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2025.04.27 - Primavera em Paris

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Original: 31.12.2016 | Revisão 1: 23/03/2017 | Revisão 3: 08/11/2023 | Revisão 4: 25/01/2024 | Revisão 5: 27/04/2025

Autor: Geraldo Luís Pedroso (G. Stone)

Título: Primavera em Paris

Gênero: Romance

Cenário: La Glorie (Couraçado Francês)

Argumento: Esta é a história da última viagem do La Glorie, gigante Couraçado que um dia foi o mais navio mais imponente da La Royale (a Marinha Francesa) e que, nos seus últimos e inglórios dias de existência, serviu como um desprestigiado navio de transporte.

Durante a rota entre a Guiana Francesa e a França, Antoine, um Sargento do Exército Francês, e Heloise, uma mulher casada, se conhecem e algo inesperado surge entre eles.

Capitão Burnier, às vésperas de se aposentar, vive a amargurada expectativa de deixar o que mais amou em toda a sua vida: o mesmo mar que o La Glorie deixará de pertencer ao rumar para o seu desarmamento e desmontagem.

Este conto tem como coadjuvantes o primeiro Couraçado de ferro com capacidade oceânica do mundo e um dos presídios mais emblemáticos de todos os tempos, o Saint Laurent du Maroni, que manteve Papillon (codinome do arrombador de cofres Henri Charrière) como um dos seus internos até a sua fuga emblemática.

Short Summary A última e melancólica viagem do primeiro Couraçado Transatlântico do mundo unirá um Sargento condenado a 12 anos de serviço na Guiana Francesa a uma mulher casada: a esposa do Capitão daquele que, um dia, foi o principal navio da Marinha Francesa.

“Todos a bordo! Vamos partir”!

O chamado final para embarque no La Glorie em sua última viagem oficial, antes de seguir para o desmonte, foi feito sem nenhuma celebração ou algo especial. Apesar do dia ensolarado, não houve nem sequer uma menção aos longos anos de serviço; apenas uma voz cansada, acompanhada do som abafado da velha buzina marítima, anunciando a sua partida da Guiana Francesa

O primeiro Couraçado de ferro com capacidade oceânica do mundo, e protagonista da La Royale¹ entre 1859 e 1883, já não esconde a deterioração provocada pelas décadas navegando no denso sal marinho – e tampouco a obsolescência das suas armas, que o converteram numa mera embarcação de transporte.

Subindo pela ponte, o sargento Antoine, lotado há doze anos no Presídio de Saint Laurent du Maroni², finalmente tivera o seu pedido de repatriação aceito. Deixar a vida monótona da colônia francesa que só era quebrada quando acontecia alguma tentativa de fuga por algum prisioneiro, marcava o fim de uma penosa e cansativa fase da sua vida – assim que Antoine chegasse a Paris, a primeira coisa a fazer seria pedir a baixa do serviço militar.

“Bem vindo a bordo, Sargento” – uma voz doce move o olhar de Antoine, então fixado no desgastado e escorregadio piso de madeira do velho navio, àquela mulher de beleza singular e sorriso marcante. “O que faz essa beldade no meio de uma tripulação totalmente masculina”? – ele pensa.

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Sem mencionar palavra alguma, ele a cumprimenta e segue a bela dama até uma pequena cabine. “O senhor ficará aqui. Caso precise de alguma coisa, sinta-se à vontade para me chamar. Meu nome é Heloise” Antoine acena positivamente com a cabeça e acompanha a saída da mulher pela porta mal conservada silenciosamente com o olhar.

O espaço, de dimensões mínimas, conta com uma mesa velha, uma cadeira ainda mais, uma estante com pintura descascada e uma cama estreita com um colchão fino – além da escotilha imunda.

Ao contrário das embarcações construídas exclusivamente para o transporte de passageiros, o La Glorie dispõe apenas do militarmente essencial: um refeitório espartano no lugar de um restaurante refinado, banheiros coletivos antigos e mal conservados, uma pequena e mal equipada sala de ginástica e a suíte do capitão. As cabines individuais, como a ocupada por Antoine, foram instaladas nos espaços onde originalmente ficavam os beliches dos marinheiros. De resto, as instalações comuns aos navios de guerra ainda permaneciam ali, esquecidas.

