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UM ARTISTA DE PROVÍNCIA - PARTE I - DE ONDE VIERAM AS POSSÍVEIS IMAGENS E CAMINHOS (1954-1964)

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um artista de província

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um artista de província

marcio meirelles


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de onde se explica um livro de sombras de teatro que é um fractal http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/maio2013/matematica_artigos/dissertacao_nunes.pdf

este é o primeiro livro que faço de outros participei e outros foram antes peças para o teatro que acabaram no papel este faz o caminho inverso e nem vai ao papel fica numa plataforma virtual para existir assumiu o lugar de encenação é uma colagem é um livro maleável fluido sempre em movimento um livro mais dramaturgia e montagem do que livro objeto que se coloca na estante depois de ler livro que é multiforme polimorfo feito de muitas tonalidades feito de fragmentos de memórias reais recriadas relidas redescobertas notícias reconstruídas que não sei se lembro mas foi e de memórias que não lembro mas leio agora e me surpreendo então foi assim um livro de memórias coletivas de tempos por onde passamos muitas muitos e eu construímos eventos assuntos ações teatro e outras artes linguagens um artista de província – de um quase balneário que está sendo despedaçado até quase virar quase nada restos de um lugar que já não é – não quis deixar a bahia e morar em outro lugar


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foi uma escolha política opção devolver ao lugar o que tirei dele para criar devolver às vozes que ouvi o som que me emprestaram devolver às raízes que me deram a possibilidade de germinar e frutificar o sumo a seiva para fabricar as folhas e frutos por isso todas as fichas técnicas e dados do que fiz participei colaborei onde estive todos os nomes e dados e datas e locais que estão registrados uma multidão está ali e governantes e alguns acontecimentos que nos dizem o que se passava enquanto passou uma geração e outra e outra e muitas anteriores e posteriores muita gente um período do teatro 17 anos até chegar ao palco e quase 50 sem sair dele nele um que pensa encenador ator gestor técnico espectador desenhador livro registro referencia para ser livros estudos do que fizemos neste tempo neste lugar teatro do mundo 29 quase 30 de agosto do funesto ano de 2021 marcio meirelles


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parte i

DE ONDE VIE AS POSSÍVE E CAMINHOS


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ERAM EIS IMAGENS S


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Minha primeira relação com as artes foi menos com o teatro do que com outras linguagens. Através de vários canais, foi com a música, o cinema, a arquitetura e, sobretudo, com as artes visuais. Poucas lembranças do teatro: o susto com o Lobo Mau entrando no palco; Pluft, o Fantasminha no Cineteatro Oceania; Narizinho, da Hora da Criança do professor Adroaldo Ribeiro Costa, no Teatro do Iceia. As estruturas arquitetônicas dos teatros, escadas, colunas, galerias e camarotes e os camarins me marcaram mais profundamente do que as peças em si. Com a música: muitos discos 78 rotações de Libertad Lamarque, Dorival Caymmi, Beethoven, Dalva de Oliveira, Marlene, Emilinha, Tchaikovsky, Strauss, Jackson do Pandeiro na radiola da sala, para eu dançar. O show de rock no presídio. E uma prima de minha mãe que cantava Coração Materno, de Vicente Celestino, para me fazer dormir. Brincava de rádio. Numa caixa de sapato colocava muitas quinquilharias que seriam as válvulas e peças. O dial desenhado na tampa. Os botões de volume e sintonia eram rodas de carros de brinquedo ou tampinhas de refrigerante. Um barbante que saía da caixa amarrado a um prego, o fio e plugue que era enfiado na tomada elétrica para dar carga ao rádio. Um choque e estava carregado, podia tocar. Eu cantava músicas, era também o locutor e a carga acabava. Novo choque. Frankenstein. E livros, muitos livros nas minhas casas, nas estantes e espalhados: muitos livros para crianças, cheios de ilustrações, como Alice, acreditava devessem ser todos os livros; uma edição da Divina Comédia com gravuras de Doré


