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Revista Cicatrizes_9º ano_edição_2025

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r o f e s s o r e s :

Dayana Silva Tecnologia
Mercia Suzuki Geografia
Natascha Paiva Língua Portuguesa
Rogê Carnaval História
P
Alice Medeiros 9A
Bento Pavoni 9A
Caio Palma 9A
Eduardo Gaion 9A
Eric Golman 9A
Enzo Murano 9A
Felipe Araújo 9A
Francisco Soares 9A
Gabriel Fernandes 9A
Gustavo Galiano 9A
Isabele Almeida 9A
João Mattar 9A
Laura cheidith 9A
Malu Bichara 9A
Mariana Donnini 9A
Eduarda Dionísio 9A
Mateus Teixeira 9A
Miguel Firmino
Miguel Predebom
Sofia Vallim 9A
Laura Martini 9B
Rafael serrano 9B
Luca Saad 9B
Gael Santos 9B
Sophia Bertoni 9B
Tomás Rios 9B
Guilherme Sarni 9B
Raul Bonilha 9B
Pedro Pifaia 9B
João Rezende 9B
Natan Binoki 9B Pedro Henrique 9B Fernando Loprete 9B
Pedro Moni 9B
Pedro Vergna 9B
Sophia Saad 9A
Maria L Bechere 9B
Mateus Galvão 9B
Maria L Berzoti 9B
Mira Chama 9B
Leonardo Crespo 9B
Vinicius Campbell 9A
Antônio Armani 9B
Giovanna Pancher 9B
Lara hirai 9B

ÍNDICE

Entrevista - Eduardo Gaion, João Madi, Raul Bonilha e Tomás Rios páginas 08 a 12

Resenha - Laura Martini e Maria Luísa Bechere página 13

Resenha - Maria Luiza Berzoti e Sophia Bertoni

páginas 14 a 15

Reportagem - Guilherme Sarni, Pedro Pifaia e Natan Binoki

páginas 16 a 17

HQ e Charges - Felipe, Vinicius, Matheus e Éric página 18

HQ - Miguel Predebom e Maria Eduarda página 19

Entrevista - Mariana De Lima Donnini páginas 20 a 21

Reportagem - Pedro Vergna, Rafael Serrano e Leonardo Crespo páginas 22 a 24

Resenha - Mira Chaia________________________________ página 25

Reportagem - João Pedro Mattar e Francisco Soares______________________________________________ páginas 26 a 27

Entrevista - Alice Medeiros, Giovana Pancher e Lara Hirai páginas 28 a 31

Crônica - Isabele Kraiczyi e Malu Cintra página 32

Crônica - Pedro Mony e Enzo Murano página 33

Artigo de opinião - Bento Pavoni, Luca Saad e Fernando Lo Prete página 34

Artigo de opinião - Pedro Henrique Tauil de Pádua e Gabriel Ferreira página 35

Resenha - Antônio Armani página 36

Artigo de opinião - Gael Santos, Gabriel Fernandes e Miguel Firmino página 37

Entrevista - Mateus Teixeira, Gustavo Galiano e Caio Palm páginas 38 a 39

Editorial

Vivemos um mundo em que a violência ainda deixa marcas profundas Resistir a isso é, de certa forma, criar algo novo A Revista Cicatrizes 2025 surge mais uma vez como resultado do encontro entre educação, arte e reflexão, mostrando que a palavra pode ser um gesto de esperança, como aponta Byung-Chul Han em O espírito da esperança, quando afirma que “a esperança é uma força que projeta o futuro e rompe o desespero do presente”

Nesta edição, os alunos e alunas apresentam diferentes ideias e experiências em entrevistas, charges, reportagens, crônicas, HQ, resenhas e artigos de opinião Os estudantes investigaram as cicatrizes deixadas pela colonização em cidades de Minas Gerais, resgataram memórias esquecidas da cultura africana, exploraram a literatura decolonial como forma de resistência e mostram na atual edição, com cuidado e atenção, como as relações sociais influenciam o nosso presente, articulando-se ao tema central desta edição: “Palavras de resistência contra violências: a persistência da esperança”, e nos convidando a imaginar que futuro é possível para nós, enquanto seres que constroem caminhos coletivos

O tema desta edição, “Palavras de resistência contra violências: a persistência da esperança”, nos convida a ouvir e dialogar As produções mostram que resistir não é apenas sobreviver, mas também imaginar novos caminhos Cada texto, cada imagem e cada pesquisa é como uma pequena semente de transformação plantada na escola e na sociedade

Em tempos difíceis e incertos, acreditamos que a palavra de esperança é o primeiro passo para recomeçar Esperamos que esta edição inspire a leitura, a troca de ideias e, sobretudo, ações decoloniais que transbordem da teoria para a prática, promovendo transformações concretas em nosso cotidiano e um olhar novo sobre a importância de um mundo mais justo e humano

Editor: Alunos do 9º ano

Coordenação de conteúdo: Alunos do 9º ano

Revisão: Natascha Paiva

Projeto gráfico: Alunos do 9º ano

Design e diagramação: Dayana

Silva, Laura Cheidith e Sophia Saad

Arte-final: Dayana Silva, Laura Cheidith e Sophia Saad

Supervisão editorial: Dayana Silva, Mercia Suzuki, Natascha Paiva e Rogê Carnaval

Parditude em Ascenção

Uma entrevista com a pesquisadora Beatriz Bueno, criadora do movimento da parditude.

Em um país construído sobre misturas, mas ainda marcado por silêncios quando o assunto é raça, o que significa ser pardo no Brasil? Essa pergunta, tantas vezes negligenciada, está no centro do trabalho de Beatriz Bueno, graduada em Formação Cultural pela Universidade Federal Fluminense e atualmente mestranda no Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades da mesma instituição. Atua como pesquisadora, ensaísta e idealizadora do conceito de Parditude, uma proposta que busca dar nome, forma e voz a uma identidade frequentemente invisibilizada, que transita entre fronteiras e carrega consigo tanto o privilégio da ambiguidade quanto o peso da exclusão

A “Parditude” surge como um convite à reflexão sobre as nuances da racialidade brasileira e sobre como o ideal de mestiçagem foi historicamente usado para apagar desigualdades Mais do que um termo teórico, trata-se de uma forma de reivindicar lugar, memória e pertencimento

Nesta entrevista, Beatriz fala sobre as origens do conceito, o impacto de sua trajetória pessoal na formulação da ideia e os desafios de propor um novo olhar dentro da academia Ela também reflete sobre o preconceito direcionado à população parda, as classificações étnicas do IBGE e as perspectivas para o fortalecimento desse movimento que busca afirmar: existir entre é também existir por inteiro

1. Você poderia falar um pouco sobre o que é ser pardo no Brasil e, a partir disso, explicar o que é a “Parditude” ? Trata-se de um conceito, uma pauta ou um movimento? E quais são os principais objetivos que ela busca promover?

Beatriz Bueno - Ser pardo no Brasil, é ser uma pessoa mestiça das misturas entre branco e preto ou branco e indígena ou indígena e preto, dentre essa tríade ou os três grupos São pessoas que essa mistura se revela na aparência física, então você olha para ela e vê que ela tem características físicas misturadas, então isso é ser pardo, e “Parditude” é basicamente dar foco investigar estudar as experiências das pessoas que vivem nesse grupo, com essas características, como a sociedade às lê, o que a gente vive de diferente de quem não tem essas características.

Eduardo Gaion, João Madi, Raul Bonilha e Tomás Rios

2. O que motivou a criação do conceito de “Parditude”? De que forma sua trajetória pessoal e sua vivência como mulher parda influenciaram esse processo de formulação?

“Parditude” começou como uma pesquisa acadêmica que tem o objetivo de investigar as vivências das pessoas pardas de uma forma específica não considerando elas como negras, mas considerando elas como mestiças, de brancos e negros ou brancos e indígenas ou brancos, indígenas e negros, assim como diz o IBGE, que pardos são os mestiços de branco, indígena, pretos e pardos, da mistura de dois ou mais desse grupo, só que acabou se tornando um movimento digital, não é um movimento organizado, ainda, mas se tornou um movimento digital devido a visibilidade da divulgação que eu comecei a fazer na minha pesquisa (TCC "A Parditude, a Mestiçagem e a Identidade no Brasil", defendido em 2023), e as pessoas começaram a se identificar e se posicionar como parte de um movimento (“Parditude”) que apoia que os pardos sejam vistos dessa forma institucionalmente”

3. Como e quando surgiu o seu interesse pelos estudos sobre multirracialidade, e em que momento essa pesquisa se transformou na criação do conceito de “Parditude”?

