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um artista de província
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um artista de província
marcio meirelles
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de onde se explica um livro de sombras de teatro que é um fractal http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/maio2013/matematica_artigos/dissertacao_nunes.pdf
este é o primeiro livro que faço de outros participei e outros foram antes peças para o teatro que acabaram no papel este faz o caminho inverso e nem vai ao papel fica numa plataforma virtual para existir assumiu o lugar de encenação é uma colagem é um livro maleável fluido sempre em movimento um livro mais dramaturgia e montagem do que livro objeto que se coloca na estante depois de ler livro que é multiforme polimorfo feito de muitas tonalidades feito de fragmentos de memórias reais recriadas relidas redescobertas notícias reconstruídas que não sei se lembro mas foi e de memórias que não lembro mas leio agora e me surpreendo então foi assim um livro de memórias coletivas de tempos por onde passamos muitas muitos e eu construímos eventos assuntos ações teatro e outras artes linguagens um artista de província – de um quase balneário que está sendo despedaçado até quase virar quase nada restos de um lugar que já não é – não quis deixar a bahia e morar em outro lugar
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foi uma escolha política opção devolver ao lugar o que tirei dele para criar devolver às vozes que ouvi o som que me emprestaram devolver às raízes que me deram a possibilidade de germinar e frutificar o sumo a seiva para fabricar as folhas e frutos por isso todas as fichas técnicas e dados do que fiz participei colaborei onde estive todos os nomes e dados e datas e locais que estão registrados uma multidão está ali e governantes e alguns acontecimentos que nos dizem o que se passava enquanto passou uma geração e outra e outra e muitas anteriores e posteriores muita gente um período do teatro 17 anos até chegar ao palco e quase 50 sem sair dele nele um que pensa encenador ator gestor técnico espectador desenhador livro registro referencia para ser livros estudos do que fizemos neste tempo neste lugar teatro do mundo 29 quase 30 de agosto do funesto ano de 2021 marcio meirelles
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parte vii
O VELHO NO VELHA E OS
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OVO VILA S NOVOS
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GOVERNANTES 66o prefeita: Lídice da Mata . Partido Socialista Brasileiro (psb) 1993 a 1996 43o governador: Antônio Carlos Magalhães . Partido da Frente Liberal (pfl) 1991 a 1994 44o governador: Ruy Trindade (presidente do Tribunal de Justiça) 1994 a 1994 45o governador: Antônio Imbassahy . Partido da Frente Liberal (pfl) 1994 a 1995 33o presidente: Itamar Franco . Partido do Movimento Democrático Brasileiro (pmdb) 1992 a 1995
Ayrton Senna, o piloto de Fórmula 1, morreu ao bater contra o muro da Curva Tamburello durante o Grande Prêmio de San Marino, na Itália. Teve cerimônias fúnebres ao redor do mundo para ele, como herói, cujo arquétipo encarnara. O Real, nova unidade monetária do país, entrou em circulação. O Supremo Tribunal Federal absolveu por falta de provas o expresidente, Fernando Collor de Mello, e o tesoureiro, Paulo César Farias, da acusação de corrupção passiva.
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BANDO DE TEATRO OLODUM - ANO QUATRO IGUATEMI FASHION SHOPPING Desfile Concepção e direção geral: Marcio Meirelles Textos: Aninha Franco Assistente de direção: Chica Carelli Coreografia: Zebrinha (José Carlos Arandiba) Cenografia: Bel Borba Direção de produção: Virgínia da Rin Direção musical: Hendrik Lorenzen Iluminação: Jorginho de Carvalho Engenheiro de som: Beto Santana Maquiagem: Marie Thauront Cabelos: Chocolate Produção de moda: Tininha Viana Realização: Shopping Iguatemi Elenco: Bando de Teatro Olodum - Cássia Valle, Cristóvão da Silva, Ednaldo Muniz, Eliete Miranda, Fábio Santos, JorgeWashington, Rivaldo Rio, Sérgio Amorim, Suzana Matta, Tânia Toko e Valdinéia Soriano Atriz Convidada – Vera Holtz Apresentadora – Regina Coeli Dançarinos – Ana Maria Agazzi, Dailso Pedreira, Daniela Augusto, Itana Meirelles e Fafá (Fátima) Menezes Modelos Bianca Casali, Camila Marques, Gil Fernando, Letícia Werneck, Paulo Moura, Sabrina de Paula, André Jardim Modelos infantisn – Adriana Visco, Carolina Visco, Ura Herera, Júlia Freitas, João Ricardo, Fernanda Visco, Luísa Seixas, Raíssa Santos, Rujali Mukaia, Muhamed Ali, Juliana Valente, Cijale Mukaia, Geilson Silva, Paula Nunes e Daniela Sampaio Músicos: Hendrik Lorenzen (guitarra e sax), Cláudia Sales (fagote), Cândida Lobão (Violoncelo) Ênio Antunes (violino e José Luis Nascimento (percussão)
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Banda Mirim do Olodum Bolacha Maria – Karla Fabiana (voz), Careca (regente); Virgínia Soares, Sueli Freitas, Dilmara Oliveira e Rosalea de Jesus (surdo); Rosimary Silva e Fabiana Tosta Lobo (baorinha); Isabel da Conceição, Vitória Flores e Luciana Lins (atabule); Luzia Freitras, Andréa da Luz e Hatinelli Santos (efeitos e voz); e Jujuba (efeitos) Banda Circvs – Sérgio Belov (guitarra e voz), Keko Pires (baixo e vocal), Nino Moura (guitarra) e Jean (bateria) Cantor convidado – Paulinho Ganaê Apresentação: 04/05/94 Teatro Casa do Comércio (SSA – Ba) BAI BAI PELÔ E OUTRAS COREOGRAFIAS Dança/performance XV Festival Brasil SESI de Dança Roteiro, direção e figurino: Marcio Meirelles Coreografia: Zebrinha Elenco: Bando de Teatro Olodum Apresentações: 23/09 e 24/09/94 Centro de Convenções do Anhembi (São Paulo – SP) BAI BAI PELÔ Bando de Teatro Olodum Texto (com a colaboração do Bando de Teatro Olodum), cenário, figurino (em oficina com os atores do Bando), cartaz e direção (com Chica Carelli): Marcio Meirelles Coreografia: Zebrinha Músicas: Bai, bai, Pelô (Valmyr Brito, Arlete Dias, Jô Nascimento e Rui Poeta); O Bote da Cobra (Ithamar Tropicália e Itamar Santos); Trecho de Bai, bai, Pelô (André Luís e Rejane Maia). Ritmos de Percusão: Maestro Neguinho do Samba Iluminação: Jorginho de Carvalho
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Elenco: Anativo Oliveira (Peixe Frito), Arlete Dias (Dona Edna), Auristela Sá (Berna-Rosa), Cássia Valle (Dona Raimunda), Cristóvão da Silva (Negócio Torto), Ednaldo Muniz (Reginaldo), Edvana Carvalho (Dona Lúcia), Gerimias Mendes (Seu Gereba), Jorge Washington (Soldado Leão), Lázaro Machado (Marcelo), Lázaro Ramos (Augusto), Luciana Souza (Dona Joana), Merry Batista (Professora), Nauro Neves (Jorgete), Nildes Vieira (Amelinha), Rejane Maia (Baiana), Rivaldo Rio (Jéferson), Rony Cássio (Pezinho), Sérgio Amorim (Brigadeiro), Suzana Matta (Chandinha), Tânia Toko (Neuzão da Rocha), Valdinéia Soriano (Maria) e Virgínia Rodrigues (Comadre da Baiana) Estréia: 23/10/94 a 27/11/94 – Teatro Vila Velha (SSA – Ba) Apresentações: 23/01 a 19/02/95 – Teatro Vila Velha (SSA – Ba) 15/09 a 22/09/95 – Teatro Vila Velha (SSA – Ba) 12/10 a 15/10/95 – Teatro Vila Velha (SSA – Ba) 1/11/95 – Teatro Vila Velha (SSA – Ba)
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TEATRO VILA VELHA - ANO UM TEATRO VILA VELHA Direção e coordenação de programação: Marcio Meirelles De 1994 a 1999, quando um colegiado, constituído pelos representantes dos grupos de trabalho e dos grupos artísticos residentes do teatro, assumiu a coordenação do teatro. TeatroVila Velha (SSA – Ba) PROJETO NOVO VILA Projeto de revitalização e reconstrução do Teatro Vila Velha Coordenação: ngela Andrade e Marcio Meirelles outubro/94 a 05/05/98 XIII OFICINA NACIONAL DE DANÇA CONTEMPOR NEA Membro da comissão de seleção da mostra Novo Vila – Nova Dança: Marcio Meirelles Coordenação: Dulce Aquino 18/11/94 Escola de Dança da UFBA
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OUTROS TRABALHOS DE 1994 DANIELA MERCURY Show da cantora na entrega do Troféu Caymmi – ano IX Direção e figurino: Marcio Meirelles Coreografia: Zebrinha Produçãodo show: Canto da Cidade Produção da entrega do Troféu Caymmi: Jorge Albuquerque, Tuca de Morais e Marilda Santana Apresentação: 17/03/94 Teatro Iemanjá / Centro de Convenções (SSA – Ba) SHOW DE ANIVERSÁRIO DA CIDADE DO SALVADOR Roteiro, direção, figurino e espaço cênico: Marcio Meirelles Participação: Bando de Teatro Olodum, Caetano Veloso, Carlinhos Brown, Tom Zé, Margareth Menezes, Armandinho, Batatinha, Paulinho Boca de Cantor e Baby do Brasil Apresentação: 29/03/94 Praça Castro Alves (SSA – Ba) POTATO PUM Grupo Parangolé Direção, cenário, figurino e iluminação: Marcio Meirelles Texto: Aninha Franco Diretor assistente: Fábio Lago Composição e direção musical: Tito Bahiense Diretor musical assistente: Vainer Dias Gomes Coreografia: Itana Meirelles Coreógrafa assistente: Fafá Menezes Painéis: Jairo Figueiredo Produção executiva: Cast – Produção e Marketing Ltda. Coordenação de produção: Cristiane Mendonça Elenco: Cristiane Mendonça (Potato) Janaína Carvalho (Maçã /Acelga / Batatinha) Pedro Moraes (Repolho / Fósforo / Aspargo / Batatinha)
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Sandra Coelho (Mãe de Potato / Cebola Roxa / Caixa de Fósforos / Couve Flor / Batatinha) Tito Bahiense (Pimentão / Fósforo / Rabanete / Batatinha) Estréia: 23/04/94 Teatro do ACBEU (SSA – Ba) VOCALIZE EM FORMA DE PÁSSAROS NA VIDRAÇA Dança GDC (Grupo de Dança Contemporânea da UFBA) Concepção, direção, coreografia, cenário, figurino e iluminação: Marcio Meirelles Preparação técnica: Carla Leite Montagem e operação de luz: equipe técnica do Teatro Vila Velha Assessoria de produção: Beth Rangel Programação visual: Tânia Moura Divulgação: Francisco Muniz Realização: Escola de Dança da UFBA Elenco: Barbara Barbará, Beatriz Alves deSouoza, Cláudia Guedes, Flor Violeta Liberato, Luciana Pugliesi, Ludmila Pimentrel, Mariana Lobato, Suzy Magalhães e Sandra Santana Estreia: xx/xx/94 Teatro Vila Velha (SSA – Ba) LEITURA: LINGUAGEM, SOCIEDADE E CIDADANIA Oficina Oficineiro: Marcio Meirelles Oficia: Leitura: produção e interpretação de textos / Teatro Realização: Instituto Anísio Teixeira / Secretaria de Educação e Cultura do Estado da Bahia Xx/xx/1994 Instituto Anísio Teixeira (SSA – BA)
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MENINOS DO PELÔ Show do grupo musical DIREÇÃO Coreografia: Produção: Canto da Cidade Estreia: Xx/xx/94 Clube Espanhol (SSA – Ba) 23/10/94 Olympia (São Paulo – SP) QUEM DESCOBRIU O AMOR Teatro Tribo de Teatro / CRIA FIGURINO (com o elenco) CENÁRIO e LUZ Texto: criação coletiva Dramaturgia e direção: Maria Eugênia Milet Direção musical: Fred Dantas Coreografia: Edva Barreto Estreia: xx/xx/94 Xxxxxxxxxxxxx (SSA – Ba) Xx a 27/11/94
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GOVERNANTES 66o prefeita: Lídice da Mata . Partido Socialista Brasileiro (psb) 1993 a 1996 43o governador: Antônio Carlos Magalhães . Partido da Frente Liberal (pfl) 1991 a 1994 44o governador: Ruy Trindade (presidente do Tribunal de Justiça) 1994 a 1994 45o governador: Antônio Imbassahy . Partido da Frente Liberal (pfl) 1994 a 1995 46o governador: Paulo Souto . Partido da Frente Liberal (pfl) 1995 a 1999 33o presidente: Itamar Franco . Partido do Movimento Democrático Brasileiro (pmdb) 1992 a 1995 34o presidente: Fernando Henrique Cardoso . Partido da Social Democracia Brasileira (psdb) 1995 a 2003
Um conflito armado entre trabalhadores sem terras e policiais militares deixou dez mortos em Corumbiara, em Rondônia.
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BANDO DE TEATRO OLODUM - ANO CINCO ZUMBI Bando de Teatro Olodum Texto (com Aninha Franco e a colaboração do Bando de Teatro Olodum) cenário, figurino (em oficina com os atroes do Bando) e direção (com Chica Carelli): Marcio Meirelles Coreografia: Zebrinha Música: Cícero Antônio Iluminação: Jorginho de Carvalho Elenco: Arlete Dias (Arafat), Auristela Sá (Lalu), Cristóvão da Silva (Amaro / Soares), Edvana Carvalho (Zuca), Edinaldo Muniz (Ezede), Gerimias Mendes (Mateus / Gangazumba), Jorge Washington (Nicolau), Lázaro Machado (Mestre João), Lázaro Ramos (Patrão e, com a saída de Sérgio, acumulou as ações de Zumbi), Luciana Souza (Gil), Merry Batista (Deise), Nauro Neves (Zé), Rejane Maia (Dan), Sérgio Amorim (Chico / Zumbi, personagem desapareceu com a saída do ator, ações de Zumbi foram assimiladas por Patrão), Suzana Matta (Iara), Valdinéia Soriano ( ngela) e Virgínia Rodrigues (Vardé) Participações: André Luís (voz da polícia), Elton Lopes (percussão) e Oswaldo Mil (locução do rádio) Estréia: 23/04 a 18/06/95 – Teatro Vila Velha (SSA – Ba) Apresentações: 26/08 a 10/09/95 – Teatro Vila Velha (SSA – Ba) 21/10 e 22/10/95 – Teatro Vila Velha (SSA – Ba) 01/12 a 03/12/95 – Festival Internacional de Arte Negra / Teatro Francisco Nunes (Belo Horizonte – MG) 31/01 a 04/02/96 – Mostra de Artes Cênicas / Teatro do SESI (São Paulo – SP) ZUMBI Black Theater Co-op Texto original (com Aninha Franco e Bando de Teatro Olodum), figurino (com o Megan Baker) e cenário: Marcio Meirelles Texto inglês: Shango Baku
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Assistente de direção: Natan Barreto Coreografia: Zebrinha Assistente de coreografia: Michel Wallace Música e direção musical: Cícero Antônio Mestre de percussão: Bira Monteiro Produção: Beverley Randall Produção executiva: Bob Irwin Direção de palco: Richard de Cordova Diorção de palco da companhia: Nadia Malik Estágiária de dirção de palco: Debbie Green Assistente de direção de palco: David Compri Administração: Patrícia Blackwood Marketing: Gillian Christie Realização: LIFT (London International Festival of Theatre). Black Theatre Co-Op e Theatre Royal Stratford East Elenco: Angela Wynter (Josephine), Antonia Kemi Coker (Biola), Chris Tunnings (Tony), Corine Skinner Carter (Joan), David Carr (Glock), Fábio Santos (substituindo Chris Tunnings na turnê), Fredddie Anobil-Dodoo (Nana/Zumbi), Glenna Forster-Jones (Kizaya), Hilário Bisi-Pedro (Jackson), Lenny Algernon Edwards (Johnson), Lorna Brown (Puncie), Louisa Eyo (Mma), Neil Reidman (Sweetie), Sharon D. Clarke (Andrea), Wayne Buchannan (Alphonse) e Yomi A. Michaels (Olu/Gangazumba)) Estréia: 29/06 a 22/07/95 Theatre Royal Stratford East (Londres – RU) Apresentações: Julho a agosto/95 (Reino Unido)
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THE COLLABORATION ln 1992 LIFT’s Lucy Neal visited Brazil where she saw the work of Bando de Teatro Olodum (BTO), directed by Mareio Meirelles in Rio. Back in Britain, both Black Theatre Co-operative (BTC) and the Black Theatre Forum (BTF) expressed a desire to develop work with the Brazilian director. There was a pressing need for UK Blacks to re-establish links with a cultural past. Marcio’s ‘ritualised’ approach to Black theatre could provide a timely insight into cultural assertion and recovery. The three-pronged interest of LIFT, BTF and BTC resulted in representatives of these organisations travelling to Brazil in May 1993 for talks with Mareio Meirelles. They met him in rehearsal with BTO on MEDEAMATERIAL - a one off technical piece within a trilogy of plays focusing on the plight of Brazil’s homeless and dispossessed: ESSA E NOSSA PRAIA (1990), O PAI O! (1992) and BAI BAI PELO (1994). ln 1990 the newly-formed BTO had begun to expose the injustices in Brazil’s housing system with productions on the cutting edge. lts cast brought the cruel reality of ghetto-life into media focus under the guidance of Mareio Meirelles. British interest in Marcio’s work coincided with the consolidation of BTO as a radical voice for change in Bahia. Land rights was an issue which also affected the native lndians of Brazil, such as the Kiriri tribe - victims of a political system which reduced them to abject poverty and degradation. Their cause was publicly linked to BTO’s productions. The UK team invited Mareio to lead master-classes in Britain - primarily for Black actors - as part of LIFT’s biannual programme in 1993. Later that year Marcio conducted a
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series of highly successful workshops in London, which were attended by leading Black performers. The possibilities of a broader collaboration in 1995 between Brazil and Britain were looked at with BTC as the main partner. Options discussed with Mareio were 1) a Shakespearean play, 2) a play on the problems of Black in Britain and 3) the history of ZUMBI - a 17th century Brazilian slave-hero whose tercentenary would be celebrated in 1995. ln the end, the last two options were merged in the concept of Zumbi, which BTC would produce. ln 1994 Mareio Meirelles returned to Britain to promote and develop the project which was attracting international credibility. Funders in Brazil and Britain were slowly convinced of the worth and scope of the proposed collaboration. The British Council and the Arts Council of England would sponsor various aspects of Zumbi. Theatre Royal Stratford East joined BTC as a major partner in the venture. The enthusiasm and vision of BTC and its then Artistic Director, Joan-Ann Maynard were crucial to these decisions and to the final shape of the project, which fully embraced the Company’s ethos and artistic policy. lt was decided that a cast of 15 British-based performers would be recruited for Zumbi. Marcio would lead an artistic team from Brazil, including top choreographer Zebrinha and musical director, Cicero Antonio. The rehearsal process would be spread over a two-month period, allowing the cast time to ingest the basics of Afro-Brazilian culture and to improvise a current drama around the Zumbi epic. With an agreed strategy in place, Marcio Meirelles returned to Brazil to work with BTO on a local production of Zumbi - one
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which would coalesce the themes of his previous trilogy in a more strident voice. The Brazilian version premiered in April 1995 at the BTO’s new 400 seat venue in Bahia. In late April, Marcio Meirelles returned to London with bis artistic team to recreate Zumbi in a new context. An extensive tour of Britain would include venues in London, Birmingham, Liverpool, Oxford, Newcastle, Cambridge and Watford. The prestigious Edinburgh Festival would afford Zumbi an international venue and audience. Zumbi, Flame of Resistance, has become an icon of Black struggle 300 years after bis death. THE PROCESS “Life is like the theatre. One mustn’t try to understand it all at once and immediately. It is no longer amusing.” His Imperial Majesty Emperor Haile Selassie I of Ethiopia (1973) Marcio spoke softly in halting English. His reddish beard was tinged with streaks of grey hair tied back in a ponytail, bronzed features often breaking into a cherubic smile. I gathered that the project was about a Brazilian slave-hero, Zumbi, who governed the autonomous Black state of Palmares in the seventeenth century. This was our first formal meeting in London in January 1995. I was commissioned by Black Theatre Co-op to script an ambitious collaboration between Brazil and Britain. Marcio Meirelles’ reputation had preceded him. His Teatro Olodum was a cultural force in Bahia where poverty was an unbroken tradition since the days of Zumbi. The proposed collaboration would fuse the Saga of Zumbi with an updated insight into
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Black struggle in Britain. I was suitably impressed. But it was hard to equate the mild-mannered, unassuming Brazilian with his heavyweight reputation. Three months later we began the rehearsal process with a cast of 15, hand-picked for their specialist skills in theatrical arts. Accompanying Marcio was a crack Brazilian team including ace choreographer Zebrinha (little Zebra), the dreadlocked musical maestro Cícero Antonio and the wafer-like Bira Monteiro, master drummer. In late April, a weekend retreat for the cast and crew in Northampton set the time for an unique experience in Black theatre. The bonding process was essential to the formo African culture had resisted the ravages of slavery and colonialism in Brazil for 500 years. The Orisha system of Gods, the Candomble and Capoeira were cultural retentions that now empowered the theatres of the oppressed. The British-based cast needed initiation in these forms. The Brazilian crew needed to absorb the ethos of Black theatre in Britain. Cultural exchange was the focus. Unity would be the key. In the weeks that followed, each day began with rigorous warm-ups and work on snippets of choreography under the wakhful eye of Zebrinha. Musical sessions with Cícero - who spoke no English - came next. Cícero communicated through mime, sound, gesture and an infectious smile. Music was a universal language. The barriers were illusory. In the afternoons Marcio used a range of improvisational techniques to tap into the cultural and emotional reserves of the cast. Abandoning preconceived plans for the production he decided to draw on the raw, uncut energy of the Black experience in Britain. There were no obvious parallels to the Brazilian model. The all-Black ghetto or squatter community
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did not exist (per se) in Britain. Zumbi was transformed in a new context where space and time were less specific. Ultimately the cast would provide these dimensions. The actors’ improvised material would form the substance of the play. Characters were created, developed and made to react in a community without borders - one that simply reflected the issues of Black struggle. The theatre of the oppressed became the theatre of truth; and truth is not easily amenable to direction. Marcio’s strength lay in design - both to convey and to direct messages of truth. At times the dividing lines between actor, character and role became blurred and the sheer intensity of the process caused tempers to fray. One member of the cast complained bitterly that a carefully built character could be subverted if a new (and apparently extraneous) aspect were appended to it. For once Marcio felt the need to talk about his vision of theatre. “Changing a line is not a problem”, he said, “people dying in the street - that is a problem. You know... I come from a country where we don’t have to look for problems. We open our door... and it is there... Some of our friends have been killed because of the situation in Brazil... We have street kids who live like criminals from the age of 5... 6... 7. They carry guns. They kill and get killed. My approach to theatre is to use these arts as a... vehicle... yes?... vehicle to change things. This is not Chekhov. I am not interested in the psychology of individual characters. I am interested in characters only as... representations?... represen-tatives?” - (everyone nodded furiously that this was the right word) - “representatives of the community.” Beneath the mild exterior and boyish charm was a steely, street-wise commitment to social change. Zumbi was a shaft to carry issues into the heart of the public domain and to
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make people more aware of glaring imbalances in the human condition. In early June a working script was democratically agreed upon. It linked the disparate strands of history, song, choreography and improvised drama in a coherent design. Venue for the final weeks of rehearsal was a disused Courthouse in Stratford, East London. Behind the rehearsal room were the former holding-cells of the Court. Here, walls inscribed with names, dates and epigrams bear silent witness of a new generation of casualties of the system most of them identifying themselves as Black prisoners. Their ghosts accompanied us in the run up to production. Shango Baku June 1995
DAILY DIALOGUES – BLACK TO BRAZIL Palestra LIFT (London International Festival of Theatre) Palestrante: Marcio Meirelles Realização: LIFT (London International Festival of Theatre) / ICA e Leo Barnett Limited Realizado em Garrick Main House / Garrick Theatre (Londres) 04/07/95 BUSINESS ART FORUM Forum LIFT (London International Festival of Theatre) Participantes: Beverley Randall (Produtora, Black Theatre Co-Op), Bobby Baker (artista), Cristopher Corrin (Strategy adviser, De Beers
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Centenary AG), Hubie van Dalsen (Financial Analyst, RTZ), Ian Wingston (Innovation Consultant), John Borkowski (Head of Strategy, British Airways plc), Kevin Loader (Executive, Drama Department, BBC), Marcio Meirelles (Diretor, Bando de Teator Olodum)Mia de Kuijper (Vice President of Finance, Pepsico), Nigel Robertson (Executive, Food Division, Marks Spencer plc), Paul Askew (Diretor, SRU), Richard Elsner (Radley/KPMG) e William Sharpe (Laboratory director, Hewlett Packard) Rapporteur and adviser: Charles Handy Facilitadores e advisers: Aric de Geus, Barbara Heinzen e Gerard Fairtlough (membros da Global Business Network) Chairman: Paul Birch (British Airways) Participantes do LIFT: Angela McSherry (produtora administrativa), Julia Rowntree (Diretora do Forum), Kate Ashkroft (diretora de marketing), Lucy Neal (diretora do Festival), Rose Fenton (diretora do Festival) e Tony Fegan (Educational Officer) Realização: LIFT (London International Festival of Theatre) / Finantial Times Realizado em xx/07/95 Londres – RU ZUMBI ESTÁ VIVO E CONTINUA LUTANDO Bando de Teatro Olodum Roteiro, texto (com Aninha Franco e a colaboração do Bando de Teatro Olodum), figurino (com o elenco) e direção: Marcio Meirelles Direção de elenco: Chica Carelli Coordenação geral e administração do projeto: ngela Andrade Direção coreográfica e coreografia: Zebrinha Cenografia: Bel Borba Bonecos: Teatro de Bonecos Mamulengo Música: Cícero Antônio Iluminação: Jorginho de Carvalho Efeitos especiais: Fritz Gutman Patrocínio: Fundação Cultural do Estado da Bahia e Ministério da Cultura
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Elenco: Arlete Dias (Arafat), Auristela Sá, Cássia Valle, Cristóvão da Silva (Soares), Ednaldo Muniz, Edvana Carvalho, Jorge Washington, Lázaro Machado, Lázaro Ramos (Zumbi), Merry Batista, Nauro Neves, Nildes Vieira, Rejane Maia, Suzana Matta, Tânia Toko, Valdinéia Soriano ( ngela) e Virgínia Rodrigues Ator convidado: Mário Gusmão (Gangazumba) Participações: Dude Santiago; Ara Ketu (alunos da Escola Presidente Humberto de Alencar Castelo Branco e da Escola Doutor Barros Barreto); Ilê Aiyê (alunos do Colégio Duque de Caxias); Coral do Gantois (regência do maestro Keiller Rêgo); Grupo de Dança do Malê Debalê; Banda de Percussão do Gantois (maestro Yuri Passos); Banda do Apaxes do Tororó; Banda do Ara Ketu; Banda Erê do Ilê Aiyê; Banda do Malê Debalê; Banda Juvenil Olodum Apresentações: 15/11 a 25/11/95 – Passeio Público (SSA – Ba)
TRILOGIA DO PELÔ Livro com as peças do Bando de Teatro Olodum Textos: Essa é nossa praia , Ó paí, ó! e Bai bai Pelô de Marcio Meirelles (com a colaboração do Bando de Teatro Olodum) Patrocínio: Copene Prêmio: Aberfe Norte/Nordeste 96 para a Copene – Categoria Publicação Especial) Edições Olodum Co-edição: Fundação Casa de Jorge Amado/Grupo Cultural Olodum Salvador – BA Lançamento: 11/10/95 Teatro Vila Velha
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TEATRO VILA VELHA - ANO DOIS BAL TRAP: O JOGO Cia Cereus de Investigação Teatral Texto: Xavier Duringer Direção: Hebe Alves Cenário e figurino: Marcio Meirelles Direção Musical: Luciano Bahia Elenco: Maria Menezes, Aicha Marques, Cynara Isensée, Zeca de Abreu, Isabel Noemi, Jorge Borges e Zé Lauro Azevedo Apresentação: 13 a 22/01/95 Teatro Vila Velha (SSA – Ba) OS KIRIRI ESTÃO AQUI Evento Concepção e coordenação: Marcio Meirelles Participação: Indíos da tribo Kaimbé, Banda do Bloco Apaxes do Tororó e Nau Catarineta Apresentação: 11 e 12/04/95 Teatro Vila Velha
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COMPANHIA TEATRO DOS NOVOS – ANO UM A primeira ação para a reestruturação da Companhia Teatro dos Novos foi o projeto 3&Pronto. Eram montagens, quase esboços, feitas em curto espaço de tempo, de textos curtos que dificilmente montaríamos para temporadas. Mesmo que fossem textos importantes e que achávamos deveriam ser vistos. As produções eram feitas quase com dinheiro nenhum, com a adesão dos artistas que estavam frequentando ou trabalhando, investindo, no Novo Vila. Sempre tínhamos artistas plásticos fazendo o cenário, e músicos produzindo música ao vivo. Depois, quando o Vila estava meio reconstruído, com salas de ensaio e o Cabaré funcionando, os novos corpos dos Novos foram surgindo nas oficinas e em vários projetos que eram lançados. Até a montagem de Barba Azul e logo a seguir Um Tal de Dom Quixote, quando novamente a Novos assinou um espetáculo. O AMOR DE DOM PERLIMPLIM COM BELISSA EM SEU JARDIM 3 & Pronto Tradução, direção, cenário (com Roney George e André Luiz) e figurino: Marcio Meirelles Texto: Federico Garcia Lorca (texto adicional de Aninha Franco) Música: Marcos Carvalho e Tomzé Direção musical: Marcos Carvalho Produção executiva: Gabriel Duarte Elenco: Fernando Fulco (Dom Perlimplim), Hebe Alves (mãe de Belisa), Chica Carelli (criada de D. Perlimplim), Fátima Menezes (Belisa), Lázaro Ramos e Rosete Silva (Duendes). Músicos: Marcos Carvalho (violão), Cândida Lobão (cello) e Sergio Amorim (Percussão); participação especial de Virgínia Rodrigues (voz) Apresentações: 16 e 17/01/95 Teatro Vila Velha (SSA – Ba)
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A CASA FECHADA 3 & Pronto Direção, cenário e figurino: Marcio Meirelles Texto: Roberto Gomes Músicos: Grupo Instrumental Nau Catarineta Elenco: Carlos Petrovich, Chica Carelli, Celso Junior, Cristiane Mendonça, Fátima Menezes, Fernando Fulco, Gerimias Mendes, João Miguel, Juliana Valente, Lázaro Ramos, Zeca de Abreu e Zé Lauro Apresentações: 06 a 21/03/95 Teatro Vila Velha (SSA – Ba) CARA AMIGA SARAH H 3&Pronto Direção, cenário, iluminação (com Rivaldo Rio) e figurino: Marcio Meirelles Texto: Cláudius Portugal Assistente de direção: Tatiana Lima Direção musical e teclado: Luciano Bahia Montagem e operação de luz: equipe Novo Vila Fotografia: Isabel Gouveia Projeto gráfico: Claudius Portugal e Humberto Vellame Divulgação: Companhia de Comunicação Produção do 3&Pronto: Adriana Hitomi, Cida Lima, Fernanda Paquelet e Juçara Alencar Elenco: George Mascarenhas, Marley Oliveira, Tereza Araújo e Zeca Abreu Estreia: 16 a 31/10/95 Teatro Vila Velha (SSA – Ba)
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OUTROS TRABALHOS DE 1995 APAXES DO TORORÓ Performance no desfile do bloco no carnaval Concepção e coordenação: Marcio Meirelles Participação: atores baianos 24 a 28/02/95 Circuito do carnaval nas ruas do centro de Salvador – Ba NAVEGANTES Direção: Mariana Botelho Cenário e figurino: Marcio Meirelles Trilha Sonora: Luciano Bahia Elenco: Ro Reyes e Ruy César Projeto: Ponto de Encontro de Rede Latino-Americana de Promotores Culturais Independentes Produção: Casa Via Magia Apresentações: 14, 15 e 16/4/95 Teatro Vila Velha (SSA – Ba) TRANSCULTURALIDADE, ARTE E IDENTIDADE Debate Via Bahia Festival – 11 a 17/09/95 Palestrantes convidados: Eulâmpia Reiber, Renata Mello, Regina Miranda, Marcio Meirelles, Carmem Paternostro e José Augusto Burity Realização: Casa Via Magia e Rede Brasil de Promotores Culturais Independentes 14/09/95 Palace Hotel (SSA – Ba)
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POLÍTICA CULTURAL NO BRASIL HOJE: INICIATIVAS PRIVADAS E PÚBLICAS Seminário Mesa redonda Projetos culturais inovadores na iniciativa privada (24/10/95) Palestrantes: Caio Ferraz (Casa da Paz), Carlos Pouza (Banco Nacional), Danilo Santos de Miranda (SESC – SP), José Celso Martinez Correia (Teatro Oficina), Marcio Galvão (Fundição Progresso) e Marcio Meirelles (Teatro Vila Velha). Realização: Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia 23 a 25/10/95 Salão Nobre da Reitoria da UFBA QUEM MATOU MARIA HELENA? Texto: Claudio Simões Direção: Celso Jr. Elenco: Frank Menezes Participações especiais (voz off): Evelin Buchegger, Celso Jr., Nilda Spencer, Harildo Déda, Wilson Mello Cenografia e figurino: Márcio Meirelles Pintura “Maria Helena”: Joãozito Confecção galinhas cenográficas: Ivana Calumbi Iluminação: Celso Jr. Sonoplastia: Claudio Simões Estreia: 20/10/1994 Produção (1ª temporada: Selma Santos e Virgínia Da Rin)
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GOVERNANTES 66o prefeita: Lídice da Mata . Partido Socialista Brasileiro (psb) 1993 a 1996 67o prefeito: Antônio Imbassahy . Partido da Frente Liberal (pfl) 1997 a 2000 46o governador: Paulo Souto . Partido da Frente Liberal (pfl) 1995 a 1999 34o presidente: Fernando Henrique Cardoso . Partido da Social Democracia Brasileira (psdb) 1995 a 2003 Duas jovens da cidade mineira de Varginha relataram ter visto um ser extraterrestre, o que causou repercussão nacional. Os integrantes da banda Mamonas Assassinas morreram quando o jato onde voavam caiu sobre a serra da Cantareira, em São Paulo. Massacre de dezenove membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, mortos pela Polícia Militar, durante o confronto em Eldorado dos Carajás, no Pará. Um jato da Tam caiu sobre casas no bairro do Jabaquara, São Paulo, Deixando 99 mortos. Na década de 1980 foram criados os primeiros mamíferos por transferência nuclear, mas o marco da clonagem de mamíferos foi com a clonagem da ovelha Dolly, feita pelos cientistas Wilmut e Keith Campbell, a partir da célula de um doador adulto.