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que valiam por todos os filmes do mundo – todas as imagens e fantasias estavam ali. Anjos, demônios, donzelas, danados, seres míticos. Caronte. E uma enciclopédia ilustrada me apresentava muitas coisas, mas, principalmente, os deuses e deusas e heróis e ninfas e musas e toda sorte de personagens mitológicos vindos, imaginava, diretamente da Hélade para mim. Agora sei que a Hélade, para esses seres, tinha sido somente uma escala entre a África, o Oriente Médio, muitos lugares, muitas culturas, muitas tradições muitos ritos e meus olhos. Depois, livros de anatomia que me fascinavam com seus músculos, ossos, caveiras, pênis e vaginas. E o cinema: Tom e Jerry aos domingos de manhã com meus avós. Filmes espanhois, Marcelino Pão e Vinho, cujo ator se parecia comigo; e La Violetera, com Sarita Montiel. E o Dom Quixote, de Kosintsev (1957), que, assustado, não assisti até o fim. Jasão e os argonautas e alguns filmes italianos sobre Hércules e outros heróis. https://www.youtube.com/watch?v=t89cAmA3oec Mas minhas primeiras produções, meu exercício maior, quase cotidiano, e pelo qual recebia muito incentivo da família e posteriormente dos professores, foi com o desenho e a pintura. E narrativas ilustradas por mim e ditadas a quem soubesse escrever e tivesse algum tempo disponível: os meus irmãos, os meus mais velhos, amigos, visitas, hóspedes e tias. Aos dez anos, um livro para crianças que li em casa de primos de minha mãe, em Valença, cidade do sul da Bahia, gerou o desenho de um palco com cortinas abertas para vermos a performance de um casal, encimado por uma haste dupla com uma flor branca e uma vermelha, uma meia lua e,


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mais acima, na cortina: SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO. Embaixo: “SHEKSPEAR 23/9/64”. Foi a primeira montagem que fiz da obra, seguida de mais três, até agora. Rapunzel, mitos gregos, Medéia, ritos, cortejos, Alice, muitas referências, incluindo Shakespeare, música, música, música de muitos estilos, pinturas, gravuras, atrizes e atores, espaços, igrejas barrocas, sereias, o art nouveau e o art déco. Muitas imagens que atravessam meu trabalho surgiram nesta primeira fase, nos primeiros dez anos, e foram cultivados por alguém que queria ser turista quando crescesse. Viajar, descobrir, interagir, investigar e registrar é claro, sendo pintor. Essa primeira década foi um período muito marcado por mulheres. Eu passava tempos com minha mãe e tempos com meus avós. Numa das casas, tinha a mãe, todas as mulheres que trabalhavam lá, e amigas que sempre nos visitavam e, de vez em quando, alguma passava um tempo conosco. Na outra, minha avó Alice. Ela tinha cinco irmãs mais novas que frequentavam muito sua casa porque ela era uma espécie de matriarca e conselheira, além do que, minha bisavó, Dona Mimi, sua mãe, morava com ela. Minha tia/ madrinha, Acy, também morava lá com seu marido, Carrera. Tinha Dilú, que trabalhava na arrumação da casa e foi funcionária da família, mudando de função para cozinheira, até sua aposentadoria. Ela morava em casa de meus avós com sua filha Gracinha. E tinha também, pelo menos, mais duas mulheres que trabalhavam na casa: a cozinheira e a lavadeira. As professoras do primário eram todas mulheres. E mulheres muito fortes, como Jurema Pena e Rosita Salgado Góes, passaram por minha vida nesse período.


