntica, 2012, p. 15. Nessa direção, vale destacar a posição de Sabrina Seldmayer, da qual compartilhamos e que buscaremos explicitar na presente pesquisa: indicar e apontar os elementos essenciais presentes na obra do pensador italiano, suas influências, autores que lhe foram fundamentais e, sobretudo, demonstrar que qualquer tentativa de classificar em períodos o conjunto de sua obra se constitui em um equívoco. Desde um princípio, quer dizer, desde a obra primigênia, Giorgio Agamben explicita com clareza em que consistiria sua ampla pesquisa filosófica [embora posteriormente seja nomeado, no pós Homo sacer: o poder soberano e a vida nua, como projeto ‘homo sacer’], que iria perpassar desde a filosofia, teologia, direito, economia, arte, política em vista de repensar a ética, a ontologia e, por conseguinte, a política e o Ocidente em novos termos. “[...] há uma forte inclinação de certos ensaístas de dividirem a obra agambeniana, iniciada com a publicação de O homem sem conteúdo, em 1970, a uma virada ocorrida 25 anos depois, com o projeto Homo sacer. ‘Jovem Agamben’ e ‘Maduro Agamben’, ou ‘Reflexões heidegger-hegelianistas’, de um lado, e ‘Inclinações benjaminianas’, de outro, e até mesmo uma divisão entre questões estéticas relacionadas ao problema da subjetividade com a linguagem versus pesquisas posteriores sobre política contemporânea e os dispositivos de poder. Tais categorizações, além de limitarem a compreensão do método agambeniano, forçosamente ignoram que seu trabalho se move por polarizações e tensões. Não me parece haver rupturas e quebras no percurso. Um exemplo contundente é a questão ontológica da potência, cuidadosa leitura de Aristóteles que, [...] perpassa, como um fio contínuo, toda a obra.” SELDMAYER, Sabrina. Giorgio Agamben: literatura e inoperosidade. In: OLIVEIRA, Maria Rosa Duarte de; PALO, Maria José. Agamben, Glissant, Zumthor: Voz. Pensamento. Linguagem. São Paulo: EDUC, 2013, p. 24. CASTRO, Edgardo. Introdução a Giorgio Agamben: uma arqueologia da potência. Trad. Beatriz de Almeida Magalhães. Belo Horizonte: Autêntica, 2012, p. 15.
FONTES DO PENSAMENTO E CRÍTICA DO PRESENTE: UMA ANÁLISE DA CULTURA OCIDENTAL
mas cruciais que permeiam a vida e o agir politicamente que, por conseguinte, determina a vida – e o problema político contemporâneo exposto e tematizado no decorrer da pesquisa – é imprescindível que sejam identificados os elementos que o fundamentam, sobretudo os conceitos de experiência, infância, linguagem e arte, estética como contributos essenciais, os quais possibilitam compreender a política em Giorgio Agamben.8 A estruturação de seu pensamento e as influências na constituição de seu exercício filosófico compreende uma constelação de pensadores que, de modos específicos, contribuíram na construção e desenvolvimento de sua arquitetônica filosófica. Inicialmente há que se destacar a figura de Martin Heidegger, do qual foi aluno com 24 anos de idade nos seminários proferidos nos anos de 19671968 em Le Thor, no sul da França, acerca de Hegel e Heráclito. Ademais, seu pensamento é tributário de autores como Aristóteles, Arendt, Hobbes, Hegel, Nietzsche, Benjamin, Benveniste, Foucault, Deleuze, Spinoza e Kafka. Entretanto, uma figura ímpar nesse cenário é Hannah Arendt, com a qual trocou correspondências e era leitor ávido em sua juventude. Não menos importante é Michel Foucault, de quem se diz herdeiro na constituição de seu método filosófico, e em sua analítica do sujeito, acerca dos processos de (des)subjetivação, as relações de poder e a concepção de biopolítica. Além desses, o contato com as obras de Walter Benjamin, na condição de tradutor e de editor, pela editora Einaudi] e seu particular interlocutor, Carl Schmitt. Além disso, uma das etapas fundamentais na configuração de seu pensamento são as pesquisas empreendidas no Instituto Aby Warburg, em Londres, que influenciaria diretamente na produção das obras, Estâncias e Infância e história, bem como na constituição de seu método genealógico/arqueológico.9 8