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BANDO DE TEATRO OLODUM - ANO SEIS ERÊ PRA TODA A VIDA - XIRÊ Teatro/dança Bando de Teatro Olodum (Dança Olodum!) Roteiro, direção e figurino: Marcio Meirelles Assistente de direção: Chica Carelli Coreografia: Zebrinha Músicas: José Carlos Capinan / Jarbas Bittencourt, Marcio Meirelles / Jarbas Bittencourt e Carlinhos Brown Direção musical: Jarbas Bittencourt Direção de percussão: Bira Monteiro Percussão: Bira Monteiro e Antonio Carlos Tolete Produção: Ana Rúbia Elenco: Arlete Dias, Auristela Sá, Cristóvão da Silva, Dinho, Edson Escovão, Gerimias Mendes, Jorge Washington, Lázaro Machado, Lázaro Ramos, Leno Sacramento, Luciana Souza, Luiz Fernando Araújo, Melcquesedeque Sacramento, Rejane Maia, Suzana Mata, Valdinéia Soriano e Virgínia Rodrigues Em Londres: Participação: Erê Choir / Black Theatre Co-Op – Althia Francis, Chantel Alleyne, Dionne Spencer, Dionne Thomas, Dywayne Thomas, Michael James, Michelle Jackson, Simone Watson, Tricia Merchant e Yhvone Spencer Regência: Felix Cross Vozes Gravadas: Antonia Coker, Beverley Randall e Wayne Buhannon Adaptação das músicas: Felix Cross Tradução do poema Oxalá: Shango Baku Ensaio aberto: 26/05/96 Teatro Vila Velha (Ecodramas) Estréia: 14 e 15/06/96 – Carlton Dance Festival Teatro Municipal (Rio – RJ) Apresentações: 17 e 18/06/96 – Carlton Dance Festival Teatro Sérgio Cardoso (São Paulo – SP)
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20 a 22/06/96 – Out of LIFT (London International Festival of Theatre) Young Vic (Londres – RU) DAILY DIALOGS Palestra Out of LIFT Palestrantes: Christophe Berthonneau e Marcio Meirelles Moderador: Michael Marland Realização: LIFT (London International Festival of Theatre) / Vision for London Apresentação: 17/06/96 Young Vic Studio (Londres) SHARED VALUES 2 Workshop Out of LIFT Ministrante Realização: LIFT (London International Festival of Theatre) / Association of Professional Theatre for Children & Young People, Oval House e London Drama Realizado entre 20 e 22/06/96 Riverside Studios (Londres) CARNAVAL Desfile percussivo/coreográfico Out of LIFT / Gran Gran Fiesta COORDENAÇÃO Coreografia: Zebrinha e Bando de Teatro Olodum Coordenação de percussão: Bira Monteiro Participação: Acorde Povo, Bando de Teatro Olodum, Nóis, The Street Nation Band, Samba Gales (Cardiff) Apresentação: 23/06/96
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Riverside Walkway, de Hungerford Bridge a Gabriel’s Wharf Market (Londres) ÓPERA DE 3 MIRRÉIS Teatro Bando de Teatro Olodum CENÁRIO, FIGURINO E DIREÇÃO (com Chica Carelli) Texto: Bertolt Brecht Música: Kurt Weill Tradução:Wolfgang Bader e Marcos Roma Santa Dramaturgista: Michaela Visoski Direção Musical: Bertold Türke Assistente de Direção Musical: Jarbas Bittencourt Coreografia: Cristina Castro Iluminação: Jorginho de Carvalho Elenco: Arlete Dias (Poly), Auristela Sá (Lucy), Cássia Valle (prostituta), Cristóvão da Silva (Brown), Gerimias Mendes (mendigo e Reverendo Kimball), Jorge Washington (Jacó Dedo de Gancho e Jorgete), Lázaro Machado (Sr Peachum), Lázaro Ramos (Matias), Leno Sacramento (um mendigo e Robert), Luciana Souza (Sra Peachum), Luís Fernando Araújo (mendigo e Tatu), Melquesedeck Saccramento (mendigo e Jimmy Pato Rouco), Merry Batista (Pepeta, uma prostituta), Nauro Neves (Cantor do Moritat e Smith), Nildes Vieira (prostituta), Rejane Maia (a lua, narradora), Suzana Matta (Jenny), Tânia Toko (Fichinha) e Valdinéia Soriano (Valterléia, uma prostituta e um mendigo) Ator convidado: Fernando Fulco (Mack Navalha) Músicos convidados: Jarbas Bittencourt (violão) e Saulo Gama.(piano) Realização: Bando de Teatro Olodum/Teatro Vila Velha Apresentações: 31/10 a 08/12/96 Teatro Vila Velha (SSA – Ba)
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TEATRO VILA VELHA - ANO TRÊS O QUE O SR. BERTOLT TEM A VER COMIGO Leituras dramáticas CONCEPÇÃO e DIREÇÃO Textos: Bertolt Brecht Apoio: Instituto Goethe/Salvador BAAL Participação: Lucélia Santos Elenco: Chica Carelli, Fernando Fulco, Lucci Ferreira, Lúcio Tranchesi Música: Mundamundistas e Confraria da Bazófia 04 e 05/03/96 UM HOMEM É UM HOMEM Participação:Daniela Mercury e Harildo Deda Elenco: Chica Carelli, Lucci Ferreira, Fernando Fulco, Marcelo Prado e outros Música: Mundamundistas e Confraria da Bazófia 01 e 02/04/96 A MÃE Participação: Jurema Penna e Paulo Betti Elenco: Chica Carelli, Gideon Rosa, Fernando Fulco, George Vassilatos, Lucci Ferreira, Tânia Toko e Urias Lima Música: MundamundistasConfraria da Bazófia 06 e 07/05/96 TERROR E MISÉRIAS DO TERCEIRO REICH Participação: Edgar Navarro, Jackson Costa e Tereza Seiblitz Elenco: Chica Carelli, Lucci Ferreira 03 e 04/06/96 Realização: Teatro Vila Velha Teatro Vila Velha (SSA – Ba)
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REVILAVOLTA Evento multimídia/rock CONCEPÇÃO, ROTEIRO e DIREÇÃO Produçâo executiva: Zeca Abreu e Mundamundistas Realização: Projeto Novo Vila Participantes: Apaches do Tororó, Banda Crac, Banda Egbá, Bem Leve, Bia e Marta, Deco Rangel e A Coisa, Eduardo Lino (vídeo), Jardim de Infância, Jonga e os Alegres, Guida Moira, Lula Oliveira (Vídeo), Márcio Mello, Marcondes Dourado (vídeo), Marepe, Maria Bacana, Mundamundistas, Palhaços do Universo e Pirilampos. Apresentações: 19 a 21/01/96 Teatro Vila Velha
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OUTROS TRABALHOS DE 1996 FEIJÃO COM ARROZ Show de Daniela Mercury DIREÇÃO Direção musical: Luizinho Assis e Alfredo Moura Iluminação: Jorginho de Carvalho Cenário: Gringo Cárdia Figurino: Flávia Laffer e Reynaldo Lourenço Realização: Canto da Cidade Banda: Luizinho Assis e Alfredo Moura (teclados), Cezário Leony (baixo), Alexandre Vargas (guitarra) Ramon Cruz (bateria) Rowney Scott (saxofone) Joatan Nascimento (Trompete) Ferreira Filho (trombone) Beto Rezende, Gustavo de Dalva e Márcio Brasil (percussão) Dançarinas: Edileuza Santos, Rosinha Barreto e Adil Silva Vocal: Ivana Dantas e Daniela Tourinho Estréia: 29/11/96 Olympia (São Paulo – SP) 21/12/96 Clube Espanhol (SSA – BA) 200 E POUCOS MEGABYTES DE MEMÓRIA Dança Balé Teatro Castro Alves CENÁRIO e FIGURINO Coreografia: Cristina Castro Música: Bach e Doudou Ndiaye Rose Iluminação: Jorginho de Carvalho Realização: Teatro Castro Alves / FCEBA Elenco: Adriana Bamberg, Agnaldo Fonseca, Ajax Vianna, Antrifo Sanches, Augusto Omolu, Dejalmir Melo, Fátima Berenguer, Joffre Santos, Flexa II, Leonard Henrique, Lilá Martins, Luís Molina, Marcos Napoleão, Maria ngela Ribeiro, Ana Elisa Supra, Maria Luíza Meirelles, Mônica Nascimento, Paulo Fonseca, Waneska César e Tayra Mello. Estréia: 15 a 17/12/96 Teatro Castro Alves (SSA – Ba)
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200 e poucos mega bytes de memória foram usados para armazenar os sons gravados para a trilha da coreografia de Cristina Castro. Em 200 e poucos mega bytes de memória Cristina Castro armazenou, sintetizou e explodiu séculos de história, quilômetros de distância, gerações, culturas, gente, gente, gente. Em 200 e poucos mega bytes de memória tudo que a gente pensava saber sobre as diferenças, as distâncias e as impossibilidades de harmonia vai por água abaixo afogado numa enchente inesperada. O palco está cheio de gente, de sons, de gestos vindos de cantos diferentes, referências diversas, tudo parecendo impossível estar junto e soar afinado, mas está lá e se afina. O óbvio se instala no palco como um índio vindo de uma estrela distante e pousando em europas, franças e bahias: só é possível construir estando junto. O prazer quase sempre vem do outro. O mundo é redondo e pequeno e não somos mais que água e peixe e bicho e terra e quase coisa nenhuma. E as coisas só fazem sentido se partilhadas. As histórias só existem quando são contadas e ouvidas por um outro que é diferente de nós e que por isso nos escuta e forma um todo nesse momento de eu história outro. Em 200 e poucos mega bytes de memória Cristina Castro nos conta uma pequena história do mundo e nos mostra como é possível ser feliz. Marcio Meirelles (perdidamente apaixonado) Salvador, novembro de 1996.
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QUEM DISSE (APOLOGIA A MIGUEL DE CERVANTES) Teatro CONSULTORIA Texto: Ceres Guedes Direção: Hebe Alves Trilha sonora: Luciano Bahia Cenário, figurino, adereços e programação visual: Lígia Aguiar Iluminação: Fábio Espírito Santo Preparação corporal e coreografia: Cristina Castro Produção executiva: Lígia Aguiar e ngela Menezes Realização: Secretaria de Administração do Estado da Bahia / PROQUALI Elenco: Climério Figueiras, Edneide Santana, Edson Suedde, Maria Helena Fernandes, Hildete Pinto de Carvalho, Rosa Maria Temporal Mesquita e Rosita Santos Barreira Estréia: 13/09/96 Hotel Meridien (VI Congresso Brasileiro da Qualidade e Produtividade)
QUEM DISSE Quem disse que o servidor público não pode mudar o mundo? Qualquer estratégia que se use para conscientizar o servidor público de que ele é um servidor público; de que o público deve ser bem atendido e de que isso muda tudo; de que as condições de trabalho devem ser melhores, e consequentemente o nível salarial deve subir, e de que isso muda tudo. Qualquer estratégia, qualquer arma que se use para conscientizar o servidor público de que ele é o único responsável por essas mudanças e de que essas mudanças mudam tudo, mudam a face do nosso país, que carece ser mudada urgentemente; de que os servidores públicos são uma multidão dentro deste país e de que são uma força poderosa, e de que se eles mudam, tudo muda. Qualquer arma e estratégia usadas para esse fim são preciosas.
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O teatro é uma arma poderosa no sentido de levar o público a repensar suas ações. Se não em larga escala, como a televisão, em profundidade. O teatro, como um vírus, pode se instalar na consciência do espectador e fazê-lo ver com novas cores, de uma nova perspectiva, de uma outra forma. E quando se coloca o mundo de cabeça pra baixo ele parece ridículo e passível de ser modificado. Quando se alia teatro a uma proposta de qualidade total o resultado é QUEM DISSE, por exemplo. Um espetáculo feito por servidores públicos na tentativa de mudar alguma coisa. Quando servidores públicos se mobilizam, tudo muda. E quem disse que o servidor público não muda? Salvador, 4 de setembro de 1996
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HEINER MULLER EN LATINO AMERICA Seminário Onde participaria como palestrante, mas não houve por motivo de saúde. Realização: Instituto Goethe de Santiago (Chile) e International Theatre Institute 29/11 a04/12/96 Santiago – Chile A ATUALIDADE DE BRECHT Colóquio 26/08 – “Brecht sem comícios nem dógmas” Palestrante: Fernando Peixoto 27/08 – “Brecht e Heiner Müller” Palestrante: Luíz Fernando Lobo Participante como palestrante: 28/08 – “Montagens Brechtianas na Bahia” Palestrantes: Carlos Nascimento, Deolindo Checcucci, Luíz Marfuz, Marcio Meirelles e Paulo Dourado Realização: Instituto Goethe 26 a 28/08/96 Biblioteca do ICBA
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BRECHÓ Livro Autora: Aninha Franco Ilustrações: Marcio Meirelles Toda Uma Festa que se Inicia com a Madrugada em Quartos de Motel Barato – poema visual Canções Tantálicas para um Anjo Exterminado - Poema Coleção Casa de Palavras – Série Poesia Edição: Fundação Casa de Jorge Amado – Salvador Coordenação editorial: Claudius Portugal Planejamento gráfico: Humberto Vellame Capa: Gilson Rodrigues Foto: Eva Cristina Lançamento: xx/xx/96 Fundação Casa de Jorge Amado (Salvador – BA) ESPETÁCULO DE PREMIAÇÃO ODEBRECHT Roteiro e direção Participação: Confraria da Bazófia Apresentação: xx/xx/96 Casa do Comércio POLÍTICA DE INTERC MBIO CULTURAL BRASIL – CHILE Performance na abertura Direção: Marcio Meirelles Elenco: Lázaro Ramos e Wagner Moura Produção: TCE – Treinamento e Consultoria Empresarial Ltda Apresentação: 27/03/96 Museu do Unhão (SSA – Ba)
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FÓRUM CULTURAL DO MERCOSUL Fórum Expositor Realização: Casa Via Magia, Rede Latino Americana de Produtores Independentes de Arte Contemporânea e Rede Brasil de Produtores Culturais Independentes 18 a 20/09/96 Salão Atlântico do Hotel da Bahia
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Nos meus 25 anos de teatro pensava em escrever um livro, em parceria com Marcos Uzel, sobre meu trabalho. Ele fez uma série de entrevistas e comecei a organizar o texto. Cheguei a escrever o que seria o capítulo 1, mas não passei daí. Publico aqui, quase 25 anos depois: Sou artista. Tenho 43 anos, 25 de teatro e uma profunda necessidade de dizer coisas. Continuo fazendo e querendo o teatro, porque acho que não sei fazer outra coisa. Nós vamos construindo armadilhas pra não deixar de realizar o que queremos, e acho que a vida inteira. O destino é isso: as armadilhas que a gente vai armando pra não sair de um caminho. Fiquei ligado ao teatro formalmente, emocionalmente, socialmente, politicamente. Esta ligação é muito forte. Tudo que eu construí parece não me permitir mais deixar de fazer teatro. Isso é como o destino nas tragédias: aquela coisa da qual não podemos nos livrar e ainda que corramos, fujamos, acabamos esbarrando nela. É da tentativa de fuga que surge a tragédia, porque você não pode se desprender de você mesmo, romper consigo. Outra coisa muito forte é que o teatro é uma forma de conviver. Engraçado, não vou na casa das pessoas, elas não vêm muito na minha casa, não tenho uma vida social intensa, e meus maiores amigos, que são quase insubstituíveis afetivamente, estão no mesmo trabalho que o meu, dividindo não só o meu espaço afetivo, mas também profissional. Então, o teatro é uma forma muito especial de estar com as pessoas, de trocar, de conviver, de construir, de ter e fazer sentido, de estar vivo... Como numa relação amorosa, você não constrói teatro sozinho. Foi assim que eu aprendi, no teatro universitário, quando comecei: era uma coisa de turma, de tribo, na qual o grupo todo tinha as idéias, construía o texto e se dirigia.
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Um estímulo básico para dirigir é se encantar com o ator no palco. Adoro quando vejo como ele é capaz de fazer coisas que não se faz normalmente ou só se faz em limites extremos. Por exemplo, Fernanda Montenegro no espetáculo Lágrimas Amargas de Petra von Kant: em cena, ela dizia eu te amo para a personagem de Renata Sorrah umas dez vezes seguidas, cada uma com uma entonação diferente. Isso era a coisa mais linda da peça inteira. Ali Fernanda mostrava a atriz que tem a possibilidade de dizer eu te amo de 200 formas diferentes na mesma hora, quase como um exercício. Era algo completamente pertinente e humano. Era real, pertencia à trama, ao personagem e também fazia parte da história de Fernanda Montenegro. Isso eu acho lindo: ver o ator exercitando a sua função. Na verdade, qualquer ser humano tem a possibilidade de representar a verdade, de representar a vida, mas o ator faz isso de uma maneira maior do que a vida é. Sempre falo que existem três estados: a verdade, a mentira e o teatro. Este último é um estado intermediário. Não é falso, é uma outra verdade. Não é fingimento, é teatro. Não podemos dizer que a lágrima de Yumara Rodrigues na peça A Mais Forte seja verdadeira, mas o que ela faz para chorar não é exatamente o que acontece a uma pessoa quando chora. Ela mexe com as mesmas glândulas, provavelmente com a mesma respiração, enfim, todo o processo físico é igual ao de alguém que está chorando. No entanto, o que faz a atriz para chorar não é a mesma coisa, porque aquele choro tem que se repetir a cada dia. A lágrima tem que cair a cada dia na mesma hora, e só o teatro pode fazer isso, estabelecendo, portanto, que esse limite entre o real e o verdadeiro é falso. Acho lindo quando o ator consegue mostrar esse terceiro estado. É como um filho de santo possuído, que tem a capacidade
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de fazer uma ligação íntima entre a divindade e o ser humano. O ator é maravilhoso quando consegue mostrar esse lado divino. Deus é esse poder de união, de junção, de criação, de reprodução. E o ator é o cara que tem esse dom. Não se vê esse estado em um pintor ou escritor, mas sim na obra deles. Já o ator é a obra e o autor ao mesmo tempo. Todo mundo tem um limite. Meu trabalho é empurrar o ator para além do limite dele, propor desafios para que ele chegue o mais longe possível. É um trabalho de relação, ou seja, eu tenho que ver o que o ator quer. Isso foi uma descoberta maravilhosa feita logo que comecei a dirigir. O ator tem razão porque está lá inteiro com o corpo, a voz, a emoção, o suor, o sangue, com tudo. Já o diretor está de fora querendo sempre coisas, e esse querer depende do ator. Não adianta você entortar o desejo dele para chegar ao seu. O importante é acompanhá-lo no desejo dele e equilibrar tudo num desejo único. Estou querendo dirigir, dirigir, dirigir... Picasso costumava dizer que um artista não pode se considerar artista se não produz pelo menos uma tela e alguns desenhos por dia. Ele era um pintor compulsivo, mas essa frase, de alguma forma, é verdade. Se a gente não está se exercitando, não pode se chamar de artista. Se um ator não está no palco, então não é ator. Assim é o diretor. Eu estava muito envolvido com promoção, agitação cultural, produção, marketing, e não foi à toa que ganhei um prêmio de marketing este ano. É estranho, porque eu estava deixando um pouco de lado essa coisa do diretor e, ao mesmo tempo, fui ficando amargo com o fato de não estar exercitando esse lado meu, cumprindo a função que eu escolhi. Criei essa condição de ser diretor do Vila Velha, de ter um teatro à minha disposição. Mas estava tudo louco, embaralhado, se
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perdendo... Batalhei durante anos para ter um teatro e me exercitar dentro dele como diretor. Consegui tê-lo, porém estava me exercitando como administrador, produtor, captador de recursos, marketeiro, como qualquer outra coisa menos como diretor. Aí disse: Chega! Eu quero ser um diretor. Durante esse período, eu dirigi Esmeralda, a Vampira Fetichista, Barba Azul, Potato Pum, A Mais Forte e Cabaré da RRRRRaça. Foram cinco espetáculos e poéticas completamente diferentes, trabalhados mais ou menos simultaneamente. Sinto que sou complicado no trato com a teoria. Não consegui me formar, e nunca quis ter uma carreira dentro da Universidade. Acho que sofro de uma certa adolescência renitente, uma rebeldia que não permite me adaptar ao processo acadêmico. O meu processo de aprendizado foi na prática. Primeiro com o teatro universitário aprendi que o teatro é uma arma política e que é uma coisa que deve ser feita coletivamente e tem a ver com aqui-agora. Como ator e figurinista independente fui aprendendo com os diretores com quem trabalhei - Jurema Pena, José Wilker, Nelson Pereira dos Santos e B. de Paiva. Eram conceitos, modos, coisas que eu queria e não queria fazer, coisas com as quais eu concordava, coisas com as quais não. Fui descobrindo um jeito. Com o Avelãz y Avestruz experimentei esses jeitos e outros. Aprendi com os atores como são os atores e como é possível dirigi-los. Aprendi em cada espetáculo um jeito novo. Cada espetáculo do Avelãz foi iluminado por um mestre. Artaud, Brecht, Meyerhold, os cineastas expressionistas alemães, Jung, Lacan, o Kabuki, a commedia dell’arte, o teatro de circo. A cada nova montagem a gente ia se esbarrando com
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o aliado necessário para nos fazer continuar. Nos metíamos de cabeça nessas experiências estéticas e existenciais e redirecionávamos nosso trabalho. Aprendíamos lendo, viajando, vendo outras coisas, outras pessoas, outros artistas trabalharem. Aprendi a agrupar, a manter junto um grupo de pessoas. A ouvir, a perceber que cada ator tem muito pra dar, é só saber ver e estimular do jeito certo. E esperar. Saber esperar a hora certa em que alguma coisa vai brotar e colher. Depois foram anos de carreira solo, trabalhando com vários grupos e várias linguagens. Dança, música, vídeo, teatro. Depois foi a crise com tudo aquilo e a experiência internacional: uma bolsa de aperfeiçoamento em New York. E a desistência da bolsa. Não era o que New York tinha para me dar que me interessava naquele momento. Tudo o que New York tinha para me dizer era : “volte para o Brasil, para a Bahia, vá descobrir seu próprio teatro, como nós descobrimos o nosso e fazemos bem”. Com o Projeto Teatro aprendi a descobrir as raízes de um teatro que me interessava naquele momento, e um jeito de fazer teatro que era necessário, não só pra mim, não só pro meu prazer estético, mas necessário para uma comunidade. Daí vieram os anos de porrada, como diretor do Teatro Castro Alves, onde me vi dirigindo um monstro, no ventre do qual se aninhavam um balé e uma orquestra, e em volta a imprensa, os amigos, os inimigos, os políticos e a cidade. Aí aprendi a sobreviver. Depois, com o Bando de Teatro Olodum, aprendi outra poética, outra política e outra ética. Aprendi como é a sobrevivência do lado negro de um país que nega ser racista.
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No Vila Velha estou aprendendo a ter prazer, a ser inteiramente diretor, a dividir e comandar. A seguir o rumo dos acontecimentos, às vezes somente me deixando levar, às vezes levando. Agora, no Vila Velha, estou aprendendo. O meu jeito de passar todas essas experiências é mostrando. Ao mesmo tempo em que mostro, faço e repenso o que eu vi, fiz, li, pensei... Mostro tudo: exemplos, citações, discursos meus, de outros... tudo através de um trabalho prático. O meu trabalho. Nesse sentido, é bacana comandar uma oficina com atores, porque a gente repensa o fazer teatro. A gente reaprende, reinventa. O legal de alguém ser seu aluno é aprender como você faz, não para fazer igual, mas para ver um artista trabalhar e poder ter um parâmetro do que é o trabalho dele. Muito melhor do que ficar passando o que a, b ou c fizeram, é passar como você faz. Você é vivo e o teatro é vivo também. No processo de elaboração e estruturação de um espetáculo, meu método é mais ou menos assim: numa improvisação a gente faz uma cena que é legal. Ai segura aquilo, discute o que realmente quer dizer com aquela cena e repete e outra vez no dia seguinte e no outro dia e os atores vão colhendo material na rua, nos jornais, nos livros, na vida e trazendo para o exercício. Novas cenas vão surgindo e sendo repetidas de forma independente uma da outra. Desta repetição vem o amadurecimento de cada sequência. Os atores vão fixando o que é mais importante, enquanto eu vou interferindo bastante, lembrando coisas que eles não colocaram na repetição e que era importante ter, e dando a direção da cena. “Aquela determinada situação eu escolhi porque fala daquilo, que não pode ser perdido, pois tem humor, tem uma certa informação, tem não sei o quê”, então eu vou sinalizando coisas que eles devem conservar ou então acrescentando. Tipo assim: “aqui, nessa hora, fala isso, puxa isso de outra forma, você podia
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fazer assim...” Vou provocando ações e reações dentro de uma estrutura que já está lá, e no final eu vou juntando tudo, estruturando, e até mudando a configuração da cena de modo que ela se encaixe no lugar certo. Para os atores de Barba Azul, por exemplo, era espantoso como as cenas ficavam na minha memória e como eu ia buscando o casamento delas. Como nesta peça a estrutura era mais poética, eu usei as ações como frases melódicas ou musicais, que eram repetidas por todos. Uma coisa que uma atriz fazia sozinha, eu pedia para todas as mulheres fazerem juntas. Então a cena soava diferente como se tivesse outra estrutura. O que era único virou coletivo. Às vezes era o inverso, o que era feito por muitas pessoas acabava ficando condensada em uma só. O personagem é a célula básica para a construção das cenas e ele tem surgido a partir dessa sistemática. Nasce a partir de uma coisa básica, orgânica, que é respirar, estar vivo, pensar e se mover. O ator começa somente a andar e respirar. Prestar atenção à própria respiração e modificá-la, e a partir daí, modificar o ritmo, o andar, a emoção. Essa nova respiração e esse novo andar, novo ritmo, novo sentimento, vão gerando um novo ponto de vista, uma opinião sobre a vida e um estar no mundo que são próprios daquele personagem. O ator enquanto anda pela sala vai começando a pensar numa pessoa e colocando uma respiração que é própria daquele alguém imaginado. Vem o andar, o gestual, a forma de caminhar, e uma emoção básica que todo mundo tem. Existe gente que é raivosa, ciumenta, amorosa, delicada, furiosa, amarga, e tudo isso implica em um ritmo e um jeito próprio de respirar. O ator vai descobrindo isso aos poucos e muito a partir da relação com os outros personagens.
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Depois de ter a estrutura básica que é uma respiração e um movimento, eu vou perguntando coisas: “o que você faz, como você ganha dinheiro...” Então a gente vai sempre colocando esse dado real, essa coisa da função que esse cara assume no mundo, porque as profissões, os grupos sociais têm funções. Uma baiana de acarajé não serve só para vender acarajé. Ela tem uma função, uma estrutura numa comunidade, preservando coisas e funcionando como um receptáculo de um imaginário coletivo. Essa personagem seria um conceito, não só um indivíduo. Ela traz em si a coletividade das baianas do acarajé. É muito importante pra mim que o ator não pense que aquele personagem é real, que ele acredite o tempo inteiro que ele construiu alguém para, através desta construção, colocar seu ponto de vista. A opinião do personagem não é necessariamente coincidente com a do ator. É melhor até que não seja, mas que, através do personagem, ele coloque a sua indignação diante de alguma coisa ou a sua vontade de que alguma coisa seja daquela forma. Às vezes acontece de alguns personagens serem muito próximos do ator. Isso às vezes se torna uma dificuldade porque o ator pode começar a defender as suas opiniões como pessoa, não deixando que o personagem criado por ele ganhe uma vida própria e tenha sua própria opinião. Às vezes é o contrário, o ator defende tanto o ponto de vista do personagem e cria justificativas tão convincentes pra ele agir assim ou assado que passa a ser identificado com ele. Durante muito tempo a imprensa confundiu isso em relação aos atores do Bando de Teatro Olodum. Achando que nem eram atores porque não representavam personagens, mostravam sua própria vida. Como se fosse mais fácil mostrar a própria vida do que representar personagens. Os atores do Bando sempre
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representaram personagens, através dos quais eles podiam falar de coisas que conheciam de perto, não que vivessem aquelas coisas. Nenhum dos atores do Bando era traficante ou prostituta, mas através deles eles podiam falar de respeito e cidadania, de discriminação e outros itens da cesta básica de um cidadão brasileiro negro e pobre. Às vezes essa defesa do personagem gera confusões dentro do próprio grupo. Por exemplo: a atriz Edvana Carvalho interpretou, nas peças da trilogia do Pelô, do Bando de Teatro Olodum, uma dessas baianas estilizadas que servem de isca para turistas no Pelourinho, negra e racista, que dizia ser quase branca e queria ir para a Europa se casar com um gringo e se dar bem na vida. Tudo que ela falava era muito canalha, escroto, mas Edvana não é assim. Só que quando a atriz colocava aquelas posições no personagem, ou seja, transformava em teatro, ela tinha que defender tudo aquilo e justificar o personagem. Torná-lo inteiro e oferecê-lo ao público para que então fosse feito o julgamento. Edvana fazia isso tão bem que começou a ser discriminada dentro do grupo como se fossem dela as atitudes do personagem. O ator não pode expor seu personagem de uma forma que o público já tenha nele próprio o julgamento. Ou seja, ele não pode julgar nem pré-julgar o personagem. Não pode ter preconceito sobre aqueles conceitos, idéias sobre aquela vida que está sendo mostrada em cena, o público é que deve fazer isso. O ator deve colocar tudo de uma maneira crítica, expositiva, mostrando o comportamento, as razões e as contradições do personagem e da comunidade que o gerou com aquele comportamento, aquelas contradições e aquelas razões. Não deve julgar seu personagem nem se envolver ou
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se emocionar com ele, a ponto de perder o controle sobre o seu próprio senso crítico e sua opinião pessoal. Depois da ligação do ator com seu personagem, vem outra também muito importante: a desse personagem com os outros. Aí é que de fato eles vão se estruturar. A partir do confronto. As relações é que vão dar o caráter do personagem, sua história, suas posições e também determinar como vai ser a convivência do ator com ele. Às vezes os atores se surpreendem com reações de seus personagens quando confrontados em situações inesperadas. Porque, como princípio e regra da improvisação, o ator tem que assumir tudo o que o outro com quem está contracenando coloca para ele. Se o outro personagem diz “eu te encontrei ontem”, ele tem que assumir que houve o encontro por algum motivo e aí vai criando situações. E muitas vão surgindo assim, até chegar o momento em que tudo que foi improvisado vai ser racionalizado, estruturado e editado para caber no espetáculo. Para dizer exatamente o que se quer dizer. Dessa forma os personagens são criados coletivamente, são socializados, dependem de todos os atores e do diretor. Vão sendo criados como respostas a provocações dos outros, como consequência lógica das ações, das atitudes dos outros personagens. Vão sendo gerados, como na vida real, pela lei da ação/reação. Vão sendo criados personagens sociais e não psicológicos. E, não sendo uma criação individual, conservam características coletivas, pontos de vista coletivos. Mas, ao mesmo tempo, dependem e muito do ator que os está representando, de sua consciência política, de sua visão crítica, de seu senso de observação, de sua intuição, de sua responsabilidade e de sua habilidade em receber as contribuições dos outros atores, incorporá-las e
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transformá-las em seu próprio discurso. Às vezes um ator poderia fazer um grande discurso com o seu personagem. E esse discurso seria fundamental para que o espetáculo dissesse o que queremos dizer com ele. E falta ao ator essas qualidades, principalmente preparo político. Então tenho que resolver a questão. Ou provoco o grupo para que dê subsídios a ele, ou escrevo seu discurso e tento fazer com que ele o incorpore, ou simplesmente peço a outro ator que assuma, com o seu, a função daquele personagem e faça o discurso que necessitamos. Acho que o ator tem que ser um parceiro. Ele tem que aprontar a parte dele e trazer materiais. Se ele não traz nada, fica difícil dirigi-lo. É como modelar: a argila tem que ter uma certa consistência nem estar muito dura nem muito mole. Se o ator tenta fazer tudo sozinho, ter tudo pronto, não é permeável ou receptivo para o que está acontecendo, na hora em que está acontecendo, temos um personagem rígido, previsível. Se, por outro lado, o ator não traz nada, não dá nada nas improvisações, não troca, ele não atua, é usado. Quando falo essas coisas, isso tem a ver com o meu método de trabalho, não que seja melhor, o único ou que deva ser seguido. O teatro é um universo ilimitado de processos para se chegar a um discurso. É como você usar a língua portuguesa para escrever cartas, processos, artigos, bilhetes... A língua teatro pode ser usada para diversos objetivos e com diferentes conteúdos e formas. No meio disso tudo, ensaiar torna-se um grande prazer. Na verdade, gosto mais do que do próprio espetáculo. Adoro assistir ao ensaio dos outros como simples espectador. Gosto muito do processo, da quase peça. É bacana a gente ver a
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interrupção, o jeito de criar, porque, é como o que falei daquela cena de Fernanda Montenegro, é ver um artista exercitando o seu ofício. Adoro, por exemplo, ver operário trabalhando em obra ou então ficar olhando uma pessoa bordar, um artista pintar... Gosto de ver trabalho, de ver uma parede ser levantada ou demolida, de ver as coisas surgirem. Gosto do jogo de armar, de montar, do que vai acontecer. Muitas vezes são criadas cenas que eu não sei onde serão colocadas, mas tenho uma intuição de que se encaixam em algum lugar e a gente guarda. E espera. Esse tempo de espera para as cenas criarem vida, ficarem sólidas e aí poderem ser associadas e serem encaixadas numa história, isso me dá muito estímulo. O espetáculo Cabaré da RRRRRaça, que montei com o Bando de Teatro Olodum, foi um processo completamente novo. Deixei os atores falando, discutindo, para que eles entendessem e estruturassem essa discussão, arrancando argumentos uns dos outros. Há um momento na peça em que o ator Cristovão da Silva comenta uma cena sobre o cu do mundo. Ali, ele está comentando o próprio teatro e fazendo uma relação entre o conteúdo e a forma como o conteúdo foi colocado, justificando o porquê daquela cena ter sido feita daquela forma. Nesse sentido, acho que o Cabaré da RRRRRaça mostrou-se mais radicalmente novo pra gente. No exercício de dirigir, sou e não sou paciente. Quando vejo que o ator não consegue mesmo, que ele tenta mas não chega lá, eu desisto. Invento outra coisa e mudo. Agora, quando vejo que o ator pode e não consegue, porque não está tentando ou está com medo ou não quer ser ridículo, aí perco um pouco a paciência e sacaneio mesmo. Mas eu aprendi que o teatro é um jogo, e por isso mesmo tem que ser divertido. Então sempre brinco muito. Quando
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fico impaciente começo a brincar, a sacanear, mas de uma maneira que fique gostosa, que seja bem humorada. É claro que o ator que está na berlinda perde o humor, não fica muito feliz de estar ali sendo sacaneado, mas às vezes é preciso criar uma provocação para ele sair daquilo. Às vezes é tão clara a capacidade dele de sair de um impasse... mas aí ele empaca e cabe a mim forçá-lo a sair, nem que ele entre em crise, pare, dê um tempo e depois retome de outra forma. Meu processo é muito louco. Aconteceu na minha vida o inverso. Todo mundo começa fazendo mil coisas e teatro, nas horas vagas. Eu não. Comecei fazendo teatro integralmente, o dia inteiro, o tempo inteiro pensando naquilo, elaborando aquilo e trabalhando de fato, como artesão, em um único espetáculo. Agora, depois de 25 anos, quando eu deveria estar com a tranquilidade de montar tal coisa e aí viajar para Paris, onde passaria dois meses pesquisando e tal, acontece o inverso. Estou fazendo milhares de coisas ao mesmo tempo e ensaiando várias peças de uma só vez. Isso dá uma mobilidade, uma dinâmica de pensamento completamente diferente, e é bárbaro também, porque a gente vai ligando uma coisa com outra e vai ligando a vida com o teatro. Quer dizer, a vida lá fora, real, aquilo que está acontecendo na cidade, vai se misturando com a fantasia teatral. Encontro solução para uma cena caminhando de manhã pela rua. Ou então acho em uma peça solução para a outra. Esse grande jogo de armar é bacana, desafiador, mas não é o ideal. Adorei ter feito só Zumbi, quando estava em Londres. Ensaiava o dia inteiro, pensava o espetáculo o dia inteiro, sem divisões, porém sentia falta um pouco dessa queimação. Fico e não fico nervoso em uma estreia. Vejo outros diretores estrearem e eu não fico tenso como eles. Sei que tudo é um ciclo. Começo a trabalhar com o ator, com o elenco, e o primeiro
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momento é de provocação para o surgimento do material. Então espero e vejo brotando, brotando. Aí tem um tempo que é duro pra mim e para os atores também, que é o de organizar todo esse material que surgiu espontaneamente, editá-lo, dar polimento e ter controle sobre ele. Às vezes surgem saques maravilhosos que as pessoas adoram, chora todo mundo, aquela coisa, mas aí é preciso ter cuidado de separar isso de um processo terapêutico. Teatro é teatro, terapia é terapia. Nesta arrumação, vamos vendo as palavras que estão erradas, acentuando corretamente, fazendo a pontuação, reestruturando frases, reelaborando pensamentos, ordens... É um trabalho no qual o diretor tem que se distanciar e observar, ouvir sugestões dos atores, das pessoas que vêm assistir aos ensaios, do cenógrafo, do diretor musical, do iluminador, de todos que estão ao redor. Não que os outros estejam certos ou que você deva mudar porque as pessoas preferiam de outra forma, mas é importante discutir ideias. Mas, chega uma hora que não há mais o que fazer. O complemento de um trabalho depende de uma estreia e do público. É como um filho que está no mundo e vai tomar porrada. Aí ele volta pra casa, pro seu ombro, chora, e a gente vai rever e investigar se é possível reconstruir aquela parte machucada. Por isso eu não fico histérico, nervoso ou me batendo pelas paredes. Sempre planejo de forma que exista no cronograma de montagem de uma peça uma margem para respiração, um espaço para um polimento tranqüilo. Quando não há, é porque não tem mesmo, e aí, paciência... O teatro é totalmente desprovido de formalidade. É uma anarquia. Tem que ser uma coisa dionisíaca mesmo, de prazer, de delírio, de embriaguez, de fertilidade. É algo que prospera, cresce, aumenta, então tem que ser levado na farra, porque é uma manifestação de turma, e quanto mais turmas puderem trocar informações, melhor. Me agrada o trânsito
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das diversas tendências. Minha intenção nunca é formar uma panela de pressão fechada, na qual não entra e não sai ninguém. Agora tem o momento de impor uma autoridade. E aí é assim: “eu sou o diretor e prefiro que você, enquanto ator, faça meu erro e não o seu acerto. E ponto final”. Discutese tudo conceitualmente, mas existe um respeito a esta autoridade, que é construído durante todo o período de ensaio, porque senão a coisa não anda. Tem que ser construída uma confiança. Em Barba Azul, por exemplo, houve uma briga por causa do figurino das atrizes. Umas queriam a blusa com alça, por causa do busto e do colo. Outras queriam sem alça, porque achavam que o busto e o colo tinham mais é que ser mostrados. O impasse era por uma mera questão de vaidade. Ficaria bonito das duas formas, embora eu achasse melhor com alça. E nesta discussão eu tive que interferir e falar: quero assim, porque o figurino é meu e pronto, chega. Nessa história toda de dirigir, é engraçado como eu, nesses 25 anos, não desenvolvi um estilo único. Há, sim, dentro da minha obra, coisas que reaparecem. Adoro botar atriz com peito de fora. É uma marca que está sempre aparecendo em meus espetáculos. Não gosto de entra e sai de atores durante uma determinada peça. Lugar de ator é no palco e não no camarim. Existe o estilo do Bando; a linha visual do meu antigo grupo Avelãs & Avestruz, que foi retomada em Barba Azul; ou ainda o estilo mais discreto presente no espetáculo A Mais Forte, que é muito parecido com a minha discreta assinatura na direção do show Feijão com Arroz, de Daniela Mercury. Nestes dois últimos, minha intenção foi deixar aquilo acontecer inteiro sem que eu aparecesse muito. Mas havia também um estilo, um jeito ali que era meu. Sinto, portanto, que tenho diferentes estilos.