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Consequentemente ou não, havia nos meus desenhos e narrativas muitas representações femininas. Mulheres em vários trajes, de várias épocas, várias culturas, como um catálogo; como um desfile ou uma revista de moda. Muitas vezes recortava as figuras desenhadas para simular a tridimensionalidade possível naquele momento. E assim, “tridimensionalizadas” viravam personagens para contracenar comigo e realizar minhas viagens e narrativas. Muitas destas narrativas eram réplicas de outras: de contos de fadas, de histórias e fofocas da família, de filmes, de revistas em quadrinhos; as originais surgiam de improvisações com situações do momento entremeadas por citações inspiradas nas outras: fusão de vida real e ficção. Por exemplo, às vezes um almoço verdadeiro, quando almoçava sozinho ou com alguma acompanhante, se transformava num almoço de ficção com a intervenção de vários personagens imaginados ou representados pelas bonecas. E por aí ia, com minhas marionetes de papel e bonecas antigas de pano e de louça de minha mãe e tias e avó. E com bonecas que ganhava, com muitas negociações entre as mulheres que me educavam e meu avô e tio e irmãos. Meus irmãos faziam o papel de censores e literalmente cortavam, enforcavam e destruíam minhas bonecas, se não houvesse a intervenção de alguma das minhas guardiãs. As bonecas de papel ou de brincar eram meus personagens, protagonistas ou coadjuvantes, e com elas encenava o que quisesse. Era dramaturgo, encenador, ator e atriz de meus espetáculos particulares, realizados sozinho ou com a colaboração de alguém que passava a ser coautor, mesmo que meu instinto autoral lutasse para que o espetáculo corresse na direção que eu planejara. Depois, aos seis, sete anos, as bonecas e recortes foram


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substituídos por miniaturas de plástico de personagens da Disney, de animais da fazenda e selvagens e de jogadores de futebol que trocava por tampinhas premiadas de algum refrigerante. Construía cidades, montava casas de cartolina criadas por mim ou vindas em livros. Havia uma coleção que trazia, em cada número, uma atividade para recortes. Geralmente reproduções de castelos e casas da história para serem montados. E o arquiteto urbanista se encontrava com o dramaturgo encenador e agora narrador e ator/atriz das encenações que continuavam a rolar.


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1954


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Durante a 4a república brasileira, nasci. Esta informação não deveria estar aqui porque me propus a escrever sobre o meu trabalho e não sobre minha vida. Mas para ter feito o que fiz e estar aqui agora, escrevendo sobre o que fiz, necessariamente tinha que ter nascido. Portanto nasci de parto natural no dia 26 de maio no hospital espanhol em Salvador, Bahia. A cidade tinha seu 45o prefeito, Aristóteles Góes, do Partido Republicano (PR); o estado, seu 32o governador: Luís Régis Pacheco Pereira, do Partido Social Democrático (PSD), e a república tinha seu 17o presidente: Getúlio Vargas, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que se “suicidou” em agosto, e foi substituído por Café Filho, do Partido Social Progressista (PSP), o 18o, no cargo, de 1954 a 1955: https://youtube.com/watch?v=eL5uCmBXii0 O suicídio e cerimônia fúnebre de Getúlio Vargas me acompanharam como imagens durante muito tempo em minha infância, mesmo porque seu retrato estava na cédula de dez cruzeiros e era uma cédula que chegava em minhas mãos pra comprar balas dos baleiros que passavam em nossa porta com sofisticadas estruturas de superposição e organização de vários doces em sua cestas. Toda a história desse presidente é cheia de contradições e conflitos de narrativas. Vargas, após ter chegado ao poder em 1930 por meio de um golpe, ter instituído a ditadura do estado novo, em 1937, e permanecido na presidência até 1945, foi eleito pelo voto direto em 1950. Mas não completou seu mandato. Sua política trabalhista sofreu a pressão das elites através da imprensa, liderada por carlos lacerda, jornalista e proprietário do jornal tribuna da imprensa, e dos militares. https://youtube.com/watch?v=4L6HmIIe0rg


