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Revista_Divulgação_Científica_Ensaio_Estudo_do_meio_EM_Imaginar-te_2025

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DIVULGAÇÃOCIENTÍFICA E ENSAIO

Entre a simplificação e a distorção do conhecimento científico, as fake news em ciência e a lógica de mercado

Do discurso de autoridade da ciência hegemônica ao epistemicídio, como decolonizar a ciência e reflorestar o imaginário?

NOVOSOLHARES

MACHISMOS E FEMINISMOS

ESPORTE E POLÍTICA

Apresentação

O que caracteriza um conteúdo científico para público não especializado? Basta tratar de ciência, mas de um jeito simples? Como a simplificação pode contribuir para a distorção de conteúdos científicos? Quais os impactos das fake news sobre ciência? Quais os impactos das pesquisas científicas a serviço da lógica de mercado?

E o que acontece com o que não cabe no método científico? O que há de comum entre os grandes nomes das comunidades científicas mais respeitadas na atualidade?

Como ciência, mercado, governo e novas tecnologias podem favorecer a manutenção da lógica colonial? Como descolonizar a ciência hegemônica? Como nos reapropriar dos saberes que foram subtraídos das comunidades e sociedades silenciadas e dizimadas? O que podem o Jornalismo e a Educação nesse cenário?

Nas aulas de Língua Portuguesa do 2º ano do Ensino Médio de 2025, investigamos não só o discurso de autoridade da ciência hegemônica, como também o epistemicídio, a objetificação das populações subalternizadas e a invisibilização de temas outrora irrelevantes, tendo em vista uma abordagem decolonial

As Matérias Jornalísticas de Divulgação Científica aqui expostas foram escolhidas pelas e pelos estudantes do 2EM. Nelas, podemos reconhecer a leitura de Artigos Científicos, a tradução da metodologia, da nomenclatura e de conceitos específicos em linguagem acessível, a fim de favorecer a democratização do conhecimento científico para o público leitor que determinamos (neste caso, estudantes ingressantes no Ensino Médio), e, em particular, o propósito de se posicionar sobre os temas selecionados para seremdebatidos. Aabordagemdecolonial foi disparada através da escolha dos temas tratados nos Artigos Científicos escolhidos, por ora, pela professora, com base em 2 critérios: 1. Os temas mais frequentemente trazidos pelas e pelos estudantes; 2. Uma perspectiva decolonial inscrita no rigor da ciência hegemônica.

Já os Ensaios aqui reunidos, também escolhidos pelo próprio 2EM, resultam de uma longa jornada de imersão no EU, no EU-NO-MUNDO, nos discursos hegemônicos e nos contra-hegemônicos. Cada estudante a seu tempo.

O que tem te inquietado? Que narrativas e discursos podem ser reconhecidos nessas inquietações? Que trajetórias podem ser construídas para desenovelar essas inquietações? O que a ciência hegemônica tem a dizer sobre elas? Como outras cosmopercepções podem contribuir para lançar outro olhar sobre essa realidade? Como tornar dizível, na materialidade da escrita, essa muvuca de vozes?

Para essa jornada, cada estudante nomeou uma de suas inquietações, vasculhou a memória a fim de verificar discursos e narrativas que as constituíam, e registrou essas especulações iniciais em um texto escrito formal com o propósito de explicitar sua trajetória de raciocínio. Em seguida, foi solicitado que cada estudante investigasse como a ciência hegemônica explica essas inquietações. As e os estudantes ainda foram instigados a investigar como outras cosmopercepções explicam as mesmas inquietações, num desejável giro decolonial.

A escolha de temas invisibilizados pela centralidade hegemônica e a tomada de conhecimento de outra ecologia de saberes são tão importantes ao letramento científico quanto o rigor do método e a autoridade do discurso da ciência. Afinal, sabemos que, além de inserir conteúdos até então subtraídos, é preciso ressignificar os estabelecidos numa abordagem contra-hegemônica e descolonizar o currículo escolar como um todo.

Ainda derivado deste trabalho, lançamos uma campanha de ativismo digital (ainda em construção) com o propósito de abrir o debate sobre o uso político das redes sociais e de retomar a escrita da redação ENEM, agora, entendida como tecnologia decolonial.

Boas inquietações!! Boas esperanças!!

Boas leituras,

Professora Luciana.

Os Artigos Científicos oferecidos ao 2EM para serem divulgados foram:

 Do machismo à transfobia em letras sertanejas: o caso Lili, Ariel Sessa, Josilene Ferreira

 O discurso machista em comentários no Facebook sobre a notícia “mulher nega sexo e mata marido”, Tamires Demoner, Micheline Tomazi, Sabrina Garcia

 Empoderamento ou Objetificação: Um estudo da imagem feminina construída pelas campanhas publicitárias das marcas de cerveja Devassa e Itaipava, Dalila Belmiro, Lucas de Paula, Priscila Laurindo, Pablo Viana

 Educação Física escolar e ditadura militar no Brasil (1964-1985): balanço histórico e novas perspectivas, Bruno Rei, Sílvia Lüdorf

 A re-significação do corpo pela Educação Física escolar, face ao estereótipo construído na contemporaneidade, Andreia Gonçalves, Aldo Azevedo

 Futebol e teoria social: introdução a uma sociologia do futebol brasileiro, Francisco Rodrigues

 Futebol, visibilidade e poder: lógica da violência nos espetáculos futebolísticos, Felipe Lopes, Mariana Cordeiro

 Política e futebol não se discutem? Efeitos de sentidos e a ressignificação da camisa da seleção brasileira como simbologia política, Islan Silva

 Jogos Cinematográficos ou Filmes Interativos? A semiótica e a interatividade da linguagem cinematográfica nos jogos eletrônicos, Luis Rodrigo Brandão

 O funcionamento da ludus-gamificação e a servidão maquínica, Mariana Amaro, Camila Freitas

 Cinema e semiótica: a construção sígnica do discurso cinematográfico, Marcelo Santos

 O cinema do feitiço contra o feiticeiro, Leonardo Carmo

 Cinema de animação - Um breve olhar entre o lazer e a diversão: formação para quê?, Claudio Vieira Pinto

 A influência do gosto musical no processo de construção da identidade na juventude, Vilmar Oliveira

 A narrativa da montagem do funk carioca no cotidiano escolar, José Carlos Teixeira Júnior

 Análise semiótica das manifestações culturais da capa do disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (The Beatles), Denise Araújo, Daniele Moehlecke

 A música que encanta, o discurso que aprisiona: a distorção comunicativa em uma loja de departamentos, Fabio Vizeu, Édna Regina Cicmanec

 O carnaval de rua como direito à cidade, Guilherme Varella

Revista Digital de Divulgação Científica

2º ano do Ensino Médio de 2025

TÍTULOS DAMATÉRIAS JORNALÍSTICAS DE

DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

Carnaval: A inundação das ruas. Como a população deve fazer e já faz uso da cidade, subvertendo as narrativas impostas pelo sistema. Alice Carnaval, Clara Boaventura e Clara Vaz.

Política e Futebol: Fascismo. Artigo trata das consequências do uso da camisa da SBF e outros símbolos nacionais por apoiadores da extrema direita no Brasil. Antonio Jácome do Vale, João Pedro Martins, Nubia Cestari e Zoé Carnaval.

O uso da análise semiótica em músicas e artes do passado, e qual a importância de conhecêlas. Um texto informativo vindo de quem cresceu fora da bolha da música atual e popular. Theo Vallim Martos

Como os estereótipos ainda afetam seu jogo? Além do padrão: Como a educação física transforma a percepção do corpo na sociedade contemporânea. Emmanuelle Burattin, Luiza Bravo e Luiza Salvatore.

Diga-me oqueouves, quetedirei quem és.AMúsica comoAgente daFormação da Sociedade Contemporânea. Bernardo Lisboa, Felipe Eberlein, Roberto Losso e Luís Guilherme

Como a competitividadese torna violência. O mundo do futebol cada vez mais violento ao longo dos anos. Arthur Carvalho, Felipe Luchesi, Jun Fukada, Milo Giovannoni

TÍTULOS DOS ENSAIOS

Sob a lente europeia: contradições do eurocentrismo na educação brasileira. Uma reflexão crítica sobre a persistência do eurocentrismo no currículo escolar, mesmo em instituições construtivistas. Nubia Selassie Cestari Granello

Tudo muito cheio. Tudo muito oco. As redes sociais como espelho e prisão na construção da identidade. Clara Vaz

Ador da exclusão escolar. Uma reflexão sobre empatia, pertencimento e o papel de quem vê, sente e escolhe agir (ou não) diante da exclusão. Zoé Carnaval Realidade dos estudantes negros em colégios particulares. Reflexões sobre pertencimento, exclusão e identidade racial no ambiente escolar elitizado. Carolina Martins Nascimento

A farsa da “teoria musical”. Teoria musical como ferramenta de exclusão artística e apagamento cultural. Antonio Jácome do Vale

Amor, Desejo e Violência: Conexões rasas e a objetificação do corpo, Emmanuelle Burattin

O Holocausto e a reforma dos direitos humanos A reestruturação dos direitos humanos após o Holocausto e o papel da memória histórica frente à institucionalização da violência. Antônio Losso Stockler

Quando o medo começa? Ser adolescente e mulher em uma sociedade que cala. Medo herdado: como o patriarcado molda o cotidiano e silencia a liberdade feminina. Laura Salvatore

Os significados únicos das palavras. Como as palavras podem nos trazer tantas lembranças.

Luiza Salvatore

A“fragilidade” que nos torna humanos. Pietra Zeizer

As vertentes do audiovisual na vida dos jovens. Como a arte pode transformar a vida de jovens? Clara Boaventura

O SonhoAmericano. Como o Liberalismo Constitui o Imaginário de Uma Nação. Felipe Smith Eberlein

IDENTIDADE cultural. Uma contraposição entre as origens ancestrais e o pertencimento em outras culturas. Felipe Braz

Por que esperar o pior? A normalização do bullying. Luiza Nakano Godoy Rosa

DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

Carnaval: A inundação das ruas

Como a população deve fazer e já faz uso da cidade, subvertendo as narrativas impostas pelo sistema

Por: Alice Carnaval, Clara Boaventura e Clara Vaz.

Escola Carandá Educação, março/2025

Folia e muita singularidade: bloco de rua "Te pego no cantinho”, no dia 09/03/2025, ocorrendo pelos arredores da praça Elis Regina, no bairro Butantã. (Imagem feita por uma das autoras da matéria).

O carnaval desperta interesse, excitação e conflitos seja aonde for, por ser esse evento em massa que, através do contraste entre a vida cotidiana monótona e os dias de folia libertina, geram uma energia coletiva que é sentida unicamente nesse período. Nós, as autoras dessa produção, moradoras da zona sul e oeste da cidade de São Paulo, temos grande apreço e somos frequentadoras desde pequenas desse evento, sendo testemunhas e verdadeiras foliãs em diversos blocos ao longo de nossas vidas. Tendo em vista que é uma festa pública, festejada na rua, um espaço que deveria ser ocupado e ouvido por todos, demonstra a importância de não só um produto da indústria cultural, que movimenta a economia através do turismo todos os anos, mas também de um movimento de resistência e liberdade, pois desde o início dessa prática foi algo cultuado principalmente por aqueles que são marginalizados dentro da sociedade, logo, sempre foi um momento em que o povo podia subverter as normas comuns, se expressando de

diversas maneiras a fim de exaltar a vida, de enxergar com leveza aquilo que o tempo todo é obrigado a ver de modo automatizado.

Mas, afinal de contas, como surgiu o carnaval que conhecemos hoje no Brasil?

Conhecimentos sobre a história dessa festa dentro do nosso país podem ser encontrados no artigo “Carnaval de rua como direito à cidade”, de Guilherme Varella, que saiu em 2024 no ENECULT. Segundo o autor, o carnaval foi sendo construído e se consolidou a partir de uma fusão de culturas, tanto europeia, quanto africana, nos primórdios da colônia. Dessa forma, foi-se diferenciando regionalmente, através do crescimento dos aglomerados urbanos, com “cada canto” do Brasil formando seu próprio conceito e cultura carnavalesca. Logo, é possível inferir que desde o século XIX, nas principais cidades brasileiras, houve essa necessidade de usar o espaço urbano para festejos.

Nesse cenário, vale destacar que o samba com origem profundamente africana nasceu nos terreiros, desceu o morro e foi incorporando elementos culturais, religiosos e sociais das camadas populares. De acordo com Varella, a vontade de subverter o lugar em que se vive gerou conflitos entre as classes dominantes e trabalhadoras. No contexto do carnaval, essa tensão se expressava na disputa por qual cultura deveria prevalecer. O samba é um exemplo evidente: inicialmente marginalizado, era ao mesmo tempo apropriado, combatido e ressignificado pela elite, pelo Estado e pela mídia nas primeiras décadas do século XX, até ser consagrado como o gênero nacional do carnaval a partir dos anos 1930. Além disso, havia choques territoriais: enquanto uma parte da população reivindicava o espaço público e livre da cidade como palco dos blocos, outra defendia a privatização e o controle desses espaços, propondo um carnaval recluso e exclusivo nos desfiles oficiais.

Apartir disso, ocorreramepisódios de extrema marginalização do carnavalde rua, especialmente na segunda metade do século XX, marcada pela ditadura militar e pela repressão que silenciava manifestações populares o que levou grande parte da população a temer ocupar os espaços públicos. No entanto, é importante ponderar se, ao voltarmos a usar asruas nosanos 2000e2010, houve de fato umretorno à“normalidade”, ou se essa retomada se deu mais como uma reação às tentativas de controle e privatização da cultura. Nesse período, o carnaval de rua ressurge como forma de resistência e

expressão política, algo que Varella descreve como “um grito pela abertura das imensas comportas urbanas, para se permitir a inundação das ruas pelas vivências e pelos eventos culturais públicos”. É preciso lembrar, contudo, que durante os tempos de repressão, o carnaval não desapareceupor completo eletambémfoiressignificado edeslocado para ambientes privados, como os clubes e bailes fechados, voltados a uma parcela específica da sociedade. Assim, embora o carnaval de rua paulistano tenha começado a receber atenção institucional e políticas públicas a partir de 2013, é válido refletir até que ponto essa “institucionalização” representou de fato uma integração democrática da festa, ou se foi também uma forma de regulação e controle sobre sua manifestação mais espontânea e popular.

Para entendermos nosso lugar na cidade

Diante dessa historiografia do carnaval de rua, é necessário compreendermos nosso lugar e nossos direitos dentro do espaço urbano. Para aprofundar essa reflexão, é útil recorrer às análises de Henri Lefebvre, especialmente em seu livro O Direito à Cidade. Em primeiro lugar, o autor descreve a cidade em sua realidade concreta: um espaço que, com o avanço do capitalismo, foi sendo moldado pelas lógicas de mercado, tornando-se palco da circulação de mercadorias, da especulação imobiliária e da segregação social. Nesse modelo urbano dominante, a cidade se reduz a um produto algo que deve gerar lucro, voltado ao valor de troca.

No entanto, Lefebvre propõe uma outra forma de pensar a cidade: como obra coletiva, um espaço de convivência, criação e expressão cultural. Essa é sua visão ideal, onde a cidade é um centro de vida social e política, construída historicamente por seus habitantes, e não apenas um cenário para o capital. É nesse ponto que sua crítica marxista se articula: ele diferencia claramente o "valor de uso" da cidade ou seja, seu aproveitamento para a vida, para os encontros, para a cultura do seu "valor de troca", que subordina tudo à lógica do lucro. Como ele afirma, “a obra é valor de uso e o produto é valor de troca”.

Dentro desse horizonte, o carnaval de rua se apresenta como uma das expressões mais potentes desse uso coletivo da cidade. Ao ocupar ruas, praças e espaços públicos com festa, arte e vivência comunitária, o carnaval desafia a racionalidade capitalista do

espaço urbano e reativa a cidade como obra um lugar de criação social e não apenas de consumo e circulação mercantil.

Desse ponto de vista, Lefebvre cunha o termo “direito à cidade”, que presa pela organização social, dentro desses locais, baseada na ideia de construção de um espaço de experiência e fruição, o qual poderia resultar em uma tentativa de desvincular a população urbana dessa mentalidade capitalista imposta a ela e, assim, reivindicar outro uso, outra lógica e outra organização para a cidade, com ela cumprindo as necessidades sociais e não só garantindo a segurança das propriedades. Logo, esse objetivo só seria alcançado com a mobilização social e a participação direta do povo nas decisões urbanas, trazendo o real sentido de apropriação do espaço público

Ademais, Lefebvre pensava a cidade como uma “centralidade lúdica”, expressando que dentro dos locais urbanos deve haver o espaço lúdico coexistindo com os espaços políticos e de trocas. De acordo com ele, a inserção de locais que visam à ludicidade faz parte dos direitos à cidadania e à vida urbana, sendo um direito essencial para a convivência e a vida em comunidade na cidade Além disso, como já dito, a lógica lefebvriana enxerga a cidade com o sentido de obra, logo é um espaço que requer complexidade, o qual deveria caminhar com as diversidades e pluralidades existentes, enfatizando-as.

A cultura pode ser uma agente para caminhar até o direito à cidade?

O artigo redigido por Peter Melville busca em Tylor uma concepção de cultura. Ele nos apresenta que esse conceito pode ser entendido como um conjunto interdependente de conhecimentos, moral, crenças, leis, artes,tradições e costumes de um determinado grupo de seres humanos que convivem em sociedade. Tendo em vista esse conceito, é possível estabelecer uma relação entre a cultura e o “direito à cidade” de Lefebvre, cujaprincipalfunção éconstruir umcentro devidasocialepolítica, entrelaçado com os hábitos e costumes descritos por Tylor em uma sociedade. Além dos aspectos artísticos e tradicionais, a cultura engloba também os elementos identitários e éticos, reforçando a conexão com a cidade e seus direitos.

Sendo assim, a cultura contribui para a formação da identidade urbana e para o fortalecimento da participação social. Quando ocupamos a cidade com esse olhar e essa perspectiva cultural, ocorre um envolvimento mais profundo não apenas físico, mas

simbólico eafetivo no qualasociedadetemachancede moldar suasprópriasvivências no espaço urbano, apropriando-se culturalmente dele. O carnaval, por exemplo, expressa história, luta, vivência, valores e necessidades que compõem a coesão social, tudo isso por meio de um espaço público acessível a todos: a rua. Essa vivência incentiva a participação ativa no ambiente tanto físico quanto cultural. Assim, a cultura torna-se um agente que possibilita não apenas o direito de habitar e usufruir da cidade, mas também de resistir, incluir e preservar a identidade coletiva e a memória de um lugar.

Carnaval de rua como atorna reorientação da produção do espaço público noBrasil

Após toda a compreensão do papel da cultura, constituída pela população, dentro dos ambientes urbanos e a forma com que ela está intrinsicamente ligada ao “direito à cidade”, vamos para o que finalmente interessa, para aquilo que, nós, brasileiros, esperamos o ano inteiro pela chegada, o carnaval. Essa festa de rua que é, segundo Guilherme Varella, “o dispositivo cultural mais radical de exigência de um novo tipo de vivência urbana”

Diante disso, é possível olharmos sob a perspectiva de Lefebvre para o carnaval de rua como uma relevante forma de inserção do lúdico, ao estabelecer uma atmosfera repleta de lirismo, imaginação e espontaneidade em ambientes tidos como cotidianos.

Nesse contexto, o carnaval permite uma reapropriação simbólica do espaço urbano, rompendo temporariamente com sua lógica funcional e produtivista. Não se trata exatamente de “usar” a cidade no sentido utilitário por isso, o termo valor de uso aqui deve ser entendido de forma mais ampla, como a vivência direta, afetiva e não mercantilizada do espaço urbano.

Durante o carnaval, o indivíduo não caminha pelas calçadas para trocar seutempo de vida por dinheiro ou cumprir tarefas do cotidiano. Em vez disso, ele ocupa ruas, calçadõesepraçasde maneiraespontânea paraandar, dançar, cantar ,transformando esses espaços em territórios de expressão cultural e coletiva.

Ainda assim, é importante reconhecer que essa vivência de “liberdade” tem seus limites. Embora o carnaval ofereça momentos de subversão e criação coletiva, trata-se de uma liberdade efêmera, situada dentro de um sistema urbano ainda dominado por desigualdades e pelo controle do espaço. Assim, o carnaval não representa uma ruptura

definitiva com a lógica dominante, mas sim uma brecha temporária, um intervalo em que o corpo, a voz e a cultura popular podem ressignificar o ambiente urbano.

Com isso, essa ressignificação trazida pelo festejo rompe totalmente com determinadas lógicas racionalistas e privatistas que estão aplicadas na vida citadina. Isso ocorre pelo choque de uso do espaço urbano representado pelo carnaval, que altera, radicalmente, a banalidade desses espaços e as funções, digamos exatas, projetadas para esses locais que não valorizam a cultura nem a pluralidade de pensamento.

Além do mais, há também uma modificação do ethos urbano, alterando as imagens/símbolos associados a determinadas cidades, como São Paulo, queduranteo ano inteiro é vista como “a que nunca dorme”, a do trabalho ou a da velocidade, e quando os mais de 800 blocos de rua começam a tomar cada canto dela, tudo muda. A paisagem cinza e cimentada associada a ela se transforma em um mar de gente colorida, que a inunda com suas músicas animadas, trios elétricos e fantasias, todos repletos de desejo por fruir Sendo assim, o mais encantador disso é que a cidade, nesse período, passa a ser reconhecida pelo estado em que está, um “estado de efervescência”, fazendo emergir valores relacionados à celebração, à vivência pública, à liberdade e à democratização do espaço urbano Alémde possibilitar umsentimentode pertencimento afetivo como lugar, contribuindo comuma alternativa de vida urbana mais lúdica e festiva, que na maior parte das vezes não é explorada pela população.

O papel do corpo no espaço público

Partindo dessa perspectiva, há outro elemento relevante ocorrido nos carnavais que se associa com o direito à cidade: a tomada das ruas pelos corpos. Segundo Ana Fandri Alessandri Carlos, em seu estudo feito em 2014, “O poder do corpo no espaço público: o urbano como privação e o direito à cidade” que abordou o poder do corpo no espaço público, explorando sua conexão com o urbano e com o direito à cidade, o corpo é um agente de subversão ao se apropriar do espaço público, desafiando a rotina banal e a normatividade, além de ser a fonte eo suporte detoda a cultura, atuando como principal mediador entre o indivíduo e o mundo, nesse caso, com a cidade.

Nesses ambientes que pouco exploramo valor de uso, os corpos, quando se fazem presentes de forma libertária, se tornam símbolos de protesto, indignação e insatisfação, expressando fisicamente as dificuldades enfrentadas. E mais precisamente no carnaval,

eles carregam significados de liberdade, empatia, crítica e transgressão, tudo isso com fantasias e pinturas ao redor, destacando a exposição da pele, que se tornou um traço marcante nessas manifestações. Dessa forma, esse comportamento dissolve valores e barreiras, nas palavras de Guilherme Varella em seu artigo “Carnaval de rua como direito à cidade”, de delimitação clássica e bem-marcada da cidade, entre casa (privado) e rua (aberta).

Sendo assim, o carnaval de rua, como manifestação política, constitui-se também como uma ferramenta para imaginar um ambiente diferente, favorece a experiência dos corpos como reivindicação do direito à cidade na própria cidade. Embora outras formas de protesto já façam isso, dentro da esfera do carnaval isso se dá de maneira potencializada e radical.

Conclusão

Sendo assim, por enxergarmos tanta relevância nessa festa anual, cujo protagonismo pertence ao povo, sabemos o quanto é necessário que aqueles que se dizem “anticarnaval” e utilizam de discursos como “evento que promove promiscuidade, suja e destrói as cidades”, ou de “alienação das massas, o ópio do brasileiro”, devem procurar entender a necessidade de subversão que a população sente e que o carnaval de rua se configura como exercício do direito à cidade. Em outras palavras, todo esse incômodo dos setores de elite e classe média conservadoras é oriundo de um preconceito a tudo que remeta a grande parcela de cidadãos, que são subjugados e colocados às margens. Logo, é de extrema importância que fique cada vez mais claro o quanto essa celebração não é sinônimo de alienação, e, sim, o contrário, nesses momentos de catarse coletiva, surgem/ressurgem manifestações de insatisfações populares, se fazendo presente a vocação do direito à cidade, no qual essa função carnavalesca nesse ambiente é uma ferramenta de reimaginação e refazimento coletivo do mundo urbano.

Portando, precisamos criar uma resistência a essas tentativas de despolitização do maior festejo do Brasil e manter e/ou tornar ainda mais intenso esse momento de manifestar e esclarecer que a população tem o direito de usar os espaços fora da lógica e narrativa exigida, podendo fazer isso através das marchinhas, dos sambas-enredo, frevos e maracatus cantados nos palcos públicos, as ruas da cidade. E como diria Chico “E um

dia, afinal, tinham direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se chamava carnaval”.

Bibliografia:

VARELLA, Guilherme. O carnaval de rua como direito a cidade. São Paulo (enecult): 2024. Disponível em: https://www.enecult.ufba.br/modulos/submissao/Upload699/152484.pdf. Acesso em: 24/02/2025

LEFEBVRE, Henri. O direito à cidade. São Paulo (Monoskop/Centauro): 2011.

Disponível em:https://monoskop.org/images/f/fc/Lefebvre_Henri_O_direito_a_cidade.pdf. Acesso em: 20/02/2025

FANI, Ana. Henri Lefebvre: o espaço, a cidade e o “direto à cidade”. São Paulo (Scielo/Revista Direito e Praxis): 2020. Disponível em: Microsoft Word - 13. Alessandri Carlos_OK_EMAIL_VF_348-369.docx Acesso em: 07/03/2025

MARX, Karl. O Capital: Crítica da economia política- Livro 1: processo de produção do capital (volume 1). 9. ed. São Paulo: Editora DIFEL, 1984.

MELLO, Lucas; LUCERO, Ariana; DIAS, Eduardo. O ethos homérico, a cultura da vergonha e a cultura da culpa. São Paulo (Redalyc/Psychê): 2008. Disponível em: O ethos homérico, a cultura da vergonha e a cultura da culpa. Acesso em: 09/03/2025

MINEIRO, Marcia; D’ÁVILA, Cristina. Ludicidade: compreensões conceituais de pósgraduandos em educação. São Paulo (Scielo): 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1678-4634201945208494. Acesso em: 09/03/2025

LOGAN, Peter Melville. Sobre a cultura: a cultura primitiva de Edward B. Tylor. Londres: 2012. Disponível em: https://branchcollective.org/?ps_articles=peter-loganon-culture-edward-b-tylors-primitive-culture-1871. Acesso em: 10/03/2025

CARLOS, Ana Fani Alessandri. O poder do corpo no espaço público: o urbano como privação e o direito à cidade. São Paulo (GEOUSP Espaço e Tempo Online): 2014, v.

18, n. 3, p. 472–486, 2014. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.21790892.geousp.2014.89588.Acesso em: 10/03/2025

Glossário para versão impressa:

ENECULT: ENECULT é um evento multidisciplinar para discutir temas culturais promovido pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Lefebvre: Henri Lefebvre foi um sociólogo e filósofo marxista. Ele nasceu em 1901 emHagetmau, na França, e estudou filosofia na Universidade De Paris, ingressando anos depois do corpo docente, como professor da mesma área. Lefebvre se tornou umdos principais fundamentadores do estudo da Geografia Urbana Crítica, cunhando o termo “direito à cidade” em 1968 (ano marcado por diversas manifestações sociais ao redor do mundo).

Valor de uso: De acordo com o livro “O capital - crítica da economia política.

Livro 1- o processo de produção do capital (volume 1)”, publicado pela editora DIFEL, escrito por Karl Marx, “as mercadorias vêm ao mundo sob a forma de valores-de-uso, de objetos materiais. Logo só são mercadorias por serem objetos úteis e veículos de valor.

Elas só encarnam esse valor na medida em que são expressões de uma mesma substância social, o trabalho humano, seu valor é, portanto, uma realidade apenas social”. Em outras palavras, para Marx, o valor de uso é definido pela capacidade de uma mercadoria satisfazer as necessidades humanas.

Valor de troca: De acordo com o livro “O capital - crítica da economia política.

Livro 1- o processo de produção do capital (volume 1)”, publicado pela editora DIFEL, escrito por Karl Marx, “as mercadorias são trabalho humano cristalizado” e elas precisam ter outro tipo de valor, além do de uso, quando se trata da relação entre duas mercadorias. Dessa forma “a condição de valor de uma se revela na própria relação que estabelece com a outra”. A partir daí, o valor de troca não é definido pela utilidade de um produto, e sim pela quantidade de trabalho despendido na produção. Portanto, o mesmo tempo de trabalho de produtos diferentes possibilita a troca pelo valor de uso, porém se forem tempos distintos é necessário entender o valor de troca.

Fruição: Oato dedesfrutar eusufruir dealgo, como umaobradearte, apreciandoa de forma plena, deleitando-se dos sentimentos que ela desencadeia.

Lúdico: De acordo com o artigo “Ludicidade: compreensões conceituais de pósgraduandos em educação”, de Marcia Mineiro e Cristina D’Ávila, o conceito de ludicidade não é dicionarizado, refere-se a um estado subjetivo, a uma experiência interna, à sensação de inteireza e plenitude com alegria. É uma condição humana, ligada ao humor e à liberdade. Dinamizando sinergias de experiências divertidas cotidianas. Com isso é possível trazer “uma família semântica para a ludicidade, composta por: brincar (cujo foco é o processo, é espontâneo, automotivado e não sujeito a regras precisas); lazer (na dimensão do repouso, ócio, fruição, descanso e se reflete em qualquer atividade); recrear (proposto pela lógica do intervalo temporal, um ócio permitido); e jogar (cuja interação é regulada por regra, relativo ao desporto, com regras e foco no resultado)”.

Citadina: Que faz referência a cidade, um citadino é um habitante da cidade/nascido nela, por exemplo.

Ethos: Na poética, Aristóteles fazia corresponder o seu significado ao que hoje designamos por psicologia das personalidades. Éthos é, assim, assimilado a uma ordem normativa interiorizada, a umconjunto de máximas éticas que regulam a conduta da vida. Ethos conduz ao modo de ser, o caráter, indica o comportamento do ser humano e dessa forma originando apalavraética. Emoutraspalavras, seriaumconjuntodetraçosemodos de comportamento que formam o caráter ou a identidade de uma coletividade, como um hábito, um costume.

Estado de efervescência: Termo cunhado por Emily Durkheim, de acordo com o artigo “Do mundano ao sagrado: o papel da efervescência na teoria moral durkheimiana” (de Raquel Andrade Weiss, publicado em 2013). Conforme a pesquisadora: “há certos períodos históricos nos quais, sob a influência de algum grande abalo coletivo, as interações sociais se tornam mais frequentes e mais ativas. Os indivíduos se reúnem mais. Resulta disso uma efervescência geral, característica das épocas revolucionárias ou criadoras. Ora, essa superatividade tem por efeito uma estimulação geral das forças individuais. Logo as transformações não são apenas de nuanças, de graus; o homem realmente se torna outro.”

Política e Futebol: Fascismo

Artigo trata das consequências do uso da camisa da SBF e outros símbolos nacionais por apoiadores da extrema direita no Brasil.

Artigo científico: Islan Lisboa da Lisboa

Autores: Antonio Jácome do Vale, João Pedro Martins, Nubia Cestari e Zoé Carnaval. 15/02/2024

É praticamente incontestável que símbolos como a clássica camisa verde e amarela da Seleção Brasileira de Futebol e a até mesmo própria bandeira nacional têm sido fortemente associados a movimentos políticos de extrema direita no Brasil nos últimos anos. Por isso, é importante discutir a recorrente associação de símbolos patrióticos a movimentos partidários reacionários.

