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um artista de província
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um artista de província
marcio meirelles
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de onde se explica um livro de sombras de teatro que é um fractal http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/maio2013/matematica_artigos/dissertacao_nunes.pdf
este é o primeiro livro que faço de outros participei e outros foram antes peças para o teatro que acabaram no papel este faz o caminho inverso e nem vai ao papel fica numa plataforma virtual para existir assumiu o lugar de encenação é uma colagem é um livro maleável fluido sempre em movimento um livro mais dramaturgia e montagem do que livro objeto que se coloca na estante depois de ler livro que é multiforme polimorfo feito de muitas tonalidades feito de fragmentos de memórias reais recriadas relidas redescobertas notícias reconstruídas que não sei se lembro mas foi e de memórias que não lembro mas leio agora e me surpreendo então foi assim um livro de memórias coletivas de tempos por onde passamos muitas muitos e eu construímos eventos assuntos ações teatro e outras artes linguagens um artista de província – de um quase balneário que está sendo despedaçado até quase virar quase nada restos de um lugar que já não é – não quis deixar a bahia e morar em outro lugar
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foi uma escolha política opção devolver ao lugar o que tirei dele para criar devolver às vozes que ouvi o som que me emprestaram devolver às raízes que me deram a possibilidade de germinar e frutificar o sumo a seiva para fabricar as folhas e frutos por isso todas as fichas técnicas e dados do que fiz participei colaborei onde estive todos os nomes e dados e datas e locais que estão registrados uma multidão está ali e governantes e alguns acontecimentos que nos dizem o que se passava enquanto passou uma geração e outra e outra e muitas anteriores e posteriores muita gente um período do teatro 17 anos até chegar ao palco e quase 50 sem sair dele nele um que pensa encenador ator gestor técnico espectador desenhador livro registro referencia para ser livros estudos do que fizemos neste tempo neste lugar teatro do mundo 29 quase 30 de agosto do funesto ano de 2021 marcio meirelles
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parte ii
SURGEM CAM
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MINHOS
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Esse é o período do ginásio e do colegial, que correspondem hoje ao Ensino Fundamental II e Ensino Médio. Período de descobertas e produção, referências e experimentos. De ter saído um pouco do colo, estar com o pé fora de casa, fora da caixa, fora do ovo. Período em que todas aquelas influências, imagens, exposições e recepções já eram memórias e já tinham sido deglutidas e transformadas em novas formas, novos discursos estruturados e estruturantes para o jovem futuro artista. Período fundamental, onde foram encaminhadas decisões só tomadas de fato mais tarde. Tudo caminhava para uma carreira nas artes visuais. Até o vestibular, quando era preciso escolher uma “profissão” e arte não era uma “profissão”. Pelo menos não segura, não tranquila ou promissora, capaz de trazer estabilidade. Era preciso escolher. A família que sempre me incentivara a ser artista, agora me exigia uma outra carreira, me incentivavam a seguir advocacia, fazer Direito, como meu pai e minha tia. Mas não, eu não seria feliz. Talvez. Pelo menos não seria feliz durante o período de aprendizado. Eu queria artes, meu teste vocacional estourou em artes, com muito mais pontos do que para a segunda opção, que não lembro mais qual foi. A saída era a Arquitetura. Um meio termo, uma quase arte, uma às vezes arte. Mas profissão séria e reconhecida. Não tanto quanto Engenharia, mas ainda assim, profissão. E foi para Arquitetura que me inscrevi no vestibular, foi para o que me preparei. Talvez não tanto quanto o necessário, mas me preparei. Nesse período complexo e terrível, de mudanças radicais a partir do golpe civil/militar de 1964, foi sufocado o que poderia ter sido um novo futuro brilhante para a Bahia em termos de desenvolvimento global, social, econômico, cultural e humano,
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com a era de ouro da vanguarda de pensamento instalada aqui, com uma produção artística digna da centralidade que tínhamos, não para competir com o eixo Rio/São Paulo, mas para criar a possibilidade de outros centros, outros eixos, de corrigir o curso da história colonial e criar outras possibilidades de desenvolvimento, uma retomada, uma nova contribuição para o mundo. Foram anos, para mim, de muitas informações. Tudo era novo. Mesmo que não o fossem tanto assim, eram para mim. Eu saia da infância e da adolescência e começava a invadir a juventude e me dedicar a experiências estéticas, à produção de discursos plásticos, poéticos, verbais, comportamentais. Começou aí a prática da performance, da fusão artista/atitude/obra. Ainda não era artista, ou era? Ou, voltando a pergunta, quando é que alguém vira artista, quando o exercício das linguagens deixa de ser jogo e passa a ser ofício? Algum dia? Poderia perguntar de outra forma: quando o ofício deixa de ser jogo? Ou, quando o exercício das linguagens deixa de ser ofício? Ou, o jogo e o ofício deixam de ser arte? Foi o período em que foram esboçados os caminhos. Muitas coisas foram inventadas. Conheci Chico Mazzoni na segunda série do ginásio, grande parceiro no caminho das artes visuais que cada um trilhou à sua maneira. Em um anexo em cima da garagem, no quintal da casa de seus pais, na Cidade Baixa, ele tinha um atelier onde criamos um movimento artístico, inventamos muitas coisas, começamos a desenvolver nossos pensamentos, posições e definições estéticas e nossas capacidades técnicas para produzir discursos visuais. Foi ali também o encontro com Jorge Santori, vizinho e amigo de Chico, futuro ator fundador do Avelãz y Avestruz. Foi onde pude conhecer e admirar sua personalidade única e brilhante, seus gostos, suas manias, seu mau humor, suas risadas, seus mitos
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pessoais que compartilhávamos. Jorge é um ator único, especial, com a capacidade enorme de criar tipos. É inesquecível sua participação nos espetáculos do Avelãz. No atelier de Chico ouvíamos música brasileira, Nara, Elizeth, Elis, Bethânia, Caetano, Gal, Carmen Miranda e uma licença para Libertad Lamarque, Carlos Gardel e outras. Somávamos aprendizados, descobríamos e inventávamos técnicas de pintura e outras técnicas. Tínhamos uma especial, a “vernissagem”, que consistia em fazer desenhos a pastel e passar camadas de verniz asa de barata derretido em álcool, com um pincel grosso, isso diluía o pastel e criava um efeito de que gostávamos.
http://antiguinho.blogspot.com/2021/06/uma-colecao-dedesenhos.html#comment-form Era também em seu atelier, ou nas vizinhanças, que desfrutávamos do convívio de jovens um pouco mais velhos do que nós, já universitários, vizinhos também de Chico, que dividiam conosco seus pensamentos revolucionários ou não. Nessa época, talvez em 1969, li Salomé, de Oscar Wilde. Fiquei completamente apaixonado pela filha de Herodíade e pela poesia hipnótica do texto. Construí na minha cabeça toda a encenação que esperava um dia fazer. A cena final, em que a princesa beija a cabeça decepada de Yokanaan, foi resolvida da seguinte forma: um coro de jovens trazia um tecido preto que seguravam esticando para criar uma superfície plana, como se fosse uma mesa, o tecido descia pelos lados do retângulo até o chão para cobrir o ator que fazia o profeta, ele viria dentro da “mesa”, só com a cabeça à mostra, como se estivesse cortada. Salomé se aproximava e dizia todo o seu
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monólogo e beijava a boca de Yokanaan. Em 1981, fiz Salomé, e o final era este mesmo final, sonhado aos 14 ou 15 anos. Esse período começa com Glauber e se encerra com ele. Dois manifestos separados por seis anos de pensamento e ação do cineasta. Diretrizes de uma revolução já em andamento naquela época e ainda possível. Ainda possível?