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Lacerda ainda esteve ligado depois a vários golpes contra Jucelino, Jango e todo e qualquer movimento político que ameaçasse os interesses das elites. Para isso usava sempre a imprensa e relações com militares intervencionistas. E não poupava esforços nem métodos, inclusive plantando notícias falsas nos meios de comunicação. Pois bem, em uma noite de agosto de 54, houve um atentado contra o jornalista. Numa virada novelesca foram presos os responsáveis que denunciaram a participação do chefe de segurança pessoal de Getúlio além do irmão do presidente. Isso teria levado Vargas ao suicídio deixando uma carta em que “se despedia da vida para entrar na história” – anos depois, a verdadeira carta onde não havia esta frase retumbante foi revelada. https://youtube.com/watch?v=XV7ZA6tkzoA O suicídio de Vargas reverteu a opinião pública e provocou uma imensa onda de comoção e revolta. Isso obrigou Lacerda e parte de seu grupo a deixar o país. Na época, milhares de revoltosos tomaram as ruas, empastelando jornais da Globo, ligados à oposição. Nesse ano, começou a guerra, que durou oito anos, da Argélia contra a França pela independência do seu território num processo de descolonização da África. Morreu a mulher Frida Kahlo, artista ativista mexicana de esquerda, que através de suas ações e de sua pintura lutou também pela descolonização, pela sua identidade cultural e de gênero, classe e raça. E passou muito tempo oculta pela sombra de Diego Rivera, Trotsky e outros homens com quem se relacionou, como costuma acontecer com muitas mulheres, mas foi – e continua sendo – recolocada em seu importante lugar na história a partir dos anos 70. O cinema perdeu, um de seus criadores. August Lumière,


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que junto com seu irmão Louis (falecido em 1948), foi um dos inventores do cinematógrafo – aparelho que registra instantâneos fixos dando a ilusão de movimento. Lumière morreu aos 91 anos. Mas Cacilda Becker e Giulieta Masina apareceram em toda sua magnitude em dois filmes memoráveis; Cacilda, em Floradas na Serra, o filme brasileiro dirigido pelo italiano Luciano Salce, com Jardel Filho e Ilka Soares também no elenco; e Giulieta, em La Strada, dirigido por Federico Fellini e indicado ao Oscar, naquele ano. Elvis Presley, um dos pioneiros brancos do rock, gravou seu primeiro disco. A IBM apresentou ao mercado a primeira calculadora eletrônica do mundo, com mecanismos formados por transistores, numa tecnologia totalmente revolucionária para a época. Edgard Santos, um dos líderes da criação da Universidade da Bahia, a partir da unificação das faculdades baianas, foi eleito o primeiro reitor da recém criada universidade. Entre as muitas inovações visionárias, o reitor criou os cursos universitários de arte, pioneiros no Brasil. Em 1954, dentro desse programa, implantou, sob a liderança de Hans-Joachin Koellreutter, os seminários internacionais de música que deram origem à Escola de Música da UFBA. O Teatro Maria Della Costa é inaugurado, com um prédio projetado por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, construído com o financiamento do Banco Nacional, conseguido por influência de Octávio Frias de Oliveira, proprietário da Folha de São Paulo.


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Marta Rocha perdia o título de Miss Universo por duas polegadas a mais nos quadris.

Enquanto essas e muitas outras coisas aconteciam nas esferas públicas e pessoais, eu mamava, cagava, mijava, gofava, comia as primeiras papinhas e sopas, descobria meu próprio corpo e o espaço ao redor, engatinhava e tentava dar meus primeiros passos e meus primeiros balbucios que se transformariam em discurso articulado muito tempo depois. Mas naquele momento era a minha performance. A minha obra.