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GOVERNANTES 67o prefeito: Antônio Imbassahy . Partido da Frente Liberal (pfl) 1997 a 2000 46o governador: Paulo Souto . Partido da Frente Liberal (pfl) 1995 a 1999 34o presidente: Fernando Henrique Cardoso . Partido da Social Democracia Brasileira (psdb) 1995 a 2003
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A emenda que permitia a reeleição de governantes foi aprovada. O índio pataxó Galdino Jesus dos Santos foi assassinado, após a comemoração do Dia do Índio, por cinco estudantes de Brasília.
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BANDO DE TEATRO OLODUM - ANO SETE CABARÉ DA RRRRRRAÇA Teatro Bando de Teatro Olodum TEXTO (com a colaboração do Bando de Teatro Olodum), CENÁRIO, FIGURINO, MATERIAL GRÁFICO, LETRA DE MÚSICA e DIREÇÃO Músicas: Cabaré da Raça, Rap do nêgo fodido, Espelho da raça, Supernegão (Jarbas Bittencourt), Ser negro, Rap da discriminação, Rap do 13 de maio (Nildes Vieira), Separatismo não (Caj Carlão), Ilê de luz (Carlos Lima (Suka)) e Negrume da noite (Paulinho do Reco) Direção musical: Jarbas Bittencourt Coreografia: Zebrinha Iluminação: Rivaldo Rio Elenco: Agnaldo Buiú (Brogojô), Auristela Sá (Flávia Karine), Cássia Valle (Marilda Refly), Cristóvão da Silva (Luciano Patrocinado), Gerimias Mendes (Seu Gereba), Jorge Washington (Taíde), Lázaro Machado (Edileuza/Edimilson), Lázaro Ramos (Wensley de Jesus), Leno Sacramento (Abará), Luiz Fernando Araújo (Nêgo John), Merry Batista (Dra Janaína), Nildes Vieira (M. C. Patrícia), Rejane Maia (Rose Marie), Tânia Toko (Dandara) e Valdinéia Soriano (Jaqueline) Substituições: Abará – Vinício Nascimento, Fábio Santana e Sérgio Laurentino Dandara – Arlete Dias, Débora Santiago, Elane Nascimento, Gal Quaresma e Telma Souza Dra Janaína – Jamile Alves e Valdinéia Soriano Flávia Karine – Débora Santiago e Elane Nascimento Jaqueline – Débora Santiago e Gal Quaresma Luciano Patrocinado – Amauri Oliveira, Érico Brás, Guilherme de Souza e Gustavo Melo Marilda Refly – Jamile Alves M.C. Patrícia (Nega Lua) – Deyse Souza, Telma Souza, Patt de Carvalho Nêgo John (Nêga Jô) –Jamile Alves Rose Marie – Valdinéia Soriano e Edvana Carvalho
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Seu Gereba – Ruy Manthur Wensley de Jesus – Edinaldo Muniz, Érico Brás, Gustavo Melo, Sérgio Laurentino e Vinício Nascimento Estréia: 08/08 a 14/12//97 – Cabaré dos Novos – Teatro Vila Velha – SSA 05/10/98 – Ensaio – Teatro Vila Velha – SSA 10/10 a 15/11/98 – Cabaré dos Novos – Teatro Vila Velha – SSA 12/01/99 – Mostra Cena Aberta / Teatro Nelson Rodrigues – RJ 22/01 a 31/01/99 – Teatro Vila Velha – SSA 24/05/99 – Sessão especial para os embaixadores africanos – Teatro Vila Velha – SSA 01/12e 02/12/99 – Teatro Municipal de Ilhéus – Ilhéus 04/12 e 05/12/99 – Teatro Apolo – Recife 08/12/99 – Teatro Paulo Pontes – João Pessoa 11/12 e 12/12/99 – Teatro José de Alencar – Fortaleza 07/01 a 16/04/00 – Cabaré dos Novos / Teatro Vila Velha – SSA 24/05 a 26/07/00 – Cabaré dos Novos / Teatro Vila Velha – SSA 05/10 a 22/10/00 – Cabaré dos Novos / Teatro Vila Velha – SSA 12/01 a 17/02/01 – Cabaré dos Novos / Teatro Vila Velha (Caldeirão Vila Verão – 2001) – SSA 23/03 a 13/05/01 – Cabaré dos Novos / Teatro Vila Velha – SSA 03/06/01 – Cabaré dos Novos / Teatro Vila Velha – Vendido – SSA 11/10 a 21/10/01 – Teatro Planetário – RJ 11/01 a 17/02/02 – Cabaré dos Novos / Teatro Vila Velha (Amostrão Vila Verão – 2002) – SSA 24/05 a 30/06/02 – Cabaré dos Novos / Teatro Vila Velha – SSA 17/07/02 – Teatro Vila Velha – Vendido – SSA 03/01 a 22/02/03 – Teatro Vila Velha – SSA 08/05 a 15/06/03 – Teatro Vila Velha – SSA 24/07/03 – Teatro Vila Velha – Vendido – SSA 15 a 19/10/03 – Mostra Arte da África – Teatro – Centro Cultural Banco do Brasil – RJ 18 a 20/11/03 – Teatro Dulcina de Moraes – Brasília
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26 e 27/11/03 – (A cena tá preta)`- Teatro Vila Velha – SSA 07 e 08/12/03 – Oficina Municipal de Teatro (Estação da Cena Lusófona) – Coimbra 03/01 a 13/02/04 – Teatro Vila Velha (Amostrão Vila Verão – 2004) – SSA 06 a 20/03/04 – Teatro Vila Velha – SSA 04 a 20/06/04 – Teatro Vila Velha – SSA 20/07/04 – Vendido – Teatro Vila Velha – SSA 12 a 14/11/2004 – Teatro Vila Velha – SSA 06 a 28/01/2005 - Teatro Vila Velha (Amostrão Vila Verão – 2005) – SSA 31/05/2005 - Teatro Vila Velha (Fórum de Performance Negra) – SSA 20/07/2005- Vendido - Teatro Vila Velha – SSA REMONTAGEM COMEMORATIVA DOS 15 ANOS DO BANDO Preparação de corpo: Carla Leite, Anita Bueno (Yôga), Rejane Maia e Zebrinha Músicas: Jarbas Bittencourt (exceto A cor da noite – Jarbas Bittencourt e Márcio Meirelles Direção musical e gravação de play back: Jarbas Bittencourt Percussão no play back: André Luís Gravação do play back: Estúdio do Vila Remixagem e remasterização: Maurício Roque Instrumentos adicionais: Jarbas Bittencourt e Maurício Roque Instrutor de Percussão: André Luís Preparação de canto: Marcelo Jardim Desenho de som: Maurício Roque Montagem de som: Equipe Técnica do Teatro Vila Velha Operação de som: Ednaldo Muniz Iluminação: Rivaldo Rio Consultoria de Iluminação: Fábio Espírito Santo Montagem e Operação de Luz: Equipe técnica do Teatro Vila Velha Espaço cênico e conceito do figurino: Marcio Meirelles Figurino: Eddie Savat – Taíde; Iuri Sarmento e Eduardo Rosa – Dandara; Levith – Patrocinado; Luciano Cruz – Edileuza; Macia Ganen – Rose
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Marie; Rodney – Marilda e Negra Lua; Soudan & Kaveski – Jackeline; 220 voltz – Flávia Karine; Marcio Meirelles os demais Maquiagem: Luiz Santana Cabelos: Bete, Bia, Guta e Pry Produção de Figurino: Valdinéia Soriano Divulgação: Edson Rodrigues Fotos: Marcio Lima Projeto gráfico: Gordo Neto e Marcio Meirelles Direção e Produção: Chica Carelli Equipe de Produção: Auristela de Sá, Érico Brás, Fábio Santana, Jorge Washington e Valdinéia Soriano Partcipações: Afro Men, Aloísio Menezes, Balé Folclórico da Bahia, Banda Didá, Birimbrown,Clécia Queiroz, Cortejo Afro, Dão, Duda (diamba), Ed Vox, Ilê Ayê, Gerônimo, Gal do Beco, Graça (Ilê), Kissukilas Lázaro Ramos, Lazzo, Márcia Short, Márcio Vitor (Psirico), Margareteh Menezes, Mariene de Castro, Ninha, Paulinho Feijão, Pierre Onassis, Peu Meuray, Serginho (Adão Negro),Tatau (Ara Ketu), Tonho Matéria, Virgínia Rodrigues, Will Carvalho, em Salvador e Afro Reggae, Camila Pitanga, a Companhia dos Comuns e Thalma de Freitas, no Rio de Jnaeiro. Apresentações: 08/08 a 14/12//97 – Cabaré dos Novos – Teatro Vila Velha – SSA 05/10/98 – Ensaio – Teatro Vila Velha – SSA 10/10 a 15/11/98 – Cabaré dos Novos – Teatro Vila Velha – SSA 12/01/99 – Mostra Cena Aberta / Teatro Nelson Rodrigues – RJ 22/01 a 31/01/99 – Teatro Vila Velha – SSA 24/05/99 – Sessão especial para os embaixadores africanos – Teatro Vila Velha – SSA 01/12e 02/12/99 – Teatro Municipal de Ilhéus – Ilhéus 04/12 e 05/12/99 – Teatro Apolo – Recife 08/12/99 – Teatro Paulo Pontes – João Pessoa 11/12 e 12/12/99 – Teatro José de Alencar – Fortaleza 07/01 a 16/04/00 – Cabaré dos Novos / Teatro Vila Velha – SSA 24/05 a 26/07/00 – Cabaré dos Novos / Teatro Vila Velha – SSA 05/10 a 22/10/00 – Cabaré dos Novos / Teatro Vila Velha – SSA
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12/01 a 17/02/01 – Cabaré dos Novos / Teatro Vila Velha (Caldeirão Vila Verão – 2001) – SSA 23/03 a 13/05/01 – Cabaré dos Novos / Teatro Vila Velha – SSA 03/06/01 – Cabaré dos Novos / Teatro Vila Velha – Vendido – SSA 11/10 a 21/10/01 – Teatro Planetário – RJ 11/01 a 17/02/02 – Cabaré dos Novos / Teatro Vila Velha (Amostrão Vila Verão – 2002) – SSA 24/05 a 30/06/02 – Cabaré dos Novos / Teatro Vila Velha – SSA 17/07/02 – Teatro Vila Velha – Vendido – SSA 03/01 a 22/02/03 – Teatro Vila Velha – SSA 08/05 a 15/06/03 – Teatro Vila Velha – SSA 24/07/03 – Teatro Vila Velha – Vendido – SSA 15 a 19/10/03 – Mostra Arte da África – Teatro – Centro Cultural Banco do Brasil – RJ 18 a 20/11/03 – Teatro Dulcina de Moraes – Brasília 26 e 27/11/03 – (A cena tá preta)`- Teatro Vila Velha – SSA 07 e 08/12/03 – Oficina Municipal de Teatro (Estação da Cena Lusófona) – Coimbra 03/01 a 13/02/04 – Teatro Vila Velha (Amostrão Vila Verão – 2004) – SSA 06 a 20/03/04 – Teatro Vila Velha – SSA 04 a 20/06/04 – Teatro Vila Velha – SSA 20/07/04 – Vendido – Teatro Vila Velha – SSA 12 a 14/11/2004 – Teatro Vila Velha – SSA 06 a 28/01/2005 - Teatro Vila Velha (Amostrão Vila Verão – 2005) – SSA 31/05/2005 - Teatro Vila Velha (Fórum de Performance Negra) – SSA 20/07/2005- Vendido - Teatro Vila Velha – SSA 04 /11 a 04/12/05 – 15 anos de Bando - Teatro Vila Velha – SSA 21 e 22/11/05 – 3° Festival de Arte Negra – Teatro Francisco Nunes – Belo Horizonte (MG) 06,13,20,27,/01 a 03,10,17,/02/06 – Amostrão Vila Verão – Teatro Vila Velha -SSA 28 /03 a 01/04/06 – Direção Nacional de Ação Cultural (Dia Mundial do
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Teatro) - Teatro Liga Africana de Solidariedade com os Povos. -Luanda - Angola 03/05/06 – Vendido - Teatro Vila Velha – SSA 09/05/06 - Mostra Latino Americana de Teatro de Grupos - Centro Cultural São Paulo Sala Jardel Filho. 11/07/06 - CIAD (II Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora) - Teatro Vila Velha – SSA. 17/07/06 – Vendido - Teatro Vila Velha – SSA 19/11 a 20/11/2006 – Projeto 2 X Bando – Teatro da Caixa – Brasília 24/11/2006 – Projeto: Pluricidades (Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de Vitória) – Teatro Carlos Gomes – Vitória - ES 14/01/2007 - Teatro Vila Velha- SSA 21/01/2007 - Teatro Vila Velha- SSA 28/01/2007 - Teatro Vila Velha- SSA 04/02/2007 - Teatro Vila Velha- SSA 11/02/2007 - Teatro Vila Velha- SSA 23,24 e 25/ 11/2007 - Teatro Vila Velha- SSA 15/02/2008 - Teatro Vila Velha- SSA 22/02/2008 - Teatro Vila Velha- SSA 24/08/2008 - Teatro quatro de Setembro- Teresina- PI 16 e 17/12/2008 - Teatro Vila Lobos- RJ 16/01/2009 - Teatro Vila Velha- SSA 30/01/2009 - Teatro Vila Velha- SSA 06/02/2009 - Teatro Vila Velha- SSA 13/02/2009 - Teatro Vila Velha- SSA 26 a 29 /03/2009 - Teatro Vila Velha- SSA 22, 23 e 24/05/2009 - Teatro Vila Velha- SSA 29,30 e 31/05/2009 - Teatro Vila Velha- SSA 18/09/2009 - Centro Cultural Plataforma- SSA 01 e 02 /10/2009 - Teatro Arthur Azevedo- são Luiz- MA 24/10/2009- Centro Cultural Amélio Amorim- Feira de Santana- BA 08/01/2010 - Teatro Vila Velha- SSA 15/01/2010 - Teatro Vila Velha- SSA
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22/01/2010 - Teatro Vila Velha- SSA 26,27 e 28 /03/2010 - Teatro Vila Velha- SSA 09,10 e 11 /04/2010 - SESC Vila Mariana- SP 17/04/2010 - Teatro Vila Mariana- SP 29 e 30/ 05/2010 – Cidade do Saber- Camaçari- BA 09,10 e 11/07/2010 - Teatro Vila Velha- SSA 16,17 e 18 /07/2010 - Teatro Vila Velha- SSA 22 e 23/02/2011 – Teatro Vila Velha –SSA 11 e12, 18 e 19, 25 e 26/03/2011 – Teatro Vila Velha - SSA 22/07 À 14/08/2011 – Teatro Vila Velha – SSA 20/09/2011 á 29/11/2011 – Teatro Vila Velha –SSA Indicações para o Troféu Bahia Aplaude (1997) AUTOR ATOR: Cristóvão da Silva
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CORREIO DA BAHIA / MARCIO MEIRELLES 1o de agosto de 2017 CORREIO DA BAHIA: As questões levantadas em Cabaré da Raça continuam atuais, mesmo após 20 anos. Em sua avaliação, isso é bom ou ruim? Por quê? MARCIO MEIRELLES: As questões levantadas continuam atuais. O modo como o Brasil e o mundo tem reagido a elas é q tem mudado. Mtas coisas aconteceram, o sistema de cotas nas universidades deu os resultados esperados com mais negros ocupando lugares onde antes n estavam, repensando e reescrevendo sua história, registrando suas inquietações, redefinido sua construção identitária, influenciando a academia e a sociedade através de discursos próprios, fazendo pesquisas e levantando dados antes camuflados. Ocuparam o seu “lugar de fala”. O brasil teve um governo com um projeto político q mudou a face econômica e política do país e efetivamente promoveu uma inclusão social e racial, ainda q n tanto qto precisamos e desejamos. Depois tivemos um golpe. Ameaças de retrocesso e ações efetivas q jogam por terra mtas conquistas da sociedade. As igrejas evangélicas se misturam c o poder secular, numa promiscuidade de poderes perigosa, q aponta p um Estado fundamentalista. O q significa o outro lado da moeda. A terrível tempestade depois dos tempos luminosos. E n só no Brasil. O mundo tb sofreu mtas transformações: o onze de setembro, Obama, Trump, o racismo e a intolerância religiosa, cultural e racial. As mulheres conquistam seu espaço a cada dia e continuam sendo vitimas de crimes misóginos e machistas. A comunidade LGBT se organiza politicamente e tem em troca cada vez mais agressões.... estamos vivendo um momento mto difícil. Como isso tudo passa pelos atores, por mim, Zebrinha,
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Jarbas, Chica, pelo Teatro Vila Velha e sobe ao palco num espetáculo q foi criado há 20 anos, qdo mtas dessas coisas ainda n tinham acontecido? Mas o racismo é imutável... continua atuando pq é um dos sintomas do capitalismo, da sociedade frenética de consumo e competição. Destruir o outro, o mais fragilizado pela história, é um ponto. Então a consciência da comunidade negra é manipulada pela crença evangélica por um lado, o lado da fé e passam a demonizar suas heranças culturais. E por outro, o lado da emoção, pela mídia – q funde realidade e ficção numa dramaturgia magistral, digna de todos os teóricos fascistas q criaram o mito da raça pura germânica ou o esplendor do american way of life babarem de inveja. E essa manipulação nos traz de volta uma frase de Paulo Freire: “Qdo a educação n é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. Então recebemos pelo peito uma reforma do ensino médio q nos leva exatamente para esse lugar de n libertação. CB: Em 20 anos, muita coisa mudou em relação ao debate sobre o racismo e esse debate se ampliou muito. Se fosse montar Cabaré, hoje, acrescentaria um tipo novo? Ou essa galeria de personagens dá conta do que se pretende falar?
MM: Realmente as mudanças foram muitas nestes 20 anos. Mta coisa foi alterada no texto. Especialmente no bloco q fala sobre as relações da mídia publicidade e dramaturgia, especialmente na televisão e cinema. Nisto realmente houve um grande avanço. Por exemplo, os atores do Bando protagonizaram as versões para cinema e TV de nossa Ó Paí, ó! e Lázaro Ramos, que coincidentemente fazia o discurso sobre isso na primeira montagem, se tornou um dos atores mais influentes do Brasil. A peça dá conta do q uma peça de teatro pode dar: mover, comover, mexer nas consciências, fazer refletir e principalmente lembrar as pessoas do q viram e ouviram no teatro. Mtas pessoas me dizem: lembrei de sua peça, aconteceu isso ou aquilo, como no teatro. Ou já ouvi: rapaz, descobri q sempre fui racista, minha família é racista e n sabia... tenho q rever muitas coisas. Isso me deixa feliz. Por outro lado, gostaria de modificar a peça incluir outras coisas... mas é mto difícil. A peça tem uma estrutura mto fechada dramaturgicamente. Mexer em alguma coisa vai acabar levando a modificar muita coisa. Quase q fazer uma outra peça... podemos até fazer. Mas vamos deixar Cabaré como ela é.
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CB: O que, ao longo desses 20 anos, foi se modificando na peça e o que se manteve em sua essência? MM: Algumas pequenas coisas foram alteradas. Principalmente o bloco da mídia, como já falei, e aquelas cenas ou personagens q passaram a ser feitas por outros atores, q substituíram os q os faziam na primeira montagem ou nas subsequentes, substituindo os primeiros. Teve personagem inicialmente representada por uma atriz q já foi feita por um ator, o q nos obrigou a alterações q levassem em conta o gênero etc... Mas nada substancial. Em sua essência Cabaré da Rrrrraça (com 5 Rs, sugerindo um rugido) se mantém um espetáculo “didático, panfletário e interativo”, montado a partir das estruturas dramatúrgicas dos talking shows, desfiles e peças de cabaré ou de revista. CB: Estão preparando alguma novidade para essa temporada comemorativa de 20 anos? Cabaré trará algo de novo? MM: Basicamente o figurino q sempre muda. Com o apoio de designers de moda
baianos. Faz um tempo q resolvemos nos associar a este movimento importante da economia da cultura na Bahia: a moda e seus fazedores, especialmente os negros, q tem proposto muitas viradas políticas no costume de vestir. Esses artistas empresários têm apoiado as várias versões do figurino: o branco, o preto, o vermelho e esse agora. CB: Para você, o que explica a força e a vitalidade de Cabaré da Raça, já que é muito difícil manter um espetáculo tanto tempo em cartaz, principalmente sem patrocínio? MM: Nosso principal patrocinador tem sido o público, q mostra sua aprovação em seu investimento na bilheteria. A força e a vitalidade de Cabaré estão em sua forma e conteúdo. Criamos um debate bem humorado sobre um assunto mto duro pq teatro pega pela emoção p entrar na razão e desestabilizar verdades consolidadas por um grupo social ou por uma época. Teatro tem um modo próprio de tocar “a consciência do rei”, como dizia Hamlet. E é preciso q faça isso. Essa é a força de Cabaré: tocar a consciência da plateia através do encantamento. E isso é gerado pela movimentação criada por Zebrinha, pela música de Jarbas Bittencourt, e
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muito pela qualidade do elenco: atores incríveis, “da nobreza negra do Brasil” – no dizer de Zé Celso Martinez Correia. CB: Em sua avaliação, qual é a importância desse espetáculo? MM: Precisávamos de uma virada. Estávamos num momento de crise, questionando mtas coisas – nossas relações conosco, c o Olodum, c o Vila, c o q fazíamos, c o dinheiro, c o fato de fazermos sem ganhar dinheiro, minha direção, o formato gerencial e vários assuntos. Foi mto bom, passamos em torno de seis meses nisso. Mas um belo dia Jorge Washington disse: “pra mim chega. Quero fazer teatro. Eu tinha a idéia de montar esse Cabaré, já c o título e tudo, por q tínhamos inaugurado o Cabaré dos Novos, no Vila, e precisávamos de um espetáculo no formato daquele espaço; pq tinha surgido a revista Raça, indicando q o Brasil tinha um grande público consumidor negro q queria se ver, queria ter referências; pq eu queria experimentar outro método de criação de espetáculos e de dramaturgia. Então lancei a idéia, mas n tínhamos recursos financeiros e a maioria topou continuar investindo em receber da bilheteria. E fizemos. Esteticamente houve uma mudança
radical. A partir da ideia de construir personagens q estariam na revista Raça, a paginação então de nosso visual mudou bastante c produção de moda, lentes de contato azuis, perucas, maquiagem... a música de Jarbas perseguia os ritmos da moda e os arranjos comerciais das bandas q produzem sucessos instantâneos. Zebrinha coreografou um desfile de modas cheio de estilo. Nossa perspectiva de palco deu uma guinada. Mas mais q tudo a importância foi o debate gerado a partir da decisão de cobrar meia entrada para negros. Propus ao grupo q fizéssemos isso pq soube q apenas 1% da plateia do teatro baiano era ocupada por negros. Era uma forma de incentivar os negros a irem ao teatro, era uma forma de provocar o público a se assumir negro pq era o qto bastava p pagar a meia entrada, estava no âmbito das discussões sobre políticas afirmativas. E realmente, a partir daí a plateia do espetáculo era pelo menos 60% de negros em média. E essa plateia continuou fidelizada ao grupo e ao vila. Promovemos debates sobre a questão. Fizemos nosso papel. CB: Por fim: qual é a sua idade? MM: 63 anos
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TEATRO VILA VELHA - ANO QUATRO AS MAIS FORTES Em todas as apresentações de A Mais Forte sentei-me no mesmo lugar: uma cadeira colocada no fundo do Cabaré dos Novos, junto ao caixa, ao lado do balcão. Assim, todos os dias, quando Yumara Rodrigues e Nilda Spencer entravam em cena, vindas da platéia para o palco, e quando saiam de cena percorrendo o mesmo trecho, no sentido inverso, passavam pela minha frente sem nunca me olhar. Por mais que eu esperasse por essa olhada, ela nunca acontecia. Eu via todas as noites aquelas mulheres - Yumara e Nilda, transmudadas em Senhora Y e Senhora X - passarem por mim, nessa ordem na entrada. A primeira de calça e camisa de linho branco e a segunda num conjunto vermelho. Na saída a ordem era a inversa: primeiro o conjunto vermelho da Senhora X deixava o Cabaré, seguida momentos depois pelo traje branco da Senhora Y. Quanta coisa acontecia nesse momento entre a passagem de uma e de outra. E que universo era construído e desfeito entre a entrada e a saída das duas. No final, Nilda dizia, como a Senhora X, que ia para casa amar seu marido - objeto casual da disputa entre as duas - encerrando a guerra que acabava de ter sido deflagrada sobre o palco e, que, como toda a guerra, terminava sem vencedores nem vencidos, deixando-nos a dúvida de quem seria a mais forte, ou se realmente existia uma mais forte, já que as duas, com marido ou sem marido, estavam sozinhas e derrotadas. Eduardo Torres, então, tocava ao piano, uma composição sua, uma música belíssima, que acompanhava, como nossos olhos, a Senhora X sair, levando consigo a
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pretensão da vitória e deixando à mesa a Senhora Y com sua probabilidade de vitória recolocar o batom para, em seguida também sair. Sábado passado foi o último dia do espetáculo. Eu estava sentado no meu lugar habitual. Nilda falou: “Agora vou para casa, para amá-lo”, Eduardo tocou o tema do fim, ao piano, ela desceu o palco e começou seu trajeto para a saída. Então me dei conta de que aquela era a última vez que eu veria aquela saída na minha vida. Que esperaria o olhar que não receberia, que ouviria os aplausos, que estaria emocionado, que veria Yumara passar batom, levantar, se despedir do pianista e da garçonete e também passar por mim para desaparecer no camarim. Então percebi que aquilo que construímos durante os ensaios e as apresentações se acabaria para sempre, como tudo na vida. Com a diferença de que na vida, geralmente, não nos damos conta de que as coisas estão se acabando para sempre no momento em que se acabam, a não ser quando é a própria vida que termina e não aceitamos. O inevitável estava para acontecer o último dia da apresentação de um espetáculo. A senhora X pagou a conta à
garçonete enquanto Nilda se preparava para seu desfile final em minha frente. Continuei a esperar o olhar que não aconteceria. Em breve passaria na minha frente uma senhora pequena, num conjunto vermelho, carregada de sacolas cheias de falsos pacotes, vinda de uma batalha e se encaminhando para o nada de um camarim onde ela deixaria de existir, para sempre, sem deixar sequer um cadáver, a possibilidade de um ritual fúnebre, parentes e amigos chorosos, nada. A Senhora X de Nilda Spencer deixaria de existir para sempre dentro de alguns minutos e ela nunca me deu a olhada que esperei, durante toda a temporada. Nilda então passou, carregando consigo a sua Senhora X, com seu conjunto vermelho, seus falsos pacotes, e sua falsa vitória. Mas Nilda era realmente vitoriosa e grande, como a sua Senhora X gostaria de ser. Plena, inteira como uma rainha, reinando absoluta em sua passagem por minha frente. E o que eu via naquela pequena dama, o que passava, era a generosidade absoluta da entrega de uma atriz que tem se exercitado nesse mister há bons quarenta anos. E continua a fazê-lo diariamente durante os ensaios, como tive o privilégio de presenciar e compartilhar, com um tesão e um prazer de iniciante, mas
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com a experiência e a malícia de uma veterana que sabe extrair mais prazer do prazer. As palavras do texto em sua boca, gozam não só do direito de serem ditas, uma a uma, envoltas na mais perfeita dicção, mas também o deleite de serem bem ditas por uma sensibilidade que as coloca, uma a uma, nos seus devidos lugares, com o peso e o valor precisos. As palavras em sua boca tornam-se assim preciosas. O personagem, que carregava consigo para largar para sempre guardado nas dobras do conjunto vermelho, foi construído como se constrói uma casa onde vão morar nossos entes mais queridos, com todo o cuidado e o cálculo preciso para que nada desabe e para que, por muito tempo, mesmo depois de ter sido guardado para sempre em fotos, num conjunto vermelho e em notícias de jornal, abrigue as coisas imensas que produziu na nossa emoção intactas. Chegou então Nilda à escada, virouse e fitou mais uma vez o cabaré, a assistência e o palco onde estava a Senhora Y, sua rival, que Yumara, sua aliada, ostentava. Depois subiu, com seu conjunto vermelho e suas sacolas,
levando a Senhora X embora para nunca mais. Yumara continuava em silêncio, como durante todo o espetáculo. Tirou da bolsa seu estojo de maquiagem, seu batom e, repintou a boca. Seu silêncio gritava, como durante todo o espetáculo, tudo que as palavras não podem dizer. Era, como sua roupa, uma página em branco onde todos os poemas por escrever tem a possibilidade de vida. Ela levanta, com sua roupa e seu silêncio brancos, carregando os pedaços da Senhora Y agora recompostos, recolocados em ordem, passa pelo pianista, faz um afago e não diz uma coisa em seu ouvido, se despede da garçonete e vai passar em minha frente. Então acontece! Ela passa, uma rainha branca num tabuleiro de xadrez onde o xeque mate destruiu todas as peças porque o rei estava morto há muito tempo. Ela passa e com ela toda a grandeza do teatro, da arte de representar papéis, de chorar lágrimas verdadeiras por emoções inventadas, de rir risos loucos para restaurar nossa razão e nossa crença na possibilidade de que a humanidade dê certo, já que existem as atrizes.
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E então acontece! Ela passa e, contrariando as minhas expectativas, satisfaz meu desejo pousando delicadamente, por uma fração de segundos, os olhos em mim e pisca um olho. Sobe as escadas, vira-se e, como Nilda e diferente dela, contempla seu reino vazio e cheio do ruído dos aplausos de uma plateia eternamente grata. E segue carregando a Senhora Y para nunca mais. Os aplausos trazem de volta as duas, Yumara e Nilda, despidas de tudo, em seus trajes branco e vermelho, só para, generosamente, nos mostrar que sem seus personagens elas são mais fortes ainda, porque tem muito mais a dar. SSA, 01/06/97 Marcio Meirelles
A MAIS FORTE Teatro DIREÇÃO, CENÁRIO e FIGURINO Elenco: Eduardo Torres (pianista), Neyde Moura (Garçonete), Nilda Spencer (Sra. X) e Yumara Rodrigues (Sra. Y) Direção musical: Eduardo Torres Realização: Teatro Vila Velha Estreia: 16 a 31/06/97 Cabaré dos Novos/Teatro Vila Velha (SSA – Ba)
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CARTA ABERTA À CRÍTICA FÁTIMA BARRETO Nunca em minha vida respondi a alguma coisa que tenha sido escrita a meu respeito nos jornais. Mas hoje resolvi escrever de volta. Pelo simples exercício de responder. Não que exija a publicação destas mal traçadas, ou para bater boca ou criar polêmica. Não sou afeito a essas coisas. Mas hoje, aos quarenta e três anos de idade e vinte e cinco de aprendizado teatral, está sendo importante pra mim ordenar minhas idéias e registrálas. Então - talvez porque já estou mais perto do fim do que do começo e a angústia do desaparecimento esteja me forçando a tentar me perpetuar e o teatro seja quase tão efêmero quanto a vida ou, talvez, porque tenha comprado um computador e ele me fascina - tenho escrito muito ultimamente. O que disse acima pode parecer que não me importe, ou me sinta superior às críticas. Ao contrário: leio-as com atenção e releio-as e, às vezes, as não afetuosas me trazem mais material para trabalho do que outras carregadas de adjetivos elogiosos. Sempre pergunto aos amigos o que não gostaram nos meus trabalhos e por quê? É uma forma de me situar, de saber aonde estão chegando as coisas que distribuo. E se faço isso com amadores, pessoas que gostam de teatro e lá vão apenas para se divertir, imagine com os críticos, profissionais que estão ,como eu, construindo seu discurso, refletindo o mundo através de sua leitura de uma obra de arte. Portanto tome esse escrito apenas como uma reflexão a partir do que lí no seu trabalho. É curioso como a relação entre o crítico e o artista é parecida com a das duas personagens de A Mais Forte. Nesta peça Strindberg coloca em cena uma situação, que pode ser lida como uma discussão a respeito das relações, como uma metáfora.
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Quem é mais forte: o silêncio ou a palavra? A sombra ou a luz? O frio ou o quente? A forma ou o conteúdo? A superfície ou as entranhas? O yin ou o yang? Apenas quando uma das partes resolve colocar a questão como um exercício de poder é que o caos se estabelece e inevitavelmente alguém - ou todo mundo - se machuca, ficando evidente que tudo é necessário e o importante é que os diferentes consigam conviver em harmonia. Quando você entra no seu carro para dirigir, você tem em mente para onde quer ir, porque caminho vai, as condições da máquina que você está pilotando e a sua urgência de chegar aonde quer que seja. No momento em que dá a partida, você se encontra num estado emocional X. Começa a dirigir e pode ser que o caminho que você tenha escolhido esteja com problemas de trânsito, isso a obriga a mudar de rota. Pode ser que o pneu fure, ou algum problema no motor a obrigue a parar para consertá-lo. Pode ser que algo faça com que você se dê conta de que naquele momento deveria ir para outro lugar, e não para onde estava se encaminhando. Pode ser que as sinaleiras ou algum outro acontecimento façam com que você se atrase, obrigando-a a correr ou pegar atalhos. Pode ser que seu estado emocional mude devido a circunstâncias diversas, de ordem externa ou íntima.