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Nesse sentido, corrobora Cláudio Oliveira ao comentar a Série Filô [da qual a obra O homem sem conteúdo faz parte], em apresentação ao pensamento de Agamben, ao afirmar: “A tetralogia Homo Sacer, que tem início com a publicação de O poder soberano e a vida nua, na Itália, em 1995, e que segue até hoje (após a publicação, até agora, de oito livros, divididos em quatro volumes), foi entendida por muitos como uma mudança de rota, em direção à discussão política. O que é um erro e uma incompreensão. Desde o primeiro livro, O homem sem conteúdo, a discussão com a arte em geral e com a literatura e a poesia em particular é sempre situada dentro de uma discussão que é política e na qual o que está em jogo, em última instância, é o destino do mundo ocidental e, agora também, planetário.” OLIVEIRA, Cláudio. Série FILÔ Agamben. In: AGAMBEN, Giorgio. O homem sem conteúdo. Trad. Claudio Oliveira. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2013, p. 206. Paula Fleisner compartilha dessa posição, ao afirmar: “La recepción de Agamben parece signada por la escisión de su obra en dos etapas bien definidas que suelen explicarse como intereses sucesivos o como un desplazamiento de su pensamiento de una esfera a la otra: por un lado, un momento de reflexiones específicamente estéticas y por otro, sus textos más recientes de caráter político [...] Contrariamente a esta idea, seguiendo una sugerencia del propio Agamben, intentaré mostrar aquí que el proyecto filosofico agambeniano incluye no sólo una reflexión estética, y una reflexión política [...] que enbloba y unifica ambas esferas de manera original y que, aunque acaso por siempre inacabada, ha venido gestándose desde un comienzo”. FLEISNER, Paula. La vida que viene: estética y filosofía política en el pensamiento de Giorgio Agamben. 1 ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Eudeba, 2015, p. 28. Sobre o método nos debruçaremos mais adiante ao analisarmos toda a influência de Michel Foucault na obra Signatura Rerum, porém, cabe referenciar, conforme observa José Luis Villacañas: “El problema de
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LÓGICAS DE EXCEÇÃO - EVANDRO PONTEL
Um aspecto de suma importância na arquitetônica filosófica de Giorgio Agamben é a análise sobre a política no Ocidente, a constituição e estruturação da modernidade – um pensar que coloca em xeque os conceitos e as categorias cunhados e utilizados pela tradição do pensamento político10, [com a tarefa fundamental de repensar o legado da tradição do pensamento filosófico à luz da relação entre poder soberano e vida nua] estruturação elaborada a partir da influência benjaminiana – enriquecida pela reflexão acerca da biopolítica e da experiência dos totalitarismos sistematizada por Hannah Arendt. Isto é, faz-se necessário entender o projeto homo sacer no conjunto das obras nas quais desenvolve uma série de temas que estão interligados ao seu arcabouço teórico, inclusive inovando e impulsionando as investigações de Hannah Arendt e Michel Foucault. Por conseguinte, há que se ter cuidado com reduções simplistas, que por vezes tratam seu pensamento de modo reducionista, fazendo uso de categorias isoladas, como por exemplo, homo sacer, vida nua, estado de exceção, profanação, inoperosidade, posto que, certamente, constituem-se eixos centrais em sua proposta filosófica, mas não limitadores do pensamento em questão. Entretanto, uma tentativa de situar a centralidade do seu labor filosófico, embora não seja uma tarefa simples circunscrevê-la, poderia ser enunciada da seguinte forma: (re)pensar as condições de uma crítica profunda da política na contemporaneidade e, tal exercício reflexivo tem suas bases nas obras precedentes, a partir da análise da constituição do humano e da animalidade na cultura do Ocidente. A história e a compreensão de experiência, temas que possibilitam um olhar crítico acerca da metafísica, da estética, da linguagem e, portanto, presentes desde meados dos anos 70. Dito de outro modo: o endereçamento da proposição agambeniana reside em que nos tempos que correm uma das tarefas fundamentais do pensamento, da filosofia que vem, se situa em repensar uma nova política e uma nova ética – que estejam à altura dos desafios da atualidade – mediadas por uma compreensão de uma nova ontologia11 – para além de uma ontologia da operativila arqueología consiste en investigar el paso de los enunciados a los paradigmas [...] “Todo fenómeno es el origen” [SR, 41], ha dicho Agamben. Pero mi impresión es que esta frase queda bien en el terreno de Aby Warburg y de las imágenes. Toda imagen es ya arcaica”. VILLACAÑAS, José Luis. Problemas de método. In: SALVETTI, Ésio Francisco; CARBONARI, Paulo César; SIVIERO, Iltomar. Giorgio Agamben: filosofia, ética e política. Passo Fundo: IFIBE, 2015, p. 83. 