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Revista Cicatrizes 2024

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Editorial

Em 2024, os alunos do nono ano da Escola Carandá realizaram um projeto escolar para refletir sobre a luta antirracista e a importância da pesquisa acerca das relações étnico-raciais na Educação por meio da produção da Revista Cicatrizes. O veículo de comunicação tem como objetivo fomentar discussões e abordagens interessantes e necessárias sobre a luta contra o racismo, que está enraizado na sociedade. Para mitigar a presença do racismo na nossa sociedade é fundamental conscientizar a todos, reelaborar todas as feridas, algumas cicatrizadas, porém outras ainda abertas deixadas pelo racismo estrutural presentes tanto no Brasil, quanto em outros países. Para que cicatrizemos todas as perdas, lutos, injustiças, dificuldades e preconceitos, nós, alunos da instituição Carandá Educação, entendemos a suma importância desse debate na sociedade, que pode reverberar para camadas como o bullying racial, a invisibilidade de docentes negros e do racismo nas escolas e universidades, situações muito presentes na Educação.

A edição da Revista Cicatrizes também aborda assuntos variados associados ao tema central, como o racismo na literatura brasileira e nas manifestações artísticas, como a dança. A arte é uma maneira de expressão da subjetividade humana importante que pode colaborar na desconstrução de uma postura racista em nossa sociedade. Com esse trabalho, conseguimos aprender a importância da conscientização da existência do racismo em nossa sociedade e quantas feridas ele deixou e ainda deixa no nosso mundo. Por isso, é muito importante que outras instituições também tenham a iniciativa de um projeto como a nossa Revista Cicatrizes e que todas as pessoas busquem estudar as relações étnico-raciais e a luta antirracista na nossa sociedade.

Colaboradores da Revista Cicatrizes

Carta do leitor

São Paulo, 3 de dezembro de 2024

Prezados leitores, por meio dessa carta temos o objetivo de retratar as opiniões e pensamentos da Revista Cicatrizes. Abordaremos os seguintes temas: bullying racial, representatividade da literatura negra, racismo na educação e diversidade de docentes negros.

Ao longo do ano nas matérias, geografia, português e história pesquisamos e relacionamos diversos assuntos referentes a marginalização dos negros em diferentes contextos.

De acordo com as produções da revista, podemos refletir que o racismo é consequência da escravidão estabelecida durante a colonização que está enraizada na nossa sociedade atual. Seja por meios literários, onde a representatividade de escritores (a) e personagens negros é insignificante e a branquitude heroica é predominante. Além disso o racismo está inserido em instituições educacionais, por meio do bullying racial, com ênfase na invisibilidade dos docentes negros, que são cruciais para enriquecer o ambiente acadêmico trazendo perspectivas inclusivas.

Concluindo que este assunto deve termais atenção e importância,tornando mais acessível e visível. Enquanto a desigualdade racial existir no Brasil, o mesmo será um país racista. Por isso, através de meios educacionais devemos promover discussões abertas, para que cada vez mais o tema se torne comum e traga soluções eficientes.

Com isso, utilizar a literatura pode ser uma ferramenta para transformação social, para mudar a realidade racial no Brasil.

Colaboradores da Revista Cicatrizes

Artigo de opinião

O bullying racial nas escolas: é possível combater?

Não podemos mais fechar os olhos para o sofrimento causado pelo bullying racial. A cada dia, crianças e jovens pretos são alvo de agressões e humilhações que deixam marcas profundas em suas vidas. O bullying racial é uma questão recorrente e imprescindível de ser tratada pela sociedade atual brasileira, especialmente na educação. O racismo vem nos acompanhando desde os tempos da colonização do nosso país. Esse preconceito pode se manifestar de inúmeras formas, desde a crença de que uma raça é superior à outra, até agressões físicas e morais. Vamos nos debruçar e refletir sobre as camadas nas quais o bullying racial opera afetando milhares de pessoas, e como lutar para criar um ambiente menos tóxico e sem preconceito, pois sim, isso é possível. Inúmeras são as causas e contribuições para a sua proliferação, quando falamos do bullying racial: A falta de diversidade negra no corpo docente das escolas no país e a forma com que a história e a cultura negra são abordadas em sala de aula são duas causas, as quais iremos desenvolver.

A pesquisa de Delhommer (2022), afirma que a falta da presença negra no corpo docente de uma escola pode causar a falta de incentivo aos alunos negros que se sintam geralmente mais representados por professores da mesma etnia, além de pensarem de que não há lugar para estudantes negros nas escolas. Outra pesquisa feita pelo Observatório Fundação Itaú afirma que esses educadores, uma vez presentes na instituição, podem identificar mais facilmente situações de bullying racial, uma vez que provavelmente já passaram pela mesma situação.

Em relação à forma com que a história e a cultura negra são abordadas em sala de aula, podemos observar que, de acordo com a Universidade de Tiradentes, muitas vezes, suas histórias são vistas e aprendidas de forma estigmatizada, ou seja, como se fossem limitados ao processo de escravização. Assim, essa visão contribui para uma aversão às origens, às histórias e à diversidade cultural africana. Portanto, fortalecem o bullying racial.

Recentemente, de acordo com a G1 Brasil, em São Paulo, mais de 3.000 denúncias de discriminação racial em escolas estaduais foram relatadas apenas em 2.023. Isso sem levar em consideração os casos em que a discriminação não é exposta. De acordo com a mesma pesquisa, de 2018 para 2023, os casos aumentaram em 500%, e se tornaram mais violentos, como prova o relato tirado da CNN Brasil, onde um adolescente de 12 anos era chamado de escravo recorrentemente, sem intervenção da escola. “‘Você tem que ser meu pet!’ Foi o que o meu filho ouviu de uma criança branca na escola. Daí, eu pergunto: ‘Até quando?’ O que estamos fazendo, verdadeiramente, para sermos antirracistas?”, questionou a mãe do aluno. Diante desse cenário, uma mudança atitudinal das escolas em relação à essa questão faz-se necessária

Embora o Brasil tenha melhorado muito com a aprovação da Lei 10.639 (legislação que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira em sala de aula), ainda deve haver melhoras na educação voltada à valorização da história e da cultura preta.