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1955


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O prefeito de Salvador, Aristóteles Góes, do Partido Republicano (PR), foi substituído pelo 46o, Aloísio Brasil Ribeiro (prefeito interino) do Partido Social Progressista (PSP) que ficou de 1955 a 1955. Menos de um ano na gestão. O 47o, Hélio Ferreira, do Partido Democrata Cristão (PDC) ficou no cargo até 1959. O 33o governador da Bahia, Antonio Balbino de Carvalho, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), esteve também no cargo de 1955 a 1959. Na presidência da ainda 4a república, depois de Café Filho, o 19o, Carlos Luz, do Partido Social Democrático (PSD), teve curtíssima gestão, de três ou quatro dias. Substituído por Nereu Ramos, o 20o presidente do Brasil, também do PSD, no cargo por três meses. O Aeródromo de Santo Amaro do Ipitanga, construído em 1949, foi reestruturado para permitir a crescente movimentação de passageiros e cargas. E em 1955, passou a se chamar Aeroporto Dois de Julho, em homenagem à independência da Província da Bahia e à consolidação da Independência do Brasil. Nesse ano de 55, aos 46 anos, morreu Carmem Miranda, vítima de um ataque cardíaco. O sucesso da controversa artista, além de seu talento, foi fruto da política de boa vizinhança estadunidense, durante a 2a Guerra, para conquistar aliados. Mas se conquistava a simpatia dos sul-americanos com a visibilidade de uma América Latina mix, também provocava o seu reverso – a aversão de muitos aos clichês e falsas imagens fabricadas. O prazo de validade vencido, ao fim da guerra, apontou para o declínio do sucesso de Carmem. Isso aliado a um casamento desastroso – com um “empresário” que negociava mal sua


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carreira, num outro clichê: o do marido que explora e humilha e destrói a mulher – mais a rejeição de parte do público brasileiro, que gerou o “disseram que voltei americanizada” como resposta, e o álcool e os comprimidos levaram-na a uma morte prematura. Lembro de ver, alguns anos depois, nas revistas antigas que circulavam na casa de meus avós, as notícias da morte e enterro de Carmem Miranda. E dos comentários escandalizados de que ela foi enterrada de roupa e batom vermelhos. E todo o espetáculo do traslado de seu corpo para o brasil, a recepção e comoção do cortejo e cerimônias, dignas dos heróis, como foi também o de Ayrton Sena. Coincidentemente a morte de Carmem como a de Getúlio, um ano antes, criaram um efeito de reversão imediata. A rejeição popular aos dois – uma pela venda de sua (e nossa) imagem, outra pela articulação das elites – foi transformada em cortejos monumentais para os dois e revolta no caso do presidente. A espetacularização da morte e o sentido trágico teatral de seus ritos elevados ao extremo de possibilidades cênicas, seguramente me influenciaram, assim como as procissões e todos os santos mortos e suas imagens sofridas das igrejas barrocas baianas e mineiras marcaram-me e conduziram muitas encenações futuras. Cine reportagem sobre a chegada do corpo e o espetáculo fúnebre Isso, na infância, teve mais repercussão em mim do que a recusa de Rosa Parks, em 1955, em ceder seu lugar para um homem branco num transporte público, como era obrigatório pela legislação do Alabama. No entanto esse ato é considerado o marco inicial da luta pelos direitos civis nos


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Estados Unidos. Depois disso, foi intensificada a luta contra a discriminação e segregação racial no país e surgiram os Panteras Negras e o Black Power e ativistas como Malcom X, Martim Luther King, Angela Davis que abriram, na porrada, espaço para a luta antirracista estadunidense e inspiraram outras lutas, no mundo inteiro. Devo citar aqui também alguns combatentes brasileiros menos midiáticos que os estrangeiros mas muito importantes pra nós. Tomo a bênção a Abdias do Nascimento, a Laudelina de Campos Melo, Mário Gusmão e, em nome de todas as nossas yas, tomo a benção também a Mãe Senhora, Mãe Estela de Oxossi, Mãe Menininha do Gantois e Mãe Olga de Alaketu. Essas e esses como aquelas e aqueles, se não tiveram maior impacto em minha infância, o tiveram na minha juventude e posteriormente e muito, no meu trabalho. Tinha suas fotos ao lado das de Ho Chi Mim, Mao, Garbo, Guevara no armário do meu quarto. E se a espetacularização da morte marcou minha trajetória artística, a luta pelos direitos humanos definiu meu trabalho da vida toda.