Acreditamos que esse debate seja necessário para entender os impactos dessa ressignificação de símbolos na concepção da identidade nacional e na preservação da democracia e dos direitos civis. Devemos enfatizar, porém, nossas próprias identidades, já que estas são cruciais para entender nossos posicionamentos e lugares de fala, já que nada escrito é isento de viés. No nosso grupo há quatro integrantes, todos brancos, duas mulheres e dois homens, três dos quatro integrantes são membros da comunidade LGBTQIAPN+. Nós somos pessoas progressistas, de esquerda e de classe média, com certas diferenças socioeconômicas e identitárias, como orientação sexual, gênero, condição financeira e origens regionais, além de que há um nordestino entre os paulistanos.

Movimentos que se apropriam do nacionalismo, neste caso, por meio de símbolos esportivos nacionais, tendem a utilizá-los como uma forte ferramenta de radicalização política, algo que nós consideramos um alerta vermelho para

a sociedade. Acreditamos que ter orgulho da rica cultura brasileira não carregue consigo problemática alguma. O perigo na crescente popularidade de organizações direitistas no Brasil, para nós, está ligado com a propagação de discursos de ódio a determinados grupos sociais, como: pessoas de comunidades periféricas, pessoas negras, mulheres, pessoas da comunidade LGBTQIAPN+, nordestinos, e que, ao se declararem "patriotas” , se postam em uma posição de superioridade a estes grupos. Portanto, acreditamos que este tema seja crucial para compreender se há, de fato, uma associação entre esses símbolos e uma ascensão de movimentos que representam uma ameaça à democracia e aos direitos civis de todos.

O que a Análise do Discurso e a Semiótica têm a dizer?

O artigo "Política e futebol não se discutem? Efeitos de sentido e a ressignificação da camisa da seleção brasileira como simbologia política.", do acadêmico Islan Lisboa da Silva, da Universidade Federal de Alagoas, engloba uma minuciosa análise dos efeitos de sentido trazidos pela ressignificação de símbolos patrióticos em especial a camisa da SBF e as causas e consequências desse fenômeno Como metodologia, o autor busca resgatar os efeitos por meio da Semiótica e da Análise do Discurso (AD), a fim de entender o conteúdo presente na crescente expressão de valores ultranacionalistas, considerando também o contexto social, ideológico e histórico por trás do fenômeno, já que, para a AD, o contexto e o emissor de uma mensagem são tão significativos quanto a mensagem em si.

FERNANDES, Márcia. Semiótica: entenda o que é e para que serve (com exemplos). Toda Matéria, [s.d.]. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/semiotica/.

Acesso em: 9 mar. 2025

O objetivo da pesquisa era analisar a ligação do uso de símbolos patrióticos, especialmente a camisa da SBF, e movimentos de extrema direita no Brasil. A motivação da análise foi o uso crescente da camisa da Seleção Brasileira como símbolo/uniforme de apoiadores da extrema direita do país, marcando uma transformação dessas pessoas em uma espécie de torcedores fanáticos políticos

Por meio da análise discursiva dos slogans propagandísticos do expresidente Bolsonaro – "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos" - fica evidente uma perturbadora semelhança com a propaganda nacionalista da Alemanha Nazista. Este lema em si foi praticamente copiado de uma canção nacionalista alemã "Das Lied der Deutschen", da qual o Hitler disse ser fã. É bastante irônico copiar um slogan nacionalista de outra nação, principalmente quando esta se declarava abertamente nazista e fascista.

O atentado contra o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro foi um acontecimento usado durante a campanha presidencial de 2018 e até depois

de sua eleição, para construir uma imagem de mártir. A construção da simbologia do sacrifício pela nação é mais um exemplo de como fundir a nação a um movimento político foi uma ferramenta usada para fomentar o apoio a movimentos de extrema direita que usam o nacionalismo como pedestal.

A criação de apelidos pejorativos que a torcida de um “time” cria para ofender o outro “time” é outra semelhança com as rivalidades no futebol: o apelido “Petralha”, cunhado pelo jornalista Reinaldo Azevedo, usado para se referir a petistas, que é uma junção de petista e Irmãos Metralha, aproximando petistas de bandidos/marginais; o apelido “Bolsominion”, usado para se referir a bolsonaristas, que é uma junção de bolsonarista e Minions, aproximando bolsonaristas de um grupo que segue um líder supremo cegamente, como único intuito na vida.

O artigo estabelece uma relação entre torcedores fanáticos de um time de futebol e simpatizantes da extrema direita, que usam a camisa da SBF como uniforme, e se apropriam de símbolos nacionais, enquanto alimentam um clima de polarização política. A polarização crescente dá lugar a uma tensão similar à presente em partidas de futebol: “Nós vs Eles”; “Bolsonaristas vs Petistas”.

Ato pró-Bolsonaro em Brasília pede por “intervenção federal”. Disponível em: https://www.poder360.com.br/eleicoes/manifestantes-pedem-intervencaofederal-em-frente-a-quarteis/ . Acesso em: 9 de março de 2025.

A gênese dessa associação entre a camisa e as cores pátrias são os protestos de 2015 contra a ex-presidente Dilma Roussef, culminado num intenso cenário de polarização política e forte sentimento de rivalidade antipetista, além de uma indignação com uma suposta corrupção. Não coincidentemente, nesse período de instabilidade política nacional se originaram as tendências antidemocráticas e intervencionistas que permeiam esses grupos ideológicos até hoje. Foi também por cerca desse período (2013, 2014, 2015) que se consolidou o movimento reacionário/conservador em contrapartida à onda progressista antes presente.

Conclusão

É necessário discutir política, e se tornou necessário discutir o futebol, porque este, mesclado com a política, formou uma amálgama, uma massa heterogênea de difícil compreensão, onde são turvos os limites entre estes campos que foram poucas vezes unidos com tal intensidade. A fusão indecifrável cria uma relação de dependência, em que os apaixonados por um movimento político se tornam também torcedores de um time, fanáticos pela seleção ideológica.

Foi assim, em um cenário de crise e polarização política, que a camisa da Seleção Brasileira de Futebol se tornou uma metonímia expropriada da bandeira nacional, ressignificando forçosamente o que ela representa e associando símbolos nacionais com ideologias direitistas nacionalistas, utilizando um cenário de polarização sociopolítica para ressignificar o que é ser patriota.

Seria de certa superficialidade se render à narrativa simplificada de que os símbolos patrióticos e culturais brasileiros, como a bandeira e o futebol ambos coloridos com os mesmos verde e amarelo, seriam, por conseguinte,

correspondentes à nação como um todo, desconsiderando o intenso processo de apropriação e ressignificação sofrido por símbolos nacionais. Logo, estes feitos para representar a unidade da nação se tornaram análogos à extrema direita É evidente que, protestos políticos de apoiadores do ex-presidente Bolsonaro ou da direita como um todo são esteticamente muito semelhantes a torcedores fanáticos, torcendo no jogo antidemocrático como quem comemora um gol, que felizmente não foi marcado – mas bateu na trave.

Islan, sobretudo, ressalta a importância de analisar o sequestro dos símbolos nacionais pelos movimentos de extrema direita, como forma de ressignificar o conceito de ser brasileiro e "cidadão de bem" em si. De certa maneira mesclando e embutindo um elemento ideológico político-partidário com o princípio da identidade nacional brasileira. O sentimento de confusão gerado por esse sincretismo ideológico-identitário é uma forte ferramenta de convencimento e propagação dos valores ultranacionalistas, conservadores e antidemocráticos desses grupos.

Referências:

LISBOA DA SILVA, Islan. Política e futebol não se discutem? Efeitos de sentido e a ressignificação da camisa da seleção brasileira como simbologia política. Revista Leitura: abril, 2024. Disponível em: https://www.seer.ufal.br/index.php/revistaleitura/article/view/16903/11572. Acesso em: 23 de fevereiro. 2025.

REIS, M. C. dos; ALMEIDA, C. C. de; FERNEDA, E. A questão dos métodos de análise semiótica: contribuições à Ciência da Informação. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, [S. l.], v. 16, p. 1–30, 2020. Disponível em: https://rbbd.febab.org.br/rbbd/article/view/1379. Acesso em: 10 mar. 2025.

O sujeito para a análise de discurso (ad). Disponível em: <https://www.pucsp.br/linguagem-e-subjetividade/coluna-o-sujeito-para-analise-dediscurso-ad>. Acesso em: 10 mar. 2025.

COMO A COMPETITIVIDADE SE TORNA VIOLÊNCIA

O mundo do futebol cada vez mais violento ao longo dos anos

SP 05/03/2025

A partir de que ponto a competitividade vira violência? Não é novidade que as torcidas de diversos esportes, principalmente do futebol e do futebol americano entram em altercações físicas. Esse histórico violento das torcidas no Brasil levou a medidas como as torcidas únicas nos clássicos no estado de São Paulo nas partidas entre os quatro maiores times (Palmeiras, Santos, Corinthians e São Paulo), e, nos estádios, há policiais para separar as torcidas além de terem sido criadas zonas que separam os times. Cada vez mais, essa vem se tornando uma realidade para os torcedores brasileiros.

Esses casos de rivalidade não necessariamente acontecem entre torcidas de clássicos locais, mas também rivalidades entre torcidas de estados diferentes. Um desses tristes eventos aconteceu no dia 27 de outubro de 2024, em uma emboscada da Mancha Verde (torcida organizada do Palmeiras) sob a Máfia Azul (torcida organizada do Cruzeiro), quando, por fim, 17 pessoas ficaram feridas e uma pessoa morreu. Vale lembrar que, no dia 28 de setembro de 2022, quatro membros da Mancha Verde foram baleados por integrantes da Máfia Azul na mesma rodovia.

Esses acontecimentos podem ocorrer por diversos motivos, mas provavelmente o principal deles é o fato de que algumas torcidas organizadas e torcedores fanáticos levam a rivalidade entre os times de dentro de campo para fora do estádio, levando a brigas causando ferimentos e mortes de integrantes de torcidas organizadas e até pessoas inocentes.

A violência vira rotina nos dias de jogo. Nós que, como jovens torcedores, vivemos o futebol dentro e fora dos estádios, sentimos, direta e indiretamente. Nos vemos na responsabilidadedeestudar, compreender o queestáacontecendo. Nós, jogadoresprofissionais e amadores, e todas as torcidas, precisamos fazer cada um a sua parte, para o futebol ser um jogo de competição, e não de rivalidade.

O que a ciência tem a dizer?

No artigo “Futebol, visibilidade e poder: Lógica da violência nos espetáculos futebolísticos escrito”, de Felipe Tavares Paes Lopes e Marina Prioli Cordeiro, divulgado na Revista Comunicação Midiática (online) em 2016, os autores dialogam sobre como funciona a violência nos espetáculos futebolísticos.

De acordo com os pesquisadores, a violência no futebol, tanto dentro quanto fora dos estádios, ganhou maior visibilidade a partir do século XX, sendo retratada pela imprensa brasileira e internacional desde meados dos anos 50. No Brasil, a violência nos estádios começou a ser amplamente discutida nos anos 80 e intensificada na mídia na década de 90.

Apesar das medidas adotadas para conter os confrontos, o país liderou o número de mortes de torcedores entre 1999 e 2008. Estudos citados pelos pesquisadores apontam que a violência no futeboltemcausas culturais e sociais complexas, como a busca por reconhecimento entrepares e o desejo de visibilidade mediática entre jovens das classes populares. Além disso, a mídia tem papel central na construção da imagem das torcidas organizadas, frequentemente associando-as à barbárie e ignorando suas ações positivas na luta contra a elitização do futebol.

Ainda de acordo com o Artigo, o controle da violência nos estádios tem sido influenciado por estratégias disciplinares, como o modelo Panóptico de Foucault, no qual a vigilância constante busca inibir comportamentos indesejados. Em países como Alemanha e Inglaterra, policiais infiltrados monitoram grupos organizados, enquanto no Brasil medidas como separação de torcidas, barreiras físicas e revistas rigorosas são utilizadas há décadas.

Essas estratégias, no entanto, muitas vezes criminalizam torcedores sem distinguir entre participantes violentos e demais espectadores. A normatização da violência e a repressão excessiva contribuem para a estigmatização das torcidas organizadas, enfraquecendo sua capacidade de diálogo com o poder público e perpetuando a marginalização dos grupos populares no futebol.

No âmbito sociológico, o artigo escrito por Carlos Alberto Máximo Pimenta, “Violência entre torcidas organizadas de futebol” , investiga a violência entre torcidas organizadas de futebol, questionando as narrativas oficiais que as reduzem a meros atos de vandalismo ou delinquência juvenil. O autor argumenta que esse fenômeno está enraizado em processos mais amplos de desestruturação social e na crise da cidadania, refletindo a marginalização de certos grupos e a perda de espaços de sociabilidade coletiva. Além disso,

ele aponta como a espetacularização midiática e a atuação repressiva do Estado acabam reforçando essa dinâmica, em vez de solucioná-la, tornando a violência uma forma paradoxal de expressão identitária e pertencimento para muitos torcedores.

O livro “Violência no Futebol: Ideologia na Construção de um Problema Social”, do autor Felipe Tavares Paes Lopes, traz uma análise de como se constrói a violência dentro dos estádios, em um aspecto ideológico social, como as mídias, o Estado e os clubes. É abordado como a criminalização das torcidas acontece ignorando fatores sociais dostorcedores, como a desigualdade social e a repressão. A pesquisa deixa claro que o fenômeno da violência não pode ser entendido de forma simplista, mas exigindo uma análise profunda e multifacetada das relações entre as pessoas, o futebol e quem detém o poder.

Diante disso, é possível observarmos como alguns dados da violência no mundo do futebol, como mostram os dados divulgados pela Agência Estado.

De posse desses dados, é possível estabelecer uma relação entre a o número de mortes por ano, o tamanho da torcida organizada e/ou criminalidade no seu estado de origem. Dessa forma, podemos traçar linhas entre quais são as torcidas mais perigosas do Brasil. Dentreos estados mais violentos que possuem notória influência no futebol brasileiro, destacam-se: a Bahia, com a torcida organizada do Esporte Clube Bahia; Pernambuco, com a organizada do Sport Clube do Recife; Rio de Janeiro, com a torcida organizada do Clube de Regatas do Flamengo e do Clube de

Regatas Vasco da Gama; Rio Grande do Sul e Minas Gerais, com a organizada do Sport Clube Internacional, Grêmio Esporte Footbal Porto Alegrense, Clube Atlético Mineiro, Cruzeiro Esporte Clube; São Paulo, com as torcidas organizada do Sport Clube Corinthians Paulista, Santos Futebol Clube, Sociedade Esportiva do Palmeiras e São Paulo Futebol Clube. Como mostram as tabelas a seguir.

Dessa forma, dentre os dados apresentados, os estados com maior violência no futebol, são: o Rio de Janeiro concentrou 27,5% dos casos de violência no futebol brasileiro, liderando o ranking nacional, seguido de São Paulo (14%), Paraná (7%), Rio Grande do Sul (6%), Rio Grande do Norte (6%) e Alagoas (5%).

Este cenário revela que, além da intensa rivalidade esportiva, há questões sociais, políticas e culturais que agravam o problema da violência. Assim, é essencial que todos os envolvidos no futebol– desde as torcidas, jogadores, até as autoridades – reflitamsobre o papel de cada um na construção de um ambiente mais seguro e saudável para o esporte. A rivalidade deve permanecer no campo, e a violência precisa ser erradicada de uma vez por todas.

Fontes consultadas:

LOPES, Felipe Tavares Paes. Vista do Futebol, visibilidade e poder: lógicas da violência nos espetáculos futebolísticos. Revista Comunicação Midiática. (online). Bauru/SP. V. 10, N. 3., pp 119-134. Set/Dez 2015. Disponível em: https://www2.faac.unesp.br/comunicacaomidiatica/index.php/CM/article/view/129/126 Acesso em: 7 mar. 2025.

POMBO, Olga. Da sociedade disciplinar à sociedade controle. Universidade de Lisboa. (online). Disponível em: https://webpages.ciencias.ulisboa.pt/~ommartins/images/hfe/momentos/sociedade%20discipli nar/index.htm. Acesso em: 8 mar. 2025.

PIMENTA, C. A. M. Violência entre torcidas organizadas de futebol. São Paulo em Perspectiva. (online). São Paulo, v. 14, n. 2, p. 122–128, jun. 2000. Disponível em: https://www.scielo.br/j/spp/a/DWv6rZYh3tnP5qKry88mKNH. Acesso em: 7 mar. 2025.

BRASIL dá resposta insuficiente à violência de torcidas. Senado Federal – Especial Cidadania. (online). Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/especialcidadania/brasil-da-resposta-insuficiente-a-violencia-de-torcidas. Acesso em: 7 mar. 2025.

TORCIDAS organizadas do Brasil: conheça quais são as maiores. CNN Brasil. (online). Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/outros-esportes/maiores-torcidasorganizadas-do-brasil/. Acesso em: 7 mar. 2025.

SIMÕES, Irlan. RJ concentrou um quarto dos casos de violência no futebol brasileiro em 2023, aponta estudo. Blog do Irlan Simões – GE Globo. (online). 16 out. 2024. Disponível em: https://ge.globo.com/blogs/blog-do-irlan-simoes/post/2024/10/16/rj-concentrou-umquarto-dos-casos-de-violencia-no-futebol-brasileiro-em-2023-aponta-estudo.ghtml. Acesso em: 10 mar. 2025.

SAIBA quais são os estados mais violentos do Brasil de acordo com o Anuário de Segurança Pública. Canal Ideia. (online). Disponível em: https://canalideal.com.br/noticia/saiba-quaissao-os-estados-mais-violentos-do-brasil-de-acordo-com-o-anuario-de-seguranca-publica Acesso em: 10 mar. 2025.

Diga-me o que ouves, que te direi quem és

A Música como Agente da Formação da Sociedade Contemporânea

São Paulo, fevereiro de 2025

Qualé o seu estilo musical? Rock, Funk, Samba?De acordo como artigo “A influência do gosto musical no processo de construção da identidade na juventude”, escrito por Vilmar Pereira de Oliveira, o jeito como você se vê, seus valores e seu estilo de vida estão muito ligados ao tipo de música que você gosta.

Hoje em dia, é comum ver grupos de jovens se reunindo com base em seus gostos musicais. Isso mostra como a música pode influenciar a juventude. Esse assunto nos interessa bastante, especialmenteporquesomos jovensepercebemosquea músicaajudaa formar grupos sociais e políticos, que têm interesses e opiniões parecidas na sociedade atual. Além disso, a música impacta diretamente nossa formação como indivíduos com personalidades próprias. A juventude é umperíodo crucial para a construção do nosso caráter e é umdos principais fatores que influenciam essa fase.

Mas será que só pensar sobre isso é suficiente para entender o assunto? É fácil notar como a música influencia o dia a dia dos jovens e como ela pode criar grupos com interesses em comum. Muitas vezes, as pessoas queouvem um determinado estilo musical se identificam com os valores e a cultura que ele representa, e isso é algo que conseguimos ver em vários grupos de jovens.

No entanto, para realmente entender como isso acontece, se acontece, precisamos ler e analisar alguma pesquisa científica. Estudar esse tema é muito importante para compreendermos como a sociedade se organiza hoje e como a música pode ser um fator que define grupos de interesse, ajudando a entender como esses grupos se comportam no mundo. Assim, o artigo de Vilmar de Oliveira, com suas pesquisas e resultados, se torna fundamental para essa discussão.

Música, Juventude e Identidade

O que é identidade? Como ela se configura na adolescência? Qual a relação entre música e identidade? Neste primeiro tema abordado, Vilmar Pereira de Oliveira conecta estes três conceitos para conseguir realizar uma pesquisa clara e mais profunda posteriormente.

Para Thomas Tadeu da Silva (2005), citado por Vilmar, a identidade se caracteriza pela diferença. Oquerealmentedeterminaasubjetividadedealguémnão são suassemelhançascom outras comunidades e pessoas, mas sim, aquilo que os difere Em oposição, os psicólogos

Deschamps e Moliner (2009) entendem a identidade como a combinação das semelhanças e diferenças. A identidade social seria constituída por semelhanças sociais e o sentimento de pertencimento a um grupo social, enquanto a identidade pessoal seriam as diferenças encontradas entre o sujeito e o seu grupo social. Além disso, também seria um processo constante dereflexão e mudança. Ela mudaconformeo sujeito interagecompessoasdiferentes. Portanto, a identidade seria algo dinâmico, construído a partir de relações sociais e pessoais.

Esse processo de mudança de gostos, grupos e modos de vida tem impacto principalmente na adolescência, pois é neste momento que o crescimento físico e o amadurecimento mental acontecem com mais intensidade. É esse período que, geralmente, o indivíduo desenvolve sua subjetividade e sua personalidade que levará para a vida adulta.

Com isso em mente, o texto afirma que a música tem um papel fundamental para a construção da identidade, uma vez que também se interfere em diversos fatores, como por exemplo o estilo de roupa, linguagem corporal e a forma de se expressar. Segundo José Machado Pais, a música é um símbolo comum entre todos os jovens e que estilos musicais específicos, como o heavy metal ou o punk rock, podem ser usados para marcar as diferenças entre os grupos sociais Tanto o estilo quanto as letras das músicas são fonte de inspiração para os jovens, que desenvolvem sua identidade a partir delas. Dayrell estudou o funk e o rap em Belo Horizonte e percebeu como estilos musicais são essenciais para a construção de vínculos entre pessoas em comunidades. A música interfere no modo de vestir, de se comunicar, de se expressar e até no modo de socializar, em torno dela são criados eventos como bailes funk e batalhas de rima, representando a cultura destes grupos.

Dayrell também notou que os jovens, a partir da música, criam uma forma única e se comportar, determinando um modo de “ser jovem”, ou seja, uma nova forma de viver e sobreviver na sociedade. O estilo de música condiz, muitas vezes, com sua classe social e condição de vida, portanto, muitas das letras das músicas retratam uma visão e experiência

diferente da vida. Desta forma, a música também é um objeto político, que pode inclusive, servir de referência para políticas públicas e fazer política.

Metodologia da Pesquisa

Grandesresultadosexigemgrandespesquisas. Oautordotexto apresentaqueapesquisa não irá basear seus resultados apenas em números e dados, mas em significados e motivações, buscando qualéarelação dosdadoscoletadoscomvaloreseatitudesqueosjovensapresentam.

Apesquisa se baseia em entrevistas comseis jovens moradores da região metropolitana de Belo Horizonte (Minas Gerais), onde os entrevistados foram questionados sobre suas práticas e preferências musicais. Dessa maneira, foi criada a seguinte tabela, organizada pelo próprio Vilmar de Oliveira:

Vale ressaltar que o trabalho não fez distinções e escolhas relacionadas às condições e vida, gênero ou à escolaridade, apenas na ligação do participante e sua paixão pela música, assim como mostram suas principais práticas musicais na tabela.

As entrevistas feitas com os participantes tinham o modelo semiestruturado, isto é, já possui perguntas prontas, mas a depender de onde as respostas estão caminhando, perguntas

novas que se encaixam mais no contexto dado pelo entrevistado são feitas. Para a socióloga, doutora em Saúde Pública, Maria Cecília de Souza Minayo (2000), uma entrevista exprime o lado individual do entrevistado, fatores pessoais, que irão revelar condições estruturais, seus valores e normas e símbolos que este segue. Ele se torna um porta-voz do grupo que está inserido. Para o entrevistador, isso é algo muito bom, pois sua fala serve como um discurso, não são falas isoladas, mas sim, falas de um contexto muito maior.

A Influência da Música na Vida e na Constituição de Identidade dos Participantes

A partir da pesquisa realizada, foi possível depreender opiniões, dados e teses importantes para a finalização do trabalho. Com base nas falas dos entrevistados, é perceptível a presença da música no dia a dia das pessoas. A música está presente em tantos lugares que muitas vezes ela é normalizada. Essa ideia pode ser confirmada quando os entrevistados não contam o tempo em que escutam música enquanto estão se deslocando de um lugar para outro (de casa para a escola ou trabalho). Além do mais, a música, de acordo com os entrevistados, é uma espécie de “refúgio”, em que, por um curto período, o indivíduo sai da realidade e esquece seus problemas para apreciar a melodia da música ouvida.

Neste momento, há um conceito essencial para o texto: a linguagem reflexivo-afetiva e sua relação com a música. Este conceito, criado por Maheirie (ano), diz que o ato de significar o mundo se dá por conta da afetividade que alguém tem por algo. Em seguida, o texto exemplifica esse conceito com uma fala de um dos entrevistados, que diz que mesmo em momentos ruins, a música é a forma que ele encontra sentido no mundo e sua reconstrução.

Com referência ao conceito da música como um refúgio mental, outra ideia parecida também é apresentada no texto. A música também pode ser entendida como um catalizador de emoções e comportamentos, uma vez que ela influencia diretamente nas vestimentas, modo de socializar e se expressar e de pensar. Quando foi perguntado aos entrevistados se o estilo musical interfere no comportamento, todos responderam que ela influência, sim, e que é a música que determina outros aspectos sociais como estilo de roupa e comportamento. Com as próprias palavras de um dos entrevistados: “o tipo de letra do rock é diferente das letras do funk ou do hip-hop".

Por fim, um último tema abordado nos resultados da pesquisa foi a facilidade ou dificuldade na construção de amizades a partir da música. Todosos entrevistados disseram que

seus amigos mais próximos tinham um gosto musical parecido com o dos entrevistados. Também foi evidenciado que não era exatamente a música que define as amizades, pois não é impossível que dois indivíduos tenham uma relação mais íntima com gostos musicais diferentes, mas afirmam que é mais difícil de ocorrer. Desta forma, é possível concluir que embora a música não seja o fator decisivo nas relações afetivas, ela tem grande impacto, pois viver em um grupo social que não seja minimamente parecido com o indivíduo seria como quase “trair” os valores sociais e morais do sujeito, negando a própria identidade.

Considerações Finais (?)

A partir dos dados da pesquisa e suas interpretações, o autor pôdetirar suas conclusões. Ele faz referência a Antonio da Costa Ciampa (Psicólogo, formado em 1968 pela PUC-SP), que em seu artigo, traz que a identidade é entendida como uma representação, mas ela também deve ser interpretada como o processo de identificação (CIAMPA, 2001, p.160). Isto é, a juventude é um momento em que o indivíduo está construindo seu caráter, tentando procurar quem ele é no mundo e muitas vezes está sujeito e abraça culturas diversas, pensamentos diversos e até formas de vida diversas. A música traz consigo um mundo, um contexto, um coletivo, que o jovem experimenta e gosta, se sentindo acolhido naquele grupo, seja por experiênciassimilaresouapenas por gostar destenovo viésqueestádescobrindo. Ele incorpora este mundo e sua identidade obrigatoriamente paira sobre um novo universo.

OliveiratrazatesedeJuarezDayrell(mestradoemEducação pelaUniversidadeFederal de Minas Gerais em 1989), que a partir da pesquisa feita com ouvintes de Rap e Funk, chegou à conclusão de que a música é um local onde o jovem pode “reivindicar a juventude”, isto é, serem eles mesmos, um espaço onde podem falar e ouvir sobre a sua vida e suas dificuldades.

A música, e seus diversos gêneros, se “constitui um fenômeno social”, visto que ela “questionaosvaloressociaiseassignificaçõesdossujeitos”. Destamaneira, umsujeitoouvinte irá estabelecer uma relação não apenas com a música em si, mas com toda a ideologia por trás da construção social da música. Além de ser um “instrumento de aquisição de cultura e de lazer”, estabelece-se como uma forma de integrar ideologias e grupos sociais, apresentando-se como “forma de demarcar/refletir diferenças psicológicas e socioculturais”

Após a leitura das conclusões tomadas por Vilmar, nós retomamos a importância para todos saberem que a música é uma forma de o jovem se caracterizar e se individualizar no

mundo. De fato, a importância de todos saberem sobre o tema, inclusive entender como isso afeta a qualquer pessoa é muito grande, para uma sociedade diversa e receptiva se estabelecer perante o mundo da música, que possa entender e não julgar uma pessoa pelos seus gostos musicais, afinal, a música que gosta não diz apenas sobre um ritmo que gosta, mas sobre um universo em que está inserida.

Assim como o autor afirma “é claro que não se pode parar por aqui, espera se também que este trabalho ajude a incitar novas investigações, novos estudos, fomentando, desta forma, possibilidades de novos aprofundamentos e de outras compreensões”, percebe-se que a relação da música com a identidade de um jovem é enorme e mais pesquisas sobre o tema devem ser criadas, a fim de poder compreender outros fatores psicológicos e sociais que a música traz consigo, não colocando um ponto final neste tema, e, sim, abrindo um leque de outros resultados que demais pesquisas futuras podem trazer.

Fonte consultada:

OLIVEIRA, Vilmar Pereira de A Influência do Gosto Musical no Processo de Construção da Identidade na Juventude. Minas Gerais: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, 2012. Disponível em: A0661-libre.pdf Acesso em 10 de março de 2025.

Como os estereótipos ainda afetam seu jogo?

Além do padrão: Como a Educação Física transforma a percepção do corpo na sociedade contemporânea

Emmanuelle Burattin, Luiza Bravo e Luiza Salvatore.

09-03-2025, São Paulo, SP

O modelo padrão na Educação Física, e nos esportes em geral, se dá pela figura do homem jogando esportes mais brutos enquanto a mulher pratica atividades mais delicadas ou nemparticipa, transmitindo uma imagem fragilizada. Isso éreconhecido no mundotodo, como, por exemplo, no filme “Juntos e Misturados”, na cena em que o personagem principal está jogando basquete com a filha contra uma dupla de pai e filho. Larry, a filha, por ter cabelo curto, ser magra e alta, usar roupas largas e jogar basquete com habilidade, é confundida com ummenino. Mesmo tentando parecer mais feminina, continuasendo tratadadamesma maneira. No final da cena, a equipe adversária pergunta ao Jim, pai de Larry, como está o “menino” dele, pelo fato de ela ter saído chateada. Jim então revela que Larry na verdade é uma menina. Esse momento é um entre infinitos outros que mostram a mentalidade por trás dos estereótipos e, com certeza, afetam o psicológico e a autoestima de pessoas “fora do padrão”. Afinal, não teria como ela jogar tão bem e ao mesmo tempo ser uma mulher, certo?

O artigo “A ressignificação do corpo pela Educação Física escolar, face ao estereótipo de corpo ideal construído na contemporaneidade”, de Andréia Santos Gonçalves e Aldo Antonio De Azevedo, da Universidade de Brasília, foi o trabalho científico motivador da pesquisa realizada. Ele foirealizado através de uma série de etapas muito importantes, primeiro os autores contextualizam o objetivo da pesquisa, analisaram e aprofundaram seus estudos em diversas áreas sobre o tema principal, depois disso, construíram uma conclusão, um posicionamento e possíveis soluções para a ressignificação do corpo dos jovens no ambiente escolar Para isto, os autores do texto também precisaram consultar diversas referências e conceitos de filósofos, como Le Breton, que analisa o corpo não apenas de uma forma biológica, Arroyo, que diz que o corpo e uma construção social e cultural, Durkheim, um sociólogo que prioriza em sua pesquisa o fator de individualização, Foucault, que diz que a sociedadecontrolaedisciplinaoscorpospormeio deregrasediscursos, eMauss, queanalisava

a teoria corporal. O artigo chama atenção por tratar de um assunto muito presente no cotidiano de crianças e jovens, os estereótipos, que se manifestam gerando preconceitos e ressalta que é perceptível o quanto este tema está presente em todos os esportes, em escolas, principalmente nas aulas de Educação Físicas, um ambiente em que isso ocorre com muita frequência.

O corpo e sua significação histórica

De acordo como artigo é possívelcompreender que ao longo da história o corpo passou por diversas transformações conceituais Na Idade Média, o corpo era considerado sagrado e dividido entre o profano e o espiritual, com forte influência da moral cristã que limitava a adoração do corpo. Na Renascença, o corpo passoua ser analisado cientificamente, comênfase no controle e disciplina corporal para a saúde. O dualismo corpo-mente, desenvolvido por Platão e Descartes, foi essencial na forma como o corpo foi interpretado, especialmente na Modernidade. O corpo começou a ser visto como uma máquina, que poderia controlado e manipulado, especialmentesobaóticado capitalismo, quebuscava maximizar aprodutividade. O funcionalismo de Durkheim, na virada do século XIX para o XX, propôs que o corpo fosse visto como um organismo biológico. Mauss, por sua vez, introduziu a noção de "técnica corporal", destacando a relevância do corpo como um instrumento social e cultural, integrando aspectos biológicos, psicológicos e sociais. No século XX, Foucault, ao falar sobre o controle social, afirmou que a sociedade exerce controle sobre os indivíduos, começando pelo corpo, com a biopolítica dominando a vida humana. A ideia de um corpo forte e saudável tornou-se importante para atender às demandas capitalistas.