Ou seja, nada de luxo ou qualquer sinal de conforto era oferecido a quem embarcasse

Os últimos anos da outrora estrela da La Royale foram de viagens sem glamour ou qualquer sinal que pudesse lembrar a sua importância nos tempos em que os seus canhões representavam o poderio naval francês – o que, de certa maneira, era praticamente uma analogia à vida decadente de Antoine, levado para Guiana logo após ser julgado das acusações de abandonar o seu posto na Guerra Franco-Prussiana³

Da velha escotilha, Antoine acompanha os primeiros movimentos do navio deixando o porto Dégrad des Cannes e, assim, finalmente se desligar das lembranças que não deseja mais se recordar.

Os primeiros dias da viagem foram um caos sem igual. As águas turvas do oceano encontrando-se com o céu repleto de nuvens escuras no horizonte, de alguma maneira lembravam os anos melancólicos que ele passou na América do Sul. E para combater a apatia e o tédio, Antoine caminhava diariamente pelo deck do navio e forçava pensamentos positivos sobre um futuro melhor na Borgonha, onde sua família possuía uma pequena vinícola.

Com pouco mais de trinta anos de idade, o Sargento acompanhara o crescimento dos negócios pelas cartas que trocava com o seu único irmão, meio pelo qual teve a felicidade de saber sobre o nascimento do seu primeiro sobrinho, mas que também lhe causara o momento de maior tristeza da sua vida: a morte súbita da sua mãe Estando tão longe de casa e não podendo apoiar o pai naquele momento de dor e dificuldade, Antoine sentiu que em seu retorno à França, seria sua obrigação cuidar da família como forma de se redimir pela longa ausência

Firme e decidido a colocar seu plano em ação assim que a viagem terminasse, Antoine para de caminhar por alguns segundos e acende um cigarro, se segurando nos gradis da proa do La Glorie.

“O senhor gostaria de juntar-se aos demais para o nosso Bingo”? – docemente Heloise o desperta dos seus pensamentos.

Loira alta, nascida no norte da França e de corpo forte e imponente, Heloise se casara muito jovem com o Capitão Burnier, com quem não tivera filhos durante os quase vinte anos de casamento. Seu sorriso suave misturado a um olhar docemente amargurado cativava os passageiros do La Glorie nas longas e monótonas viagens pelo Atlântico – o que despertou em Antoine um interesse como jamais tivera antes por qualquer mulher.

“Claro, por que não”? – Antoine sorri, joga o cigarro no mar e acompanha Heloise até o refeitório, onde ela costumava ser a anfitriã das atividades recreativas.

Durante a breve caminhada, ambos conversam sobre o plano de viagem e a tempestade que estaria a caminho, aterrorizando Antoine – e provocando risadas em Heloise, quando o Sargento revela morrer de

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medo do mar. Chegando ao refeitório, ele gentilmente abre a porta para ela, que segue para a velha mesa onde o velho globo a aguardava, cumprimentando os presentes – não sem antes olhar para trás e fita-lo por um instante.

Antoine se dirige ao balcão onde é servida a comida durante as refeições, mas que agora serve como um bar, de onde ele pode observar Heloise conduzindo o Bingo entusiasmadamente “Está se divertindo, meu jovem”? – a voz grossa acompanhada da mão pesada que pousa sobre o ombro de Antoine o assusta. “Hoje teremos um prêmio especial para celebrar esta viagem: uma garrafa de vinho Bordeaux da boa safra de 1878*. Escolha um lugar para se sentar, pegue uma cartela e divirtase ”! – e antes mesmo de receber uma resposta, o homem acena com a cabeça e sai caminhando pelo refeitório para cumprimentar os outros passageiros.

Capitão Burnier é um homem sexagenário enorme, rústico e dono de um olhar ameaçador. Crescido numa família de pescadores, não era esperado que ele servisse na La Royale e tampouco que tivesse uma carreira ascendente ao ponto de se tornar um dos mais importantes Capitães de toda a frota – inclusive tendo participado com méritos na Guerra Franco-Prussiana. Às vésperas de se aposentar, assim como para o La Glorie, esta também seria a sua ultima viagem transatlântica. As funções reservadas para ele em terra serviriam para completar os anos de serviço militar antes da baixa compulsória – e isso o atormentava silenciosamente

O Bingo invadiu a madrugada e aquela foi uma das raras noites verdadeiramente divertidas nos últimos anos. Os 48 passageiros da última viagem do La Glorie, ainda que por algumas horas, esqueceram que estavam num Couraçado enferrujado e obsoleto; eles estavam num navio enfeitado com tecidos coloridos, ainda que puídos, e flores artificiais desbotadas que o faziam parecer um cabaré parisiense, ainda que até um pouco vulgar.