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1956


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Entre meus dois e três anos, mudamos do apartamento no Edifício Barralândia para uma casa na Pituba, que ainda era quase um bairro balneário para veranistas, mas caminhava para a integração ao centro. Dr. Celestino Bureau, um conhecido urologista em Salvador, construiu uma casa em forma de barco, entre a Amaralina e a Pituba, que era fantástica. Ficava do lado da avenida oposto ao mar. Para mim, e muita gente, era um momento importante no trajeto de ônibus ou de carro, uma referência antes ou depois da “casa navio”. Uma espécie de GPS que me dizia onde estávamos, quando chegávamos perto de casa ou quando íamos da casa de meu avô para o sítio que ele tinha, na Boca do Rio. http://sarnelli-coisasdabahia.blogspot. com/2014/04/a-casa-navio-que-ninguemse-lebra-mais_13.html (Parêntese: ao longo desta narrativa, falarei em mudanças de casas. Às vezes foram da casa de minha mãe e meus irmãos, como neste caso, às vezes de meus avós e minha tia. É que passei a infância vivendo entre as duas casas, por motivos diversos, pela proximidade da escola, por viagens dos adultos, ou apenas por escolha. Gostava de estar na casa de meus avós, tinha um espaço não dividido com meus irmãos, tinha a atenção de minha avó e de minha tia/madrinha quase mãe também, tinha Dilú, outra quase mãe, que me contava histórias e me deu referências afetivas do recôncavo – ela era de Santo Amaro – e de suas heranças afro baianas. Mais tarde, na adolescência praticamente me estabeleci na casa de meus avós. Fecho o parêntese).

As casas e mudanças são importantes porque são marcos da memória, e pela minha relação com os espaços. Lembro sempre e muito das estruturas, estilos, divisões de cômodos, papéis funcionais e significados pessoais que tinha e dava a esses espaços. Narrativas arquitetônicas que essas casas guardavam e produziam em mim. Sempre me emocionaram os espaços. como eles se comportam e como nos comportamos neles.


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Não lembro absolutamente do Barralândia, sei que minha mãe e nós moramos lá porque sempre me disseram. Mas não lembro da experiência de ter habitado ali. Assim como não lembro da casa da Ladeira da Barra de meus avós, que é possivelmente onde moravam quando nasci. Lembro entretanto perfeita e curiosamente da chegada à casa da Pituba. Como se não houvesse um antes. Como se tudo começasse naquela nova casa. Uma casa grande, com uma longa e larga varanda que acompanhava toda sua lateral, com o telhado sustentado por grandes arcos. Um jardim – basicamente um campo extenso cheio de coqueiros anões e algumas outras plantas, maior inclusive que a própria casa – ficava entre a varanda e uma cerca de arame farpado, que o separava de um terreno vazio. Na frente, um arbusto, o portão de entrada e o portão de carros e um caminho que levava à uma garagem, que muitos anos depois usei como atelier. Ao lado da garagem, nos fundos da casa, uma casinha para os empregados, a lavanderia e um espaço que era a biblioteca e onde eu passava muito tempo. Na lateral oposta à varanda, um corredor estreito e um muro que separava a nossa da casa ao lado. Primeiras memórias: ao chegar na nova casa, meus irmãos, cinco e seis anos mais velhos que eu, me falavam “vai continuar com o bico? Joga o bico fora. Casa nova sem bico”.... Resoluto atravessei o jardim, fui até a cerca e bravamente joguei a chupeta fora. Performance. O prefeito da cidade e o governador do Estado eram os mesmos do ano anterior; também Nereu Ramos ficou por mais um mês na presidência, quando deu lugar ao 21o presidente, o mineiro Jucelino Kubitschek, também do PSD.


