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2024.04.27 - Kodokushi

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Original: 23.04.2019 | Revisão 1: 23/03/2020 | Revisão 2: 06/11/2023 | Revisão 4: 25/01/2024 | Revisão 5: 27.04.2025

Autor: Geraldo

Título: Kodokushi

Gênero: Drama | Ficção

Cenário: Naha (Okinawa), Japão

Argumento: Kodokushi é um termo japonês associado a um tipo de “morte solitária”, utilizado para definir o óbito de uma pessoa que ninguém sentirá a falta. Isso ocorre em pessoas que, em geral, tem mais de 65 anos e se isolaram do convívio social, fazendo com que os seus corpos sejam encontrados muito tempo depois do falecimento.

A principal explicação para esse fenômeno social está relacionada ao hábito da população japonesa tender a trabalhar muito, abrindo mão da própria família ou de constituir uma. Com a chegada da velhice, e sem ter ninguém próximo, essas pessoas acabam padecendo de maneira anônima e à margem da sociedade. E mesmo aqueles idosos que têm algum parente distante, por questões culturais, acabam se afastando intencionalmente para não causar incômodo aos mais jovens.

No entanto, o real significado de Kodokushi é ainda mais mórbido: trata-se da marca que os fluídos liberados pelo corpo em decomposição deixam no local em que a pessoa morreu e que, a depender da superfície que permaneceu em contato com o cadáver, pode ser muito trabalhoso removê-la – muitas vezes até impossível

Considerado como um dos maiores problemas sociais do Japão, e até sendo tratado como um tipo de tabu, estima-se que anualmente uma em cada cinco mortes de japoneses idosos é decorrente do isolamento social chamado Kodokushi.

Short Summary: Arata Uehara abriu mão de formar uma família em favor do trabalho e, após ser demitido aos 70 anos de idade, ele terá de viver sozinho e aprender a cuidar de si, incluindo as atividades como cuidar da própria saúde.

4h40: Uehara San inicia o Kata¹ diário pontualmente.

O anônimo mestre do estilo Shotokan usa os noventa minutos de escuridão e silêncio absoluto que antecedem os primeiros raios de sol para limpar a mente, ao se concentrar nos movimentos vigorosos que levam o seu velho corpo à leveza e equilíbrio que somentenessa parte do dia ele terá.

Outrora assíduo na prática do Karatê, cumprida numa das mais tradicionais escolas do Japão, há três anos Uehara San vem cumprindo a mesma rotina de exercícios repetida desde criança, mas sem o brilho de antes. Apenas pela força do hábito.

O sol aponta no horizonte e é hora de ver a plantação de nabos.

As mãos, antes firmes e habilidosas, tremem cada vez mais e a horta já não produz a quantidade e tampouco a qualidade de quando ele plantou as primeiras mudas. Embora não remexa mais o solo, nem o

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semeie ou sequer molhe a terra, Uehara San vistoria diariamente a sua pequena plantação; menos dedicada, a natureza passou a se encarregar displicentemente do trabalho antes feito por ele com devoção.

Olhar para os nabos por horas é uma distração.

Desde criança, Arata Uehara sempre soube que trabalharia na fábrica de automóveis da cidade vizinha a Shinshiro, onde nasceu.

Seria apenas uma questão de tempo.

As quase duas décadas até a sonhada – e dada como certa – contratação foram de uma rotina quase militar, imposta por ele próprio para estar à altura daquele emprego. Sexto dos nove filhos de uma família com poucos recursos, Arata trabalhava duro na agricultura. Do pouco que ganhava, separava dois terços para ajudar os pais e guardava o restante para o curso de Engenharia em que, anos mais tarde, ele se graduaria pela Universidade de Kyoto.

E, diferente do que ele poderia imaginar, os primeiros anos na fábrica foram ainda mais difíceis do que toda uma vida passada no arrozal; mas Arata estava pronto.

A jornada de 16 horas diárias fazia com que o jovem Engenheiro vivesse exclusivamente para o trabalho, incluindo os finais de semana e os feriados dedicados às horas extras – além das duas semanas anuais de férias não remuneradas que ele sempre abria mão.

Para ele, trabalhar duro era motivo de satisfação e honra; e se algo de ruim lhe acontecesse na fábrica, no dia seguinte o Karatê lhe proporcionaria o equilíbrio necessário para voltar a se sentir bem.