E, ao final do Bingo, o prêmio principal foi dado a um casal de idosos que, pela felicidade demonstrada, parecia ter ganhado na Loteria.

Antoine é violentamente atirado para fora da cama e acorda assustado.

O navio balança vigorosamente e os móveis são arremessados de um lado pra o outro; Antoine mal consegue se levantar e cai novamente. Equilibrando-se como pode, ele alcança a pequena escotilha e vê ondas gigantescas batendo contra o ainda valente casco metálico do La Glorie, castigando-o como se fossem violentos socos desferidos diretamente no estômago do navio.

O barulho ensurdecedor da água açoitando a velha embarcação o aterroriza e ele sai dali apressadamente e encontra outros passageiros tentando se movimentar pelo estreito corredor do navio, numa mistura de gritos de pânico com sons de ferro se contorcendo, madeira rangendo e coisas soltas se batendo. O cenário é catastrófico e agindo como deve um oficial do Exército, Antoine imediatamente passa a ajudar as pessoas naquele caos, com pouco sucesso A água começa a surgir por baixo das portas de uma das cabines e rapidamente encharca todo o piso. As luzes se apagam, causando ainda mais medo e terror.

“Por aqui, por aqui, venham todos”! – é Heloise, no outro lado do corredor, se esforçando para ser vista ou ouvida na escuridão enquanto chama as pessoas, acenando com uma lanterna.

Antoine conduz um a um até que todos cheguem onde Heloise está e, como último homem, se certifica de não ter deixado ninguém para trás no exato instante em que a água rompe a parede da cabine por onde havia o vazamento e entra com força naquela parte do navio. Canos se rompem, deixando gases escapar e faíscas começam a causar curtos circuitos, tornando o ambiente ainda mais perigoso

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Heloise rapidamente conduz os passageiros para a casa de máquinas do La Glorie, assegurando a todos que ali é o lugar mais seguro e resistente do navio. A tempestade enfrentada é a mais forte que já vira em toda a sua vida e, pela primeira vez, ela está com medo.

Na ponte de comando, o próprio Capitão Burnier assume o timão e ordena que toda a tripulação do La Glorie se divida em grupos para checar o estado geral do velho Couraçado – eles, navio e capitão, jamais enfrentaram nada parecido em todos os seus anos vividos pelos três oceanos Mesmo com o Capitão Burnier usando toda a força para manter o timão estável, parece que oceano e tempestade se uniram para tornarem as coisas ainda mais difíceis.

Repentinamente, o timão gira descontroladamente com violência e arremessa o velho homem contra um pilar, onde bate a cabeça e desfalece. O La Glorie está à mercê do Atlântico. Do deck, abaixo da ponte de comando, o Imediato vê aquela cena e corre para subir as escadas o mais rápido que pode

Ao chegar, ele percebe que o La Glorie perdeu o timão. Alguns tripulantes chegam logo em seguida, mas não há mais o que possa ser feito: o velho e bravo Couraçado não mais consegue resistir à força do oceano e o Capitão Burnier, desfalecido, sangra muito pela cabeça.

Na casa de máquinas, vazamentos de água começam a encharcar as bases dos antigos motores a vapor, que em pouco tempo param O breve silêncio ameaçador dá lugar ao som de coisas se partindo

As luzes de emergência se apagam e, no escuro absoluto, Heloise abraça Antoine.

O sol bate na janela do quarto branco e as cortinas esvoaçantes anunciam que a Primavera chegou.

Paris é exuberante nessa época do ano: flores de todos os tipos e todas as cores enfeitam praças e monumentos, como também podem ser compradas nas várias barracas espalhadas pela Champs-Élysées.

O clima agradável que convida as pessoas para passeios noturnos pela Cidade Luz é o mesmo que faz deste o lugar mais romântico do mundo. O primeiro final de semana da Primavera também marca a alta médica de Heloise, desde que fora resgatada inconsciente em alto mar – do que ela nada se lembra, pois esteve sedada durante todo o período em que permaneceu no hospital

Informada de que já estava em condições de ir para a sua casa, ela também recebeu a triste notícia de que se tornara viúva

O funeral do Capitão Burnier foi simbólico e providenciado apenas após Heloise ter deixado o hospital, pois o seu corpo não fora encontrado, assim como os dos demais tripulantes e os de praticamente a totalidade dos passageiros.