10 Nessa direção, de uma análise crítica da teoria política Hans-Georg Ficklinger destaca: “Para uma melhor compreensão do que está em jogo na atual constelação da teoria política, com suas raízes na virada da modernidade e na derrubada da concepção medieval, é necessário voltar-nos às raízes históricas da conceituação política, elucidando certos significados originais importantes”. FICKLINGER, Hans-Gerorg. A filosofia política na sombra da secularização. São Leopoldo: Unisinos, 2016, p. 12. 11 Nessa direção, são elucidativas as palavras de Sandro Luiz Bazanella e Selvino José Assmann: “É uma forma de pensar o mundo, a vida em sua totalidade naquilo que lhe é próprio, em sua condição singular imanente. Ou seja, Agamben pretende fazer uma ontologia da vida, ou dito de outro modo, uma ontologia da potência que incida diretamente nas mais diversas formas-de-vida que se articulam na história em geral e na contemporaneidade de maneira específica”. BAZZANELLA, Sandro; ASSMANN, Selvino. A máquina/dispositivo
FONTES DO PENSAMENTO E CRÍTICA DO PRESENTE: UMA ANÁLISE DA CULTURA OCIDENTAL
dade e do comando – traço peculiar do pensamento ocidental.12 Um dos aspectos centrais expostos ao longo do percurso filosófico agambeniano é a compreensão de vida13, enquanto categoria central, a partir da qual se torna possível pensar os limites da condição humana, a constituição do humano, a linguagem e a voz, temas presentes nos estudos iniciais, mas que se tornam fundamentais para a análise posterior. A compreensão de vida, conforme destaca Mauro Rocha Baptista: “[...] é base para sua análise posterior da divisão entre zoé e bíos como vida natural e vida qualificada, assim como a cisão entre a voz da zoé e a língua da bíos reflete-se na impossibilidade de testemunhar do muçulmano e em sua insistência em sobreviver.”14 A vida, embora sua amplitude em termos conceituais, na figura do muçulmano assume uma condição paradoxal, paradigma do vivente nos campos de concentração, aquilo que resta da vida humana – que emerge como paradigma da vida capturada no campo – Auschwitz15, está impossibilitado de testemunhar, de explicitar sua experiência por meio da língua, sua bíos – como capacidade humana de ter uma vida qualificada, pois foi reduzido à mera situação de sobrevivente, no exercício de suas funções vitais, quer dizer, de animalidade, em sua zoé. Essa condição indica um dos temas fundamentais, do humano/inumano, da humanidade/animalidade, que aponta para a necessidade de se repensar o estatuto da vida e suas implicações éticas – a forma como a vida – bíos e zoé são tocadas através dos dispositivos de poder no Ocidente – em uma relação de inclusão ex-
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político: a biopolítica, o estado de exceção, a vida nua. In: LONGHI, Armindo (Org.) Filosofia, política e transformação. SP: LiberArs, 2012, p. 64. Cf. AGAMBEN, Giorgio. Opus Dei: arqueologia do ofício. Trad. Daniel Arruda Nascimento. São Paulo: Boitempo, 2013. De acordo com Paula Fleisner os debates mais significativos nos últimos trinta anos acerca dos temas como a comunidade, a animalidade e a biopolítica, se situam em uma vertente tributária de Nietzsche. Isso indica as considerações do pensador alemão acerca do tema vida, sua crítica à metafísica e a compreensão de “vivente”, que influiria desde Michel Foucault, (e os demais pensadores franceses). De um modo particular os pensadores italianos Massimo Cacciari, Roberto Esposito e Giorgio Agamben. Em Giorgio Agamben, destaca quatro aspectos fundamentais a partir da herança nietzschiana: A forma como Agamben pensa a “vida”, além do conceito de “sujeito”; a importância da metodologia genealógica, por meio de Foucault em vista de pensar