O que motivou foi exatamente a minha vivencia pessoal, a princípio, porque quando morava em São Paulo e convivia com uma maioria de pessoas brancas, eu descobri todas as teorias do movimento negro e comecei a me dizer negra, e eu era aceita como negra nesses espaços de maioria branca, só que dentro dos próprios movimentos negros começaram a me questionar e falar que eu era branca, então eu percebi que eu estava nesse lugar de ser jogada de um lado para o outro, só que essa experiência pessoal não bastava né, eu tive que começar a conversar com muito mais pessoas e perceber que não estava acontecendo só comigo, a partir do momento que eu percebo

4. Como é o processo de propor e consolidar um novo conceito dentro da academia?

Quais desafios teóricos, institucionais ou pessoais você enfrentou ao desenvolver a ideia da “Parditude”?

Os meus interesses não começaram com estudos de multirracialidade, eles começaram com estudos de racialidade no geral né, foi em 2013 quando começou a ter aquelas manifestações no governo Dilma que eu fui introduzida a esses assuntos, eu tinha quinze anos, estava no segundo ano do ensino médio, eu comecei a amar estudar tanto raça quanto temas de feminismo né, então me apaixonei, aos poucos fui percebendo que existia uma lacuna que precisava ser estudada que era a lacuna dos pardos né, então fui me direcionando por esse caminho que não tá acontecendo só comigo, que já tem várias pessoas passando pelo mesmo eu decido estudar para ajudar essas pessoas e para ajudar a gente a criar esse novo espaço já que a gente tá sem espaço né, a gente tá sendo jogado de um lado para o outro

5. omo foi o seu processo de reconhecimento e afirmação como mulher parda, e como a “Parditude” pode auxiliar nesse percurso de autodescoberta e pertencimento?

Então, é muito difícil consolidar um novo conceito dentro da academia em um momento que as militâncias elas criam teorias que são como dogmas, para elas é mais interessante os interesses que estão sendo servidos do que a ciência né, então, hoje em dia ignorasse a ciência ignorasse a análise empírica de que os próprios pardos não se vem como negros né, e tenta impor o que a militância quer, o meu trabalho ele sempre foi muito alinhado com os interesses da militância no sentido de combater o racismo e tudo mais, mas por eu trazer algo diferente eu virei uma desviante né, e sou extremamente rechaçada, atacada, ridicularizada e meu trabalho é um trabalho de resistência né, para poder inovar dentro desse espaço que não aceita a diferença né, e é muito contraditório porque são movimentos que nascem para ensinar tolerância, as diferenças, só que eles não toleram diferença do que eles estão propondo, então é bastante contraditório, bastante difícil, sinceramente.

6. Na sua avaliação, quais são as principais diferenças entre o preconceito vivido pela população parda e aquele enfrentado pela população preta? Essa diferença é apenas de intensidade ou também de natureza?

Então, as diferenças do preconceito vivido da população parda e da negra, é, pelos dados não tem uma diferença grande de intensidade, é, por isso até que uniram os grupos porque eles viram que nas estatísticas as profissões mais subalternas tinham pardos e pretos né, as taxas de mortalidade infantil pardos e pretos, então muitas coisas tinham pardos e pretos de forma semelhante. Mas, o pardo ele vive à ambiguidade de ser mestiço né, então o negro, ele sofre com o racismo estruturalmente, mas se ele vai chegar no movimento pra falar sobre isso ele não vai ser questionado, não vão olhar pra cara dele e dizer ‘ah, mas você nem é nada disso’,

néentãoeletemummomentoemqueelepode seracolhidoemsuasdores,criaruma comunidade,enóspardosestamosemum momentosemcomunidade,semacolhimento, emqueagentenuncasabesevaiseraceitoou não,entãoessaéaprincipaldiferença

7.Emsuavisão,qualseriaamaneiramais precisaqueoIBGEdeveriautilizarpara categorizaretnicamenteapopulação brasileira?

SobreascategoriasdoIBGE,euachoqueotermo pardoeleabrangedeumaformabastante interessanteaspopulaçõesmestiças,o problemaéquandopardoestásendopelo estatutodaigualdaderacialclassificadocomo negro,queaívocêapagaospardossãodesse nemdeindígenané,massevocê,é,levaem consideraçãoquenessegrupovãoteríndio descendentes,afrodescendentesné,eugostoda nomenclatura‘pardo’eachoqueelaésuficiente pracategorizar,nãoachoquetemquedividir maisparaoEstado,atéporquenuncafoidividido dessaformaagentetemdadosbemrobustos né,quemostramquetemfuncionado,aíoque nãotemfuncionadoéquerercolocarpardo comonegro,esseéoproblema,eissonãoéo queoIBGEfazné,issoéfeitopeloestatutoda igualdaderacialsóem2010,antesdissosão décadasedécadasdoIBGEusando‘pardo’e funcionando

8.Adivisãoétnicaéumaconstruçãosocialou algoobjetivobaseadoemfenótipos?E,partir disso,devemosutilizaraautoidentificaçãooua heteroidentificação?

Então,adivisãoétnicaelaéconstruçãosocial baseadaemfenótipos,entãoéasduascoisas construídosocialmenteapartirdaobservação dasdiferençasfenotípicasné,oracismoelefoi construídoassim,olhouasdiferençasdocorpo daspessoas,nocorpodopreto,corpodobranco, corpodoindígena,foramcriandoessasteorias né,porém,ocasodomestiçoelesediferencia porqueomestiçovaiteraparênciamisturadae aí sevocêquerusaromodelodeidentificação

quenãotemopçãomestiça,aautoidentificação eaheteroidentificaçãopodeserdiferente,quea pessoapodeterumavisãodesimesmaqueela émaisescuraealguémexternamentepodeter umavisãoqueelaémaisclara.Então,a autoidentificaçãoheteroidentificaçãoelas podemestardesalinhadas,masimportante perceberquesetemaopçãodopardoser mestiço,temmuitomenoscontradiçãoné,tem pesquisasquemostramisso.NolivrodaVeronica Toste‘Tãolonge,tãoperto’queéolivroqueela comparapardosepretos,têmláquea heteroidentificaçãoeaautoidentificaçãoémuito similarquandovocêdáaopção‘pardo’,mas quandovocêtiraaopção‘pardo’oucoloca pardoenegro,aspessoascomeçamaversó brancooupreto,brancoounegro,queénegroe pretosãosinônimosné,apessoacomeçaaver issoassimeaíalgunsvãoacharelamaisclara, vãoquererjogarprabranco,outrosvãoacharela maisescura,vãoquererjogarprapretoeaíessa autoidentificaçãoeheteroidentificaçãocomeça aserconfundidaporissosabe,assimqueeu vejo

9.Quaissãoasmetas,perspectivaseobjetivos domovimentoda“Parditude”paraospróximos anosequaissuascontribuiçõesparaa diminuiçãodoracismo.Comoessemovimento podecrescereganharforçaparaalcançarseus objetivos?