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1965
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Ainda que eu não tivesse tomado conhecimento e consciência, Glauber Rocha lançou Uma Eztetyka da Fome durante o congresso Terceiro Mundo e Comunidade Mundial, na cidade italiana de Gênova. O manifesto continha muito mais do que as bases poéticas e políticas do Cinema Novo, era um chamado para uma revolução. No Brasil, Glauber foi preso em um protesto contra o regime militar, no Rio de Janeiro. https://hambrecine.files.wordpress.com/2013/09/eztetyka-da-fome.pdf https://www.select.art.br/o-que-restou-da-estetica-da-fome/ O conhecimento e a consciência do discurso/pensamento de Glauber em seus filmes e seus textos foram e são condutores para mim. Entre os nossos caminhos há convergências, guardadas todas as diferenças, dimensões e proporções que existem entre nós. Ver e rever seus filmes, ler e reler seus textos, pensar e repensar seus pensamentos já me levaram a construir dois espetáculos onde ele é, explicitamente, o principal motor, Esse Glauber (2004) e Bakulo – os bem lembrados (2005), e a montar o único texto escrito por ele para teatro, Jango – uma tragedya (2014 e 2018). Esses caminhos continuam a me levar sempre a planejar novos projetos com ele. Houve muitas vezes uma contaminação energética dessa convergência de caminhos. Talvez o fato mais forte para mim tenha sido quando o governo brasileiro reconheceu sua culpa em relação à perseguição politica ao cineasta e aos danos causados a ele e aos seus, concedendo anistia e reparação póstuma. Um dia, recebi um telefonema do governo federal para me informar que a família havia escolhido o Teatro Vila Velha como lugar de realização do julgamento do processo, e a mim, para dirigir a cerimônia. Se eu aceitaria? Sim. Então
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eu deveria acertar os detalhes com Paloma Rocha, filha do cineasta, com quem tenho uma relação de afeto, desde que ela era adolescente, por causa de sua mãe, a atriz Helena Ignez. Liguei e ela me disse, entre outras coisas, que a cerimônia estava marcada para o dia 26 de maio. É o meu aniversário e em 2010 seria uma quarta-feira, como foi quarta-feira o 26 de maio de 1954, dia em que nasci. Falei dessas coincidências todas pra ela: eu, o Vila, a data... e ela respondeu: “Bom, isso é com você e Glauber, resolva com ele”. Em 1965, foi decretado o Ato Institucional n° 2, que extinguiu os partidos políticos no país. Portanto, daqui em diante não cito mais os partidos dos governantes, salvo quando não forem da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Nelson de Sousa continuou prefeito. Antônio Lomanto Jr. continuou a governar o estado. Humberto Castelo Branco continuou presidente. Os três mantidos no tabuleiro pelo golpe militar. Ingressei como aluno da 1ª série ginasial no Colégio Nossa Senhora da Vitória dos Maristas, um colégio católico, só para meninos. Em tudo era diferente e igual ao 2 de Julho. Diferente porque era só para meninos e não misto e porque era católico, não batista. Igual porque ambos eram religiosos e porque o novo era também um colégio grande, com quadra de esportes e muitos e muitos alunos e professores. Eu e meus irmãos entramos no regime de semi-internato, como o turno integral se chamava na época. Depois da aula, almoçávamos no refeitório. Um momento de lazer e a seguir íamos para uma sala muito grande, fazer os deveres e estudar as lições, com todos os internos, orientados por um monitor, um aluno mais velho. Interrompíamos para o lanche, na
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cantina, voltávamos para concluir as lições e íamos para casa. Isso aconteceu somente por um ano. No próximo ficaríamos somente no turno da manhã. A minha turma, 1a série C, ficava numa espécie de torre, no terceiro andar, onde só tinha nossa sala e um corredor que levava ao dormitório dos internos. Uma escada descia diretamente para o fascinante laboratório de ciências no segundo andar e, continuando a descer, faceava a cantina no térreo. O primeiro aparelho de televisão com o qual tive contato foi o de um vizinho que morava ao lado da nova casa do meu avô, na Barra, Dr. Edmundo Nogueira, pai de meus talvez primeiros amigos, Edinho e Paulinho e, soube recentemente por acaso, tio de Sonia Robatto. Era a única TV acessível no entorno, então nossa turma ia lá, no início da noite, assistir a alguma coisa. Éramos televizinhos. Víamos desenhos de Hanna/Barbera, a série em desenhos dos Beatles, Disneylândia, Histórias Maravilhosas Bendix e Shindig! Não sei se nessa ordem, nem se eram esses mesmos nessa época. Pelas datas de cada série, talvez não. Mas foram importantes para mim. https://www.youtube.com/watch?v=KdO4TP21Xys https://www.youtube.com/playlist?list=PLFHHXrOR1Kw5DkHS3gtpgmitAtMIb9IE5 Depois, houve um televisor Invictus no apartamento de minha mãe. Ficava na sala, em cima de um aparador de pés palito. Foi o primeiro que tivemos e era portátil, uma novidade e evolução, embora sempre tivesse muitos problemas de transmissão. Reclamávamos e nos irritávamos como reclamamos e nos irritamos muito com a internet e os celulares hoje em dia. Para conseguir melhores resultados, precisávamos às vezes enrolar na antena um pedaço de Bombril, uma lã de aço que
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acabou ganhando o nome de um dos seus fabricantes, como grampo de cabelo, Miss; lâmina de barbear, Gilette; esmalte de unhas, Fátima; absorvente íntimo, Modess, e por aí vai. Na casa de meu avô tinha um televisor também. Mas era grande. Um móvel, não um eletrodoméstico portátil. Tinha uma sala só para ele, contígua à de jantar, onde algumas poltronas eram organizadas numa semiarena em sua frente. A TV Record lançou “Jovem Guarda”, mais do que um programa, um movimento, um estilo de vida, um escape para a juventude. Muitas das músicas apresentadas eram versões de sucessos estadunidenses ou europeus. Os playboys e os brotos entraram na moda. O papel da mulher era o de coadjuvante, desde suas cantoras, de comportamentos aparentemente rebeldes, mas conforme o permitido. O programa durou até 1968. Não tínhamos acesso a ele porque não era retransmitido pela única emissora de televisão de Salvador, a TV Itapoan. Acompanhei o movimento pelas revistas e através de muitos LPs e compactos. Fazia álbuns de recortes com retratos dos artistas e colecionava toda memorabília que conseguia juntar. Tinha roupas e adereços, cintos, anéis, sapatos da linha Calhambeque, de Roberto, ou Tremendão, de Erasmo Carlos. Era fã de todos eles, especialmente de Wanderléa. Um ou dois anos depois, aos 12 ou 13 anos, ia aos shows que aconteciam no Cine Nazaré, acompanhado por Frieda Gutmann, a futura atriz ainda adolescente, três anos mais velha que eu, filha de um casal amigo de Jurema e de minha mãe.