Ao consultar o livro didático Jovens Sapiens, percebe-se a iniciativa dessa educação no capítulo 8 – As independências na África –, que nos traz criticidade, mas também valorização dessa história, de modo a não sujeitar os negros apenas ao papel histórico de escravos. O livro também menciona sobre a importância da resistência cultural e de alguns de seus meios utilizados pelos povos africanos, aqui no Brasil.

Além dessa educação, devemos insistir em uma maior diversidade racial no corpo docente, que irá ajudar a criar um espaço mais acolhedor, com mais atenção a situações de bullying racial. Por fim, é necessário falar que é papel fundamental das escolas trazer espaços de discussões abertas sobre o assunto, onde os alunos que sofrem preconceito e discriminação racial possam mostrar o que pensam, e em que os alunos que cometem bullying possam entender o que fizeram de errado, e porque isso é inaceitável.

Apenas quando essas instituições adotarem uma educação voltada à valorização do coletivo, lutando contra a discriminação seja ela de qualquer caráter, aí sim poderemos ver pessoas formadas que saibam reconhecer sua própria história e a dos outros. Dessa forma, possam lutar para um mundo melhor. Como disse Paulo Freire, “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”.

A literatura é uma ferramenta transformadora capaz de desafiar os estereótipos?

No contexto atual, a representatividade negra é um assunto extremamente discutido na sociedade, porém é pouco inserida no contexto literário. Você sabia que, dentre as 130 narrativas escritas entre 1965 e 1979, apenas 4,7% dos personagens eram negros? Será que estes personagens eram representados como os outros? Talvez houvesse uma ideologia que gerasse essa exclusão. Assim, entendendo este tema podemos compreender a mentalidade que o brasileiro aborda sobre a etnia na sociedade a partir da arte.

Ao longo deste artigo, discutiremos de que modo o personagem negro é introduzido nas narrativas literárias, principalmente no início do século XX, bem como a quantidade de vezes que eles aparecem, além de contextualizar essa temática ao racismo estrutural e à eugenia.

Previamente, para entendermos essa questão tão complexa, precisamos entender o que são o racismo estrutural e o movimento eugênico. O primeiro termo se refere à discriminação racial sistemática, enraizada na base da sociedade e presente nas instâncias social, política e econômica, gerando questões como desigualdade racial no mercado de trabalho; no acesso à escolarização; na falta de representatividade negra nas discussões mundiais; na violência ou qualquer prática de segregação que prejudique a construção de um país democrático. Historicamente, o racismo estrutural foi um processo iniciado durante a colonização do Brasil (entre XVI a XIX), por meio do período de escravização negra e de exaltação do branco, instaurando o preconceito e subjugando as populações negra, parda e indígena. Essa ideologia étnicohierárquica continuou a ser desenvolvida nos séculos seguintes. A exclusão social e a marginalização do negro, proporcionada não só pela elite branca, mas também pela expansão das teorias do darwinismo racial, gerou ao final do século XIX e início do XX, os movimentos eugenistas no Brasil e no mundo.

A eugenia foi uma pseudociência criada na Inglaterra, no final do século XIX, e introduzida no país pela elite econômica, política e artística, acreditando-

se na ideia de que o Brasil não se desenvolveria em função da população ser composta majoritariamente por negros, pardos e indígenas que, segundo esse pensamento, os consideravam pobres, incapazes e subdesenvolvidos.

Conforme a Fig. 1, da Agência Senado, primeiro Censo do Brasil feito há 152 anos, encontrou no país quase 10 milhões de habitantes, sendo 58% declarados pretos ou pardos, 38 como brancos e 4% descritos como indígenas, o que nos faz perceber o efeito que a prática da eugenia geraria na sociedade.

Fig. 1 – Composição étnica do Brasil, em 1872. Fonte: Agência senado.

Isso levou a elite a pensar que, ao branquear o povo brasileiro, elevaria o país aos níveis de desenvolvimento da Europa. Esse branqueamento ocorreria por meio do incentivo à imigração europeia, principalmente de italianos, alemães e espanhóis.

Na Fig. 2, segundo o IBGE, ingressaram entre 1884 e 1913, quase três milhões de imigrantes brancos, oriundos da Europa. Esse deslocamento intercontinental é fruto não só da substituição da mão de obra negra, mas também uma consequência do movimento eugênico, no Brasil, ou seja, as elites privilegiavam a imigração que tinham um foco principal países com uma população majoritariamente branca.

Fig. 2 - Imigração populacional ao Brasil por nacionalidade (1884-1933)

Então, toda essa análise populacional do final do século XIX e início do XX, evidência a existência do racismo estrutural e do movimento eugênico no país. Tais fatos foram extremamente impactantes no pensamento e na ideologia da época, influenciando escritores e pensadores, como Monteiro Lobato.

As frases “Na casa ainda existem duas pessoas - tia Nastácia, negra de estimação que carregou Lúcia em pequena, e Emília, uma boneca de pano bastante desajeitada de corpo...” e “Além da boneca, o outro encanto da menina é o ribeirão que passa pelos fundos do pomar. Suas águas, muito apressadinhas e mexeriqueiras, correm por entre pedras negras de limo, que Lúcia chama as 'tias Nastácias do rio...", além de expressões como "Macaca de carvão", "Carne preta", "Beiçuda", "um frangalho de nada" retiradas do livro Reinações de Narizinho (1931) de Monteiro Lobato evidenciam na prática os estereótipos segregacionistas.