Então,asmetasperspectivaseobjetivasdo “Parditude”nospróximosanossãoqueeu consigacriarcadavezmaisconteúdos acadêmicoseconteúdosdigitaisné,praajudar aspessoaspardasaseencontrarem,ase posicionaremnoseulugareparater conhecimentocientíficosobrepessoaspardas, praterumabibliografia,falar‘nossaeuquero estudarospardos’enãotersófalandopardose negros,entãominhametaprincipalcomo intelectualéconstruirisso,construirumabase tambémnainternet,umacomunidadené,é,ea partirdisso,euesperoqueoutraspessoasse levantemparacomeçaratambémmobilizar

mudançasnaspolíticasné,naspolíticas públicasporqueeusouumaestudiosaesou umainfluenciadoradigital,eeuentendoque esseéomeulugarné,aíagenteprecisade maispessoasmobilizadaspra,porexemplo, estarnapolítica,eunãoqueroestarna política,nãoémeuinteresse,mastemqueter alguémláprarepresentarospardosné. Então,euficopensandooquantoo movimentotemqueexpandir,aperspectiva temqueexpandirparaagenteteroutras pessoasrepresentandoospardosné,em outrasinstâncias,porqueeunãotenhocomo darcontadetudo,aspessoasqueremqueeu váparaapolítica,queremqueeufaçaisso, cara,nãodá,eusouinfluenciadoraesou escritorané,entãomeuprincipalobjetivoé esse,quemaispessoassemobilizempara pegaracausaetrabalharnela,nãosóser consumidores,serparticipantesdeum

movimento,deumacrença,massertrabalha doisativosné Eaíeuvejoqueparaagente ganharforçaealcançarosnossosobjetivos,o movimento“Parditude”eleémuitopotente porqueeletemumpoderdemobilização coletiva,porquesemahistóriadomestiço,a gentetemummundoqueficamuitopolarizado brancoepreto,obonzinhoeomalzinho,o oprimidoeoopressor Agentetemtidomuitos problemascomessaperspectivaea perspectivadamiscigenação,elaéuma perspectivaquebuscaaintegraçãoné,da identidadenacionalbrasileira,auniãoentre nós Então,euvejomuitapotênciano movimento“Parditude”empoderresgatar mesmoopensamentodamiscigenaçãocomo aidentidadebrasileira,comoidentidade nacional,semreproduzirosracismosqueeram tidosantigamentené,falavamde branqueamentodapopulação,querejeitavam oslegadosdosnegrosindígenas,mas,é, mantendoamiscigenaçãocomoessesímbolo nacional,porquefazpartedanossahistória, nãoadiantaquerernegar,quererapagarné, entãoéisso Dessaforma,a“Parditude”se apresentanãoapenascomoumaproposta conceitual,mascomoummovimentoque buscapreencherumalacunahistóricanos debatessobreraçanoBrasil Aotrazer visibilidadeàsexperiênciasdaspessoas pardas,BeatrizBuenoevidenciacontradições, silênciosetensõesquepersistemnaforma comoopaíscompreendesuaprópria diversidade Suapesquisa,aomesmotempo acadêmicaevivencial,apontaparaa necessidadedereconheceramestiçagem comoparteconstitutivadaidentidadenacional semqueissosignifiqueapagardesigualdades. Assim,oestudoda“Parditude”contribuipara ampliarperspectivas,fortalecero pertencimentoepromoverumdiálogomais honestosobrequemsomosenquanto sociedademultirracialemconstante transformação.

ResenhaCapitãesdaAreia

Segurançapraquem?Violência policialemTropadeElite

TropadeElite(2007)obradirigida eroteirizada porJoséPadilha,sepassanocontextodoRiode Janeironadécadade1990retratandoaviolênciapolicialeurbanacomoaumentode operações doBatalhãodeOperaçõesPoliciaisEspeciais(BOPE) nasfavelas.

Ocontextonoqualessefilmesepassaéessencialparaentenderacríticadofilme,oRiode Janeiroqueéfrequentementeapresentadocomoumestadoviolentoerelacionadoaocrime,ao mesmotempoemqueérepresentadoporumcenárioexatamentedecríticaapartirdarelação desigualentreoEstadoeaspopulaçõesperiféricas,formadasmajoritariamenteporpessoas negras,quesãotratadascomohostis,perigosaseameaçadorasatédentrodesuaspróprias casasoubairros

Ofilmepodeseranalisado,muitasvezes,de formasuperficialcomosedesseaentenderque háumaglorificaçãodaforçapolicialmostrada atravésdeumfilmedeação,quandona verdadesetratasim,deumarepresentação feitaparanosdeixarincomodadosdeforma intensaeimersiva,deumaestruturasocialque moldaasrelaçõesentrepoliciaisecivis baseadanacordapele,nosmorros,nopoder econômicoenasrelaçõesinterpessoais,algo intrínsecoquereproduzosvaloresherdadosdo colonialismo

Deumaperspectivadecolonial,oBOPEéaquele queexerceocontroleforçadosobrepessoas dasáreasperiféricas,jáquesãoosúnicos treinadosparairemondeapolíciacomumnão entra,reforçandoaideiadequefavelase morros podemsertratadoscommenos respeitoecombrutalidade sobaalegaçãode umdiscursodeguerraàsdrogaseode derrubarocrimeorganizado,talcomoocorreu nachamadamegaoperaçãonoscomplexosdo AlemãoedaPenha,noRiodeJaneiro,nodia29 denovembrode2025

Olonga-metragemexpõedemodoconvincente comoapermanênciadashierarquias estabelecidasnoperíodocolonialafetanossa sociedadeatual,principalmente,emoperações queceifaramavidade121pessoas.

Acríticadofilmenãodependeapenasda narrativaficcional,podendosersustentada pordadosconcretosquecomprovama perduraçãodalógicainjustaehierárquica dosistemajudicialelegal,segundooAtlas daViolência(IPEA/FBSP,2023),oriscode umapessoapretaserassassinadaé2,2 vezesmaiordoqueumindivíduonãonegro noBrasil

Em2021,oRiodeJaneirofoiumadas poucasunidadesfederativasforadoNorte edoNordestearegistrarumataxade homicídiodepessoasnegrasacimada médianacional,comasoperaçõespoliciais emcomunidadesquatrovezesmaisletais doqueembairrosdeclassemédia.

Apartirdosdados,pode-seafirmarque TropadeElitenãoéumaobra sensacionalistaouexagerada,massim, umasituaçãoqueperpetuaaherança colonialdeolharafrodescendentescomo desonestas,criminosaseademarginalizar pobres,pardosenegros,comointuitode manterocontroleaodiminuiregeneraliza todoumgruposocial

Aorepresentarocotidiano,TropadeElite expõecomoocombateaocrimecai seletivamentesobrecorposracializadose sociedadenaturalizapráticasautoritárias quandodirigidasaumaparcelada sociedade,aprofundandoahipocrisia social,talcomoafirmaocapitão Nascimentonofilme:

“Quantascriançasagentevaiterque perderparaotráficoparaqueumbranco declassemédiapossaenrolarum baseado?”

TropadeElitepermanececomoumadas produçõescinematográficasmaisimpactantese memoráveisdoBrasil,exatamentepela exposiçãodesituaçõesdesconfortáveisque normalmentesãoevitadasouescondidas, porémessenciaisparaasdiscussõessobreo modelodesociedadequesemantématéhoje, evidenciandoapermanênciadopensamento colonialquenosparecemuitodistantede acabar

Valeapenaassistiraofilme,mas,nãocomo merafontedeentretenimentoesim,comum olharcríticoeanalítico,abrindoespaçopara reflexõessobreoracismoestruturalecomoessa herançacolonialinfluencianoâmbitojurídicodo país.Nessesentido,ofilmeéextremamente importanteporevidenciaraformadecomoo

Estadolidacomaspopulaçõessocialmente marginalizadas,sobretudo,serefletirmospara queméproporcionadaasegurançaprometida pelasforçasestatais?Todossãotratados igualmenteperantealei?

Sãoessasperguntasquesãoinstigadasnofilme trazendoanecessidadedesepensara decolonialidadenasrelaçõesdoracismo estruturalenopré-conceitocriadosobre pessoassocialmentemarginalizadas,expondoa violênciapolicialcomoformadesesolucionar situaçõesdadesigualdadesocial

CapadofilmeTropadeelite

Racismo nas Escolas

Umproblemaaserenfrentadotodososdias

Oracismoéumaformadediscriminação baseadanacordapele,naorigemétnica enaculturadaspessoas Infelizmente, esseproblemaaindaestápresenteem váriosespaçosdasociedade,incluindoas escolas.Muitaspessoasacreditamqueo racismoficounopassado,porémele aindasemanifestadediversasformas, algumasdelasocultas,difíceisde perceber

UmapesquisadaInteligênciaem PesquisaeConsultoriaEstratégica(IPEC), queouviu2milpessoas,emSãoPaulo, mostrouque38%dosentrevistados sofreramracismonaescola/faculdade /universidade,umpercentual considerável.Segundoumlevantamento daSEDUC-SP,asescolasestaduaisdeSão Pauloregistraram4554casosdeinjúria racial,entrejaneirode2024ejulhode 2025,sendoumamédiade8casospor dia.Amaiorpartedasocorrências aconteceramnointerior(55,9%),seguido dacapital(24,3%),regiãometropolitana (18%)elitoral(1,8%) Noentanto,acreditasequeessesnúmerospodemsermaiores devidoasubnotificação.