Na contemporaneidade, o corpo setornouumobjeto quepode ser modificado deacordo com os padrões sociais e tecnológicos, refletindo um dualismo entre o humano e seu corpo. O corpo é visto como um fator de individualização, onde modificações estéticas buscam maior aceitação social. Atualmente, o corpo é valorizado pela aparência e está sujeito às influências sociais, sendo uma condição material da existência no mundo.

A Valorização do corpo hoje em dia

A valoração da aparência corporal refere-se à maneira como um indivíduo se apresenta socialmente, incluindo sua forma de vestir, se arrumar e cuidar-se. A aparência está fortemente

influenciada pelas normas sociais, culturais e pelas mudanças da moda. Segundo Breton (2006), a primeira dimensão da aparência está relacionada ao pertencimento social e cultural, sendo provisória e dependente das tendências da moda. Também diz respeito aos aspectos físicos, sobre os quais há menor controle.

A sociedade associa a aparência física a julgamentos morais e sociais. Indivíduos com características físicas consideradas "ideais", como traços finos e pele branca, são frequentementevistoscomo pessoasde"boa índole", enquanto aquelescomcaracterísticas fora desse padrão, como traços "não ideais", podem ser estigmatizados. Isso reflete uma pressão cultural para que as pessoas se adaptem a um modelo físico “perfeito”, o que leva muitos, especialmente pessoas negras, a negaremsuas etnias e buscaremconformidade comos padrões estéticos estabelecidos.

Breton explica que a aparência física é frequentemente usada para classificar os indivíduos em categorias sociais ou morais, com base em como se vestem e em suas características corporais. Esses estereótipos transformam aspectos físicos em marcas de imperfeição moral ou de pertencimento a certos grupos. Assim, o corpo se torna um objeto de possível manipulação, sendo ajustado para atender aos padrões ideais impostos pela sociedade. A aparência não é mais vista como algo fixo, mas como algo modelável, com a tecnologia permitindo modificações no corpo para atender a esses padrões.

A indústria cultural exerce grande influência sobre a percepção do corporeidade, promovendo estereótipos de corpos magros e musculosos como os ideais. No entanto, há exemplos que desafiam esses padrões, como o filme “Shrek”, que apresenta um personagem considerado feio, mas que ensina que a moral e o caráter são mais importantes que a aparência física. Isso sugere que a verdadeira beleza está na aceitação de si mesmo e na autenticidade, em contraste com os padrões frequentemente promovidos em filmes comerciais.

Atecnologia modernatambémtemumpapel significativo na modificação daaparência, com o uso de hormônios, dietas e procedimentos estéticos que permitem ao indivíduo moldar seu corpo conforme os padrões desejados. No entanto, isso também pode levar a uma desconexão entreo corpo e a identidade, transformando a essência do ser em uma performance temporária, sem um futuro definido, como aponta Baudrillard. Portanto, o corpo, na sociedade contemporânea, se torna um objeto manipulável e transitório, em constante adaptação aos padrões de beleza e identidade socialmente construídos.

Por ser um tópico tão atual e importante na sociedade, principalmente por conta das redes sociais e internet, muitas reportagens falam a respeito deste tema, como "O sexismo nas aulas de Educação Física: uma análise dos desenhos infantis e dos estereótipos de gênero nos jogos e brincadeiras", de Sissi Aparecida, que mostra que, nas aulas de Educação Física, os meninos são frequentemente incentivados a participar de esportes mais competitivos, como futebole basquete, enquanto as meninassão direcionadasparaatividades maissuaves, estéticas ou demenor competitividade, como dança ou ginástica. Essa divisão não apenas reforça a ideia de que existem atividades "masculinas" e "femininas", mas também limita o desenvolvimento físico e social das crianças, pois cada um é incentivado a desenvolver habilidades e interesses que não necessariamente refletem suas reais capacidades ou desejos. Além disso, outro estudo realizado por Carolina Scolfaro e aponta o impacto que os estereótipos podem fazer no desenvolvimento físico, psicológico e social dos alunos.

Pesquisando mais a fundo é possível perceber essa temática em lugares não tão óbvios, e que provavelmente passaram despercebidos, como em um gibi infantil “A Turma da Mônica”, de Mauricio de Sousa, que é muito conhecido por gerações. A seguir é mostrado uma situação em que os garotos da turma estão jogando futebol todos juntos, enquanto as meninas estão apenas torcendo e aplaudindo, enfatizando novamente essa distinção.

Essa discriminação ocorre no dia a dia de estudantes. Um exemplo disso é um relato de um professor de Educação Física que ficou indignado com a atitude de um colega. Esse professor levou sua filha, que na época tinha 9 anos, para fazer uma aula teste na própria escola que estudava. A filha estava animada, porque sua família tinha bastante dificuldade para encontrar um lugar que ela pudesse treinar. O grande dia chegou, ela se preparou, colocou suas chuteiras e foi para aula. Chegando lá, seu pai conversou com o professor, explicou a situação e falou da animação da filha, mas imediatamente recebeu a resposta: “Acho melhor vocês procuraremoutro lugar, porque aquisótem meninos treinandos e fortes.Ela vai ficar deslocada e dificilmente irá acompanhar o ritmo da turma ”. Tudo isso sem o professor nem dar a oportunidade de ela experimentar a aula, de mostrar sua vontade, seu potencial. O pai, ficou

muito incomodado, e não teve reação, foram embora chateados e a busca por outra oportunidade continuou.

Seguindo nessa mesma linha, foi feita uma pesquisa com meninas de escolas municipais, a respeito das diferenças entre o futebol jogado por meninos e o futebol praticado por meninas, os resultados estão no cartaz a seguir:

Os estereótipos de gênero na Educação Física limitam não apenas o desenvolvimento físico, mas também a autoestima e a inclusão dos estudantes, perpetuando, desigualdades que vão além do ambiente escolar. Diante disso, é fundamental repensar práticas pedagógicas para garantir que todos tenham oportunidades iguais no esporte, independentemente de padrões impostos. A desconstrução dessas barreiras passa por mudanças no ensino, na valorização da diversidade corporal e na ampliação do acesso a diferentes modalidades. Assim, surge a necessidade de refletir sobre a ressignificação do corpo e o impacto que causa na saúde mental e na identidade dos jovens. Deveria ser função da escola promover um ambiente verdadeiramente inclusivo. O futuro da Educação Física depende dessas reflexões, e cabe à sociedade garantir que o esporte seja um direito de escolha para que todos se sintam confortáveis ao praticá-los, sem nenhum impedimento ou limitação, priorizando a saúde.

Referências:

GONÇALVES, A. S.; DE AZEVEDO, A. A. A RE-SIGNIFICAÇÃO DO CORPO PELA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR, FACE AO ESTEREÓTIPO DE CORPO IDEAL CONSTRUÍDO NA CONTEMPORANEIDADE. Pensar a Prática, Goiânia, v. 10, n. 2, p. 33–51, 2007. DOI: 10.5216/rpp.v10i2.1083. Disponível em: https://revistas.ufg.br/fef/article/view/1083. Acesso em: 02/2025

Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 36, n. 3, p. 719-733, jul./set. 2014. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/1153/115338274017.pdf. Acesso em: 09 mar. 2025.

MULTRIO. Jogos Estudantis: a força e o talento das meninas no futebol. Disponível em: https://www.multirio.rj.gov.br/index.php/reportagens/14992-jogos-estudantis-afor%C3%A7a-e-o-talento-das-meninas-no-futebol. Acesso em: [10/03]. pesquisa sobre futebol feminino

Ramone, Marcus. Saiba mais sobre Turma da Mônica 33 - Futebol. Universo HQ. Disponível em: https://universohq.com/reviews/saiba-mais-turma-da-monica-33-futebol/. Acesso em: [10/03]. Imagem da turma da Mônica

SILVA, Carolina Scolfaro Caetano da. A construção dos estereótipos de gênero e a Educação Física escolar. 2003. Trabalho de conclusão de curso (Graduação em Educação Física) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2003. Acesso em 09/03

PEREIRA, Sissi Aparecida Martins. O sexismo nas aulas de Educação Física: uma análise dos desenhos infantis e dos estereótipos de gênero nos jogos e brincadeiras. 2004. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro, 2004. Acesso em 09/03

O uso da análise semiótica em músicas e arte, qual a importância de conhecê-las

Um texto informativo vindo de quem cresceu fora da bolha da música atual e popular

Por Theo Vallim Martos,

Escola Carandá Educação, 13/02/2025

Algunsdizemqueorockmorreu,equeo Brasilnão vaipra frenteporqueessajuventude só escuta ou funk e Trap, e se recusa a escutar música boa, como Beatles, Elvis, Rolling Stones etc.. Segundo uma pesquisa recente do site de música Bananas Music, realmente isto pode ser apontado como um fato, visto que jovens nascidos entre 1990 e 2010 têm suas preferências em Funk (50% dos jovens), e Trap (35% dos jovens) que juntos formam 85% dos jovens na pesquisa Porém, embora estando em contraponto sobre o que é mais popular, mas paralelamente sendo popular, músicas como Hey Jude, Let it be, e Here comes the sun, são algumas das mais famosas dos Beatles, e de rock clássico em geral, e todas possuem, no Youtube, visualizações que passam das 100 milhões, e, no Spotify, mais de 600 milhões de reproduções, sendo que Here comes the sun já tem 1 bilhão de reproduções Paul McCartney, ex-membro dos Beatles, ainda estando na atividade, lota estádios no Brasil, como Allianz Parque, e vem frequentemente fazendo turnês, atraindo milhares de fãs brasileiros, estes que, embora em sua maioria sejam pessoas não tão jovens, há adolescentes, e até mesmo crianças que vão acompanhadas dos pais a este show, como foi, e é, o meu caso. Eu, que cresci escutando Beatles, e em geral rock e músicas dos anos 60/70/80/90, entendo este argumento contra a juventude, pois sempre fui elogiado pelo meu bom gosto musical, e ficavam todos surpresos de que não gostava das músicas que indivíduos da minha idade costumavam escutar com mais frequência.

Quando se fala de música, e seu papel em meio ao contexto histórico em que ela se insere em meio a outros assuntos didáticos, me chama mais a atenção, justamente por ser um tema específico, quetema ver comumdos meus álbuns favoritos dos Beatles, o “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, da era dos Beatles que é a minha favorita: a era psicodélica. Acapa desse disco vem me encantando desde que havia ganhado um quebra-cabeça com 500 peças com a sua imagem, e me perguntava se eles haviam tirado aquela foto de fato, ou se era apenas

umacolagemfajutadosBeatlescomKarlMarx, MarilynMonroe, MarlonBrando, entreoutros. O ponto é que, tanto música, quanto arte, principalmente envolvendo os Beatles, são assuntos de que adoro falar, e que posso ter muito para falar, caso entre a fundo na pesquisa.

Propostas e Contribuições

A proposta deste texto é justamente poder informar mais sobre o assunto, de forma que fique claro o porquê de essa capa e esse disco serem tão aclamados e frequentemente referenciados na música e na cultura pop. Saber como foi o impacto causado na sociedade daquela época, em meio ao contexto do movimento psicodélico dos anos 60 / 70, causa de um movimento de protestos antiguerra, contra a guerra do Vietnã. Então basicamente mostrar sua capa e suas músicas pela lente da semiótica, e assim como foi o impacto do disco, e que efeito causou na sociedade da época, e como ainda ecoa na nossa

Contribuições que podem ser feitas ao mostrar esse assunto podem ser, por exemplo, manter leigos no assunto informados sobre, mesmo que seja comumpequeno fragmento, como a música se encaixa muito em meio ao contexto em que ela está inserida, como é o caso do disco psicodélico dos Beatles, que está em meio à guerra do Vietnã. E esta é uma bela contribuição a se fazer, já que pode ser visto cada vez mais as gerações atuais não sendo expostas a música de tempos passados, como Beatles, Elvis Presley, The Beach Boys, Rolling Stones, etc.. E isto pode ser visto como preocupante, pois cada vez mais vemos jovens dando as costas para as sinfonias do passado, ouvindo mais músicas de sua atualidade, e saindo cada vez menos da bolha, cada vez menos procurando coisas "novas", novos sons, novas texturas. E principalmente falando de Beatles, uma das bandas mais influentes, que contribuíram em composições únicas, em pioneirismo de palco quando se vê que eles foram os primeiros a lotarem estádios para realizarem concertos, e mais recentemente em um dos primeiros usos coesos de inteligência artificial para a realização de uma música com Now and Then, que inclusive ganhou o Grammy 2025 de melhor performance de rock.

Do ponto de vista da Semiótica

Foi realizada uma pesquisa através do artigo científico das autoras Denise Castilhos de Araujo e Daniele Souza Moehlecke, publicado através da instituição PUC Goiás, "ANÁLISE

SEMIÓTICA DAS MANIFESTAÇÕES CULTURAIS DA CAPA DO DISCO SGT.

PEPPER’S LONELY HEARTS CLUB BAND (THE BEATLES)

".

O texto se inicia explicando através de diversas referências, como Adam Kuper, ou BronislawMalinowski, o conceito decultura Explicaque, emborahaja muitas visões, acultura deve ser estudada como uma língua, como conjuntos de ideias e valores expressados por meio da sociedade e símbolos. Em seguida apresenta uma contextualização do movimento de contracultura queocorria naépoca, emque haviauma lutada juventudeemerguer seusdireitos, como, por exemplo, no trecho: "Pode-se dizer que nos anos de 1960 o comportamento das pessoas mudou muito. A emancipação feminina era crescente, o uso de anticoncepcionais, de drogas e a consolidação da televisão como principal meio de comunicação podem ser considerados alguns exemplos das mudanças ocorridas nessa década. Além disso, as lutas pelo reconhecimento dos direitos dos negros, das mulheres e de outras minorias aumentavam (REIS FILHO; FERREIRA; ZENHA, 2005)". Em seguida, o artigo apresenta um breve resumo da carreira dos Beatles do seu início até a era psicodélica do quarteto, onde é lançado o disco "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", no qual conta-se sobre o processo de gravação, de montagem da capa, e analisa-se a mesma por meio do uso da semiótica justamente para verificar evidências das manifestações culturais emmeio do contexto decontracultura daépoca em que o disco foi lançado, presentes na capa Foi analisada a parte inferior da capa, como a parte em que os Beatles estão posicionados na capa junto a bonecos de cera, o bumbo com o nome do disco escrito, e o jardim de flores escrito “Beatles”.

do disco “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”

Capa

O que é a semiótica

A Semiótica se dedica ao estudo dos signos. Umexemplo citado por Davi Denardi para a revista Glifo, são as cores do semáforo: “Por exemplo, em sinalizações de trânsito a cor vermelha é usada geralmente como significado de“pare”. Ao mesmo tempo, aimagemde uma mão pode ter o mesmo significado, e mesmo a palavra “pare” tem esse significado.”. Mas a semiótica não se prende somente a estudos imagéticos, pois é possível analisar letras de músicas, textos, poemas... A semiótica está ligada a uma nova forma de enxergar figuras de linguagem, como metáforas, metonímias, etc..

Análises da capa

Mostrando um exemplo de como a contracultura se refletiu na capa dos Beatles, para a análise semiótica dos bonecos de cera, primeiro é escolhido o boneco que representa Sonny Liston, lutador de boxe famoso na década de 60. Conta-se a história de que o fotógrafo da capa do disco comprouaestátua, queseriaderretida. Agrande maioriados lutadoresdeboxevinham de lugares lotados de opressão, geralmente de grandes cidades, o que representa coragem e determinação. Principalmente na época de Sonny Liston, negros eram considerados pessoas de segunda classe. Por ter um histórico criminal, Sonny relutava em participar na luta pelos direitos raciais. Segundo o artigo: “Inicialmente essa figura causou espanto em virtude de sua aparente falta de relação com os músicos, entretanto, ele pode estar associado às lutas e à persistência que os Beatles provavelmente tiveram para elaborar o LP, ou até mesmo fazer menção à parte ou ao todo de sua carreira. A presença de Sonny Liston na capa também reflete o espírito de vanguarda da banda, pois anunciava, em suas letras, o desejo de igualdade, que, apesar de não ser uma luta abraçada por Liston, era de grande relevância na sociedade da década de 1960.”

Mais um exemplo é a análise semiótica realizada das roupas usadas pelos integrantes: “Ao lado dos Beatles de cera está o quarteto vestido como soldados do exército, com roupas em cores vibrantes e chamativas. As roupas sérias de soldados, porém com cores que remetem à psicodelia, podem ser interpretadas como uma forma de protesto à sociedade da época, que era muito rígida e impunha padrões muito severos de comportamento. E até mesmo como protesto em relação ao próprio exército, pois nesse momento viviam-se guerras, protestos e os militares estavam muito atuantes na sociedade.”

Análise das letras

Mas não só a capa, como também as letras das músicas podem ser analisadas através da semiótica, como é o caso das letras a serem estudadas, Getting Better, She’s Leaving Home e Within You Without You.

Em Getting Better, Paul Mccartney começa a música dizendo (letra traduzida): “Eu costumava me aborrecer com minha escola; os professores que me ensinaram não eram legais; você está me deixando para baixo, me girando ao redor; me enchendo com suas regras”. Podemos interpretar esta primeira parte como o início de uma contracultura se iniciando no interior do eu-lírico, percebendo que cada vez mais há mais regras para encaixá-lo ao sistema opressor da época. No refrão, então se diz o seguinte: “Eu tenho que admitir que está melhorando; um pouco melhor toda hora.” Podemos interpretar esta frase como uma autoafirmação do eu-lírico que, agoraqueenxergao quetemde mal nasociedade, estátentando consertá-la e cada vez vê mais progresso em sua luta pelos seus direitos. No trecho posterior, Mccartney prossegue: “Eu costumava ser um homem jovem bravo; escondendo minha cabeça na areia; você deu para mim a palavra, eu finalmente ouvi; eu estou fazendo o melhor que eu posso.” O eu-lírico percebe que não basta apenas reclamar do sistema e se esconder das suas responsabilidades como cidadão, mas que é preciso fazer alguma coisa mediante a toda a opressão de raças, de classes, de gêneros etc. Percebe-se que na letra de Getting Better, se assume um sentimento otimista de automelhoria e de incentivo ao ingresso de uma vida menos acomodada, e presa ao sistema, como faz o movimento de contracultura dos jovens, que florescia na década de 60.

Em She’s Leaving Home, Paul Mccartney conta a história de uma jovem garota, que pela manhã, foge de sua casa, com o desejo de se tornar independente. “Ela está indo embora após viver sozinha por tantos anos”. Neste trecho do refrão, Paul Mccartney narra o real sentimento desolidão vivido pelagarota,mesmo tendo tudoqueelapodiaquerer. JohnLennon, em contraponto com o que diz Paul, personifica os pais da garota na canção, ao dizer: “Nós dedicamos quase toda a nossa vida; Sacrificamos quase toda a nossa vida; Demos a ela tudo que o dinheiro podia comprar.”, mostrando a forte lamentação dos pais da garota, se perguntando o porquê de ela ter deixado seu lar, o que foi que eles fizeram de errado, se lá ela tinhatudo equepodiam lhedar, serealmenteaquilo tudo valeudenada, todoaquelesacrifício... Ao final da letra, se soa este verso: “Sexta-feira, nove da manhã; Ela está distante; Esperando

dar a hora do compromisso que marcou; Para encontrar o rapaz da concessionária. Ela Está se Divertindo; algo lá no fundo foi sempre negado por tantos anos.” She’s Leaving Home retrata o desejo interno de cada adolescente da época, de se emancipar, de ter toda a diversão que o conforto do lar nunca lhe ofereceu, e por muitas vezes negou. A música mostra, com base no que o jovens da época pregavam, que muitas vezes, o sistema opressor pode estar dentro de seu lar; porém, há outros que dizem que o caminho da eterna diversão leva à maldição, e que se deve escutar a seus pais.

E por fim, Within You Without you. A letra se inicia desta forma: “Nós conversávamos

Sobre o espaço entre todos nós; E as pessoas Que se escondem atrás de um muro De ilusão; Nunca se tocam da verdade; Até quando já é tarde demais; Quando elas morrem.” George Harrison, que estava em seu auge espiritual, aderindo à cultura Hindu, diz nesta letra, sobre como cada um dos seres humanos prefere se esconder em máscaras sociais, e se manter distantes da verdade, até morrer, momento este queserá quando perceber que já é tarde demais. “Tente perceber que está tudo dentro de você; Ninguém mais pode fazer você mudar; E veja que você é realmente muito pequeno; E a vida flui dentro E fora de você.” George Harrison realiza neste trecho, a tentativa de fazer nos perceber menores do que pensamos que somos, em meio a uma vastidão universal, porém ainda somos seres pulsantes em vida. Uma tentativa de nos parecermos mais humildes em meio a nossa autoafirmação como seres tão evoluídos que não necessitam de nenhuma verdade divina. Within You Without You é um total reflexo do forte uso das novas drogas que foram fortemente popularizadas na época dos anos 60, como a LSD, ou a Maconha. O som desta faixa é um tanto quanto peculiar, pois esta é a única faixa do disco que contém instrumentos da música indiana em seu instrumental, como tambores e cítaras, trazidas como bagagem cultural do George Harrison ao disco. O som hipnotizante da faixa, e sua letra reflexiva e filosófica são nítidos reflexos das substâncias alucinógenas da época e da sua juventude usuária, que fortemente contribuíram também para a contracultura e o movimento Hippie dos anos 60.

Conclusão

Concluindo, músicas antigas e seus significados, falando principalmente dos anos 60 e 70, muitas vezes são deixadas de lado pela nossa geração atual, o que pode contribuir na falta de informação do nosso passado, visto que a música se linca com o contexto histórico em que ela se insere. Trazer os clássicos de volta àtona até mesmo de forma acadêmica, como é o caso

do artigo citado no texto, pode abrir uma nova forma do saber, e despertar interesse na juventude de pesquisar mais afundo sons do passado. E cabe a nós trazer de volta a importância de pelo menos uma vez na vida de escutar Beatles, ouqualquer outramúsica enquadrada dentro dos clássicos atemporais da música ocidental, e principalmente aqui no Brasil em que vivemos em um contexto em que a juventude de hoje em dia escuta bem mais gêneros formados recentemente. Mas isto também nos leva a pensar: Será que na época dos Beatles, os jovens também não eram criticados por escutarem aquele tipo de música, e afinal, o ciclo apenas se repete nos dias de hoje?

Fontes consultadas:

CASTILHOS DE ARAÚJO, Denise; SOUZA MOEHLECKE, Daniele Vista do Análise Semiótica das Manifestações Culturais da Capa do Disco SGT. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (The Beatles). Disponível em: https://seer.pucgoias.edu.br/index.php/panorama/article/view/6079/3363. Acesso em: 9 mar. 2025.

HOLLANDA, Pedro. A história da capa revolucionária de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles. Disponível em: https://igormiranda.com.br/2022/05/beatles-sgtpeppers-lonely-hearts-club-band-capa/. Acesso em: 9 mar. 2025.

ARLINDO@SLIN.DIGITAL. Música e Geração Z: O que os jovens estão consumindo de música nos dias de hoje [2024]. Disponível em: https://bananas.mus.br/blog/musica-e-genzo-que-os-jovens-estao-ouvindo-2024/. Acesso em: 9 mar. 2025.

DERNADI, Davi. O que é semiótica, e pra quê ela serve? Disponível em: https://revistaglifo.com.br/design-grafico/o-que-e-semiotica-e-pra-que-ela-serve/. Acesso em: 9 mar. 2025.

Within You Without You. Disponível em: https://www.letras.mus.br/thebeatles/300/significado.html. Acesso em: 14 abr. 2025.

Getting Better. Disponível em: https://www.letras.mus.br/the-beatles/260/. Acesso em: 14 abr. 2025.

She’s Leaving Home. Disponível em: https://www.letras.mus.br/the-beatles/194/. Acesso em: 14 abr. 2025.

(Para saber mais sobre a história e significado de cada música presente no disco, aconselho acessar a este link: https://youtube.com/playlist?list=PLuJN171dQvp2zPultZplnqQAalJLb4f5&si=cXEfPVvWReZu-Owj )

ENSAIO

Sobalenteeuropeia:contradiçõesdoeurocentrismona educação

brasileira

Uma reflexão crítica sobre a persistência do eurocentrismo no currículo escolar, mesmo em instituições construtivistas.

26demaiode2025,SãoPaulo(SP)

Resumo: Este ensaio propõe uma análise aprofundada sobre a permanência do eurocentrismo na educação brasileira, mesmo em espaços escolares que adotam metodologiasconstrutivistaseseapresentamcomoprogressistas.Partindodaexperiência pessoal de uma estudante branca, de classe média e aluna de uma escola particular da zona sul de São Paulo, são discutidas as contradições entre a proposta pedagógica e o conteúdocurricularque, emgrandeparte, aindaprivilegianarrativas eautoreseuropeus. O texto aborda, também, a forma como os países europeus se apropriam cultural e historicamente de saberes africanos, asiáticos e latino-americanos, configurando um processo de epistemicídio que impede a valorização plena das epistemologias do Sul Global.FundamentadoemautorescomoBoaventuradeSousaSantos,WalterMignoloe AníbalQuijano,oensaiodefendeaurgênciadeumaeducaçãodecolonial,quereconheça e integre a pluralidade do conhecimento humano para formar sujeitos críticos e emancipados.

Sou uma mulher adolescente, branca, de classe média, estudante de escola particular na zona sul de São Paulo. Reconheço meus privilégios sociais, mas me posiciono como uma pessoa que busca questionar as estruturas capitalistas, machistas, racistas e eurocêntricas que moldam nossa sociedade e, especialmente, nossa educação. Este ensaio é parte do meu compromisso em refletir criticamente sobre a escola e o conhecimento que recebo, buscando caminhos para uma aprendizagem mais plural e decolonial.

Minha trajetória escolar se dá em uma escola particular da zona sul, que se apresenta como construtivista, progressista e inovadora. Isso, à primeira vista, pode parecerumapromessaderupturacomosmodelostradicionaiseopressoresdeensino.No entanto,aolongodotempo,percebiqueoconteúdoquemeéoferecidoaindareproduza centralidadedoconhecimentoeuropeu.Essaexperiênciaémarcadaporumacontradição que me inquieta profundamente: como estudar em um ambiente que prega autonomia intelectualepluralidade,masqueseguereproduzindooeurocentrismo?

A escolha do tema deste ensaio ocorreu de maneira espontânea, ainda que inesperada, a partir de uma situação concreta vivenciada em sala de aula. Durante uma auladeHistória,aoestudarmosaGuerradoParaguai,conflitoocorridoemterritóriosulamericanoecomrelevantesimplicaçõespolíticas,sociaiseeconômicasparaahistóriada América Latina, fui tomada por um incômodo ao perceber a superficialidade com que o temaeratratadonosmateriaisdidáticosenasabordagensescolares.Emcontraste,temas relacionados à história europeia, como as Guerras Napoleônicas, a Revolução Francesa ou a formação dos impérios europeus, recebem atenção detalhada e prolongada no currículoescolar.Essadisparidadegerouumainquietaçãoqueultrapassouomomentoda aulaemelevouarefletirsobreacentralidadeexcessivaatribuídaàEuropanaconstrução doconhecimentohistórico.

Essa percepção evidenciou a presença velada do eurocentrismo na formação educacional que recebo e despertou em mim o desejo de problematizar essa lógica excludente. Quando a professora de Língua Portuguesa propôs a escrita de um ensaio, compreendiqueseriaumaoportunidadeidealparaexplorardemaneiramaisaprofundada umtemaqueemergiuquasecasualmente,masquesemostrouextremamenterelevante e complexo. Trata-se de uma questão que, além de suscitar meu interesse acadêmico, despertou um compromisso crítico que pretendo levar adiante, inclusive como tema de minha futura monografia. Em última instância, acredito que essa temática deveria provocar inquietações em todos os sujeitos envolvidos com a educação, especialmente emtemposemquesetornacadavezmaisurgentepensaremumaescolaplural,inclusiva edescolonizada.

Por isso, questiono: como podemos falar deuma educação crítica, emancipadora eplural,enquantooeurocentrismo,entendidocomoaimposiçãodosabereuropeucomo universal, segue sendo dominante? Que contradições isso revela sobre a escola, a educação e nossa sociedade? E, mais importante, como podemos avançar rumo a uma

educaçãoverdadeiramentedecolonial?Paraancoraressareflexão,recorroaespecialistas como Walter Mignolo (2011), Boaventura de Sousa Santos (2014) e Aníbal Quijano (2005),quetrazemimportantescontribuiçõesparacompreenderacolonialidadedosaber eanecessidadeurgentededescolonizarocurrículoescolar.

A escola brasileira, em sua maioria, baseia-se em currículos que reproduzem o modeloeuropeudeinterpretaçãodahistória,daciênciaedacultura.Comobemanalisam Santos e Meneses (2017), a construção do conhecimento na escola tem sido historicamente marcada pelo queWalter Mignolo chama de “colonialidade do saber”— um sistema que define o que é válido conhecer a partir da perspectiva europeia. Por exemplo, nas aulas de História, as grandes narrativas europeias são destacadas — o Iluminismo, as revoluções burguesas, as guerras napoleônicas — enquanto episódios e processos históricos fundamentais daAmérica Latina, África e Ásia são frequentemente tratadosdeformasuperficial,quandonãoinvisibilizados.

Essa centralidade europeia reforça uma visão linear e unidimensional da história mundial,quedesconsideraadiversidadeecomplexidadedosprocessoshistóricosglobais.

A educação, assim, não só naturaliza a superioridade europeia, mas também contribui para a marginalização das culturas e histórias dos povos colonizados. Estudos como os de Rivera Cusicanqui (2010) mostram que esse eurocentrismo não é um acidente, mas um mecanismo deliberado de manutenção do poder simbólico e epistemológico. A educação funciona como uma ferramenta que perpetua a dominação colonial, invisibilizandooutrasformasdeconhecimentoeexperiência.

Minhaescolaédeclaradamenteconstrutivista,defendendoodesenvolvimentoda autonomia do aluno e a construção ativa do conhecimento. Essa metodologia busca romper com o ensino bancário, onde o professor apenas transmite um saber pronto. Entretanto, apesar das boas intenções, o currículo e os conteúdos continuam a ser fortementeinfluenciadosporparadigmaseurocêntricos.Ouseja,mesmoemumambiente que incentiva o pensamento crítico, o material e as referências continuam centrados na Europa. Essa contradição já foi observada por pesquisadores como Calvo (2019), que aponta que “a inovação metodológica não necessariamente rompe com a colonialidade dosaber”(CALVO,2019,p.45).Apedagogiapodeatéestimularoquestionamento,mas quando o material de estudo é eurocêntrico, a visão do mundo do aluno continuará limitada.

Assim, a escola construtivista que frequento é exemplo vivo da dificuldade de descolonizar o currículo escolar. O desafio está em transformar não só as metodologias, mas também os conteúdos e referências para que sejam plurais, inclusivos e representativosdasdiversasepistemologiasdomundo.Alémdeprivilegiarseuspróprios saberes, os países europeus se apropriaram cultural e historicamente de narrativas e conhecimentos originários da África, Ásia eAmérica Latina. Essa apropriação funciona como um processo de “epistemicídio”, termo cunhado por Boaventura de Sousa Santos (2014),quesignificaoassassinatodesaberesnãoocidentais.

Um exemplo claro dessa apropriação são os sistemas filosóficos e religiosos africanoseindígenasqueforamreinterpretadoseincorporadosnodiscursoeuropeucomo exóticos,inferioresouprimitivos,negandosuaprofundidadeecomplexidadeoriginal.