Prestadas as homenagens militares, Heloise recebeu a bandeira da França, os cumprimentos dos oficiais e familiares do Capitão Burnier presentes. Ao final da cerimônia, ela permaneceu ao lado do túmulo, sozinha e em silencio. Não derramou lágrimas e não sentiu a perda; ela somente reconheceu e lamentou o fato de apenas ter se acostumado com a vida que tinha

Sem parentes conhecidos, ela tinha no Capitão Burnier a segurança e a certeza de que teria um endereço fixo por toda a vida. Uma “menina” como ela, com um passado obscuro já aos 16 anos, tinha poucas opções dignas pelas ruas de Paris. Por não ter conseguido dar filhos ao marido, em retribuição ao respeito e dedicação dele recebidos, Heloise passara a acompanha-lo nas viagens do La Glorie – e mais ainda quando ambos souberam que o Couraçado seria desarmado e desmontado Foi justamente nos últimos meses de vida do navio que lhes servia de lar que ela passou a sentir amor pelo Capitão Burnier.

O final da tarde se aproxima

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Heloise se levanta da cadeira reservada a ela, olha pela última vez o tumulo do marido, deixa um último arranjo de flores para ele e começa a andar.

E ouve o seu nome, que de longe rapidamente se aproxima.

“Heloise”? – uma voz conhecida soa por trás dela. Lentamente ela se vira e o semblante apático das últimas horas dá espaço a um sorriso amplo, aberto e destituído da amargura que o marcou por décadas.

Era Antoine, que recebeu alta do hospital poucos dias depois dela.

Um abraço tenso, vigoroso e apertado.

Por segundos, eles revivem aquilo que os salvou e os fez serem os únicos sobreviventes do naufrágio do La Glorie: no instante em que o casco do navio se rompeu ao meio, abraçados, eles foram levados pelas águas que invadiram a casa das máquinas para longe dos destroços do navio. Aquele abraço intenso transformou Heloise e Antoine num só corpo em meio ao caos e os salvou

Eles deixam o cemitério e caminham em direção a um Café, no centro de Paris.

Entre conversas sobre as suas vidas e ideias para o futuro, eles nada falam sobre o naufrágio; apenas sabem que, no fundo dos seus corações, aquilo que os uniu agora está onde desejaria passar a eternidade.

¹ Criada em 1624, a La Royale, como era popularmente conhecida a Marinha Nacional da França (Marine Nationale), foi primeira esquadra do mundo a ser equipada com um Couraçado de ferro com capacidade oceânica, o imponente La Glorie (A Glória).

² Localizado numa vila próxima ao Rio Maroni e junto à fronteira com o Suriname, Saint Laurent du Maroni é uma comuna do departamento ultramarino francês da Guiana Francesa, onde também há uma base militar. O local serviu para deportação de condenados a trabalhos forçados durante a Revolução Francesa e, entre os prisioneiros ilustres que lá cumpriram penas, destaca-se Henri Charrière, o Papillon, que foi condenado injustamente e conseguiu fugir após muitas tentativas durante os anos de prisão cumpridos na solitária. A superprodução cinematográfica Papillon (EUA, 1973), com Steve McQueen e Dustin Hoffman nos papéis principais, que foi refilmada em 2017 e protagonizada por Charlie Hunnam e Rami Malek, retrata a sua vida durante o confinamento.

³ Conflito ocorrido entre Império Francês e o Reino da Prússia, no final do século XIX (de 19/06/1870 a 10/05/1871). Durante o conflito, a Prússia recebeu apoio da Confederação da Alemanha do Norte, da qual fazia parte, do Grão-Ducado de Baden, do Reino de Württemberg e do Reino da Baviera. A vitória incontestável dos alemães marcou o último capítulo da unificação alemã e também marcou a queda de Napoleão III e do sistema monárquico na França. O La Glorie serviu nessa guerra.

*NOTA: Os anos 1858 a 1878 foram uma ‘belle époque’ para Bordeaux, sendo abençoada com um clima favorável a excelentes safras. O tratado comercial entre Grã-Bretanha e França, firmado em 1860, que reduzia os impostos sobre o Bordeaux em 95%, proporcionou, nos 15 anos seguintes, um crescimento de 800% nas importações britânicas dos vinhos da região. Nesse mesmo período, o crescimento da produção local cresceu 250%, o que tornou possível a instalação de excelentes ‘châteaux’, aumentando ainda mais o brilho mercantil da região (fonte: O vinho mais caro da história, de Benjamin Wallace, Ed. Zahar).

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