Outras obras, de outros autores, chegaram a representar negros com estereótipos do tipo vilões, escravos miseráveis, pobres e até relacioná-los à animais. Mulheres negras, muitas vezes, foram sensualizadas e desumanizadas.

O pintor da corte, Jean-Baptiste Debret, descreve bem os resquícios da mentalidade colonial que o Brasil esteve inserido.

Debret, Jean Baptiste. Regresso à cidade de um proprietário de chácara. Liteira para viajar pelo interior, 1835. Fonte:

https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/3702

Porém, é extremamente importante lembrar o momento histórico em que Monteiro Lobato estava inserido. Os fatores anteriormente citados nos trazem uma noção das ideias que aqui foram produzidas, influenciando a mentalidade da população como um todo. Portanto, podemos dizer que o uso de vocabulários pejorativos foi fruto de uma sociedade vivenciada por ele, e por esta razão que é essencial evitar julgamentos atuais sobre os escritores da época.

O mundo ainda tem resquícios do racismo estrutural, mas a crescente presença e a atuação de escritores negros na literatura contemporânea são passos fundamentais para a construção de um espaço mais inclusivo e representativo; sem discriminações e estereótipos; desafiando, dessa forma, narrativas preconceituosas de séculos anteriores e contribuindo para uma discussão mais direta, segura, de maior amplitude sobre o racismo.

É essencial que a sociedade brasileira reconheça e valorize essas vozes, promovendo a liberdade de expressão para que possamos discutir abertamente as dificuldades, os desafios que enfrentamos, bem como, avançar na luta contra o racismo, para compreender e impactar positivamente as futuras gerações. A literatura, portanto, torna-se uma poderosa ferramenta de transformação, capaz de ampliar a compreensão e empatia em relação a questões raciais.

Por: Theo Canalonga.

Por: Aquiles Sobrinho
Tirinha
Por: Kaya Hart

Resenha Crítica do Livro "Não paremos de gritar"

Conhecido por sua escrita forte, dolorosa e acusadora, Carlos Assumpção nasceu em 23 de maio de 1927, no interior de São Paulo e foi criado por uma família de classe média. Reflete em sua escrita, a forte conexão com a cultura afro-brasileira. Além de poeta, é advogado, professor e conhecido por seu trabalho em diversas organizações ativistas que promovem a igualdade racial e a inclusão social. Aos 93 anos, Carlos decidiu fazer uma coletânea com os poemas que escreveu ao longo de sua vida, cuja maioria tem como tema principal a identidade racial.

Os poemas são marcados pela forma angustiante e densa que abordam questões críticas relacionadas à identidade racial, ao racismo estrutural, ao racismo institucional e outras questões de preconceito racial que estão presentes em nosso país.

A obra é uma poderosa reflexão sobre a vinda, a vida e a permanência dos negros nas terras brasileiras, além de ser uma ferramenta valiosa para aulas de história, pois a leitura do livro em sala de aula pode gerar uma reflexão por parte dos estudantes. Ao ser usado como um recurso didático nas escolas, a leitura de "Não paremos de gritar" pode sensibilizar os jovens sobre as questões do racismo, motivando-os a se tornarem aliados na luta contra a discriminação e a lutarem pela construção de uma geração mais consciente e engajada por mais igualdade social e racial. Também pode fazer com que alunos negros encontrem no texto um espaço de representação e empoderamento, o que é fundamental em um país onde os

Pucheu. A. (Org.). Assumpção, C.de. Poemas reunidos. 1ª- ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2020

alunos negros correspondem, em média, a 10% do corpo estudantil das instituições privadas de ensino, segundo o Censo Escolar de 2020.

Os textos de Assumpção são carregados de angústia, mas também de esperança e orgulho. Ele consegue transmitir, com maestria, as emoções que compõem a vivência de indivíduos que enfrentam diariamente a discriminação e a desigualdade. Através de sua poesia, o autor cria um espaço de identificação para os leitores negros, permitindo que eles se vejam refletidos nas palavras e se sintam encorajados a denunciar práticas racistas.

Embora a obra de Carlos Assumpção seja, em muitos momentos, angustiante, sua importância não pode ser subestimada. "Não paremos de gritar" é um chamado à ação e à reflexão. Através de suas poesias, Assumpção não apenas denuncia a injustiça, mas também celebra a identidade negra, convidando todos a participar de uma luta coletiva por um futuro mais igualitário. Para quem busca compreender mais sobre a complexidade da identidade racial no Brasil, este livro é uma leitura indispensável. A obra deve ser divulgada e discutida amplamente, pois ela não apenas enriquece o panorama literário, mas também contribui para a conscientização e a transformação social brasileira.

Por: Clara Lazzarini e Mel Santos

Fontes utilizadas:

http://www.letras.ufmg.br/literafro/autores/180-carlos-de-assumpcao

https://www.terra.com.br/nos/escolas-de-alto-padrao-ainda-sao-ambienteshostis-para-

pessoasnegras,446d0e2360190860693bb66986f367fdwsv0xo5g.html#:~:text= O%20menino%20v%C3%ADtima%20dos%20ataques,das%20insitui%C3%A7 %C3%B5es%20privadas%20de%20ensino

https://www.companhiadasletras.com.br/colaborador/06276/carlos-deassumpcao?srsltid=AfmBOorv_iZCBjVffROEo4mfXrl9cVu5v21VGgv6edR4KUYKtYXg0KY

Resenha “África e Brasil africano”

Estudar a História da África e dos negros que vieram para o Brasil significa conhecer uma face do nosso passado que ainda precisa ser entendida e, é isso que está presente no livro chamado “África e Brasil africano”, escrito por Marina de Mello e Souza, publicado em 2006.