Nassalasdeaula,oracismopode aparecerempiadas,apelidos,olharesde desprezoeoutrasatitudes Essas situaçõesfazemcomquemuitosalunos vítimasdoracismosesintaminvisíveis, desvalorizadosedesmotivadosa participardasatividadesescolares DeacordocomoFundodasNações UnidasparaaInfância(UNICEF),crianças

eadolescentesnegrosaindasãoas maioresvítimasdepreconceitoe violênciadentroeforadaescola

Pesquisastambémmostramqueo racismoafetaodesempenhoeo rendimentoescolar,aumentao númerodefaltasepodelevarao abandonodosestudos

Porisso,ocombateaoracismodeve serumagrandepreocupaçãodas escolas.

ALei10639/2003éaLei11645/2008, porexemplo,tornouobrigatórioo ensinodaHistóriaeCulturaAfroBrasileiraeindígenaemtodasas escolas.Essaleiéumpasso importanteparavalorizara contribuiçãodopovonegrona formaçãodoBrasil Aleituradelivros comoVielaEnsanguentadaeQuarto deDespejo,dosautoresWesley BarbosaeCarolinaMariadeJesus, alémdeoutrasobrasqueabordamo racismoéfundamentalparaa formaçãodeumaconsciência antirracista,poisnosfazrefletirsobre asinjustiçashistóricasecompreender aimportânciadorespeitoeda igualdadenaconstruçãodeuma sociedademaisjusta

Masocombateaoracismonão dependeapenasdasleiseleituras.É precisomudaratitudese comportamentos Quandoalguém presenciaumasituaçãoderacismoe

GuilhermeSarni,PedroPifaiaeNatanBinoki

fingequenãoviu,estácontribuindopara queoproblemacontinue Professores precisamestarpreparadospara identificareintervirnessescasos, mostrandoaosalunosqueoracismoé crimesegundoalei7.716/1989,significa queorespeitoéumvalorinegociávelcom todos

Nãobastaapenasdizerque“todossão iguais”;éprecisoagirparagarantirque todossejamtratadosdamesmaforma O primeiropassoéreconhecerqueo racismoexisteequepodeestarmuito maispróximodoqueimaginamos. Combateroracismoéumdeverdetoda acomunidade:professores,estudantese famílias,paraqueoambienteescolar seja,defato,umespaçodeaprendizadoe inclusão.

“as escolas estaduais de São Paulo registraram 4 554 casos de injúria racial, entre janeiro de 2024 e julho de 2025, sendo uma média de 8 casos por dia. A maior parte das ocorrências aconteceram no interior (55,9%), seguido da capital (24,3%), região metropolitana (18%) e litoral (1,8%) No entanto, acredita-se que esses números podem ser maiores devido a subnotificação.”

HQ’S E CHARGES

Felipe,Vinicius,MatheuseEric

Desfile do Século Errado Desfile do Século Errado

AHQmostraumdesfilede modaondeváriasmodelos recebemaplausos,atéque umamulhernegraentrana passarelaeopúblico simplesmenteficaem silêncio.Semdrama exagerado,sóaquele incômodofamiliardequem jápercebeuqueospadrões estéticosaindaseguema lógicacolonial.

Nocamarim,emvezdese abalar,elafazumalivee recebeumaenxurradade apoiodequemrealmentea enxerga.Ofinalvirauma pequenaviradadejogo:ela nãoesperavalidaçãodeum públicopresonopassado, porquesuabelezae presençanãodependemdo olharcolonial.Éumacrítica rápida,afiadaecomum toquedehumoraomostrar queoaplausocertonem semprevemdopalco,às vezes,vemdequemestáfora dele!

AMAR É RESISTIR

PADRE JÚLIO LANCELLOTTI E A ESPERANÇA NAS RUAS “AMO-TE PORQUE NINGUÉM TE AMA. É JUSTAMENTE O QUE ESSE SISTEMA NÃO QUER.”

MARIANA DE LIMA DONNINI

Emumpaís,ouemumsistema,emqueocapitalsesobrepõeàsvidashumanas,a resistêncianãoéapenasnecessária,maséumatodeamor AfiguradopadreJúlioLancelotti éamaterializaçãodestadialéticaentreaexclusãoeahumanidade ÀfrentedaPastoraldo PovodeRuadeSãoPaulo,ocotidianoéumatopolítico,desdeaalimentaçãodapopulação semtetoaremoçãodeestruturasquesimbolizamaarquiteturahostil.Nessaentrevistaà RevistaCicatrizes,elerefleteacercadaesperançafrenteàsviolênciascontemporâneas, comopráticadeproteçãodosvulneráveis Aofinaldaconversa,opadrerecomendaaleitura daDilexiTe,exortação,apostólicaquedialogacomsuafalaepráticacotidiana,aodenunciar que“Ospobresnãoexistemporacasoouporumcegoeamargodestino”

Aviolênciamaior,dizo padre,éestarnarua “O fatodeestarnarua,de nãoterumahabitação,de nãoterintimidade Euma violênciamuitograndeéa negaçãodasubjetividade, écomoseelesnão tivessemsubjetividade.A gentevivenumacultura neoliberalextremamente individualista,masquenão osconsiderapessoas” ComodescreveaDilexite “Naverdade,existem muitasformasdepobreza: adaquelesquenãotêm meiosdesubsistência material,apobrezade quemémarginalizado socialmenteenãopossui instrumentosparadarvoz àsuadignidadee capacidades[ ]apobreza dequemnãotemdireitos, nemlugar,nemliberdade.

Mas,comolembraaDilexite,essas pequenasesperascontrastamcomum sistemaqueseestruturanadesigualdade “Hámuitoshomensemulheresque trabalhamdemanhãànoite,recolhendo papelão,porexemplo,ourealizandooutras atividadessemelhantes,emborasaibamque esteesforçoserviráapenasparasobrevivere nuncaparamelhorarverdadeiramenteas suasvidas Nãopodemosdizerqueamaioria dospobresestãonessasituaçãoporquenão obtiveram‘méritos’,deacordocomafalsa visãodameritocracia”

Nessecontexto,paraopadre,resistirdiante dessasadversidadesésetornarvulnerável “Estardoladodosvulneráveistetorna extremamentevulneráveleextremamente combatido.Porque,quandovocêestánum sistemaquegeraextremadesigualdadeese colocaaoladodosquemenossão considerados,vocêéatingidotambém,ede maneirabastantecruel.”.Adesigualdade, lembraaexortação,éestruturaleproduzida: “Aumentouariqueza,massemequidade,e assimnascemnovaspobrezas.”

Aofinaldaentrevista,opadreindicaa leituradeumdocumentoquepoucos ouvirammencionar,aexortaçãoapostólica Dilexite,queemlatimsignifica“Amo-te” “Elatemtrechosqueoriginalmenteeramdo PapaFrancisco,masforamassumidose complementadospeloPapaLeão Oque chamaatençãoéqueelasaiunodia9/10e hojeédia12/10,eninguémouviufalarda DilexiTe Ninguémfala,porqueháum apagamento Oqueestáhavendoé:“não vamosfalardissoparaqueninguémse preocupecomisso” Comoémuitofortee muitochocante,émelhornãocitar Então, nãocitarparanãogiraroalgoritmo,para queaspessoasnãoprocuremleresse documento.PorqueDilexiTe,emlatim,quer dizer“Amo-te”.Ejustamenteestádizendo: “Amo-teporquevocêénada.Amo-te porqueninguémseimportacomvocê. Amo-teporquevocêéinsignificante.Amoteporqueninguémteama”.Éjustamenteo queessesistemanãoquer.”

PadreJúlionãobuscavencer,poisno sistemaatual,osqueganhamsãoaqueles quesealinhamàsregrasdadesigualdade Sualutaéserfielaosprincípiosqueoguiam Aresistênciaserevelaematoscotidianos depresençacomopovovulnerável, integrando-seeosamando Comoaponta aDilexite:“ocompromissoemfavordos pobresepelaerradicaçãodascausas sociaiseestruturaisdapobrezaainda continuainsuficiente”,mesmodianteda vulnerabilidade,aatuaçãodeLancelotti continuaessencial

RACISMONO FUTEBOL

Comoasgrandesfederaçõestemsecomportado comonúmerocrescentedecasosdepreconceito noesporteeoquepodeserfeito

Nosúltimosanos,oracismopassouaocuparum papelcentralnasdiscussõesesportivas.Afinal, frequentemente,vemoscenaslamentáveisde torcedoresdesrespeitandojogadoresnegroscom cantosracistas,imitaçõesdemacacos,entre outrasmanifestaçõesextremamente preconceituosas Temoscasosinclusivede racismodentrodocampo,ocorrendoentreos jogadores.