vida; a ideia de uma politicidade originária da “vida”, como premissa para entender o funcionamento das sociedades contemporâneas; o papel central da arte para Pensar a vida, aspecto presente na herança nietzschiana no pensamento italiano”. Cf.: FLEISNER, Paula. La “vida” entre estética y política. En busca de las posibles herencias nietzscheanas en el pensamiento de Giorgio Agamben. Pléyade. Revista de humanidades y ciencias sociales, n. 17, enero-junio, 2016, p. 65-88. Sobre a influência do pensador alemão, conferir: ARALDI, Clademir Luís, VALEIRÃO, Kelin (Orgs.) Os herdeiros de Nietzche: Foucault, Agamben e Deleuze. Pelotas: NEPFil online, 2016. Nessa direção, uma leitura que estabelece uma correlação e discute as influências e a questão da vida a partir de Nietzsche e em Agamben pode ser conferida em: BAZZANELLA, Sandro Luiz; ASSMANN, Selvino José. A vida como potência a partir de Nietzsche e Agamben. São Paulo: LiberArs, 2013. BAPTISTA, Mauro Rocha. Notas sobre o conceito de vida em Giorgio Agamben. Revista Profanações. Ano 1, n. 1, jan./jun. 2014, p. 54. Essa temática será desenvolvida a partir da obra O que resta de Auschwitz: o arquivo e a testemunha. Trad. Selvino José Assmann. São Paulo: Boitempo, 2008, análise acerca da máquina governamental, cap. 3, item, 3.2, p. 111, A vida que resta e o campo: o indizível e o testemunho.
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clusiva, ou exclusão inclusiva – relação de exceção, por excelência, que por meio do dispositivo da máquina antropológica torna a vida em vida nua.16 Nessa direção buscaremos situar as quatro obras que, em certo sentido, compreendemos indicar [uma espécie de uma imagem preambular] as questões basilares presentes no pensamento filosófico de Giorgio Agamben. Sem se levar em conta esse aspecto fundamental, implicaria em uma leitura que limita e restringe o conjunto da proposição agambeniana, qual seja: de um lado, comprometeria o entendimento de sua arquitetônica filosófica, seu legado, de um modo mais amplo e, por outro, particularmente, limitaria a exposição acerca de uma política que vem que possa ter como ponto de partida a vida (nua) como dado básico fundamental, em vista da construção de uma proposta ética que possa restituir o humano a um ethos e uma comunidade. Uma entidade política em que a condição humana possa ser endereçada à felicidade. A pergunta central que se constitui como guia no labor filosófico pode ser assim enunciada: Existe, nos tempos que correm, a possibilidade de se conceber algo como uma vida para a qual [uma forma-de-vida], que em seu viver, esteja em jogo o próprio viver, uma vida da potência, endereçada à felicidade? Entretanto, antes de adentramos na referida problematização acerca das obras que, de um modo geral, são situadas anteriormente ao projeto homo sacer, explicitaremos algumas aproximações acerca do método, isto é, o caminho, o percurso no qual o pensador italiano desenvolve suas pesquisas. Nesse âmbito, a referência maior é Michel Foucault, do qual Giorgio Agamben se diz seguidor e, além disso, de quem retoma uma série de questões e problemas presentes ao longo de sua pesquisa filosófica. Desse modo, ao inserir-se em um diálogo com uma ampla gama de pensadores da tradição, Daniel Arruda Nascimento observa: “À atenção ao diálogo tradicional e ao que surge incessantemente como uma proveniência Giorgio Agamben dá o nome de arqueologia. A filosofia apresenta-se, portanto, como uma arqueologia, ou estudo da arkhé.”17 A obra Signatura Rerum: sobre el método18 aborda três estudos focados na questão do método, como enuncia o próprio título, a saber: o conceito de paradigma, a teoria das assinaturas e, por fim, a relação entre história e arqueologia, em um constante diálogo com a herança foucaultiana. Ao iniciar a obra o pensador 16 Cf. AGAMBEN, Giorgio. O aberto: o homem e o animal. Trad. Pedro Mendes. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. 17 NASCIMENTO, Daniel Arruda. Do fim da experiência ao fim do jurídico: percurso de Giorgio Agamben. São Paulo: LiberArs, 2012, p. 21. 18 AGAMBEN, Giorgio. Signatura rerum: sobre el metodo. Trad. Flavia Costa y Mercedes Ruvituso. Barcelona: Editorial Anagrama, 2010.