Enfim, o que importa é que você chegue a algum lugar. A narrativa da trajetória estará presente na sua chegada. Será fácil saber aonde você chegou, se chegou cedo ou tarde, se está cansada ou não, se foi difícil, se você está bem, e tudo o mais. Assim é quando você dirige um espetáculo, igualzinho. Toda ação humana é política. Mesmo quando você decide não se envolver em política, por qualquer razão, esta razão e este fato são atos políticos. Assim também a direção de um espetáculo sempre existirá desde que exista um diretor e sempre será um fato político. Também será sempre uma causa nobre e política o fato de pessoas se reunirem para discutir coletivamente e em público o seu estar no mundo, como uma tentativa de corrigi-lo, ou, de pelo menos fazer um diagnóstico e dar a sua opinião sobre ele. Você pode analisar qualquer coisa isolando-a de seu contexto, talvez seja mais científico, mais objetivo, mas corre o risco de ser mais pobre, menos humano. Quando começam a surgir as ligações que tem uma coisa com o universo ela ganha outra dimensão e a vida começa a fazer sentido, porque nada está só no mundo. Tudo tem laços e todas as coisas estão
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inseparavelmente ligadas entre si. Uma peça pode ser vista como um todo absoluto. Mas também pode ser analisada como um pequeno fragmento da obra de um artista, ou parte de um todo que se está construindo naquele momento. Quando você analisa uma peça como parte de uma obra você ganha outra perspectiva, outros pontos de vista, que talvez clareiem as partes aparentemente sombrias do que seja o processo criativo de um artista. Neste caso, alguns equívocos a respeito de suas pretensões, propósitos e métodos são desfeitos e todo um sistema de trabalho começa a surgir claro como algo palpável, e , então, a obra do artista e do crítico começam a dialogar e serem úteis uma à outra e ambas ao mundo. Minha obra passa por minha fase de artista plástico, pelo teatro universitário, pelo Avelãz y Avestruz, pela Fábrica, pela Charanga Lítero Musical Amigos de Pagu, pelo Projeto Teatro, pelo Teatro Castro Alves, pelo Bando de Teatro, pelo Teatro Vila Velha e por todos os trabalhos que tenho feito em teatro, dança e música. No momento dirijo o Teatro Vila Velha, coordenando sua programação e projetos, como Baila Vila, Quem manda é nós e outros e, também o Bando de Teatro, com quem estou começando a dirigir um
novo espetáculo o Cabaré da Raça. Além disso tenho três espetáculos em cartaz: Esmeralda, A Vampira Fetichista; Barba Azul e A Mais Forte, objeto de sua crítica. Com isso, longe de querer exibir um currículo, quero mostrar que, A Mais Forte faz parte de um todo e de um momento. Com o Bando de Teatro foi criada uma marca que é tão forte e está tão presente, que, mesmo quando este grupo participa de trabalhos de outros diretores, ela aparece. No Cabaré da Rrrrraça, que estamos começando a ensaiar, discutimos a relação entre a mídia, o consumo e o negro. Com o resultado de uma oficina, como é o caso do Barba Azul, com um grupo de atores jovens sem uma longa trajetória, ou de não atores que estão se iniciando, a marca da direção se faz presente de uma maneira muito forte. Lançamos mão de todo o arsenal que temos para construir poesia, para ajudar a essas pessoas que estão iniciando um caminho a darem os primeiros passos. Emprestamos nossa vida profissional para que elas criem referências para traçar sua própria trajetória. Com esse Barba Azul, estamos discutindo as relações de amor, o equilíbrio entre os diversos.
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Com Esmeralda, A Vampira Fetichista, um divertimento, para praça pública, me aliei ao talento de uma autora, uma coreógrafa, um músico e bons comediantes para falar da relação de uma pessoa com o seu desejo, e da manipulação desse desejo pelos outros. E por aí vai. Com A Mais Forte queria discutir as relações humanas do ponto de vista da luta pelo poder, mostrando a absurda crença de que deve existir sempre um mais forte e um mais fraco, um vitorioso e um vencido. Tinha para isso duas atrizes maravilhosas com quem, para trabalhar, um diretor precisa estar preparado, atento, e, principalmente, seguro de que elas são mais fortes, por serem atrizes, por serem mulheres e por serem quem são. E um texto maravilhosamente bem construído. Decidi então me render à tentação de mostrá-las e ao texto na sua nudez mais completa, e a construir o suporte para isso. Chamei então Eduardo Torres para tocar ao piano músicas que selecionamos juntos, Jorginho de Carvalho para fazer uma luz que mostrasse toda aquela maravilha que tínhamos nas mãos. Chamei Neyde Moura para construir a
garçonete que serve às duas e ela o fez. Serviu tão bem ao talento das duas que seu trabalho aparece límpido e tranquilo sem a angústia de querer parecer mais forte. Decidi que o cenário seria somente o bar do Cabaré dos Novos, sem maiores maquiagens, como ele é. Defini as cores das roupas das duas: vermelho para a palavra, branco para o silêncio. Discuti com as duas o sentido do texto e o espetáculo que queríamos fazer dele, aonde queríamos chegar. Assim, com esse objetivo, essa máquina, essa urgência e esse estado de espírito, defini o caminho e os atalhos para chegar. Chegamos. Estou feliz. Quando um diretor aparentemente não imprime sua marca pessoal pode não ser falta de cuidado. Pode não ser falta de alinhavo num projeto artístico em torno do qual se uniram artistas por motivos nobres e urgentes. Pode não ser porque o diretor já não sabe fazer teatro, ou está cheio de tarefas ou se intimidou diante da grandeza do material que ele tinha nas mãos. Quando um diretor não imprimiu sua marca pessoal num espetáculo pode ser exatamente porque a grandeza do que ele tinha nas mãos era mais importante do que ele. E acho que aprendi isso com Strindberg, exatamente porque em suas
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peças ele sempre mostra o oposto. Aprendi a não lutar para mostrar que sou mais forte, mas a reconhecer a força do outro e, por também reconhecer a minha, não me tornar seu inimigo, mas seu aliado. Fátima, me despeço aqui com todo o carinho e respeito que tenho por você, e, reconhecendo a sua força como mulher, como atriz e como imprensa/duradoura, também reconheço a minha como homem, como diretor e como teatro/efêmero. Um beijo. Marcio Meirelles SSA, 30 de maio de 1997. PRIMEIRO É DEUS DEPOIS SOU EU Música DIREÇÃO Músicos: Lourimbau [Lourival Santos Araújo] (berimbau e voz) Ivan Bastos (baixo), Bau (Guitarra) e Gilmar Gomes (Percussão) Apresentações: 11 a 24/04/97 Cabaré dos Novos – Teatro Vila Velha (SSA – Ba) OFICINA Oficinas Vila Verão ORIENTADOR DE OFICINA Xx/01 a Xx/02/97 Teatro Vila Velha (SSA – Ba)
Pelo trabalho de reconstrução e revitalização do Teatro Vila Velha, fui homenageado com o Prêmio Promarketing Best 97, no II PROMARKETING – Seminário de Propaganda e Marketing da Bahia, uma realização da D&P Comunicação ocorrida entre 15 e 16 de abril de 1997 no Bahia Othon Palace (SSA – Ba)
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TEATRO DOS NOVOS - ANO TRÊS BARBA AZUL Companhia Teatro dos Novos TEXTO (compilação de poemas produzidos na oficina pelos atores), DIREÇÃO, CENÁRIO e FIGURINO Iluminação - Jorginho de Carvalho Coreografia - Cristina Castro Música - Monclar Valverde Elenco: Ana Bárbara, Augusto Juncal, Carlos [AC] Costa, Carmem Moreira, Clarissa Gayão, Eduardo Arguto, Fabiana Coelho, Fernanda Fachinetti, Gil Onawale, Iara Colina, Júlia Cordeiro, Karina de Faria, Keneth Tavares, Kita Veloso, Leda Carvalho, Lucas Valadares, Malu Soliane, Manthur, Marta Leão, Neyde Moura, Sara Victoria, Uirá Iracema, Viviane Laert. Estréia: 29/05/97 a 28/09/97 Sala João Augusto/Teatro Vila Velha (SSA – Ba) BARBA AZUL - UMA CONSTRUÇÃO Barba Azul vem sendo gestado há muitos anos. Mas só agora encontrei a matéria prima necessária para construí-lo como poesia e como teatro. Primeiro era necessário que existisse um estado de espírito meu, como criador. E neste momento estou querendo falar das impossibilidades e das condições para se amar. Este é o tema básico do meu Barba Azul: o fato de que cada um é um; de que o amor pode muito, tem muitas mágicas, mas não a de transformar duas pessoas em uma; de que um casal, por maior que seja o amor, mais íntima que seja a relação e mais plena a identificação entre os pares, é formado por duas pessoas, e cada uma tem suas portas secretas que não devem
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ser abertas; de que nós é sempre eu e você e nunca eu e o meu. E esta é a beleza do mundo. Mas Barba Azul é mais que isso. Os contos, as lendas, os mitos, são construídos de poesia, e a poesia é sempre menor quando se tenta traduzi-la. Lemos algumas interpretações do conto, feministas, psicoanalíticas... e sempre me parece que o texto foi mutilado para caber nas explicações, como os pés das irmãs de Cinderela, para caber no sapato. Talvez o teatro possa recontar o conto com toda sua grandeza, repoetá-lo. Porque teatro também é construído de poesia, uma poesia não literária. Uma poesia física que desperta a razão através dos sentidos e não os sentidos através da razão. E é preciso que a razão esteja desperta para que o teatro tenha sua função cumprida. Então, desta forma o teatro se completa: a alma humana é mexida, é posta em cena, é esmiuçada através da poesia; é revirada de cima a baixo através do prazer e até da dor, mas nunca do sofrimento. Teatro tem a ver com prazer, com delírio, com paixão, com tesão, nunca com martírio, culpa, tortura. Um teatro que exige isso para existir, está errado, deve ser repensado. Então para fazer Barba Azul era necessário que, além da disposição de criador, eu reencontrasse o prazer de fazer teatro. A paixão. O prazer do teatro nunca é solitário, não é possível que seja assim. É mais como o prazer de uma orgia, de uma promiscuidade sagrada onde corpos e almas se lambuzam de suor, de delírio e de poesia. De imagens.
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O prazer masturbatório está distante do teatro. É sempre necessário o outro. É uma relação que sempre precisa de, no mínimo, dois: o autor e o diretor, o diretor e o ator, o ator e o outro ator, o ator e o público e outras combinações possíveis, mas sempre dois. Como numa relação de amor, o um não cabe, não há mágica possível. E essa é a beleza do teatro. Para fazer Barba Azul era preciso encontrar parceiros dispostos a embarcar na poesia. Então foi feita uma oficina. Vieram vinte e três. Durante três meses vivemos nessa orgia. Ficamos encharcados de imagens, sensações e reflexões sobre este prazer de se dar em que o ator se exercita diariamente. No princípio foram os elementos: a respiração, as emoções básicas, o animal, um nome, um caminhar, um gesto, para se construir um personagem: a célula. Mas antes disso, as questões: para que fazer teatro? O que é um grande ator? E o que é teatro? Essas perguntas foram respondidas com trabalho físico e com poesia. Escrevemos muitos poemas sobre tudo que fazíamos, e esses poemas fazem agora parte do texto do Barba Azul. Antes de se fazer teatro é necessário entender poesia e saber o que se quer.
É absolutamente necessário que um ator saiba exatamente o que está fazendo em cima de um palco e para que junta aquela audiência para vê-lo estar ali. É necessário que entenda seu mundo e o transforme em poesia capaz de mexer, de colocar em dúvida o que se acreditava absoluto. Uma vez construída a célula - instrumento com o qual o ator trabalha durante todo o processo de criação de um espetáculo - passamos a construir as situações, cenas, os relacionamentos entre os personagens: os tecidos. E palavras surgiram para estrutura-los: dinheiro, poder, sexo e sangue. Personagens que se acreditavam bonzinhos se mostraram corruptos e violentos quando se confrontaram com situações onde o dinheiro era a palavra condutora. Personagens pacatos viravam feras com o sangue conduzindo. Assim os instrumentos foram ganhando seu verdadeiro diapasão, as células foram se relacionado, os tecidos foram ganhando textura. Estruturei então o roteiro do espetáculo, e esses elementos foram se adensando, ganhando forma e função e se encaixando naquele esqueleto literário como órgãos de um corpo vivo.
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Aquelas situações criadas foram se colocando nos lugares certos, virando cenas do Barba Azul. As vezes coisas que foram feitas para um personagem, eram estilhaçadas, multiplicadas e recompostas para vinte deles. Textos criados por uns reviviam na boca de outros. Textos eram mutilados e cicatrizados com outras palavras. Cenas mudas criavam voz, cenas faladas silenciavam, viravam música ou coreografia, ou as duas. Depois vieram os desenhos do figurino e a mobilização do grupo para executálo. Veio a música de Monclar Valverde, fluindo como sangue entre os órgãos e a coreografia de Cristina Castro como ar purificando tudo. E a luz... A luz de Jorginho de Carvalho também foi feita num sistema de oficina, por uma equipe de apaixonados. E criaram não só a luz para a peça, mas um sistema de iluminação para transformar uma sala de ensaios numa nova sala de espetáculos. Assim, com Barba Azul, foram construídos também uma sala de espetáculos e um grupo. Tudo que teatro precisa para existir: duas tábuas, dois homens e uma paixão. Barba Azul foi feito ao mesmo tempo em
que o Teatro Vila Velha passa por uma reforma, transformando-se num novo teatro. E durante o processo de construção do espetáculo, semanalmente descíamos para visitar a obra que então era um grande buraco na terra. Nesse buraco, na terra, construímos as primeiras imagens da peça. Assim – penso poeticamente – Barba Azul está nos alicerces do novo Vila Velha. Cresceram juntos, os ensaios acompanhando a obra. E, não sei bem porque, esse Barba Azul me parece só o início de alguma coisa que não sei bem o que é, mas é. E será. Salvador, 19-05-97
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OUTROS TRABALHOS DE 1997 ESMERALDA, A VAMPIRA FETICHISTA Teatro Pelourinho Dia e Noite DIREÇÃO e FIGURINO Texto: Aninha Franco Música – Carlo Celuque Produção: Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia / Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia Elenco: Bagaggerie Spielberg (Coro), Fátima Carvalho (Esmeralda), Chica Carelli, Lázaro Ramos e Zeca de Abreu (as três bruxas) e Melquesedeque e Melquesalém [Leno] Sacramento (coro). Estréia: 07/04/97 Largo Quincas Berro d’Água – Pelourinho (SSA – Ba) PATA-BAHIA Show/performance de música instrumental e dança ROTEIRO e DIREÇÃO Coordenação: Claus Jaeke Coreografia: Cristina Castro Músicos: Pata Maters – Norbert Stein (sax tenor e soprano e percussão), Michaell Heupel (flauta soprano e sub contralto), Reiner Winterschalen (trompete e calimba), Klaus Mages (bateria e percussão), Mathias von Welk (slit drums); Participação: Alexandre Lins (percussão), ngela Lopo (voz) Cinho d’Amata (voz), Gabi Guedes (percussão), Ivan Bastos (violão e baixo), Lourimbau (berimbau) e Luiz Caldas (violão, cavaquinho, bandolin e guitarra baiana) Participação: Viladança e bailarinos convidados Realização: Instituto Goethe Apresentação: 20/07/97 Pátio do ICBA (SSA – Ba)
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VIEIRA E A BAHIA DE SEU TEMPO Exposição DIREÇÃO e PRODUÇÃO DE GRAVAÇÃO DE TRECHOS DE SERMÕES DE VIEIRA PARA AMBIENTAÇÃO SONORA DA EXPOSIÇÃO. Texto: trechos de Sermões de Vieira Voz: Carlos Petrovich Gravação: Virtual Studio Curadoria da exposição: Silvia Atayde Realização: Museu de Arte da Bahia / Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia Exposição: setembro/97 Museu de Arte da Bahia (SSA – Ba) O COTIDIANO DA CRIAÇÃO Debate DEBATEDOR Debatedores: Carmem Paternostro, Deolindo Checucci, Hebe Alves, Fernando Guerreiro,Luiz Carlos Vasconcelos e Marcio Meirelles (diretores) e Carlos Petrovich, Eweraldo Pontes, Iami Rebouças e João Miguel (atores) xx /10/97 Teatro Jorge Amado (SSA – Ba) PALESTRA SOBRE TEATRO POPULAR Palestra PALESTRANTE Realização: Centro de Acolhimento ao Menor / Fundação da Criança e do Adolescente / Secretaria do Trabalho e Ação Social do Estado da Bahia 28/08/97 Centro de Acolhimento ao Menor (SSA – Ba)
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HOMENAGEM A ERNST WIDMER Seção Solene do Plenário do Conselho Estadual de Cultura PALESTRANTE Palestrantes: Lia Robato, Marcio Meirelles e Paulo Lima Realização: Conselho Estadual de Cultura (Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia) 29/04/97 Conselho Estadual de Cultura (SSA – BA) BATE–PAPO DE SEGUNDA Debate DEBATEDOR Debatedores: Marcio Meirelles e Paulo Dourado Mediadora: Aninha Franco Realização: Alambique 07/07/97 Alambique – Cachaçaria (SSA – BA) CENSO CULTURAL DE SALVADOR Vídeo publicitário ATOR Realização: Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da Bahia 09 a 11/97 (SSA – Ba)
O Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos da Bahia (SATED) lançou o jornal Cenário e me convidou para escrever nos dois números lançados.
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O NOVO VILA VELHA O Teatro Vila Velha está de volta. Mesmo que nunca tenha estado fechado, ainda quando esteve. O Vila é um espaço mágico, como aliás o são as casas de espetáculo. Mas esta tem um encantamento a mais. Foi construída por atores, por pessoas de teatro. Muita gente botou um tijolo ali. De vez em quando conheço alguém que me diz: ”ajudei a construir isto aqui”, e deve ter ajudado mesmo. A magia do teatro é esta, ser coletivo, ser de todo mundo, precisar de muitos para se concretizar. Agora mesmo, para reergue-lo, muita gente novamente arregaçou as mangas e compareceu das mais diversas formas: cantando, representando, trabalhando no pesado, na técnica, na limpeza, na administração, patrocinando eventos, enfim.... O Teatro Vila Velha foi construído pelos artistas do grupo Teatro dos Novos para o desenvolvimento de um projeto cultural. Este projeto foi reelaborado e assumido pelo Teatro Livre da Bahia, quando os Novos se lançaram no mundo à procura de novos desafios. A cobra morde o rabo e se fecha um círculo. Trinta anos depois de construído, alguns dos artistas fundadores se unem a novos Novos e o Vila aí está. Coletivo, renovado, com os mesmos princípios. Como no começo. Propondo um repensar constante da cultura brasileira, num refazer diário, que assim teatro é feito. Agora temos o Cabaré dos Novos, espaço alternativo (que vai ser o principal enquanto o auditório estiver reformando). Com uma programação variada que obedece sempre ao espírito do
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exercício, da fusão, da troca de experiências, da possibilidade de muita gente estar circulando pelo palco e mostrando seu trabalho. Os atores tem o Quem Manda é Você, às terças; os músicos têm, às quartas, o Cabaré Jam; os dançarinos, o Baila Vila, todo primeiro sábado de cada mês. E todo mundo tem o Meia Noite se Improvisa, às sextas, além de todos os outros dias da semana. Foram criadas duas salas de ensaios onde funcionarão permanentemente as Livres Oficinas Vila. Oficinas de figurino, berimbau, cenotécnica, iluminotécnica, perna de pau, percussão, dança afro e de exercícios para atores, serão oferecidas durante todo o ano. Agora, no fim do verão, ainda com o patrocínio do Ministério da Cultura e Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, começa a segunda etapa da reforma: o auditório do teatro. Essa reforma vai criar um novo espaço múltiplo, completamente flexível, com diversas possibilidades de organização da relação palco e platéia - que serão móveis. A revitalização, reforma e ampliação do Teatro Vila Velha é um exemplo deste encantamento coletivo, dessa magia que tem o teatro, dessa capacidade de renascer continuamente, sempre. Salvador, 19.01.97 In Cenário, Ano 1 – nº 4, janeiro/1997
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O ATOR E O PERSONAGEM De onde vêm os personagens? E o que são os personagens? São seres viventes como nós, mas diferentes. De outra textura, de outra densidade. São seres compostos, fabricados. Clones de outras criaturas. São vivos, disso não resta a menor dúvida. Existem. Estão espalhados por aí. Feitos, como nós da mesma matéria que os sonhos. Feitos de desejos, pensamentos, reflexões, questionamentos, dúvidas, asserções, carne, suor, excremento. Feitos de um trabalho diário de buscas, investigação sistemática, construção de modos, gestos, sons. Um personagem é como um instrumento que deve ser tocado pelo ator. Um instrumento construído com seus próprios ossos, carne, pele, sangue e energia. Esse estranho engenho - o personagem - é arquitetado por um conjunto de artesãos, que juntam vasto material diariamente, para tal fim. Recolhem-no de leituras, de vivências, de memórias, de ouvir dizer, de ter visto hoje à tarde, de ter sentido, ou pressentido ou intuído. Esse material recolhido pelo ator, junto com outros atores, autor, diretor, coreógrafo, cenógrafo, figurinista, iluminador, é armazenado no seu próprio corpo - que pensamento e emoção e sentidos também fazem parte do corpo - e colocado em camadas superpostas até que o instrumento personagem esteja pronto. Uma vez pronto começa o trabalho de afinar e aprender a tocar. O
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ator tem que aprender a extrair dele todas as possibilidades que ele guarda em si, todas as maravilhas capazes de surpreender a platéia e encantá-la. Esse aprendizado é o mais doloroso, porque quase solitário. O ator segue sozinho atado inexoravelmente a seu instrumento, sendo um só com ele - ele e seu corpo descobrindo as sonoridades que é capaz de produzir. O diretor e os colegas podem alertá-lo de certos sons que são adivinhados. De certas possibilidades entrevistas por instantes. Mas ninguém pode ensiná-lo a tocar. O público às vezes é a chave para isso. Quando o ator faz soar seu instrumento e este som ecoa, o eco é produzido na platéia, e assim, às vezes, ele começa verdadeiramente a se escutar. E só então seu personagem está completo. Quando o ator finalmente escuta, vindo da plateia, o eco - reflexo correto do som que emitiu. A eficiência desse trabalho duro que o ator executa diariamente e sempre, depende mais de sua vivência do que de sua técnica, de uma ética que de uma estética. Depende da consciência que ele tem de seu papel. Depende basicamente de ele, ator, saber o que quer, de que lado está e de porque se propõe a juntar uma audiência toda noite para vê-lo. Alguns atores o fazem por um exercício de vaidade, e são grandes. Nos dão, às vezes, enorme prazer. Mas prefiro, a esses, aqueles outros que o fazem por uma questão vital de estar entre os homens. De estar em frente ao outro diariamente afirmando sua condição singular de ser humano que questiona o porquê das coisas serem assim, e não como poderiam ser. Salvador - 06/03/97 In Cenário, Ano 1 – nº 5, março/1997
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Fernando Conceição me convidou para escrever uma coluna que intitulei Tubo de Ensaio, no jornal editado por ele, o Província da Bahia. A coluna teve uma certa regularidade e sete artigos meus foram publicados em seus 11 números: MÁRIO PARA SEMPRE Perdemos Mário. Quando perdemos um ator como Mário Gusmão, além dele, perdemos todos os personagens que fez. E, pior, perdemos todos os personagens que ele poderia fazer. Um personagem só existe inteiramente quando um ator, com seu corpo, sua voz e seu engenho, dá-lhe vida. Um personagem é o personagem de um ator. Assim, não existem Macbeth, ou Édipo, ou quem seja. Existem o Macbeth de Fulano ou o Édipo de Sícrano. Quando um ator se vai, perdemos a possibilidade de personagens. Com Mário, perdemos a possibilidade do Rei Lear de Mário, do Próspero de Mário, do Galileu de Mário e de uma infinidade de outros. Porque um ator é sempre uma possibilidade infinita. Pensei em Mário para o Sr. Peachum da Ópera de Três Mirréis, na montagem do Bando de Teatro Olodum. Pensei em Mário para Jubiabá, na adaptação que Claudius Portugal e eu planejamos fazer do romance homônimo de Jorge Amado, para o Bando. Pensei em Mário muitas vezes em minha vida. Mas perdemos Mário e, com ele, muito. Sei pouco de Mário Gusmão. Não sei quando nasceu, nem onde. Nem quantos anos tinha quando se foi. Não sei quantas peças, nem quantos filmes, nem quantos trabalhos fez na televisão.
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Sei que vi muito pouco. Todos vimos Mário muito pouco, muito menos do que merecíamos. Poucos filmes, poucas peças, poucos trabalhos na televisão. Por mais que tenha feito peças e filmes e trabalhos para a televisão, e os fez muito. Não se deu a atenção necessária a um ator daquele quilate que, como tudo no teatro, é efêmero. Passa rápido, como um por de sol, que é único e precisa ser visto e lembrado para que se torne eterno. Mário se foi. Um homem negro que era ator. Num país que ainda não descobriu sua própria identidade e que dificulta, e muito, a vida e a carreira de um homem negro que escolhe ser ator. Que decide ajudar a construir essa identidade através dos personagens que só ele pode criar. Adeus, Mário. Fica pra sempre a falta de todos os personagens que não serão feitos por você. E uma saudade grande de todos aqueles que você levou embora. E fica também uma felicidade imensa de termos tido a benção de sua presença entre nós. ABRIDOR DE LATAS In A Província da Bahia, Ano 1 – nº 3, 03/02/1997
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ZÉ, MEU HEROI. Assistir a qualquer espetáculo de Zé Celso é uma experiência pra toda a vida. Quando estava estudando para fazer o vestibular de arquitetura, assisti no Teatro Castro Alves às três peças do repertório do Oficina que excursionaram pelo Brasil: Os Pequenos Burgueses, O Rei da Vela e Galileu Galilei. Lá se vão vinte e seis anos e ainda tenho claras em mim as imagens, as sensações e principalmente as transformações que essas imagens e sensações provocaram em meu pensamento. Anos depois, vi o filme que Zé fez na África e o que fez sobre o Rei da Vela, assisti ao Hamlet, do Uzina Uzona, seu novo grupo. Foi definitivo. Ali estavam toda a força que o teatro tem, ao longo daquelas quatro horas de espetáculo. Agora: As Bacantes. Cinco horas de folia para contar o triunfo de Dionísio. E contar o triunfo de Dionísio é contar o triunfo de José Celso Martinez Corrêa e seu teatro. Durante anos Zé e seu grupo lutaram contra a grana de Sílvio Santos e seu Baú da Felicidade para manter o prédio do Teatro Oficina no seu lugar. Um teatro em vez de um shopping center.
O tempo de construção das Bacantes foi o tempo que durou essa luta. Hoje o teatro está lá e o shopping center ainda não. E no Teatro estão as bacantes de Zé contando essa história: Dionísio vem da Frígia com seu séquito de mênades instaurar seu culto em Tebas, governada por Penteu, seu primo. Penteu vê todas as mulheres da cidade, enlouquecidas de vinho e paixão, irem para os campos entregarem-se aos rituais em louvor ao novo Deus. Temendo a desestabilização da ordem, da razão, da produção e, consequentemente, de seu poder, manda prender Dionísio. O Deus, prisioneiro, inflama a curiosidade do rei e o induz a assistir ao culto secretamente, vestido de mulher. Penteu assim o faz, mas é reconhecido e destroçado pelas bacantes que, no transe, o tomam por um leão, lideradas por Agave, sua mãe. Passado o momento do sacrifício, a cidade reconhece a divindade de Dionísio e o seu culto se instaura, a partir de Tebas, em toda a Grécia. A vitória de Dionísio sobre Penteu é a vitória da paixão, do delírio, do teatro, dos sentidos. É a vitória de Zé Celso que reconstruiu seu teatro, no meio de São Paulo, no meio da especulação imobiliária, no meio do que seria um shopping center, no meio de um Baú da Felicidade. E o reconstruiu para
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que as bacantes pudessem triunfar. O Triunfo de Zé não foi completo, o Baú não foi destroçado nem será. Ficará sempre, como uma ameaça pairando, essa hipótese de um shopping center. Ficaremos para sempre com essa ameaça pairando sobre nós: a de que a paixão possa ser banida de nossas vidas, pela especulação, pelo lucro, pela produção desenfreada do capital. As Bacantes estarão em Salvador no dia 28 de fevereiro, no Museu de Arte Moderna. ABRIDOR DE LATAS In A Província da Bahia, Ano 1 – nº 4, 23/02/1997 O MUNDO NÃO É FEITO DE SONHOS Onde havia um palco agora existe um grande buraco de terra, o espaço que foi ocupado pela platéia durante 33 anos também foi engolido por uma escavadeira, personagem principal, durante uma semana, de um novo espetáculo em cartaz no Teatro Vila Velha: a segunda etapa de uma reforma que vai devolver à cidade um espaço essencial. O teatro foi construído na década de sessenta pela Sociedade Teatro dos Novos - Carlos Petrovich, Carmem Bittencourt, Échio Reis, Othon Bastos, Sonia Robatto e Tereza Sá, dirigidos por João Augusto - . Esse grupo moveu céus e terras para tornar concreto o seu desejo, porque, como nos conta o poema de Iderval Miranda: “O mundo não é feito de sonhos. É feito de pedras e sonhos”. Durante esses 33 anos o teatro abrigou vários projetos: o do Teatro dos Novos, o Teatro Livre da Bahia, o Livre Teatro
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Livre, o Improviso, os shows, os festivais, abrigou o CUCA Centro Universitário de Cultura e Arte - durante os duros anos setenta. Abrigou muitos sonhos entre suas pedras e tijolos e asfalto e madeiras. Esses projetos conviveram naquele espaço, porque para isso aquele teatro foi criado: para discutir, tornar vivas idéias, esfregar na cara da intolerância possibilidades de mudança, de encontros. Pois nos encontros é que estão as chaves mágicas que abrem todas as portas. Agora, com a escavação, muitas coisas são revolvidas com a terra que vai embora em caçambas. Muitas memórias, muitas emoções. Tudo fica mexido, e o que a gente sente é como a sensação que se tem com a preparação de um espetáculo que vai estrear em breve. O Vila Velha é, agora, como um texto clássico que ganha uma nova leitura e não deixa de ser o mesmo. O Vila Velha foi construído em cima de uma estrebaria - onde ficavam os cavalos da Polícia Militar - a partir da adaptação de uma estrutura de galpão. Tinha um palco italiano e dois camarins. A platéia era revestida de asfalto (doação da Prefeitura, na época), e o foyer era calçado com paralelepípedos. Tinha uma área onde funcionava a administração, e um pátio externo, nos fundos, com depósitos. Agora, com projeto de Carl von Hauenschild, ele tem um cabaré, com palco e camarim; duas salas de ensaio; uma área para administração, outra para a produção; oficina de cenografia e depósitos; um grande guarda roupa e armário para arquivo e consulta de sua história. E isso já está funcionando a todo vapor, cumprindo a função do teatro. Está sendo construída a nova sala de espetáculos, com um palco mutante que tanto pode ser uma grande arena, quanto
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um palco italiano, um palco elisabetano, ou um sambódromo. E os espetáculos podem ser assistidos de balcões, arquibancadas ou poltronas. Os artistas terão quatro camarins à disposição. Silvio Robatto foi quem colocou o galpão industrial em cima da estrebaria do Passeio Público e, com os poderes de sua arte de arquiteto e suas artimanhas de baiano, transformou aquilo num teatro. Trinta e três anos depois, eu o vejo satisfeito de ver que sua obra original já continha tudo que está sendo feito agora, assim como o projeto do Teatro dos Novos já continha o Novo Vila. Assim é a obra dos grandes, Sílvio. Salvador, 2/3/97 ABRIDOR DE LATAS In A Província da Bahia, Ano 1 – nº 5, 19/03/1997 INCÔMODA POESIA QUE FEDE A SUOR Visitei a exposição de Basquiat em São Paulo. Quando Cheguei em Salvador li uma nota num dos nossos jornais que dizia ser aquela exposição um engodo, uma trapaça dos mídia que nos fez engolir um grafiteiro negro como se fosse artista.
Fiquei chocado. Então, participei de uma farsa e todos os meus sentidos me embromaram? Todo o meu prazer estético e minha razão que precisa cada vez mais de uma identificação política com o que vê e vive, que precisa cada vez mais identificar uma ética clara e correta na ação humana, foi tudo um trampo? Minha excitação erótica diante da força viril daquela obra, diante daquelas cores chapadas jogadas em minha retina com a violência primal de uma foda foi somente uma perversão polimorfa residual? E as lagrimas, que ameaçaram cair, foram fruto de cristais japoneses colocados pela mídia em meus olhos, como a Globo faz nos de suas estrelas para que elas nos comovam? Não. Não foi. A violência de Basquiat é a tradução completa e perfeita de uma vida. É praticada com uma linguagem clara e direta, construída por alguém que tem algo a dizer para alguém que precisa ouvir. Nada é de graça, nada é à toa. Se ele foi sacralizado, logo sacrificado, pelos mídia, melhor para nós seres humanos deste planeta. Pior para ele? Melhor para ele? Não sei. Não podemos saber. Só podemos ler sua dor e seu
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humor violentos, seu tesão pela vida penetrando nossos sentidos. E só nos resta dizer yes, man! Em seu dialeto. Quem diz não, é porque não ouviu ainda a terrível notícia. É que não percebeu ainda como se segrega nossos irmãos. Ou, pior que tudo, ouviu, sabe e concorda ou se cala. Essa nota me lembrou muito certas críticas que ouvi, e ainda ouço, feitas agora de forma sutil, truncada, por metáforas, com cuidado: “Os atores do Bando de Teatro Olodum não são atores, eles só vão para o palco falar de suas vidas, só servem para fazer rir”. É preciso saber porque a poesia que vem da rua, suja de necessidades primárias – como é preciso comer, é preciso viver, é preciso respeito, é preciso trabalho e espaço – incomodam tanto a quem está em casa cercado de anjinhos e cristais. É preciso saber porque essa poesia que fede a suor e porra e líquidos vaginais é negada tanto por quem vive envolto em perfumes, impedidos de sentir o próprio cheiro. Basquiat sabia porque. E nós também. ABRIDOR DE LATAS In A Província da Bahia, Ano 2 – nº 7, 20/09/1998
Para o número seguinte, o #08 d’A Província da Bahia, enviei o texto do programa de Josefina, a Cantora dos Ratos, pela pertinência do tema naquele momento. Foi renomeado e publicado com o título ACHO QUE ESTE NÃO É UM TEMPO DE METÁFORAS, em 17 de março de 2000.
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FERNANDO, MEU CARO AMIGO, Desculpe o atraso com que te mando esta coluna, deveria ter saído no número anterior, deveria ter chegado pelo menos há uma semana atrás em suas mãos, ou ao seu e-mail. Já não sei se há mais tempo de sair neste número. E eu queria estar sempre nesta Província da Bahia. Aliás é onde escolhi estar. Mas você sabe, esgotaram-se os 10 milhões do Fazcultura. Isso nos trouxe problemas aqui para o Vila Velha. Estávamos com patrocinador assegurado para o projeto com os portugueses e de repente não estávamos mais. O projeto com os portugueses é o seguinte: o Teatro Vila Velha fez um convênio com o Teatro Nacional São João, do Porto, para montar um espetáculo que surgiu a partir de uma idéia da carta de Pero Vaz de Caminha ao rei anunciando a boa nova do achamento de terras do lado de cá do Atlântico. A carta que o cara escreveu é na verdade um poema apaixonado pela descoberta do outro. O deslumbramento. E o que se pode supor seria a continuidade da relação entre estas duas culturas, que se encontram e celebram esse encontro com aquele poema arrebatado, não se cumpriu. A História nos conta outra história.