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https://www.youtube.com/watch?v=3-eG80NUq70 https://www.letras.mus.br/blog/historia-da-jovem-guarda/
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O Ato Institucional n° 3 foi decretado. As eleições para governadores e vice-governadores passaram a ser indiretas e os prefeitos nomeados. Nelson de Sousa continuou a gerir a cidade. Antônio Lomanto Jr. continuou a governar o estado. Humberto Castelo Branco continuou presidente. As três peças continuaram a ser mantidas. Entre os atos perpetrados pela ditadura em seu modo inicial, ainda disfarçada de constitucionalidade, Luís Carlos Prestes, o líder do Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi condenado a 14 anos de prisão. Além da censura, cassações, perseguições, prisões e desaparecimentos. Mesmo o jogo tendo mudado muito, em meio a tudo isso ainda foi possível mais uma conquista da luta da classe trabalhadora, com o estabelecimento, por meio de lei, do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Em Salvador, foi possível a realização da I Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia, com o contraditório apoio do governo do estado. A Bienal, criada por Juarez Paraíso, Chico Liberato e Riolan Coutinho, descentralizou as atividades artísticas do eixo Rio-São Paulo para Salvador e Nordeste, colocando-nos na rota dos principais artistas de vanguarda e suas obras. Reparo agora que os três foram meus professores, o último na UFBA e os outros dois numa oficina realizada pelo Instituto Goethe. http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento81697/1a-bienalnacional-de-artes-plasticas http://cadernodecinema.com.br/blog/1a-bienal-da-bahia-1966/
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Visitei a Bienal no Convento do Carmo. Um choque e revelações. Entre muitos outros: Mário Cravo Neto, Hélio Oiticica e Ligia Clark. E de uma forma especial e afetiva: Lênio Braga. Ele tinha feito o material gráfico para o Mambembando, de Jurema Penna e, através dela, conheci o artista. Em minha memória sua casa era uma espécie de castelo de pedra num penhasco à beira do mar, em Ondina. A casa foi derrubada pela especulação imobiliária e pelo conluio entre coisa pública e privada que se confundem neste município. Emparedaram o mar e a visão dele, ao contrário de outras cidades, onde é um patrimônio público, foi privatizada. No meio da sala da casa-atelier de Lênio havia um piano de cauda, em cuja caixa vazia foi adaptado um toca-discos. A estrutura das cordas ele retirou para transformá-la na peça Pede-se tocar (para os artistas mortos), que figurava na I Bienal da Bahia ao lado do Colecionador de primitivos e do premiado Monalisa e Moneyleague. http://www.leniobraga.com.br/quadros-2/quadros/ http://www.leniobraga.com.br/ http://www.dicionario.belasartes.ufba.br/wp/verbete/lenio-braga/ Aos 12 anos, já conhecia os Beatles e ia e voltava à escola de ônibus, sozinho ou com os colegas. Tinha permissão para isso e também para ir ao cinema e fazer outros percursos conhecidos. Um dia algum professor faltou e fomos liberados. Não quis esperar me buscarem de carro e fui de ônibus para a casa de meus avós, para aproveitar a hora livre em jogos com colegas ou ir à piscina. Perdi o ponto onde deveria saltar e segui até o próximo, no fim de linha. Saltei e fui atropelado por uma Kombi que fazia transporte público.
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Fiquei quatro dias em coma e a primeira coisa que lembro é de Dr. Edmundo, o médico vizinho. Conversava com quem estava no meu quarto enquanto eu saia daquele estado, daquele lugar, e não lembrava de nada do que tinha acontecido. O que ficou muito claramente do retorno, as primeiras coisas que vi e lembro no hospital: uma revista com a história dos Beatles quadrinizada e um estojo de lápis de cores, com muitos lápis de muitas cores, inclusive um dourado e um prateado. As coisas não voltaram rápido, fui pra casa de meus avós e fiquei de cama, fiz muitos eletroencefalogramas, muitas consultas, muitos exames. Tudo foi ficando bem, mas tudo era diferente. Não consigo explicar mas, a partir do acidente que apaguei e do coma, sinto que me transformei. Minha relação com o mundo se alterou não sei o quanto nem como. Sei que se alterou. Não posso me lembrar do que ocorreu, mas é como se lembrasse. A memória do acidente foi toda reconstruída a partir dos relatos dos outros. Me vejo saindo do ônibus para atravessar a rua e passando pela traseira dele, que estava parado. Não tinha a visão da rua e atravessei. Uma Kombi vinha na direção contrária à do ônibus e me pegou. Minha cabeça quebrou um farolete do carro e meu braço amassou a porta. Imagino minha mãe saltando na porta da escola para me buscar, e os padres e alguns colegas contarem o ocorrido e dizerem em que hospital eu estava. Ela correndo para lá. Não sei como ficaram ela, meus avós e minha tia durante os quatro dias em que eu não estive aqui. Lembro da alegria deles quando voltei. E lembro da revista com os Beatles e o estojo de lápis de cores. Um tempo depois soube que o motorista da Kombi morreu ao tentar salvar o sobrinho que estava se afogando na praia.
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Convalescendo na casa de meus avós, com todos os cuidados necessários, um dia recebemos a visita de Jerry Adriani. Que entrou, não sem o reboliço dos vizinhos e parentes, sentou-se em uma cadeira perto da minha cama, foi muito simpático, conversou comigo, pegou o violão, perguntou-me que música queria que cantasse e escolhi Ninguém poderá julgar-me. Ele cantou essa e talvez mais outra e, muito gentil e jovial, se despediu. Minha família ficou imensamente reconhecida a ele e atribuíram a minha recuperação à sua visita. Jerry Adriani estava em Salvador, hospedado no Palace Hotel, para fazer um show. Um dos sócios do hotel era namorado de minha mãe. Contou a ele do acidente e o levou para me visitar. E um dos ídolos da Jovem Guarda foi à minha casa. A conversa e as canções foram gravadas numa fita de rolo que se perdeu. https://www.letras.mus.br/jerry-adriani/321048/ Na segunda série, fui colega de sala do artista Chico Mazzoni, temos a mesma idade e nos tornamos amigos. Ele desenhava muito bem e tínhamos gostos, interesses e referências culturais parecidos. Estabelecemos um relacionamento de trocas artísticas, estudo, vivências e visões de mundo que durou muitos anos de convívio quase diário. Chico era um diferencial naquele colégio de elite, assim como Hugo Maia, que já era aficionado pelas ciências e se tornou um renomado cientista e médico. Formávamos um trio. Hugo admirava nosso trabalho artístico e nós, o seu gênio científico. Passávamos juntos os intervalos, confabulando, rindo, aprendendo, confidenciando, trocando ideias entre nós e frequentávamos as casas um do outro, para estudar, às vezes dormir, passar o dia. Éramos uma turma, embora as afinidades artísticas fizessem com que Chico e eu fossemos mais próximos. https://www.chicomazzoni.art.br/
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Adultos, continuávamos a nos ver, ele é padrinho de meu filho mais velho. Mas, como acontece, nossas vidas tomaram rumos diferentes e nos afastamos durante muitos anos. Vimonos algumas vezes por acaso, em ocasiões. Recentemente reencontrei Chico. Fui à sua casa presenteá-lo com muitos desenhos que ele tinha feito e me dado, quando adolescente, que guardei com os meus, juntos, como alguns deles foram feitos. Nós dois, às vezes, desenhávamos e pintávamos lado a lado, em papos infindáveis, ouvindo música, muita música. Ao desenharmos durante as aulas, separados cada um em sua carteira, nos intervalos geralmente mostrávamos um ao outro o que fizemos. Foi muito bom ver seus olhos reencontrarem aqueles trabalhos há tanto tempo esquecidos.