Mignolo (2011) destaca que esse processo não é apenas um roubo cultural, mas umaestratégiadeafirmaçãodahegemoniaeuropeia,quecolocaseusvaloresenarrativas como universais, enquanto marginaliza e deslegitima os saberes do Sul Global. Essa lógicaestápresentenaescolaquandoseensinaafilosofiaocidentalsemsequermencionar as filosofias africanas ou latino-americanas, ou quando a literatura clássica europeia é exaltadaenquantoasliteraturasnãoeuropeiassãoconsideradasperiféricas.

Ahegemoniadoeurocentrismonaeducaçãotem consequênciasprofundas para a construção da identidade dos estudantes, principalmente aqueles oriundos dos grupos historicamentesubalternizados.ComoapontaQuijano(2005),acolonialidadedopodere do saber impõe uma matriz racial e cultural que invisibiliza e inferioriza as identidades não europeias, contribuindo para processos de autoalienação. Estudantes negros, indígenas e latino-americanos se veem privados de referências culturais e históricas que valorizem suas origens, o que impacta diretamente sua autoestima e sua percepção de pertencimento social. Essa exclusão epistemológica reforça as desigualdades sociais e raciais, reproduzindo o ciclo de opressão.A educação, portanto, não é neutra, mas um campodebatalhaondesedisputamrepresentaçõeselegitimidades.

Pararompercomoeurocentrismo,aeducaçãoprecisaincorporarumaperspectiva decolonial,quevalorizeapluralidadedesabereseexperiênciashumanas.Boaventurade Sousa Santos (2014) propõe uma “ecologia de saberes”, que reconhece e articula diferentes formas de conhecimento, respeitando a diversidade cultural. Isso implica revisar os currículos para incluir autores, narrativas e epistemologias africanas, latino-

americanas, asiáticas e indígenas, e promover um ensino que problematize a história da colonização e seus impactos até hoje. Além disso, é fundamental formar professores capazesdemediaressesconteúdosdeformacríticaesensívelàsquestõesdediversidade e poder. O giro decolonial, como discutido por Mignolo (2011), oferece ferramentas conceituais para essa transformação, destacando a importância de descentrar o saber europeueabrirespaçoparamúltiplasvozes.

Aolongodesteensaio,areflexãosobreapersistênciadoeurocentrismonaescola construtivista ondeestudo revelou a complexidade da colonialidadedo saberno sistema educacionalbrasileiro.Apesardasmetodologiasprogressistas,ocurrículoaindareproduz uma visão europeia do mundo, reforçando desigualdades e apagando a riqueza das epistemologias do Sul Global. Esse paradoxo aponta para a necessidade urgente de uma descolonização do ensino, que não se limite a inovações pedagógicas, mas que inclua umarevisãoprofundadosconteúdos,valorizandoapluralidadeeadiversidadecultural.

Comoestudanteprivilegiada,sintoqueémeudeverintelectualeéticoquestionar essas estruturas, amplificar vozes marginalizadas e contribuir para um futuro em que a educaçãosejaverdadeiramenteinclusiva,críticaetransformadora.

Referênciasbibliográficas

CALVO,César.Colonialidadedosabereinovaçãopedagógica:desafiosparaa escolacontemporânea.RevistadeEducaçãoContemporânea,v.14,n.2,p.40-55, 2019.

MENDEZ,M.P.&SANTOS,B.deS.HistóriaseMemóriasAfrodescendentesna EducaçãoBrasileira.RevistaBrasileiradeEducação,v.22,n.68,p.115-132,2017.

MIGNOLO,WalterD.TheDarkerSideofWesternModernity:GlobalFutures, DecolonialOptions.Durham:DukeUniversityPress,2011.

QUIJANO,Aníbal.Colonialidadedopoder,eurocentrismoeAméricaLatina. Nepantla:ViewsfromSouth,v.1,n.3,p.533-580,2005.

RIVERACUSICANQUI,Silvia.Ch’ixinakaxutxiwa:umareflexãosobrepráticase discursosdescolonizadores.LaPaz:TintaLimón,2010.

SANTOS,BoaventuradeSousa.EpistemologiesoftheSouth:Justiceagainst Epistemicide.NewYork:Routledge,2014.

SILVA,T.;PACHECO,G.ColonialidadedoSabereEducação.Cadernosde Pesquisa,v.50,n.176,p.500-519,2020.

Tudomuitocheio.Tudomuitooco.

As redes sociais como espelho e prisão na construção da identidade

15/06/2025,SãoPaulo–SP

RESUMO: Entre deslizesdededoefluxosdeimagens,este ensaiopercorreaformação deumasubjetividadeatravessadapelasredessociais.Dainfânciamarcadaporpequenosencantos digitais à adolescência tomada pela performance e pela ansiedade, o texto narra um processo de perda — e reencontro — de si.A partir de leituras que provocam fissuras e da experiência do pensamento no cotidianoescolar, emerge uma consciência inquieta diante de umaera onde tudo éimediato,masquasenadaéverdadeiro.

“Aatopiadooutromostraserautopiadoeros.”

—Byung-ChulHan,2017

Vivo em uma sociedade marcada por uma dualidade de realidades, que se distinguem e se interlaçam otempointeiro.Aquela que chamamosde real— sensível,palpável, “verdadeira”

— foi sendo deixada de lado ao longo da minha existência, eclipsada por uma outra: virtual, intangível, que cabe dentro de um retângulo e se alimenta de ilusões. Eu já nasci imersa nesses doismundos.

Quando pequena, por volta dos seis anos, tive contato com um celular antigo de minha mãe.Hoje,issomeparecequaseinocente:jogavaumúnicojogoeconseguiatiraralgumasfotos, sem grandes pretensões. Contudo, a partir dos sete essa relação começou a ser outra, gostava de tirar selfies e fotos no espelho, tentando mascarar minha idade com expressões e poses. Daí em dianteocelulardefinitivamentesetornouummembrodemeucorpo—edeformasorrateira,sua presençafoisendocadavezmaisinevitável.

Apesardessainfânciaatravessadapor“narcisices”,nemtudofoiperdido.Eubrinqueina escola,inventeijogosehistórias,imagineimundosinexistentes,pergunteisobreodesconhecido...

Fui a típica criança branca de classe média, que estuda em colégio particular construtivista:

rodeada de pequenos luxos, vida confortável, protegida da maior parte das violências — e incentivadaapensar.

Mesmo em meio a tudo isso, houve uma torção invisível — ou talvez não tão invisível assim—narealidade:apandemiadaCovid-19.Elachegoucomoumpontodevirada,silencioso e brutal. E eu estava no limbo, entre a criança que fui e a adolescente que ainda ia ser. Durante esse período, tudo pareciaem suspensão, e omundo se viu sem muitas opções para preencher o vazioqueahumanidadecarrega.Minhajornadadeautoconstruçãoeindividuação,quemalhavia começado,estagnou—efuilevadapelasondasdasmídiassociais,semcontroledadireçãoesem sabercomovoltarparaterrafirme.

Emtemposdeisolamentosocial,aquiloqueeraparaseroiníciodaminhajuventudeeo momento de continuar o caminho do fundamental, se tornou em uma revolta com a escola e a família. Conforme os meses passavam eu me deixava mais sozinha — eu e meu celular — me perdendo nas duas realidades e entrando cada vez mais profundamente naquilo que não sabia como sair, preterindo qualquer coisa que não fizesse parte daqueles modos de vida, que eu consumiaincessantemente.

Essa influência excessiva, que eu absorvia enquanto meus olhos desciam infinitamente pela tela, foi deteriorando minha essência, a qual meus princípios, opiniões e minhas próprias emoçõeseramconstruídosporterceiros,nãoconseguindomaismedeixarlevarpeloreal,apenas pelaperformance.Sintoquefuimetornandocadavezmaisrefémdessas“inspiraçõesdevida”.

Minha identidade passou a se dobrar à determinadas “estéticas” que estavam em vigor, queeramdisseminadaspelosváriosdesconhecidosqueeuconheciapelasredes—oupelomenos sentiaqueconhecia.Eupasseimeuiníciodaadolescênciainteiroquerendoser outraspessoas.A cadamodaefêmeraquepassava,idealizavaedesejavateroutrapersonalidade,comoutrasroupas e hábitos. Houve diversosmomentos queme perdi completamente naquilo que enxergava como “meurealeu”.

No entanto,fui crescendocarregando uma enorme bagagem— cheia depessoas,vozes, imagens.Umexcessoque,emvezdemeformar,sintohojequeapenasmeesvaziava.Alémdisso, fui levando uma necessidade incansável de não perder nada e construindo um compromisso bastantelealcomestar“cronicamenteonline”.Tudomuitocheio.Tudomuitooco.

Assim,meutédiofoisendocadavezmaiscapturadopelasredes,comeceiatrocarminha capacidade de fruir e pensar, pela passividade constante, para ser uma mera espectadora de “vidas”.

Quando entrei no ensino médio, fui movida principalmente por um pensamento pragmático:precisavaestudarparapassarnovestibulareseguirocaminhoqueomundojáparecia

ter traçado para mim. Era como se houvesse uma linha reta a ser seguida — e a escola fosse só mais uma etapa obrigatória desse percurso. No entanto, sem querer, fui sendo tomada por algo muitomaior: asaulas começaram ame instigar,me provocar,a me tirar da torpeza que eu havia meacostumado.

As falas dos meus professores começaram a me atravessar de maneira inesperada. Cada umdelesplantavaumasementediferente,mastodasmelevavamatiraramesmaconclusão:não posso viver minha vida inteira aceitando o mundo como algo dado e inquestionável. Fui percebendo que as coisas não existem ou estão onde estão por acaso, por vontade divina ou simplesmente porque sim — como eu costumava pensar —, mas que tudo carrega um sentido paraalémdasuperfície.

Não consigo apontar com exatidão qual aula virou a chave no meu pensamento. Talvez tenhasidoumacúmulosilencioso,umatransformaçãoquefoiseconstruindoaospoucos.Massei que, a partir desse momento, comecei a participar das aulas de outro jeito — com mais escuta, com mais entrega. Senti que minha relação com os professores se tornou mais horizontal, como seestivéssemospartilhandoalgoemcomum:avontadedecompreender.

Foientãoquepercebicomominhaantigarelaçãopredatóriacomocelularmeimpediade viver esse processo. Na lógica das redes, tudo é imediato, descartável, sem espaço para o pensamento.ComodizHan,em No Enxame,estamos“embriagadosdamídiadigital”,semsequer perceber a profundidade dessa embriaguez — e é justamente essa cegueira, segundo ele, que marcaacrisedonossotempo.

Dessa forma, passei a enxergar o mundo com outros olhos. Comecei a perceber que até mesmo aquilo que parecia banal ou desimportante podia ser lido como um texto, interpretado comoumsímbolo,atravessadoporhistóriasesentidos.Descobriquehavialiteraturanocotidiano, lirismo nos detalhes, poesia nas perguntas que talvez eu demore anos para responder — ou que jamais encontre resposta. E, diante disso, também entendi o quanto deixei de ver, de pensar, de sentirnosanosemquesimplesmenteaceiteitudosemquestionar.

Aos poucos, essa consciência foi me afastando das redes. Não foi algo repentino — comecei pelo Twitter, depois fui me questionando sobre o Tiktok, até que finalmente tomei coragemparadesinstalaro Instagram,oaplicativoquemaisme consumia.Mas antesmesmo de apagaressesaplicativos,algojáestavadiferenteemmim:passeiaolharaoredoresentirumcerto estranhamentocomomundo.

Dentro do metrô, por exemplo, tudo parecia deslocado. Não havia expressões fortes ou olhares vivos, mas sim uma apatia generalizada.As pessoas estavam encolhidas, com os rostos

voltados para baixo, encarando seus celulares, movimentando apenas os dedos. Era como se aquele objeto já fosse uma extensão do corpo, um elemento essencial para seguir suportando a vida, para dar conta da exaustão de mais um dia entregue ao trabalho, à obrigação, ao automatismo.

Foialiqueentendiqueocelulartalvezfosseapenasapontadoiceberg.Algomuitomaior estavasendoencoberto—umcansaçodeexistir,umafugacoletiva,umsilênciogeneralizado.E eu,aospoucos,começavaaquerersairdessalógica.Começavaameperguntar: por que eu posto uma foto minha? O que eu quero com isso? A resposta era incômoda — mas clara. Eu queria atenção,aprovação.Queriamemostrar,me exporcomo umproduto.Ofiltro,a música,aroupa, a pose—tudoeracuidadosamentepensadoparacaberdentrodeumpadrão,deuma estética,de um pertencimento. Outras dúvidas iam surgindo, para onde estou direcionando meu tempo?

Posso normalizar acordar e pegar o celular? Não conseguir estabelecer limites? Por que será que fico ansiosa com qualquer notificação que aparece? É razoável eu não ter que me esforçar mais para fazer a maioria das coisas? Desde saber o que meus amigos fizeram no fim de semana, até procurar o significado de uma palavra desconhecida?

Essaestranhezafoicrescendoaospoucos,atésetornarimpossíveldeignorar.Pormeses, fiqueidivididaentreaceitaraquilotudocomonormal—afinal,todosàminhavoltafaziamigual —eperceberquealgoalidefinitivamentenãoestavacerto.Nessemeiodocaminho,lilivrosque me atravessaram de forma decisiva, como Morangos Mofados e Ideias para Adiar o Fim do Mundo. Eles foram me mostrando, cada um à sua maneira, que eu precisava romper com essa lógicaquepareciaeterna.

OlivrodoCaiofoicomoumafacadanopeito,eletrazapossibilidadedeumolharatento ao banal, ao pequeno, à margem.A escrita dele é visceral e potente, carrega uma sensibilidade bruta nas inconstâncias humanas, algo que eu jamais teria encontrado se continuasse imersa naquele mar virtual. Já com Krenak, fui subvertida. Ele virou minha visão ao avesso, questionando tudo aquilo que eu aceitava sem pensar. Seu raciocínio desmonta a normalidade colonial e mostra como os colonizadores — predadores, ladrões — deturparam até mesmo o significado da palavra “humanidade”. Entendi que, para os Yanomami, nós, brancos, somos o “povodamercadoria”:deixamosqueascoisasdefinissemquemsomos.Eali,comaquelaleitura, algo em mim virou. Percebi que a vida é muito maior do que cabe dentro daquele retângulo infinito.

Foi nessemomento deestranhamentoscomaminhanormalidade,que encontreioartigo “Uma breve reflexão sobre a formação das massas nas redes sociais e a busca por um novo ideal do eu”,publicadono Jornal de Psicanálise (2016),daUniversidadedeSãoPaulo,pelasautoras

Cíntia S. Queiroga, Leda M. C. Barone e Beethoven H. R. Costa. Nele, as autoras resgatam a teoriafreudianaparapensarosefeitosdasredessociaisnasubjetividadecontemporânea.Segundo Freud, “quanto mais fortes essas coisas em comum, mais facilmente se forma, a partir dos indivíduos,umamassapsicológica,emaisevidentessãoasmanifestaçõesdeuma'almacoletiva'” (QUEIROGA;BARONE;COSTA,2016,p.25).

Essa massa psicológica é marcada por comportamentos que fogem ao senso crítico individual. O sujeito, ao se inserir nesse grupo, perde temporariamente suas características singulareseadquireoutrasqueemergemdoinconscientecoletivo.Comoexplicamasautoras,“a massa é impulsiva, volúvel e excitável. É guiada quase exclusivamente por seu inconsciente. E, assim como o inconsciente, o grupo não espera seus desejos serem realizados, é impaciente, extremo, não tem dúvidas, sente necessidade de ser dirigido e, principalmente, não anseia a verdade”(QUEIROGA;BARONE;COSTA,2016,p.18).

Ler isso me atravessou com força. Entendi que muito do que eu sentia nas redes — a ansiedade, a vontade de aprovação, a repetição de tendências, a pressa constante — não era exatamente “meu”, mas algo que se manifestava a partir dessa massa digital, que me conduzia quase sem que eu percebesse. O cansaço, o vazio, a confusão sobre quem eu era, vinham justamentedessadissoluçãodesi.Estavasemprereagindo,masraramentecriando.Estavasempre memostrando,maspoucomeescutando.Eomaisassustador:tudoissoparecianormal.

Notaautobiográfica:

Me chamo Clara Vaz de Sousa Silveira, tenho 16 anos, sou branca e nasci na zona sul de São Paulo, onde ainda vivo. Estudo em uma escola particular de linha construtivista, que sempre incentivou meu pensamento crítico e minha escuta do mundo. Cresci entre o conforto da classe médiaeasinquietaçõesdeumageraçãoatravessadapelastelas.Escrevoporquepensareescrever sãoformasdenãomeperder—demimedosoutros.

Fontesconsultadas

HAN,Byung-Chul. Aexpulsão do outro: sociedade, percepçãoe comunicação.TraduçãodeEnio PauloGiachini.Petrópolis,RJ:Vozes,2017.

HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis,RJ:Vozes,2018.

KRENAK,Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo.SãoPaulo:CompanhiadasLetras,2019.

QUEIROGA, Cíntia S.; BARONE, Leda M. C.; COSTA, Beethoven H. R. Uma breve reflexão sobre a formação das massas nas redes sociais e a busca por um novo ideal do eu. Jornal de Psicanálise, São Paulo, v. 49, n. 90, p. 15-30, 2016. Disponível em: https://revistajornalpsicanalise.com.br/wp-content/uploads/2018/07/uma-breve-reflexao-sobrea-formacao-das-massas-nas-redes-sociais-e-a-busca-por-um-novo-ideal-do-eu.pdf.Acesso em:7 jun.2025.

Adordaexclusãoescolar

Uma reflexão sobre empatia, pertencimento e o papel de quem vê, sente e escolhe agir (ou não) diante da exclusão.

SãoPaulo–SP23/05/2025

Resumo

Este ensaio parte de um episódio real de exclusão, testemunhado pela autora em um ambiente escolar,pararefletirsobreoimpactodasmicroviolênciassociaisduranteainfância.Pormeiode uma análise crítica e emocional, o texto articula observações pessoais com pesquisas sobre empatia, pertencimento e omissão.A exclusão, aqui representada por uma frase aparentemente simples,“Nãocabevocêaqui”,revelacomoaçõessutispodemcausarferidasduradouras.

Durante um intervalo de almoço na escola, vi uma cena que, à primeira vista, poderia parecercomum,quasebanal. Mas elame atravessoudeforma profunda.Oambiente era agitado ealegre,comcriançaspequenasrindoeconversando,atéqueummenino,queaquiseráchamado de X, para preservar sua identidade, aproximou-se de um grupo aparentemente "popular". Ele pediu para se sentar com eles, mas ouviu um seco e cruel: “Não cabe você aqui, X!”. Mesmo tentando puxar uma cadeira, foi ignorado. Sentou-se sozinho. O menino, em voz baixa, disse à professora que tentou lhe fazer companhia: “Eu queria era sentar com aquelas crianças.”. Essa frase simples carrega um grito por pertencimento, que é uma das necessidades mais básicas e legítimasdequalquerserhumano.Aquilometocou.Comopode,emumespaçoquepregavalores comoempatia e acolhimento,haver ainda tanta exclusão?Emais: porque tantos de nós,alunos, professores, adultos, veem e escolhem nãointervir?Acena me marcou nãoapenaspela rejeição explícitadogrupo,maspeloqueeladiziaemsilêncio:nãoéquenãohouvesseespaçofísico,não haviaespaçoemocional.AntesdachegadadoX,amesaeraummardealegria.Comsuapresença, ficou visível um incômodo quase palpável, como se a simples tentativa de pertencer fosse uma afronta. Senti vontade de me levantar e me sentar com ele. Mas hesitei. Esperei. Como se, magicamente,asituaçãopudesseseresolversozinha.Eelanãose resolveu.Elecurvavaocorpo tentandoouvirdelongeaconversadasoutrascrianças.Aquilomedoeu.

Falo como mulher branca de classe média, estudante do 2º ano do Ensino Médio que, durante toda vida, teve a chance de estudar, com bolsa de estudos, em escola particular com sistemapedagógicodeensinoconstrutivistae,dessaforma,desdesempreaprendiameencaixar noestilodevidadosmeuscolegasdeescola.Acreditoquedesdemuitonovaconseguiperformar umpapeldemeninadeclassealtacomomeuscolegas,etalvezporissoe,peloperfildasescolas emqueestudei,euacabeinãovivendoessetipodeexclusãoinfantil,masreconheçonelaumador humana universal.Acreditoquetodoleitor,dealgumaforma,podejátersevistonessasituação: jáfoiexcluído,excluiuousecaloudiantedaexclusão.

Antesdachegadadomenino,haviaumambientealegre.Depois,oarmudou.Acausado desconforto não era ele, mas o que sua presença revelava: o quanto aqueles colegas estavam presosàlógicadaexclusãoparaafirmarsuaprópriaidentidade,umaidentidadeconstruídaapartir deumaideiadequetantohomensquantomeninostêmestereótiposaseguir,umamasculinidade que éimpostaaelesdesdeoiníciodavida,eque,quandonãoéseguida,cabeaosque seguemo excluir e tratar com indiferença pelo simples fato de não se encaixar no padrão esperado pela sociedade.Aconsequência dessa lógica já imposta são casos como esse, de um menino que não demonstrou sua masculinidade esperada e, por essa razão, foi excluído pelos seus colegas de escola.

SegundoapesquisadoraMiriamAbramovay,noestudoViolênciasnasEscolas(Fundação Carlos Chagas), “a exclusão no ambiente escolar se manifesta em formas sutis, muitas vezes naturalizadas,mascomgrandeimpactonaformaçãodaidentidadedascrianças”.Oqueaconteceu com X ilustra exatamente isso: não houve gritos, xingamentos ou agressões físicas, mas, ainda assim, a dor estava ali, profunda, visível, devastadora. Esse tipo de violência é frequentemente negligenciado por professores e gestores escolares, que priorizam conteúdos programáticos e ignoramasemoçõescomoparteessencialdaaprendizagem.Comisso,perdemachancedeeducar paraaconvivência.

Sob uma lente decolonial, podemos entender que essas práticas excludentes não são naturais, mas herdadas de uma lógica colonial que valoriza o centro e marginaliza as bordas. X, nessecaso,ocupaolugarsimbólicodo“outro”,doqueaparentementenãoseencaixa.Aempatia só será possível quando rompermos com essas estruturas e reconhecermos que o “diferente” é parteessencialdotodo.

AcenacomXmefezenxergaroquantoaexclusãopodesersilenciosa,mas,aindaassim, devastadora.Afrase “nãocabe você aqui” diz muito mais sobre quem a pronuncia do que sobre quem a escuta. O problema não está na mesa ou no espaço físico indisponível, mas na ausência de empatia,deação, decoragemparaincluir.Aescolaprecisa ser mais doqueum lugaronde se aprendem fórmulas e regras gramaticais. Ela deve ensinar o valor da presença, da escuta e da

responsabilidadecomooutro.Tambémaprendiquesecalardiantedainjustiçaé,decertaforma, aceitar que ela continue. Hoje, ao escrever este ensaio, percebo que transformar o silêncio em palavrajáéumprimeiropassoparamudaralgo.Masnãopodeseroúnico.Precisamosdeescolas queconfrontemaexclusão,nãoqueapenasasuavizem.

O futuro que desejo é feito de espaços onde todos tenham lugar, onde as crianças não precisem insistir para participar ou performar um papel para serem inclusos, onde ninguém se sinta invisível, porque quando dizemos que não cabe alguém, o que falta não é espaço, é humanidade.

Autobiografia da autora: Sou Zoé Carnaval deAbreu, nascida na zona oeste da cidade de São Paulo,ondecresciemoroatéhoje.Soualunado2ºanodoensinomédiodeumaescolaparticular construtivista.Antes da escola onde estudo atualmente, também estudei em uma escola com o perfil parecido, construtivista, e feita para alunos de classe média alta.Apesar de estudar nessas escolaspensadaspara elite de São Paulo, sempre estudei com bolsa por conta domeu pai,que é professor,emelevouparaestudarnasescolasqueeletrabalhou.Tenho16anos,souumamulher brancadeclassemédia,esempremeinteresseiportemasligadosàempatia,convivênciaejustiça social,porumainfluênciadaminhafamíliae,principalmente,pelomeupai,queporestarinserido no contexto da sala de aula, sempre pode me contar sua visão dos acontecimentos, o que inclui casos de exclusão e repressão de alunos, dessa forma me proporcionando interesse no tema, e empatia.

Fontesconsultadas

ABRAMOVAY,Miriam;RUA,MariadasGraças.Violênciasnasescolas.Brasília:UNESCO; FundaçãoCarlosChagas,2002.

BRASIL.InstitutoBrasileirodeGeografiaeEstatística.PesquisaNacionaldeSaúdedoEscolar –PeNSE2021.RiodeJaneiro:IBGE,2022.Disponívelem:https://www.ibge.gov.br.Acesso em:05jun.2025.

CANDAU,VeraMaria.Educaçãoemdireitoshumanos:desafiosdadiversidadeedainclusão. RevistaBrasileiradeEducação,RiodeJaneiro,n.50,p.5-18,2009.

CONNELL,R.W.Masculinidades.Tradução:SérgioGoesdePaula.RiodeJaneiro:Record, 1997.

FREIRE,Paulo.Pedagogiadaautonomia:saberesnecessáriosàpráticaeducativa.45.ed.São Paulo:PazeTerra,2011.

Afarsada“teoriamusical”

Teoria Musical como ferramenta de exclusão artística e apagamento cultural

SãoPaulo–SP,19/05/2025

Neste ensaio, pretendo entender e me aprofundar na discussão sobre como a teoria musicaleuropeiafazpartede umdiscursocivilizatóriocoloniale assimsetornaumaferramenta de exclusãoartísticaeapagamentocultural.Naatualidade,estaétidapelosensocomumcomoa única teoria musical e até como parte do que define música em si, camuflando a sua tentativa colonial de atingir hegemonia no meio musical por meio de um falso discurso de que esta seria uma “forma universal e matematicamente provada de compreender, categorizar, analisar e produzirmúsica.”

Em suma, meu ponto é que não deveria haver uma teoria musical hegemônica, assim comonãoháumateoriapictóricaouumateoriateatral,poisaarteéumfenômenoculturaleéum ato supremacista exaltar apenas uma cultura e invalidar todas as outras. Não sou contra instituiçõesteóricasdentrodomeioartístico,achoinclusivequeestassãoúteissim,masdeforma algumaumcampodaartedevesereduziraapenasumavisãoepistemológica,comotemsidocom asartesmusicais.

Minhas experiências me direcionam para a seguinte percepção: mesmo que a teoria musical popularizada no Brasil seja bastante eurocêntrica, a cultura musical escapa desta. Tive acesso a privilégios, como por exemplo aulas de acordeon, e, consequentemente, aprendi (pelo menos em parte) a dita teoria musical. No entanto, percebi que alguns dos maiores ícones da música nordestina, como Luiz Gonzaga e Dominguinhos, não tiveram acesso a nenhuma educação musical formal.Luiz, numa entrevista, chega a confessar que não sabe do que se trata um mi bemol. Mesmo tendo acesso a aulas de música e sabendo do que se trata um mi bemol, tenhocertezadequenãotocotãobemquantoLuizGonzagaeDominguinhos.

A música é uma atividade amplamente praticada ao longo dos milênios pelas mais diversas culturas ao redor do mundo e a variedade deste segmento da arte torna difícil definir exatamentedoquesetrata.Noentanto,hábastantediscussãosobreoqueéamúsicaemsi.Uma definição bastante popular diz que a música precisa ter elementos como harmonia, melodia e ritmo; algumas tentam cientificar esta arte/linguagem, dizendo que se trata de uma estrutura

matemáticaeque,portanto,seria“universal”eoutrasdizemquesetratadeumconjuntodesons organizados de forma “harmoniosa”. A definição que utilizarei é bastante ampla, até porque diversasculturaspraticamecompreendemamúsicadeformasbastantedistintas.Deacordocom Robert Philip: “a música, tal como todo o resto, é, em parte, um reflexo da sociedade.Amúsica serve para seja o que for que a sociedade dela precise.” Portanto, irei considerara música como qualquer forma de organizar os sons no tempo como forma de expressão, pois acredito que qualquerconceitodeharmoniadependaquaseunicamentedeviéscultural.

Porém,muitosinsistememclassificaramúsicasomentecomoobrasqueseencaixamna dita “teoria musical”. Esta não se trata de um conceito único, já que existem inúmeras teorias musicais oriundas de diferentes sociedades ao redor do mundo.Além disso, existem muitas que têm uma cultura musical riquíssima sem uma base teórica escrita. No entanto, muitas vezes quando se fala em teoria musical se referem ao estilo harmônico de certos europeus no século XVIII (em sua maioria, alemães). A sua definição senso comum é eurocêntrica por si só, abrangendo uma forma de análise e representação da “música clássica” europeia, explicando e categorizandoasestruturasnelaspresentes.

Na minha visão, a grande problemática deste estilo harmônico é o fato dele ser inserido nomundocontemporâneocomoumaforma“únicaeuniversal”decompreenderamúsica,como se esta fosse explicada por algum princípio matemático que faria dela perfeita e harmoniosa. É claro que existem princípios matemáticos nesta teoria musical europeia, entretanto eles existem em outras teorias musicais (e em praticamente tudo que existe), o que faz com que esta característicanãosejaexclusivadestesegmentoteórico.Muitosbuscamargumentarqueocérebro humanoinstintivamentetendeaconsideraroquea “teoriamusical”abrangecomoharmoniosae bela, em detrimento do restante.Afirmar o mesmo implica na crença de que outras culturas que desenvolveram teorias diferentes não teriam a capacidade de distinguir corretamente o belo e harmonioso. Indiretamente, dizem que seus cérebros seriam inferiores, porque não reconhecem estespadrõescorretamente.

Essa visão negligencia completamente o aspecto subjetivo e cultural da música, já que deixa de percebê-la como resultado de uma construção artística coletiva, passando a impor e individualizaroconceitodemúsicaapartirdeideaisarbitrárioseeurocêntricos.

Inevitavelmente:oquedizaComunidadeCientífica

Visoentendernessesegmentodoensaionãosomenteoqueacomunidadecientíficapensa sobreateoriamusicaleuropeizada,masrefletirsobresedevemosdefatodarespaçoeimportância aoqueessacomunidadetemadizersobreesseassunto.Issodemaneiraalgumasignificaquenão

seja necessário valorizar a ciência hegemônica, mas compreender a problemática de afirmar em nomedosabercientíficoqueumanoçãoculturaléválidaeoutranão,nestecaso,dizerqueoestilo harmônico dos europeus no século XVIII é “mais válido” do que os “outros”. Portanto, independentemente doqueindica esta,épreciso um olharparcimoniosoe odiscernimento entre esta forma de saber e a inalcançável verdade absoluta.Até porque, se trata de uma comunidade essencialmente eurocêntrica buscando determinar a importância da cosmovisão europeia de música,ouseja,hánesteatoumclaroviésanalítico.

Selecioneialgunstextoscientíficosparaentendermelhor oqueindicam pesquisassobre este tema, dentre eles alguns mais críticos e outros um pouco elogiosos a este estilo harmônico. Porém,mesmoospertencentesaestasegundacategoria,comootexto“EnsaioSobreasEstruturas

Matemáticas da Música Ocidental”, de Chrisley Bruno Ribeiro Camargos e Ademir Donizeti Caldeira, reconhecem asfalhas e limitações da escrita musical nosistema cartesiano europeu,já que essa não engloba teorias musicais advindas de diferentes tradições, como a indiana, e nem mesmoenglobaaprópriamúsicaocidentalmoderna,comojazzemúsicaeletrônica.Issosedeve ao fato de que esses estilos compreendem modelos tonais e formas de tocar que transgridem o sistemadenotaçãoeuropeu,jáqueateoriamusicalindianapossui28tons,nãosomenteos12da escala diatônica, e a música eletrônica utiliza variações tonais bastante complexas de se categorizar. Ademais, até o Jazz, um estilo musical de cem anos, que precede os recursos da música eletrônica, mesmo sendo ocidental e se utilizando do sistema tonal europeu acaba por contrapor o mesmo sistema de notação, pois é uma tarefa difícil restringir o estilo fluído e improvisadodojazzaestemodelo.Mesmofazendoessascríticaspontuais,ofocodotextonãoé necessariamente crítico ou decolonial, mas compreender as estruturas matemáticas do estilo harmônico em questão. É inclusive um texto bastante rígido e impessoal, abordando este segmentodamúsicaporumolharmatemático.Logo,évisívelque,mesmonasáreasmaisexatas e colonizadas da comunidade científica, se faz presente a noção de que há sim imperfeições na teoriamusicaleuropeia.