Pois é, desse ponto de partida se criou um espetáculo chamado Supernova, com texto escrito pelo português Abel Neves e encenado pelo também português Fernando Mora Ramos com atores brasileiros e lusitanos, espetáculo esse que está a caminho de uma turnê por Portugal neste momento. Então, voltando: este projeto tinha patrocinador e tudo e eis que senão quando, de repente, não mais que de repente, fez-se do patrocínio perto o distante... E nós a ver navios quase a naufragar. Mas se queremos, faz-se e estamos arranjando meios de fazer. Mas descobrir meios é como descobrir novas terras, custa tempo e engenho. Engenho não nos falta, exemplos abundam na trajetória do Vila Velha, mas tempo é só um para tudo e passa e nos ocupamos de uma ou de outra coisa, e quando tudo é prioridade, quase explodimos e alguma coisa tem de esperar. Às vezes o prazer. Como o de construir este abridor de latas. Mas tudo isto com os portugueses me fez pensar. Hábito saudável este de pensar. Sempre nos leva adiante. Principalmente quando o pensar é seguido do agir. Assim, começamos a discutir política cultural aqui no Vila Velha. Antigo hábito deste teatro. Convocamos muita gente e vamos constatando cada vez mais
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os perigos e males do neo liberalismo nas novas gerações. Amigo, é como um tufão varrendo toda noção de liberdade, igualdade e fraternidade que acaso tenha resistido e ficado germinando possibilidades em nosso coração. Liberdade agora é livre negociação. É linguagem de mercadoria e de mercado. Não criamos mais, produzimos. E a obra de um artista é produto e não objeto de arte. Chamamos parceiro aos empresários como se os cordeiros pudessem chamar de amigos aos lobos. E tentamos falar sua linguagem para que eles nos entendam. Ao invés de com a nossa sermos necessários. Às vezes me vem a sensação de que a arte não é mais necessária neste mundo. De que já tem muita coisa por aí. Tantos livros já foram escritos, tantas imagens geradas, tantos sons... tantos sons... Acabou nosso carnaval e o sonho acabou. Mas então “mais que nunca é preciso cantar e acordar a cidade”. É preciso novos sonhos. É preciso construir novas fraternidades. Reconstruir esta noção (e esta nação também). Livrar-nos, Senhor, das garras da mídia que tudo acaçapa e devora e regurgita, transformando o mais terrível acontecimento em banalidade que se esquece em apenas 15 minutos. E Carandirus se sucedem, e genocídios e extermínios e corrupções. E já não se
acredita em nada. Apenas em salvar a própria pele – a embalagem. Vamos criando insensibilidades... Mas estou eu aqui, parecendo um velho a lamentar os novos tempos. São assim. Ou sempre foram e apenas víamos com outros olhos. Sempre ouvi meu avô dizer, “ai, se meu pai visse isso...” querendo dizer que as coisas mudaram muito e o velho senhor Meirelles não concordaria com aquelas mudanças. E é sempre como se cada mudança fosse nos levar ao estágio final da humanidade. Mas sempre damos a volta e conseguimos, conseguimos. O velho senhor Meirelles encararia os fatos, como nós encaramos. E, se como nós não concordasse, só lhe restaria lutar, como nós. Tudo isso pra lhe dizer que toda primeira terça feira de cada mês estamos discutindo Política Cultural, aqui no Vila Velha, pelo menos para entender porque a galera agora está como está. Por que a verba do Fazcultura se acaba e nós não podemos fazer nada. Porque se gasta tanto nas comemorações do descobrimento e não se prevê nenhum tostão para projetos que propõe repensar este descobrimento e recomeçar relações mais duradouras, que reflitam as diferenças e similitudes e proponham avanços no caminhar da humanidade. Mas avanços que nos levem
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de volta à humanidade, não nos afaste dela. Não nos deixe à deriva por aí como a Nau Capitânia (imagem recorrente agora em meus mais terríveis pesadelos e constante em minhas reflexões). PS – Recebi uma carta da comissão dos 500 anos, descartando a hipótese de apoiar financeiramente um outro projeto nosso que envolve portugueses e africanos lusófonos. Um outro projeto de encontros... Na carta, cinicamente, nos davam a chancela, permitindo-nos usar em nosso projeto (agora uma batalha só nossa) o selo dos 500 anos. Mandei enfiar... no fundo do mar. ABRIDOR DE LATAS In A Província da Bahia, #10 (05/06/00) COMO OS PEITOS DE GAL O Bando de Teatro Olodum foi criado em 1990 através de uma oficina. A ideia era que a oficina servisse para selecionar os atores que formariam o grupo e a partir daí, com esse grupo, seria montada As Bacantes, de Eurípedes. Para apresentar o grupo, no término da oficina, montamos Essa é Nossa Praia. Apresentamos esse espetáculo durante uns três anos. Quandofaleinaimprensaquemontaríamos As Bacantes pela proximidade que esse texto tem com nossa vida, nossa cultura, com a invenção do carnaval, alguém se
apressou a me dizer: mas isto é um projeto de Zé Celso. Que alguém sempre diz essas coisas, pelos motivos mais diversos. Mas especialmente porque supõe-se as vezes que uma peça de teatro só comporta uma encenação. O sucesso de Nossa Praia e a notícia do projeto de Zé - “deixa ver primeiro o que o mestre vai fazer desse texto”- me fizeram desistir do espetáculo.. Agora, seis anos depois, Zé Celso convida o Bando para participar de sua montagem. O que é um privilégio, como disse Caetano Veloso a propósito do fato de ter participado do espetáculo, mamando no seio de uma das atrizes e sendo desnudado na cena em que as bacantes destroçam a divindade. Coisa que acontece todas as noites com alguém da plateia. Mas o fato de o rei ter ficado nu - e de o rei ser sempre mais bonito nu - trouxe notoriedade nacional ao espetáculo. Desnudar um ídolo é tocar num tabu. E aí vem a controvérsia, o diz que diz, o acho isso acho aquilo. Igual aos peitos de Gal no show dirigido por Gerald Thomas. Tocar um tabu mexe com a galera. Daí todo mundo quer ter seu dia de Caetano n’As Bacantes, ou ver alguém correr esse risco.
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Mas As Bacantes de José Celso Martinez Corrêa é muito mais do que quer a mídia. Zé é o mais teatral dos diretores brasileiros, o mais político, o mais autoral, o mais necessário, o mais brasileiro, o mais polêmico, the best. Zé criou um espetáculo magnífico. Ele e seu grupo contam a história do triunfo da paixão. A vitória do instinto, dos sentidos. A vitória do teatro, da arte sobre a mídia; do Homem sobre o Estado. Da vida sobre os interesses, o comércio. Desnudar um espectador nesse espetáculo é absolutamente pertinente e necessário para que a idéia se realize. Quando isso acontece, toda a ordem é invertida, tudo fica fora do prumo; tudo, momentaneamente, fica fora de controle, e é nesse momento que a verdade triunfa, que o equilíbrio e a paz são possíveis. Quando a gente perde a casca e renasce num ritual de passagem inesquecível. Quando a gente fica completamente desprotegido e frágil. Quando a divindade em forma de touro é destroçada pelas bacantes. Quando não existe mais o símbolo Deus, Deus se espalha pelo mundo e por todas as coisas, como deve ser. Salvador, 26/02/97 ABRIDOR DE LATAS In A Província da Bahia, #11 (05/07/00) (SSA – Ba)
A Gazeta Mercantil me encomendou um artigo sobre cultura, estava vivendo a obra de reconstrução do Vila e o processo da peça Um Tal de Dom Quixote. Escrevi:
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RECOMENDO O SONHO Recomendo Dom Quixote porque é um clássico. E um clássico, segundo Ítalo Calvino, é “um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. E, especialmente esse clássico tem muito a nos dizer neste momento. Neste fim de século, quando já quase não temos crenças, quando é difícil distinguir de que lado devemos estar, quando ruíram as convicções e estruturas norteadoras de nosso comportamento. Quando é muito difícil distinguir quem são os aliados, quem está contra. Quando já não temos por que lutar, a não ser pelo dia a dia, pelo cotidiano árido, quando morreram os ideais e os mitos não duram mais que quinze minutos. Neste momento Dom Quixote tem muito a nos dizer. El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha foi escrito há quase quatrocentos anos por Miguel de Cervantes Saavedra. Espanhol aventureiro, filho de nobres empobrecidos, Cervantes alistou-se como soldado em 1570, para lutar contra os turcos. Ao regressar à Espanha, cinco anos depois, foi raptado por piratas mouros e ficou prisioneiro em Argel por mais cinco anos: sua família não tinha como pagar o alta resgate exigido. Finalmente liberto, engajou-se novamente como soldado e participou de combates na África. Depois de abandonar as armas dedicou-se mais à escrever, levando uma vida difícil apesar do sucesso de seus livros, especialmente Novelas Exemplares e Dom Quixote. Escrito já no fim de sua vida, Dom Quixote tem muito de Cervantes. Isso, talvez, seja um dos motivos do sucesso do personagem e do livro. Foram escritas com muita paixão e verdade as aventuras e desventuras deste homem que, de tanto ler, “se lhe secou o cérebro” acreditando-se ele próprio personagem dos livros de cavalaria que leu.
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Assim, convicto de ser um herói, faz-se cavaleiro andante, a lutar contra vilões, monstros e magos para corrigir o mundo, por amor de Dulcinéia. Vai então, mundo afora encontrando os mais estranhos personagens e vivendo as mais divertidas e desastrosas aventuras. Leva consigo Sancho Pança, seu vizinho, feito escudeiro, que o segue graças à crença de que no fim de todas aquelas aventuras ganharia, como prêmio por sua lealdade, uma ilha para governar. Dom Quixote é aquele que acredita e convence, pelo menos a uma pessoa, de que o sonho é real e de que as coisas podem não ser exatamente o que são, mas o que queremos que elas sejam. Que o fundamental na vida é ter porque lutar. Mas é muito mais: É um clássico que nunca vai terminar de dizer tudo aquilo que tem para dizer. Para nós, homens deste fim de século, talvez seja necessário ouvir de Dom Quixote que o sonho é, na verdade, o poderoso engenho que move o mundo. É preciso acreditar. Salvador, 31 de agosto de 1997 para a Gazeta Mercantil
A convite de Flora Gil, escrevi o texto de abertura da seção Casas de espetáculos (depois, em edições posteriores, Espaços Culturais) para o guia de endereços Guia Adresses Salvador. Uma produção e autoria dela e de Ivana Souto e Kátia Badaró. O lançamento da 1ª edição ocorreu em 1997, seguido de edições anuais até o último lançamento em 21 de janeiro de 2000.
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AS CASAS DE ESPETÁCULOS Uma casa de espetáculos é como um bordel onde as emoções estão a espera dos clientes para satisfaze-los em seus desejos mais secretos. O amor, o ódio, o ciúme, a vingança, a paixão, todas, todas elas estão ali para serem experimentadas, vividas e talvez domadas enquanto durem os espetáculos, ou para sempre, a depender do interesse do freguês. Numa casa de espetáculos pode-se percorrer os labirintos da mente humana e entender o emaranhado complexo das relações. Pode-se, nos corredores e salões do coração, descobrir-se verdades insuspeitas. Uma casa de espetáculos é como um berço onde se renasce. Onde os mistérios gozosos são revividos, construídos de luz e som e sonhos. Os caminhos da história estão abertos apontando para o futuro, para as possibilidades de futuro a disposição do atento espectador, daquele que tem força para virar as mesas do destino, porque aprendeu que o destino se faz, não nasce feito. Uma casa de espetáculos é como uma grande nave mãe, pronta e equipada para levar os senhores passageiros por mares nunca d’antes navegados, por horizontes improváveis, por espaços desconhecidos, mistérios insondáveis, para dentro e fundo, para o prazer e a dor de ser parte deste mundo. Salvador, 19 de agosto de l996
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CARTA PARA A ATRIZ YUMARA RODRIGUES Yu, Resolvi escrever uma carta pessoal pra você ao invés de uma apresentação para seu livro. Explico: tudo em você é pessoal e intransferível. Resolvi assim porque quero dizer-lhe umas coisas que talvez você ainda não saiba. Por exemplo falar do medo que, durante um tempo, senti de você. Um tempo em que a admiração era muita e o conhecimento apenas aquele que se tem de uma distância medida entre a plateia e o palco. A primeira vez que a vi foi ao vivo e em preto e branco numa novela da TV Itapoan, no tempo em que a Bahia produzia teledramaturgia com o patrocínio do comércio local, sem leis de incentivo. Lembro perfeitamente de seu rosto na tela. Dentre todos os atores e atrizes que estavam ali, ficou vc. Por que? Que natureza de permanência é essa que alguns atores e atrizes têm? Você viajou, passou um tempo fora, depois retornou e o teatro baiano voltou a conviver com você. De novo nossos palcos, com a possibilidade de sua presença, ficaram mais ricos. Então pude vê-la no Teatro Vila Velha, ao vivo e em cores, numa Canção feita de azul ou Minha piteira, onde está minha piteira? E presenciar a advertência memorável que deu a um espectador que dispersava e atrapalhava seu trabalho: “você acha que um ator aqui no palco é uma máquina que se liga e desliga?” Não, seguramente não. Especialmente não você. E você se agigantava em cada projeto como atriz, encenadora, produtora. Em você crescia o mito. Em mim, a admiração e o medo do mito que se ia construindo ao seu redor. Mito que
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costumeiramente a planície constrói em torno de alguns que avançam: “pessoa difícil”, “temperamento complicado”… Então, à distância, preferia que apenas nos relacionássemos como pessoas do mesmo ofício. E digo ofício pra você porque entendo profissão como uma atividade que remunera sua prática. E para a sua atividade em teatro não há remuneração possível. A única é guardando na memória cada personagem, ação, fala, gesto, olhar que você constrói em sua trajetória por este mundo. E ainda assim isso é mais um serviço seu do que nosso. Eis como entendi essa impossibilidade que o mundo tem de devolver o que você produz. Foi em nosso primeiro encontro como artistas no mesmo espetáculo. Harildo Deda me convidou para fazer o figurino de Seis personagens à procura de um autor, aceitei com medo porque lá estava você no elenco. Fazia a mãe e sua entrada na peça era uma cena em que surpreendia sua filha beijando seu marido. Você já estava no palco sentada, como os outros personagens. Nós, privilegiadas testemunhas de uma iluminação, podíamos acompanhar, durante toda a cena que precedia sua entrada, a destruição na qual você a construía. Você dilacerava e destroçava fibra por fibra o coração de sua criatura, por tanto o seu próprio, e cada músculo de seu corpo para fazer irromper em cena não apenas uma mulher mas uma ruína. Um monumento que admiramos pelo que a erosão constante, provocada por elementos adversos, arrancou. Naquele momento acabou-se o medo: decifrei o monstro. Entendi sua natureza imensa. Alguém que faz isso consigo mesmo para que o outro possa refletir sobre uma situação limite como aquela, merece o mundo. E o mundo nunca poderá retribuir com nenhuma moeda a desconstrução molecular de si mesmos que você e alguns outros raros são
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capazes de fazer e por isso permanecem. Depois, foi possível aceitar seu convite para dirigir A + forte. Nela tinha a tarefa e a ventura de presenciar seu processo criativo e colaborar com ele. Processo completamente autoral e estafante que este livro e este projeto, creio, dão conta de registrar para quem ainda não presenciou sua atuação. Nos ensaios, às vezes eu pedia que você fizesse uma cena de determinada maneira e recebia de volta: “se eu fizer assim vou chorar” ou outra predição exata da reação que se sucederia caso essa ou aquela forma de dizer o texto, de olhar, de se mover acionassem seus mecanismos físico-químicos. E, se eu pedia “faça assim mesmo”, a consequência era a prevista e podíamos, encenador e atriz, escolher de que maneira conduziríamos o público a uma reflexão sobre a condição da mulher numa sociedade patriarcal/capitalista, a tomar uma posição de aceitação ou recusa em relação a isto e do consequente movimento a ser feito para mudar ou afirmar o mundo como ele é. Você pode dar isso ao público e o público não está apto a devolver à altura sua doação. Não sei se você sabe disso e aceita ou se, ao contrário, se revolta e continua somente para poder transformar o público e torná-lo um dia capaz de sua mesma grandeza. Depois, na segunda montagem que fizemos da mesma peça, você fazia a silenciosa Sra. Y. Insubordinada, transformou o silêncio da personagem em vagidos, urros, estertores, sussurros sutis, clamando mais uma vez pelos direitos da mulher, é dizer do ser humano, neste mundo. E por um mecanismo qualquer, pessoal e intransferível, você
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conseguia todos os dias produzir uma única lágrima, que brotava do olho visível ao público, exatamente no mesmo instante em que a mesma palavra brotava dos lábios de Nilda Spencer, a falante Sra. X contracenando com você, que, também grande, deixava brotarem palavra e lágrima com a mesma precisão todos os dias. E todos os dias vocês duas abandonavam o palco com suas personagens mais fortes e mais fracas, vencedoras e vencidas ambas. Saíam pela plateia e passavam por mim sem me olhar, inteiras e sobre humanas de tão nós. Isso ao fim de todas as apresentações. Todas exceto uma, a última, quando vocês deixariam para sempre suas personagens no camarim e em nossa memória. Ao passar por mim, ao contrário de todos os dias, você me olhou e piscou o olho não visível para o público. Seu olho humano, o que não produzia a única lágrima diária. Foi uma epifania. Houve naquele momento a revelação absoluta do mistério gozoso e glorioso do que é um ator ou atriz em cena – aqueles que têm a natureza de se perpetuar em nossa memória: vocês são humanos, demasiadamente humanos para nós mortais. Agradeço o privilégio de estar neste mundo no mesmo lugar e momento que você. E de nossas vidas terem podido se cruzar, conduzidas pela poesia. E também pelo que nunca vou poder retribuir. Não na mesma proporção e intensidade que recebi. Porque em você tudo é pessoal e intransferível. marcio meirelles Rio de Janeiro, 23 de maio de 2013
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GOVERNANTES 67o prefeito: Antônio Imbassahy . Partido da Frente Liberal (pfl) 1997 a 2000 46o governador: Paulo Souto . Partido da Frente Liberal (pfl) 1995 a 1999 34o presidente: Fernando Henrique Cardoso . Partido da Social Democracia Brasileira (psdb) 1995 a 2003
Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque, acusado de matar pelo menos oito mulheres no Parque do Estado em São Paulo foi preso em Itaqui, Rio Grande do Sul. Fernando Henrique Cardoso foi reeleito presidente do Brasil, tornando-se o primeiro a se reeleger na história do país.
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BANDO DE TEATRO OLODUM - ANO OITO ÓPERA DE 3 REAIS Bando de Teatro Olodum Direção (com Chica Carelli), cenário e figurino: Marcio Meirelles Texto: Bertolt Brecht Música: Kurt Weill Tradução: Wolfgang Bader e Marcos Santa Roma Coreografia: Cristina Castro Arranjos e direção musical: Jarbas Bittencourt Iluminação: Valmyr Ferreira Direção de vídeo: João Rodrigo Mattos Produção de vídeo: Celso de Carvalho Direção de produção: Sibele Américo Patrocínio: Coelba e Governo do Estado da Bahia, através do Fazcultura, e Projeto Cena Aberta do Ministério da Cultura e do Ministério do Trabalho Elenco: Agnaldo Buiú (bandido, cantor da Moritat e percussionista), Arlete Dias (Poly), Auristela Sá (Lucy), Cássia Valle (prostituta), Chica Carelli (Sra. Peachum), Cristóvão da Silva (Mathias Moeda e Negócio Torto), Ednaldo Muniz (bandido, mendigo, policial e percussionista), Gerimias Mendes (mendigo e Reverendo Kimball), Jorge Washington (Jacó Dedo de Gancho e mendigo), Lázaro Machado (Sr Peachum e percussionista), Lázaro Ramos (Mack Navalha), Leno Sacramento (bandido, mendigo e policial), Luís Fernando Araújo (mendigo, Smith e percussionista), Merry Batista (prostituta), Nauro Neves (bandido e mendigo), Nildes Vieira (prostituta), Rejane Maia (a lua, narradora), Tânia Toko (Fichinha e Neuzão) e Valdinéia Soriano (Jenny) Ator convidado: Rui Manthur (Brown) Músicos convidados: André Araújo (piano), André Borges (sax-tenor e soprano) e Jason Bittencourt (guitarra) Estréia: 08/10/98 Teatro Vila Velha – SSA Apresentações: 08/10 a 14/12/98 Teatro Vila Velha – SSA Indicação para o Prêmio Copene de Teatro – Ano VII (1998) ATOR: Lázaro Ramos
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POR QUE DE NOVO A ÓPERA DE BRECHT? Por que montar a Ópera pela segunda vez? Porque não ficamos satisfeitos com a primeira. Queríamos mais. Brecht pode nos dar muito mais. Porque queremos retomar o repertório do Bando. Porque podemos ainda continuar dizendo coisas com essa Ópera. Num país onde a corrupção corre solta e a impunidade, sua parceira, comanda o show, a Ópera é mais que oportuna. Mas.... (sempre há um mas) Neste final de processo, perto da estréia, nos demos conta da ingenuidade de nosso projeto. Existe um inimigo sem rosto, sem nome, sem corpo que nos ronda de forma muito mais mortal a todos nós. Principalmente aos menos favorecidos economicamente, aos não poderosos. A nós do terceiro mundo, a nós todos desse planeta. Alguma coisa conhecida como globalização, aparece como a besta, precursora do terceiro milênio. Ela é feita de armas imponderáveis, contra as quais ainda não sabemos como lutar. É alguma coisa que transporta riquezas da noite para o dia, de um país para outro país, assombrando a todos. Essa riqueza não tem forma, nem substância: é uma riqueza inventada, virtual como a besta, só tem valor e poder, o que é quase tudo nesse mundo. E é disso que ela se alimenta. Contra essa besta teríamos que inventar outro teatro, criar uma nova dramaturgia, inventar um novo Brecht. Ou não. Tá tudo alí no velho Bert. As estruturas do poder são velhas, como o próprio mundo. As estruturas do capitalismo, do neo liberalismo, dos fascismos todos, são sempre as mesmas. Basta ter olhos pra ver.
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É preciso restaurar a força da poesia, isso sim. Não nos deixar abater. Que sangue de poeta também é poder. É preciso afirmar a nossa identidade. É preciso dizer: somos esses e assim. E me deixe. E montar na besta e extrair o que nela há que é nossa força sugada. E retomar. E extrair o que é ensinamento e espalhar para o mundo. Ensinar às crianças e aos que virão, que não vivemos em tempos sombrios como aqueles em que viveu o nosso velho Bertolt Brecht. Mas mais terríveis. Parece que não temos mais como lutar. Mas que, por isso mesmo, mais que nunca é preciso. Precisamos lutar contra as pequenas coisas. Coisas insignificantes como um racismo que não existe no Brasil (assim nos é ensinado), como a impunidade para políticos que nos roubam e se candidatam na próxima eleição, como a exploração da miséria por pastores missionários. Precisamos lutar contra todas essas pequenas coisas assombrosas que fazem do homem inimigo do homem. Enquanto aprendemos a lutar contra o mal maior, que é feito de todos esse pequenos males. Enquanto aprendemos a lutar nessa guerra sem inimigos em que fomos lançados nesse final de milênio. Por isso essa Ópera outra vez. Dessa vez fazemos a Ópera do jeito que nós somos, com nosso ritmo e tamanho. Por isso fazer teatro, por isso um repertório, por isso o Bando. Porque somos pequenos mas não somos pedaço. Somos inteiros e inteiramente contra o dragão. Sai pra lá bicho feio!
Salvador, 31 de agosto de 1998 (dia em que a estreia mundial da Die Dreigroschenoper comemora 70 anos)
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TEATRO VILA VELHA - ANO CINCO Texto escrito para a reabertura do Teatro Vila Velha, em maio de 1998, depois de uma reforma que o tornou um teatro contemporâneo, com várias possibilidades cênicas. A reconstrução do teatro se deu depois de várias ações desenvolvidas pelo Projeto Novo Vila, que incluía muitos artistas e grupos e teve início em novembro de 1994. O VILA DEVOLVIDO O Teatro Vila Velha sempre foi um sonho coletivo. Continua sendo, mas no dia 5 de maio vai ser entregue de volta ao mundo real. Agora com a capacidade de abrigar em seu espaço físico, um projeto cultural que vem sendo desenvolvido desde a sua criação. Em 1959, liderados por João Augusto Azevedo, professor de dramaturgia, seis alunos da primeira turma da recém criada Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, planejavam criar uma companhia, tão logo se formassem. Um atrito com o diretor da Escola, precipitou as coisas e fez com que o grupo abandonasse o curso, alguns meses antes da formatura. Criaram então o primeiro grupo profissional de teatro da Bahia: a Companhia Teatro dos Novos. . Como em Salvador não existiam outros teatros, além do Santo Antônio (da Escola de Teatro), os Novos decidiram criar o seu próprio. E durante quatro anos lutaram por isso. Finalmente, em pleno 1964, inauguram o Teatro Vila Velha. Um dos shows da temporada de inauguração marcou a história da cultura brasileira: com Gal Costa, Tomzé, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e outros, o show Nós por Exemplo plantou a semente da Tropicália no Brasil. Daí para cá o Teatro Vila Velha se manteve como um marco, uma referência da cultura baiana: mexendo nos baús desse Brasil e tirando deles o novo, o vivo, o arrojado, onde estivessem - no Cordel, nas tradições afro brasileiras, no desvario urbano de uma cidade que crescia pós implantação da Petrobrás e criação do Polo Petroquímico, na roça, no coração de um Brasil que sofria com a repressão de uma ditadura militar.
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O Vila Velha foi principalmente um local de resistência, criando um teatro político, burlando a censura, servindo de local para a reestruturação do Diretório Central dos Estudantes e criação do CUCA (Centro Universitário de Cultura e Arte) - organismos decisivos para a comunidade universitária que discordava do regime. Depois e durante, o Vila foi também palco para a geração do desbunde, com seus Improvisos onde todos podiam se expressar. Foi berço também dos Novos Baianos. Foi onde Fa-tal de Gal aportou na Bahia e muitos shows de Caetano, Gil, Cor do Som, Mautner e tantos e tontos outros. Com a morte de João Augusto, seu projeto cultural e político ficou à deriva. Seus criadores, os Novos, dispersos há muito tempo, mantinham o teatro, mas não o projeto. Então, em 1994, novos Novos entraram na história - entramos - ngela Andrade e eu, que sempre nos sentimos herdeiros culturais de João e sua turma, entramos na sociedade com a meta de restaurar o projeto original do teatro. Durante esses quatro anos que estamos juntos, Teatro Vila Velha e nós, uma multidão de artistas, consagrados e emergentes, têm se juntado em torno das ideias que geraram essa usina cultural e feito o Vila reviver. Agora, com recursos do Ministério da Cultura, da Secretaria de Cultura do Governo do Estado, da Petrobrás e da Eletrobrás, o Velho Vila volta à cena, novo e único: um teatro de muita gente e de muitas possibilidades. E de uma concretude que só os sonhos costumam ter.
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O QUE O SR. BERTOLT TEM A VER COMIGO Leituras dramáticas Concepção e direção: Marcio Meirelles Textos: Bertolt Brecht Apoio: Instituto Goethe/Salvador TAMBORES DA NOITE 09 e 10/03/98 A EXCESSÃO E A REGRA Participação: Amir Hadad Elenco: Carlos Petrovich, Chica Carelli, Gustavo Melo, Lázaro Ramos, Neyde Moura, Ruy Manthur, Wagner Moura e outros 06 e 07/04/98 Realização: Teatro Vila Velha Teatro Vila Velha (SSA – Ba) 200 E POUCOS MEGABYTES DE MEMÓRIA Dança Viladança Cenário e figurino: Marcio Meirelles Coreografia: Cristina Castro Assistente de coreografia: Antrifo Snaches Música: Bach e Doudou Ndiaye Rose Iluminação: Jorginho de Carvalho/Valmyr Ferreira Elenco: Ágatha Oliveira, Antrifo Sanches, Eduardo Pinheiro, Ísis Carla, Izabel Ferreira, Gil Alves, Líria Moraes, Roberto Montenegro, Sérgio Dias e Sílvia Costa Estréia: 28/05/98 Teatro Vila Velha
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200 E POUCOS MEGABYTES DE MEMÓRIA Inaugura-se a dança no Teatro Vila Velha. Inaugura-se em festa. Com uma celebração da vida, do mistério de estar vivo e renascer a cada dia. Cristina Castro era a pessoa certa para essa tarefa árdua. Essa tarefa de lutar contra gigantes par fazer valer a beleza. Pra mostrar ao mundo que a vida é movimento e, em movimento, mostra-se irremediavelmente bela porque logo é, logo não é mais e então de novo. Cristina desenvolve essa linguagem própria dos poetas que percebem no que está mais próximo, o inusitado, o que espanta por ter estado tanto tempo ali oculto. Na dança de rua, mal comportada, está a chave para abrir a porta de um mundo novo. Mas a esse molejo da Bahia ela acrescenta uma disciplina férrea e doce. Ao tradicional, ao que vem das rodas ancestrais, dos círculos mágicos dos antigos, ela sopra o mistério do nunca visto. E o Viladança se fez carne e habitou entre nós. Ainda bem. Esse grupo de dançarinos, qjue an tes de tudo se reconhecem como cidadãos, sabe que seus gestos e seus corpos não servem só ao seu prazer de ser e estar. Mas que ser e estar são uma grande responsabilidade. E que um gesto não se constrói impunemente. Um gesto gera um mundo e mostrar que é possível fazê-lo dançar em harmonia é a obrigação de todo artista. Esse grupo de dançarinos exercita seus corpos em várias técnicas, mas também sua voz, para cantar, toca percussão,
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anda em perna de pau, calça botas de sete léguas, cutuca cobra com vara curta, sobe e desce, deita e rola. São dançarinos baianos, falando de sua terra para o mundo. São dançarinos como os deuses são. São dançarinos como anjos endiabrados botando azeite pra ferver e mandar ver. Vê-los portanto é nossa obrigação. Vê-los sagrar a vida cavaleira andante. Vê-los sacralizar o mundo, torná-lo viável, crível, palpável. Esse, que eles mostram com movimentos, é o mundo real. Esses dançarinos e sua coreógrafa dança aqui hoje e sempre, desde que o mundo é mundo e enquanto for. e com eles o Vila dança. Salvador, 18 de novembro de 1998
SAGRAÇÃO DA VIDA TODA dança Viladança Concepção, direção e coreografia: Cristina Castro Assistente de coreografia: Antrifo Sanches Música: Arnaldo Antunnes, Ivan Bastos, Lívio Tractemberg, Lourimbau, Mickey Hart e Rui Junior Figurino: Cristina Castro e Marcio Meirelles Iluminação: Henrique Santos Produção: Viladança, Gordo Neto, Marília Maciel e Teatro Vila Velha Realização: Viladança/Teatro Vila Velha Elenco: Ágatha Oliveira, Antrifo Sanches, Eduardo Pinheiro, Ísis Carla, Izabel Ferreira, Gil Alves, Líria Moraes, Roberto Montenegro, Sérgio Dias e Sílvia Costa Estreia: 26/11/98 Teatro Vila Velha
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A PRIMEIRA VEZ QUE A VI DANÇAR... A primeira vez que vi Cristina Castro dançar foi há muito tempo. Eu fazia o figurino para um espetáculo de Lia Robato e ela era uma das meninas do elenco. Dançava muito bem. Muitos anos se passaram e continuei vendo-a em várias outras coreografias, no Balé do Teatro Castro Alves. Em algumas com roupas que fiz e a vestiram. Depois passou-se muito tempo sem que a visse, tarefas, impossibilidades, mudanças de trajetórias. Então, um dia, uma noite, na inauguração da Sala do Coro, eu a vi dançar e acho que foi a primeira vez que ví seus olhos enquanto dançava. Eu não tinha feito as roupas que a vestiam e o que eu queria mesmo era despi-la. Como se fosse necessário. Ela já estava toda nua, toda entregue à sua dança, à sua maturidade como artista. E a dançarina fez com que eu me apaixonasse pela mulher. Depois vi sua coreografia A Cor Do. E colaborei com ela no trabalho que, para mim, marca um novo rumo em sua carreira: 200 e Poucos Mega Bytes de Memória. Vesti dançarinos e palco para que a artista madura mostrasse sua visão de mundo, sua declaração de amor à diversidade de culturas, de personas... Mas, na verdade, o figurino já estava pronto quando assisti pela primeira vez ao ensaio: os dançarinos, os gestos, o movimento já mostravam claramente as roupas que viriam depois. Foi só desenhar e executar o que me era mostrado. Desde então vinha atormentando-a para que assumisse a dura tarefa de estruturar um grupo seu, sediado no Teatro Vila Velha, com o qual pudesse experimentar sua linguagem
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coreográfica e brindar o mundo com poesia, que é disso que o mundo precisa. E, felizmente, neste ano da Graça de 1998, assumindo todo o desgaste que é a administração e a captação de recursos para que um projeto como esse vá em frente, ela topou a tarefa de criar um grupo. Para esse mister, usou o material mais raro, e dele fez o Viladança: de poesia. Uma poesia que vem da rua, do dia a dia, do deboche e da alegria, e também do pensamento, do sentido de mágico, da sensibilidade que consegue sincronizar o novo com o tradicional, estabelecendo um diálogo interessantíssimo sobre o que somos: cidadãos de qualquer parte do mundo, mais especificamente uma parte do mundo que se chama Bahia. Salvador, 2 de novembro de 1998
REVILAVOLTA Performance/rock Roteiro e direção: Marcio Meirelles Produção: Celso Carvalho Apresentação: 16/12/98 Teatro Vila Velha (SSA – Ba)
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TEATRO DOS NOVOS - ANO QUATRO UM TAL DE DOM QUIXOTE Bando de Teatro Olodum / Companhia Teatro dos Novos Texto (com Cleise Mendes e a colaboração do Bando de Teatro Olodum e da Companhia. Teatro dos Novos a partir do original de Cervantes), direção e figurino: Marcio Meirelles Co-direção: Chica Carelli Coreografia: Cristina Castro Iluminação: Jorginho de Carvalho Músicas: Jarbas Bittencourt, Jarbas Bittencourt/Cleise Mendes, Jarbas Bittencourt/ Marcio Meirelles e Tom Zé Direção musical: Jarbas Bittencourt Cenário, objetos e Rocinante: Carl von Hauenschild Direção de Produção: Sibele Américo Elenco: Companhia Teatro dos Novos: Carlos Petrovich (Dom Quixote), Cristina Castro (Dulcinéia), Sônia Robatto; ngela Andrade, Chica Carelli, Débora Landim, Marísia Motta, Sandra Coelho, Tereza Araújo e Hebe Alves (Narradoras); Gil Onawale (substituída por Rejane Maia), Kita Veloso e Neide Moura (Amas); Adelmo Pelágio, Agrimar de Oliveira, Anita Bueno, Augusto Juncal, Carlos Costa, Carmem Moreira, Clarissa Gayão, Fabiana Coelho, Fernanda Fachinetti, Gordo Neto, Iara Colina, Júlia Cordeiro, Karina de Faria, Lucas Valadares, Manthur, Olívia Borges, Marinho Gonçalves, Marta Leão, Ricardo Fagundes, sara Victoria, Sergio Oliveira, Uirá Iracema, Viviane Laert, Vianna Neto, Zeca Chaves (coro); Bando de Teatro Olodum: Lázaro Ramos (Sancho Pança) e Agnaldo Buiu, Auristela Sá, Cristóvão da Silva, Cássia Valle, Ednaldo Muniz, Gerimias Mendes, Jorge Washington, Lázaro Machado, Luis Fernando Araújo, Merry Batista, Melquesalem Sacramento, Tânia Toko, Valdinéa Soriano (coro). Músicos: Saulo Gama (piano), Jason Bittencourt (violão e guitarra) e Karina Seixas (violoncelo) Patrocínio: COPENE – Petroquímica do Nordeste, Coelba e Governo do Estado, através do Fazcultura.