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A partir de fevereiro, tivemos nosso 53o prefeito, Julival Pires Rebouças, por 11 dias. E então cumpriu-se o rito: foi indicado pela Câmara Estadual, aprovado pelo governador Lomanto Junior e nomeado pelos militares o 54o prefeito da cidade de Salvador. O então deputado federal, Antônio Carlos Magalhães, ocupou seu primeiro cargo executivo. Pela sua ligação com os militares, seria depois nomeado governador da Bahia por duas vezes, embora tenha se mantido no poder durante por pelo menos mais 40 anos consecutivos. Ele simbolizava e representava a elite baiana. E a classe média, que sempre se imagina elite, se via nele. O “painho” que resolvia tudo com dinheiro na mão e um chicote na outra, como afirmou. ACM soube manipular os símbolos, as paixões, as frustrações, a religiosidade e inclusive os artistas para moldar uma Bahia aparentemente feliz e receptiva. Por isso estabeleceu-se uma era denominada carlista. Não foi um esforço só dele, mas uma aceitação, e um desejo perverso nosso. Porque, quando teria sido possível mudar o rumo dos ventos, o elegeu e aos seus candidatos por voto direto. Ele realmente representava e atendia a um sentimento colonizado genuinamente baiano, de submissão ao patriarca/coronel colonial. Sentimento que, de outra forma, se projeta em seu neto e mantém a dinastia no poder. No dia 4 de março, quase dez anos depois do previsto, o Teatro Castro Alves foi inaugurado, com sua arquitetura moderna, bem equipado, com a presença do prefeito, Antônio Carlos Magalhães, de Luiz Viana Filho, o 36o governador, e do quase ex-presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, que entregaria o cargo dali a 11 dias e morreria quatro meses e 14 dias depois. Abrilhantaram também a inauguração muitas autoridades, o artista Dorival Caymmi e a elite baiana, que tinha agora seu teatro dimensionado para óperas, coisa
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que Salvador não estava preparada para fazer, e onde era obrigatório o traje passeio completo, quando não “blequetai”. O General Artur da Costa e Silva é eleito o 27o presidente do Brasil. http://memorialdademocracia.com.br/card/costa-e-silva-e-eleito-presidente Com a revogação da constituição democrática de 1946, foi outorgada pelos militares uma nova, que de certa forma incorporava os atos institucionais de um a quatro. Foi criada a Lei de Imprensa, que impôs a censura. http://memorialdademocracia.com.br/card/ditadura-impoe-a-sua-constituicao O cirurgião sul-africano Christiaan Barnard realizou na Cidade do Cabo, o primeiro transplante de coração humano. E uma foto sua, tirada de alguma revista, foi colada na porta do meu armário, junto com os outros revolucionários que me inspiravam. Ia aos instigantes concertos de música erudita contemporânea no Salão Nobre da Reitoria. Era apresentado um repertório de peças de compositores baianos e internacionais compostas em outros tons, em outras escalas e conceitos, diferentes do que estava acostumado a ouvir. E que me educaram a assimilar outras estruturas musicais e, com isso, a diversidade de possibilidades de organizar o mundo que influenciariam mais tarde meus processos criativos e dramatúrgicos. Glauber Rocha realizou o longa-metragem Terra Em Transe, apresentado no Festival de Cannes. O filme, que radiografava e ampliava os momentos recentes do Brasil, foi proibido e se tornou o manifesto de uma geração.
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1968 foi um ano de movimentos, apesar de Antônio Carlos Magalhães, Luiz Viana Filho e Artur da Costa e Silva terem permanecido e o terror se implantado. http://memorialdademocracia.com.br/card/terror#page-3 https://www.brasildefato.com.br/2018/01/04/nos-50-anos-de-1968relembre-11-fatos-que-abalaram-o-mundo https://vestibular.uol.com.br/resumo-das-disciplinas/atualidades/1968-ocinquentenario-do-ano-que-abalou-o-mundo.htm Quando penso e quero falar sobre esse ano, minha memória entra em alucinação caleidoscópica. Muitas referências, muitas informações, muitas imagens, muitas experiências. É como se tudo voltasse de repente e mostrasse as marcas políticas, estéticas, afetivas, humanas que ficaram em mim. Seria preciso um livro inteiro para entrar de cabeça no ano de 1968 e falar sobre ele com a profundidade dessas marcas. Aqui vão flashes, estilhaços, fragmentos de algumas poucas coisas das tantas que aconteceram. Começo por Candolina Rosa, mulher preta magnífica, dona de repertório pedagógico, educacional, literário, cultural e humano impressionantes, que foi nossa professora de português e me iluminou com estilos literários, figuras de linguagem, interpretação de romances complexos, transposição da ordem inversa para a direta e análise sintática e semântica. Fizemos isso com o Episódio de Inês de Castro, dos Lusíadas, de Camões, com o Hino Nacional e outros textos. Lemos juntos Vidas Secas, de Graciliano Ramos, A ilustre Casa de Ramirez, de Eça de Queiroz, entre outros, e as situações, linguagens e personagens ganhavam vida e faziam parte de nosso cotidiano, enquanto os líamos. De vez em quando, ainda abrem minhas
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janelas para me visitar e lembrar de fatos, me indicar saídas. Lembro dela até hoje, nos ensaios de mesa, quando trabalho com os elencos em Shakespeare ou qualquer texto de teatro. Ela foi uma grande luz naquele colégio e naquele ano. Do outro lado da rua, estava o Colégio de Aplicação, experimento pedagógico da Universidade Federal da Bahia, onde eu gostaria de ter estudado, se não no Colégio Central, onde Candolina também lecionava. Nos encontrávamos com as alunas e alunos do Aplicação, nos intervalos das aulas ou na saída, nas calçadas da fronteira entre nossos colégios, merendando pastéis, bananasreais, refrigerantes, balas e outros, nos carrinhos de ambulantes e os admirava. Eram descolados, se manifestavam, iam às passeatas e nos chamavam através dos portões de nossa escola, fechados pelos irmãos maristas, para ir com eles. Esta imagem é muito intensa: um dia muito feroz das manifestações estudantis, nossas colegas do Aplicação e alguns universitários, que subiram do Campus para convocá-los, berravam e sacudiam os portões nos chamando e não podíamos nem sair das salas de aula sem a presença dos nossos pais, engarrafados no trânsito caótico para vir nos pegar. A vontade imensa era de estar do outro lado do muro e ir para as ruas gritar “abaixo a ditadura” e “o povo unido jamais será vencido”. Mas um dia fui. Num desses dias em que não tinha a última aula e eu saía mais cedo, encontrei uma passeata no meio do caminho e segui, muito feliz e revolucionário, caminhando e gritando e seguindo o percurso que daria numa experiência inesquecível: eu era parte de um coletivo em busca de um país livre, melhor, mais justo, democrático. As manifestações de rua foram proibidas em todo o país. E o funcionamento da Frente Ampla, movimento de políticos contrários
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à ditadura que unia ex-adversários como Carlos Lacerda, Juscelino Kubitscheck e Jango, foi expurgado, com prisões e exílios. https://pt.wikipedia.org/wiki/Frente_Ampla_(Brasil) Aos 18 anos, Edson Luís, estudante secundarista, foi assassinado por policiais militares, durante um confronto no restaurante Calabouço, ao participar de uma manifestação contra o aumento da comida no local. Seu assassinato gerou intensas mobilizações contra a ditadura. http://memorialdademocracia.com.br/card/mataram-umestudante-podia-ser-seu-filho Em maio, na França, estudantes iniciaram um movimento que reverberou outros em vários países. Exigiam “a imaginação no poder” e bradavam o “é proibido proibir” que Caetano Veloso transformou em canção-manifesto seguida de discurso antológico no III FIC, Festival Internacional da Canção, promovido pela Rede Globo. Quando penso nesse movimento, na França e no mundo, sempre me vem a Revolução Francesa e os movimentos quase simultâneos, gerados pelo mesmo espírito: a Revolta dos Alfaiates, a Inconfidência Mineira, a luta pela Independência do Haiti, a dos EUA.... http://memorialdademocracia.com.br/card/em-maio-emparis-a-imaginacao-quer-o-poder Em Praga, a primavera foi política, com reformas radicais que caminhavam para a descentralização da economia estatal, mais liberdade de imprensa e de expressão, a ruptura do dogma do partido único, uma Assembleia Nacional aberta a correntes políticas fora do Partido Comunista Tcheco. Eram
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flores, frutas e sementes que golpeavam o regime totalitário soviético e foram reprimidas brutalmente. http://memorialdademocracia.com.br/card/tanquesesmagam-a-primavera-de-praga Realizada no Rio de Janeiro a Passeata dos Cem Mil. Manifestação do movimento estudantil contra a ditadura, que contou com a adesão de artistas, operários e vários outros setores da sociedade. http://memorialdademocracia.com.br/card/passeata-doscem-mil-afronta-a-ditadura Decretado o Ato Institucional n° 5, o mais duro da ditadura, que aumentou a repressão e perseguição aos opositores, dando direito ao presidente-ditador inclusive de decretar o recesso do Congresso Nacional, das assembleias legislativas e das câmaras de vereadores, entre outras coisas. http://memorialdademocracia.com.br/card/ai-5-conferepoder-total-aos-militares https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/AI5 Com a vigência do AI-5, e com o consequente crescimento da repressão a artistas e intelectuais pela ditadura, a II Bienal da Bahia, realizada no Convento da Lapa, foi fechada e teve obras confiscadas pelos militares por serem consideradas subversivas. Algumas dessas obras desapareceram para sempre. A nova sede do Museu de Arte de São Paulo, na Avenida Paulista, foi inaugurada com a presença da rainha Elizabeth II. Em Salvador, a majestade britânica desfilou em carro aberto e pude vê-la passando, sorrindo e acenando para a povo.