FONTES DO PENSAMENTO E CRÍTICA DO PRESENTE: UMA ANÁLISE DA CULTURA OCIDENTAL
italiano busca circunscrever a compreensão de paradigma científico em Michel Foucault19, embora não apareça explicitamente em seu rol de obras o que entende por paradigma. A partir do percurso do pensador francês, o pensador italiano delineia o seu método e esclarece sua compreensão de paradigma, qual seja: “[...] o paradigma é um caso singular que se separa do contexto do qual forma parte só na medida em que, exibindo sua própria singularidade, torna inteligível um novo conjunto, cuja homogeneidade ele mesmo deve constituir.”20 Entretanto, embora o pensador italiano tenha em comum a perspectiva arqueológica foucaultiana da qual parte, seu modus operandi de desenvolver suas pesquisas carregam em si especificidades e peculiaridades, conforme assevera Daniel Arruda Nascimento, em que suas pesquisas se iniciam com um cuidadoso “[...] arrolar de referências que funcionam como a base estrutural de uma constelação [...] um conjunto de referências formado por conceitos e ideias, mas também por fatos ou fenômenos históricos, para depois entrelaçá-los e dar um desenvolvimento próprio rumo a conclusões [...].”21 Ao longo do percurso filosófico, Giorgio Agamben situa paradigmas que adquirem uma importância ímpar na sua reflexão filosófica, se constituindo em núcleos centrais que indicam o rumo de suas reflexões que, na condição de casos exemplares exercem e desempenham uma importante função de tornar compreensível uma série de fenômenos que, por meio deles podem ser trazidos à luz e tornados inteligíveis. Nesse âmbito, no que tange ao caráter empírico com que suas pesquisas equivocadamente são lidas, assevera: Em minhas investigações analisei figuras – o homo sacer e o muçulmano, o estado de exceção e o campo de concentração – que são, certamente, ainda que em diversa medida, fenômenos históricos positivos, porém que eram tratados em tais investigações como paradigmas, cuja função era a constituir e tornar inteligível a 19 Conforme Giorgio Agamben, Michel Foucault teria sido leitor da admirável e decisiva obra de Thomas Kuhn [ KUHN, S. Thomas. A estrutura das revoluções científicas. Trad. Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. 5 ed. São Paulo: Perspectiva, 1998.], depois de publicar a obra As palavras e as coisas, porém não se refere de forma alguma ao pensador de A estrutura das revoluções científicas em suas investigações. [KUHN, S. Thomas. A estrutura das revoluções científicas. Trad. Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. 5 ed. São Paulo: Perspectiva, 1998.] Dreyfus e Rabinow, acerca da metodología do pesquisador francês, destacam: “[...] Su método consiste en describir los discursos como articulaciones históricas de un paradigma, y su modo de concebir el análisis implica que aísla y describe los paradigmas sociales y sus aplicaciones concretas”. (Dreyfus y Rabinow: 285) DREUFUS; RABINOW. Apud AGAMBEN, Giorgio. Signatura Rerum: sobre el método, 2010, p. 12-13. Sobre as diferenças entre Thomas S. Kuhn e Michel Foucault na leitura de Agamben: PONTEL, Evandro. Paradigma: um diálogo entre Thomas S. Kuhn e Michel Foucault na perspectiva de Giorgio Agamben. Revista Profanações. Ano 1, n. 1, p. 75-88, jan./jun. 2014, p. 75-88. 20 “[...] el paradigma es un caso singular que se aísla del contexto del que forma parte sólo en la medida en que, exhibiendo su propia singularidad, vuelve inteliglible un nuevo conjunto, cuya homogeneidad él mismo debe constituir”. AGAMBEN, Giorgio. Signatura rerum: sobre el metodo. Trad. Flavia Costa y Mercedes Ruvituso. Barcelona: Editorial Anagrama, 2010, p. 23. [Tradução nossa]. 21 NASCIMENTO, Daniel Arruda. Do fim da experiência ao fim do jurídico: percurso de Giorgio Agamben. São Paulo: LiberArs, 2012, p. 22.