África E Brasil Africano - Coletivo Leitor

O livro é extremante denso por nos relatar vários aspectos sobre a história da África e do Brasil. O capítulo 3 nos conta sobre o comércio de escravos e a escravidão, mais, especificamente, sobre o pioneirismo português que ganha um grande destaque ao explicar como Portugal tornou-se relevante mundialmente. As alianças; as conquistas; as vantagens comerciais; os objetivos; os métodos; as justificativas religiosas que permeava a colonização e o tráfico de escravizados, são de grande relevância nesse capítulo. O texto também sublinha a importância das inovações nas embarcações marítimas, dos instrumentos de navegações e do conhecimento geográfico que os portugueses adquiriram enquanto desbravavam mares desconhecidos. Além de contar sobre as expedições, que deixaram o país rico e importante.

Marina de Mello e Souza nos faz entender tudo por conta da forma clara de escrita e das informações ricas, levando-nos a refletir sobre os aspectos daquela época e como isso afeta a sociedade que vivemos hoje. Nesse sentido, o livro é bastante positivo e ótimo. Por outro lado, a autora, muitas vezes, se distancia do tema principal sem uma volta rápida. Se você procura um bom livro para entender não somente o pioneirismo português, mas também a evolução do Brasil e a relevância dos povos africanos na nossa cultura, recomendamos essa leitura.

Por: Isabela Lins, Marina Caprio e Vittório Garcia.

Tirinha
Por: Charlie Feliciano

Entrevistas Racismo até na dança

A inclusão de pessoas negras e pardas é extremamente importante na escolarização básica, mas também nas atividades extracurriculares, por isso Milton Kennedy, bacharel e tem licenciatura em educação física pela Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), criou sua escola de dança, a Ayodele Balé.

Ayodele é uma palavra de origem da língua Yorubá e significa “a felicidade volta para casa”. A escola tem como objetivo dar vagas preferencialmente para crianças negras, indígenas ou de baixa renda, ensinando o balé e a cultura africana.

Imagem do arquivo pessoal do entrevistado

A entrevista foi feita na residência do entrevistado, que gentilmente nos cedeu o espaço, ele foi educado e atencioso, isso gerou um clima airoso e confortável entre a entrevistadora e o entrevistado, durante a entrevista inteira houve respeito e muito profissionalismo por parte de ambos.

Clara:

Você poderia compartilhar uma experiência pessoal que mudou sua visão sobre a dança e o racismo?

Milton:

Bom, é legal deixar claro aqui para as pessoas que estão lendo, eu sou um homem negro de pele escura, e nesse contexto do Brasil, né, quanto mais escuro o tom de pele, mais as agressões acontecem. Então, sendo eu um homem negro de pele escura, fui agredido minha vida inteira. Falando disso, há duas experiências na minha vida que fizeram com que eu olhasse para essa questão do racismo. Tem várias, inúmeras, mas vou falar só duas que são bem importantes.

A primeira foi logo quando comecei meus estudos de balé. Procurei uma professora, não vou citar nomes aqui, e pedi para fazer aula de balé. Ela simplesmente olhou para mim, sem me ver fazendo nada, e disse que eu não tinha condições de fazer balé, que eu não seria bailarino. Naquela época, eu não entendia por que ela tinha dito isso. Hoje, eu entendo. Fiquei uma semana batendo na porta da academia, falando com ela, e ela sempre dizia “não”. No último dia, depois de tanta insistência, ela percebeu que eu não ia desistir e disse: “Então tá bom, faz a aula aqui”.

Hoje em dia ela não está mais viva, mas depois que entrei no Balé da Cidade de São Paulo como bailarino profissional, ela começou a me elogiar. Mas, num primeiro momento, isso não aconteceu.

Outra experiência importante foi quando eu já tinha me aposentado como bailarino do Balé da Cidade de São Paulo, onde trabalhei profissionalmente 17 anos. Depois de me aposentar, fui convidado para ser professor de balé. Um organizador de eventos do interior me convidou para dar aulas. Nós nos comunicamos por e-mail, então provavelmente ele não sabia que eu era um homem negro. Quando cheguei lá, cedo, encontrei com essa pessoa, que depois descobri ser o coordenador. Ele olhou para mim e perguntou: “Você que veio limpar esse espaço aqui?”

Por conta do racismo, as pessoas não imaginam que um homem preto possa ensinar balé. Essas foram duas situações que vivi e que me fizeram perceber o quão perverso o racismo é no Brasil e no mundo.

Clara:

Imagino como deve ter sido difícil para você. Agora vou para outra pergunta. Você teve dificuldades para entrarem uma universidade?

Milton:

Olha, para entrar na universidade, não. Eu fiz exame para uma universidade particular paga, fiz a prova e consegui passar. Mas a minha dificuldade não foi tanto na entrada da faculdade, e sim antes, no ensino básico e médio, por conta das dificuldades de aprendizado causadas pelo racismo.

As escolas não estão preparadas para receber pessoas diversas, especialmente pessoas negras e indígenas. Sofri muito bullying e discriminação, o que afetou minha capacidade de estudar. Eu falava com os professores sobre o que estava acontecendo, e eles diziam que era normal.

Quando entrei na faculdade, tive dificuldade no primeiro ano por conta dessas lacunas no aprendizado. Mas, com o tempo, fui estudando e melhorando.

Clara:

Entendi. Sabemos também que você tem uma escola de balé, a Ayodele bale , voltada preferencialmente para pessoas negras e indígenas. O que te levou a abrir essa escola?

Milton:

Essa pergunta é boa. A decisão de abrir a escola tem a ver com as experiências que mencionei. Quando comecei a dançar, não entendia porque as pessoas me diziam que eu não poderia fazer balé. Hoje, sei que isso era por causa da cor da minha pele.