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https://www.youtube.com/watch?v=omqvwhqvjgy https://blogs.ibahia.com/a/blogs/memoriasdabahia/2012/07/29/ a-visita-da-rainha-elizabeth-a-bahia/ https://rainhastragicas.com/2013/06/16/1968-arainha-elizabeth-ii-visita-o-brasil/
Martha Vasconcellos tornou-se a segunda brasileira a conquistar o título de Miss Universo. Como foi moradora da nossa rua, os vizinhos fizeram uma homenagem a ela. Cotizaram a compra de uma joia que foi entregue em recepção na casa de meus avós que, para a ocasião foi cedida, a pedidos. Ela passou rapidamente, recebeu o mimo e seguiu espalhando sua beleza mundo afora. Talvez tenha tomado um cafezinho antes. Martim Luther King, um dos principais nomes da luta antirracista e pelos direitos civis nas décadas de 1950 e 1960, o pastor, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, que caminhava para uma luta aberta contra o capitalismo gerador de muitas destas pautas, foi assassinado em decorrência da sua atuação política. https://www.newsmuseum.pt/pt/bad-news/assassinato-demartin-luther-king Ter ouvido e visto o álbum/manifesto Tropicália ou Panis et Circenses quando foi lançado foi uma coisa acachapante, uma mudança definitiva de referenciais. A combinação sonora era surpreendente mesmo que Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band já tivesse chegado aos nossos ouvidos. Tropicália ia além, sua capa, criada por Rubens Gerchman, nos provocava:
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Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé, além dos poetas Capinam e Torquato Neto e do maestro Rogério Duprat, numa foto de família, evocam imagens contrastantes que se complementam e se atritam, nos chamam para um Brasil profundo e futuro e clamam por um Brasil melhor. O trabalho dos artistas daquele álbum e do movimento que alavancaram foi um marco, talvez impossível de se repetir hoje com os veículos de mídia que temos, capazes de produzir e difundir uma proliferação de músicas aos borbotões absorvidas por um mercado ávido que rapidamente os absorve e trabalha, lançando milhares de novidades diárias, numa avalanche de novos conteúdos, que impedem que qualquer coisa tão inusitada quanto a Tropicália volte a nos atravessar como um índio. Logo depois de comprar o álbum, o futuro cineasta Edgard Navarro, então também estudante dos Maristas e colega de meu irmão, esteve em nossa casa. Chamei-o, coloquei o long-play na minha vitrola portátil, sentamos para ouvir. Ele segurava a capa e olhava para aquele temporal que explodia em suas mãos sem que o limite bidimensional de cartolina envolto em plástico pudesse controlar. Aos primeiros sons, o mesmo deslumbramento inundou seu espírito. Também foi um choque. Em algumas conversas mais recentes que tivemos ele lembrou que fui eu quem lhe apresentou a Tropicália.
https://radiobatuta.com.br/especiais/ja-nao-somos-comona-chegada-os-50-anos-de-tropicalia-ou-panis-et-circencis/ https://www.tropicaliaviva.com/post/tropicalistas-na-tv15-hist%C3%B3rias-sobre-o-programa-divino-maravilhoso
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Os tropicalistas lançaram outros álbuns individuais, com repertórios, arranjos e capas na mesma direção. A participação deles nos festivais de música da TV Record (que eu acompanhava excitado pela TV e pelos discos com as finalistas lançados logo a seguir), eles, em vídeos comerciais, no Momento 68: Tropicália (um dos desfilesshow da Rhodia) e em outros desfiles e editoriais de moda, em programas do Chacrinha, em outros shows, tudo isso e O Rei da Vela, do Oficina, Terra em Transe, de Glauber, as Bienais, o Cine Tupy, com uma instalação delirante de Juarez Paraíso, em seu foyer, inaugurado com o lançamento de 2001, uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick, na primeira tela de cinerama da Bahia, compunham um universo que me torrava os miolos e revolucionava os hormônios e me fazia produzir poemas, peças plásticas, atitudes, comportamentos que definiram inícios de caminhos. https://www.youtube.com/watch?v=Fa2dYVQ5RvE http://asnamanga.com/trio-eletrico-arte-moda-brasilidade-apos-folia-ultimachamada-para-colecao-masp-rhodia-em-cartaz-em-sao-paulo/ https://www.academia.edu/23231660/ARTE_EM_DESFILE_A_PUBLICIDADE_DA_ RHODIA_S_A_E_O_SHOW_MOMENTO_68_TROPIC%C3%81LIA_ Roda Viva, peça escrita por Chico Buarque e dirigida por José Celso Martinez Correa, considerada uma das mais importantes da década de 1960 pelo seu teor anárquico e revolucionário, foi atacada por membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), grupo formado por estudantes e policiais de direita, que invadiram o Teatro Ruth Escobar, espancaram o elenco e destruíram o cenário com a tentativa de destruir a arte de esquerda, o pensamento livre, o voo possível. Continuei a dar http://memorialdademocracia.com.br/card/ccc-volta-a-cena-em-ataques-a-teatros
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passos como artista visual. Um deles foi a participação na II Exposição Intercolegial de Artes Plásticas, uma realização dos grêmios dos colégios Maristas, Antônio Vieira, Dois de Julho, Aplicação, Sacramentinas, Salete, Mercês e São José onde expus dois desenhos: um retrato de Ruy Barbosa e outro de Castro Alves. O de Ruy foi premiado. A exposição aconteceu entre os dias 21 e 27 de outubro no prédio manuelino do Gabinete Português de Leitura. Outro passo foi uma ilustração – uma Virgem Maria – publicada no Boletim APAMEMA #6, ano IX, da Associação de Pais e Mestres do Colégio N.S. da Vitória, em novembro. A UFBA e a Fundação Caloust Gulbenkian realizaram o 1º Festival do Barroco na Bahia. Não sei como soubemos, Chico e eu. Talvez estivéssemos interessados no assunto depois das aulas de Candolina sobre o estilo e algum cartaz em algum lugar nos chamou a atenção. O fato é que fomos a todos ou quase todos os eventos. Para isso, éramos liberados das aulas, incentivados e apoiados pela professora. Fomos aos espetáculos e concertos, exposições, e também palestras e seminários. A palestra que mais nos impressionou e lembramos até hoje foi a de Amélia Lacombe: Influências de Petrarca na Lírica Camoniana, um cotejamento entre o Soneto 4 de Camões e o 90 de Petrarca. Também guardo memórias dos espetáculos O Barroco, de Lia Robatto, e O Fidalgo Aprendiz, de Álvaro Guimarães, de toda parte gráfica do festival criada por, mais uma vez, Lênio Braga e da palestra Documentos para uma Biografia de Gregório de Mattos e Guerra de Fernando da Rocha Peres, que foi meu professor na faculdade e colaborador no espetáculo Gregório de Mattos de guerras que montei quase 20 anos depois. Procuro há muito pistas sobre o festival na internet e finalmente achei num PDF do no 2 da Revista Universitas