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Edgard Santos funda a primeira escola de teatro no país a integrar uma universidade, com Eros Martim Gonçalves como mentor e diretor. O empreendimento deu certo pela condução de Martim, a equipe que montou para formar seu quadro, o apoio explícito do reitor que comparecia a ensaios e estreias, mas muito também pelo terreno fértil em que a semente foi plantada: Salvador tinha um movimento de teatro amador e familiar, forte e de qualidade, com grupos produzindo espetáculos em palcos adaptados em residências, escolas e clubes recreativos, como o grupo de operetas do Clube Fantoches da Euterpe. Artistas e público formados por e para esse teatro soteropolitano, pré-escola de teatro. Outras lembranças: a casa dos meus avós, na Ladeira da Fonte. A varanda. O circo passando na rua em frente à varanda onde assistíamos o cortejo. Elefantes. Uma festa na casa de primos de minha avó. O bolo representava a cena da ponte no parque de A Dama e o Vagabundo, filme da Disney lançado no ano anterior. Não só bolo mas a decoração e as bandejas e doces, tudo remetia ao filme. A reprodução das árvores chorão do passeio ao luar em miniatura acoplada a um doce era o que levávamos como lembrança da festa. Cenografias. Voltar pra casa depois das festas. Dormir no carro e, ao chegar, fingir continuar a dormir pra ser carregado e não caminhar. Performance.


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1957


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Surge um personagem importante na cidade: João Augusto Azevedo. O encenador, dramaturgo e ator é convidado por Martim Gonçalves para fazer parte da equipe da Escola de Teatro da Universidade da Bahia. Estabeleceu-se então em Salvador, vindo do Rio de Janeiro, funcionário do Ministério de Educação, transferido para lecionar na escola. Em 1959, João Augusto deixa a escola e sua saída resulta na criação do Teatro Vila Velha. João, chega a salvador quando Hélio Ferreira ainda era prefeito da cidade, Antônio Balbino governador do estado e Jucelino Kubitschek presidente do Brasil. Glauber rocha realiza seu primeiro curta metragem: O Pátio. Glauber – como nos informa Ivana Bentes em artigo sobre o cineasta – vinha de uma formação presbiteriana; de participação, como crítico de cinema, do programa de rádio cinema em close-up; da perda da irmã Ana Marcelina, de leucemia; da vontade de ser escritor e se embrenhar por Nietzsche e Schopenhauer; do consumo sem moderação de cinema e histórias em quadrinhos; de frequentar o clube de cinema de Walter da Silveira; do exercício de dirigir encenações combinando poesia e teatro no colégio central; e também de fundar a produtora de cinema Yemanjá. http://diacrianos.blogspot.com/2008/05/glauber-rocha.html Foi um período de muitas mudanças para a Bahia. Tinha sido descoberto o petróleo em solo baiano, em 1939, no bairro do Lobato, em Salvador. E, em 1941, jorrou comercialmente em Candeias, Bahia. “O surgimento dessa nova riqueza incentivou, em 1953, a oficialização do monopólio estatal sobre a atividade petrolífera e a criação da empresa estatal Petróleo Brasileiro S.A., mais conhecida como Petrobras”. Um ano antes de meu nascimento.


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https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/arquivo-s/ criacao-da-petrobras-rachou-senado-em-1953 Foi um período intenso para a Bahia, especialmente a cidade da Bahia – como ainda é chamada Salvador, numa confusão geopolítica que nomeia e transforma a Bahia em sua capital apenas. Deixando em lugar nenhum os outros 416 municípios. Muita estrutura pra quebrar isso e distribuir a Bahia em toda sua extensão territorial em que cabe muitos países – a França, por exemplo. Com isso, a Bahia quase se recupera do trauma de ter deixado de ser a capital do Brasil. O que ocorreu quando ainda éramos (éramos?) Uma colônia. Não tivéssemos perdido o posto para o Rio de Janeiro, pouco tempo depois seriamos a capital do reino, transmigrado de Portugal para cá e, a seguir, capital do Império e depois da República.... No entanto a Bahia nunca se recuperou disso e é mantida por suas elites como a eterna capital da colônia. Província de base econômica rural e turística, controlada por algumas poucas famílias e coronéis, a quem nunca interessou o desenvolvimento industrial do estado. A possibilidade de uma virada aconteceu parcialmente naquele momento entre o final dos anos 40 e 1964. Mas o golpe civil militar, e consequente ditadura, fortaleceu ainda mais a casa grande e seus coronéis. Um projeto de desenvolvimento representado por Edgard Santos, Rômulo Almeida, Diógenes Rebouças, Anisio Teixeira, Martim Gonçalves, Hans-Joachin Koellreutter, Lina Bardi, Walter da Silveira, João Augusto e muitos outros eclodiu num momento de intenso brilho e a Bahia foi