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Realização: Teatro Vila Velha Estréia: 05/05/98 a 16/08/98 Teatro Vila Velha (SSA – Ba) Prêmio Copene de Teatro – Ano VII (1998/99) DIREÇÃO Indicação para o Prêmio Copene de Teatro – Ano VII (1998/99) ESPETÁCULO DESTAQUE: Jarbas Bittencourt (trilha sonora)
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OUTROS TRABALHOS EM 1998 OS INGÊNUOS Show Projeto Petrobrás de Música Direção: Marcio Meirelles Direção musical: Edson Santos Iluminação: Irma Vidal Produção executiva: Mariângela Nogueira Realização: Caderno 2 Produções Músicos: Avelino Santos (violão de 6 cordas e harmonizador), Carlos Cruz (Pandeiro), Edson Santos (violão de 7 cordas), Elena Rodrigues (flauta), Ivan Souza (Bandolin) Jailson Coelho (violão de 6 cordas) Ubiratan Sacramento (Cavaquinho) Participação: Altamiro Carrilho Apresentações: 15 a 18/10/98 Teatro da Casa do Comércio – SSA EDIL PACHECO e ELZA SOARES Show Projeto Petrobrás de Música Direção: Marcio Meirelles Realização: Caderno 2 Produções Apresentações: 12 a 15/11/98 Teatro da Casa do Comércio – SSA 17/11/98 Teatro Municipal de Ilhéus NOITE NA TAVERNA Teatro Companhia de Teatro Elétrico da Bahia Texto: Claudius Portugal Direção: Solange Miguel Assistente de direção: Vadinha Moura
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Orientação de movimento/coreografia: Ana Paula Bouzas Cenário e figurino: Marcio Meirelles Iluminação: Paulo Davi Desenho de som: André T. Execução do cenário: Maurício Pedrosa Execução do figurino: Dora Moreira Produção: Valdir Archanjo/Paula Hazin Realização: Companhia Teatro Elétrico da Bahia Coordenação: Fernando Guerreiro Elenco: Cristiane Mendonça, Agnaldo Lopes e Marcelo Praddo Estréia: 06/11/98 Café Teatro Zélia Gattai (Fundação Casa de Jorge Amado) TEATRO BRASILEIRO 1968-1998: 30 ENCONTROS Mesa: Teatro e Militância Coordenação da mesa: Maria Lúcia Pupo Palestrantes: Amauri Falseti, Celso Frateschi e Marcio Meirelles Organização: Abílio Tavares, Maria Thaís Lima Santos e Sílvia Fernandes Coordenação da série: Sílvia Fernandes Direção geral do projeto: Abílio Tavares Realização: TUSP (Teatro da Universidade de São Paulo) 17/06/98 TUSP – Centro Universitário Maria Antônia (São Paulo – SP) 18° FESTIVAL NACIONAL DE TEATRO DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO Comissão de premiação da mostra competitiva de teatro para adultos: Gianni Ratto, Lúcia Cerrone e Marcio Meirelles Presidente do festival: Humberto Sinibaldi Neto 22/07 a 03/08/98 São José do Rio Preto – SP
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SEIS PERGUNTAS SOBRE BRECHT Simpósio internacional Dia 26 – Qual a Importância de Brecht na América Latina e, em especial, no Brasil? Participantes: Ramon Griffero (Chile), Rodolfo Obregon (México) e Fernando Peixoto (Brasil) Moderador: Luiz Fernando Lobo – Há “novos” caminhos para o “antigop” Brecht e que tipo de público ele ainda pode atingir hoje? Participantes: Gerd Bornheim (Brasil), Antony Tatlow (Irlanda) e Robert Cohen (USA) Moderador: Marc Silberman (USA) Dia 27 – Qual a relação de Brecht com o chamado Segundo Mundo e qual a relação da crise do realismo social com as posições de Brecht? Participantes: Leandro Konder (Brasil), Volker Braun (Alemanha) e Reinaldo Montero (Cuba) Moderador: Fernando Peixoto (Brasil A – Quando a “excessão” vira “regra” ou como posicionar na atualidade teatral o “estranhamento brechtiano”? Participantes: Luiz Fernando Lobo (Brasil), Alexander Stillmark (Alemanha) e John Willet (Inglaterra) Moderador: Gerd Bornheim (Brasil) Dia 28 – É ainda imaginável um “pensamento interventor” no sentido Brechtiano? Participantes: Marcio Meirelles (Brasil), Marc Silberman (USA) e Augusto Boal (Brasil) Moderador: Alexander Stillmark (Alemanha) – Pode-se ainda hoje imaginar um artista que trabalha numa perspectiva politicamente progressista? Participantes: Osvaldo Dragún (Argentina), Peter Palitzsch (Alemanha) e Moacyr Góes (Brasil) Moderador: Reinaldo Montero (Cuba) Realização: International Brecht Society e Instituto Goethe 26 a 28/08/98 Centro Cultural Banco do Brasil (Rio de Janeiro / RJ)
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TEATRO DE BERTOLT BRECHT – EXPERIÊNCIA E PRÁTICA no projeto: BERTOLT BRECHT – 100 ANOS DE PRESENÇA Conferência Conferencista: Marcio Meirelles Realização: Grupo Teatral Mambembe 13/08/98 CULTART – Centro de Cultura e Arte da UFS (Aracaju – SE) ENCONTRO DE ESCOLAS DE TEATRO BRASIL/PORTUGAL Participante Realização: Cenalusófona e Escola de Teatro e Cinema de Amadora 20 a 22/11/98 Lisboa e Amadora (Portugal)
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II ENCONTRO DE COMUNICAÇÃO DA BAHIA – COM!BAHIA PALESTRANTE Dia 1° Mesa: Marketing cultural Participantes: Albino Rubim (Facom), José Cerqueira (Copene), Maurício Magalhães (TV Bahia), Milton Carvalho (Acto) e Márcio Polidoro (Fundação Odebrecht) Mesa: O global e o local Participantes: Muniz Sodré (UFRJ), José Luiz Aldar (PUC – SP), Simone Sá (UFF) e Paulo Miguez (Unifacs) Dia 2 Mesa: Economia da cultura Participantes: João Jorge (Olodum), Wesley Rangel (WR Discos), Roberto Sant’Anna (Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia) e Miguel Kjertzman (vereador) Mesa: Políticas culturais Participantes: Javier Alfaya (vereador), Jorge Cunha Lima (TV Cultura), Roberto Farias (TV Globo) Raquel Paiva (UFRJ) e Cláudio Taboada (FazCultura) Dia 3 Mesa: Como se faz cultura na Bahia Participantes: Licia Fábio, Marcio Meirelles, Maria Prado e Vovô (Ilê Ayê) Mesa: Bahia no Mundo: Antônioo Risério (escritor, Ruy Espinheira (escritor) e Cid Teixeira (historiador) Coordenadores do evento: Agnes Mariano e Cláudio Cardoso Realização: FACOM (Faculdade de Comunicação) / UFBA 1° a 03/12/98 FACOM (SSA)
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GOVERNANTES 67o prefeito: Antônio Imbassahy . Partido da Frente Liberal (pfl) 1997 a 2000 46o governador: Paulo Souto . Partido da Frente Liberal (pfl) 1995 a 1999 47o governador: César Borges . Partido da Frente Liberal (pfl) 1999 a 2002 34o presidente: Fernando Henrique Cardoso . Partido da Social Democracia Brasileira (psdb) 1995 a 2003
Central do Brasil, filme dirigido por Walter Salles, venceu o Globo de Ouro, na categoria de melhor filme estrangeiro. Um blecaute atingiu dez estados das regiões Sul, Sudeste e CentroOeste e o Distrito Federal.
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BANDO DE TEATRO OLODUM - ANO NOVE O ESPETÁCULO MAIS DIFÍCIL Acho que esse foi o espetáculo mais difícil que já fiz em minha vida. O convite do Detran para encenar uma peça que servisse ao seu programa de Educação no Trânsito foi um desafio. E ao mesmo tempo uma tentação. Primeiro achei extremamente corajoso que um órgão ligado à Secretaria de Segurança Pública, propusesse o teatro como forma de transformação do comportamento do brasileiro. Corajoso porque o teatro é uma linguagem tradicionalmente revolucionária. Mexe com regiões da mente, grava imagens na memória, provoca a emoção com questionamentos, toca a afetividade e a rejeição, bole com nossos fantasmas e não deixa que a gente saia da sala de espetáculos da mesma maneira que entrou. O teatro não é uma linguagem que entre por um ouvido e saia pelo outro, o teatro deixa marcas. E essas marcas podem produzir reflexões que promovam mudanças. Depois, o fato do Detran querer falar através do teatro, convidar a mim, Marcio Meirelles, para ser o diretor desse espetáculo e aceitar que um grupo como o Bando de Teatro Olodum, com sua história e sua atuação fosse o elenco/parceiro deste diretor, me dava claros indícios de que era pra valer. Eles não estavam querendo promoção de mídia. Estavam propondo uma mudança mesmo. Então, a batalha. Foi muito difícil me debruçar da janela do palco sobre o comportamento do povo brasileiro, do ponto de vista do trânsito, e produzir um reflexo. Como fazer? O material era vastíssimo. Eram muitas as situações, muitas as coisas para se falar. Era inevitável a comparação e o confronto entre o jeito de se comportar no trânsito e o modo de viver
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do brasileiro. Entre os problemas do trânsito e os problemas cotidianos, sociais, políticos, éticos e financeiros do nosso povo. Era possível falar de tudo isso num espetáculo assinado por nós e por um órgão do Estado, ligado à Secretaria de Segurança Pública? Foi possível. O Detran foi sincero e correto. Assumindo as mazelas da estrutura também, propõe uma revisão de tudo. Não coloca o dedo em nossa cara e diz “vocês são os culpados”. Diz conosco, através dos atores do Bando: a situação está assim. Vamos fazer juntos alguma coisa? Chegar a isso foi o mais difícil. Claro que eu contava com o Bando de Teatro Olodum. Isso era uma grande arma. Isso tornou a empreitada possível. O Bando talvez seja o único grupo com o qual eu poderia ter construído esse espetáculo. Porque seus atores têm um compromisso. Esta é a diferença: ter pessoas comprometidas com o que fazem, que sabem por quê e pra quê fazem: por quê estão em cima do palco (Eu os chamaria de atores cidadãos se a palavra cidadão já não estivesse gasta de tanto que tem sido evocada ultimamente em situações várias. A força das palavras se perde quando ela é usada constantemente. Por isso o primeiro dos dez mandamentos inclui o artigo: não tomar seu santo nome – de Deus – em vão). Além disso, o Bando tem a capacidade de criar personagens vivos, porque estes vêm das ruas, não da literatura. Personagens que sobem ao palco, graças à observação aguçada e crítica dos atores, que os elegem para, através deles, dizer o que se faz necessário. E era preciso, nesse espetáculo, mais do que em qualquer outro, que nos envolvêssemos com o ser humano, semente de cada personagem, para valorizar a vida de cada um, de cada indivíduo. Porque é a vida que conta. Os personagens foram a matéria-prima. Construímos os
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protagonistas desse jogo intricado e violento que tem sido o trânsito brasileiro. E através deles sondamos os motivos pelos quais as coisas se tornam assim. Porque um motorista de ônibus, e os motoristas de taxi, e os assassinos juvenis sobre duas ou quatro rodas, formatados pelos pais e por uma educação classista que privilegia valores questionáveis, dirigem do jeito que dirigem e se comportam como se comportam, era o que queríamos mostrar. Não como um tratado de sociologia ou psicologia, mas com a profundidade que é inerente à cena, a profundidade do humor e da diversão. O poder corrosivo do espelho. O trânsito pra nós se tornou um grande espelho que nos mostra a cara do Brasil. E é atrás desta cara que estamos. É ela que perseguimos em cada espetáculo, em cada ação, em cada gesto, em cada fala, em cada, em cada, em cada... esse é o nosso compromisso. Mostrar a cara do Brasil para que tomemos vergonha na cara. Através do trânsito podemos constatar que a falta de educação, a intolerância, o preconceito, a corrupção e a impunidade que geram pobreza econômica e de espírito, que geram a miséria moral na qual afundamos, a violência descabida, o desamor à própria vida. Que provoca em nós esta perplexidade quando abrimos o jornal todos os dias e vemos os homens em que deveríamos confiar, porque decidem os rumos do país, envolvidos em escândalos financeiros, em tráfico de drogas, em crime organizado. Estamos então entregues à barbárie. Por que no trânsito seria diferente? Neste caso, é preciso mudar o Brasil para mudarmos o trânsito. Sim, de certa forma sim. Mas se começarmos por mudar o trânsito, começamos a mudar o Brasil.
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Por isso aceitamos a proposta do Detran para fazer este espetáculo, por tudo que já foi dito e pelo fato de o Detran aceitar que o espetáculo não oferecesse uma solução final, mas expusesse esses fragmentos de nosso comportamento diário para que então, talvez, possamos, nós público, muitas vezes passivo e conivente com esse comportamento, dizer: “peraí”. E, no que dizemos “peraí’’ e paramos para pensar, existe já a esperança de que tudo possa ser mudado. A solução não está explicita na peça, mas está contida no próprio espetáculo, no fato de Detran, teatro, atores, músicos, público, estarem juntos tentando. A solução talvez seja essa: estarmos juntos e mudarmos individualmente. Salvador, 11 de novembro de 1999. Marcio Meirelles
P.S. - Agora o espetáculo está aí. Pronto. Mas inventamos a possibilidade de ele se reproduzir. Como foi muito difícil estruturar seu roteiro, o que conteria e o que ficaria de fora, pusemos neste programa roteiro e texto para que possam ser refeitos. A partir de uma base fica mais fácil. Não será preciso que se quebre tanto a cabeça para colocar os alicerces. Já Fui! é dirigido a escolas, instituições, empresas, então ele pode ser clonado por grupos de teatro que eventualmente se formem nestes organismos ou que já existam e queiram discutir esses problemas. Ele pode ser feito a partir do seu texto, ou um novo texto pode ser criado a partir dos protagonistas ou dos núcleos de personagens e problemas: o universo dos ônibus, dos taxistas, dos policiais de trânsito, e por aí vai. Também as músicas estão num CD, com a letra original e só com o instrumental que pode ser usado como acompanhamento para que os novos atores cantem as letras como são, ou que se inventem novas letras.
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JÁ FUI Bando de Teatro Olodum Texto (com Bando de Teatro Olodum), direção, cenário (com Euro Pires) e figurino: Marcio Meirelles Assistência de Direção: André Mustafá Coreografia: Zebrinha Música: Jarbas Bittencourt Iluminação: Rivaldo Rio Realização: Teatro Vila Velha / Programa de Educação para o Trânsito do Edutran – Detran BA Elenco: Agnaldo Buiú, Arlete Dias, Auristela Sá, Cássia Valle, Ednaldo Muniz, Érico Brás, Gerimias Mendes, Jorge Washington, Lázaro Machado, Lázaro Ramos, Leno Sacramento, Luís Fernando Araújo, Merry Batista, Rejane Maia e Valdinéia Soriano. Estagiários: França, Valdinei, Vanderson e Vinício Nascimento. Substituições: Bira Santana, Edgar Sacramento, Fábio Santana, Gal Quaresma, Maílson Nascimento, Nelson Filho, S. L. Laurentino e Vinício Nascimento . Músicos convidados: A Banda do Sonho (Dennis Leoni / guitarra, Gilmário Celso / baixo, Jarbas Bittencourt / teclado e voz, Jason Bittencourt / guitarra e Leonardo Bittencourt / bateria Estreia: 11/11/99 Teatro Vila Velha – SSA – Ba Apresentações: 20/03/00 – Porto Seguro – BA 13/08/00 – Jacobina – BA 10/09 a 28/11/01 – Teatro Vila Velha – SSA 16/07 a 21/08/02 – Teatro Vila Velha – SSA 24/09/02 – Centro Cultural Amélia Amorim – Feira de Santana / Ba 14/10/02 – Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima – Vitória da Conquista / Ba 17/10/ 02 – Centro de Cultura Olívia Barradas – Valença / Ba 21/10/02 – Centro de Cultura Adonias Filho – Itabuna / Ba 18/11/ 02 – Centro de Cultura Ceciliano de Carvalho – Senhor do Bonfim / Ba 19/11/02 – Centro de Cultura João Gilberto – Juazeiro / Ba
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TEATRO VILA VELHA - ANO CINCO PRÊMIO COPENE DE TEATRO – ANO VII (1998/99) Homenagem especial pelo trabalho com o Bando de Teatro Olodum e pela reconstrução do Teatro Vila Velha Produção: Caderno 2 Realização: Copene – Petroquímica do Nordeste Apresentação: 14/04/99 Teatro Castro Alves AUTO DE SÃO LOURENÇO Leitura Vilalê Texto: José de Anchieta Direção: Marcio Meirelles Elenco: Wagner Moura, Neyde Moura, Augusto Juncal, Ricardo Fagundes, Vidoto Áquila, Marcelo Flores, Eduardo Albuquerque, Lucas Valadares e Tom Carneiro. Participação: Integrantes da Organização Multicultural Indígena do Nordeste Águia Dourada (Lauro de Freitas) Apresentação: 01/06/99 Teatro Vila Velha MÉNAGE Á TROIS Performance Concepção, roteiro, direção e atuação (canções e leitura de poemas): Marcio Meirelles Apresentações: xx/xx a 29/10/99 Cabaré dos Novos – Teatro Vila Velha
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MENAGE À TROIS Os gregos acreditavam que no princípio era o caos, onde todas as possibilidades coexistiam sem se concretizar. Um dia o deus Eros organizou o caos e todas as coisas, como conhecemos, surgiram concretas dali. Esse deus então, legou a todas as coisas o seu próprio poder: o poder de juntar ligar fecundar organizar agrupar de se perpetuar, vencendo a morte e impedindo que o caos primordial retorne e que a vida seja só uma possibilidade entre muitos milhares de outras possibilidades. Nós, homens, como somos uma dessas muitas coisas a quem Eros concedeu seu poder, engendramos o erotismo para contrapor à ideia da morte, a reinvenção diária e gloriosa de recriar o prazer, experimentado pelo deus, de criar. Nós, que fazemos teatro, temos esse poder e dever. O de refazer vidas, reagrupar o caos e unir. Esta noite, aqui no vila, vamos juntar cenas, poemas, canções, pelo simples prazer de lhes entreter. 1999 ANIVERSÁRIO DE REINAUGURAÇÃO DO TEATRO VILA VELHA Show Direção geral: Marcio Meirelles Participação: Confraria da Bazófia, Lampirônicos, Issucatasom, Balé Folclórico da Bahia. Apresentação: 05/05/99 Teatro Vila Velha
PROJETO TOMALADACÁ Projeto de intercâmbio entre grupos do subúrbio e os grupos residentes do Teatro Vila Velha
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Supervisão do projeto: Chica Carelli e Marcio Meirelles Coordenação: Gustavo Mello, Iara Colina, Karina de Faria e Vinício Oliveira de Oliveira (1999 a 2000) Inácio D’Eus e Vinício Oliveira de Oliveira Responsável técnico: Robson Fuezi (1999 a 2000) Assessoria de dança e movimento: Isis Carla (1999 a 2000) Realização: Teatro Vila Velha A partir de 1999 Teatro Vila Velha WORKSHOP DE DIREÇÃO Tomaladacá Oficineiro Participantes: grupos amadores XX a 05/99 Teatro Vila Velha PEÇA CORAÇÃO Teatro Resultado do Workshop de Direção do Tomaladacá Coordenação geral Texto: Heiner Müller Grupos amadores Apresentação: 31/05/99 Teatro Vila Velha JOÃO AUGUSTO E A CONSTRUÇÃO DO VILA VELHA Palestra Palestrante Programa Brasil – 500 anos – Encontros na Bahia Promoção: Conselho de Cultura do Estado da Bahia Patrocínio: Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia 14/09/99 Museu de Arte da Bahia (SSA – Ba)
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TEATRO DOS NOVOS - ANO CINCO SONHO EM CONSTRUÇÃO. CUIDADO. O Teatro é uma coisa estranha. Não é uma linguagem que resulte num produto que se possa dizer: está pronto. É sempre um processo. E o verdadeiro autor do acontecimento teatral é o ator, é ele que provoca e vive esse processo diariamente. A arte do ator é uma arte de tecelão, arte de desvendar, unir, separar, provocar desejos. Ele pega os fios urdidos pelo dramaturgo entrelaça em seu próprio corpo, tear mágico, com outros, de outras cores e texturas, que as vezes ele tem de adivinhar, fiados pelo encenador. São-lhe entregues também músicas, sons e movimentos que compositor e coreógrafo vão produzindo ou sugerindo. As vezes esses fios se enredam em roupas difíceis de entrar na trama e em cenários inesperados que transformam o que era plano em escadas e o que era liberdade de gestos em dificuldades de espartilhos e gravatas. E segue o ator seu destino de Penélope a tecer e destecer, porque as coisas mudam de um dia para o outro. Hoje era assim, amanhã o outro ator descobriu novos fios que alteram a trama; o diretor não gostou do tom, da cor, e tudo tem que ser refeito, com os mesmos fios, ou outros recém fabricados sabe-se lá por quê caprichos de Dionísius. Podemos imaginar também o ator como um operário que levanta muros sólidos e transparentes que só duram o tempo de serem levantados. Ao contrário dos outros que são feitos para sobreviver ao seu autor, acabado o espetáculo, desaparecem. São feitos para uma finalidade dupla e contraditória: conter idéias e libertar fantasia e razão. Aí podemos ver o ator/pedreiro tentando fazer uma massa que tenha a consistência necessária para manter as pedras ligadas, obrigando pedra e massa a se entenderem e juntas fazerem um todo coerente que não desmorone. E os ingredientes
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e ferramentas para essa construção vem de tantas origens diferentes, passam por tantas aventuras cada um... Cabe ao ator dar unidade a tudo e erguer o muro aos nossos olhos. Esta tarefa, tão delicada e preciosa, é também estafante e cruel. O ator, senhor absoluto do palco, é seu escravo. Somente por sua arte o teatro ganha concretude, e se torna visível. O próprio ator é, ao mesmo tempo, autor, instrumento e objeto exposto. É tecido e tecelão, muro e pedreiro. Ele tem que estar presente para o teatro existir. E, ao contrário do que se possa imaginar, esse tecido e esse muro não estão prontos e são mostrados - são refeitos a cada dia, ou o que se está vendo não é teatro, ou pelo menos não um teatro vivo, bom. É, se muito for, um teatro em decomposição. Isso porque o público também fia e fornece novos e insuspeitados fios a cada dia, com sua simples presença nas sombras da platéia. Aparentemente passivo, o público é um animal feroz, uma fera móvel, fluida, mutante que a cada dia mostra os dentes afiados. Esfinge, olha o ator no palco e silenciosamente grita com voz nova a cada dia: “decifra-me ou devoro-te. Seduzame ou não volto para continuar este jogo”. E a ciência para desvendar o segredo da esfinge está em saber usar os fios que ela segura em suas garras e tecer a cada dia novos espelhos, onde ela se reflita. A Medusa só é vencida quando se faz com que ela veja a própria imagem.
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SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO Companhia Teatro dos Novos / Bando de Teatro Olodum Texto: William Shakespeare Tradução: Bárbara Heliodora Direção, figurinos e cenário (com Euro Pires): Marcio Meirelles Coreografia: Cristina Castro Música: Jarbas Bittencourt Iluminação: Valmyr Ferreira Elenço: Bando de Teatro Olodum – Agnaldo Buiú (Bicudo / Muro), Arlete Dias (Hérmia), Ednaldo Muniz (parte de Oberon), Jorge Washington (Bobina / Píramo), Lázaro Machado (Egeu), Lázaro Ramos (Puck) e Leno Sacramento (Flauta / Tisbe) Companhia Teatro dos Novos – Adelmo Pelágio (Demétrio), Ana Paula Divinal (Helena), Anita Bueno (Hipólita), Antônio Soares (Justinho / Leão), Chica Carelli (Titânia), Eduardo Pinheiro (parte de Oberon), Fabiana Coelho (fada), Franklin Albuquerque (parte de Puck), Gal Quaresma (fada), Gordo Neto (Lisandro), Gustavo Melo (Oberon), Iara Colina (Helena), Jansen Nascimento (fada), Jaciara Dias (fada), Karina de Faria (fada), Kita Veloso (fada), Roberto Brito (Teseu), Rui Manthur (Quina), Sara Victoria (Hipólita), Thaís Villar (Hipólita), Vinício Nascimento (Fominha / Lua), Vinício de Oliveira (parte de Puck) e Xanda Xuva (fada) A Banda do Sonho: Dennis Leoni (guitarra), Gilmário Celso (baixo), Jarbas Bittencourt (teclado e voz), Jason Bittencourt (guitarra) e Leonardo Bittencourt (bateria) Substituição: Fernando Fulco (Teseu). Estreia: 20/03/99 Festival de Teatro de Curitiba / Teatro Guaira – Curitiba/PR Apresentações: 20/03 a 21/03/99 – Festival de Teatro de Curitiba / Teatro Guairá – Curitiba / PR 11/03 a 13/06/99 – Teatro Vila Velha – SSA 11/07/1999 – Mostra de Teatro de Grupo / SESC Pompéia – SP / SP 20 e 21/03/99 – Teatro Guaíra (Festival de Teatro de Curitiba) – Curitiba/PR 27/03/99 a 13/06/99 – Teatro Vila Velha - Salvador/BA
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11/07/99 – Mostra de Teatro de Grupo – SESC Pompéia - São Paulo/SP Indicação para o Prêmio Copene de Teatro (1999) ESPETÁCULO DIREÇÃO ATOR COADJUVANTE: Lázaro Ramos DESTAQUE: Cristina Castro (coreografia) A CONSTRUÇÃO O processo de construção teve início em março de 1998, com a Oficina de Preparação de Atores do TVV, financiada pelo Projeto Cena Aberta (uma iniciativa do Ministério da Cultura em parceria com o Ministério do Trabalho). O objetivo dessa oficina era capacitar profissionais para o mercado de trabalho na área teatral. Tínhamos aulas de dança-afro, música, preparação vocal, perna-de-pau, percussão, capoeira, condicionamento físico e interpretação. Além disso, durante toda a Oficina e, mesmo depois dela, tivemos bate-papos (projeto FALAVILA) com artistas e críticos do quilate de Amir Haddad, Gerd Bornheim, Bárbara Heliodora, Gianni Rato, Conceição Perroni e outros. TESEU E OBERON O fato de, inicialmente, os mesmos atores fazerem Teseu e Oberon trouxe algumas dificuldades. O trabalho ficou mais concentrado na construção de Oberon. Hoje já existe condição de representar Teseu utilizando a base construída para Oberon, pois, de certo modo, há uma relação de status entre os dois personagens, apesar de governarem reinos com leis distintas.
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Gustavo Melo / Afonso Porto / Roberto Brito/Marinho Ao adentrarmos no Sonho de uma Noite de Verão já visando à montagem, unimos ao nosso elenco o Bando de Teatro Olodum e outros atores da Companhia de Teatro dos Novos. Paasamos então ao enfrentamento de um clássico, com todos os prazeres e dificuldades inerentes a esse trabalho. OS ARTESÃOS Foram detectadas algumas sensações por parte do nosso grupo a partir do envolvimento com o texto de Shakespeare bem como com o processo de trabalho aplicado, conforme descrição abaixo: Linguagem nova que a princípio causou estranheza; porém, com o desenrolar das atividades, proporcionou interesse e envolvimento. Dificuldades na compreensão do texto, principalmente por ser ele de construção invertida, com várias referências mitológicas e basicamente em versos. Manthur / Jorge Washington / Antônio Soares / Vinício Nascimento / Melquesalem Sacramento / Agnaldo Buiu. O processo de montagem tinha, dentre outros objetivos, o de investigar até que ponto Shakespeare continuava popular, até onde ele ainda penetrava e emocionava as pessoas. Note-se que não nos interessava apenas saber se os temas abordados por Shakespeare eram populares. Disso não tínhamos a menor dúvida. O maior desafio era saber se a forma utilizada em seus textos possibilitava a compreensão. Para isso visitamos diversos lugares, e abrimos nosso ensaiso a diversas visitas.
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Iniciamos pelo CAM (Centro de Acolhimento ao Menor) e pelo Presídio Feminino. PUCKS Surgiu uma luz importante. Os meninos de rua que, com certeza, têm muito a ver com o mesmo espírito sentido no texto de Shakespeare, as suas peraltices, a sua malandragem, o sentimento libertário, mesmo porque a rua e a floresta dão essa sensação de liberdade ilimitada. Outra coisa importante foi o paralelismo que fizemos entre o texto e nossa cultura; idealizar um Puck como se fosse um saci, uma caipora etc. Foi dito também nas palestras que Puck é um ser que não tem noção do bem nem do mal e que as traquinagens dele são por pura diversão. Assim tivemos uma compreensão global do personagem sem perder a essência baiana universal. Franklin Albuquerque / Vinício Oliveira e Lázaro Ramos Ademais, o conhecimento adquirido no decorrer do processo através de textos sobre a época renascentista, palestras com professores de História Universal e alguns filmes - revelou que o período elizabetano era muito mais visceral do que nós tínhamos idéia. FADAS Enfatizava-se sempre a necessidade de fugir do estereótipo da “fadinha azul”, leve, esvoaçante como nos contos de fada. Trabalhamos então prostitutas, drogas, bebida, vida noturna, farra. Gal Quaresma / Chica Carelli / Jassiara Dias /
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Fabiana Coelho / Kita Veloso / Xanda Xuva e Karina de Faria HIPÓLITA A técnica usada nos ensaios induz o ator a pesquisar e aprofundar na criação do personagem. Dentre tantas outras pode-se destacar o uso de imagens de animais, os elementos básicos da natureza, a respiração e a criatividade pelo uso freqüente da improvisação.
Anita Bueno / Sara Victória / Thaís Villar
As visitas realizadas nos despertaram para uma necessidade: tomar conhecimento dos diversos grupos existentes que têm na arte um meio necessário de comunicação. Isso porque, no CAM, o jovens fizeram questão de mostrar a dança e o teatro que eles desenvolviam. O mesmo se deu no Presídio Feminino, onde as detentas não conseguiam apenas olhar para os coloridos instrumentos do Bando de Teatro Olodum: fizeram questão de tocá-los, e muito bem! Decidimos, pois, abrir nossos ensaios à visitação de diversos grupos artísticos de escolas, comunidades, sindicatos, paróquias e quaisquer outros grupos que tivessem a necessidade de se comunicar pela arte. Foram os primeiros passos do que hoje é uma das atividades do Teatro Vila Velha: o TOMALADACÁ. OS AMANTES Com improvisações, discussões, visitas dos adolescentes, ensaios abertos, pesquisa em shoppings, cinemas, escolas de segundo graus entre outros, fomos aos poucos construindo esses personagens cheios de paixão, alegria, humor,
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desavenças, ódio, agressividade e sonhos Iara Colina / Ana Paula Divinal / Arlete Dias / Gordo Neto / Adelmo Pelágio Assim, pelo modo como viemos desenvolvendo o processo, foi possível que todos os atores tivessem uma considerável apropriação do texto e da proposta popular da montagem. As trocas de personagens, durante as improvisações, foram constantes, de modo que todos pudessem ter ampla compreensão do texto. Isso facilitou, e muito, a criação conjunta, e a troca de atores e personagens já não é algo problemático EGEU Cheguei depois, por isso não passei pelo mesmo processo de construção de personagem que o elenco do sonho passou. Sou o terceiro Egeu desse Sonho. Tenho como norte: indicações do próprio texto, direção de Márcio e o apoio do elenco. FILOSTRATO Filostrato é uma extensão de Puck, personagem que eu desenvolvo no espetáculo. A idéia é fazer uma brincadeira com os dois personagens, daí talvez resulte um terceiro, que ainda está sendo elaborado. Participaram ainda do processo de construção os atores Afonso Porto,. Marinho Gonçalves, Fernando Araújo e Viviane Laertes. O SONHO Partimos do princípio de que Shakespeare era um gênio, de
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que o “Sonho” é uma de suas melhores peças - uma obraprima da dramaturgia ocidental - e de que ele era um autor popular. Além do que, a tradução de Bárbara Heliodora é um presente, porque mantém a estrutura, o ritmo e a alternância entre verso e prosa originais num português contemporâneo e cênico - bom de ser dito em palco. Portanto, não tínhamos que cortar nada, adaptar nada, mexer em nada do que estava ali escrito. Nosso trabalho foi desvendar a maneira de dizer aquelas frases de maneira a trazer ao palco o seu humor, que poderia estar encoberto depois de tantos séculos desde que foi escrito. Não queríamos também transformar uma comédia tão brilhante e delicada e sobre o amor num pastelão para conseguir o riso fácil. Na verdade queríamos era divertir um público popular, não erudito, e contemporâneo com essa história que fala do amor e dos perigos que corremos quando o amor e a natureza não estão colocados na ordem e na medida em que devem estar. Para isso tínhamos dois grupos e uma turma de jovens atores que passavam por uma oficina de preparação apoiada pelo Projeto Cena Aberta dos ministérios da Cultura e do Trabalho. Como fundir esses grupos sem descaracterizá-los? Separando-os segundo os diferentes núcleos de personagens da peça? Preferimos entrelaça-los, como faz o texto com seus personagens. Assim, o Bando de Teatro Olodum, que, devido à sua pesquisa de teatro popular, teoricamente deveria fazer os artesãos, estão também no núcleo das fadas e dos amantes. A Companhia dos Novos, que deveria fazer as fadas e os amantes, também faz artesãos. E os jovens atores que deveriam, ainda teoricamente, fazer o elenco de apoio, estão fazendo personagens principais.