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(UFBA) de 1969. Nele está toda a programação e os créditos dos organizadores, realizadores e colaboradores e, num telefonema a Chico, vários programas do festival emergiram dos seus guardados e o do rico solo do tempo se abriu e pudemos revê-los. https://cienciasmedicasbiologicas.ufba.br/index.php/ universitas/article/viewFile/38003/21655 Os dois adolescentes acompanhando e absorvendo aquele volume de informações eram uma curiosidade. Éramos uma espécie de mascotes e por isso tínhamos acesso à sala da Reitoria onde ficava a produção do evento e onde todos nos conheciam e conseguíamos cartazes e programas e mais e melhor, conversávamos como velhos colegas com os mestres que ali estavam, Valentin Galderón, Ernst Widmer, João Carlos Teixeira Gomes, Carlos Eduardo da Rocha, Cid Teixeira e Nélson de Araújo, entre outras e outros. Ao longo do tempo mantive ou retomei o contato em outras ocasiões e projetos com muitos dos que participaram do Barroco, como Lia e Silvio Robatto, Fernando da Rocha Perez, Cid Teixeira, Jacyra Oswald. Não sei se lembravam daquele garoto que convivia com eles no festival, mas eu lembro deles e sabia. Pela constância dos encontros nos eventos, fizemos também amigos universitários e secundaristas (do Central e do Aplicação), todos de esquerda, que nos introduziram em pensamentos políticos sobre a vida e em alguns segredos da cidade: comidas, lugares, costumes. Continuamos durante algum tempo a frequentar alguns desses territórios com eles, a ir a festas de largo e descobrir um novo universo nas culturas populares.
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Antônio Carlos Magalhães, prefeito, e Luiz Viana Filho, governador, continuaram. Em agosto, um derrame tirou do cargo o 27o presidente, Artur da Costa e Silva, que morreu em dezembro do mesmo ano. https://www1.folha.uol.com.br/folha/treinamento/ novoemfolha46/ult10100u478135.shtml Pedro Aleixo, o vice-presidente, foi impedido de tomar posse como presidente. A sucessão presidencial foi realizada por uma junta militar que transmitiu o poder para Emílio Garrastazu Médici meses depois. Este general se tornou o 28o presidente do Brasil, no período talvez mais terrível da ditadura, iniciado com o AI 5 um ano antes. http://memorialdademocracia.com.br/card/ congresso-elege-o-chefe-da-repressao http://memorialdademocracia.com.br/card/mediciexige-poder-total-no-governo O ex-deputado federal constituinte, comunista e líder da Ação Libertadora Nacional, Carlos Marighella, foi morto a tiros de metralhadora, numa emboscada, por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) em São Paulo. Uma encenação que simulava fuga e resistência à prisão e consequente troca de tiros. Movido pela família, um longo processo acabou, em 1996, comprovando a farsa e reconhecendo a responsabilidade do Estado na execução do guerreiro. O julgamento de concessão de anistia e reparação póstumas, em 2011, foi realizado no Teatro Vila Velha e, por vontade da família, também dirigi a cerimônia de pedido de desculpas do Estado. Uma cópia do processo de 1996 me foi entregue por seus herdeiros para ser transformada em peça de teatro, coisa
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que ainda farei. Espero o momento exato para isso acontecer. http://memorialdademocracia.com.br/card/marighella-eabatido-em-emboscada-em-sp https://www.youtube.com/watch?v=7Mw386dVhcY Em fins de 1968, sob acusação de terem desrespeitado o hino nacional, baseada numa notícia falsa plantada por um jornalista inescrupuloso, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos pela Polícia Federal do regime. Saíram do cárcere para prisão domiciliar, no início de 1969. Em 20 de julho, no mesmo dia em que o homem pisou na lua, no Teatro Castro Alves, fizeram dois shows de despedida e mais um no dia seguinte, gravados em vinil. Foram embora, exilados como muitos outros artistas, intelectuais, políticos e pensadores que deixaram o país. http://memorialdademocracia.com.br/card/exilio-e-a-saidapara-milhares-de-brasileiros Por insuficiência cardíaca, morreu o presidente do Vietnã do Norte, Ho Chi Minh, o genial líder da luta contra os franceses, que levou à expulsão dos invasores, e, em seguida, contra o Vietnã do Sul. O líder comunista morreu antes do fim da guerra que unificou o país. Uma das maiores manifestações da contracultura do final da década de 1960 e começo de 1970, o lendário Festival de Woodstock, foi realizado em Bethel, nos Estados Unidos. Trinta e dois dos mais conhecidos músicos da época se apresentaram para cerca de 400 mil espectadores. Foram três dias de caos organizado por Eros. Glauber Rocha vai à Europa para exibir O Dragão da Maldade
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contra o Santo Guerreiro, no Festival de Cannes 69, e recebe o prêmio de melhor diretor. Viaja para África, para filmar O Leão de 7 Cabeças. Talvez o filme de que mais gosto do cineasta, pela sua natureza explicitamente épica, decididamente didática, radicalmente brechtiana, escandalosamente política e luminar. É a narrativa que condensa a poética de Glauber e nos expõe à centralidade da questão do subdesenvolvimento e do colonialismo. E a revolta e indignação reverbera em nós como ondas, nos move e incita à luta contra. À revolução. Joaquim Pedro de Andrade lança Macunaíma, outra obra luminar. Anárquica, tropicalista, antropofágica. Esses filmes fazem parte da minha cinemateca interior, referência de imagens, dramaturgias, atitude e de processos. Quando Joaquim Pedro esteve em Salvador fazendo a préprodução do seu Casa Grande, Senzala e Cia, que não se realizou com a morte física prematura do cineasta durante os preparativos das filmagens, nos conhecemos, conversamos, trocamos ideias. Ele, também geminiano, aniversariava um dia antes de mim, 25 de maio, como Hilton Cobra. Glauber, nunca o vi em pessoa. Ele é cinema puro. Nos Maristas, perdi o 1o ano colegial. A média final de cada matéria deveria ser no mínimo seis para poder fazer prova final. Tirei cinco e oito décimos em matemática. Nessa época, em muitas escolas, havia o estatuto da segunda época: se o aluno não tivesse aproveitamento suficiente em alguma matéria, depois do final das aulas, continuava cursando aquelas em que não conseguiu pontos necessários para passar e fazia uma outra prova, valendo como nota final. Nos Maristas, isso não existia e para continuar lá teria que repetir o ano.
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Minha família resolveu procurar outra instituição em que existia a segunda época: o Colégio Ipiranga. Fiz um curso de matemática com um professor negro, que infelizmente esqueci o nome, e – milagre! – aprendi matemática. Aprendi e fiquei fascinado pela matéria, pela poesia, pelas possibilidades de exercícios de lógica, pela construção da investigação de resolução de problemas, pelo pensamento abstrato/concreto que conduz tudo na matéria. Infelizmente não tinha base para desenvolver mais e melhor este pensamento matemático. Seria preciso mais dedicação e não era com isso que eu me dispunha a investir o tempo. Era mais com as linguagens artísticas, sem levar em conta que a matemática é uma arte e contém a música, a arquitetura, as estruturas dramatúrgicas e muito mais. Então apenas aprendi o suficiente para passar na prova de segunda época do colégio e poder ingressar como aluno do segundo ano colegial.