Há também outros artigos mais críticos e decoloniais como: “Teorizando para além do cânone: tonalidade, função harmônica e prolongamento”, de Gabriel Henrique Bianco Navia e Gabriel Venegas-Carro. Este carrega como intuito uma proposta de intervenção, reimaginar a teoria musical a partir de uma ótica decolonial e desnaturalizar a centralidade do modelo tonal eurocêntrico como cânone, como “padrão universal”. “Uma Perspectiva Decolonial para a EducaçãoMusicalBrasileiranoEnsinoBásico”,porRicardoEmílioFerreiraQuevedoNogueira, quenestetextobuscaexplicarasconstruçõescoloniaiseelitistaspresentes,nãosomentenoensino musical,comonaprópriomúsicaemsi,propondoumaintervençãoquetornasseessecomponente importantíssimodaculturabrasileiraalgomaisacessível.Jánoprincípiodoartigo,eleestabelece uma relação entre a concepção de que a música europeia seria superior e a lógica entre as

imposições culturais da metrópole e como a colônia, neste caso o Brasil, acaba internalizando essas noções coloniais e reproduzindo essa violência entre classes sociais. Em resumo, como os padrões culturais do colonizador foram forçosamente adotados pelo colonizado, criando uma lógicaelitistaeexcludente,ondeoacessoaessaculturaconsideradacorretaéumprivilégio.

Porfim,ficaevidenteque,mesmoentrepesquisasrelativamentedistintas,apercepçãode que o estilo harmônico europeu do século XVIII, erroneamente conhecido como “Teoria Musical”,nãocompreendedentrodesitodasasdemaisformasdesefazermúsicaemuitasvezes serve como ferramenta de exclusão, seja por motivos matemáticos, como a diferença na quantidade de tons, seja pelas implicações coloniais e preconceituosas presentes no histórico dessa.Mesmoquetodosdeemalgumméritoaestaformadevermúsica,reconhecem,apartirde suas respectivas metodologias científicas, a enorme problemática de tratar esta percepção euroocidental de música como a universalmente correta. Um trecho do livro “Imagens da Branquitude”, da historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz exemplifica bem este conceito:

“O sistema colonial também criou economias distintas: converteu a riqueza dos países europeus em matéria de consenso e de mérito, ao passo que os universos de valor das regiões invadidas-equeforammuitodesestabilizadasoudepauperadasporesse"contato"--eramvistos como primitivos", ou inferiores. O mesmo projeto moderno ainda classificou o mundo dos “outros”:"eles”teriamcrenças,"nós"religiões;elesteriam"mitos,nós"filosofias”;nossahistória seria"universal",adelesapenas"local".”

Discutir o papel da teoria musical como ferramenta política de exclusão étnico-cultural perpassa diversas discussões ainda mais complexas, como compreender a dificuldade de se dissociar das tradições coloniais dentro de um meio colonizado. Trata-se de entender que a temática da cultura europeia como cânone vai muito além da música e até da arte, pois essa concepção vem ligada à história do mundo e também as nossas respectivas identidades como populaçãodeumpaíscolonizado.

Existetambém,naconcepçãodeuniversalizaçãodateoriamusicaleuropeia,umelemento que Cida Bento, psicóloga, pesquisadora e ativista, caracteriza como o “pacto narcísico da branquitude”: “Esse pacto da branquitude possui umcomponente narcísico, de autopreservação, como se o ‘diferente’ ameaçasse o ‘normal’, o ‘universal’.” Essas palavras de Cida Bento expressambemasentrelinhassociológicasdefalascomunsnomeioeruditocomo:“Músicasem teoriamusicalnãoémúsica”,“Funk,sambaeforrósãomúsicasbaratasparaquemnãosabetocar” ou “Ele nem estudou, não faz música de verdade”. Questionar a ambígua hegemonia desta antiquada“teoria erudita” éessencialmente umatorevolucionário, poisem ummeiocolonizado subverternormaspretensamenteanódinasquenosforamforçosamenteimpostaséumaaçãoque

propõe intervir num status quo que, mesmo após 500 anos, segue refém da brutalidade dos genocídioseepistemicídioscoloniais.

Queméoautor?

Meu nome éAntonio Jácome doVale, tenho 16 anos, sou soteropolitano, mas moro em SãoPaulo.Estoucursandoosegundoanodoensinomédionaescola Carandá.Desdecriançafui fascinado por música e arte como um todo, e com cerca de 8 anos comecei a aprender a tocar sanfona. Talvez esses interesses sejam oriundos da minha criação numa família nordestina, que admira e tem uma forte conexão com arte, música e cultura. Gosto bastante de experimentar e entender música, ouço artistas e álbuns dos mais variados tipos: escuto hip hop, punk, forró, bigbands, samba, jazz de improviso, mpb e muitos outros. Por conta desse interesse, acabei frequentando ambientes como conservatórios de música e percebi o quão excludentes e reacionáriassãocertasinstânciasdomeioartístico,oquefelizmentemelevouàrealizaçãodeque buscavaoopostodisso.

Referênciasconsultadas

BENTO,Cida.Opactodabranquitude.SãoPaulo:CompanhiadasLetras2022

SCHWARCZ,LiliaMoritz(org.).Imagensdabranquitude.SãoPaulo:CompanhiadasLetras, 2019.

NAVIA,G.;VENEGAS-CARRO,G.Teorizandoparaalémdocânone:Tonalidade,função harmônicaeprolongamento.MusicaTheorica,v.9,n.1,2024.

Nogueira,RicardoEmílioFerreiraQuevedo."UMAPERSPECTIVADECOLONIALPARAA EDUCAÇÃOMUSICALBRASILEIRANOENSINOBÁSICO."RevistadeEstudos Decoloniais1.1(2021).

TURINO,T.Estrutura,contextoeestratégianaetnografiamusical.HorizontesAntropológicos, v.5,n.11,p.13–28,1999.

CAMARGOS,M.C.B.ENSAIOSOBREASESTRUTURASMATEMÁTICASDAMÚSICA OCIDENTAL.Disponívelem:.Acessoem:2jun.2025.

GRAEFF,N.AberturadodossiêMatizesAfricanosnaMúsicaBrasileira.RevistaClaves,v.9, p.1–28,2020.

PIZARRO,Mariana.UnBCiência-Dificuldadedeaplicarteoriaàpráticaafastamúsicosdas escolas.2011.Disponívelem:https://www.unbciencia.unb.br/artes-e-letras/102-musica/257dificuldade-de-aplicar-teoria-a-pratica-afasta-musicos-das-escolas.Acessoem:17maio.2025.

NEELY,Adam.MusicTheoryandWhiteSupremacy.YouTube,4ago.2020(publicadohá4,8 anos).Disponívelem:https://www.youtube.com/watch?v=Kr3quGh7pJA.Acessoem:9jun. 2025.

GONZAGA,Luiz.LuizGonzaga:Entrevista,TVCultura|1981.YouTube,4anosatrás. Disponívelem:https://www.youtube.com/watch?v=Ma4K2vHC4n0.Acessoem:9jun.2025.

Realidadedeestudantesnegrosemcolégiosparticulares

Reflexões sobre pertencimento, exclusão e identidade racial no ambiente escolar elitizado

22demaiode2025,SãoPaulo

Resumo: Neste ensaio eu reflito sobre as diversas situações vividas por estudantes negros em colégios particulares. Questões relacionadas ao não pertencimento, exclusão e classe social são apresentadas no texto, com o auxílio de pesquisas e citações de ativistas e especialistas no assuntos. A partir dessa análise, concluí que ser uma aluna negra em um colégio particular significa estar exposta a inúmeras dificuldades devido aos aspectos históricos, e acredito que as escolasdesempenham umpapelfundamentalparatrabalharcomaautoestima dessesestudantes, alémdeseremcapazesdelidarcomsituaçõesdediscriminaçãoepreconceito.

Uma estudante negra, de apenas 4 anos, foi vítima de racismo no Colégio Objetivo Guarujá.Acriançasequeixouparaoseupaisobrecomosuascolegasaexcluíamdasbrincadeiras, e que zombavam do seu cabelo durante as aulas de ballet.Além disso, a menina relatou que as colegas falaram que ela tinha cheiro de cocô, pelo simples fato dela ser uma criança negra. Eu, como uma garota negra estudante de um colégio particular, reconheço a dor e sofrimento dessa menina,umavezquesomosvítimasdeexclusãoporcontadeumsistemaracista.Masvocêjáse perguntou comoasescolasparticularesdevemlidar com ocombate aoracismo? De acordocom Léo Bento, especialista em relações raciais e consultor de diversidade, equidade e inclusão da Inaperê,“asescolasprecisamseprepararcomletramentoracialparatodaacomunidade.Épensar nos pilares dessa educação antirracista, que é a gestão. Ela precisa ter entendimento de como a nossasociedadeseorganizaracialmenteecomoessaorganizaçãoracialimpactanumaperspectiva social.”

Poreuserumagarotanegradeclassemédia,semprefrequenteilugaresdemaioriabranca, eissosempremeprovocouumasensaçãodenãopertencimento,pelofatodeeuseraúnicapessoa negra naquele ambiente. Essa sensação também é presente no ambiente escolar, já que durante todaaminhainfânciaeadolescência,namaioriadasvezes,fuiaúnicaestudantenegradaminha turma,equandoeunãoera,havianomáximo2estudantesnegros.

A sensação de não pertencimento gera, na maioria, a timidez, devido ao medo de julgamentoemumespaçoondeaspessoasnãoseparecemcomvocê.“Pormuitotempoeuachei

que eu tivesse sido silenciada quando, na verdade, hoje, eu entendo que eu sempre falei, mas nunca fui ouvida”, disse a empresária Monique Evelle. Em diversos ambientes, principalmente escolares,eunãomesintoacolhidaosuficienteesintoquenãopertençoaesselugar,eassimgera o questionamento: Se eu fosse uma pessoa branca encaixada nos padrões de beleza sociais, eu receberiaodobrodeatençãoeacolhimento?

No ensaio “Amulher negra no Brasil”, a autora e ativista brasileira Lélia González cita “nossascriançassãoinduzidasaacreditarqueserumhomembrancoeburguêsconstituiogrande idealaserconquistado.Emcontraste,elassãotambéminduzidasaconsiderarqueserumamulher negraepobreéumdospioresmales.Devem-selevaremcontaosefeitosdarejeição,davergonha e da perda de identidade às quais nossas crianças são submetidas, especialmente as meninas negras. Um dos fatores que contribuem para as altas taxas de evasão escolar é justamente esse tipo de ideologia promovida nas escolas (de modo que, para mil crianças que ingressam nas escolas primárias, apenas sessenta chegam ao terceiro ano).” Esse trecho presente no livro “Por um FeminismoAfro-Latino-Americano” revela que crianças negras são movidas por ideologias eurocêntricas, gerando umsentimento de vergonha, perda de identidade, baixa autoestima, além dos altos índices de evasão escolar. O fator econômico também é citado no ensaio, porém essa condiçãoestá maisdistanteda minharealidade,poisminhasdificuldadesnãoestãorelacionadas aminhasituaçãofinanceiraesimaminhaidentidaderacial.

Além disso, eu reparo que diversas pessoas brancas realizam apropriação cultural1, isto é,reproduzemculturasafrodescendenteseutilizamfalasegíriaspertencentesacomunidadenegra com o intuito de parecerem “descoladas”. Eu já presenciei diversas situações nas quais pessoas brancas cantam raps de origem periférica que são totalmente distintas de sua realidade, além de fazer o símbolo de “Wakanda Forever”, que teve origem no filme Pantera Negra da Marvel Studios, com o intuito de representar a luta do movimento negro. Esses comportamentos me geram umgrandeincômodo, pois,durantesmilharesde anos,a comunidadenegraera altamente criticadapelousodesuacultura,e,atualmente,pessoasbrancasseapropriamdela,ignorandosua história de origem. Namúsica “Negro Drama”, do grupo Racionais MC’s, há um trecho que diz “Seu filho quer ser preto, ah, que ironia. Cola o pôster do 2pac aí, que tal? Que cê diz”, ou seja, elesqueremnossacor,masnãoqueremnossador.

Na introdução deste ensaio, menciono um caso de racismo em um colégio particular, e comoasescolaslidamcomessassituaçõesdediscriminaçãoepreconceito.Nossacordapelenos tornavítimasdeexclusão,alémdafaltadereconhecimentodanossadoresofrimento.

1 Apropriação cultural: ocorre quando uma pessoa ou grupo social hegemônico em uma sociedade passa a reproduzir comportamentos, hábitos, vestuários, objetos, linguagens de grupos sociais marginalizados.

Ser uma estudante negra em um colégio particular é estar sujeita a diversas situações de desconfortoeconstrangimento,nasquaispessoasbrancassóincluempessoassemelhantesaelas, além de se apropriarem de culturas negras que estão distantes de suas realidades. Quando há alunos negros nesses ambientes escolares,muitas pessoas se questionam se essesestudantes são bolsistas,poisnãoseconformamcomapresençadenegrosemumlocalfrequentadoporpessoas comumaboacondiçãofinanceira.Issojáocorreudiversasvezescomigo,poisjámeperguntaram seeuerafilhadealgumfuncionárioeduvidaramdequeeueraestudantedaquelaescola.

Portanto,valeressaltar,queapresençadeestudantesnegrosemcolégiosparticularesnão é um assunto muito discutido pelo fato de sermos a minoria, dificultando a possibilidade de encontrarmos pessoas semelhantes a nós nesses ambientes. Por isso, éimportante trabalhar com a autoestima de pessoas negras desde a infância, para que no futuro, quando estiverem mais velhas, obtenham confiança e entendam que merecem ser respeitadas, independentemente do lugar onde estiverem, por mais que isso seja difícil de acontecer pelo fato de vivermos em uma sociedaderacista.

Miniautobiografiadaautora:

MeunomeéCarolinaMartinsNascimento,tenho17anosenascinodia11dedezembrode2007, nacidadedeSãoPaulo.SouestudantedaCarandáEducaçãohámaisde1ano,estudeinoColégio Santa Helena duranteminha infância,efui matriculada noColégioMaristaArquidiocesanocom 10 anos de idade. Sou filha do diretor de governança da B3 (bolsa de valores) e da Fundadora e CEOdoSite MundoNegro,oprimeiroe principalportaldenotíciassobrecomunidade negrana AméricaLatina.

Referênciasbibliográficas:

CNNBRASIL.EscoladaBaixadaSantistaéacusadaderacismoporpaidealuna.CNN Brasil,s.l.,18set.2024.Disponívelem:https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/escolada-baixada-santista-e-acusada-de-racismo-por-pai-de-aluna/.Acessoem:7jun.2025.

G1. ComoescolasdeelitedacidadedeSPlidamcomracismo,homofobiaepreconceito sofridosporalunosbolsistas.G1São Paulo,30ago.2024.Disponívelem: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2024/08/30/como-escolas-de-elite-da-cidadede-sp-lidam-com-racismo-homofobia-e-preconceito-sofridos-por-alunosbolsistas.ghtml.Acessoem:7jun.2025.

GONZÁLEZ,Lélia.“PorumFeminismoAfro-Latino-Americano”.RiodeJaneiro: Zahar,2020.

MULHERESPAZ–RededeMulheresAfro-Latino-Americanas. FeminismoAfroLatino-Americano.[S.l.:s.n.],jun.2021.Disponívelem: https://mulherespaz.org.br/site/wp-content/uploads/2021/06/feminismo-afro-latinoamericano.pdf.Acessoem:7jun.2025.

OHolocaustoeareformadosdireitoshumanos

A reestruturação dos direitos humanos após o Holocausto e o papel da memória histórica frente à institucionalização da violência

AntônioLossoStockler

CarandáEducação,24/05/2025

Resumo: Este texto propõe uma reflexão sobre o Holocausto como marco na reformulação dos direitoshumanoseopapeldamemóriahistóricafrenteàinstitucionalizaçãodaviolência.Apartir de vivências pessoais, vozes de especialistas e autores contemporâneos, investiga-se como a educação, o direito internacional e as percepções em diferentes pontos de vista contribuem para impedirarepetiçãodeatrocidadesnopresenteenofuturo.

Atemática da Segunda Guerra Mundial e suas consequências sempreforamtópicos que despertarammeuinteresse.No9ºano,realizeiumtrabalhoescolarnadisciplinade"Projeto"que exigiu uma pesquisa profunda sobre esse conflito, bem como seus desdobramentos de forma aprofundada. Foi também nessa época que li o livro "Segunda Guerra Mundial", do historiador britânico Ralph George Ruth. A obra, embora rica em dados e detalhes estratégicos, apresenta uma narrativa que privilegia os feitos dosAliados, especialmente o exército britânico, deixando em segundo plano os erros e ambiguidades cometidos também por esse lado. Mesmo assim, o autornãosesilenciadiantedabrutalidadedoHolocausto,reconhecendoneleumpontoderuptura naHistória:afacemaisdevastadoradoracismo,daintolerânciareligiosaedainstitucionalização daviolência.

Aorevisitaressetemaagora,comoumestudantebrancobrasileirode16anos,reconheço meu lugar social de fala. Sou alguém que não vivenciou a guerra e nem pertence a grupos diretamente atingidos, mas que tem a responsabilidade de, assim como todos, compreender e transmitir a memória histórica. A educação que recebo e o acesso às vozes silenciadas são ferramentasparanãoperpetuaroesquecimentoelutarcontraabanalizaçãofuturadaviolência.

Éjustamenteapartirdesseacontecimentotrágicoeinacreditávelqueanoçãodedireitos humanosfoiredesenhada.OHolocausto2 nãoapenasmatoumilhões,eledestruiuacrençadeque asleiseos governossempreagiriam emfavordavida.Apergunta que surgiunaspopulaçõesno

2 Holocausto:Extermíniodecercadeseismilhõesdejudeus,alémdeoutrosgruposminoritários,promovidopelo regimenazistaduranteaSegundaGuerraMundial.

finaldaguerraera:comogarantirquenenhumEstadovoltealegitimaroextermíniodeseupróprio povo?

A resposta veio em 1948, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos3 , formulada pela recém-criada ONU (Organização das Nações Unidas). Esse documento representavaumatentativaconcretadecriarumpactocivilglobal.Nãosetratavadeumaescritura meramente idealista, mas sim de uma forma de impedir que o horror se repetisse. Ela instituiu princípios universais em um momento em que as ideias de liberdade e igualdade estavam fragmentadasemalabordadas.

Essa reformulação não se limitou apenas ao campo das declarações. O Tribunal de Nuremberg4 (1946), por exemplo, simbolizou uma nova etapa ao condenar líderes nazistas por crimes contra a humanidade, mesmo que tais crimes não estivessem previstos como ilegais nas legislaçõesde seus paísesduranteaSegunda Guerra.Essainovaçãojurídicadecretouocaminho paraofortalecimentododireitointernacionalelevouàcriaçãodetratadoseórgãosque,aolongo dasdécadas,passaramacombaterogenocídio,atorturaeaperseguiçãosistemáticademinorias.

Contudo,essareformatambémcarregouadversidades.Apesardasgarantiasassinadas,o mundo continuoutestemunhando genocídios, bem como o de Ruanda5, em 1994, e da Bósnia6 , em1995,alémdeoutrasinúmerasviolaçõesemlargaescala.Issonosmostraqueaassinaturade tratadosnãobasta.Éprecisomemória,educaçãoeconsciência,assimcomoafirmaapesquisadora Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo: “O maior mal não é cometido por fanáticos ou sádicos,mas por pessoascomuns queaceitam as premissas deseuEstadoe,por isso, agem com indiferença.” Essa indiferença é tão perigosa quanto a ação direta dos agressores, já que aceitar todasasdireçõesdeumgovernopodelevaraumfuturomenossubjetivoemaisrepressivo.

Percebe-se, por este olhar polifônico7, que a análise dessa trajetória também exige uma dimensão pessoal e reflexiva, em que cada lugar de fala aborda diferentes conteúdos sobre o mesmo assunto. Estudar o Holocausto não é apenas estudar o passado, é compreender como a racionalidademoderna8,supostamentecivilizada,foicapazdepromoveradestruiçãoemmassa,

3 DeclaraçãoUniversaldosDireitosHumanos(1948):DocumentoelaboradopelaONUapósaSegundaGuerra Mundial,queestabeleceprincípiosuniversaisdeliberdade,igualdadeedignidadeparatodosossereshumanos.

4 TribunaldeNuremberg:Julgamentosrealizadosentre1945e1946,queresponsabilizaramlíderesnazistaspor crimesdeguerra,contraapazecontraahumanidade.

5 GenocídiodeRuanda(1994):Conflitoemquecercade800milpessoasdaetniatutsiforammortaspor extremistashutusemapenas100dias.

6 Bósnia(1995):ReferênciaaomassacredeSrebrenica,consideradoopiorgenocídionaEuropadesdeaSegunda GuerraMundial,comoassassinatodemaisde8milmuçulmanosbósnios.

7 Polifonia:Recursotextualquedávozadiferentespontosdevista,comoosdeespecialistas,vítimas,eopróprio autor.

8 Racionalidademoderna:Modelodepensamentobaseadonarazão,naciênciaenoprogresso,quetambémfoiinstrumentalizado parajustificarsistemasopressivos,comoonazismo.

algoquesópodeserentendidopormeioderelatosautênticosdesobreviventes,juristaseativistas que ilustram as diversas vozes que contribuíram para a construção e preservação da memória e dosdireitoshumanosapósesseperíodosombrio,comosepodeseraseguir.

VioletaFriedmann,sobreviventedoHolocaustoeativistacontraonegacionismo:"Sãocenas que tenhomuito gravadas, que não poderei esquecer jamais. Uma pessoa que tenha passado por aquelescampos,nãodormeeestáangustiada."

Theodor Meron, sobrevivente e juiz do Tribunal Penal Internacional: "É imperativo que aprendamos com tudo o que aconteceu, e é ainda mais vital que aproveitemos todas as oportunidades para aprender com aqueles que sobreviveram."

Ilana Rabinovici Iglicky, coordenadora educacional do Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto – São Paulo: "Relembrar para que não aconteça de novo com nenhum povo ou grupo. Um compromisso futuro da memória na luta contra o discurso de ódio, pela tolerância e empatiacomopróximo."

Zeid Ra'adAl Hussein, alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos: "O Holocausto foiúniconahistória,masovenenodoracismo,doantissemitismo,a rejeiçãodo'Outro' eoódio nãoestãolimitadosaumaera,culturaoupovo."

AolongodoséculoXXeespecialmentenoséculoXXI,areforma dosdireitos humanos foiseexpandindopormeiodenovosassuntosinternacionais,comoosdireitosdasmulheres,das populações LGBTQIAPN+, das pessoas com deficiência e dos refugiados. Essa ampliação foi acompanhada por tratados como a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006) e pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (2015), que passaram a incorporaralinguagemdosdireitoshumanoscomoeixocentraldaspolíticaspúblicasglobais.

Entre os pesquisadores contemporâneos que abordam os limites e desafios dessa ampliação está o filósofo camaronês Achille Mbembe, que critica o viés eurocêntrico dos discursosdosdireitoshumanos,chamandoatençãoparaadesumanizaçãoqueaindaexistenaera pós-colonial. Em sua obra Crítica da Razão Negra (2013), Mbembe afirma que “a tarefa fundamentaldonossotempoérepensarohumanoapartirdasruínasdarazãoimperial.Osdireitos humanosprecisamreconheceroshumanosqueoprojetocolonialsemprerecusoucomotais.”

EssaleituranosforçaaampliaraideiadequememóriascomoadoHolocaustoprecisam dialogar com outras formas históricas de apagamento e violência, bem como a escravidão, os

genocídios indígenas e os refugiados que, dada as situações geopolíticas, necessitam de deslocamento forçado. É nesse contexto que entra um giro decolonial9 possível: um convite a integrar os pontos de vista historicamente desconsiderados pela ciência hegemônica, como os olharesafricanoselatinos,queoferecemoutrasformasdeconceberjustiça,reparaçãoesensoda comunidade.

Ao refletirsobre oHolocaustoe areforma dos direitoshumanos,perceboe concluo que otraumahistóriconãodeveser umponto final,masumpontodepartida para umaéticaativa.A partir do meu lugar de fala (como jovem brasileiro branco, não diretamente afetado pelas violênciasabordadas,mastambémnãoimuneaelas),reafirmoaimportânciadaeducaçãocrítica edaescutahistóricaemdiferentespontosdevistacomoferramentasderesistência.

Atrajetóriainiciadaem 1948coma DeclaraçãoUniversaldosDireitos Humanosfoi um marco,mas nãofoi o suficiente.Apresença do mal, como afirmaArendt, ainda encontra espaço no cotidiano, presente no racismo estrutural e na naturalização da desigualdade. A luta pela dignidade humana deve continuar se reinventando, com base em múltiplas vozes e experiências dediferenteslocalidades.

Se o século XX nos ensinou que os discursos políticos não necessariamente garantem humanidadeequeodireitopodeserusadoparaoprimir,oséculoXXInosexigeumpassoalém, bemcomoumacidadaniaética,globaleplural.Nãobastalembrarparaquenãoserepita;épreciso agirparaquenuncamaisaconteçacomninguém.

Miniautobiografia

Sou Antônio Losso Stockler, de 16 anos, um jovem brasileiro que estuda no colégio Carandá Educação,situadonacidadedeSãoPaulo.Nascidonodia8deabrilde2009,sempretiveinteresse emestudarasciências humanas,bemcomoasdisciplinasde história egeografia,assimobtendo umafortedisponibilidadenoestudodeguerraserelaçõesdiplomáticas.

Fontesconsultadas:

BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. 13. ed. Rio de Janeiro:Elsevier,2004.

9 Girodecolonial:Perspectivacríticaquequestionaossabereseurocêntricosevalorizaosconhecimentos marginalizadospelasestruturascoloniaisemodernasdepoder.

FRIEDMANN, Violeta. Entrevista em: ELIA, Esther Muscal. Memórias de Violeta Friedmann: uma sobrevivente do Holocausto.SãoPaulo:ImprensaOficialdoEstadodeSãoPaulo,2005.

IGLICKY, Ilana Rabinovici. Descendentes e sobreviventes do Holocausto mantêm viva a memória da tragédia. DW Brasil, 27 jan. 2020. Disponível em: https://www.dw.com/ptbr/descendentes-e-sobreviventes-do-holocausto-mantêm-viva-a-memória-da-tragédia/a52184435.Acessoem:24maio2025.

MBEMBE,Achille.Críticadarazãonegra.TraduçãodeMartaLança.Lisboa:Antígona,2014.

MERON, Theodor. Discurso na cerimônia do Dia Internacional da Lembrança do Holocausto. United Nations Holocaust Remembrance. Disponível em: https://www.un.org/en/holocaustremembrance.Acessoem:24maio2025.

NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direitos Humanos. Paris:Assembleia Geral da ONU, 1948. Disponível em: https://www.un.org/en/about-us/universal-declaration-of-humanrights.Acessoem:25maio2025.

OLIVEIRA,ErivaldaSilva.Direitoshumanos.RiodeJaneiro:Forense,2016.

RUTH,RalphGeorge. Segunda Guerra Mundial.SãoPaulo:M.Books,2009.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos. São Paulo: Cortez,2013.

UNITED NATIONS. Human Rights in the 21st Century. [S.l.]: OHCHR, [s.d.]. Disponível em: https://www.ohchr.org.Acessoem:25maio2025.

Amor,DesejoeViolência:Conexõesrasaseaobjetificaçãodo

corpo

19demaiode2025,SãoPaulo

O estupro. Abuso. Tem como escapar? Tem como escapar dessa sombra que invade o corpo e a mente, deixando sua marca silenciosa e destruidora? Às vezes me pego pensando que deve ter alguma explicação, algum raciocínio lógico para o porquê de tantas pessoas sentirem a vontadeavassaladoraeincontroláveldeviolartãoagressivamenteadignidadedeoutra.Decerta forma, também imagino se é essa busca por saciedade momentânea que transformou os relacionamentos atuais em meros encontros casuais. Por mais que eu nunca tenha sofrido esse tipodeviolência,soumulher.Apesar deserbrancae nãofazerparte dos gruposmarginalizados, ainda sou mulher.Tenho apenas dezessete anos, no entanto, compartilho das dores, da raiva, do ressentimento que aterrorizam as vítimas. É claro que não vou generalizar, ninguém está seguro dessa agressão, nem mesmo os homens. O que eu não entendo é que todos sabemos as consequências do ato, como ele prejudica tanto a saúde física, mas, principalmente, a saúde mental.Enãocompreendocomoaindahátantosrelatosdessetipodeatrocidade.

Nasérie original daNetflix,SexEducation,há umacena emque uma personagem sofre assédioemumônibuslotado.Oagressorseesfregaemumadesuaspernaseejaculanasuaroupa. Esse é um caso fictício e pode ser considerado leve, mas os impactos na vida da personagem foraminúmeroseimprevisíveis.Paraasurpresadepoucosearepulsademuitos,casoscomoesse acontecemdiariamente.Eopior:nãodamosatençãosuficiente.ComodizZygmuntBauman,um filósofopolonês,em“AmorLíquido”,vivemosemtemposdeconsumo,emqueooutroétratado comoumobjetodesatisfação,enãosujeitodeafeto.Essaéanossasociedade.Relacionamentos curtos,voltadosaocarnal,conectadosàfamosaculturadoestupro.

Toda, absolutamente toda mulher que nasce na Terra está sujeita a sofrer algum tipo de assédio, abuso, estupro.Todas asmulheres, cis ou não, já escutaram aquele assobio de um carro passando, ou já foram encaradas por olhos maliciosos no transporte público. Muitas dessas mulheres acabam sofrendo a última violência: a morte.Mas o que leva a chegar nesse ponto? O poder.Ocontrole.“Euconsigopegarquemeuquiser.”Éessepensamentoquepodelevartantoa relaçõesfalsas,quantoaoabuso.Olimiteentreoquepodeserconsideradoumassédio,umabuso e a inocência, ainda é incerto para grande parte da população. Precisamos entender que não é sobre o agressor, é sobre a vítima.Apartir do momento em que alguém, seja quem for, se sente

desconfortável,éobrigatórioparar.Nãosignificanão.Osilêncionãoéconsentimento.Osilêncio, muitas vezes, é uma resposta ao medo da possível e bastante provável violência. E ainda assim, hápessoasqueoconsideramcomoum“sim”.

Ao mesmo tempo, esse senso de poder pode ser obtido por meio da enganação – da mentira, da ilusão. Penso que houve uma normalização extrema de violências imperceptíveis, fazendocomqueasvítimasnemmesmopercebamquesãovítimas.Os“relacionamentos”dehoje emdiaorbitamemtornodeumacoisa:sexo.Sãorarasasocasiõesemqueexisteamordeverdade. Observamosmuitosrelacionamentossuperficiais,queseguemumatrásdooutro,revelandooutra intenção.Namaioriadasvezes,alguémfazpromessasvaziasdepaixãointensaeinfinita,quando na verdade o objetivo é a conquista de mais um corpo.É a partir dessa objetificação, dessa sede por poder, que nascem muitas dasinseguranças e dospreconceitos atuais. Nós desaprendemosa amar, desaprendemos a respeitar, e levarão bons tempos até que consigamos reeducar nossa sociedadeaoqueéoamor.