Obcecado pelo que fazia, e na medida em que trabalhava com mais dedicação e disciplina, mais méritos eram conquistados por Arata. Em pouco mais de três décadas de trabalho virtualmente ininterruptas, ele se tornara Engenheiro Chefe do Departamento de Motores, à época o setor mais importante e prestigiado numa fábrica de automóveis.

Ao completar 60 anos de idade, Uehara San ganhou da empresa uma viagem aos Estados Unidos para passar duas semanas se divertindo com a turma do Mickey Mouse, mas, dedicado ao trabalho como ninguém, agradeceu pelo presente e o recusou.

“A melhor maneira de reconhecer o meu trabalho é permitir que eu possa continuar fazendo o que eu sou feliz em fazer!”, sempre dizia ele.

Vivendo sem luxo e sem qualquer conforto, numa casa simples e pequena, Uehara San jamais se casara e tampouco tivera filhos. Seguir solteiro fora a consequência de uma vida reclusa e obstinada.

E também cheia de manias.

Embora carregasse algumas desde os tempos em Shinshiro, outras foram surgindo e, sem dúvida alguma, a mais incomum era a de se despir assim que chegasse à sua casa e usar apenas roupas de baixo após o banho, até o dia seguinte – mesmo durante o rigoroso inverno japonês. Isso evitava gastos desnecessários com pijamas, peça do vestuário que ele considerava algo absolutamente sem propósito.

Sim, Uehara San era pão-duro.

Era tão absurdamente pão-duro, a ponto de não ter qualquer comida em casa, pois fazia todas as refeições na fábrica. Se sentisse fome, ele bebia água diretamente na torneira ou se deitava mais cedo.

Se ficasse doente, Uehara San utilizava o ambulatório da empresa e, caso precisasse comprar remédios, dava um jeito de consegui-los de acordo com a politica de gratuidade do governo japonês.

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Nem um único iene era gasto por ele à toa, fosse com despesas de saúde ou diversão; exceção feita em relação ao Karatê, que conferiu a ele uma forma física invejável. Os Karategis de Uehara San eram impecáveis, sempre muito bem lavados e conservados.

E assim era a sua rotina: acordar antes do sol nascer, praticar sua arte marcial favorita, sair cedo para trabalhar e voltar tarde para casa. Era possível contar nos dedos os dias em que Uehara San tirou para descansar durante toda a sua vida.

E foi num desses raríssimos dias de folga, quando decidiu visitar a família após quase 10 anos desde a última vez em que esteve em Shinshiro, que ele soube, ao chegar à casa dos seus pais, que ambos haviam morrido meses antes.

Sem ter se dado conta do ocorrido, pois nunca retornava os contatos feitos por quem o procurasse e nem lia as cartas recebidas, desolado, Uehara San retornou à estação de trem e voltou para a sua casa.

E foi a última vez que esteve em Shinshiro.

Seus irmãos, sobrinhos e outros parentes tentaram falar com ele inúmeras vezes depois daquele dia, mas diante da recusa recorrente de Uehara San em atendê-los, aos poucos, foram desistindo até que não houvesse mais contato algum.

No dia em que completou 75 anos, Uehara San foi recebido na fábrica de uma forma diferente: seus colegas e subordinados prepararam uma surpresa de aniversário com bolo, bexigas e refrigerantes. Ao entrar no seu pequeno escritório, instalado no meio da fábrica, ele esboçou um leve sorriso ao encontrar aquele pequeno grupo de pessoas, que começou a cantar e a parabeniza-lo pela data.

Tomado por uma emoção atípica, o senhor de cabelos brancos e postura altiva agradeceu educadamente pelo gesto carinhoso e logo voltou a trabalhar.

E ao final daquele dia, outra surpresa esperava pelo discreto aniversariante: pouco antes de ir embora, Uehara San foi chamado à Diretoria.

Sempre que isso acontecia, ele deixava tudo para trás e rapidamente se dirigia ao prédio da Administração. Porém, diferente de todas as ocasiões anteriores, naquela noite ele não retornou à sua velha e abafada sala para buscar a sua puída mala de couro.

Desligado da fábrica, pela primeira vez em toda a sua vida, Uehara San não sabia como seria ou o que aconteceria no dia seguinte. E também pela primeira vez, ele se deitou no futon² e não conseguiu dormir.

Ao amanhecer, Uehara San não foi à escola de Karatê e nem tomou café da manhã, pois não havia fogão ou geladeira na sua casa. E tampouco comida.