O balé é uma dança que veio da Europa, e, naquela época, só pessoas brancas dançavam. Os colonizadores trouxeram essa cultura para o Brasil, e as pessoas não brancas têm mais dificuldades de acessar essa dança por conta do racismo.

Quando eu dançava, percebia que havia poucas pessoas negras nas companhias profissionais. Comecei a pensar: “Por que isso acontece?” E quando fui convidado para dar aulas em uma escola de formação, notei que havia poucas crianças negras estudando dança. Se há poucas crianças negras, naturalmente haverá poucos profissionais negros.

As crianças negras vão desistindo ao longo do caminho por causa das agressões, das sutis ofensas sobre seus corpos, como “seu cabelo não serve”, “seu pé não estica”. Eu queria criar um espaço onde essas crianças pudessem se sentir acolhidas e incentivadas a continuar.

Clara:

Muito interessante. Quais são os principais desafios que bailarinos negros enfrentam no mundo da dança e como sua escola busca abordá-los?

Milton:

Os desafios são inúmeros. Desde a não aceitação, a falta de roupas e sapatilhas, que correspondam aos tons de pele negros, até os padrões de cabelo e outros preconceitos. Na minha escola,

buscamos criar um ambiente seguro onde as pessoas possam aprender sem serem agredidas, pensando em como formar bailarinos profissionais de uma maneira mais inclusiva e acolhedora.

Clara: De que maneira o currículo da sua escola incorpora a cultura negra e a história do balé?

Milton: A escola tem um foco especial em culturas diversas, já que estamos no Brasil, um país com uma enorme diversidade cultural. Além do balé, oferecemos aulas de capoeira, danças indígenas, danças brasileiras, dança de rua, jazz, dança africana, canto e percussão. Também incluímos palestras e discussões sobre a história de cada dança e suas raízes culturais. Trabalhamos em conjunto com a Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira, o que ajuda a contextualizar as danças dentro da história do nosso país.

Clara: Muito interessante! E que mudanças você tem observado na autoestima e na identidade dos alunos desde que começaram a dançar na sua escola?

Milton: O impacto tem sido enorme, tanto nas crianças quanto nas famílias. Quando as famílias veem a diversidade de danças e a quantidade de crianças negras participando, percebem que estão em um espaço seguro. Isso tem um efeito profundo na autoestima e na confiança das crianças. Elas começam a perceber que são capazes, que têm espaço, e isso as motiva a continuar e a sonhar. Isso é algo que vem sendo construído aos poucos, principalmente em parceria com espaços parceiros, já que minha escola ainda não tem um espaço físico fixo.

Clara: Imagino! E como você envolve a comunidade local nos eventos e atividades da sua escola?

Milton: Como mencionei, atualmente trabalho em espaços parceiros, mas minha intenção é abrir meu próprio espaço em 2025. Quando isso acontecer, pretendo envolver a comunidade em eventos, festividades e datas comemorativas. A ideia é fechar a rua para eventos com dança, canto e teatro, trazendo toda a comunidade para participar. Esse envolvimento é fundamental para criar uma sensação de pertencimento e conscientização sobre o que a escola oferece.

Clara: Tenho certeza de que vai ser incrível quando esse sonho se realizar. Que tipo de formação os professores da sua escola recebem para tratar questões de racismo e inclusão?

Milton: Os professores que trabalham comigo já vêm com um compromisso antirracista. Mas eu acho que é importante oferecer letramento racial crítico para que eles possam entender a verdadeira história e não a história deturpada que foi ensinada por muitos anos. Precisamos desconstruir a ideia de que negros surgiram a partir da escravização, quando na verdade éramos reis, rainhas e profissionais respeitados. Essa formação é essencial para que os professores consigam ensinar de forma inclusiva e respeitosa.

Clara: Como você lida com a diversidade dentro da própria comunidade de bailarinos?

Milton: Ainda temos pouca diversidade de corpos no balé, e essa é uma das minhas lutas. Eu quero que o balé seja um espaço onde negros, indígenas, homens e mulheres trans possam participar e se sentir representados. Quanto mais diversidade tivermos, mais enriquecedor será o ambiente.

Clara: Sim, concordo! E como você percebe a importância da representatividade de bailarinos negros nas artes e na dança?

Milton: A representatividade é fundamental. Quando crianças negras veem pessoas como elas ocupando espaços importantes seja como bailarinos, coreógrafos, políticos, médicos ou engenheiros , elas começam a acreditar que também podem chegar lá. É por isso que precisamos garantir que haja mais negros em posições de destaque, não só na dança, mas em todas as áreas. Clara: Quais conquistas dos seus alunos você considera mais significativas e como isso reflete na missão da sua escola?

Milton: A conquista mais importante para mim é ver os alunos negros ingressando no mercado de trabalho artístico. Meu objetivo principal é dar a essas crianças as melhores condições para que possam alcançar seus sonhos, seja no balé ou em outras áreas da arte.

Clara: Que conselho você daria para outros educadores de dança que desejam criar um ambiente mais inclusivo?

Milton: Eu diria que o mais importante é amar o que faz. Além disso, é crucial que o educador se conheça, para não transferir seus próprios traumas para os alunos. E, por fim, nunca parar de estudar. O aprendizado constante é fundamental para ensinar com sabedoria e sensibilidade.

Clara: Agora, a última pergunta. Qual é a sua visão para o futuro da dança?

Milton: Eu acredito que o futuro da dança depende de combatermos as desigualdades e o racismo. Se nós, da arte e da cultura, nos unirmos contra o discurso de ódio e as opressões, a dança tem um futuro brilhante. Mas isso começa no presente, com a conscientização e a luta.

Clara: Muito obrigada, Milton! Nossa entrevista chegou ao fim. Agradeço por compartilhar sua história e seus conhecimentos.

Milton: Eu que agradeço! Continue estudando e buscando aprender sempre!