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Assumimos que a peça é uma comédia, ainda que trabalhada a partir de diferentes estruturas de humor, de que é uma comédia popular e erótica. Erótica não é sensual e muito menos sexy. Descobrir e deixar o erotismo aflorar naturalmente só era possível se as fadas e duendes não fossem aquelas clássicas fadinhas esvoaçantes que datam do final do século passado, mas que fossem fadas e duendes da natureza, da natureza vegetal, mineral e animal. Encontramos a referência real e concreta para construir estes seres naqueles que ainda hoje estão mais ligados à natureza e seus fenômenos, os aborígenes da Nova Zelândia, da Austrália, nos nossos índios e em alguns povos africanos que ainda vivem em paz com o universo, quando o deixam aqueles que não mais. Os humanos, esses nós os reconhecemos na classe trabalhadora, naqueles que querem dizer algo através do teatro por amor e necessidade; na classe dominante que deixa as normas falarem mais alto que o amor; e nos jovens que se atiram à aventura de viver um grande amor não importa como. Assim construímos o nosso sonho, com as pedras que tínhamos. SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO Como este sonho foi construído Diretor, atores e equipe técnica vêm construindo este Sonho desde março de 1998. Com o apoio dos ministérios da Cultura e do Trabalho – através do projeto Cena Aberta, que beneficiou o Bando de Teatro Olodum e, consequentemente, o Teatro Vila Velha, a Companhia dos Novos e vários outros grupos e artistas que foram incluídos no processo através de bolsas – foi possível estudar o universo shakespeareano (a economia, a religião, o poder, a arte e a vida social da época que em que viveu o dramaturgo) e sua relação conosco (Bahia/Brasil),
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em uma série de oficinas que geraram mostras, discussões e debates. Foram promovidas palestras, no Vila Velha, com personalidades do teatro, conhecedoras profundas da obra de Shakespeare, a exemplo da crítica e tradutora Barbara Heliodora, do cenógrafo e diretor Gianni Ratto, do ensaísta Gerd Bornheim, do ator e diretor Amir Haddad, além de um workshop com o diretor teatral americano, Bob Paton, que desenvolveu a técnica do Theatre of Dreams. Destes eventos participaram não só os atores do elenco, mas diversas pessoas de outros teatros e instituições culturais da cidade. “Durante todo esse período – afirma o diretor Marcio Meirelles – constatamos, na prática, que o Sr. William Shakespeare era, na verdade, muito mais Bill, um cara popular que não cursou universidade e escrevia textos para divertir e fazer pensar um público diário de duas mil pessoas das mais distintas classes sociais que enchiam o The Globe, teatro onde sua companhia representava suas peças, na cosmopolita Londres do século dezesseis”. Para testar a capacidade de ser popular do velho Bill, como o diretor o chama, o Vila criou o projeto Tomaladacá. Grupos de teatro de escolas públicas e particulares de Salvador e entidades diversas foram convidados a assistir os ensaios do Sonho
e, ao mesmo tempo, mostrarem trechos do que estavam produzindo. O resultado foi tão interessante e rico que o Vila vai continuar com o projeto independente desta montagem, todas segundas-feiras de cada mês. A idéia deste intercâmbio, segundo Marcio Meirelles, foi dada pelos meninos do CAM – Casa de Acolhimento do Menor, quando lá foi apresentado trechos do Sonho e eles quiseram apresentar o que estavam preparando: “Era uma performance genial estilo Michael Jackson em baianês e o trecho de uma coreografia baseada em temas afro-baianos. No final, tudo se transformou numa grande roda de capoeira com atores e adolescentes se divertindo muito. Depois apresentamos o ensaio na penitenciária feminina, com direito a debate, onde foi reafirmada a necessidade de se buscar o verdadeiro amor, tão indispensável à vida humana quanto o sonho e o teatro. Tivemos direito a festa no final, com samba, reggae e pagode”. Tudo isso fez o grupo caminhar para a idéia de tornar público esse processo, não como uma preparação, como é o conceito dos ensaios abertos, mas como um produto em si. Foi daí que surgiu o Sonho em Construção, em janeiro deste ano: apresentações de trechos da peça, com ou sem figurino e maquiagem dos atores, com luz geral ou com efeitos de luz,
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permitindo a intervenção e a participação da platéia. Os resultados deste trabalho está presente no espetáculo. Para o diretor Marcio Meireles, um espetáculo nunca está pronto no dia da estréia. O teatro só acontece quando há contato com o público e o espetáculo só amadurece através desse contato. “O teatro é um processo e esse processo de montagem é também um produto, é um espelho e um tecido tramado por e para uma comunidade, daí termos convidado o público para participar dessa construção”. CASA DE ACOLHIMENTO AO MENOR No último dia 13, o elenco do Sonho de uma Noite de Verão fez visita ao CAM - Casa de Acolhimento ao Menor - no bairro Tancredo Neves. O objetivo principal de nossa visita é avaliar como o entendimento da história chega ao público. Assim, já fizemos ensaios para adolescentes de escolas particulares, para profissionais de teatro (Bárbara Heliodora, Gianni Ratto e Maxen Luis) e agora, nesse encontro, para os menores do CAM. Como o texto do “Sonho” é formado por três histórias autônomas que se interligam, optamos por mostrar a parte do artesãos, acreditando estar mais próximo deles e de entendimento mais fácil. A receptividade não podia ter sido
melhor e, além de mostrarmos outras cenas não previstas, tivemos o prazer de assisti-los em duas apresentações suas. Nossa maior surpresa ficou por conta da reação dos adolescentes ao assistir a uma cena em que um pai proíbe sua filha de ficar com seu amado, obrigando-a a casar-se com um outro, escolhido por ele. Ao serem perguntados sobre o que o casal de amantes faria para ficar juntos, os garotos simplesmente deduziram toda a sequência do texto. “Esse menino é a reencarnação de Shakespeare”, brincou Melquesalem Sacramento, ator do Bando de Teatro Olodum. Mais uma vez ficou provada a popularidade do autor inglês. A visita serviu ainda para pesquisa da composição de alguns personagens, sobretudo o “Puck” - uma espécie de saci, erê, exu. Essa história não acabou por aqui. Em breve estaremos voltando ao CAM com outras partes do “Sonho”. SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO Versão baiana da comédia de Shakespeare ocupa Teatro Vila Velha, em Salvador O espetáculo Sonho de Uma Noite de Verão, de William Shakespeare, dirigido por Marcio Meirelles, foi lançado no dia 13 de março, no Teatro Vila Velha, em Salvador e participou da oitava edição do Festival de Teatro de Curitiba, nos dias 20 e 21 do mesmo mês. O Sonho conta
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no elenco com atores do Bando de Teatro Olodum, Companhia Teatro dos Novos e um grupo de atores que passaram por uma oficina de preparação apoiada pelo Projeto Cena Aberta dos ministérios da Cultura e do Trabalho. No total, 31 atores interpretam a comédia lírica do bardo elisabetano, que fala sobre o amor e o contrário do amor e que mistura nobres, plebeus e seres encantados numa mágica noite de verão. Para esta montagem, diretor e elenco partiram do princípio de que Shakespeare é um gênio, de que o Sonho é uma de suas melhores peças - uma obra-prima da dramaturgia ocidental - e de que ele era um autor popular. Marcio Meirelles adotou a tradução de Barbara Heliodora : “Ela mantém a estrutura, o ritmo e a alternância entre verso e prosa originais num português contemporâneo e cênico, bom de ser dito em palco”. Desta forma, o texto é interpretado na íntegra e o espetáculo tem duas horas de duração. “Chegamos logo à conclusão que não tínhamos que cortar nada, adaptar nada, mexer em nada do que estava ali escrito. Nosso trabalho foi desvendar a forma de dizer aquelas frases, de maneira a trazer o seu humor ao palco, que poderia estar encoberto depois de tantos séculos desde que foi escrito”, afirma o diretor. Marcio Meirelles diz que o seu objetivo e de todo o elenco “é de divertir um público
popular, não erudito e contemporâneo, com essa história que fala do amor e dos perigos que corremos quando o amor e a natureza não estão colocados na ordem e na medida em que devem estar”. Outro aspecto abordado pelo diretor é a questão do erotismo presente na peça. “O Sonho é uma peça erótica, mas não sensual ou sexy. Descobrir e deixar o erotismo aflorar naturalmente só era possível se as fadas e duendes não fossem aquelas clássicas fadinhas esvoaçantes que datam do final do século passado, mas que fossem fadas e duendes da natureza, da natureza vegetal, mineral e animal”. Diretor e elenco encontraram a referência real e concreta para construir estes seres naqueles que ainda hoje estão mais ligados à natureza e seus fenômenos, os aborígenes da Nova Zelândia, Austrália, nossos índios e alguns povos africanos que ainda vivem em paz com o universo. Os humanos - segundo Marcio Meirelles são reconhecidos na classe trabalhadora, naqueles que querem dizer algo através do teatro por amor e necessidade; na classe dominante que deixa as normas falarem mais alto que o amor e nos jovens que se atiram à aventura de viver um grande amor não importa como. A música presente em Sonho de Uma Noite de Verão tem à frente, mais uma vez, Jarbas Bittencourt, diretor musical dos três últimos espetáculos do Vila:
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Cabaré da Raça, Um Tal de Dom Quixote e Ópera de Três Reais. A participação de uma banda, ao vivo, e a composição de canções nos modos renascentistas são executadas por um coro polifônico, percussão e guitarras, que dão o tom de alegria e celebração que marca a comédia. A coreografia está a cargo de Cristina Castro, dançarina e diretora do Viladança, grupo de dança residente do Teatro Vila Velha. O figurino - criação de Marcio Meirelles, assim como a maquiagem – adaptou à nossa realidade os trajes elisabetanos para os nobres e os amantes, utilizou roupas urbanas contemporâneas para os artesãos/saltimbancos e trajes e adereços que remetem às tribos africanas e da Oceania para as fadas e seres da floresta. Assessoria de Imprensa Rita Borges/ Mtb 939 SOBRE O PROJETO FAUSTO Quando aceitei a proposta de Shaffner, diretor do Instituto Goethe, de montar Fausto, ainda não sabia. Quando mudei o projeto, do Fausto completo I e II para o Urfaust, ainda não sabia. Quando, entre o convite e os ensaios, montei Um Tal de Dom Quixote e Sonho de Uma Noite de Verão ainda não sabia. Mas no fim do processo de montagem de Fausto#Zero
percebi (e as conexões foram sendo feitas): esta é a terceira peça de uma trilogia sobre o homem que sonha. A partir daí, durante a finalização, uma vez que percebi, foram conscientes algumas escolhas, algumas marcações, o uso de alguns elementos que apareceram anteriormente. E enquanto assistia à estreia e às apresentações, fui vendo as semelhanças, os parentescos, entre os três espetáculos: como os atos de um personagem se desdobram em outro tom na outra peça, como os personagens reaparecem com outras máscaras, e como desempenham funções semelhantes. São três variações sobre o mesmo tema. Que significado tem a vida humana quando ela não é uma busca desse significado mesmo? Que significado tem essa vida, curta e limitada, se ela não está a serviço de uma causa, de uma luta que a justifique? Se não for possível vivê-la em plenitude, seja através de um grande amor, de uma afirmação de princípios, da busca do elo entre todas as coisas, do que nos liga às estrelas mais distantes, do que mantém os astros girando, do que faz com que os átomos não se dispersem e as moléculas se mantenham unidas e faz com que um espermatozóide e um óvulo criem uma vida, e a flor gere o milagre do fruto?
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Nas três obras, os livros (substituidos em Sonho, pela “dura lei ateniense”) ao mesmo tempo geram e impedem, impedem e incitam. Em Dom Quixote, eles se transformam em aventuras, enquanto promessas e possibilidade, e como essas aventuras e embutidas nelas, a possibilidade de mostrar algum valor capaz de justificar a sua vida só podem se concretizar fora dos livros, no mundo real, “Seu” Quixana sagra-se cavalheiro para lutar, recriando um mundo onde caiba seu sonho. Em Sonho de Uma Noite de Verão, “a dura lei ateniense” também cria a possibilidade da fuga ao impedir a concretização do amor............
O PROJETO FAUSTO ou PARA UMA MONTAGEM DO FAUSTO DE GOETHE Há doze anos venho desenvolvendo um trabalho de construção de um teatro popular a partir de nossa identidade cultural. Para isso foi criado o Bando de Teatro Olodum, para isso retomamos o projeto do Teatro Vila Velha e a reestruturação da Companhia Teatro dos Novos. Tomando como premissa o fato de que
um clássico é uma obra que não esgota nunca o que tem para dizer e que seu discurso é universal e pode ser mantido intacto em qualquer língua ou linguagem e pode ser entendido em qualquer parte do mundo pelas mais diversas culturas, resolvi retomar o texto de Goethe que já encenei em 1978. Fausto será montado pela Companhia Teatro dos Novos e Bando de Teatro Olodum, mantendo sua integridade mas adaptado às características desses dois grupos. O que me interessa no Fausto agora é sua busca por um sentido para a vida e seu desejo de absoluto. E, além de tudo, o fato de que esse sentido é encontrado, ou apenas vislumbrado, já no fim de tudo, quando já não é quase mais possível salvação, no trabalho, na terra, no povo, e não no pensamento ou na ciência, religião ou filosofia. Os elementos extremamente teatrais reunidos no Fausto encontram facilmente correspondência no carnaval, congada, reisado e outros folguedos populares. Anjos, demônios, a loucura de Margarida, o sabá, esfinges, a descida ao reino dos mortos, a incorporação antropofágica da mitologia grega, a redenção final, tudo isso faz parte de nosso universo
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imaginário e tem representação em nossa tradição dramática. Fausto será devolvido à sua origem, ao teatro popular, ao teatro de feira, à literatura de cordel. Vamos buscar a identidade baiana de Fausto, o que tem desse mito na nossa tradição popular, e identificar os elementos e personagens que aparecem na obra de Goethe com o seus correspondentes sertanejos, com elementos culturais do recôncavo baiano. Fausto será representado por um ator branco de 60 anos e Mefisto por um jovem ator negro de 20 – um Exu que se coloca em sua vida para abrir os caminhos, fazer as coisas se moverem e tomarem sua verdadeira forma. Na cena do rejuvenescimento de Fausto, na casa da feiticeira, quando Mefisto lhe diz: agora vamos inverter os papéis, os atores o farão literalmente. Fausto passa a ser um jovem negro buscando um sentido e um lugar onde se colocar, guiado por um velho Mefisto para ciladas, trapaças, crime. Só a visão do trabalho, da terra, a consciência de que o homem deve ganhar o seu pão com o suor de seu rosto e que isso é um direito de todos, redime o jovem Fausto. A música e a dança são elementos
importantíssimos. Serão usados ritmos baianos percussivos, aliados à música coral e instrumentos acústicos e eletrônicos, dando sequência à pesquisa musical que vem sendo desenvolvida em nossos espetáculos. Assim como o trabalho coreográfico, que refunde numa linguagem de dança contemporânea, a acrobacia, as danças de rua, do carnaval, a capoeira, e danças tradicionais populares.
DE COMO ME APAIXONEI POR UM MITO ALEMÃO E QUIS TORNÁ-LO BRASILEIRO. Meu primeiro encontro com Fausto se deu quando eu era muito jovem e podia fazer um pacto com o demônio do teatro. E o fiz. Em troca da minha alma eu só queria poder dizer coisas para as pessoas, contar histórias, fazer com que elas se divertissem e pensassem. Refletissem sobre o mundo em que vivemos e sobre o que fazemos de nossas vidas enquanto nele estamos. E o acto foi feito. Abracei o teatro, ou ele me abraçou. Desse abraço de corpo e alma foi que construí meu caminho por este mundo. Na verdade, antes de Fausto eu já tinha entrevisto o que seria esse caminho. Já tinha cheirado os odores e bebido o
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vinho antigo, envelhecido nas madeiras dos palcos. Mas com Fausto, em 1977, eu selei o meu destino. Tinha 23 anos e muitos sonhos. Não tive acesso ao Urfaust e me debrucei sobre a 1a parte do grande poema dramático. E tentei retomar o seu espírito original, tirada a poeira da erudição que séculos acumularam sobre a obra, tirando-lhe o vigor necessário ao teatro. Transformando-o mais num poema filosófico do que num possível espetáculo feito em versos. Então, com toda a ousadia de minha juventude, me atirei sobre o mito e misturei-o, ou antes, extraí dele o que percebia nele de popular, o que existia nele que se casava com o meu universo imaginário. Com os meus mitos individuais, com o circo, o cinema expressionista, a ópera oriental, o melodrama. E assim foi feito o meu primeiro Fausto. A partir da notícia de que a origem primeira do Fausto era a tradição popular, o maravilhoso teatro ambulante e de marionetes. Assim cheguei ao meu Urfaust. Foi um sucesso. E para mim ficou claro que o pacto estava selado e era para sempre. Das muitas vezes em que tentei abandonar o teatro por motivos vários, por várias
crises, o demônio não me deixou. Se mostrou sempre maior do que o meu pequeno eu individual que gostaria de ter uma vida mais fácil sem os infernos e purgatórios a que o teatro nos leva, para nos salvar a seguir, como maiores eus coletivos, que podem alguma coisa. E sempre Fausto lá estava, sorrindo e acenando com a grande perspectiva de um dia ser encenado em sua plenitude. Todo o Fausto, partes 1 e 2. Pois foi exatamente esta pretensão que me levou ao Urfaust - Fausto#Zero. Inicialmente o projeto a ser desenvolvido com o Instituto Goethe, a convite de Roland Schaffner, era uma montagem dos dois Faustos. E o elenco seria o Bando de Teatro Olodum. Grupo com o qual trabalho. Um elenco de atores negros que vem trabalhando a dez anos numa proposta de teatro popular e social. Depois, as condições materiais nos impossibilitaram a pretensão e nos levaram ao antigo e desejado Urfaust. Na verdade, percebo agora, as condições materiais me levaram ao meu desejo real. Ao Fausto do teatro popular. Ao Fausto com um vigor juvenil. Aquele que não precisa ir à cozinha da feiticeira para rejuvenescer. Só precisa, como diz
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Mefisto, no Fausto 1, se jogar na vida, trabalhar a terra, ganhar o sustento com a ação. Ganhar a vida com a própria vida, não com o estudo do que ela seja. Descobrir na busca do ouro, que a terra que se cava neste labor, é mais valiosa que o próprio ouro. Não descobrimos uma tradução em portugues do Urfaust e convidamos Christine Rörigh para essa dura tarefa. E ela a desempenhou com brio, como uma valente guerreira que é. Ou antes, como um anjo que nos trouxe a mensagem de Goethe, inteira, clara, revivida em nossa língua. Depois, tivemos uma troca de elenco. Ao longo desse processo, da transição do Fausto completo para o Urfaust, dos anos que separaram o convite de Shaffner da encenação, mudaram outras coisas. Cresceu meu interesse pela cultura popular do Nordeste brasileiro, mais impregnado das influências ibéricas, das formas de expressão vindas da Europa medieval e deglutidas, devoradas e misturadas no caldo onde também entram as diversas nações indígenas e os muitos povos africanos.Isso aliado à descoberta de que o mito fáustico faz parte desse universo cultural, me fez caminhar para outro grupo, a Companhia Teatro dos Novos, que ia mais nessa direção do que o
Bando de Teatro Olodum. E o convite para Jarbas Bittencourt compor a música para esse espetáculo foi fundamental. Jarbas é um músico camaleônico que compõe em vários modos. Ele vai à raiz da organização musical de vários estilos e tempos e lugares e refaz as formas e harmonias à sua imagem e semelhança. E entende teatro. Assim, Jarbas também foi às raízes nordestinas e trouxe os ritmos do sertão brasileiro para o nosso Fausto#Zero. Durante meses nos debruçamos sobre os vários Faustos possíveis, contidos nos textos, nas histórias, nas memórias, em nós. Trouxemos uma Margarida negra, que pertencesse evidentemente à classe trabalhadora brasileira, que fosse uma menina que tem aspirações a mudar de classe. “Ser alguém”. Uma menina que também tivesse a alma fáustica, mas não os instrumentos necessários para voar mais alto. E despencasse com suas asas feitas e material barato, aquele que lhe permite possuir sua condição social. Mefisto também se transformou num homem negro, sedutor e honesto. Um serviçal, que é fiel ao seu amo, mas não deixa simultâneamente de desejar sua destruição. Na mitologia Yorubá, dos candomblés da Bahia, um Exú,
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divindade que intermedia entre o mundo visível e o invisível. Um mensageiro, uma energia que movimenta o mundo, e o transforma. Foi construído um coro de cidadãos, vizinhos: a sociedade que testemunha e modela o drama. Que permite e limita. Que conduz, com sua força coletiva, os acontecimentos. Propiciando o crime e providenciando o castigo. Um terrível ser de mil corpos que faz a lei e é resultado dela. Por fim a estréia. Não no teatro, mas num pátio de uma escola pública numa ilha perto de Salvador. Uma pequena vila. Para um público não acostumado ao teatro. Crianças, muitas crianças, e pessoas comuns, pessoas acostumadas à vida e não aos seus “grandes mistérios”. Alí Goethe se fez presente. Sua poesia foi apreciada por aquela platéia, que estava em comunhão, perto de suas casas, com seus filhos, seus amigos, prontos para serem seduzidos pela beleza mefistofélica dos versos de Goethe, transcritos para o Português e para o palco. Esse foi o nosso Fausto#Zero. Um Fausto meio brasileiro, por ser universal. Um Fausto popular, por ser feito de poesia. São Paulo, 12 de setembro de 2000
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FAUSTO # ZERO Companhia Teatro dos Novos Texto - Johann Wolfgang von Goethe Tradução - Christine Röhrig Direção, cenário (com Maurício Pedrosa) figurino: Marcio Meirelles Assistente de direção: Lazaro Ramos Elenco: Adelmo Pelágio, Chica Carelli, Fernando Fulco, Franklin Albuquerque, Gal Quaresma, Gordo Neto, Gustavo Melo, Iara Colina, Karina de Faria, Mauricio Pedrosa, Rita Santana, Sara Victoria. Banda do Sonho: Jarbas Bittencourt, Jason Bittencourt, Dennis Celso, Leonardo Bittencourt Música, arranjos e direção musical - Jarbas Bittencourt Iluminação - Valmyr Ferreira Pré estréia: 08/99 (Madre de Deus – BA) Estréia: 13/08/99 a 17/02/00 Teatro Vila Velha (SSA - BA) COMO O CRIMINOSO VOLTA AO LOCAL DO CRIME Como o criminoso volta ao local do crime, volto a Fausto, 22 anos depois. Tempo suficiente para se atingir a maioridade. Mas o tempo não é o único fator necessário e, talvez, a maioridade não seja a meta final. Depois vem a maturidade, depois a velhice e com ela nem sempre a senilidade. Muitas vezes com a velhice vem essa coisa tão desprezada pelo ocidente: a sabedoria de quem viveu e sintetizou tempos e espaços. O cineasta Edgard Navarro me disse uma vez que a partir de Fausto, fiz um pacto com o demônio. Edgard é um poeta, dos bons, e, como tal, suas falas são imagens poderosas que ficam rodando no universo até que a gente encontre o encaixe perfeito para que elas sosseguem. Acho que não consegui. Por isso ainda penso nessa frase e no seu significado.
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Olho as fotos do meu primeiro Fausto, montado com o Avelãz y Avestruz, em 78: era uma encenação ingênua. Cheia de fantasia e de soluções teatrais tiradas das muitas referências que me encantavam na época. O circo, o cinema expressionista alemão, certas representações populares – um álbum caprichosamente elaborado com recortes de muitas revistas. A trilha musical era parte desse brique-abraque. Bastante eclética, ia de Wagner e Shoemberg a Lou Reed. O elenco também era uma colagem curiosa de tipos humanos. A maioria deles abandonou o teatro. Uns logo depois, outros mais tarde (penso na grande atriz que o palco perdeu, com o exílio voluntário de Maria Eugênia Milet na área da educação. Bom, verdade que nossos jovens ganharam uma não menos brilhante educadora, tudo nessa vida tem dois lados). Fausto foi um sucesso. Para o teatro baiano da época, foi um grande sucesso. Com Fausto ganhei meu primeiro prêmio. O Troféu Martim Gonçalves de Melhor Diretor. E fico me perguntando se a frase de Edgard se referia a isso. A esse reconhecimento público que nos ata ao fazer, que nos impõe um compromisso e de onde vem a tentação e uma constante cobrança, a que cedemos por vaidade, fraqueza ou demência: “e você o que
está fazendo agora?”, “esse é Marcio Meirelles, diretor de teatro”, “gostaria muito de trabalhar com você” e etc. Mas Fausto foi um sucesso, não só como espetáculo. O foi também como postura política: assumíamos o teatrocooperativa, uma nova forma de associação para a época. Não tão nova, mas nunca tão assumida publicamente por aqui. A forma de fazer, mais que a do feito, era o conteúdo também de nosso trabalho. O fato de não termos um produtor/empresário, ou uma instituição patrona, de assumirmos o risco da tarefa coletivamente – como os grupos amadores ou os grupos universitários – e de trabalharmos durante meses, passando horas por dia nisso, como tarefa principal e prioritária de nossas vidas e não nas horas vagas, colocou uma nova afirmativa no teatro baiano: os artistas, como qualquer cidadão, podem associar-se para produzir, sem patrão e sem a tarja (geralmente subestimada) de amadores. E, além de tudo, essa forma de fazer teatro foi agraciada com o sucesso e com o prêmio. O prazer de ter essa postura valorizada sempre foi mais importante que o da vaidade pessoal. Mas a pretensão de estarmos no lado e caminho certos, como se os outros também não o fossem, pode ser uma forma de vaidade. Assim, estivemos
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possuídos por uma outra forma do mesmo pecado. Uma forma mais branda ou mais construtiva: a vaidade política de estar caminhando, sem concessões, na trilha escolhida para lidar com o poder. Sempre o demônio nos pega por algum pecado. Pode ter sido esse. Ou quem sabe talvez Edgard tenha me dito que vendi minha alma a Fausto e a ele tenha ficado atado, como uma imagem ao espelho. O próprio Goethe ficou prisioneiro do personagem durante toda sua vida depois do seu primeiro encontro com o mito, aos vinte e poucos de idade. Reescreveu o poema ao longo de sessenta anos, numa batalha feroz pela redenção do Doutor, o que conseguiu pouco tempo antes de sua morte pôr uma falha estratégica de Mefisto, imperdoável em se tratando de um demônio. O velho poeta pensou ter se redimido e aplacado sua sede de absoluto que o moveu, como a Fausto, pelos caminhos todos que percorreu. Pensou. Porque, conta a lenda, morreu pedindo mais luz. Pode ser que essa sede de absoluto tenha me unido a Fausto. Tento aplacá-la no encontro com os outros, na reunião com muitas almas, no exercício de construir discursos sobre os homens através da cena. Pode ser que esta necessidade de mais luz me conduza e me obrigue a estar num palco tanto tempo, tentando de muitas formas a redenção da minha própria alma, vendida ao teatro. Talvez Edgard tenha tentado me alertar disso, me advertir. Me dizer o que percebeu com seus olhos de poeta, vaticinando a minha danação eterna. (Por isso aos atores não era permitido o ato pio do enterro em solo consagrado. Pelo desejo de mais luz, estavam condenados à danação eterna, como os suicidas.) Este Fausto#Zero, que agora enceno com a Companhia Teatro dos Novos, é mais um exercício. Não uma obra definitiva: é mais uma tentativa de entender e revelar o que, neste momento, posso vislumbrar desse meu pacto e
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da alma humana, esse labirinto. Do que a faz conduzir seus atos nessa jornada errática durante sua curta passagem pela terra, e da humanidade mesma pelo universo. Ainda tenho um longo caminho a percorrer. A noite é longa. E é preciso cada vez mais luz. Estamos juntos nessa danação, todos: atores da Companhia Teatro dos Novos, músicos, artistas, técnicos e pessoal da administração do teatro Vila Velha. Todos buscamos esse mesmo momento que justifica e dá sentido à vida, buscado por Fausto. Como ele, somos levados a perceber que esse sentido é dado pelo trabalho: o que justifica estar neste mundo é termos de tirar nosso sustento de nosso suor. Obrigados a cavar a terra para encontrar tesouros, descobrimos que o tesouro maior é a própria terra. E o homem, capaz de tudo, é também capaz dessas grandes descobertas. O homem, como a vida, não é uma causa perdida. Mas é possível que tenhamos de chegar à velhice para conseguir uma síntese de todas essas descobertas. Talvez, como o velho Goethe e seu Segundo Fausto, só no fim possamos olhar, ou, se não conseguirmos, pedir mais luz para ver, esse magnífico tesouro que é a vida, que de resto não tem sentido nenhum senão o de ter sido vivida, que dela nada se leva mas muito se deixa. E tanto melhor seremos quanto o que deixarmos sejam bons frutos, boas sementes e, se tiver sido possível, bom adubo para que o bom da terra se reproduza, cresça e vingue. Ainda faremos muitos Faustos, tantos quantos forem necessários para iluminar qualquer fragmento de vida que nos mostre que valeu a pena. 1999
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GUTE REISE FAUST Documentário Goethe Institute Documentário para a televisão alemã sobre as montagens de Fausto dos grupos: Companhia Teatro dos Novos (Brasil), Fura dels Bals (Espanha), Théâtre d’Ubu (Canadá) e Théâtre du Sygne/Bulanda Théâtre (Japão/Polonia) Direção, roteiro e produção: Jörg Jeshel e Brigitte Kramer Realização: Nachtaktive e Instituto Goethe
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OUTROS TRABALHOS EM 1999 ABERTURA DO VI PANORAMA PERCUSSIVO MUNDIAL (PERCPAN) Roteiro e direção: Marcio Meirelles Participação: Companhia Teatro dos Novos, Evocação de Pernambuco, Gilberto Gil, Índios do Xingu, Issucatassom, Malê, Muzenza, Nana Vasconcelos, Silvercloud Singers e Tambores de Crioula do Maranhão. Direção do Panorama: Gilberto Gil e Nana Vasconcelos Realização Somar Produções Artísticas / Beth Cayres Produções 24/03/99 Cortejo do Passeio Público ao Campo Grande Show no Campo Grande – SSA BAIANOS CANTAM A BAHIA Show de comemoração dos 450 anos de Salvador Direção, roteiro e cenário: Marcio Meirelles Com: Armandinho, Bell Marques, Gilberto Gil, Lazzo, Margareth Menezes, Moraes Moreira e Tom Zé Participação: Afoxé Filhos de Gandhy, Ilê Ayê e Viladança 28/03/99 Dique do Tororó – SSA PRÁTICAS DE MULTICULTURALISMO Conferência internacional 2° Encontro Dançar o que é Nosso Mesa: Multiculturalismo local / global (20/11) Palestrantes: Annemie Vanackere, Marcio Meirelles e Laurent Dreano Testemunho: Claire Honigsbaum (Grã Bretanha) e Lurdes Carvalho (Angola / Portugal) Moderador: Mark Deputter (co-diretor do Danças na Cidade e Assessor para a Dança do Centro Cultural de Belém) Iniciativa: Danças na Cidade 20 a 23/11/99 Centro Cultural de Belém / Sala Siaca (Portugal)
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ENCONTRO COM O ARTISTA Palestra Escola de Teatro e Dança FAFI Palestrante 18/06/99 Escola de Teatro e Dança FAFI (Vitória – ES) PRÊMIO MULTICULTURAL ESTADÃO 1999 Integrante do colégio eleitoral Criadores eleitos: José Celso Martinez Correia, Luiz Fernando Veríssimo e Marco Antônio Guimarães Fomentador eleito: Emanuel Araújo maio/99 São Paulo – SP BAHIA ARTE CULTURA ANOS 70 Seminário XXVI Jornada Internacional de Cinema da Bahia Mesa: A criatividade e possibilidades encontradas pelos artistas baianos na década de 70 – Artes cênicas e Literatura (15/04/99) Expositores: Antonio Brasileiro, Guido Guerra, Reinaldo Nunes e Deolindo Checucci Debatedores: Álvaro Guimarães, Carmem Paternostro, Fernando da Rocha Perez e Marcio Meirelles Coordenação: Guido Araújo 05 a 17/04/99 ICBA (Salvador) I TROFÉU COELBA DE REPORTAGEM Evento Roteiro e direção: Marcio Meirelles Apresentação: Lázaro Ramos e Maria Zilda Bethlen
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Participação: Viladança e Zeca Baleiro Realização: Coelba 10/09/99 Bahia Marina Contorno (Salvador – Ba) III FÓRUM DE INFORMAÇÃO PROFISSIONAL Palestrante Realização: Colégio Portinari 09/05/99 Colégio Portinari 6 ANOS DE REINAUGURAÇÃO DO TCA Palestra: O teatro baiano nos anos 90 Palestrantes: Aninha Franco e Marcio Meirelles 19/07/99 Oficina: O ator cidadão Oficineiro: Marcio Meirelles 21/07/99 Realização: TCA/FCEBA Teatro Castro Alves VI FESTIVAL NORDESTINO DE TEATRO DE GUARAMIRANGA Realização: AGUA (Associação dos Amigos da Arte de Guaramiranga) Júri: Antônio Cadengue, Ivonete Albano, Luíz Carlos Vasconcelos, Nehle Franke e Sérgio de Carvalho Debatedores: B. de Paiva, Cacá Carvalho, Marcio Meirelles e Tácito Borralho Coordenação dos debates: Rejane Reynaldo 10 a 18/09/99 Guaramiranga (CE)
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SHOW CAMPANHA DE CONFIABILIDADE SHELL Performance Direção: Marcio Meirelles Texto: Cláudio Simões Elenco: Lázaro Ramos e Edimilson (Mimi) Barros Produção: Celso Carvalho Apresentação: xx/xx/99 Hotel Bahia Fiesta HOMENAGEM A ROLAND SCHAFFNER Performance Concepção e direção: Marcio Meirelles Texto: Bule Bule Elenco: Carlos Petrovitch, Chica Carelli, Cláudio Cajaíba, Edimilson Barros (Mimi), Fábio Vidal, Lázaro Ramos e Yulo Cézar Realização: Instituto Goethe / Salvador Apresentação: 03/11/99 Pátio do ICBA (SSA – Ba) PLACEBO Curta metragem Projeto de graduação de Wagner Moura na FACOM/UFBA Roteiro e direção: Wagner Moura Elenco: Clécia Queiroz, Lázaro Ramos, Marcelo Praddo, Marcio Meirelles, Nadja Turenko, Ricardo Castro, Wilson Melo e outros 1999 Filmado no Teatro Vila Velha (SSA / BA)
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FESTIVAL MINDELACT O TEATRO, ESSE IMENSO ESPELHO. -----------------------------------------------------Tenho, ao longo de minha vida e através de meu trabalho, buscado minha identidade. Esse é o princípio. Penso que quando sabemos quem somos, descobrimos por que agimos assim, porque queremos dessa forma e porque as coisas são como são para nós. No início do caminho pelas vias do palco, me importava muito com o indivíduo, com quem sou eu, ser humano. Estava começando a fazer teatro: inventando meu vocabulário, aprendendo a falar através dessa linguagem mágica em que digo sou ou és e tudo se faz. Depois, alguns anos depois, quando já entendia esse meu jeito de falar nessa língua mas ainda tinha muito que aprender - como, de resto, ainda tenho e nunca vou saber tudo - comecei a me preocupar comigo cidadão: quem sou eu, brasileiro? Aí surgiu uma grande questão: quem é este povo ao qual pertenço, de que sou fruto e parte? Sendo um filho da classe média brasileira, recebi fortes doses de informação e formação baseadas na cultura européia. Todo o nosso sistema educacional e pedagógico até bem pouco tempo, era todo ele baseado no modelo jesuítico. Aprendemos assim leviandades e besteiras sobre os negros e os índios, aprendemos a vê-los como até eles mesmos eram obrigados a ver-se: com olhos de branco, de colonizador. E, como somos mestiços, com oceanos de sangue negro e indígena a nos banhar, é lógico que sempre nos olhamos no espelho do vencido, do inferior, e sempre tivemos vocação para a submissão e subserviência,
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aprendendo a menosprezar nossa própria produção cultural, misturada, sincrética, como de segunda categoria e a admirar o que nos vinha dos poderosos povos do norte. A música começou a nos ensinar que não era bem assim. Que nossos ritmos, fruto dessa mistura, vindos das Áfricas todas, de todas as tribos nativas e das tribos bárbaras da Europa, eram nossos. Tinham fervido juntos aqui e cozinhado esse caldo forte e suculento que é a música brasileira. E se na música podíamos ser tão fortes e nos identificarmos tanto a ponto de agora estarmos invadindo ao revés o mundo e em especial Portugal, porque não com as outras linguagens? Porque com as outras ainda copiávamos modelos que já tínhamos explodido com a música. O teatro, em especial, que nos veio com os jesuítas como instrumento e arma de dominação, manteve esse estigma e essa marca até hoje. O bom é o que fazem lá fora. Nunca seremos tão bons quanto eles, mas podemos copiá-los e sermos quase tão bons. A música nos deu o sinal . Não podemos nunca refletirmos o que somos e a partir daí descobrirmos como mudar, como virar a mesa, que essa é a função do teatro, se estamos sempre a olhar para fora e copiar. Comecei então a trabalhar a partir das nossas raízes afrobrasileiras, a descobrir na rua os temas e formas necessários para construir esse novo discurso. Para isso criamos, eu e outros artistas, o Bando de Teatro Olodum para descobrir tudo que queríamos e poderíamos falar com esse discurso e com esse sotaque. E descobrimos muito e continuamos a investigação, falando, falando, gritando, cantando, tropeçando e levantando, correndo e dançando que para isso temos pernas e corpo e alma.