Ele ficou deitado o dia todo até que, já anoitecendo, a sua barriga doía e roncava sem parar. Ele se levantou, se vestiu e, pela primeira vez em anos, saiu de casa à noite.

Uehara San teve de aprender a comprar e a preparar os seus próprios alimentos, como também precisou aprender a lidar com as pessoas – algo que mal fazia na fábrica. E percebeu que mesmo havendo muita gente à sua volta em todos os lugares em que pudesse estar, ele sempre estava só.

Passados alguns meses da sua aposentadoria compulsória, Uehara San tinha comprado um computador que passou a ser o principal meio para conectá-lo ao mundo externo. Todas as suas compras passaram a ser feitas pela mesma Internet que o tornou ainda mais recluso, mas que também o apresentou a um paraíso dentro do Japão: “Conheça Okinawa, um arquipélago único, rico em lindas paisagens, cultura própria e com um clima tropical que fará de você outra pessoa”!

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E Uehara San tomou uma decisão completamente impensável anos antes: ele se mudaria para Okinawa!

Com o dinheiro que guardou durante todos aqueles anos de uma vida absolutamente espartana, Uehara San não teve dificuldades para encontrar e comprar uma bela casa construída num terreno imenso em Zamami Beach, um vilarejo praiano de Okinawa.

E em pouco mais de um mês, Uehara San se mudou.

A nova vida o trouxe de volta à prática diária do Karatê, agora sob a forma do Kata, e estimulou Uehara San a se dedicar à plantação de nabos – seu legume favorito.

Mas se por um lado o lugar o rejuvenescia espiritualmente, por outro, a incapacidade de se relacionar com as pessoas o impedia de se inserir na comunidade local.

Ainda assim, Uehara San passaria os anos seguintes cuidando da sua horta, curtindo a beleza do lugar em que passou a viver e, uma vez ou outra, se arriscando na direção do primeiro e único carro que comprou em passeios curtos e solitários.

E, surpreendentemente, sorrindo.

Toc-toc.

“Quem será, a esta hora”?

Uehara San desperta assustado da soneca diária. Atordoado, levanta do sofá com alguma dificuldade e caminha vagarosamente em direção à porta da sala, onde quatro pessoas batem sem parar e chamam pelo seu nome. Ele pede para que esperem um pouco, que vai se vestir, mas as pessoas continuam a fazer barulho insistentemente.

De repente, um estrondo!

A porta é brutalmente derrubada e Uehara San, assustado, corre para trás de um biombo, se escondendo num canto da sala praticamente escurecida pelo anoitecer.

Quieto, ele observa a movimentação dos intrusos: dois policiais e um casal.

“Ah, são eles!” , Uehara San reconhece o casal: eles são os proprietários do mercado em que costuma fazer compras, quando vai ao centro do vilarejo.

“Mas o que essas pessoas querem aqui?”, pensa ele, “Eu não fiz nada de errado”!

Indignado e ao mesmo tempo receoso pela presença dos policiais, Uehara San permanece em silêncio enquanto observa a movimentação dos invasores, que apenas olham o lugar e murmuram entre si. Os quatro mexem em algumas coisas, passam rapidamente pela cozinha sem muito interesse e seguem em direção aos dormitórios.

Uehara San espera que todos subam as escadas para segui-los sem fazer barulho, da maneira silenciosa como o Karatê lhe ensinou.

O casal e os policiais se dividem entre os aposentos e logo um grito feminino atrai todos para o quarto principal, inclusive Uehara San, que rapidamente se posiciona perto da porta para observar o que está acontecendo, sem que possa ser visto.

Em prantos, a mulher é levada pelo marido para a varanda, enquanto os policiais se aproximam lentamente da cama, tapando nariz e boca com uma das mãos.

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Já irritado com aquela situação, Uehara San entra no quarto e grita para os intrusos:

“O que vocês estão fazendo aqui”?

Os policiais sequer dão atenção a Uehara San e continuam a mexer na cama, causando perplexidade no velho homem pela descabida falta de resposta. Ele olha para a varanda e, incrédulo, vê que o casal também age como se não o tivesse ouvido.

“Eu disse: o que vocês estão fazendo aqui?”, ele grita novamente e nada acontece.

Surpreso, Uehara San olha lentamente para cada um dos quatro e então se cala, virando-se para aquilo sobre o que os policiais estavam falando: um amontoado de tecidos e coisas que ele não reconhece, estendido sobre uma mancha úmida, mista de marrom, vinho e amarelo; os policiais comentam sobre o tempo em que aquilo estaria ali, especialmente em relação ao odor, mas sem qualquer conclusão.