Infelizmente,naLibertadores,maiorcompetição declubesdaAméricadoSul,sãorecorrentesos casosderacismoportorcedores,especialmente empartidascontratimesbrasileiros Dentreesses casos,temosumabsurdo,ocorridonocomeçode 2025.NaLibertadoresSub-20,ojogadorLuighi,de apenas19anos,doPalmeiras,foialvodeataques racistasporpartedatorcidadoCerroPorteño. Issomesmo:umjogador,recém-chegadoaidade adultafoialvodeinsultosracistas ViníciusJúnior setornousímbolodalutaantirracistanoesporte apósváriosincidentesnaEspanha“Baila,Vini” rodouomundo.Ojogadorsuperouas adversidades,setornouoprincipaljogadordo RealMadridvencedordaChampionsLeaguena temporada23/24,eficouemsegundolugarna BoladeOuro,principalprêmioindividualdo futebol,empleitoaindabastantequestionado TudoissotornouViniestesímbolo,enosajudaa passarumamensagemmuitofortesobreestes problemasdomundocontemporâneo.

ViníciusJúniorsetornousímbolodaluta antirracistanoesporteapósváriosincidentesna Espanha

que pelo menos em parte a federação está conquistando seus objetivos Isto não justifica o aumento absurdo nestes últimos 10 anos Além disso, de acordo com outro estudo, cerca de 41,8%dosjogadoresnegrosqueatuamnoBrasiljásofreramataquesracistas

Apesardosesforços,onúmerode incidentesracistasnofutebol profissionalinglêscresceuentreas temporadas23/24-24/25,deacordo comaorganizaçãobeneficenteKickIt Out.Osnúmerospassaramde223 para245entreestastemporadas, colocandoemxequeosesforçosda entidadecontraoracismo.Este mesmoestudotambémapontou aumentonoscasosdesexismoe transfobia,novamentelevantando questõessobreorealempenhoe efetividadedaentidadequantoaos preconceitosnosestádios

Atualmente,éimprescindívelocompromissodasmaisimportantesentidadesesportivasnocombateao racismo.ProgramascomooNoRoomForRacismeas“leisViníciusJúnior”sãoextremamentenecessárias. Afinal,ocombatepassaprimeiropelapuniçãoaosatosracistas,porexemplotirandopontosdetimescuja torcidacometeatospreconceituosos,atécombatendooracismodeformaestrutural,promovendoinclusãode gruposétnicosmaisdesfavorecidosnoesporteapartirdeaçõescomoosprogramasdecoachingdaPremier League.Estasaçõessãoindispensáveis,masnãonecessariamentevemtrazendoresultados,comoapontam aspesquisasjávistas Umapropostaquepoderiaseradotadasãocampanhasdeconscientizaçãoquefoquem nosespectadores,tantoosqueestãodentrodoestádioquantoosdatelevisão

“Umdiadecadavez”,emportuguês,erauma sériequecontavademaneiradivertidao cotidianodafamíliaÁlvarez,cubana,vivendo emLosAngeles,nosEstadosUnidos,nosanos de2017

Asérieabordavaemassuntosimportantes comosaúdemental,alcoolismo,gênero, sexualidade,misoginiaexenofobiade maneiradescontraídaedelicada,fazendoum

girodecolonialarespeitodasociedade ocidentaledeestigmascontraa comunidadelatinadentrodopróprio continenteamericano.

Emváriosmomentosospersonagens enfrentavamsituaçõesdexenofobiae deracismofazendoindiretasao governoeàsuapolíticaagressivade deportação,presentesnogovernoatual Damesmaforma,oroteirotinhaa tendênciaderivalizarpoliticamente Cuba,criandoumafalsasuperioridade dosEUA,detalmaneiraqueemumdos episódios,umdospersonagensaparece comumacamisetadeCheGuevara comparando-ocomHitler,oqueestá completamenteequivocado Issosedá emfunçãodosocialismocubanonão beneficiaroimperialismoamericano, então,osEUAsemprepromovemuma propagandanegativadeCuba

Além do humor e da leveza, a série One Day at a Time é uma referência para a comunidade LGBTQIAPN+ Ainda que apresente traços do nacionalismo estadunidense e do antagonismo político em relação a Cuba, a produção é um giro decolonial por tratar de assuntos considerados tabu na sociedade ocidental. Por estas e outras razões, é uma série que deveria ser vista por todos aqueles que desejam assistir e refletir sobre narrativas decoloniais.

Apóstrêstemporadas,aNetflixcancelouasérie, infelizmentealgocomumquandosetratade produçõescomtemáticasdecolonial Aemissora estadunidensePopTVrenovoumaisuma temporada,poréméinacessíveloficialmenteparao Brasil

M i r a C h a i a
Racismo

estrutural:

veja como ele atravessa a vida de pessoas negras e de que forma elas lutam

contra essa desvirtude da sociedade brasileira.

Oracismoestruturalpodeimpactaravidadepessoasnegrasdediferentesmaneiraseem diferentesaspectos,sejameleseconômicos,sociaisouacadêmicos.

Oracismoestruturaléumacaracterísticainegável dasociedadebrasileiradesdeoperíodocolonial, quandoapopulaçãonegraeraescravizada, exploradaetratadacomoinferior Oracismopodia servistodeformaexplícitainclusivenasnossas televisõeshápoucotempo,nasnovelasde grandesemissorascomoaRedeGloboera comumquepersonagensnegrostivessemapenas pequenospapéisinterpretandoempregadose pessoasdeclassebaixa.Agora,em2025,fazmais de136anosqueaescravidãofoiabolida,mas, mesmoassimdiversosobstáculosfazemparteda rotinadepessoasnegras

Umapesquisafeitaporumgrupodo nonoanodaescolaCarandá Educaçãoemoutubro2025,buscou entenderdequalmaneiraaspessoas negrasdediferentesáreasde trabalhobuscamounãoresistirelutar contraosistemaqueasdesfavorece

Asentrevistasfeitascompessoasque seidentificamcomopretasnos mostraramumarealidadetriste, porémlotadadeesperança,osnonos anosdaescolafizeramaleiturade umlivrodofilósofoByungChulHan quetratavajustamentesobrea esperançaecomoelatemopoderde mudaromundoemquevivemos, segundooautorelatemopoderde combateromedoetornararealidade maisagradável Apresentesociedade temesperançamasqueaindanãose tornouumacoisaconcreta,portanto, cadaumtemoseuprópriojeitode lidarcomarealidade,“Achoquenão resistoenemluto,eunãolutopor medodenãoseraceita.”,disseuma entrevistada.

“Euresistoelutocontraoracismo frequentandolugaresquenãoforam destinadosapessoascomoeu”Afirmaoutra Tambémépossívelpercebercomooracismo atravessaavidadecadaumadessas pessoas,paraquasetodas/todosos entrevistadosoracismointerfereemsuas vidasdediferentesmaneiras:“naminhaépoca foidifícil,muitobullying,perdiempregos” Esse depoimentofoifeitoporumamulherde52 anos,segundoelaascoisasmelhoraram,“hoje aspessoassãomaisconscientes”

Nasentrevistas,oracismoqueestápresente naestruturadanossasociedade,oracismo estrutural,tambémfoimencionadopelos entrevistados.Elesnoscontaramsobrealguns dosseusobstáculos,eemváriasentrevistas,a cordepeleeramencionada.Masafinaloque éoracismoestrutural?Éopreconceitoea discriminaçãoracialqueestãoconsolidados naorganizaçãodasociedade,privilegiando determinadaraçaouetniaemdetrimentode outra.Essetipoderacismoéextremamente difícildecombaterpoisnãosãoapenas simplesatos,massimumsistemadeumpaís inteiro.