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totalidade de um contexto histórico-problemático mais vasto. Posto que isso deu margem para equívocos, em particular, entre aqueles que, com maior ou menor boa fé – acreditaram que eu tentava oferecer teses e reconstruções de caráter meramente historiográfico, será oportuno deter-se aqui no sentido e na função do uso de paradigmas na filosofia e nas ciências humanas.22
Destarte, a compreensão de paradigma como modelo compreende as seguintes características: 1) O paradigma é uma forma de conhecimento nem indutiva nem dedutiva, senão que analógica, que se move da singularidade a singularidade. 2) Neutralizando a dicotomia entre o geral e particular, substitui a lógica dicotômica por um modelo analógico bipolar. 3) O caso paradigmático devém de tal suspendendo e, por sua vez, expondo seu pertencimento ao conjunto, de modo que já não é possível separar nele exemplaridade e singularidade. 4) O conjunto paradigmático não está jamais pressuposto aos paradigmas, senão que permanece imanente a eles. 5) Não há, no paradigma, uma origem ou uma arché: todo fenômeno é a origem, toda imagem é arcaica. 6) A historicidade do paradigma não está na diacronia nem na sincronia, senão que em um cruzamento entre elas.23
Dessa forma, em relação aos conceitos empregados em sua teoria, na perspectiva de seu projeto filosófico, como homo sacer, campo de concentração, muçulmano, estado de exceção, não são meramente hipóteses através das quais se tenta explicar a modernidade, reconduzindo-a a algo como a uma causa ou uma origem histórica, mas, contrariamente “[...] como sua mesma multiplicidade poderia deixar entrever, se trata em todos os casos de paradigmas que tinham por objetivo tornar inteligível uma série de fenômenos cujo parentesco havia se escapado ou podia escapar ao olhar do historiador.”24 22 “En mis investigaciones he debido analizar figuras - el homo sacer y el musulmán, el estado de excepción y el campo de concentración - que son, ciertamente, aunque en diversa medida, fenómenos históricos positivos, pero que eran tratados en dichas investigaciones como paradigmas, cuya función era la de constituir y hacer inteligible la totalidad de un contexto histórico-problemático más vasto. Puesto que esto dio lugar a equívocos, en particular, entre aquellos que - con mayor o menor buena fe - creyeron que yo intentaba ofrecer tesis y reconstrucciones de carácter meramente historiográfico, será oportuno detenerse aquí en el sentido y en la función del uso de paradigmas en la filosofía y en las ciencias humanas”. AGAMBEN, Giorgio. Signatura rerum: sobre el metodo. Trad. Flavia Costa y Mercedes Ruvituso. Barcelona: Editorial Anagrama, 2010, p. 11. [Tradução nossa]. 23 “1) El paradigma es una forma de conocimiento ni inductiva ni deductiva, sino analógica, que se mueve de la singularidad a la singularidad. 2) Neutralizando la dicotomía entre lo general y lo particular, sustituye la lógica dicotómica por um modelo analógico bipolar. 3) El caso paradigmático deviene tal suspendiendo y, a la vez, exponiendo su pertenencia al conjunto, de modo que ya no es posible separar en él ejemplaridad y singularidad. 4) El conjunto paradigmático no está jamás presupuesto a los paradigmas, sino que permanece imanente a ellos. 5) No hay, en el paradigma, un origen o una arché: todo fenómeno es el origen, toda imagen es arcaica. 6) La historicidad del paradigma no está en la diacronia ni en la sincronía, sino en un cruce entre ellas”. AGAMBEN, Giorgio. Signatura rerum: sobre el metodo. Trad. Flavia Costa y Mercedes Ruvituso. Barcelona: Editorial Anagrama, 2010, p. 40-41. [Grifo do autor] [Tradução nossa]. 24 “[…] como su misma multiplicidad podría dejar entrever, se trata en todos los casos de paradigmas que tenían por objetivo hacer inteligible una serie de fenómenos cuyo parentesco se le había escapado o podía escapar a la mirada del historiador”. AGAMBEN, Giorgio. Signatura rerum: sobre el metodo. Trad. Flavia Costa y Mercedes Ruvituso. Barcelona: Editorial Anagrama, 2010, p. 41. [Tradução nossa].