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1970
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Por indicação de Antônio Carlos Magalhães, que deixou a prefeitura para se candidatar a governador por via indireta, a Assembleia Legislativa elege o 55o prefeito da cidade o diácono da Igreja Batista, Clériston Andrade, que assume o cargo em abril de 1970. O 36o governador, Luiz Viana Filho, e o 28o presidente, Emílio Garrastazu Médici, continuam nos cargos. Eu desenhava e pintava. Fazia sucesso no novo colégio. Não só pelos retratos dos colegas, mas também porque a minha base de ensino era muito boa e tirava de letra os conteúdos das matérias, ganhando boas notas inclusive em matemática – o mesmo professor negro que deu o curso preparatório para a prova de segunda época, lecionava a disciplina no Ipiranga – E como dominava os conteúdos, tirava boas notas e tinha o espírito rebelde, ajudava meus colegas, sentava na última fila, brincava muito e deixava que “pescassem” minhas respostas durante os testes. Na América Latina, as ditaduras caminhavam para um endurecimento maior, grupos de guerrilha urbana se organizavam, se armavam e contra-atacavam. Foram sequestrados o cônsul japonês Nobuo Okuchi, em São Paulo, o embaixador da Alemanha Ocidental, Ehrenfried von Holleben, e o da Suíça, Giovanni Enrico Bucher, no Rio de Janeiro. No Uruguai, os Tupamaros sequestraram o cônsul brasileiro, Aloísio Mares Dias Gomide, em Montevidéu. Glauber Rocha viajou para a Catalunha para filmar Cabezas Cortadas, que anos depois, em 1979, foi liberado e lançado no Brasil.
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Nesse ano de 1970, passei a estudar de tarde e me virava com as matérias. O colégio era no centro da cidade. Eu saía das aulas quase todos os dias, com colegas ou sozinho, e ia ao cinema. Assisti a Vergonha e A hora do lobo, de Bergman, Teorema, de Pasolini, Julieta dos espíritos, de Fellini, O estranho caminho de Santiago, de Buñuel e A chinesa, de Godard. Filmes que fizeram giros em minha cabeça e me levaram a repensar a lógica. Meus 16 anos não conseguiam processar e acessar muita coisa neles. Entretanto, aquelas imagens ficaram poderosas e absolutas impregnando minha imaginação, me inspirando, instigando, fustigando, conduzindo para visões e epifanias futuras. Dramaturgias e processos criativos do meu teatro surgiram daí. Reflexões sobre atuação, ritmo, silêncios. A importância da imagem. A preciosidade de entender que a arte pode se comunicar não unicamente através da razão, mas simultaneamente por muitos canais, e traspassar a mente destroçando conceitos cristalizados, abrindo cancelas para estradas largas do entendimento. Essas sessões de cinema foram minha formação, me deram muito mais do que muitas horas de aulas, minha intuição me colocou numa rota maravilhosa de conhecimento diretamente pelas obras de grandes mestres do cinema e do pensamento. Penso em como isso tudo deveria ser incorporado ao ensino básico e médio e como seria rico para a formação de pessoas. Ao invés, era obrigatório o ensino de uma matéria chamada OSPB – Organização Social e Política Brasileira – e outra, chamada Educação Moral e Cívica que com certeza não formaram cidadãos esclarecidos, conscientes de deveres e direitos, com o conhecimento da verdadeira organização social e política brasileira. Mesmo porque no estado de exceção em que vivíamos seria um paradoxo formar cidadãos conscientes do que deveria ser um estado de direito.
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A seleção brasileira masculina de futebol conquistou o tricampeonato na primeira Copa do Mundo transmitida ao vivo pela televisão, derrotando a Itália por 4 a 1, na cidade do México. Fato usado pelo sistema para fortalecer o mesmo espírito nacionalista que apoiou o golpe em 1964 e o referendou em 1968. Os versos da canção Pra frente, Brasil, de Miguel Gustavo, ecoavam pelas ruas durante muito tempo antes e depois da vitória e todos, depois de assistirem aos jogos pela televisão, de camisa verde amarela, iam para as ruas festejar o Brasil, que se confirmava grande, também pelo esporte, como dizia a propaganda ufanista oficial. Eu torci com os amigos e com os outros “noventa milhões em ação”. Usei a camisa canarinho. Fui pra rua celebrar atrás do(s) trio(s) elétrico(s) contratado(s) para tal. Um contra-movimento intelectual de esquerda rechaçava esse golpe midiático, mas foi vencido, inclusive pela adesão de muitos militantes abduzidos pela euforia cósmica do país do futuro. Pelo fato de que agora tinha sido trazida pra casa, para sempre, a Taça Jules Rimet, símbolo máximo da vitória. Mas o pra sempre durou pouco. A Copa, de ouro maciço, foi roubada da sede da CBF e fundida em 1983, em pleno processo de redemocratização. Em consequência da sua luta antirracista e pelos direitos civis na década de 1960, ngela Davis, depois de estar entre os dez fugitivos mais procurados pelo FBI, foi presa por 18 meses, até ser inocentada em seu julgamento. A luta contra a discriminação racial no Brasil, individual ou coletiva, pode ser datada da origem da escravização dos negros e extermínio dos índios. O racismo estrutural da sociedade brasileira, construído há séculos, e a reação contra ele surgiram juntos. Essa talvez seja uma ideia romântica,
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um desejo de que tenha sido, uma miopia, uma insistência em ver sinais e sementes da luta antirracista em atos, autônomos ou organizados, contra a escravização ou em defesa dos indígenas, porque é impensável que o ser humano não se revolte e lute contra tantas atrocidades enquanto são cometidas. O fato é que, ao longo da década de 1970 e nas décadas seguintes, cresceu a estruturação de movimentos e instituições antirracistas no país.