Por: Guilherme Busato, Lívia Prieto, Clara Bueno e Gustavo Lopes.

O impacto da implementação de medidas antirracistas nas escolas para a população

Segundo o professor Carlos Eduardo Campos Serejo a pauta de atitudes antirracistas nas escolas é de suma importância para uma população

O racismo tem se tornado uma pauta cada vez mais recorrente e importante na educação básica e superior, fazendo com que escolas e faculdades precisem tomar providencias em relação ao tema, a fim de uma maior conscientização da população. Então, escolhemos o professor de artes visuais, Carlos Eduardo Campos Serejo, um autodeclarado homem negro proveniente do Maranhão. No dia 24 de outubro de 2024, ocorreu o agradável encontro com o entrevistado em um lugar de convivência da escola Carandá. O docente trouxe diversas reflexões, descritas a seguir:

Qual é a sua idade?

Hoje eu tenho 47 anos.

Onde você nasceu, quando veio morar em São Paulo e por quê?

Eu nasci em 1977, na cidade de Alcântara, no Maranhão. Vim para cá, em São Paulo, em 1980. Mudei porque eu fui adotado e a minha mãe adotiva veio morar em São Paulo. Ela morava em São Luís, no Maranhão, arrumou um trabalho, mudou de cidade e me trouxe para cá.

Qual curso superior você exerceu?

Licenciatura em Artes Visuais, que me dá o direito de dar aula para a Educação básico no ensino Fundamental 2.

Com o que você trabalha?

Atualmente sou professor de artes do Fundamental 1 e 2, em duas escolas. Aqui na escola Carandá e na escola da Vila. Além disso, sou tatuador em horas vagas e, às vezes, me considero artista.

Você se considera uma pessoa negra?

Sim.

Você acredita que a implementação de trabalhos didáticos cunhados por autores negros é importante para o desenvolvimento de uma educação inclusiva?

Concordo.

Você já presenciou ou vivenciou alguma situação de racismo na instituição que você trabalha e na que você estudou?

Na instituição que eu trabalho, não, ou pelo menos, não de forma direta. Talvez o que a gente considera hoje como racismo estrutural são algumas atitudes que a gente desconhece e acaba repetindo por hábito.

E na escola em que você estudou?

Eu já não lembro mais (risos), mas provavelmente sim.

Com a sua experiência de vida em diferentes estados, você acredita que existe um maior ou menor preconceito racial nesses locais? No local onde você nasceu, onde você viveu e agora onde você está estabelecido.

Se tem uma diferença?

Sim. Se existe um preconceito indireto ou direto. É quase como se fosse uma comparação entre os estados em que você viveu: Maranhão e São Paulo.

Como eu nasci e morei pouco tempo lá e o lugar em que eu nasci é um quilombo, então lá não existe racismo. Eu vim para cá, pra São Paulo, nos anos 80, com três anos. Então com três anos, você não sabia nem o que era racismo. Então, só posso dizer que se eu vivi algum ato racista, foi aqui em São Paulo e não no Maranhão.

E foram muitos?

Muitos.

Você pratica atitudes ou faz parte de coletivos antirracistas?

Não, mas eu sou militante. Eu não faço parte de nenhum grupo, mas eu estudo, acompanho, defendo.

Você aprova a estrutura atual da lei de cotas no Brasil? Se não, qual seria uma solução possível para resolver parte dos problemas sociais do nosso país?

Eu aprovo a lei de cotas.

Você acha que a lei de cotas raciais ou de cotas sociais deveria existir?

Eu acho que ambas deveriam existir. Em um primeiro momento com tempo para terminar, sempre com uma revisão. Eu acho que vai fazer agora dez anos, não é isso? Ou fez. E aí, acho que há uma proposta de revisão. Acho que a revisão é sempre importante, porque todo o trabalho ou política pública social, à medida que a sociedade muda, ela precisa ser revisada. Então, eu entendo que com o tempo a gente precisa revisar para saber se faz sentido. Na atual circunstância, eu acho que ainda faz sentido. Mas eu acredito também que questões sociais que não estão atreladas a questões raciais também têm que ser levadas em consideração, não sei se no mesmo pacote, ou se em uma segunda ação, uma segunda política pública.

Quais ações pedagógicas você sugere para que se possa trabalhar com a criticidade e sensibilidade à questão antirracista e às relações étnico-raciais nas escolas?

A primeira é debater o assunto de forma aberta, sobre o racismo. Acho que um dos principais problemas em relação ao racismo é sua invisibilização, principalmente de quem não sofre o racismo. Então, tornar isso claro, para ficar evidente, para ser debatido. Acho que o uso de referências de bibliografias e outros artistas e autores como negros, eu acho que é importante. E, principalmente, pensar o espaço da branquitude, como o branco se coloca dentro dessa circunstância das reflexões em relação ao racismo e à negritude.

Excelente. Muito obrigado, professor.

Uma última pergunta antes de finalizar. Você falou que sofreu vários atos racistas aqui na cidade de São Paulo. Você poderia dar um exemplo de algum deles?

Eu tenho que comprovar que eu fiz a compra, mesmo tendo acabado de sair do caixa com a nota fiscal.

Em lojas de roupas?

Eu entrei numa loja mais grã-fina e alguém me disse que não tinha o que eu estava procurando, porque olhou para minha cara e achou que eu não tinha condições de comprar ou que não era o lugar para mim. Fui parado por polícia várias vezes, acusado de ser portador de droga ou ladrão, coisa do gênero. Já fui parado uma vez no estádio, quando eu torcia para time de futebol.

Qual estádio?

Estádio do Pacaembu, morava ali perto, que é uma região que tem muita gente com dinheiro. Na época eu estudava e fui pedir uma dica de onde era a fila de compra do ingresso para quem era estudante. Aí eu vi uma policial parada e fui pedir informação. Naquele momento eu tomei um enquadro. Coisas desse gênero.