Osentrevistados,osestudosdecoloniaisque fizemosduranteoanoeasnossasvivências pessoaisnosajudamacompreendercomoo racismoestruturalinfluencianatrajetóriade vidadepessoasnegrascomoumdificultador eumobstáculonavidadapopulação, entretanto,comoapontamasentrevistasas coisasestãomelhorandoeaspessoas, principalmentemaisjovenslutameresistem contraanossasociedadeopressora

ENTREVISTA

AliceMedeiros,GiovanaPanchere

LaraHirai

NessaediçãodaRevistaCicatrizesde2025,temos ahonradeapresentarduasentrevistasfeitas pelasentrevistadorasAliceMedeiros,Giovana PanchereLaraHirai,quenospermitemapurar nossoentendimentosobreoracismona sociedadeatualesuascontradições Paraisso, estivemoscomailustrepresençadeMariana Montês,mulhernegranascidaemumbairrode classemédiaaltadacidadedeSãoPaulo,tendoa oportunidadedeestudaremboasescolase concluiressajornadaacadêmicaformando-se emdireitonaUniversidadePresbiteriana Mackenzie Hoje,Marianausasuavozpara defendercausasraciaisesociais,mostrandoque opreconceitoatingetodasascamadasda sociedade ERafaelBraune,homembrancode famíliadeclassemédiatambémpaulistaque, percebendoasinjustiçasàsuavolta,decidiuusar suaposiçãoparapromoverrespeitoeempatia Hojeatuacomoprofessoreincentivaodiálogo sobreigualdadeedireitoshumanosnassalasde aula.Agora,fiquemoscomasentrevistas:

Maisde5200pessoasdenunciamatosde RacismonoBrasil.Conformeisso,vocêjá sofreuracismo?Semsim,deumexemplo eoquevocêsentiunessemomento.

Mariana montês- Fico muito triste com essa realidade do Brasil, e eu sendo uma mulher preta, sou a prova viva de que isso acontece todos os dias E sim, eu já sofri racismo muitas vezes na minha vida, um dia que me marcou muito foi ainda na época da escola, uma amiga disse que meu cabelo natural parecia sujo, apenas por ser crespo. Com a idade que eu tinha isso me afetou muito, até porque eu era

uma das únicas crianças negras no colégio particular em que eu estudei Lembro de me sentir humilhada e com vergonha, mesmo gostando de meu “amigo”

Faleumpoucosobreoqueéracismopara vocêesevocêachaqueaindaémuito comumnoBrasil.Esevocêconcordao racismoserpresente,quaisseriamseus argumentosoureaçãoparaalguémque negaoracismoexistir?

Bom, eu considero que o racismo é a discriminação e preconceito contra pessoas negras, não só pela cor mais também pela origem, em que eu afirmo que acontece diariamente em nosso país, infelizmente Para as pessoas que negam a sua existência, isso é um absurdo! Eu espero que procurem ouvir e aprender com quem vive isso todos os dias, assim como eu

FotoautorizadaegeradoporIAdeMarianaMontês
MarianaMontês

Agora,comsuaspalavras,oqueé racismoestrutural?Esevocêconsidera umproblemaemnossasociedade,como vocêachaqueissopoderiamudar?

Em minha opnião, racismo estrutural é quando o racismo está enraizado na sociedade, de forma invisível E sim, é um grande problema em nossa sociedade, e não é de hoje, e sim de décadas, porém mesmo assim, não foi feito quase nenhum avanço ou mudança ao longo dos anos. Não sei se haveria um movimento específico para mudar algo de muito tempo, mas alguns fatores simples, é o que faz uma grande diferença, com a educação, empatia e punição justa para atos racistas.

Porfim,combasedessecontextodo racismo,oquesignificarepresentividade? Esequiser,qualmensagemfinalvocê deixaria?

A representividade em meio de uma sociedade com o racismo muito presente e normalizado, é ver pessoas negras ocupando espaços e sendo valorizadas assim como qualquer outra pessoa, sendo algo importante até a geração nova Então minha mensagem final seria respeito não é opção, é obrigação.

RafaelBraune

Maisde5200pessoasdenunciamatos deracismonoBrasil.Conformeisso, vocêjásofreuracismo?Sesim,dêum exemploedigaoquevocêsentiunesse momento.

Eu, como homem branco, nunca sofri racismo. Isso não faz parte da minha experiência pessoal Porém, já presenciei situações de racismo Uma vez, por exemplo, vi um colega de trabalho ser tratado com desconfiança apenas por causa da cor da pele dele Naquele momento, eu me senti muito incomodado e indignado, porque percebi como atitudes racistas podem acontecer de forma sutil, mas ainda assim machucar profundamente.

Faleumpoucosobreoqueéracismo paravocêesevocêachaqueaindaé muitocomumnoBrasil.Esevocê concordaqueoracismoépresente, quaisseriamseusargumentosou reaçãoparaalguémquenegao racismoexistir?

Para mim, racismo é qualquer atitude de discriminação, julgamento ou exclusão contra pessoas negras por causa da cor da pele. E sim, ainda é extremamente comum no Brasil Às vezes aparece de forma direta, outras vezes de forma silenciosa, mas está sempre ali

Quando alguém diz que racismo não existe, eu respondo que negar um problema não faz ele sumir. Quem afirma isso geralmente nunca viveu olhares desconfiados, piadas ofensivas ou portas fechadas sem motivo. Antes de negar, a pessoa deveria ouvir quem passa por isso diariamente.

Agora,comsuaspalavras,oqueéracismo estrutural?Esevocêconsideraum problemaemnossasociedade,comovocê achaqueissopoderiamudar?

Racismo estrutural é quando o preconceito está presente na base da sociedade: nas oportunidades, no mercado de trabalho, na segurança pública, na educação, na política e até na maneira como as pessoas enxergam a gente É algo que existe muito antes de qualquer atitude individual. E sim, é um problema enorme Para mudar, é necessário investir em educação, políticas públicas, representatividade, punição real para atos racistas e, acima de tudo, empatia e escuta.

RetratoautorizadoegeradoporIAdeRafael Braune

Porfim,combasenessecontextodo racismo,oquesignificarepresentatividade? E,sequiser,qualmensagemfinalvocê deixaria?

Representatividade é ver pessoas negras ocupando espaços onde antes eram invisíveis É importante hoje, mas principalmente para as próximas gerações, que precisam crescer sabendo que podem chegar onde quiserem Minha mensagem final é: racismo não é opinião, é violência E combater isso é responsabilidade de todos Respeito não é opcional, é o mínimo

As entrevistas mostram que, apesar de viverem realidades diferentes, Mariana e Rafael lutam contra o mesmo problema: o racismo que atravessa a vida de pessoas negras em qualquer classe social. Mariana relata o preconceito silencioso em ambientes elitizados, enquanto Rafael descreve o racismo explícito do dia a dia Juntos, eles revelam que o racismo é estrutural, machuca de formas diferentes, mas sempre fere, só podendo ser combatido com respeito, educação e voz ativa Ambos reforçam a mesma mensagem: vidas negras importam, e o combate ao racismoéurgenteecoletivo.

CRÔNICA

A

COR DA MUDANÇA

IsabeleKraiczyieMaluCintra

Naquela manhã, a campainha soou quase normal As vozes pelos cantos, as risadas, as mochilas se esbarrando eratudoigual Mas,naqueledia,algonovo aconteveu na sala: a professora chegou com um cartaz onde se lia em letras grandes “Aprender a ser antirracista:tarefadecadaumdenós”

Ficou tudo em silêncio Alguns olharam para o lado, outroscomexpressãocuriosa

E nós duas amigas da turma percebemos como esseassuntoaindaeravisto como“coisadosoutros”,quando,naverdade,falasobre todos nós. A professora começou a contar coisas que não estavam nos livros: sobre cientistas negros, escritorasesquecidaselíderesafricanosquequasenão aparecemnasaulas.