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Os governantes das três esferas de poder eram os mesmos do ano anterior: Clériston Andrade, o 55o prefeito; Luiz Viana Filho, o 36o governador; e o 28o presidente, Emílio Garrastazu Médici. O Brasil abandonou a reunião da Organização dos Estados Americanos por não conseguir um plano conjunto de ação contra o “terrorismo”. O capitão Carlos Lamarca desertou do exército brasileiro para lutar contra a ditadura, tornando-se líder da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), grupo guerrilheiro. Neste ano de 1971, foi morto em uma emboscada em Pintada, município de Ipupiara, Bahia. http://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/carlos-lamarca/ Acompanhava distante essas questões e surgia em mim a certeza de que eu estava do lado do assassinado, do lado dos negros que lutavam contra o racismo, do lado dos índios que estavam sendo dizimados, do lado dos hippies que estavam em Woodstock. Estava deste lado da história. E isso era uma atitude. No terceiro ano, não precisávamos usar uniforme. Estávamos liberados para usar o figurino que quiséssemos. Comecei a fundir personagem e persona, performance e vida real, refletindo a atitude avessa ao lado oficial da história. Usava roupas estranhas com um estilo hippie muito pessoal. Calças sociais de gabardine ou de linho branco muito folgadas, de meu avô, com camisetas de malha tinturadas e desbotadas, camisas sociais também largas e, a estrela do guarda roupa: uma camisa social de mangas curtas de viscose branca com
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bolas vermelhas de mais ou menos cinco centímetros de diâmetro. Muitas vezes tomava leite e não refrigerante na cantina, durante o intervalo. Cursava o 3o ano colegial e pré-vestibular juntos. Num golpe mercadológico, o Colégio Ipiranga fez um convênio com o Curso Águia, que não tinha muito tempo de atuação, mas já um enorme sucesso no processo de treinamento competitivo para o ingresso na universidade. Era uma nova indústria do ensino instalada após o golpe. O sistema educacional foi todo ele voltado não mais para a formação plena, com o repasse do acervo e repertório do saber ocidental, de forma a construir pessoas que pudessem desenvolver caminhos nas diversas áreas profissionais. As universidades passaram a ser um aglomerado de matérias espalhadas e os alunos cursavam um conjunto delas, a depender da carreira escolhida, em várias escolas diferentes em diferentes prédios, às vezes distantes geograficamente um do outro, sendo necessários deslocamentos por transportes urbanos de uma aula para outra. Isso criava a quase impossibilidade de haver o sentimento de turma, de grupo, de coletivo, não eram os mesmos colegas todos os anos nem em todas as matérias. Eram estudantes de diversas carreiras que se encontravam em algumas aulas de algumas disciplinas e nas próximas aulas e disciplinas e semestres eram outros, sem contar com a desconfiança: o cara que estava sentado ao seu lado na sala de aula ou na cantina podia ser um dedo duro, um delator. E essa tensão atritava as relações entre colegas. O processo seletivo do vestibular à época era através de um conjunto de testes das diversas matérias, cada um com
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100 quesitos de múltipla escolha. As matérias valiam pesos diferentes a depender de que área estivesse a carreira escolhida – exatas, humanas, artes. Foi criada a indústria do pré-vestibular onde, mais que assimilar conteúdos e conhecimentos ou construir lógicas e raciocínios úteis a cada carreira, tínhamos o treinamento para um jogo com regras. Precisávamos estar aptos a não cair em armadilhas formais e fazer o maior número de pontos possível, com mais dedicação às disciplinas que pontuavam mais na classificação para o ingresso à escola eleita. Isso varreu o sistema educacional como uma onda para trás. Desde o primeiro ano do curso colegial – unificação do científico (para as carreiras de exatas ou científicas) e clássico (para as humanas) ), dando mais ênfase nas exatas – éramos treinados nesse jogo, com provas e testes que nos preparavam para a linguagem das provas do vestibular. A competição se instalava: você estava disputando o lugar que o seu colega também queria. E o importante não era saber mais, mas ser melhor, mais bem treinado, naquele jogo. O que também se refletiu nos métodos de ensino no ginásio (segundo grau). Nos tornamos livres atiradores na competição por um lugar ao sol no país da meritocracia destinada aos privilegiados. Continuava a frequentar a casa de Chico Mazzoni. Desenhávamos e pintávamos. Ouvíamos música: Nara Leão, Bethânia, Gal, Elis, eram as preferidas. Em escolas diferentes, participávamos de outros coletivos e nossos encontros eram menos frequentes, mas continuávamos a nos encontrar. Festas de largo, eventos culturais. No Ipiranga, participava de um grupo também meio estranho. Aos três rapazes, que já eram meus colegas do ano anterior: Papau e Mao, os aficionados pelos Beatles, e Edinho, o galã,
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juntaram-se duas moças, Patrícia e Wolia, calouras que vieram com o Águia para o pré-vestibular. Nossa relação com as matérias não era tudo. Saíamos juntos, conversávamos muito, filosofávamos e caíamos na fossa – grandes crises existenciais. Discutíamos livros e filmes e poesias e música. Ouvíamos muita música. Íamos ao Clube de Cinema, na Biblioteca dos Barris, onde comecei a ver os clássicos, frequentávamos vernissages e concertos. Ia muito ao cinema. Filmes recomendados pelo professor de história, Hélio Rocha. Ele era um dos nossos mais próximos, porque nossas angústias tinham eco naquele ex-perseguido pela ditadura. Ele nos contava histórias da História e nos recomendava filmes, livros, espetáculos que passavam a ter outro valor porque eram apreendidos com sinalizações prévias. Lembro-me dele nos indicando o Balé Nacional do Senegal, onde os homens também dançavam, não eram apenas suporte para os voos das bailarinas, segundo ele. Fui ao espetáculo e o vi com olhos atentos e novas reflexões brotaram e foi surpreendente para mim. Nos incentivava a pensar e ao mesmo tempo nos preparava para o jogo do vestibular. Um equilíbrio notável. Era um educador e se interessava pelo nosso desenvolvimento intelectual e humano. Eu continuava a desenhar muito. Fazer retratos e caricaturas dos colegas. Pintava óleos, guaches, escrevia poesia. Compartilhava com o grupo. Admiravam minha habilidade com as tintas e as formas. Ouvíamos música. Conversávamos enquanto eu pintava. Pintei retratos deles. Comecei a fazer retratos monocromáticos, decidindo a cor de cada pessoa. Talvez como o gato do filme tchecoslovaco de 1963, dirigido e escrito por Vojtěch Jasný, Um dia um gato, que usava óculos e, quando os tiravam, tinha o poder de mostrar as pessoas com as suas cores: os mentirosos eram roxos, os ladrões eram cinzas,
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os falsos eram amarelos e os apaixonados eram vermelhos. Estudávamos também juntos, na casa de algum de nós. Íamos até tarde estudando, merendando, conversando, trocando ideias, resolvendo o mundo. Era muito bom quando marcávamos de estudar na de Patrícia, porque adorava a casa. Era linda e estranha, de pedra, feita de linhas curvas, com uma jaqueira que passava por dentro e saía pelo terraço; parecia que brotava da hera que cobria seus muros; paredes e uma escada encrustadas de cacos de azulejos e louças e vidros e conchas. Não sabia que aquela casa onde estudava e de que gostava tanto era a Casa do Chame-Chame, projeto de 1958 de Lina Bo Bardi em homenagem ao arquiteto catalão Antoni Gaudí. Soube disso quando a vi num livro. Daí fui rever a casa depois de muitos anos sem passar por ela. E cheguei a duvidar de que ela um dia existisse mesmo ali. Dei várias voltas pelo lugar. Sim, existiu aqui uma casa linda e estranha. O muro curvo era este, mas por trás dele só existia agora um prédio estúpido e sem noção. Não mais aquela harmonia de linhas e volumes, o engenho dos espaços que se entrelaçavam com o terreno e as plantas e o céu. A casa não existia mais. Agora sei que foi demolida em 1984. https://atarde.uol.com.br/cultura/noticias/1643809-casa-do-chame-chamereflete-arquitetura-organica-de-lina https://www.archdaily.com.br/br/01-135915/classicos-daarquitetura-casa-do-chame-chame-slash-lina-bo-bardi https://www.anualdesign.com.br/saopaulo/projetos/1249/casa-chame-chame/ https://docomomo.org.br/wp-content/uploads/2020/04/110693.pdf https://atarde.uol.com.br/cultura/noticias/1643814-acasa-do-chame-chame-foi-um-manifesto
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Glauber apresenta, na Columbia University – New York, a Eztetyka do Sonho, manifesto que complementa e atrita com o anterior, de 1965, a Eztetyka da Fome. https://www.iberystyka.uw.edu.pl/sites/default/files/Documents/ adamczykmagda/1405/EstetykadoSonhoInHambreAugust2013.pdf E esta parte se encerra com Glauber, com ele tendo começado. No período que relato aqui, não tinha visto nenhum de seus filmes. Mas acompanhava seu trajeto pelas revistas, pelos jornais e, como já disse, estamos próximos em algum ponto de nosso desejo de que a arte possa revolucionar o mundo.
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O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.
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apoio financeiro