AbusoseIrresponsabilidadeafetivaandamdemãosdadas

Uma palavra que ouvimos com frequência neste século: ilusão. Parece inofensiva, mas traz consigo umfardoquepraticamente todosnós jácarregamos.Sempre há uma pessoa iludida poroutra,comoseseapaixonarfossealgoarcaico,detestável.Comoseamaiordemonstraçãode poder fosse machucar alguém. Microviolências como essa, quando não são impedidas, se transformam.Aspróximasagressõessemanifestamemhematomas,olhosroxos,sangueecorpos violentados.Éimpossíveldiscutirumproblemasó,quandoesteestáentrelaçadoemtantosoutros. Dessa forma, opteipor abrir um caminhoconjunto entre violações, agressões e afragilidade das relações.

Grada Kilomba, escritora e artista afro-portuguesa, elucida diversos temas, usando uma abordagemperformáticaem“MemóriasdaPlantação”.Aautorarevelaessasrelaçõesnoseguinte trecho:"Serdesejadanãoéomesmoqueseramada.Desejosemhumanidadeéviolência.".Neste pedaço,torna-senítidoque,dadaaexistênciadodesejo,épossívelexistirviolência.Umhomem que apenas cobiça uma mulher não é o mesmo homem que a ama. Casos como esse levam às ilusõesmaisdolorosas,asquesedisfarçamdeamor.Poroutrolado,háquemnemsedêotrabalho deenganar;estesreivindicamoquepensamqueédeles.

Há grandes diferenças entre o desejo e o amor, entretanto, ambos têm um fator em comum: a humanidade. Ou pelo menos deveriam ter. Sei que não é a realidade. É essa falta de zelo, de respeito pelo próximo, a escolha de esquecer que o outro também é um ser vivo, com sentimentos, a origem corrosiva de todas as violências. Sexuais, físicas, mentais, psicológicas,

espirituais – todas nascem no momento em que uma pessoa decide abandonar sua própria humanidade.

Me pergunto quando essa normalização foi implantada, ou melhor, quem a implantou. Por que pulamos de namoro em namoro, por que nunca é suficiente? Por que tantas mulheres sofrem com a dominação de seus corpos, com a violação deles? Esses padrões nem sempre existiram. É claro que, mesmo em comunidades de minorias, há casos de agressão, no entanto, essaculturadeestupronasceucomacolonizaçãodelas.Aimposiçãodepadrõeseurocêntricosno Brasil,aviolênciacomqueoseuropeus“tomavam”mulheresindígenas,plantaramasementena qual são enraizados tais atos desumanos. Precisamos nos desconectar destas ideias, precisamos rompera fusão de nossa cultura originária daseuropeias.Vejoclaramente a hegemonia presente emnossavidacotidiana,porisso,precisamosdescolonizaressepaís.

Ao longo deste ensaio, meu objetivo foi tentar elucidar e remover o tabu sobre dois tópicosmuito normalizados, até ouso dizer,romantizados. Foi minha tentativadeexplicarcomo váriosdenossosproblemassociaiseinterpessoaissurgemapartirdaidolatriadocoitofocadoao masculino, em que o corpo da mulher se torna apenas um meio para um fim. Usei, para isso, textos como “Amor Líquido”, evidenciando o fato de que, atualmente, somos vistos mais como objeto do que pessoas.Ademais, mencionei “Memórias da Plantação” para ressaltar que a falta de humanidade origina todas as violências existentes. Autores como estes revelam o porquê relacionamentosverdadeiramenteamorososestãocadavezmaisescassos,sendosubstituídospor encontroscasuais,mentiraseabusos.

Minha reflexão, no início desta obra, era a existência de uma relação entre a superficialidadedos“namoros”presenteseaviolênciacrueledesumanadoestupro.Imaginoque fui explícita ao confirmar minha hipótese e aprofundá-la social e historicamente, provando que há,também,umaorigemcolonialparatal‘descarte’dadignidadedopróximo.

Dessa forma, torna-se nítido que precisamos expandir estas ideias de modo que a populaçãobrasileira,comoumtodo,possacurarasferidascausadasporséculosdeignorância.É necessário que remoldemos nossa forma de pensar, de agir e principalmente, de amar, para que nossasociedadevivasempreemharmonia,parceriaecomunhão.

Paraquetamanhasmudançasocorram,temosqueaprendereeducar.Devemosensinaras pessoas, desde pequenas, o que são limites, consentimento, respeito e o que é aceitável. Precisamos romper os ciclos de violência que assombram o Brasil desde sua “descoberta” e descolonizar as relações que permanecem manchadas com a influência da hegemonia europeia atéosdiasdehoje.Apenasassim,colocaremosumpontofinalnasviolênciassexuaiseemocionais econseguiremosiluminarumcaminhocoletivoparaarecuperaçãoereconstruçãoindividual.

Fontesconsultadas

BAUMAN,Zygmunt.Amorlíquido:sobreafragilidadedoslaçoshumanos.1.ed.RiodeJaneiro: Zahar, 2004. Disponível em: https://static.tumblr.com/jh0avtj/8xdooienw/amor_liquido__zygmunt_bauman.pdf.Acessoem:9jun,2025.

KILOMBA,Grada.Memóriasdaplantação:episódiosderacismocotidiano.2.ed.RiodeJaneiro: Cobogó, 2019. Disponível em: https://www.ufrb.edu.br/ppgcom/images/MEMORIAS_DA_PLANTACAO_ _EPISODIOS_DE_RAC_1_GRADA.pdf.Acessoem:9jun,2025

SEX EDUCATION. Criação de Laurie Nunn. [Série de TV]. Produção: Jon Jennings. Reino Unido:Netflix,2019.Disponívelem:https://www.netflix.com/title/80197526.Acessoem:9jun, 2025.

Ossignificadosúnicosdaspalavras

Como as palavras podem nos trazer tantas lembranças

Maiode2025,SãoPauloSP

Palavras são ditas todos os dias por pessoas em todo o mundo. Frases são formuladas a cadainstante,easmesmaspalavrassãousadasemdiferenteslínguas,aomesmotempo.

Cada palavra carrega mais de um significado, assim como cada pessoa tem uma experiência diferente para o mesmo acontecimento. Aos 16 anos, ainda não compreendo o significado de palavras como “morte” ou “vida”, e sei que muitos também não compreendem. Existempalavrasquenemmesmoodicionárioconseguenosexplicar. Como alguém pode perder a vida sem nem mesmo ter entendido o significado dela? Morremos sem compreender sentimentos,acontecimentosepalavras,nosarrependemosdeescolhaspassadasesonhamoscom futurosincertos,masseguimossemcompreendermetadedocaminhoquepercorremos.

As palavras mudam de significado de acordo com o tempo, e a língua é modificada ao longodosanos.Gíriassefundemaovocabuláriodosindivíduos,easmentesdaspessoasmudam, fazendoaspalavrassetransformarem.

Nóslemostextoscommilharesdepalavras,esempreháumaquenostrazumalembrança oucausaumimpactoinesperado. Como essas letras juntas conseguem nos fazer lembrar de algo que pode estar tão fundo emnossa memória?Associamospalavrasapessoas,lugaresemomentos quenosfizeramsentiralgoqueficoumarcado.Independentementedeserummomentoalegreou triste, inconscientemente associamos tudo a palavras e frases, desde letras de músicas até uma simplespalavracomo“lar”.

Osbebêsusamossonsparaentenderomundo.Sepessoasrepetemmuitasvezesapalavra “mamãe”,elesentendemque essasequênciadesonséumapalavra,eentãoaprendemaassociálaaalgo,entendendoqueelaserefereaumapessoamuitoimportante,sempreenvolvidanavida deles.Antesmesmodecompletarumano,jásabemosoquesignifica“mãe”.

Quando adolescentes, começamos a entender melhor as coisas, aprendemos novas palavras,passamosausargíriaseabreviamosquasetudonasconversaspelocelular.Mesmocom

nosso vocabulário expandindo, continuamos sem compreender totalmente as palavras que usamos.

Durante uma aula de origem da vida, descobri que é impossível definir o significado de “vida”,porém como poderíamos falar essa palavra e a vivenciar sem a entender? Essaéumadas inúmerasperguntasquetenhosobreaspalavras,pensoqueelasnãotêmlógica,poispodemmudar de significado, masentão, eulembroquetalveza lógica daspalavrasseja justamente elasserem únicasparacadapessoa,epoderemmudartotalmentecomotempo.

Ao aprender novas línguas, percebemos que as diferentes letras em cada palavra não mudamosignificadoquetemosparaela.Porémé possível terumadiferente memóriaassociada aessapalavra,mesmotendosignificadossemelhantesemletrasdistintas.

Quando denominamos palavras, atribuímos nome e significado a algo ou alguém, transformandoessapalavraemalgoconhecido.AntônioBispodosSantos,em“Aterradá,aterra quer”,dizqueesseprocessodedenominaçãoéumatentativadeapagarmemóriasparacriaroutras no lugar. Quando criamos memórias, associamos palavras e mudamos nossos significados para elas,tornando-aspartedenossatrajetória,comoumalembrançadeummomentoimportante.

Mesmo não compreendendo todas as palavras que falamos, continuamos a usá-las, e a práticacomoaleituranosajudacomesseentendimento.Porém,aspalavrasnãoparamdemudar, entãooestudodelasdeveriacontinuarevoluindo,enãonosdeixandopresosasignificadosantigos danossasociedade.

Lembrardemomentosimportanteséumasensaçãoúnica.Quandoouvimospalavrasque noslembramdeles,essaslembrançasvêminconscientementeànossamente,mesmopodendoter momentos que não queremos nos lembrar. Porém, independente de nossa preferência, é importante que nossas memórias, arrependimentos, tristezas e felicidades estejam conosco durantenossavida,poissãoessasexperiênciasquenostornamquemsomos.Descrevermemórias costumaserumapráticadifícil,atéporquedependendodoacontecimento,nãoconseguimosachar palavras para definir essas grandes vivências, porém se esses momentos são presenciados por mais de uma pessoa, uma palavra muitas vezes é o suficiente para fazer a lembrança surgir em nossamente.

Palavras podem ser compartilhadas, porém seus significados são únicos, a partir da experiência de vida decadaum. Eissoé o que fazcomque sejamtãoincríveis.Aspalavrasnão teremomesmosentidoparatodasaspessoaséoqueastornainteressanteseúnicas.

Autobiografiadaautora

Sou uma menina de 16 anos, estudomuito,porém souapaixonada pelasciênciasexatas. Semprepreciseidelógicaparaentenderascoisas,esealgonãotemumaformacorretadeserou umalógicaclara,entãonãocostumoentender.Agoradecidiescreversobrealgoquenãotemuma lógicaestabelecidanaminhacabeça,aspalavras,poisasachofascinantes.Mesmonãosendoum tópicoqueestudotanto,comoastronomiaefísica,decidimedesafiareprocurarlógicaemletras bagunçadasqueformamsonsquenósconhecemosmuitobem.

Fontesconsultadas

SANTOS,AntônioBispodos. A terra dá, a terra quer: ensaios sobre a dádiva, o território e a reciprocidade.2.ed.RiodeJaneiro:BazardoTempo,2015.

BONDÍA,JorgeLarrossa.Notassobreaexperiênciaeosaberdeexperiência. Revista Brasileira de Educação,v.19,p.20-28,jan./abr.2002.

Quandoomedocomeça?Seradolescenteemulheremuma

sociedadequecala

Medo herdado: como o patriarcado molda o cotidiano e silencia a liberdade feminina

LauraSalvatore,maiode2025,SãoPaulo-SP

Resumo

Neste texto, compartilho minhas reflexões e experiências como mulher adolescente vivendo em uma sociedade que fabrica e naturaliza o medo na mulher. Falo sobre como desde cedo somos ensinadas a desconfiar dos espaços públicos, a evitar andar sozinhas e a nos calar diante de olhares e assédios. Trago exemplos históricos e sociais para mostrar que essa insegurança não é algo individual, mas resultado de uma estrutura patriarcal que há séculos controla nossos corpos e comportamentos. Questiono a objetificação da mulher, reforçada pela mídia,pelamodaepelaculturadigital,ecomoissonoscolocasempresobjulgamento.Aolongo doensaio,mostroqueofeminismoéessencialparaentendermosessasviolênciaselutarmospor umaliberdadereal.Adeexistirsemmedo.

A partir de quando nós, mulheres somos ensinadas a ter medo? Algo tão simples e tão comum, como andar na rua ou usar transporte público, se tornam rotinas que devemos temer. Como mulher branca, adolescente de classe média, não recebo autorização de minha mãe para andar de metrô sozinha, não pela falta de confiança em mim, e sim, pela falta de confiança na sociedade.Apesardeprecisarandarsozinha,semprefoimaisseguroestaracompanhadademeus amigoshomens.

Omedosetornamaispresentenomomentoemqueumhomem,normalmentemaisvelho, se sente à vontade ao olhar para o corpo de uma menina, que não se defende por receio de sua reaçãooudequepassedoolharparaaagressão.Emmeioaopúblico,ohomemsesentenodireito deassediaradolescentes,sendoabertamenteassediadorepedófilo.Ninguémreage.Ninguémfala nada.Nemhomensnemmulheres.Quandoissosetornounormal?

Somadosopatriarcado,aigrejacatólicaeocasamento,amulhereratratadacomo“rainha do lar”, a dona de casa, mãe e esposa.A vida dela era dedicada a se casar, cuidar de casa, ter

filhos,cuidardeleseensinarsuafilhaaserapróximadonadecasa.Issofezcomquefossenormal uma menina, depois de sua primeira menstruação, ser prometida por seus pais para um homem mais velho, que trabalhasse e tivesse uma boa reputação, ou seja, uma menina de 14/15 anos casada,sempoderopinar,comumhomemdecercade35anos.

Com o passar do tempo, o feminismo tomou forma e mulheres conquistaram muitos direitos, porém a objetificação de nossos corpos é muito presente até hoje. Você, leitora deste ensaio,imaginoquesejaumamulher,porqueamaioriadoshomenspensamqueessetipodetema é voltado apenas para nós. Homens não se sentem interessados nem responsáveis pelo assunto, acham que não é importante para eles, pois não são afetados, porém, isso é a maior mentira. Há poucavisibilidadeaoslivrosetextosqueexploramimpactodohomemsobreohomememrelação ao feminismo, à objetificação e à história das mulheres. O livro de bell hooks, “O feminismo é paratodomundo:Políticasarrebatadoras”deixaclaroqueofeminismonãoésobreodiarhomens e muito menos “o machismo para mulheres”, ela define o termo como “um movimento para acabarcomosexismo,aexploraçãosexistaeaopressão”.

Umadaspautasqueofeminismocombateéaobjetificaçãodocorpofeminino.Edurante osdiasdehoje,comaeradainternet,asmídiassociaisestãoatodoovapor,enelas,aidealização de um corpo perfeito é muito promovido por postagens de corpos modificados, muitos por aplicativos como photoshop. Com essas fotos postadas, muitas vezes de roupas de banho, sem perceber, as mulheres acabam reproduzindo padrões de objetificação ao buscarem aceitação atravésdaexposiçãodeseuscorposnasredessociais,enãocompreendemcomoissopodecausar danos,elasestão se expondo emuma redesemsaber onde sua imagem pode parar e comoessas fotospodemserusadas,alémdeseexibiremajulgamentosdeoutros.

Em“AIdealizaçãodosModelosdeBelezacomoInstrumentodaPropagandaFeminina”, artigo escrito por Rebeca Carolina da Silva, Carlos Eduardo Kuroki Ito, Silvia Terezinha Torreglossa, Diego Aparecido de Souza e Mauro Fiorani, publicado em 2023 pelo Centro Universitário Anhanguera de São Paulo, é explorado como a mídia constrói e reforça padrões estéticos femininos, utilizando-os como ferramentas de persuasão no mercado de consumo. A pesquisa analisa como a objetificação da mulher nas propagandas influencia comportamentos e atitudessociais.

Mulheressãovistascomoobjetodeconsumoepossedeumhomem,eladevedarprazer e satisfação. “O marqueteiro misógino supõe que sua obra-prima apenas retrata uma verdade aceita por todos, inclusivepor mulheres: elasexistempara servir aos homens[...]a cadagole de mulher, o homem sente-se, como em um ritual, mais homem. Conforme ele a engole, ela desaparece de cena para surgir a imagem de um homem satisfeito, feliz; afinal, matou sua sede. É um massacre simbólico ao feminino. É uma violência que alimenta e se alimenta da violência presente no cotidiano contra as mulheres” (BENTO, 2007). Quanto mais essa “cultura” é

alimentada mais a mulher se torna um alvo descartável, algo que o homem tem quando quer e pode jogar fora quando não quer mais, esse paradigma de igualar a mulher a um objeto é muito presentenessesistemaemqueomachismoreinaeasociedadecala.

Amídia desempenha um papel crucial na formação deideais de beleza. “Muitas sentem vergonha de admitir que essas preocupações triviais — que se relacionam à aparência física, ao corpo, ao rosto, ao cabelo, às roupas — têm tanta importância. No entanto, apesar da vergonha, da culpa e da negação, é cada vez maior o número de mulheres que questiona se não se trata de elas serem totalmente neuróticas e solitárias, mas que o que está em jogo é relacionado com a liberaçãodamulhereabelezafeminina.”(WOLF,1992,p.11).

As mulheres são ditas como frescas, fracas e fúteis, sentem culpa de ser quem são e usarem o que gostam.As roupas que vestem se tornaram algo que “faz” a mulher, tornando-as objetos de julgamento. A moda e os meios de comunicação promovem ideias fixas, ligando o corpo feminino ao apelo sexual, e transformando a aparência em algo que serve apenas para agradar aos homens. A sociedade também exige que a mulher cuide da aparência, mas sem exagerar,casocontrário,serávistacomovulgarouespalhafatosa.Essaconstanteavaliaçãovisaa limitarsualiberdadededecidireagirporcontaprópria.Emcasosdeviolênciaouassédio,aroupa da vítimaé frequentementeusada comodesculpa,comose ela fosse aculpada,e nãooagressor. Assim,aformacomoamulherseveste,emvezdeserumasimplesformadeexpressão,setorna umconfrontoentrealiberdadeearepressão.

Em conclusão, é inegável que nós mulheres adolescentes crescemos com o medo constantedeandarsozinhas,ummedoquenãonasce conosco,maséconstruídosocialmenteem umsistemapatriarcalquenormalizaaobjetificaçãoeocontrolesobrenossoscorpos.Desdecedo, aprendemos que devemos nos proteger não porque somos frágeis, mas porque os homens se acostumaramasesentirlivresparanostratarcomoobjetosdedesejoeconsumo,semconsiderar nossasvontadesounossadignidade.Essaliberdademasculina deolhar,julgar,tocare assediaré reforçada por séculos de opressão institucional, pela cultura e falta de responsabilização dos homens.Nãosetrataapenasdeinsegurançaindividual,masdeummedocoletivoqueacompanha a mulher desde a adolescência e revela uma verdade incômoda: nossa sociedade ainda permite que homens se comportem como donos do espaço público e dos corpos femininos, enquanto culpamasmulheresporacusá-los.

Miniautobiografia:SouaLaura,tenho16anos,estounosegundoanodoensinomédioeestudo emuma escolachamadaCarandá Educaçãodesde 2013. Souuma mulhercis, brancae de classe média.Desdesempremeustemasderedaçõeseoutrostextos,sempreforammuitomovidospelo meuinteressenofeminismo.

Referências

VIDI,TainaSpadoa;TEIXEIRA,PaolaGabrieleInda. A mulher como objeto de consumo: uma análise da relação da objetificação feminina com os indicativos de feminicídio no Brasil RevistadaFaculdadedeDireitodeSãoBernardodoCampo,SãoBernardodoCampo,v.28,n. 2,2022.Disponívelem:https://revistas.direitosbc.br/fdsbc/article/view/1144.Acessoem:23 maio2025.

VALENTE,EmanuelleAntunes;ROLON,RenataBeatrizB. A objetificação da mulher em contexto de guerra: uma análise comparativa entre Mayombe e Os cus de Judas.Revista ECOS,Cáceres,v.31,n.2,2021.Disponívelem: https://periodicos.unemat.br/index.php/ecos/article/view/6214.Acessoem:23maio2025.

SOMMACALClarianaLeal;TAGLIARIPrisciladeAzambuja. ACULTURADEESTUPRO:OARCABOUÇODADESIGUALDADE,DATOLERÂNCIAÀ VIOLÊNCIA,DAOBJETIFICAÇÃODAMULHEREDACULPABILIZAÇÃODAVÍTIMA. RevistaEletrônicadaEscolaSuperiordaMagistraturadoEstadodeSantaCatarina,[S.l.],[v.], [n.],[ano].Disponívelem:https://esmesc.emnuvens.com.br/re/article/view/169.Acessoem:23 maio2025.

SANTOS,AnaCarolineHessab;NEVESFernandadeBarrosCamargo;REISThaisLeite.A objetificaçãodoscorposfemininos:umareflexãofenomenológicaexistencial.RevistaMeritum, REVISTADAESMESC,v.24,n.30,p.245-268,2017.Disponívelem: https://editora.univassouras.edu.br/index.php/RM/article/view/2311.Acessoem:23maio2025.

MONTEIROSaraVitóriaSilva;WASZAKAlineIsabel;FURQUIMFabianeMiriam; MORAESAnneCarolinedaRochade.REPRESENTAÇÕESFEMININAS:PERCEPÇÃODE ESTEREÓTIPOSEOBJETIFICAÇÃODAMULHEREMPROPAGANDAS.Fozdoiguaçu: UniversidadeFederaldaIntegraçãoLatino-Americana,2014.Disponívelem: https://dspace.unila.edu.br/items/d37e6819-ec65-436b-8717-40c1c60230d4.Acessoem:23 maio2025.

HOOKSbell.Livro:Ofeminismoéparatodomundo:Políticasarrebatadoras.Publicado originalmenteem2000pelaSouthandPress,depoispublicadoem2015pelaRoutledge.189 páginas.

SILVA,RebecaCarolinada;ITO,CarlosEduardoKuroki;TORREGLOSA,SilviaTerezinha; SOUZA,DiegoAparecidode;FIORANI,Mauro. A idealização dos modelos de beleza como instrumento da propaganda feminina.CentroUniversitárioAnhangueradeSãoPaulo2023. Disponívelem: https://repositorio.pgsscogna.com.br/bitstream/123456789/62363/1/A%20Idealiza%C3%A7%C 3%A3o%20dos%20Modelos.pdf.Acessoem:5jun.2025.

Asvertentesdoaudiovisualnavidadosjovens

Como a arte pode transformar a vida de jovens?

04dejunho(06)de2025,SãoPaulo–SP

Épossívelusarocinemacomoferramentadeimpactonasociedade?Principalmenteentre jovens? É o que será discutido nesse ensaio, como diferentes expressões daArte no audiovisual impactam diretamente a vida dos jovens, tanto de forma positiva como negativa. O olhar que temosparaaArtedocinemaé,muitasvezes,apenascomoentretenimento,enãocomoumretrato desituaçõesvividasdiariamenteemnossasociedade,despertandodiversossentimentosemnóse nosemocionando.Porémparamentesemformação,odiscursopresenteemcertosfilmeseséries podemterumimpactodrásticoemsuasaçõeseescolhas,comoporexemplooestereótipocriado por Hollywood de “Curtir a vida adoidado”, e como os jovens podem ser dissimulados. Esta e outrasformasdebanalidadeafetamdiretaouindiretamentecriançaseadolescentes.

Équaseimpossível, nasociedadeocidentalemque vivemos,nãotercontatocom telase internet. Muitas gerações tiveram acesso a videogames, televisões, telefones e outras formas de tecnologia ainda muito novas. Pais e mães apresentam filmes e séries para seus filhos quando maisnovos,incentivandoaexpansãoculturaldacriança,porémesseatopodeterefeitospositivos e negativos, dependendodaarte visual que é apresentada. Não apenas no núcleo familiar, maso uso didático do cinema está cada vez mais constante no ensino, principalmente em instituições particulares, de forma que estimule a reflexão e amplie o repertório dos alunos. É de extrema importância transparecer diferentesrealidades, culturas, idiomas,épocase costumespara alunos em formação, possibilitando o desenvolvimento cultural e intelectual, criando então esse hábito de analisar filmes, documentários e biografias. Assim, o interesse entre os jovens para outras vertentesde filmesvaise expandido,indoparafilmesnecessários, mesmoquemuitasvezesnão sejapossívellidarcomamensagemqueépassada.

Olhando para o lugar que me encontro, mulher, branca, hétero, descendente de europeu por uma parte da família, com boas condições financeiras, vejo a Arte cinematográfica como recursodereflexãofilosófica,atémesmoaquelesquenãopossuemprincípiosdiretamenteligados a intelectuais. A arte do cinema nos faz ter um contato tão próximo com realidades e culturas muitas vezes distantes, expandido o repertório e mobilizando o espectador. Sendo assim essa e outras formas de arte são direitos que todas as camadas da sociedade têm direito de desfrutar.

Assumo que sempre tive um contato muito próximo com o cinema, meus responsáveis me estimularam a ver filmes e séries que abordam sobre o racismo, preconceitos, violência, desigualdade entre outros temas necessários a serem discutidos, que impactaram diretamente no meuconhecimentoculturale,deformapolêmica,científico.

Mesmo sendo uma grande fonte de conhecimento, o cinema pode ser também um estimulante para vertentes negativas na vida dos jovens. Os estereótipos presentes em filmes e sériespopularesdistorcemarealidade.Exposiçõesconstantesdeviolência,usodedrogas,abusos ou comportamentos irresponsáveis, expectavas irreais sobre a vida, entre outros assuntos abordados de forma explícita impactam na formação desses jovens. Portanto, como analisar e lidarcomtodasessasconsequênciassabendoqueéumaarteimportanteparaformaçãodeadultos intelectuaisereflexivos?

Inúmerosdepoimentosdejovensafirmamqueocinemaeoaudiovisualemgeraltiveram impactosemsuasvidas,masquesóperceberam osvestígios quandoadultos.Minha experiência comessefatofoicom13anos,momentonavidadosjovens,principalmentemulheres,umpouco turbulento, pois a formação da personalidade vai se consolidando além das outras percepções psicológicas sobre nós mesmos e o mundo. Lembro-me de assistir a três produções que me incentivaramdeformanegativa,sendoelasasériebritânica“Skins”eosfilmes“Aos13”e“Eu, Christiane F: 13 anos, drogada e prostituída”, onde o consumo de drogas, a violência, os transtornosmentaisoupsicológicos,osrelacionamentosabusivoseasdiscussõescomosparentes sãofrequentementerepresentadas.Assistiraessasobrasmoldaramumapersonalidadequemuitos adultos e conservadores ditam como “rebelde”, mas que em outras perspectivas é apenas uma forma de identificação do público com o personagem, o “problema” é como essa influência é tratada.

Reflito constantemente até hoje sobre os efeitos que filmes e séries têm sobre minha personalidade e caráter, não só os citados anteriormente,mastodosqueme fizeram transcender, digo em questão filosófica ou antropológica. O afeto que criei pela série “Skins” é algo que me conforta, mas seria incoerente não apontar as ações e pensamentos intrusivos que tive por influência da personagem principal, nomeada de“Effy”.Imaginoque,por conta dea fisionomia serparecidacomaminha,mereconhecinela,nãosónesseaspecto,masnosdesafiosmentaisque enfrentava na época. A personagem em questão também tinha 13 anos no seriado, com um comportamentoreservadoeintrovertido,intituladocomo“misterioso”,assimcomoeu,naépoca emque assisti, eraretratada, comoautodestrutivaeemocionalmenteinstável; suapersonalidade, então, era desculpa para cometer atos que colocavam sua vida em risco, como o consumo de drogaseálcool,festaselugaresnãopermitidosparamenoresdeidade,fugasdesuamoradia,uso continuodeantidepressivosemalcomportamentocomospais.Mereconhecendonosproblemas

que a personagem passava e comentando o quanto éramos parecidas fisicamente, foi se instaurando, imagino que inconscientemente, uma identificação entre minhas características mentais e as dela, era como se eu fosse a “Effy” na realidade, executando as mesmas práticas arriscadasqueela.

Minha pré-adolescente ficou em estado frenético com a comparação da personagem, ao ponto de me pegar falando as mesmas frases presentes na série.Admito que, infelizmente, fugi de casa para ir em festas ou lugares que não eram apropriados para a minha idade, e quando ocorriam esses eventos, a adrenalina em me sentir igual a ela aumentava, não apenas as saídas escondidas eram similares, mas minhas questões emocionais e mentais foram também se moldando em volta, desenvolvendo então transtornos alimentares, de ansiedade eaté depressão. Creio que não foi somente a personagem e a série em geral que tiveram influência na minha instabilidade mental, o contexto em que eu estava inserida impactou diretamente, porém, atualmente vejo a série e todos os problemas em questão como uma forma de amadurecimento. Tivemuitocontatocomoqueéconsiderado“errado”paracertasidadesaindamuitonova,oque meajudoudecertamaneiraamudaraminhapercepçãodomundoedanossasociedade.

Era inevitável o estado onde eu me encontrava minha mãe, que também tinha que fazer um papelde paique nãopertenceaela,nãotomar nenhumaatitude perantea situação,começou ameproporcionaridasaopsiquiatraeanutricionistasespecializadasemtranstornosalimentares paracuidardaminhasaúdemental.Frequenteidurante3anososdoisespecialistas,acabeitendo contato com antidepressivos, calmantes químicos e naturais, medicamentos para ajudar no sono sem contar as inúmeras conversas tentando descobrir o porquê de desabrochar essa melancolia presente em mim. Em uma conversa com minha nutricionista, foi comentado que eu possuo um traço de querer controlar tudo e todos, essa poderia ser uma das justificativas para o meu transtorno alimentar, e que, caso algo saísse desse controle, tudo começava a desmoronar emocionalmente,semelhanteaoqueocorreriacomaEffynasérie.

O artigo “Ainfluência de filmes violentos em comportamentos agressivos de crianças e adolescentes”, escrito por Paula Inez, aborda de forma clara vivências como a minha acima, atravésde umposicionamentocríticoem relaçãoaosimpactosdosfilmesviolentos,defendendo que oconsumodeconteúdos audiovisuaispodeinfluenciarnegativamente ocomportamentodos jovens. Seu argumento principal é que a exposição frequente a filmes que contêm cenas de violência física, mental ou sexual podem estimular o comportamento dos jovens, especialmente quando o personagem que realiza essa violência é retratado como o “principal” ou “icônico”, causando uma proximidade entre o mesmo e o telespectador e se pergunta se a agressividade humanaéumaideiainataouaprendida,conceitotrabalhadoporRenéDescartes.Apósadiscussão e reflexão sobre a polêmica, chega-se à conclusão de que há uma relação entre o consumo de

filmes violentos e o aumento da agressividade entre crianças e adolescentes, defendendo que é necessário a supervisão o conteúdo e promover discussões sobre o que é retratado no conteúdo, alémdeofereceroutrosgênerosdefilmes.

Perante toda essa discussão de influências, é inevitável comentar que, muito possivelmente,todosessescomportamentossósãoimplementadosnocomportamentodosjovens por conta da cultura colonial que nos foi imposta. O cinema é uma das formas de se praticar a Arte do que dizemos ser do “ser humano”, conectando culturas e costumes, porém é difícil não apontar a forma como apenas adolescentes britânicos e americanos são retratados, excluindo outrosjovenscomonegros,periféricos,indígenas,orientaisetc..Alémdomais,aArtedocinema foi uma invenção europeia criada no contexto histórico da Revolução Industrial, e sendo instauradaempovoseculturasquenãopossuemessaformadetecnologiamaquinaria.

Portanto,é possível relacionar todos os atos cometidospor personagens emblemáticose icônicos com o comportamento dos jovens. Segundo Strasburger (1999), os efeitos nocivos em filmes e séries é realmente comprovado cientificamente.Apesar de apontar principalmente para produçõesviolentasemostrarumíndicedeviolênciaporcontadosexomasculino,qualquertipo de atitude que coloque a vida do sujeito ou de pessoas ao redor em perigo, retratadas em filmes ounão,têmimpactodiretonosdoissexos.Mesmocomotratamentodessesdiversostranstornos equestõesmentais,reassistiraofilmeousériequecausouessasituaçãoouassistiranovosfilmes que possuam cenas semelhantes, podemdesencadeargatilhosemocionaisouagravarosmesmos transtornos.Possodizerquemesmoconseguindolidareaprendercomomeuemocionalemental, ainda existem cenários que me pego nas situações anteriores, disparadas muitas vezes por conteúdosqueretratamomesmodopassado.