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As Áfricas e todas as culturas que estão aí nos espreitando e esperando como uma revelação possível de parte de nós mesmos, às vezes negada e oculta, mas sempre presente e forte e reclamando aparecer e ocupar seu lugar talvez fosse uma resposta. E a África ou as Áfricas foram também uma fantasia. Para o negro brasileiro que só tem modelos brancos e louros nos livros de contos infantis, nos livros de história da escola, na televisão, era necessário inventar uma África mítica que nunca existiu de fato para reconstruir seu orgulho, reinventar sua auto estima e estruturar modelos a seguir. Foram descobertos heróis negros nos fatos esquecidos de passados remotos e próximos. Foram valorizadas personalidades ainda vivas e importantes para o desenvolvimento desse país. E isso foi um tempo muito rico. Pois, era necessário redescobrir a África. A África verdadeira que está aí do outro lado do Oceano. E fui, com a Cena Lusófona, no projeto Viagem ao Centro do Círculo, primeiro a Maputo, em Moçambique, passando por Joanesburgo, e depois ao Mindelo, na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde. Ainda não são todas as Áfricas e ainda não percebi tudo que é possível aí se perceber. E também não consegui arrumar tudo no lugar, em mim. Mas a impressão que tenho é de que o caminho é esse. O futuro está nesse presente que nos mostra onde os diversos caminhos tomados por nossos irmãos foram dar a partir de um passado partilhado. É preciso trocar figurinhas, como dizemos. Mostrar quem somos, quem nos tornamos, que destino demos às mesmas sementes. E ver como essas sementes frutificaram em outras plagas. -----------------------------------------------E de repente, o Mindelo entrou em minha vida. Não tão de repente. Primeiro, o aeroporto em Lisboa e o fato de sermos
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colocados, pelos funcionários da viação aérea, na primeira classe para não irmos misturados com “aquela malta”. E aquela “malta” eram os negros de Cabo Verde. Depois a Chegada na Ilha do Sal, naquela planície desértica, aquele aeroporto quase no centro de nada, de um nada lindo e vasto como só em sonhos se vê. E então, São Vicente. A ilha vulcânica sem verdes, de terra dura e seca, prisioneira de um mar belíssimo que a afasta e aproxima do mundo. Aí foi construída Mindelo, uma cidade de harmonias inacreditáveis, onde uma arquitetura com delicadezas de maqueta, ressoa como a música, as mornas e coladeiras. Como as cordas de Bau, a voz de Cesária e todos os sons de Pantera. Essa música, também ela, é um espelho em que, clara como o mar, está a face desse povo. E na Tabanca e no Colá San Jon, nas danças de forte e delicioso apelo erótico, nas estruturas maravilhosas construídas com as palavras por Germano Almeida. Tudo reflete a boca do vulcão. O teatro. Tinha notícias, por João Branco, pelas revistas Sete Palcos e Mindelact em Revista, do que está sendo feito em Cabo Verde. E muita curiosidade. Então assisti ao ........pelo Grupo de Teatro da ........ e vi os atores participantes do workshop dirigido por Stephan Stroux, e vi uma demonstração do Grupo de Espetáculos Acrobatas de Pedra Rolada, vi os percussionistas do colá San Jon e as fantasias do desfile de carnaval. E tudo isso era teatro, do mais precioso. Porque em tudo isso, a alma de Cabo Verde estava presente e se mostrava inteira. Abria-se aos meus olhos imensas portas em que generosamente um mundo se mostrava, e nele eu reconhecia também o Brasil e a mim mesmo. Os atores de Cabo Verde estão inventando um teatro, assim como os Acrobatas de Pedra Rolada estão inventando uma
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capoeira. Assim como os negros brasileiros inventaram uma África. Assim como inventamos a cada dia uma possibilidade de ser feliz. Esse momento é lindo e rico e de uma importância às vezes inestimável para os contemporâneos. É fundamental se construir uma linguagem que seja a tradução exata da beleza e da poesia que existem na alma de um povo e que são a sua maneira especial e única, e que nenhum outro povo tem e é por isso mesmo importante e necessária para todos os outros povos, de olhar o mundo e dialogar com Deus. 1999
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GOVERNANTES 67o prefeito: Antônio Imbassahy . Partido da Frente Liberal (pfl) 1997 a 2000 47o governador: César Borges . Partido da Frente Liberal (pfl) 1999 a 2002 34o presidente: Fernando Henrique Cardoso . Partido da Social Democracia Brasileira (psdb) 1995 a 2003
Um vazamento de petróleo em um duto da Petrobras derramou mais de 500 mil litros de óleo na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, sendo o pior acidente ambiental desde 1975. O ônibus da linha 174 foi sequestrado por Sandro Barbosa, que manteve por quatro horas dez reféns, no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Na ação de resgate a polícia matou a refém e Sandro Barbosa, que já estava sob custódia das autoridades. O Senado Federal cassou o mandato do senador Luís Estêvão por quebra de decoro parlamentar, fato inédito até então.
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BANDO DE TEATRO OLODUM - ANO DEZ Ó PAI,Ó! Leitura Bando de Teatro Olodum Roteiro cinematográfico: Caetano Veloso, Hermano Viana e Sérgio Mekler Direção: Marcio Meirelles Elenco: Bando de Teatro Olodum 17/10/00 Cabaré dos Novos – Teatro Vila Velha (SSA – Ba) ENCONTRO DAS RAÇAS Show musical Roteiro e direção: Marcio Meirelles Participação: Grupos de Maracatu e capoeira e participantes das oficinas de dança, percussão e improvisação coordenadas pelo Bando e atores do Bando de Teatro Olodum Apresentação: 12/12/00 Centro Cultural Dragão do Mar (Fortaleza – CE)
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TEATRO VILA VELHA - ANO SETE O TEATRO VILA VELHA NO ANO 2000 Texto escrito para o ator/jornalista Gideon Rosa, que solicitou um depoimento sobre a produção do Teatro Vila Velha no ano 2000 para um balanço de fim de ano. Gideon, acho que você poderia falar um pouco como o ano 2000 foi difícil para a cultura baiana. E então, falar como o Vila atuou nesse ano. Marchamos na contra corrente ao: produzir espetáculos sempre com elencos numerosos, ao invés da tendência a monólogos e diálogos; apoiar grupos e artistas – Bando de Teatro Olodum, Viladança, Cia Teatro dos Novos, Jarbas Bittencourt, Nelson Vilaronga, Sérgio Almeida, Cecília Haffer, Simone Erbeck – dispondo de espaço para ensaios e apresentações e infra estrutura administrativa e técnica; manter projetos sem nenhum retorno financeiro – Tomaladacá que abriga grupos emergentes da periferia, de escolas e entidades culturais ou sociais; numa troca sistemática de experiências e informações, promovendo oficinas, debates, mostra de cenas e de espetáculos, acesso aos espetáculos realizados no teatro para os integrantes dos grupos e da comunidade à qual estão ligados; Curta Vila – mostra mensal de vídeos, seguida de debates e
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reflexão sobre o meio e sua relação com as outras linguagens e atividades culturais; O Que Cabe Neste Palco – mostra da produção que está sendo gerada por jovens universitários no âmbito das Escolas de Teatro, Dança, Música e Belas Artes principalmente, mas também em outras unidades da Universidade ou fora das escolas. Este projeto é coordenado, programado e produzido pelos Diretórios Acadêmicos das referidas escolas. O TVV cede o Cabaré dos Novos e o suporte técnico necessário para sua realização. Toda semana; Choro no Vila – grupos e músicos dedicados ao chorinho se reúnem semanalmente para mostrar e ouvir clássicos e novas composições dessa expressão musical popular brasileira, a um público aficionado. Manter projetos que proporcionem a experimentação e a discussão sobre as linguagens e sistemas e políticas de produção cultural: Improvilação – dançarinos, músicos, atores e artistas plásticos se reúnem uma vez por mês para sessões de improvisação coletiva, seguida de discussões sobre os processos criativos. Projeto apoiado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia; Falavila – palestras e/ou debates sobre temas de interesse imediato dos artistas para embasar montagens, ou menos ligados à um projeto específico, mas que geram reflexões sobre as atividades culturais. Este ano foram realizados dois ciclos: política cultural e estratégias de combate ao racismo, além de eventos pontuais (Peter Palitzsch e o teatro de Brecht, Martha Graham e Pilatice, entre outros);
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Oficinas de formação e aperfeiçoamento para artistas e iniciantes. Co-produções com grupos e artistas internacionais: Supernova com o Teatro São João, Dramat, Assédio e Cendrev, de Portugal; Início do processo do Projeto Fatzer, com direção de Peter Palitzsch (colaborador de Bertolt Brecht), com o Instituto Goethe. Apoio a produções de jovens artistas: Hamlet, de Sérgio Almeida; Bodas de Sangue, de Nelson Vilaronga; Em menor escala a Os Fuzis da Senhora Carrar, de Cecília Haffer e ao espetáculo de dança de Simone Erbeck, entre outros. Realização de espetáculos através dos grupos residentes: Viladança: CO2 – Cinco Sentidos e um Pouco de Miragem (vencedor do edital Prêmio Estímulo 99 - Minc/Funarte/Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia/FCEBa); Hai Kai Baião (vencedor do Prêmio Estímulo 2000 – Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia/FCEBa);
Bando de Teatro Olodum: Já Fui – em parceria com o Detran, apresentado para escolas e instituições de Salvador e do interior do Estado; Cabaré da RRRRRaça – remontagem em novo formato; Companhia Teatro dos Novos – Além de Supernova, Pé de Guerra (patrocinada pela Petrobrás através da Ley Rouanet). Manter um programa de formação de público que, através de convites ou bônus e programas específicos, recebe em sua platéia, grupos e pessoas de pouco poder aquisitivo, num processo de democratização de sua produção. Para o início de 2001, o Vila vai apresentar ao público baiano o CALDEIRÃO VILA VERÃO – mostra do que foi realizado durante o ano que passou: Às Terças feiras – O menino que queria ser rei de Carlos Petrovich Às quartas feiras – Hai Kai Baião, do Viladança (...) feiras – Pé de Guerra, da Cia Teatro dos Novos Às quintas (18:30h) – Choro no Vila
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Às sextas e sábados - Cabaré da RRRRRaça, do Bando de Teatro Olodum (sempre com um convidado novo a cada dia) Às sextas (1/2 noite) – Meia Noite se Improvisa Aos domingos – Ó Paí,Ó!, remontagem da antológica montagem do Bando, revisitada e com a participação da Confraria da Basófia. Além das Oficinas Vila Verão – quinze oficinas de teatro, dança e música. Para tudo isso conta apenas com um apoio financeiro da Bahiatursa, que cobre aproximadamente 50% do custo mensal da manutenção do teatro, e com o trabalho de seus grupos residentes, através da captação de recursos para seus projetos e da bilheteria dos espetáculos. Além do apoio dos Amigos do Vila: Workshop Informática, Forever – escola de inglês e espanhol, Cot e E-net. O Vila trabalha pela revitalização do Centro da Cidade, participando de um fórum liderado pelo Sebrae, e na organização de uma entidade que congregue os dirigentes de teatros de Salvador para que se possa dar mais apoio aos grupos, artistas e produtores de espetáculos. Conta com a desvantagem de estar situado no Passeio Público (o que deveria ser um privilégio) graças ao descaso com que aquele espaço é tratado por sua administração. E a uma política que prejudica o teatro, não permitindo o estacionamento disciplinado em área específica, para o público do teatro, quando o permite para aquele que vai às festas do Palácio da Aclamação. Além de alugar o Passeio Público para a realização de feiras e eventos que impedem ou atrapalham o funcionamento do teatro.
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VIAGEM AO CENTRO DO CÍRCULO Projeto de intercâmbio de países lusófonos Coordenação: Antônio Augusto Barros, Marcio Meirelles, Rui Madeira e Sebastião Milaré Direção artística e orientação das oficinas: Stephan Stroux Co-produção: A Escola da Noite (Coimbra – PT), CenaLusófona (Coimbra – PT), Companhia Teatro de Braga (PT) e Teatro Vila Velha (SSA – Ba) Patrocínio: Ministério da Cultura de Portugal, CPLP e Fundação Cultural Bracara Augusta (Braga – PT) Colaboração: Casa Velha (Maputo – Moçambique), Centro de Cultura Protugues (Mindelo – Cabo Verde), Centro Cultural São Paulo (SP – Brasil) e Grupo Elinga (Luanda – Angola) Oficinas: xx/xx/99 – Teatro Vila Velha (SSA – Ba) Xx/04/99 – Mindelo (Cabo Verde) Xx/xx/00 – Luanda (Angola) XX/xx/00 – Coimbra (Portugal) DE COMO QUESTÕES GERAM FRUTOS Como avaliar a importância de um processo em curso? Talvez daqui há alguns anos, com a devida clareza que a distância e a história nos dá, possamos ver o edifício que se construiu. Agora, estamos levantando as pontes, os arcos que sustentam um abrigo, as bases de possibilidades muito grandes. Arquiteturas insuspeitadas surgidas de diálogos, de histórias cruzadas, de pontos de apoio, de papéis invertidos. Num processo cultural quem como quem? Quem é o colonizador, quem o colonizado quando, numa conquista, os traços, o jeito de ser, a forma de olhar o mundo e de entendê-lo do dominado se impõem ao dominador? Esta, a pergunta sem resposta. Uma das muitas perguntas sem respostas que formulamos. Podemos seguir questionando. O que é mais importante
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“vencer” num futuro incerto, transformando o vencedor em seguidor dos nossos passos, ou vencer agora não permitindo que a colônia se instale. E essa questão é muito pertinente num tempo de neocolonialismo ou, como está-se preferindo chamar: globalização. Das antigas colônias portuguesas africanas, agora libertas, quais realmente estão livres do jugo? Quais pararam de lutar pela independência? É possível parar de lutar pela independência? E o Brasil, este país continental, a partir da optativa de D. Pedro (Primeiro no Brasil, Sexto em Portugal): “Independência ou morte!”, supostamente gritada às margens do riacho Ipiranga, no dia 7 de setembro de 1822, é independente, ou morto? Qual o papel de nosso país na cena lusófona? Como podemos nos aventurar nessa viagem de reconhecimento do outro se sequer nos conhecemos? Se não temos ainda uma política cultural clara, que nos permita definir nossa parcela econômica num projeto como “Viagem ao Centro do Círculo”? O Teatro Vila Velha desde sua origem, em 64, ano do golpe militar que implantou uma ditadura que durou 20 anos em nosso país, tem sido um espaço de muitas questões. Que as formula e tenta construir respostas. Tenta descobrir quem as pode responder e como. Assim é um espaço de encontros e de descobertas. Tem sido um teatro que prioriza as raízes culturais, os galhos abertos para o céu e os frutos que podem ser gerados. Assim, reagiu à proposta de ser o parceiro brasileiro deste projeto. Com prazer em alimentar e conhecer diversas raízes, entrelaçar nossos galhos e esperar os frutos que inevitavelmente surgirão e serão comidos por muitas gerações, de uma maneira ou de outra. Salvador, 23 de junho de 2000 marcio meirelles diretor do Teatro Vila Velha
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QUEM COME QUEM? Espetáculo resultado do projeto Viagem ao Centro do Círculo Direção, cenografia, adereços e desenho de luz: Stephen Stroux Dramaturgia: Sebastião Milaré Figurinos: Ana Rosa Assunção Coordenação do projeto: Antônio Augusto Barros, Marcio Meirelles, Rui Madeira e Sebastião Milaré Coordenação de produção: Cristina Henriques Produção: CenaLusófona, Companhia Teatro de Braga e Escola da Noite (Portugal) e Centro Cultural São Paulo e Teatro Vila Velha (Brasil) Elenco: Aires Antônio Major (São Tomé e Príncipe), Amor de Fátima Mateus (Angola), Antônio Jorge (Portugal), Arlete Dias (Bando de Teatro Olodum – Brasil), Bia Gomes (Giné Bissau), Fernando Candeias (Portugal), Jaime Monsanto (Portugal), José Évora (Cabo Verde), Leno Sacramento (Bando de Teatro Olodum – Brasil), Mestre Capitão 9Angola) Rogério Boane (Moçambique), Simone Iliescu (Brasil), Sofia Lobo (Portugal)e Tilike Coelho (Brasil) Patrocínio: Ministério da Cultura de Portugal Apresentações: 05/07/00 Teatro Acadêmico Gil Vicente (Coimbra – Portugal) 12/07/00 (Braga – Portugal)
SUPERNOVA Sempre fui fascinado por encontros. Do rio com o mar, do mar com o céu. Das nuvens que, ao se encontrarem, criam uma nova, maior, diferente. Das partículas de mercúrio que se reagrupam num único lago prateado capaz de nos refletir como um espelho líquido. Gosto de encontros. Gosto do encontro de culturas quando é possível se estabelecer diálogos, E gosto dos diálogos gerados pelas diversidades. De tambores com violinos. De guitarras elétricas com cítaras
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e tablas. Gosto quando linguagens diferentes começam a conversar e a criar um entendimento possível. Que é em si uma nova língua. O encontro do Teatro Vila Velha com o teatro português, a partir do Navegar é Possível, evento realizado pela Cena Lusófona e pelo Centro Cultural São Paulo, em 98. Foi um desses encontros notáveis. Gerador de muitos diálogos. Um deles foi com Fernando Mora Ramos, que resultou nesse projeto denominado Achamento, criador da Supernova. Fernando colocou o Dramat , do Teatro Nacional São João, no diálogo. Depois o Cendrev e o Teatro de Viseu. O Vila Velha trouxe a Companhia Teatro dos Novos, Jarbas Bittencourt, Cristina Castro, os grupos residentes: Bando de Teatro Olodum, com seus tambores, seu ritmo, sua alegria; o Viladança com sua precisão, suas descobertas. Juntos somamse muito. Juntos podemos reinventar o mundo, recriar o teatro. Os atores da Cia dos Novos levam a assinatura do Vila para o projeto. O Teatro Vila Velha foi inaugurado em 1964 (ano do golpe militar que instalou vinte anos de ditadura no Brasil), com um show que colocou no palco, pela primeira vez, jovens artistas que transformaram a cena brasileira: Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé. Com o show Nós por Exemplo, a história de nossa cultura foi irremediavelmente alterada. O então diretor do Vila era João Augusto Azevedo, mentor de um projeto que levava para os palcos brasileiros a cultura popular, incorporando à cena elementos de folguedos e manifestações tradicionais, escola de samba, ritmos de
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candomblé e capoeira. Criou o teatro de cordel brasileiro, baseado na estrutura da literatura veiculada nas feiras livres do Nordeste. Fez acontecer, liderando um grupo de artistas, um novo teatro, ligado às nossas raízes culturais. Esse grupo fez também do Teatro Vila Velha uma referência de resistência à situação política do país, sediando encontros de estudantes e intelectuais que ativamente combatiam a ditadura. Posteriormente se transformou na sede local do Movimento pela Anistia e abrigou a luta em defesa dos presos políticos e dos exilados. A morte de João trouxe um período muito difícil para o Teatro Vila Velha. Durante alguns anos tentou se reequilibrar e redefinir como casa de espetáculo, ele que sempre foi uma usina de produção cultural. Ele que sempre foi um ponto de encontro de idéias e atitudes, propulsor do novo na cena baiana. Não foi possível. Quase se viu vendido para o Estado, ele que sempre foi independente. Em 1994, trinta anos depois de inaugurado, um novo grupo de artistas uniu-se aos sócios proprietários, com a idéia de retomar as propostas originais norteadoras do Vila e de reconstruir seu prédio, agora muito estragado e defasado tecnicamente. Esse novo encontro transformou o teatro num moderno centro cultural com o triplo de sua área construída primitiva, uma sala de espetáculos com a capacidade camaleônica de recriar-se constantemente a cada espetáculo com uma nova configuração palco/platéia e com o espírito renovado mas fiel aos seus princípios estéticos e éticos. Numa época de neoliberalismo desenfreado e globalização devoradora. O Teatro Vila Velha afirma a necessidade de encontros, a valorização de elementos culturais de
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raízes regionais e a perspectiva de ser contemporâneo sem perder a identidade e os princípios morais que sempre foram a base do teatro. Só uma casa assim poderia ser berço de uma supernova. Não existem coincidências no mundo, existem escolhas. E escolhemos isso: ser um ponto de convergência onde um teatro que está se desenvolvendo nos países de língua portuguesa tenha morada. Queremos nos reconhecer como parte de algo maior do que um país, parte de um mundo que fala uma mesma língua mas é diverso. Queremos partir ao encontro dos que, como nós, têm a sede da busca e a necessidade de comunhão. Queremos estar e ser um porto onde navegantes possam desembarcar e construir arquiteturas arriscadas, inovadoras. Onde viajantes possam descansar e seguir viagem. Queremos nos reconhecer na face múltipla de outros artistas, grupos e instituições que em qualquer lugar do mundo estejam interessados em encontros. Encontros que, como o relatado na carta de Caminha ao rei, são feitos de poesia, fascínio, paixão e desejo de seguir juntos, seja lá quantos passos forem. Disso nasceu a hipótese da Supernova e sua realização. Estamos felizes. Salvador, 20 de fevereiro de 2000.
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SUPERNOVA Companhia Teatro dos Novos Texto - Abel Neves Direção - Fernando Mora Ramos Cenografia e figurinos: Marcio Meirelles Composição e direção musical: Carlos Alberto Augusto com a colaboração de Jarbas Bittencourt Elenco: Chica Carelli, Cristina Dantas, Fernando Fulco, Gordo Neto, Gustavo Melo, Isabel Bilou, João Cardoso, João Pedro Vaz, José Russo, Karina de Faria e Rosa Quiroga. Iluminação - João Carlos Marques Montagem e operação de luz: Robson Fuezi, Rivaldo Rio e Marcio Pimentel Coreografia - Paulo Ribeiro e Cristina Castro Conselheiro Dramaturgico - Paulo Eduardo Carvalho Contra-regras: Cel Dantas, Jorge Ricardo, Vinício de Oliveira, Jorge Ricardo, Carlos Matias, Maurício Lessa e Inácio D´eus Co-produção: Teatro Vila Velha, Teatro Nacional São João/DRAMAT e o CENDREV Colaboração: Culturporto, do Teatro Viriato e da Companhia. Assédio Estréia: 25/04/00 a 13/05/00 Teatro Vila Velha (SSA – Ba) 24/05/00 a 28/05/00 Rivoli Teatro Municipal (Porto – Portugal) 01/06/00 a 10/06/00 Teatro Garcia de Resende (Évora – Portugal) 16/06/00 a 17/06/00 Teatro Viriato (Viseu – Portugal)
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O ATOR E A MEMÓRIA Oficina Oficinas Vila Verão Orientador Carga horária: 45 horas Produção: Teatro Vila Velha 17/01 a 24/02/00 Teatro Vila Velha (SSA – Ba) SOBRE A SOLIDÃO Mostra da oficina O Ator e a Memória Roteiro e direção Xx/02/00 TeatroVila Velha (SSA)
TEATRO DOS NOVOS - ANO SEIS PÉ DE GUERRA Companhia Teatro dos Novos Texto (adaptação do livro de Sonia Robatto), direção, cenário, figurino (com Rino Carvalho) e programação visual Assistente de direção: Elísio Lopes Filho Direção do núcleo infantil; Débora Landin Dramaturgista assistente: Cacilda Povoas Composição, arranjos e direção musical: Jarbas Bittencourt Coreografia: Cristina Castro Iluminação: Valmyr Ferreira Produção, direção e edição de vídeo: Silvana Moura Assessoria de imprensa: Via Press comunicação Fotos: Márcio Lima Direção de produção: Edna Pereira Realização – Companhia Teatro dos Novos Elenco: Anita Bueno (dona Dora, freira e professora), Beatriz Bastos Viana
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(criança, anjop e substituição da irmã), Chaiende da Cruz Santos (filha de Maria e anjo), Diego do Amor Divino Velame (criança e anjo), Elaine Adorno da Silva (criança e anjo), Felipe Gonzalez Argueiro (Hans), Flaviana Caetana S. da Silva (criança e anjo), Jamile de Menezes Cerqueira (criança, anjo e substituição de Camilinha), Lucas Carvalho dos Santos (criança, Menino Jesus, anjo e substituuição de Hans)), Luciana Santiago A Souza (irmã), Lúcio Tranchesi (seu Rodolfo e São Jorge), Manthur (pai e Santo Antônio), Mariana Freire (Maria e freira), Marísia Motta (avó e freira), Neyde Moura ((Didi e freira), Raissa Fernandes (Camilinha), Sônia Robatto (Camila), Thierri Melo Martinho Gomes (irmão), Victor Porfírio dos Santos Almeida (criança, anjo e substituição de irmão), Virginia Rodrigues (voz off), Viviane Laert (mãe e madre Maria Pia), Willian Climaco Cardoso (criança e anjo). Banda – Jairo Brandão (piano), Leonardo Bittencourt (bateria), Marilda Costa (voz), Raiden Coelho (sax e flauta) e Ricardo Santos (trumpete) Estreia: Teatro Vila Velha 07/11/2000 SSA/BA Prêmio Copene de Teatro – Ano VIII (2000/01) ESPETÁCULO DIREÇÃO ATRIZ COADJUVANTE: Neide Moura Indicação Prêmio Copene de Teatro – Ano VIII (2000/01) DESTAQUE: Jarbas Bittencourt (Trilha sonora)
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OUTROS TRABALHOS EM 2000 VOCÊ ENTENDE A PAIXÃO? O Viladança preferiu não cair no erro de formular esta pergunta, nem de tentar descobrir a sua resposta. Não se entende a paixão, que não é coisa para ser entendida. É coisa para ser agarrada com unhas e dentes e não deixar escapar. É para ser vivida, se possível. Para ser sentida. É coisa para os sentidos. E foram, estes intrépidos inventores de gestos, em busca dos sentidos para recriar a paixão a partir de imagens fragmentadas. Imagens que todo aquele que um dia já esteve apaixonado reconhece. E é do reconhecimento de códigos que o Viladança faz sua estrada. Os códigos da cidade, de nossas ações cotidianas, inventados pelo nosso prazer, hieróglifos do sentimento, signos revisitados. O processo criativo de um artista é tão inescrutável quanto a paixão. E descobrir como trabalha uma coreógrafa que elegeu um grupo de artistas, para juntos recriarem o mundo segundo sua própria percepção, é tão fascinante quanto a hipótese de descobrirmos o que se passa do outro lado do arco íris. Primeiro vem o espaço. O espaço povoado de idéias e de sombras. Como descobrir nessas sombras o gesto exato? Os dançarinos, não são apenas a tripulação de uma viagem perigosa e tortuosa por mares nunca dantes navegados. Os dançarinos são, eles próprios, o mar. As ondas e os rochedos – salva vidas num naufrágio e a própria causa do naufrágio. Os dançarinos são o fim e o meio de se chegar a ele. E vêm as novas idéias, surgidas do mapa original que se
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desejava seguir. Estrelas a indicar novas rotas por onde se deve guiar a nau. Novas idéias. Ligar os sentidos - essas forças abstratas - a coisas concretas. Criar relações: a terra firme e o paladar; o som vem da água, de onde vem também o silêncio, gerado em suas entranhas. Pelo ar, se edifica o olfato; o cheiro também vem da carne, do fogo. O tato que se queima e quer queimar. A verticalidade do toque. A horizontalidade da visão. O olhar, que vence terras e ar, às vezes se enche de água para ver o mundo através de outro prisma, como o vêem as sereias enamoradas. Muitas ideias, muitas imagens. E os sons começam a germinar em algum canto do ouvido, onde só tem acesso o coração e o instinto. Onde está esta música que, mais que o palco, será o solo firme para o salto? Como dizer ao compositor para onde voltar os olhos? Que farol vai se acender para indicar a enseada? As músicas se chegam ao acaso, como os amantes que se encontram no banco do mesmo ônibus, quando deveriam ter ido em outra direção, ido de carro ou de trem. Mas algo fez com que o carro quebrasse e o trem não viesse e fosse necessário estar naquele ônibus, e sentar-se no único lugar vazio. Assim a ideia encontra a música. O gesto brotará então de uma sequência rítmica, de uma série de sons que se sucedem como para chegar a um lugar qualquer. Passo a passo. Passo a passo as coisas vão chegando, as cores preenchem as formas, o tempo preenche a espera de um cenário que virá. Virá do encontro de audição e paladar (que palavras são como alimento na boca em que se formam e no ouvido onde se deitam). De língua e ouvido e de olhares surge o sítio onde a poesia habita, avistado por um cenógrafo, argonauta também em busca do velo de ouro.
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Surge um cubo translúcido e denso como o gelo. É preciso que seja incendiado pela paixão. É preciso que coreógrafa e músico e dançarinos e iluminador se apaixonem por ele e o enfrentem. É preciso que a paixão seja maior que o medo do desconhecido. O medo do ato, do orgasmo iminente que leva à loucura súbita. É preciso enfrentar o medo de que a loucura momentânea leve para sempre a razão - irmã gêmea da paixão – e nos deixe, sós e pequenos, diante do aliado a ser vencido para que caminhe ao nosso lado. A tarefa de um artista não é desvendar o mistério, mas recriálo e nos fazer dele oferta em uma bandeja de prata, para ser beijado na boca e, com a língua renascida, nos seduzir com a eterna promessa de que pode um dia ser decifrado. A tarefa de um artista é nos levar a nos reconhecer na poesia. Nos fazer, surpresos, perguntar porque a beleza não é a meta principal de nossa vida? Quando se é um grupo, quando se é uma equipe de valorosos cavaleiros que se lançam ao abismo, suicidas, kamikazes. Quando se é um exército de samurais que, não se sabe bem porque, estão juntos, inteiros de corpo e alma, para sangrar a imaginação, a tarefa do artista é gloriosa. Novos alfabetos são criados, frases, palavras, fonemas. Só os tolos pensam estar vendo as mesmas figuras, quando giramos o caleidoscópio. Elas não se repetem jamais: os mesmos fragmentos se reagrupam para sempre nos mostrar novas paisagens, insuspeitadas. Em CO2 vê-se as três mulheres do destino enredando um pequeno homem, marionete dos desejos e da paixão. Saídos de 200 e poucos megabites, estão novos e surpreendentes ali. As capas de chuva amarelas de Sagração da vida toda, com outra
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cara, continuam a ser mordidas por tentarem inutilmente envolver e proteger os corpos dos toques, e a substituir as peles; e são jogadas no chão para não esconderem aos olhos o que não pode deixar de ser visto... A beleza de rever o já visto de outra forma é como olhar e descobrir que aquele a quem se olhava não é mais o mesmo. Porque algo se instalou agora entre nosso olho e o objeto de nossa paixão, que não é mais do que objeto, como também somos objeto. O sujeito é a paixão. Como a arte é o sujeito, e o mundo foi criado só para que os poetas pudessem nos mostrar como ele é. Ou deveria ser. Ai, quantas metáforas podem ser construídas a partir do desejo de desvendar o oculto gesto de criar de um grupo de artistas. Tantas quantas eles são capazes de criar para nos revelar a paixão, sem explicá-la e sem querer entendêla. Tantas metáforas quantas são as possibilidades, que tem cada ser apaixonado que está na platéia, de remontar o jogo de armar que se forma dentro e fora e em cima e do lado e na frente e atrás desse cubo de cinco faces – cinco sentidos. São tantas metáforas quantas são as maravilhas que eles criam. E recriam.
Salvador, 09 de julho de 2000
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CO2 – CINCO SENTIDOS E UM POUCO DE MIRAGEM Dança Companhia Viladança Roteiro, direção e coreografia: Cristina Castro Música: Jarbas Bittencourt Músicas coladas: Dr Diag, Art Zoyd, Francisco Alves, Mickey Hart e Bocas do Inferno, Cenário: Moacyr Gramacho Luz: Valmyr Ferreira Projeto gráfico: Luciana Aquino e Marcio Meirelles Direção de produção: Antrifo Sanches Produção: Viladança Elenco de estréia: Clênio Magalhães, Eduardo Pinheiro, Isis Carla, Jairson Bispo, Líria Morais, Maitê Soares, Roberto Montenegro, Sérgio Dias e Sílvia Costa Estréia: 20/07/00 Teatro Vila Velha II TRÓFEU COELBA DE REPORTAGEM Evento Concepção, roteiro e direção: Marcio Meirelles Texto: Gordo Neto Vídeo: Marcos Povoas e Sofia Federico Apresentação: Fábio Lago Participação: Chico Cézar Estreia: Bahia Marina Contorno 10/11/00 VIAGEM À ALEMANHA Viagem de intercâmbio a convite do Instituto Goethe para manter contato com instituições e artistas de teatro alemães. Cidades visitadas: Munique, Wuppertal, Frankfurt, Hamburgo, Weimar, Dresden, Leipzig e Berlin 20/02 a 11/03/00
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A revista Guia do Ócio, uma agenda cultural comentada, editada pelos parceiros Shirley Pinheiro, Marcelo Dantas e Antônio Moreno, da Companhia de Comunicação, me convidou para escrever um pequeno artigo sobre meu ócio: A CONQUISTA DO ÓCIO Meu ócio é uma conquista. É preciso vencer uma batalha árdua comigo mesmo, com o teatro, o Vila Velha, as atividades paralelas. É preciso vencer a angustiante necessidade de deter a inexorável marcha do tempo, para ter o ócio como troféu. Há muito tempo não sabia o que é um longo período de não fazer nada. Aliás, esta dupla negativa da língua portuguesa é muito engraçada. A lógica nos diz que quando não fazemos nada na verdade é porque estamos fazendo alguma coisa. E é o que acontece comigo: quando deveria fazer nada sempre faço alguma coisa. É o tempo que tenho para ler textos, assistir aos espetáculos em cartaz na cidade, ouvir músicas, organizar papéis, reler anotações. Coisas que, não fosse minha profissão, seriam lazer, no meu caso detonam processos criativos que acabam se configurando atividades de trabalho. Também aproveito esse tempo para escrever artigos, responder e-mails e executar tarefas domésticas como fazer supermercado, colocar em ordem contas, recibos e essas pequenas coisas que nos colocam sempre em contato com a realidade cotidiana, como se ela fosse mais importante que o mundo todo, tão intricada que é e tão cheia de detalhes e caprichos. Portanto, tomei uma resolução nesse fim de ano. Fui para Itaparica e passei três dias de nada. Três dias de andar quilômetros pela praia e comer peixe e olhar o mar e o céu e dormir e acordar e ver o tempo passar sem medo dessa passagem, sem a angústia de estar sendo improdutivo ou inútil para o avanço do mundo e aperfeiçoamento da raça humana. Passei três dias comigo mesmo e fui uma companhia agradável. Esse foi o meu presente de natal: a decisão de me dar mais momentos assim de fazer nada e tanto. Venci a necessidade de ganhar a vitória na impossível guerra contra o Tempo. Salvador, 10 de fevereiro de 2000
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MUDANÇA DE CENA II – O TEATRO CONSTRUINDO CIDADANIA – Conferência internacional MÉTODO DO BANDO – Workshop Orientador de workshop: Marcio Meirelles Coordenação do projeto: Paul Heritage Coordenação executiva: Ana Andrade, Nara Garrido, Paula Cordeiro e Raquel Araújo Coordenação artística: Iluminata Rangel e Lucilene Carvalho Torres Realização: The British Council, Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado de Pernambuco e Queen Mary/Universidade de Londres Recife (PE) 21 e 22/09/00 CAMPEONATO BAIANO DE FUTEBOL 2000 Homenagem com a nomeação TROFÉU MARCIO MEIRELLES ao prêmio para o campeão da Supercopa Promoção: Federação Baiana de Futebol Entrega dos troféus: 09/07/00 Teatro Casa do Comércio (SSA – Ba)
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INTERNATIONAL COLLABORATIONS FOR LIVE PERFORMANCE: GLOBAL AIMS/LOCAL GAINS? Seminário internacional Orientador de workshop Orientadores de workshops: Elyse Dodgson (Royal Court Theatre – Londres), Marcio Meirelles, Michael Morris (Art Angel and Cultural Industry – Londres) Coordenadores de foruns e seminários: ngela Mc Sherry (LIFT), Anne Torreggiani (LIFT), John Keiffer (The Britsh Council), Rose Fenton (LIFT) e Tony Fegan (LIFT) Coordenação do seminário: LIFT (London International Festival of Theatre) Realização: The British Council 26 a 31/03/00 Toynbee Hall e Trinity Buoy Wharf (Londres) PRÊMIO MULTICULTURAL ESTADÃO 2000 Integrante do colégio eleitoral Criadores eleitos: Ferreira Gullar, Antônio Araújo, Marilena Chauí e Milton Santos Fomentador eleito: Projeto Guri 20/06/00 SESC Pompéia (São Paulo – SP)
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SEMINÁRIO TEATRO E INTEGRAÇÃO – PARA ONDE OS VENTOS SOPRAM? Seminário 13/09 Painel: O teatro português hoje Palestrantes: Antônio Augusto Barros (Coimbra – PT), José Carlos Farias (Èvora – PT) e Rui Madeira (Braga – PT) Palestra: O teatro africano de língua portuguesa hoje Palestrantes: José Mena Abrantes (Luanda – Angola) e João Machado da Graça (Maputo – Moçambique) 14/09 Conferência: O teatro brasileiro hoje palestrante: Alberto Guzik (São Paulo – BR) Painel: A integração do teatro de fala brasileira Palestrantes: Luciano Alabarse (Porto Alegre – BR), Marcio Meirelles (Bahia – BR), Sebastião Milaré (São Paulo – BR) e Silvana Garcia (São Paulo – BR) 15/09 palestra: O teatro latino-americano hoje Palestrantes: Ileana Caballero (Cidade do México – México) e Jorge Dubatti (Buenos Ayres – Argentina) Painel: A integração do teatro nos países latino-americanos Palestrantes: César Campodónico (Montevidéo – Uruguai), Ileana Caballero (Cidade do México – México), Jorge Dubatti (Buenos Ayres – Argentina), Juan Carlos Burgos Drogett (Santiago do Chile), Reinaldo Montero (Havana – Cuba) e Santiago Garcia (Bogotá – Colômbia) Mediadores: Fernando Peixoto e Luiz Paulo Vasconcelos Coordenação: Luiz Paulo Vasconcelos Realização: Secretaria Municipal da Cultura / Prefeitura de Porto Alegre 13 a 15/09/00 Teatro Renascença (Porto Alegre – RS)
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O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.
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apoio financeiro