Cadanomeeraumadescoberta,cadahistória,umaformadeenxergaroque aescolamuitasvezesdeixouescondido Foinessemomentoqueconhecemos CarolinaMariadeJesus umamulhernegraquetransformouaprópriavivência emliteratura,revelandoemQuartodeDespejoumarealidadequeoBrasilcostumavaignorar. Assimcomoaprofessoranosapresentavanomessilenciados, Carolinatambémfezopaísdescobrirvozesehistóriasquemereciamserouvidas. Foi então que entendemos: aprender a ser antirracista não é só conhecer o racismo é tambémdesconstruiroqueeledeixou.Éolharparaocolegaeentenderquea cordapelenãodefineorespeito,otalentoouotamanhodossonhosdeninguém. Nosdiasseguintes,oassuntosaiudasala.Foiparaostrabalhos,paraas conversasnopátio,paraosdesenhosnosmurais.Começamosaperceberas pequenascoisas osapelidosquemachucam,aspiadasdisfarçadas,afaltade representatividade.Evimosqueamudançacomeçaquandoagenteseincomodae decideagir.Construirumaescolajustaétarefadetodos.Éoalunoquepergunta,oprofessor queseatualiza,adireçãoqueescutaetodaacomunidadequeparticipa.É entenderqueacormaisimportanteéadaempatia aquelaquecoloreoolhare transformaojeitodeverooutro.

Hoje,quandoosinaltoca,osoméomesmodesempre Masaescola,não Porque,quandoaeducaçãodecidelutarcontraoracismo,ahistóriaganhaoutra forma eagora,comtodasascoresdaaquarela

RABISCO DE ESPERANÇA

Era parem muro apag Quem barul press pequ olhos um ra aoca Eu a do t moch jánão abert mesm firme quem revolt que p semf Na p insign pequ medo quem resist temp rotina cada trinch Talv muro anôn um lemb acred Eén huma morre temp barat ainda

GrafitefeitopeloArtistaNuncaem SãoPaulo

RACISMO ESTRUTURAL: UMA FERIDA QUE O BRASIL PRECISA CURAR

O racismo estrutural é uma atitude de preconceito contra pessoas negras No Brasil, ele está presentenasestruturasdasociedadeesecaracterizacomoumconjuntodepráticas,hábitos, situaçõesefalaspresentesnodiaadiadapopulação,que,mesmosemintenção,promoveo racismo Essetipoderacismotemorigemdasinstituiçõesenasrelaçõessociais,favorecendo determinadosgruposenquantoalgunsoutrossãodesfavorecidos,emqueoprincipalfatorde discriminação é a cor da pele, que desencadeia diversas outras questões estereotipadas e equivocadas

Essarealidade,aindaquenemsemprevisívelpelasociedade,ouocultadapor ela,afetadiariamenteumapartesignificativadapopulaçãobrasileira,querepresenta, entrepardosenegros,55,5%doshabitantesdopaís,entredeacordocomdadosdo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022).É fácil perceber a discriminação contranegrosaoanalisarquemocupaoscargosmaisaltosnasempresas,quemtemmaior acessoàeducaçãodequalidadeouquemmaissofrediscriminaçõesnocotidiano.

A população negra, em sua maioria, está concentrada em empregos informais, domésticos, construção civil e agropecuária, que geralmente possuem menores remunerações, ou seja, uma remuneração bastante abaixo do que o merecido muitas vezes, em regiões mais vulneráveis e que trazem menos oportunidades. Nesse sentido, o mesmo órgão aponta que, no mercado de trabalho, apenas 32% dos trabalhos gerenciais são ocupados por pessoas negras, embora estes representem a maioria da população. Não seria diferente se analisarmosopercentualdedesempregoentrebrancos,pardosenegrosque,deacordocom dados do IBGE, 2023, pessoas negras representam cerca de 65% da população desempregada e recebem, em média, 40% menos do que pessoas brancas Esses números indicam uma sociedade marcada pela herança colonial que, mesmo após a abolição da escravidão,nãotrouxecondiçõesreaisdeigualdadeparatodos

Na educação, tem-se desigualdades semelhantes, conforme os dados do movimento Todos Pela Educação (2023), que mostram que 31% dos estudantes negros chegam ao final do ensino médio com atraso escolar, mais que o dobro da porcentagem entre jovens brancos (14%),revelandoafaltadeacessoapartirdoEnsinoFundamental Essesindicadoresmostram que o racismo não está apenas em atitudes individuais, mas na estrutura da sociedade brasileira que limita o acesso de negros e pardos às oportunidades de emprego, à escolaridade, à renda, enfim à equidade social Por isso, faz-se necessário mais políticas públicas que deem oportunidades sociais e que mantenham as ações afirmativas já existentes como a lei de cotas raciais para o acesso às universidades federais, para grupos historicamente marginalizados, valorizando as vozes negras como caminho urgente de transformaçãosocialedeefetivademocratizaçãodopaís

Fonte: IBGE

Fonte: Todos pela educação

Artigo de Opinião

Por que ainda ensinamos história a partir da visão do colonizador?

Desdeanossaindependência(1822),aeducaçãobrasileiracontinuapresaaensinarapenas a perspectiva do colonizador. Nas escolas e universidades, aprendemos sobre grandes feitos europeus enquanto as vozes indígenas e africanas são marginalizadas. Essa visão limitada nãoapenasdistorceopassado,masinfluenciaasociedadeaenxergarcomoseumacultura fosse superior a outra. Esse problema é essencial para compreender como a colonialismo aindaestruturanossomododeensinar.Afinal,porqueinsistimosemrepetirumahistóriaque silenciatantos?

Até os dias atuais, há uma eurocentrização do conhecimento, já que na educação há uma predominância de autores, teorias e histórias europeias, enquanto os conhecimentos não europeus são pouco valorizados. Nesse sentido, segundo a pesquisa realizada pela AssociaçãoNovaEscola,mesmoque98%doseducadoresachemimportantedebatersobreo racismo apenas três em cada dez trabalham com autores negros em sua grade curricular e apenas 2 em cada 10 professores citaram referências de autores negros usados em sala de aula. Entre os nomes citados destacaram-se Machado de Assi, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Milton Santos e Djamila Ribeiro. Porém somente 10% citaram referências afro-brasileira na sua prática escolar e, dessa vez, surgiram nomes como a A norteamericana Bell Hooks, a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e o Sul-africano Nelson Mandela.

Conforme Alexandre Barbosa, professor do Departamento de Jornalismo e Editoração, da UniversidadedeSãoPaulo(USP),emseuartigo,sobreadecolonialidade,essetermosignifica oconjuntodepráticas,conceitos,pesquisaseestudosquetentamdiminuir,eatéreverter,os efeitos da colonização nas sociedades em que este processo histórico ocorreu, ou seja, significaposicionar-seeatuaremoposiçãoàsferidascoloniaiscomoaescravidão

Emborahajaleiscomoa10639/03queobrigamoensinodehistóriadaculturaafro-brasileira, a implementação ainda é muito desigual Uma pesquisa da Instituto Alana e Geledés junto a 1187secretariasmunicipaisdeeducaçãomostrouque71%dessassecretariasfazemquaseou nenhumaaçãoefetivaparacumpriralei

A falta de práticas pedagógicas decoloniais nas escolas é um fator que mantém o ensino preso a apenas a visão do colonizador Até na formação de professores no Brasil ainda se privilegiaapenasreferênciaseuropeias,deixandodeladoautoresindígenas,africanos,latinoamericanos e asiáticos que poderiam ampliar o olhar crítico sobre a realidade Consequentemente os professores chegam na sala de aula com pouco repertório para trabalhar com outras perspectivas literárias, o que reforça o ensinamento apenas de conteúdoseurocêntricos

Para finalizar, apesar de haver algumas escolas decoloniais, ainda prevalece a visão histórica do colonizador, já que os conhecimentos de outras culturas são pouco valorizados, enquanto a perspectiva europeia é considerada universal. Nesse sentido, pensar a decolonialidade é importante para sair fora daquilo que foi definido pela colonização como formadeconstruiralternativasdepensaredeser.

Resenha viela ensanguntada

VielaEnsanguentadadeWesleyBarbosaéumlivroque tratasobreoseutemaprincipal,adecolonialidade,foi lançado em 2022, sendo um dos primeiros grandes sucessos do autor que constrói uma narrativa profunda atravessada pela intensidade da periferia e por um compromisso estético e político com uma literatura que emerge das favelas, da desigualdade estruturaledahistoricidadedeexclusãoquemarcaos sujeitos marginalizados Nesse sentido, a obra desafia frontalmente a colonialidade instaurada a partir do século catorze em nosso país forjado ao longo de séculos sob a lógica colonial, evidenciando-se como um gesto literário de resistência à diversos preconceitos e estereótipos do saber, do ser e do poder Assim, torna-se legítimo afirmar que esta obra temnadecolonialidadenãoapenasseueixotemático central, mas também um instrumento crítico através do qual o autor tensiona as estruturas sociais que marginalizam e invisibilizam corpos e territórios periféricos

Com uma obra honesta e poética, Barbosa constrói a trajetória de Mariano, um jovem negro que habita uma viela marcada pela precariedade, e que, em meio ao caos cotidiano, cultiva uma paixão silenciosa pelos livros e pela escrita, como é retratado pelo autor É nessa fricção entre o desejo por conhecimento e a brutalidade da realidade marcadaporsangue,silênciosforçadoseabandono estatal que a narrativa atinge sua potência A obra ultrapassaameradenúnciadaviolênciaurbana,ela se articula como uma luta por reconhecimento e humanidade em contextos em que a vida é constantementeprecarizadaedescartada.