Havendo impactos negativos ou não, o cinema é uma forma essencial para a formação como adulto desenvolvido e amadurecido, pois é onde entramos em conato com diferentes culturas,línguas,experiências,relatosetc..Nãosónosmeiosfamiliaresénecessáriaaculturado cinema,mastambémnomeiodidático,promovendoreflexõesfilosóficas,contatocomcontextos históricos que ajudam no repertório dos jovens. A melhor forma de se lidar com os traumas causados pelas produções é notar como, perante o tempo, houve uma evolução própria com os vestígios de filmes e séries, ter a noção que na realidade e ficção se diferem, mas que também podemcaminharjuntos.

Fontesconsultadas

GOMIDE,PaulaInezCunha.Ainfluênciadefilmesviolentosemcomportamentoagressivo decriançaseadolescentes.PortoAlegre–RS–Brasil:SciElo,24dejulhode2000. Disponívelem:https://www.scielo.br/j/prc/a/7mpjdsM7SKRMC6kKNRrwY8S/?lang=pt

MARQUES,R.Mariana.Ocinemacomoferramentadeimpactosocial.SãoPaulo–SP–Brasil:InstitutodeCinema.Disponívelem: https://institutodecinema.com.br/mais/conteudo/o-cinema-como-ferramenta-de-impacto-social

PIERES,MariadaConceiçaoFrancisca;SILVA,SergioLuizPereira.Ocinema,aeducaçãoe aconstruçãodeumimagináriosocialeeconômico.Campinas–SP–Brasil:SciElo,29de julhode2014.Disponívelem:https://www.scielo.br/j/es/a/s66hjCWqgBRckwwj5MGzztp/

OSonhoAmericano

Como

o Liberalismo Constitui o Imaginário de

Uma Nação

FelipeSmithEberlein

Maiode2025,CarandáEducação

Resumo: Este ensaio tem como foco analisar o que está por trás do discurso do “Sonho Americano” e como ele se estabelece como uma forma de criar um imaginário de sociedade a partir dos princípiosliberais.Otextoé estruturadoa partir datrajetória demeupensamentoede meulugarde fala, onde apontominhas conclusões e visões sobreo Liberalismo ea forma como ele afeta cultural, artística e ideologicamente não somente os Estados Unidos, mas também o mundotodo,ecomoissoéperceptívelnodiaadia.

OLiberalismo

Crescendo no Brasil, um país conhecido por muitos como a “periferia do capitalismo”, sempremeintrigoualógicaquefaztodososprodutosestadunidenseschegarematémim,distante docentrocapitalistanorte-americano,esefazerempartedomeudiaadia,inclusivemaisdoque produtos nacionais. Estes produtos não são apenas filmes, séries e esportes, mas também ideologiaseformasdeviverqueestãodiretamenteligadasaoliberalismo,fabricandoumaforma dedependência.Dessamaneira,éfundamentalentenderoqueéoliberalismo(oupelomenossua definiçãodeacordocompensadoreseuropeuseestadunidenses).

O liberalismo é a base filosófica e econômica que moldou os Estados Unidos desde sua fundaçãonoséculoXVIII.Nocampofilosófico,elevalorizaaliberdadeindividual,apropriedade privada, a igualdade perante a lei e a limitação do poder do Estado. Esses princípios estão presentes na própria Constituição do país e na Declaração de Independência em 1776, influenciados porpensadorescomoJohn Locke,que defendiaosdireitosnaturaisà liberdadeea propriedade.

O liberalismo se torna um imaginário coletivo. Esse conceito é representado por um conjunto de símbolos de uma época da história daquele povo, costumes ou lembranças que têm

significado específico. Esse imaginário é continuamente reforçado pela cultura e através das própriaspessoasquepertencemaogrupocomoformadeumideal.

O cinema norte-americano é um exemplo emblemático desse imaginário.A quantidade de filmes que exaltam o individualismo e a meritocracia é descomunal. O filme “Rocky IV”, lançado em 1985, dirigido e estrelado por Sylvester Stallone, é uma forma de disseminar esses valores.Ofilmeressaltaamaneira comooesforçoindividual podevencertudoetodos,além de ser uma clara propaganda estadunidense frente à Guerra Fria, sendo o personagem principal um americano,eovilão,umsoviético.

Comodisse osociólogo RichardHofstadter, "nenhuma outra nação atribui tanto do seu caráter nacional ao individualismo quanto os Estados Unidos.". Essa frase do historiador estadunidensemostraoquantoosEUAsedefinemapartirdesseideal,quasecomosefosseuma relação de dependência. Entretanto, a corrente filosófica nasce na Europa iluminista, e com a viagem dos colonos ingleses no navio Mayflower, em 1620, para as américas do norte, o liberalismoencontraumterrenofértilparasetornaroethosdoliberalismo–oconjuntodetraços emodosdecomportamentoqueconformamocaráterouaidentidadedeumacoletividade.

Omitodefundaçãonarraqueosperegrinoschegaramaestaterraemcondiçõesdeviagem extremas,esóteriasidopossívelporDeus,oqueconfirmariaqueaterraamericanaseriaa“terra escolhida”, e o povo, o “povo escolhido”, marcando o início de um ideal nacionalista e patriota reforçado pelo pensamento liberal – logo isso se torna o conceito do destino manifesto, que por ideais de liberdade e propriedade, somado com a ideia de serem a nação escolhida, expandem seusdomíniosterritoriais.

O imaginário do self-made man (intitulado por Frederick Douglass), aquele que “se faz por si mesmo”, surge desse conceito e desse ideal, e é um dos pilares culturais mais fortes dos EUA.Eleapareceemfilmescomo À Procura da Felicidade,GabrielleMuccino,nabiografiade empresários como Steve Jobs e Elon Musk, e em falas presidenciais, e mostra como discursos e históriasestadunidensesnecessariamentepassamporestacorrente.

O SonhoAmericano provém justamente do ideal do self-made man, um imaginário de vidabem-sucedida:ohomemquetrabalha,umamulher,doisfilhos,umacasaeumcarro,dando aideiade“vitória”quemereceumavidaplena.

Dessa forma, é possível perceber como o liberalismo, desde sua origem, se consolidou como parte fundamental do imaginário norte-americano, estruturando valores, crenças e comportamentosqueserefletematéhojenaculturaenaidentidadedosEstadosUnidos.

ParaForadosEUA

Éclaroqueexisteumdiscursoàfrentedoliberalismo,eperceboqueétãoforte,queestá enraizado em mim. Por isso, percebo que esse ideário não está presente somentena cultura e na identidade dos EUA, mas no mundo todo. Estando longe do centro capitalista, os valores decorrentesdoliberalismofazempartedamaneiracomoeuenxergo,comomeuspaisenxergam, e mais distantes gerações enxergam o mundo. Sempre fui influenciado por produtos estadunidenses como filmes, séries, artistas, que transmitem este discurso e me colocam submetidoaessesideais.

A constante valorização do “Eu” com frases motivacionais e filmes, a valorização do dinheiro como parâmetro para tudo, a preocupação com a necessidade de trabalhar e voltar com dinheiro,ameritocraciaeaidealizaçãodeumavidaplenaperanteosistemacapitalistasãotodos aspectos decorrentes dos ideais liberais, seja na centralização do individualismo ou pela glorificação da propriedade privada, que estão por todo lugar em uma sociedade que ergue seus prédiossobreessafundação.Oquerestaparaoshabitantesdoplanetaévivernestemundo,quase comosefosseumimagináriosemescapatória,impossíveldeviversemestasidealizaçõesemuma sociedade,sendoummeiodeuniformizaçãodasmassas.

Nesteponto,acreditoqueafilosofiaencontreaeconomia.Emsuacriação,oIluminismo tinha um caráter racional, iluminar o que o absolutismo não podia, buscando direitos e valores para a sociedade. Na contemporaneidade, o advento do “neoliberalismo” vem, em minha concepção, como uma maneira de colocar todos de mãos atadas dentro do sistema capitalista, buscando o lucro e o enriquecimento, a valorização do indivíduo rico, dono de propriedades, merecedor do SonhoAmericano, que se torna o “Sonho do Sistema Capitalista e do Mundo”. O discursoquesurgedasorigensdoliberalismojustificaumasociedadecapitalista,importadapelo Imperialismoestadunidense.

PercepçãoGeral

Sob esse viés, decidi trazer um texto escrito por Rafael Mairesse de Castro, vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, “Propaganda e Mito: O Sonho Americano e o (Anti)ComunismonaAnimaçãoMakeMineFreedom”.

O trabalho analisa como a animação estadunidenese Make Mine Freedom (1948), produzida durante a Guerra Fria, funciona como uma propaganda ideológica, promovendo os valores do “SonhoAmericano” e o liberalismo econômico, ao mesmo tempo em que combate o comunismo. Castro argumenta que a animação representa um esforço do governodos EUAe da indústria cultural para fortalecer a identidade nacional baseada na liberdade individual, na

propriedade privada e no sistema capitalista. Por meio da linguagem acessível dos desenhos animados,ofilmeapresentaocomunismocomoumaameaçaexternaeinterna,buscandomoldar aopiniãopúblicaapartirdeumanarrativasimplificadaeemocional.Aanáliseevidenciacomoa culturapopularfoimobilizadapoliticamenteparaconsolidaroimaginárionacionalista,capitalista eanticomunista,especialmenteentreopúblicomaisjovem.

Em seu trabalho, ele discorre “O cinema norte-americano serviu, além da consolidação interna do seu modelo econômico, como exportação da imagem ideal dos Estados Unidos para todo o mundo. O movimento de fidelização de espectadores foi paralelo às ideias que reforçavam os valores norte-americanos e projetavam para outros países imagens associadas ao progresso daquela nação”(Castro,2023,p.12).

Um detalhe muito importante é que o autor, Rafael Mairesse de Castro, também é brasileiro, e como apresenta no início do trabalho, também vive em um ambiente influenciado por produções estadunidenses, sendo esses os motivos que o levaram a efetuar essa pesquisa.

Desta maneira, no que diz sobre a influência que este ideal liberal e estadunidense sobre a vida das pessoas do mundo globalizado, nossas visões tangem, indicando que outras pessoas já passaram pela mesma reflexão que aqui apresento e se identificam inseridas e presas no imaginário e no discursoliberal. Por isso, convido o leitor a pensar e tentar perceber onde queé possívelencontrarasideiasliberaisnocotidiano.

ConclusãoeoFuturo

Em relação ao futuro, com a emergência de novas potências mundiais como a China, o idealestadunidensedeliberalismo, atreladoaocapitalismo,podeserultrapassado,dandolugara novosideaisdesociedadeedevida.Imaginarumasociedadecomnovosideaisecompletamente diferentedoqueéhojeémuitodifícil,aotentarfazerisso,sempremevemalógicaliberalcomo parâmetro, confirmando como nosso pensamento está submisso ao capitalismo. Mudar de pensamentonãoénadafácil,e,porisso,oliberalismocapitalistaestadunidenseseguevigentepor maisde300anos.

O Sonho Americano e o liberalismo não constituem somente um imaginário de uma nação,mastambém estipulam umavida padronizada não só para uma nação, maspara omundo todo.

* Felipe Smith Eberlein nasceu em São Paulo em 2009, branco, tem 16 anos e estuda na escola CarandáEducação.

ReferênciasBibliográficas

MENDES,LuisNassif. The New Yorker e a análise do neoliberalismo nos EUA.JornalGGN, 2023.Disponívelem:https://jornalggn.com.br/economia/the-new-yorker-e-a-analise-doneoliberalismo-nos-eua/.Acessoem:jun.2025.

SANTOS,RosineideBarbosados. A formação do imaginário social norte-americano: o “selfmade man” e o “american way of life” Publica Direito,[S.l.],2007.Disponívelem: http://www.publicadireito.com.br/artigos/?cod=a64a1476544db9bd.Acessoem:jun.2025.

SANTOS,RosineideBarbosados. Brasil: a periferia no sistema capitalista.[S.l.]:Faculdade deMedicinadeBotucatu–UNESP,2017.Disponívelem: https://www.inscricoes.fmb.unesp.br/upload/trabalhos/20171018164023.pdf.Acessoem:jun. 2025.

YOUNG,VictorAugustoFerraz. Neoliberalismo, indústria e o governo de Ronald Reagan SobreEconomia,1nov.2022.Disponívelem: https://www.blogs.unicamp.br/sobreeconomia/2022/11/01/neoliberalismo-industria-e-ogoverno-de-ronald-reagan/.Acessoem:jun.2025.

IDENTIDADEcultural

Uma contraposição entre as origens ancestrais e o pertencimento em outras culturas

FelipeBraz

CarandáEducação,SãoPaulo,2025

Resumo

Estetrabalhopropõe umareflexãocríticasobre oconceitodeidentidadecultural apartirdeuma experiênciapessoalsituadaentreherançasgenealógicasitalianaseumaprofundaimersãocultural canadense.Aanálise é fundamentada em perspectivas teóricas multidisciplinares, com destaque paraFreud,Marx,PauloFreire,alémdereferênciaspoéticasefilosóficasbrasileirascomoCarlos Drummond de Andrade e Paulo César Pinheiro. Através de uma abordagem que articula psicanálise,materialismohistóricoecríticacultural,argumenta-sequeaidentidadenãoéumdado natural ou exclusivamente genético, mas uma construção simbólica, afetiva e social. Com apoio nas ideias freudianas de um ego fragmentado e inconsciente moldado pela cultura, e nas formulações marxistas sobre a determinação material da consciência, defende-se que a vivência cotidiana e o meio sociocultural exercem papel determinante na formação do sujeito. A preferênciaidentitáriapeloCanadá,aindaquesemlaçossanguíneosdiretos,éinterpretadacomo um processo legítimo de identificação subjetiva e histórica. Por outro lado, a herança italiana, embora presente biologicamente, se revela distanciada em termos simbólicos, afetivos e linguísticos. O estudo também apresenta uma crítica irônica à xenofobia e ao nacionalismo excludente, particularmente direcionada a discursos como os do ex-presidente norte americano Donald Trump, que frequentemente desprezam países como o Canadá ao mesmo tempo que promovem uma ideia homogênea e hostil de pertencimento nacional. Por fim, o trabalho busca mostrar, com respaldo em pesquisas sociológicas e educacionais contemporâneas, que a identidade cultural deve ser compreendida como processo dinâmico, aberto, e profundamente enraizadonasexperiênciasvividasenosvínculoscoletivosconstruídosaolongodotempo.

Résumé

Ce travail propose une réflexion critique sur le concept d'identité culturelle à partir d'une expérience personnelle située entre un héritage généalogique italien et une immersion profonde dans la culture canadienne, en particulier celle de l’Ontario. L’analyse s’appuie sur des

perspectives théoriquesmultidisciplinaires, enmettanten avant Freud,Marx, Paulo Freire, ainsi que des références poétiques et philosophiques brésiliennes telles que Carlos Drummond de Andrade et Paulo César Pinheiro. En croisant psychanalyse, matérialisme historique et critique culturelle, ce mémoire défend l’idée que l’identité n’est pas un fait biologique ou naturel, mais bienuneconstructionsymbolique,affectiveetsociale.Àpartirdesnotionsfreudiennesd’unmoi traverséparl’inconscientetdesthèsesmarxistesselonlesquelleslaconscienceestdéterminéepar les conditions matérielles de la vie, on soutient que l’environnement culturel vécu joue un rôle décisifdanslaformationdusujet.Lesentimentd’appartenanceauCanada,bienquesansliensde sang directs, s’exprime ici comme un processus authentique d’identification historique et subjective. À l’inverse, l’héritage italien, bien que biologique,apparaît lointain et presque fictif, enraisondel’absencedelangue,depratiquesculturellesvécuesetderelationssocialesconcrètes.

Le travail intègre également une critique ironique des discours xénophobes et nationalistes, notammentceuxdel’ancienprésidentaméricainDonaldTrump,quidénigrentsouventleCanada toutenpromouvantunevisionferméeethomogènedel’identiténationale.Enfin,appuyépardes recherches en sociologie et en éducation, ce travail affirme que l’identité culturelle doit être comprisecommeunprocessusdynamique,évolutif,enracinédansl’expériencevécueetlesliens collectifsquechacuntisseaufildutemps.

Abstract

This paper offers a critical reflection on the concept of cultural identity, grounded in a personal experiencethatnavigatesbetweenaninheritedItalianlineageandadeepimmersioninCanadian culture, particularly that of Ontario. The analysis draws from a multidisciplinary theoretical framework, bringing together the insights of Freud, Marx, Paulo Freire, and poetic and philosophicalvoicesfromBrazilsuchasCarlosDrummonddeAndradeandPauloCésarPinheiro.

By weaving together psychoanalysis, historical materialism, and cultural critique, this essay arguesthatidentityisnotabiologicalornaturalgiven,butratherasymbolic,affective,andsocial construction.BasedonFreud’snotionofaself-shapedbytheunconsciousandMarx’smaterialist view that consciousness is shaped by lived conditions, the paper suggests that cultural environments play a decisive role in shaping individual subjectivity. The sense of belonging to Canada, despite the absence of blood ties, emerges as an authentic historical and emotional identification process. In contrast, the Italian heritage, although biological, appears distant and almost fictional due to the lack of language, cultural practices, and lived social ties. The paper alsoincorporatesa subtle,ironic critique of xenophobic andnationalistrhetoric—especiallythat offormerU.S.PresidentDonaldTrump—whichoftendisparagesCanadawhilepromotingarigid,

exclusionary view of national identity. Supported by research in sociology and education, the paperconcludesthatculturalidentitymustbeunderstoodasadynamic,evolvingprocess,rooted inlivedexperienceandinthecollectivebondsonebuildsovertime.

“Quem sou eu?” Talvez uma das mais antigas perguntas da filosofia, da literatura, da psicologia – e mais recentemente, das ciências humanas. No entanto, quando nos debruçamos sobreosconceitosdeidentidadetudopassaasermaiscomplexo.Issoporqueessaperguntadeixa de ser apenas uma indagação de nossa existência, para se tornar uma questão política, social, simbólicaepsíquica.

Em tempos de deslocamentos globais, de fronteiras cada vez mais simbólicas e de identidades múltiplas, torna-se necessário pensar o que entendemos de identidade cultural. A noção de pertencimento, antes ligada a terra, ao sangue ou à origem, tornou-se simplista em um mundoafetivo,linguísticoepolítico.Nãobastadizer“soudetallugar”ou“euherdeitalcultura”. Oquesomos,culturalmente,éumresultadodeforçashistóricas,afetivas–eesseéomeucenário pessoal. Estar imerso na cultura canadense, com minha família, falar inglês fluentemente com o belo sotaque do Canadá, acompanhar e praticar hockey, ao mesmo tempo em que carrego a cidadaniaitalianaherdadaporsanguesem,contudo,vivernemreconheceraitalianidadeemmim.

Nessecontexto,pensandoaidentidadeculturalnãoapenascomoumaquestãopessoalou subjetiva,mascomopolítica,entreherançaeexperiência,entrehistóriaedesejo.Minhaformação cultural canadense não é menos verdadeira do que minha ascendência italiana, ainda que juridicamenteougeneticamenteminhaligaçãocomaItáliasejamaisdireta.Etalvezsejaporisso que, para alguns discursos de ultradireita, como os cultivados com orgulho por DonaldTrumpe seus admiradores — o Canadá apareça como só mais um, e diferente, não é como os Estados Unidos, o Canadá é multicultural demais, civilizado demais. Eles nunca serão superiores ao Canadá,nãoseremoso51°estado,porquenãosomoapenasumoutropaís.

O pontode partida paraessa reflexãoé aconstataçãofreudiana deque osujeitonuncaé total. Freud, em O Eu e o Isso, nos mostra que o ego é sempre um campo de forças em disputa, atravessado por desejos inconscientes, memórias, fantasmas e símbolos herdados.Acultura que nos forma é também essa teia de valores e repetições que, muitas vezes, não compreendemos conscientemente,quandomepercebomaispróximodaculturacanadensedoquedaitaliana,não estouapenasafirmandoumapreferênciasuperficial,masrevelandoumaestruturadeidentificação afetiva e simbólica construída ao longo do tempo – o inconsciente também é um lugar de pertencimentocultural.

Marxnosensinaque“nãoéaconsciênciaquedeterminaavida,masavidaquedetermina a consciência”. Esse princípio materialista nos permite entender como o contexto concreto em que nos inserimos — o ambiente, os afetos, os modos de produção simbólica — modela nossa identidade.Aculturacanadensenãoéapenasumconjuntodehábitosougostos:elaéumaforma de inserção social,uma maneira de habitar omundo.Quando jogo hockey, quando conversoem inglês com familiares, quando penso segundo os valores dessa cultura, estou, na prática, me constituindo como sujeito histórico-cultural dentro de um determinado modo de vida. A identidade,então,nãoésóherança,mastambémconstruçãocoletivaevivida.Oartigo"Shaping MyCultural IdentityThroughoutMy Life", publicadopela UniversityofToronto,explora como a identidade cultural é moldada ao longo da vida, especialmente no contexto de imigração e multiculturalismo canadense. Embora o texto completo não esteja disponível, estudos relacionados da universidade oferecem insights valiosos sobre o tema. Esses insights refletem a complexidade da formação da identidade cultural, influenciada por experiências pessoais, contextossociaisepráticasinstitucionais.

O poeta Carlos Drummond deAndrade escreve que “a minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá”. Mas onde é "lá"? E o que é "aqui"?Essadúvidalíricaétambémexistencialecultural.QuandopensonaItália,elaseapresenta como um “lá” distante, quase mítico, uma ficção genealógica. O “aqui” do Canadá, mesmo quando não é o meu país de nascimento, é mais real, mais concreto, mais íntimo.Apoesia nos permite acessar essa dimensão simbólica da identidade, onde o pertencimento se mistura com a sensibilidade,eondeaidentidadenãoéumaterra,masumcantoreconhecidonocorpo.Emoutro tompoético,PauloCésarPinheirocanta:“eusoudaterraondeosoldoamorse derrama,soudo lugar onde o tempo da alma se inflama”. Essa identidade que inflama é construída, sentida e incorporada—nãoapenasherdada.AItáliaéumregistronaárvoregenealógica.OCanadáéum movimentonaalma.

OfilósofocanadenseMarshallMcLuhanjáalertavaqueomeioéamensagem.Issoquer dizerqueomodocomonoscomunicamos,nosformamosenosintegramossocialmentediztanto (oumais) doqueo conteúdo dasmensagensquecarregamos.Meumeiocultural é canadense— e isso molda profundamente minha linguagem, meus afetos e meus gestos. Por isso, quando figuras como DonaldTrump atacam o Canadá, expõem não apenas uma ignorância geopolítica, mas também um medo da diferença. Há uma ironia trágica nisso: o Canadá, torna-se alvo de escárniodosquedefendemabrutalidadecomovirtude.Mas,comodiriaDrummondnovamente, “as virtudes da brutalidade sempre vêm disfarçadas de coragem”. Nesse ponto, a escolha simbólicademinhaidentidadesetornatambémumaescolhapolítica—escolheroCanadáé,em certosentido,recusaraestéticadoódio.

“Depoisde20anos,devezemquando,aindamesintoforadolugar,oufrustradocomo jeito que as coisas acontecem (bagunçado e/ou desorganizado). O senso de humor é diferente, entãoasvezesasminhaspiadasnãoseaplicamoueunãoentendoasdosoutrosAimensidadeda cidadeésempreumaquestãopramim.Grandedemais.

Desnecessário!! Mas em geral, depois de tantos anos, eu me sinto daqui mesmo. Nos primeiros 10 anos era mais difícil. Eu me sentia muito mais por fora das coisas. O que eu sinto falta de lá é a natureza e a relação que as pessoas têm com ela. Sinto falta de imensidade e a solitude. Espaços grandes,sem pessoas!!! Às vezes, sinto falta de falar a minha(s) língua(s)!!”domeutio,AlanLeblanc.

EnsaioescritoporFelipeBraz(Leblanc),nascidoemSãoPaulo,SP.Filhodebrasileiros, trabalhadoresdaáreadasaúde,áreadeestudoquemeinteressamuito,principalmentenaáreade estudossociais.Também,desdemuitopequenotenhoumarelaçãomuitofortecomoCanada,por ser o país do meu tio, que sempre foi uma pessoa muito presente na minha vida. Tenho muito orgulhodepoderfazer,pelomenosumpouquinho,partedoCanada,epoderconversarcommeus familiaresnativos.

A partir dessa travessia entre Marx e Freud, Drummond, emerge uma concepção de identidadecultural quese afasta radicalmentedoessencialismoedabiologia.Aidentidadeé um campode disputa simbólica,ondeosujeitoéconstantemente atravessadopordiscursos, afetos e condições materiais de existência. Minha experiência pessoal é só um exemplo dentre tantos de como a cultura se encarna na vivência e como o pertencimento não se dá por DNA, mas por prática,linguagem,afetividadeememória.

Concluo, assim, com a consciência de que ser culturalmente canadense — mesmo sem “ser de sangue” — não é uma contradição, mas uma realidade concreta e legítima.Aidentidade não é uma herança a ser protegida, mas um gesto contínuo de invenção. E talvez seja esse o desafio mais profundo do nosso tempo: abandonar o conforto das raízes fixas para reconhecer o poderpoético,políticoepsíquicodastravessiasculturaisquenosconstituem.

Nofinaldascontas...littlebitbonjour,littlebit“eh?”.AndastheCanadiananthemsays, thetruenorth!

A“fragilidade”quenostornahumanos

SãoPaulo,Brasil–2025

A vida é feita de sentimentos, de emoções, que, por mais que muitas vezes nos façam sofrer, também são elas que dãocor, significadoe sentido àexistência. Écuriosopensar como,quando estamos enfrentando um problema, tudo parece extremamente difícil, desesperador e até impossível. No entanto, quando olhamos de fora, percebemos que aquilo que parecia tão complexoera,naverdade,sómaisumprocessonaturaldavida,algoquetalvezotempo,sozinho, seencarregariaderesolver.Essaéumadasmaioresprovasdequesomosguiados,muitomaisdo queimaginamos,poraquiloquesentimos.Viverseriafácilsenãosentíssemos,fácil,mastalvez, completamentesemgraça.

É interessante perceber que, em uma vida “perfeita”, seria preciso equilibrarmos quando devemosbloquear os sentimentospara nos proteger das dorese quando precisamos nospermitir sentir e nos machucar para aprendermos. Eu não acredito que exista uma vida perfeita e, sinceramente,nemgostariaqueelaexistisse.Porqueéjustamenteessatentativafalhadeencontrar a medida exata entre razão, emoção, proteção e entrega que torna tudo tão emocionante, tão imprevisível e, acima de tudo, tão humano. Penso que talvez cada pessoa possua suas próprias dosesdesseselementosetalvezninguémconsiga encontraradose perfeita,e éisso quefazcom queavidasejatãolegal,porqueassimtemosdesafioseissofazcomquenãosetornemonótona.

Essa discussão não é nova. Desde a Grécia Antiga, pensadores como Platão10 defendiam que ossentimentosnostornavamfracos,quearazãodeveriaseromotordavida,poiselaseriacapaz de nos afastar do fracasso e das dores que tanto nos afetam. No fundo, até esse desejo de ser racionalsurgedeumsentimento:omedodador,dofracasso,dosofrimento,porqueelessãoruins e isso desperta sentimentos negativos. Ou seja, mesmo quem tenta se blindar das emoções, na verdade,estáagindoporquesente.

10 Platão, filosofo grego, que defendia que a razão deveria controlar os desejos e emoções. Em sua obra “A república” ele descreve a alma como dividida em três partes: razão, vontade e desejo, sendo a razão a que deveria governar para alcançar uma vida justa e equivalente.

É comum, inclusive, ouvirmos que existem pessoas que não sentem, como os psicopatas11 . Masessaafirmaçãonãoéverdadeira.Elessentem,sim,apenasdeformadiferente.Sentemprazer, excitação,satisfação.Tantoéquesuasações,muitasvezesviolentas,buscamjustamenteprovocar sensações que os preencham. Portanto, ninguém está livre da condição de sentir e isso faz parte deexistir.Sentiréinevitável.

Nolivro“ACoragemdeSerImperfeito”,dapesquisadoraeprofessoraBrenéBrown,doutora em Serviço Social pela Universidade de Houston, o tema central é mostrar que admitir nossas falhas, medos e sentimentos não é sinal de fraqueza, mas sim uma forma de viver com coragem everdade.Brownargumentaquenossatendênciaemesconderfalhaseemoçõesdesconfortáveis criabarreirasparaaconexõeshumanas,paraacriatividadeeparaobem-estaremocional.Aautora critica o mito da perfeição12 como caminho para o sucesso e defende que é justamente a imperfeição que torna as pessoas mais autênticas e resilientes. Segundo Brown: “A vulnerabilidade13 éoberçodainovação,dacriatividadeedamudança”(BROWN,Acoragemde serimperfeito,p.46).Essaafirmaçãoreforçaaideiadequenegaremoçõesnãonosfortalece,mas nosdistanciadetudoaquiloqueégenuinamentehumano,queéessencialparanós.

AorelerminhareflexãoinicialapósoestudodaobradeBrown,percebocomominhasideias seconectamdiretamentecomapropostadaautora:avulnerabilidadenãonosenfraquece,elanos humaniza.Otextomefezentendercommaisclarezaqueatentativadeserracionalotempotodo é, na verdade, uma forma de nos proteger da dor. Isso confirma minha hipótese: todos nós sentimos. Até mesmo quem tenta esconder as emoções age a partir delas. A razão nos orienta, maséosentimentoquenosmove.

Diantedessaanálise,reafirmoqueusarapenasarazãocomoformadeevitarosofrimentonão é o caminho para alcançar o sucesso. Para crescer de verdade, é preciso se permitir sentir, errar e aprender, tudo isso em conjunto com a razão. São os sentimentos que nos guiam e influenciam nossas escolhas. Mesmo quando acreditamos estar sendo racionais, nossas decisões ainda são movidas por aquilo que sentimos. E essa “fragilidade”, que não é uma fraqueza, como muitos pensam,éumaforçajáqueéelaquenostornahumanos.Sentirquenostornahumanosetodosnós sentimos.

11 A psicopatia é um transtorno de personalidade em que a pessoa apresenta falta de empatia e emoções mais superficiais, mas ainda assim é capaz de sentir prazer, desejo e satisfação, principalmente ligados ao controle ou estímulos internos.

12 Crítica a ideia de perfeição e mostra que aceitarmos nossas falhas nos torna mais autênticos e fortalece nossa conexão com as pessoas.

13 Segundo Brené Bronw vulnerabilidade é a coragem de se expor emocionalmente, mesmo sem garantias.

No futuro, espero que as pessoas comecem a valorizar mais a saúde emocional14, a autenticidade e a imperfeição como partes naturais da vida. Se quisermos sociedades mais empáticaseequilibradas,precisaremosensinaràspróximasgeraçõesqueestaremvulneráveisnão é sinônimo de ser fraco, e sim algo completamente natural, humano que significa coragem e maturidade, e com isso ensinar em quais momentos de os usar a razão e em quais devemos nos permitir sentir. Quem sente, cresce é importante nos machucarmos para aprendermos e amadurecermos.

Miniautobiografia:MechamoPietraZeizer,soumulhereestudantedo2ºanodoEnsinoMédio na escola Carandá Educação, uma instituição privada localizada em São Paulo. Falo a partir do meu lugar como adolescente de classe média, com acesso a uma educação formal de qualidade, masaindaemconstruçãoemocionalepessoal.Semprefuimuitoobservadora,reflexivaesensível porviveremumacidadegrande,marcadaporcontrastes,cobranças,desigualdade,preconceitoe maldade o que me fez e faz sentir raiva, tristeza e inconformação, isso faz com que observe os comportamentos humanos com intuito de entender por que somos do jeito que somos, de onde vem esse “instinto” de discriminar o diferente, porque o preconceito, a maldade e porque não podemos ser todos iguais. Em uma dasminhas reflexões me peguei pensando sobre o papel dos sentimentos em um mundo que valoriza excessivamente o desempenho e a razão e como isso podeserconectadoaomachismo,jáquesãoprincipalmenteoshomensquereprimemossentidos. Escrevoapartirdaminhaexperiênciareal,marcadaporinseguranças,dúvidas,mastambémpela vontadedecompreenderoquenostornahumanos,avontadeeentenderomundoeàvontadede ajudaraspessoas.