Muito obrigado de novo professor, um ótimo dia para você! Igualmente.

Podemos concluir que este encontro com o Professor Carlos Eduardo Campos Serejo trouxe à tona questões profundas sobre o racismo estrutural e a necessidade de um engajamento constante para promover uma educação mais inclusiva e antirracista. Suas experiências pessoais, aliadas à sua prática pedagógica, nos mostram que o combate ao racismo nas escolas deve ser uma prioridade, para que novas gerações cresçam com maior empatia e respeito às diferenças, e para que a sociedade, como um todo, tenha mais chances de superar as barreiras da discriminação racial

Por: Felipe Marinho, Ricardo Gadel, Theo Palma e Rafael Ribeiro.

Crônicas

Situação

Dentro da sala, a professora, já com um jeito cansado, explicava mais uma equação. De vez em quando, ela olhava pela janela, talvez pensando no salário que não dava pagar as contas que só aumentavam. Mas sempre que virava para a turma, tinha um sorriso. Um sorriso meio sofrido, mas era sincero. Porque, no fundo, ela sabia que ensinar era o que ainda movia o mundo. E era o que a fazia continuar.

No fundo da sala, um menino com a camiseta meio rasgada tentava entender a matéria. Ele não tinha todos os materiais e, às vezes, nem a merenda chegava direito. Mas lá estava ele, todos os dias. Pois, de algum jeito, ele acreditava que estudar poderia mudar sua vida. A gente sempre escuta isso Que a educação é o caminho. Mas para ele o caminho parecia uma estrada cheia de pedras.

A professora, com toda a paciência do mundo, seguia. Ela sabia que educação no Brasil não era só ensinar a ler e a escrever. Era ensinar a não desistir, mesmo quando tudo parece ir contra. Aquele menino no fundo da sala, de camiseta rasgada, podia ser médico, engenheiro, ou até professor, quem sabe. Talvez. Apesar de tudo, sonhar ainda era possível.

E assim, a escola, com suas portas sempre abertas, continuava. Cada aula, um novo passo. Cada aluno, uma nova história. E a professora, como tantas outras, acreditava que, um dia, o Brasil ia realmente valorizar a educação.

E até esse dia chegar, ela ia continuar lá, lutando e acreditando no futuro.

Por: Martin Roitman e Rafael Ohba

Um ciclo sem fim, porém possível de se fazer

Um dia em 1520, um morador do interior de Gana chamado Akim, foi sequestrado por um grupo de pessoas, que o levou a um novo continente chamado América do Sul, mais especificamente no Brasil, a terra de Vera Cruz. Akim era tratado como uma ferramenta de trabalho para limpar terrenos, cavar minas, cuidar de plantações e diversas outras funções árduas que algumas pessoas com uma pele parecida com um palmito não faziam. No início, ele não

sabia por que essas pessoas não trabalhavam como ele, e ele morreu com essa dúvida.

Seus bisnetos ouviram falar de uma tal Lei Áurea, que os deixaria longe de correntes e doutrinações que passavam com seus “superiores”. Dito e feito, tal lei foi executada e foram libertos, porém percebiam que as pessoas com uma pele mais clara zombavam e faziam um tratamento que não os agradavam. Um dos tataranetos de Akim, chamado João, não entendia o motivo das brincadeiras que os brancos faziam contra ele, e resolveu entender melhor a origem de tais zoeiras. Ele descobriu que esse tratamento estava enraizado na cultura do seu povo, e resolveu lutar contra esse preconceito, resultando em uma lei chamada Eusébio de Queiroz. Manoel Carlos resolveu fazer com o seu pai e continuar com a luta contra o racismo, e já que sonhava em ser professor, começou a inserir tais ideias nos seus planos de educação. Não foi tanto tempo que passou, e ele começou a agir no local onde as pessoas são ensinadas a ter ética e caráter nas suas ações, a escola. E conforme foi aumentando a popularidade de tal educação, ele e outros professores fizeram até leis para evitar que essas ações continuassem do jeito como era.

Nos dias atuais, muitas pessoas concordam com a ação de João e Manoel Carlos, porém percebem que continua a ser algo rotineiro e lutam para que isso acabe. Seja consciente nas suas ações.

Fontes:

-https://jornal.usp.br/atualidades/racismo-estrutural-ainda-persiste-naeducacao-brasileira/

-Livro: “África e Brasil Africano”

-Apresentações sobre a presença de negros na educação em geografia.

-Livro: “Igualdade das relações étnico-raciais na escola”.

Por: Rafael Lugatto e Thomás Correia.

Desigualdade em Foco: A Importância da Presença de Docentes

Negros

e Pardos nas

Universidades Brasileiras

Com apenas 23% de docentes negros e pardos, as universidades brasileiras enfrentam a urgência em promover uma educação que represente a pluralidade da sociedade.

A presença de docentes negros e pardos nas universidades brasileiras é um tema central na luta pela educação antirracista e pela promoção da equidade nas relações étnico-raciais. Apesar de avanços significativos em políticas de inclusão, como as cotas raciais, a representação desses professores permanece alarmantemente baixa. Dados do Extraclasse de 2024 revelam que apenas 21% dos docentes universitários eram negros ou pardos. Essa realidade não apenas evidencia a sub-representação, mas também reflete os desafios estruturais que esses profissionais enfrentam para alcançar posições de destaque no sistema educacional, limitando o potencial transformador da educação.