Eu recomendo muito a leitura desse livro, pois ele instiga o leitor, provocando o leitor a pensar sobre não só suas atitudes, mas também a nossa sociedade individualista, cujoamaioriadapopulaçãocrêem meritocracia,porémistoéumaideia incorreta, já que é muito difícil ascender socialmente caso já tenha nascidoemumacondiçãosocialde altavulnerabilidade,entãoachoque este livro é muito bom para realizar umareflexãoacercadisso.

Pormeiodaslutasdospersonagensaolongodaobraedecomoéexpostoafragilidadedas favelas,suavulnerabilidadeeinvisibilidadeemrelaçãoaorestodapopulaçãobrasileiraea realidade de muitas pessoas que vivem na periferia, a partir disso fica claro que é uma prática que impõe a colonialidade por meio de pessoas marginalizadas pela sociedade desconsiderando valores e experiencia de muitos, o que reconstrói uma hierarquia imposta aonossopaísduranteoperíodocolonial.

Desigualdade Racial

AdesigualdaderacialnoBrasiléumproblemamuitopresentenodiaadia, mesmodepoisdetantosanosdaaboliçãodaescravidãoem1888.Pessoasnegrasaindatêm menos oportunidades, sofrem mais com a pobreza, a falta de acesso à educação e sofrem com a violência. Por isso, é importante reconhecer que o racismo não acabou e continua enraizadonaestruturasocial,influenciandoaformacomoasociedadebrasileirafunciona.Éo que denominamos de racismo estrutural. Dados mostram a persistência do racismo nos índices de violência e no acesso à saúde. A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), 2019 revelou que 18,3% das pessoas com 18 anos ou mais sofreram violência física, psicológica ou sexual nos 12 meses que antecederam a entrevista. No mesmo ano, 20,6% das pessoas pretas sofreramalgumadessasformasdeviolência,ante19,3%dospardose16,6%dosbrancos. Aviolênciaatingiamaisasmulheres(19,4%),emespecial,asmulherespretas(21,3%).

Aoanalisaroinfog emulherespardas e negras é mais q do o IBGE, aponta para 7,3 mortes d 00000 pessoas A mesma lógica pe , a cada cem mil pessoas, a taxa de s, do que brancos Tais dados revela a violência. Essa situação da violê pois a Pesquisa NacionaldeSaúde vezquedetodaa população branca atendida, 9,5% saem da unidade hospitalar com o sentimento de discriminação, enquanto esse percentual é maior entre pretos (11,9%) e pardos (11,4%). Menos pretosepardossaemcomavaliação“boa"ou"muitoboa"doatendimento,70,6%e69,4%,em relaçãoaosbrancos,73,5%delessatisfeitos.Paradiminuiressadesigualdade,oBrasilprecisa de políticas públicas que realmente funcionem. Isso inclui melhorar a educação nas regiões mais pobres, aumentar oportunidades de estudo e trabalho para jovens negros e manter programasdeinclusão,comoascotasraciaisnasuniversidades.Tambéménecessárioqueo governo e a sociedade entendam que combater o racismo não é um favor, mas uma responsabilidade.Porisso,asaçõesafirmativascomoaimplementaçãodaLeinº10.639/2003, quetornouobrigatóriooensinodehistóriaeculturaafro-brasileiraeafricananasescolas,são fundamentaisparacombaterestereótiposepreconceitosdesdeainfância.

ENTREVISTA

MateusTeixeira,GustavoGalianoeCaioPalma

Dizem que o recomeço e a fé curam qualquer cicatriz, fazendo com que parem de nos consumir,mesmoquenuncasumamdenossahistóriaememória Onossogrupoentrevistou MariaIsabel,umasenhorade78anosdeidade,nascidaemangola,branca,queveioaoBrasil há 66 anos Maria Isabel foi refugiada de uma guerra em seu país natal e, com 12 anos de idade, se mudou para Santos, sem rumo, deixando tudo para trás, inclusive sua própria família, a fim de um recomeço incerto, porém esperançoso, assim como Byung Chul-Han retratanolivro:Oespíritodaesperança,queécomoumaforçainteriorqueresistemesmoem contextos de crise, funcionando menos como um sonho passivo e mais como uma prática ativadereconstrução

OQUEÉTERFÉPARAVOCÊ?

“Ter fé é confiar naquilo que você crê que vem pela frente, e confiar no propósito, principalmente nos momentosmaisdifíceis”

VOCÊ JÁ TEVE ALGUMA SITUAÇÃO EM QUE PRECISOU TERESPERANÇA?

“Quando vim ao Brasil com 11 anos, precisei deixar minha terra natal, Angola, meus avós e tudo que conhecia,paraviraoBrasil,issomemarcoumuito”

O QUE VOCÊ ACHA SOBRE A VIOLÊNCIA E A OPRESSÃO EMRELAÇÃOAORACISMO?

“Aviolênciaéterrível,nãoresolvenada,emrelaçãoao racismo, acredito que depende da consciência de cadaumedaprópriaopinião,maspreconceitonunca écerto”.

VOCÊJÁVIUALGUMASITUAÇÃOQUETEMARCOU?

“No período em que eu ainda morava na África diversasvezesvipessoaspassandofome.Verissofoi horrível, ainda mais vendo isso constantemente e foi aí que eu percebi, todas as pessoas merecem o mesmo,semdesigualdade.”

RetratodeMariaIsabel

VOCÊ ACHA QUE A EDUCAÇÃO INFLUÊNCIA EM UMA PESSOA A NÃOSERRACISTA?

“Sim, porém, isso começa em casa,antesdaescola.Oambiente familiar tem sim um papel importante, e a escola também tem papel decisivo, porém somente após uma certa idade, por isso, acredito que os pais devem ter muito cuidado ao escolher a escola dos filhos, partindodoprincípioqueaescola terádeterprojetoscontraisso”.

TEMALGOOUALGUÉMQUETEINSPIROUEM ALGUMASITUAÇÃO?

“AminhaprincipalinspiraçãofoiDeusemeu maridoquetevepapelcrucialemminhavida, foiquemmeacolheuquandochegueiao Brasil”

VOCÊACHAQUEASREDESSOCIAISPODEM INFLUENCIAREMTALOPINIÃO?

“Acreditoquesim,asredessociaispodem causarumagrandeinfluêncianaspessoas,já que,todossãoalcançadospelasredes”

QUALMEIODEAJUDAVOCÊUSAQUANDOESTÁ EMUMADIFÍCILSITUAÇÃO?

“Paramimsóexisteummeiodebuscarajuda, queéDeus,mesmoassim,ainfluênciada populaçãopodeajudarmuito”.

QUALPALAVRARESUMETUDOISSO? “Fé”.

Aoanalisarmostodaaentrevistade Maria,levamosemconsideraçãotodaa suaexperiênciadevidaesuadifícil jornada,jáque,aindaadolescente,teve deviraoBrasilrefugiada.Emdiversos momentosdaentrevista,elareforçousua opiniãocríticaemrelaçãoaoracismoea todopreconceitonítidonostempos atuais,emqueaescolatemumforte papelnacriaçãodeopiniões,porém somenteapartirdeumaidadequevocê tenhaconsciênciadeseusatose pensamentos,alémdereforçarsuaforte crençareligiosaesuaesperançade persistiremumnovociclodevidacheio deincertezas,porémnecessárioparasua melhoracomopessoa Emsuma,suas cicatrizesnãofalamdenenhumaperda material,masdelembrançasquejamais seapagarão.

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Revista Cicatrizes_9º ano_edição_2025 by tec1.carandacarandaeducacao.com.br - Issuu