14 Saúde emocional é a capacidade de reconhecer, entender e lidar com os próprios sentimentos de forma equilibrada, buscando bem-estar nas relações e nas decisões do dia a dia.

Fontes consultadas

BROWN,Brené.Acoragemdeserimperfeito:comoaceitaraprópriavulnerabilidade,vencera vergonhaeousarserquemvocêé.RiodeJaneiro:Sextante,2012.

TeoriatripartitedaalmadePlatão.Wikipédia,aenciclopédialivre.Disponívelem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_tripartite_da_alma_de_Plat%C3%A3o.Acessoem:5jun. 2025.

SadismoPsicopático:QuandoaDordoOutroseTornaPrazer.Disponívelem: https://draanabeatriz.com.br/sadismo-psicopatico-quando-a-dor-do-outro-se-torna-prazer/ Acessoem:5jun.2025.

Saúdeemocional:oqueé,quaisospilaresecomoafetaseudiaadia.BlogUnimedCampinas, 2022.Disponívelem:https://www.unimedcampinas.com.br/blog/saude-emocional/saudeemocional-o-que-e-quais-os-pilares-e-como-afeta-seu-dia-a-dia.Acessoem:5jun.2025.

Porqueesperaropior?

A normalização do bullying

LuizaNakanoGodoyRosa

CarandáEducaçãoSãoPaulo2025

Se não defendermos aquilo que acreditamos e se não lutarmos pelos nossos direitos, muito em breve teremos tantos direitos quanto a carne nos nossos ossos. Lady Gaga

Gostariadeiniciardeixandoclaroquefui–eaindasou–vítimadebullyingdesde osmeusquatroanosdeidadeforada escola.Enãome refiro aobullyingqueéretratado em filmes estadunidenses, frequentemente associados a formas extremas de violência física. Minha intenção aqui é provocar uma reflexão com a seguinte pergunta: em que momentoumapiadadeixadeserengraçadaesetransformaemviolência?

Semprequeotema"bullying"surgeemumaconversa,areaçãoimediatacostuma ser de repúdio. As pessoas prontamente se posicionam ao lado da vítima e afirmam o quanto consideram essa prática absurda. No entanto, de nada adianta esse discurso se essas mesmas pessoas não conseguem perceber quando ultrapassam os limites. Reforço que,aofalarsobrebullying,estoume referindo,sobretudo,àsmicroviolênciaspresentes nocotidiano—sutis,porémmarcantes.

O primeiro episódio que vivi aconteceu aos quatro anos, na Educação Infantil, numasexta-feiradefevereiro,duranteotradicional“diadobrinquedo”.Lembro-mecom nitidez: escolhi minhabonecafavorita epreparei seus acessórios com o maior cuidado e carinho.Fuiparaaescolaanimada,cheiadeexpectativas.Noentanto,esseentusiasmose dissipouemsegundos,quandoalgumascolegasserecusaramabrincarcomigo,alegando queminhaboneca“nãoeraboaosuficiente”pornãoserumaBabyAlive.

Muitostalvezdigamque“issoécoisadecriança”ouque“criançanãotemfiltro”. Maséjustamenteaíqueresideoperigo:quandoatitudesquedeveriamsercorrigidascom empatia e consciência são tratadas com descaso ou naturalizadas sob a justificativa da inocênciainfantil.

Conformecresci,percebiqueaquilonãofoiumcasoisolado,massimoiníciode algoconstanteerepetitivo.Eéexatamenteissoquedefineobullying:umapráticadiária, silenciosaouescancarada,quemuitasvezespassadespercebida—atéporquemapratica.

Eleestá presentenas“piadinhas”,nosapelidos,nascomparaçõescruéis e,emsuaforma maisgrave,nasagressõesfísicas.Obullyingnãoésobreuma risadaaquiouali. Ésobre perseguição.Ésobreferiralguémdeformacontínuae,muitasvezes,impune.

Desde cedo, ouvimos de nossos próprios pais e responsáveis frases como: “Ignora, dá risada junto, que uma hora eles cansam.” No entanto, quem já passou por situações de bullying sabe que não é bem assim. As agressões se repetem, os ataques continuam—vezesemaisvezes—atéquealgomaisgraveaconteça.Enfrentartudoisso sozinho e em silêncio pode causar danos profundos, que vão desde fobias sociais até quadrosseverosdedepressão,capazesdelevarumapessoaaatentarcontraaprópriavida.

Oproblemaémuitomaissériodoqueparece.NoBrasil,porexemplo,cercade20%dos jovensafirmamjá terpensadoemsuicídioem razãodobullying,sendoque1em cada 5 chega,defato,atentar.

Valeressaltar que agravidade do bullying étanta que, em2024, ele passou a ser oficialmente reconhecido como crime no Brasil.ALei nº 14.811/2024 alterou o Código Penaletipificaapráticadeintimidaçãosistemática—termoqueabrangetantoobullying quanto o cyberbullying. Segundo essa legislação, atos repetitivos e intencionais de violência física ou psicológica contra alguém, sem motivação evidente, podem resultar emmultaouatéreclusão,adependerdagravidade.

Essamudançamostraqueoproblema,alémdeseremocionalousocial,élegal.E mais do que isso: é urgente. A escola, a sociedade e até mesmo as famílias precisam entender que deixar “pra lá” ou chamar de “brincadeira” não diminui nem muito menos resolve.Bullyingéumatosérioeprecisasertratadocomotal.

Com isso,concluoque aculpanãorecaisobreoEstadonemsobre avítima,mas simsobreaspessoasemquemavítimaconfiaecomquemsesenteseguraparadesabafar

— e que, infelizmente, acabam diminuindo o problema ou o ignoram por completo. Professores e diretores que deixam de comunicar aos responsáveis os episódios de bullyingpraticadosporseusalunosestãosendoconiventescomessacrueldade.E,quando ospróprios paisdoagressorsenegamaadmitiroerrodeseusfilhos,tambémdevemser responsabilizados.Damesmaforma,escolasqueseomitemounegligenciamagravidade da situação podem — e devem — ser processadas. A legislação brasileira é clara: as instituiçõesdeensinotêmodeverdeprevenirecombaterobullying.

Nãopodemos continuar tratando isso com descaso. Precisamos acolher, proteger eescutarnossascriançaseadolescentes.E,maisimportanteainda,devemosconscientizálosdesdecedo,antesqueopioraconteça.

Fontesconsultadas:

20%dasvítimasjovensdebullyingpensamemsuicídio,revelapesquisa. Disponívelem:https://classnet.tech/blog/artigo/20-das-vitimas-jovens-de-bullyingpensam-em-suicidio-revela-pesquisa

BRASIL.DecretodeLei14.811.Disponívelem: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2024/Lei/L14811.htm

JUSBRASIL.JurisprudênciasobreResponsabilidadeCivilporBullying.Disponível em:

https://www.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/busca?q=Responsabilidade+Civil+por+Bul lying

JUSBRASIL.Lei14.811/24criminalizaobullyingeocyberbullying,alterao CódigoPenal,oEstatutodaCriançaedoAdolescenteeaLeide Crimes Hediondos.Disponívelem:https://www.jusbrasil.com.br/artigos/lei-14811-24criminaliza-o-bullying-e-o-cyberbullying-altera-o-codigo-penal-o-estatuto-da-crianca-edo-adolescente-e-a-lei-de-crimes-hediondos/2138546231

TribunaldeJustiçadoDistritoFederaledosTerritórios.Bullyingemambienteescolar –responsabilidadecivildaescola.Disponívelem: https://www.tjdft.jus.br/consultas/jurisprudencia/informativos/2015/informativo-de-

jurisprudencia-n-303/bullying-em-ambiente-escolar-2013-responsabilidade-civil-daescola

VIEIRA,Nathan.Setembroamarelo:20%dosjovensquesofrembullyingpensam emsuicídio.Disponívelem:https://canaltech.com.br/saude/setembro-amarelo-20-dosjovens-que-sofrem-bullying-pensam-em-suicidio-262181/

ESTUDO DO MEIO

SEÇÃO ESTUDO DO MEIO

DO AMBIENTE: POIS HÁ DIFERENÇAS ENTRE AQUILO QUE É E AQUILO QUE FOI FEITO

Foto capturada pelo aluno Antonio Jácome – 2EM

Vista do mirante do Último adeus – Parque Nacional do Itatiaia – Setembro, 2025

Uma proposta de trabalho de campo é muito mais do que um convite para conhecer o mundo lá fora. É, antes de tudo, a possibilidade de compartilhar uma experiência, no melhor sentido desta palavra. É se deixar tocar, é viver a diferença e o que para nós, é ainda mais importante: fazer isso em grupo, permitindo a compartilhamento de vivências, experiências e impressõesindividuais.

Para o 2EM, o eixo norteador do projeto de Estudo do Meio é “O estudo do ambiente natural, a exploração de seus recursos naturais e o impacto desta exploração”. Depois de nos aventurarmos pelo interior de São Paulo na região de Campinas no 1EM, visitarmos antigas fazendas, espaços de cultura, política e resistência, nos voltamos agora para o Vale do Paraíba. Masporqueessaregião?

As relações (concretas e simbólicas) entre o homem e os espaços onde se encontra, de alguma forma, implicam suas demandas produtivas, o que por sua vez organiza as relações de ocupação (o que é natural e o que é a representação do progresso) que, em seu turno, apontam relações de poder indicando relações discursivas. No Brasil, esse processo aparece com bastante força.

A ocupação do Vale do Paraíba serve como exemplo e o tema central deste estudo. Continuamos a discussão iniciada no roteiro passado, com inúmeras abordagens na área de Geografia, História, Biologia, Química e Física que formam o meio ambiente, as relações de trabalho,movimentossociais,modosdeprodução,aeconomia etc.

Os alunos realizam contatos com duas realidades dicotômicas: o Parque Nacional do Itatiaia (PNI), a reserva federal mais antiga do País e berço de uma região da ameaçada Mata Atlântica,moradahistóricadeetniasindígenas,colonosdediversospaíseseuropeusemmúltiplos ciclos econômicos e retiro de ao menos um Presidente da República; e o complexo industrial brasileirorepresentadopelaCompanhiaSiderúrgicaNacional(CSN),criadaduranteaEraVargas paraalavancaraindustrializaçãobrasileiracomoprimeiropolosiderúrgicodopaíseasIndústrias NuclearesBrasileiras (INB),criadaduranteoRegimeMilitarparaintegrar opaísnoseletogrupo de potenciais mundiais com tecnologia de enriquecimento de urânio. A partir daí, o estudo é direcionadoparadiversoscaminhos,discutindoconflitosporterra,movimentossindicais,ocusto da industrialização, mecanização, tecnologia e a preservação do meio ambiente, impactos ambientaisesustentabilidade.

Os produtos desta viagem por histórias, ambientes e memórias podem ser vistos nas produções a seguir, que combinam estes elementos em relatos únicos da percepção de nossos alunos para as experiências vividas. Através de seus olhos, aqui anônimos, é possível enxergar e sentir um fragmento daquilo que experimentaram e, a partir de suas produções, vivenciar o emaranhadodenarrativaspresentesnesteestudo.

ProfessoresÉricadeOliveiraeEdgarBloisCrispino.

AQUILO QUE SE VÊ, AQUILO QUE SE SENTE E AQUILO QUE SE PENSA...:

A seção a seguir, conta com relatos pessoais dos/das estudantes acerca das experiências vividas durante a viagem de estudo do meio, mas também, aborda parte das reflexões feitas por elese elas sobreo tema principal do campo acerca dapreservação ambiental contrastando com o desenvolvimentoeconômicodaregião.

Os relatos são anônimos e foram escolhidos de forma a abordar diferentes perspectivas, sentimentos e reflexões dos locais visitados. As fotografias a seguir são de autoria também dos alunos.

Relato1:

“OquememarcoumuitonaviagemfoiquandochegamosnapartemaisaltadoItatiaiaem que subimos até o topo da montanha, acima das nuvens, tendo uma vista inesquecível. Outra vivênciaquegosteimuitofoiatrilhanoturnaondeencontramosmuitosanimaisdiferentesquenão conseguíamos observar nas trilhas de manhã. Além disso, outro momento marcante foi tanto a visita na CSN quanto as entrevistas com a população de Volta Redonda, que nos ajudaram a entender melhor sobre a produção, condições de trabalho e a importância dessa fábrica para a cidade. Oquemaismechamouatençãonasatividadesquefizemosemrelaçãoaotemadaviagem (preservação ambiental e desenvolvimento econômico) foi que o discurso dos lugares que fomos erasempreoudizendobenefíciosquemesmodavaaoambienteouescondendotodososdanosque aquelelocalfaziacom o ambiente.Alémdisso,a partirdasentrevistascomapopulaçãode Volta Redonda,ouvimosdaspessoasque,apesardaCSNtrazerumgrandedesenvolvimentoeconômico para a cidade, há muitos pontos negativos como os danos ambientais a partir da emissão de poluentes.”

Relato2:

A viagem toda me marcou muito, em especial a trilha na parte alta do parque que durou muito tempo com uma paisagemque eu nuncatinhavisto antes pessoalmente com certeza foram umdosmomentosmaismarcanteseemocionantespramim.Achoquenuncaandeitantonaminha vida, muita adrenalina, cansaço, mas com certeza valeu muito a pena. Gostei muito de ter essa experiência de andar por muito tempo, num espaço que, onde eu olhava, encontrava algo muito lindo que eu nunca tinha visto. Além de estar sempre com tanta gente querida. A cachoeira me marcoumuitotambém,poisnuncaentreitãorápidonumaáguatãogelada.Umaexperiênciaúnica mesmo! Tudo isso me marcou bastante de forma positiva, e a CSN foi com certeza muito impactante também. Fiquei completamente chocada com tudo que vi lá, acho que não esperava quefossealgoassimtãograndioso,enormeeinsalubre.

Algo que me chamou atenção foram os diferentes discursos apresentados por instituições como o ICMBio, a Parquetur e a associação dos moradores locais (com relação ao Parque Nacional do Itatiaia). Em um primeiro momento, ouvindo o representante do ICMBio, afala me pareceu bastante positiva: destacava a importância da conservação da biodiversidade, a proteção dos ecossistemas e etc. Me pareceu algo coerente. No entanto, essa visão inicial começou a se desconstruir quando tivemos a oportunidade de socializar com os colegas que ouviram os moradoresdaregião.Afaladaassociaçãodemoradores trouxeumcontrapontomuito forte,com críticas e denúncias sobre a maneira como o ICMBio e a Parquetur têm conduzido suas ações na área. Para eles, há uma enorme hipocrisia por parte desses órgãos, especialmente no que diz respeito ao discurso de “conservação” que, na prática, muitas vezes excluem quem vive no territóriohádécadas.

Relato3:

Oquemaismemarcouduranteaviagemfoiosegundodiacomoumtodo.Nestedia,como em continuação do dia anterior, visitamos a parte baixa do PNI. Um dos momentos mais marcantesfoilogonoinício,quandochegamosnopontodeembarquedoônibusquenoslevaria paraapartealta,poisestávamosnoexatopontodadivisãoentreRiodeJaneiroeMinasGerais, oquefoimuitointeressantedever.Quandodefatochegamosnapartealta,fizemosumagrande

trilha (primeiramente na região inferior da parte alta e posteriormente subindo rumo às Prateleiras – as grandes rochas do parque, com mais de 2 mil metros de altura). A trilha era muitobonitaequantomaisnosaproximávamosdotopo,maisincríveisficavamasvistas.Após uma trilha intensa eamedrontadora, chegamos no topo do Pico doCouto,aonde aexperiência chegou no auge. Era a vista mais inacreditável quejá vi, quefoi o ponto quemais me marcou naviagem.Então,descemosatrilha,evoltamosparaohotel,atéquedenoitefomosfazeruma trilhanoturnanapartebaixa,quetambémfoi muitointeressante,sendoumaexperiênciaúnica (jáqueessetipodetrilhasóépermitidocomescolas)eumaótimaformadefecharodia.

Aviagemcomoumtodoeraumaexperiênciaquemostravaclaramenteocontrasteentre preservação ambiental e desenvolvimento econômico. Esse contraste foi muito marcante em algumas ocasiões. A primeira delas foi o discurso por trás da privatização da CSN, em que a empresa apresentavacomo um marcoimportante deprogresso da empresa. Ao mesmo tempo, no momento das entrevistas em Volta Redonda, os moradores falaram que este momento foi um regresso ambiental e social, uma vez que a privatização fez com que os incentivos que a CSN fazia em Volta Redonda (como criar estádios, monumentos e outros) acabaram, fazendo com que a cidade ficasse “largada” e estagnada, além da produção se intensificar muito, aumentando a poluição que afeta os moradores. Detalhe que antes da privatização, alguns dos entrevistados disseram que a CSN era o orgulho da cidade e todos paravam para ouvir o altofornoligar.

Também,odiscursodaCSNédeumambientesegurodetrabalho,ondeostrabalhadores seunemparaaempresasermaisforte,emque(deacordocomplacaspenduradosnoambiente detrabalhodaCSN)elesnãodevemter“mimimi”,ouseja,semreclamar.Emcontraste,temos a visão das entrevistas. Todos os entrevistados trabalhavam ou tem/tinham conhecidos que trabalharam na CSN e todos sofreram muito, desde danos físicos permanentes, danos psicológicoseasensaçãodeestaremtrabalhandoparaalgoincompreensível.Dessamaneira,é claro que existe um discurso que movimenta o desenvolvimento econômico e esconde toda a opressão e luta dos trabalhadores da CSN, que inclusive fizeram uma greve em 1988 que resultouem3mortes.

Ocontrastecomapreservaçãoambientalémaisclaroaindaquandoseanalisaomotivo dacriaçãodoPNI.Odiscursoeraparaoestudodasespéciesjáqueeraumlocalcompotencial muito grande. Entretanto, existe um motivo maior. O parque foi criado na realidade como um provedorderecursosparaaCSNouaINB(indústrianuclearbrasileira),eporissoeleémantido (ejuntocomissovemtodososestudos,comocomplementodessapreservação),paracontinuar

provendo recursos. Então, é nítido que nessa sociedade, a preservação ambiental segue os ditames do desenvolvimento econômico, em que neste caso o desenvolvimento exige a preservação. Em contrapartida, a preservação foi deixada de lado, por exemplo, no desmatamento da região de Volta Redonda, da poluição da indústria e outros impactos ambientaisdaempresa.

Relato4:

Oquemaismemarcoufoiumsentimentodepaz,mesentifeliz,eracomoseeunãotivesse nenhum problema. Foi a curiosidade e a vontade que senti de aprender e descobrir, me senti encantadacomotamanhadiversidadeebeleza.Especificamentetiveramtrêsmomentosquemais me marcaram: o primeiro foi na parte alta quando chegamos no topo e fizemos um minuto de silêncio.Eunão consigo descrevero que senti aquelahora,foiumapazenorme,alegriaeleveza. O segundo momento foi o mirante, tanto de dia, quanto de noite, porque ali naquela vista e no silêncio eu me emocionei, com o quão linda e especial é a natureza. Mas também me veio um sentimento de tristeza, porque não era para nós estarmos destruindo tudo aquilo, a gente veio de lá,nósfazemospartedaquilotambém. Mesentitristepelacrueldadehumana,fiqueichateadapor nãopodermoraremumlugarassim,porespéciesqueestamosdestruindo,poraquelanãosermais a “nossa casa” e sim algo “raro” de se ver. Ver as pessoas surpresas em ver uma aranha ou um opilião me chateou, pois não era para isso ser algo raro e inédito, mas sim algo normal. Por estarmos destruindo nossa “casa” isso infelizmente se tornou algo muito fora do cotidiano. E a terceira e última coisa que me marcou foi uma conversa que tive na volta da trilha noturna sobre histórias que já nos aconteceram e isso me fez lembrar de quando era pequena. Eu consegui ter contatocomanaturezatodasasférias,enaquelemomentopuderevivertodasasminhashistórias deaventuraecompartilheicommeusamigos,oquetornouessemomentomuitoespecialtambém. Parafinalizarsentiqueessafoiumadasmelhoresviagensdaminhavidaelamemarcoumuito.

PontosqueeudestacariadasatividadesdefizemosforamavisitaaCSN,aformacomoos animaiseasplantasseadaptamaoambienteeconseguemresistiracertasmudançasecomotodas asespéciesserelacionam entresi.Eissofoi oquemaisme chamouatenção porque,naCSN tive um choque e foi triste demais ver as pessoas e até mesmo as árvores em condições precárias e perceberquenonossosistemaagentesubmeteunsaosoutrosaisso.Jáaformacomoosanimais e plantas seadaptam aoambiente econseguemresistir acertas mudanças é muito bonitoverisso e a forma como certos tipos de ambiente tem certos tipos de espécies por elas serem adaptadas

paratais condiçõese como anatureza consegue sobreviversozinha emontaum ciclo de relações que é tão equilibrada e perfeita. Além do fato de como é bonito ver a vida voltando em certos espaços que foram degradados e que por mais que essas degradações tenham ocorrido a biodiversidadeaindaconseguepersistirdependendodamudança.

Relato5:

A vivência que mais me marcou na viagem foi com certeza a ida na CSN, tudo que vi e ouvi me deixou chocada e muito marcada. O cheiro, a poeira, o barulho e a temperatura principalmente me deixaram desconfortáveis e mais ainda por pensar que pessoas passavam por issodiariamente,8horaspordia.Alémdetudoisso,ouviumafrasequemedeixoumaisimpactada ainda:umtrabalhadorpassoupormimdizendoparaoutrotrabalhadorqueumcolegahaviaperdido osdedos(naquelemomento).Eusabiaqueessesacidentespoderiamacontecer,aindamaisemum ambientecomoaquele,masaformacomofoidito,deumjeitotãonormalizadoetranquilo,como se de fato fosse algo muito de rotina e dentro da normalidade. Essa junção de todos esses fatores medeixoudefatomarcada,impactadaemuitopensativa.Tenhocertezadequenuncavouesquecer aquiloquevinaCSN

Considerando que o foco da viagem era preservação ambiental e desenvolvimento econômicoeudestacariaarelaçãoentreaCSNeoparquenacionaldoItatiaia,quedeprimeiraeu entendi o parque com um objetivo de preservação da biodiversidade local, mas com a visita para CSN e as discussões em sala consegui entender que o parque é “criado” em um local específico parapoderfornecerrecursosparaaCSN.Dessaforma,euvejoapreservaçãoambientalcomouma ferramentaparaodesenvolvimentoeconômicoeindustrialbrasileiro.

Relato6:

Aexperiênciaque mais memarcounesta viagemnestaviagemtão memorávelfoi avisita aCSN.Nãofoinemdelongeomomentomaisbonito,divertidooumesmoconfortável,muitopelo contrário. Observei vívida, naquele momento, uma realidade que no meu imaginário já havia morrido junto com as fábricas europeias do século XVIII e XIX. Era explícita a desumanidade

embotadadapoeiradosfornos,aexploraçãoemmeiodasmáquinasquemaispareciamescombros deumaguerraperdida.Transitavamentreasvielaseandaimespessoasqueseperdiamnafumaça e se transmutavam em um maquinário remendado em sangue. Estavam à mostra conceitos que antes me pareciam um tanto abstratos, como a reificação e a alienação, uma relação trabalhista cosmeticamentevendidapormeiodeumaideologianefasta.

O roteiro da viagem e o sequenciamento das paradas foi estruturado de uma maneira a provocar reflexão. Perpassamos junto do trajeto diversasdinâmicas deluta eexploração, desde o conflito por território e institucionalização do Parque Nacional do Itatiaia à exploração dos trabalhadores nos porões da CSN. Ficou nítida na INB, no Itatiaia (na entrevista ao Parquetur) e na CSN a importância de um discurso ambientalista, por vezes fajuto, em detrimento de sérios problemas socioambientais. Foi visível nessa viagem o quão presente é o capitalismo verde nos discursosinstitucionais,esteideologicamentemascaradodeambientalismogenuíno. Alémdisso, foiótimaparaumaanálisedocapitalocenoeseusimpactosmesmoemambientescompletamente distintos,mostrandoquemesmoa"preservaçãoambiental"émediadopelosinteressesdocapital, o espaço urbano é privatizado e o natural é concedido a empresas privadas que não visam nada alémdelucro.

Relato7:

Nesta viagem eu tive a sensação de estar verdadeiramente revigorada, acho que foi a primeiraviagem que fiz com a escola desde o fundamental 1, e foi muito legale importantepara mim, principalmente estando na parte alta, aonde neste local, pode fazer uma trilha (uma experiênciaquenuncatinhatidoantes,pelomenosdeondeminhamemóriaalcance).Natrilhaeu me senti calma, e isso foi muito marcante tendo em mente que nos últimos tempos eu estive em momentosdifíceisquefizerameusentirquenuncamelhoro,emumcicloeterno,logoestouneste processodeumabuscapormudançaemelhorademim,ecomissoeuprecisodessasensaçãoque algo está mudando, e poder sentir verdadeiramente um recomeço foi extremamente importante para mim. Eu senti ao realizar as trilhas, que estava completando algo então fiquei bem feliz, e essa sensação de felicidade me fez sentir muito bem. Gostei muito da cachoeira e das interações sociaistambémjáquetenhotidodificuldadenesteaspecto.

A CSN me chamou muita atenção, consegui relacionar muito com as aulas de história, e me chocou muito pois apesar de já ter consciência é bem diferente ver mesmo. Tirando todo o discurso positivo em um ambientetão difícil, e de “eu ajudo, o meu trabalho ajuda no progresso, eutrabalhoesofropelomeupaíscomorgulho”.

Relato8:

Acho que o que mais me marcou na viagem foi a subida no morro do couto, e a ida na UsinaPresidenteVargas daCSN.Eujátinharealizadoaexperiênciadecaminhadaantesumano atrás numa viagem que eu tinha feito pra Patagônia, porém em Itatiaia eu tive uma experiência diferente de teste delimites, porque fui até onde eu consegui escalar no pico mais alto do morro, até o ponto em que me dava vertigem. Me bateu um sentimento de angústia pois sabia que eu poderia ter ido mais longe, porém já tive uma conquista de querer ir ao lugar que também uma partedaturmatevemedooucansaçodeir.Queriamuitosabercomoseriaavistaládecima,vendo o pessoal que conseguiu chegar no topo. A CSN foi uma experiência desgastante, pois tive uma vivênciadistópicadoqueeuvivo,poisVoltaRedondaéumacidadecompletamenteindustrial.A área de trabalho de lá tem uma temperatura tão forte e condições tão extremas, que me pergunto como que o povo da cidade vê aquele lugar como um espaço salubre de trabalhar. É tamanha a alienaçãoqueopovodelásofre,pois,aeconomiadacidadegiraemvoltadaCSN.

Me destacou mais o ponto de que Vargas cria o parque nacional na área da capital pois, assim como o parque Yellowstone, uma nação poderosa e em ascensão tem que ter também um parque nacional. Ele se espelha muito em ideais de fora tanto para a economia quanto para as belezas da nação. Além de queGetúlio Vargascria o Parque do Itatiaia, nãosó como uma cópia deYellowstone,mastambémcomoumaespéciedealimentaçãodecombustívelparaaCSN,pois asiderúrgicautilizadaáguadaregiãoparaabastecerasuaprodução.UmpontosobreaCSN,mais sobreasentrevistas,équeaomesmotempoquemuitosreclamamdapoluiçãodoar,muitosfalam das boas condições da empresa. Muitos que conheciam trabalhadores da CSN diziam que os indivíduos elogiavam as condições de trabalho de lá. Se não eram conhecidos, próprios extrabalhadores afirmavam que adoravam trabalhar lá. Parece que ao mesmo tempo que a CSN prejudicaacidade,asuaeconomiagiraemvoltadaCSN.

Relato9:

Uma sensação minha foi a perda de escala das coisas, é como se algo que é absurdo para mim(comoosacidentesnaCSN)fossetrivialparaaspessoasdelá,alémdequenoPNIéestranho em parte pensar que aquelas pessoas veem vistas incríveis todos os dias. Portanto, poder ver as diferentesperspectivasdaspessoassedestacouparamim.

ArelaçãodemutualidadeedependênciaqueeupercebitantonoPNIquantonaCSN/Volta Redondasãocompletamentediferentes.ParaaspessoasdoPNIsuapreservaçãoéessencial,porém as ações sob os moradores a partir do ICMBio é de exclusão e expulsão (pois de acordo com o ICMBio o PNI tem que ser uma área de preservação com apenas natureza) e também o posicionamento “neutro” da Parquetur (a concessionária do parque) é falho, já que como uma empresa externa que visa ao lucro ela se intromete nas relações entre os moradores e o instituto (querendotrazerpessoasaoparque).

Já em Volta Redonda a população mostra uma admiração pela CSN, dizendo que as condições de trabalho lá são ótimas e que a empresa movimenta a economia da cidade, contudo quando fomos dentro da CSN fica evidente que as condições de trabalho são péssimas, com acidentes constantes, cheiros químicos nocivos, escalas de trabalho desgastante e temperaturas

elevadíssimas. Além de que de acordo com as entrevistas que realizamos a população reconhece que a privatização de empresa apenas piorou o que já estava ruim, porém a privatização para a CSNfoiumgrandemarcodeprogresso.

Relato10:

Oquemaismemarcounaviagemfoiadiferençapercebidaentreoshotéisemqueficamos hospedados. O hotel de Itatiaia, apesar de não ser ruim, apresentava limitações estruturais que acabavam comprometendo o conforto em alguns aspectos. Era um local simples, com algumas qualidades,masquedeixavaclaroumcontrastequandocomparadoaohoteldeVoltaRedonda.Já este último possuía uma estrutura muito mais robusta, confortável e organizada, oferecendo uma experiênciadehospedagembemsuperior.Essacomparaçãoentreosdoishotéisrevelanãoapenas a diferença de qualidade nos serviços, mas também a discrepância econômica entre as duas localidades. Enquanto Itatiaia apresentava condições mais modestas, Volta Redonda mostrava maior investimento, refletido até mesmo nas condições dos espaços de lazer, como percebi ao jogarbolaemambososlocais,ondeadiferençadequalidadeerabastantenítida.

Outro aspecto marcante da viagem foi a mudança de ambiente percebida entre as duas cidades. Em Itatiaia, o contato com a natureza se destacou, principalmente nas visitas às cachoeiras. A preservação ambiental da região oferece um cenário de tranquilidade e beleza

natural,permitindoummomentodedescansoe afastamentodo barulho e dacorreriadasgrandes cidades. Esse ambiente transmite uma sensação de simplicidade e calma, evidenciando o esforço emmantervivaapaisagem natural.Poroutrolado,aochegarmosemVolta Redonda,arealidade encontrada foi bem diferente: uma cidade movimentada, com trânsito intenso, grande circulação de carros, poluição visual e um ritmo de vida urbano muito mais acelerado. A presença da CSN, umadasmaioresempresasdaregião,evidenciaocaráterindustrialdacidade,queseorganizaem tornodelae,decertaforma,dependediretamentedesuasatividades.

Essa diferença entre as duas cidades também reflete questões sociais e econômicas.

Enquanto Itatiaia apresenta sinais de maior precariedade econômica, mas preserva um contato mais próximo com o meio ambiente, Volta Redonda destaca-se pela força industrial, mas ao mesmo tempo sofre com os impactos da urbanização acelerada, como a poluição e a sobrecarga da infraestrutura urbana. Essa dualidade permite refletir sobre como diferentes modelos de desenvolvimento um mais voltado à preservação ambiental e outro à industrialização impactam diretamente a vida cotidiana, a qualidade de vida da população e até mesmo a forma como o visitanteexperimentacadalugar.

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Esta revista foi produzida pelos

Alunos da 2ª série

EM - Carandá Educação

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