Historicamente, o sistema educacional brasileiro é marcado por profundas desigualdades raciais, que se perpetuam desde a colonização até os dias atuais. As consequências da escravidão, combinadas com práticas discriminatórias e políticas públicas excludentes contribuíram para a marginalização das populações negras e pardas. A pesquisa "Perfil dos Docentes no Brasil", realizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), publicada em 2020, destaca que a falta de diversidade entre os docentes não só limita a formação dos alunos, mas também perpetua visões de mundo homogêneas, que não refletem a pluralidade da sociedade brasileira. Essa situação enfatiza a urgência de uma abordagem educacional que promova a igualdade racial.

Nos últimos anos diversas universidades têm implementado políticas de inclusão, como sistemas de cotas e programas de apoio a estudantes e

docentes negros e pardos. A Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, adotou em 2016 ações afirmativas que visam aumentar a presença de alunos de diferentes etnias. Embora essas iniciativas tenham gerado um impacto positivo no acesso ao ensino superior, a transição para um corpo docente mais diversos continua a enfrentar grandes obstáculos. Um estudo da Universidade Federal da Bahia (UFBA) revela que, apesar do aumento no número de estudantes negros e pardos, a ascensão desses indivíduos a posições de docência é lenta, evidenciando uma resistência institucional que ainda precisa ser combatida.

Os docentes negros e pardos são essenciais na promoção da educação antirracista, trazendo experiências e perspectivas únicas que enriquecem o ambiente acadêmico. A professora Nilma Lino Gomes, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirma que "a presença de docentes negros não é apenas uma questão de representação, mas de transformação do conhecimento". Essa transformação é vital para a formação de estudantes que não apenas reconhecem, mas também valorizam a diversidade cultural e racial do Brasil. Quando os alunos veem professores que refletem suas próprias experiências e realidades, a identificação e o pertencimento se fortalecem, promovendo um ambiente mais acolhedor e inclusivo.

Além de sua importância como modelos, esses educadores frequentemente atuam em projetos de pesquisa e extensão voltados para a temática racial, contribuindo para uma formação mais crítica e engajada. A atuação deles ajuda a desconstruir estereótipos e preconceitos, promovendo um ambiente acadêmico que reflete as realidades e desafios enfrentados pela população negra e parda. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), realizado em 2020, indica que a presença de docentes que abordam questões de raça e gênero nas salas de aula aumenta a conscientização dos alunos sobre desigualdades sociais e raciais, permitindo um diálogo mais amplo e uma formação integral.

Entretanto, os desafios permanecem. A resistência institucional, a falta de recursos e a escassez de programas de apoio são barreiras que dificultam a ascensão de docentes negros e pardos nas universidades. Muitas

universidades ainda carecem de infraestrutura adequada e de políticas que garantam um ambiente inclusivo. A ausência de políticas de apoio psicológico e de desenvolvimento profissional também contribui para a desmotivação desses docentes que frequentemente enfrentam a pressão de representar não apenas a si mesmos, mas também suas comunidades.

Programas de mentoria são cruciais para o desenvolvimento de carreiras acadêmicas de docentes negros e pardos. Iniciativas como o Programa de Formação de Professores para a Diversidade (PFPD), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), têm se mostrado eficazes ao promover a formação contínua de professores em temas relacionados à diversidade étnico-racial, contribuindo para uma educação mais inclusiva e consciente. A troca de experiências entre docentes, aliada a um espaço seguro para discussões, pode fortalecer a autoestima e a confiança desses profissionais, permitindo que se sintam mais capacitados para atuar em ambientes predominantemente brancos.

Além disso, é vital que as universidades promovam uma mudança de cultura institucional, que valorize a diversidade e a inclusão em todos os níveis. Isso inclui a formação de comitês de diversidade, a realização de cursos de capacitação para todos os membros da comunidade acadêmica e a implementação de políticas de promoção à igualdade racial. O fortalecimento de redes de apoio e a criação de espaços de diálogo entre docentes podem também contribuir para a construção de um ambiente mais acolhedor e propício à diversidade.

A seguir verifica-se um gráfico que ilustra a evolução da quantidade de professores universitários no Brasil entre os anos de 2012 e 2019, com base no Censo do Ensino Superior.

O gráfico mostra a evolução da quantidade de professores universitários no Brasil entre os anos de 2012 e 2019 em nosso país. Os dados foram retirados do censo do ensino superior desse período.

No gráfico podemos notar que em 2012, antes de criarem a lei de cotas para concursos federais, e isso inclui os concursos para professores das universidades federais, o percentual de professores negros era muito menor do que de professores brancos, principalmente dos pretos. Já em 2019, depois da lei de cotas e da recomendação de vagas para a pós-graduação, mais pessoas negras se tornaram professores universitários, embora o crescimento tenha sido pequeno e bem menor do que o crescimento de professores brancos.

Podemos perceber que por causa da entrada de mais estudantes negros nas universidades, graças às cotas, um percentual maior de estudantes negros conseguiu avançar em seus estudos e se tornarem professores universitários.

A presença de docentes negros e pardos nas universidades é essencial para a construção de uma educação antirracista e para a promoção da equidade nas relações étnico-raciais. Embora haja avanços nas políticas de

inclusão, a trajetória ainda é longa e repleta de desafios que precisam ser enfrentados. A transformação do ambiente acadêmico exige um compromisso coletivo para combater a desigualdade e garantir que a diversidade seja não apenas respeitada, mas celebrada. O reconhecimento e a valorização da importância desses docentes são fundamentais na construção de um futuro mais justo e igualitário a todos. Somente assim poderemos aspirar a um sistema educacional que não apenas forme cidadãos, mas que também promova justiça social e equidade racial, garantindo que a educação superior reflita a pluralidade e a riqueza da sociedade brasileira.

A luta pela inclusão e pela diversidade é um compromisso de todos, e a construção de um ambiente acadêmico mais justo é uma responsabilidade compartilhada que beneficiará a sociedade como um todo.

Por: Bruno Caldeira, Gabriel Sapienza, Cecília Rollo, Bia pimenta e Luis Augusto.

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