Uehara San estranha o teor da conversa, pois não sente cheiro algum e resolve se aproximar daquilo que está sobre a sua cama – nisso, o casal subitamente entra no quarto e ele recua.

“É ele, sim, tenho certeza!”, diz a mulher, amparada pelo marido e com a parte inferior do rosto coberta por um lenço.

Ao ouvi-la, Uehara San volta os seus olhos para a cama e reconhece o seu próprio rosto, em avançado estado de decomposição.

“Ele não deve ter parentes” – diz o homem aos policiais – “Ele nunca falava de si e, pelo que notamos, vivia sozinho nesta casa. Vez ou outra ele ia ao nosso mercado ou mandava e-mail pedindo para que trouxéssemos algumas coisas aqui, para ele; inclusive só sabemos o seu nome por causa do cartão de crédito. Mas, como hoje pela manhã minha esposa comentou que fazia um bom tempo que ele não aparecia, eu resolvi vir até aqui e notei que a horta estava abandonada; ele até levava alguns nabos para nós de vez em quando, e ver aquilo tudo mal cuidado me perturbou. Ao caminhar um pouco mais, vi que o carro dele estava com muitas folhas em cima, assim como havia muita sujeira na entrada da casa, o que eu também achei estranho. Foi então que eu decidi chama-lo e ele não respondeu. Eu gritei mais algumas vezes o seu nome e nada; diante da falta de respostas, eu resolvi olhar pelas janelas e depois subi na varanda para olhar o quarto. Não dava para ver muita coisa por causa da cortina, mas eu senti esse cheiro e logo imaginei que algo de ruim tinha acontecido”.

Os policiais e o casal continuam a conversar, mas Uehara San não ouvia mais nada.

Imóvel, e diante do seu corpo apodrecido, ele tenta entender como aquilo teria acontecido sem que ele tivesse notado.

“Pois bem, não há muito mais o que possamos fazer, senão cumprir os procedimentos legais. Por favor, se vocês não se importarem, precisamos que nos acompanhem até o distrito policial”, diz um dos guardas para o casal, indicando as escadas.

Os passos sobre o piso de madeira vão ficando mais distantes, o som da conversa vai diminuindo, até que a porta da casa se fecha e Uehara San fica sozinho, em silêncio absoluto, ao lado da sua cama.

Uehara San viveu 78 anos, dos quais 60 foram destinados exclusivamente ao trabalho.

Ele se afastou da família, dos amigos e abriu mão da possibilidade de um dia se casar e de ter filhos.

Ao final da sua vida, Arata Uehara se tornou apenas parte da mórbida estatística em que 32.000 pessoas morrem anualmente no Japão sem que ninguém saiba ou sinta falta.

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A esse fenômeno social japonês se dá o nome de Kodokushi³.

¹ Kata: sequência coreografada de movimentos do Karatê, executados com precisão e fluidez, usando técnicas de postura física, controle de respiração e concentração mental.

² Futon: tipo de colchão usado na tradicional cama japonesa, os futons têm cerca de 5 cm de altura e são feitos de algodão, lã ou material sintético.

³ Kodokushi: termo japonês associado a um tipo de “morte solitária”, utilizado para definir o óbito de uma pessoa que ninguém sentirá a falta. Isso ocorre em pessoas que, em geral, tem mais de 65 anos e se isolaram do convívio social, fazendo com que os seus corpos sejam encontrados por terceiros muito tempo depois do falecimento.

A principal explicação para esse fenômeno social está relacionada ao hábito da população japonesa ter uma tendência a trabalhar muito, abrindo mão da própria família ou de constituir uma. Com a chegada da velhice, e sem ter ninguém próximo, essas pessoas acabam padecendo de maneira anônima e à margem da sociedade. E mesmo aqueles idosos que têm algum parente distante, por questões culturais, acabam se afastando intencionalmente para não causar incômodo aos mais jovens.

No entanto, o real significado de Kodokushi é ainda mais chocante: trata-se da marca que os fluídos liberados por um corpo em decomposição deixam no local em que a pessoa morreu e que, a depender da superfície que permaneceu em contato com o cadáver, pode ser muito trabalhoso removê-la – algumas vezes até impossível.

Considerado como um dos maiores problemas sociais do Japão, e até sendo tratado como um tipo de tabu, estima-se que anualmente uma em cada cinco mortes de idosos japoneses é decorrente desse isolamento social feito por escolha própria.

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