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referência de inteligência, cultura, arte e desenvolvimento ainda até 68. Mas foi difícil manter-se em seu destino cosmopolita de origem, quando, no início da colonização, era o principal porto do hemisfério sul, eixo de rotas comerciais e de trocas econômicas e culturais. http://wwwmemoriasdafontenova.blogspot.com/2010/10/ como-surgiu-fonte-nova.html A Bahia foi entregue e depois se entregou a uma dinastia, mais esperta do que a de Bragança, que se instalou por muito tempo porque representa uma parte significativa da nossa população e soube manipular nossos símbolos – da religiosidade sincrética, da sensualidade genética, da hospitalidade orgânica, da alegria a qualquer prova – encontrando o nosso perfil ideal nas obras de Jorge Amado, Carybé e Caymmi, de qualidade e vigor incontestáveis. Mas, usando-as como release e cartão de visitas, domesticou-as e congelou nossa imagem como se não tivéssemos saído de um passado ficcional, exótico e amigável, como se não tivéssemos tido a reviravolta dos anos 1950 e 1960, com tantos bravos guerreiros do desenvolvimento econômico e intelectual, que foram incorporados às narrativas folclóricas como personagens inofensivos ou, quando impossível amaciá-los, como vilões. Todos empastelados neste painel em que cada um ocupava seu lugar, de onde era difícil sair. O fato estético emblemático é o painel de Carlos Bastos, na Assembleia Legislativa, que representa a Galeota Gratidão do Povo, da festa do Senhor dos Navegantes. Na galeota e ao seu redor, inclusive no céu e no fundo do mar, estão vários personagens baianos, cada qual em seu lugar. Autoridades políticas, personas sociais, artistas, personagens populares e folclóricos todos estão ali. Sempre me incomodou aquele painel até que, um dia, percebi a


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ironia: quem está no leme da nau, conduz o seu destino, é a Mulher de Roxo, mendiga que desfilava sua loucura pelas ruas do centro da cidade. Ao procurar sobre este painel, num site de buscas, encontro uma tese de Tatiane Almeida Ferreira, “A construção da imagem da Bahia turística em Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios, de Jorge Amado”. https://docplayer.com.br/198996079-A-construcao-daimagem-da-bahia-turistica-em-bahia-de-todos-os-santosguia-de-ruas-e-misterios-de-jorge-amado.html Em seu resumo, leio o seguinte: A presente tese busca realizar uma leitura das imagens que ajudaram a construir a imagem turística da cidade do Salvador na obra Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios, de Jorge Amado, a partir das suas principais edições, a primeira de 1945 (...) e a edição de 1977, atualizada em seu texto verbal (...) O que percebemos nessa obra é o fato de o escritor se preocupar em fixar uma imagem para a cidade do Salvador em dois períodos: na década de 40 e na década de 70 em conformidade com o contexto histórico-cultural. A pesquisa permitiu identificar nas obras do corpus, cruzando com as propagandas governamentais para o turismo, a presença de uma regularidade discursiva sobre a imagem de Salvador a partir da edição de 77, retratando a cidade como cartão-postal e lócus da cultura negro-mestiça singular e autêntica, impulsionada pela festa cotidiana e pelo encantamento. A imagem construída no livro de 45 denunciava uma urbe desigual, degradada e miserável tanto nos segmentos mais pobres da sociedade quanto na destruição de seu acervo arquitetônico, por isso o escritor vai mudar, vai reconstruir a imagem da cidade na edição atualizada, justamente para fazer a Bahia se firmar como polo turístico e entrar na concorrida rota internacional.


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Dentro desse impulso de desenvolvimento cultural, urbanístico, político e econômico, ainda naquele ano surgiria o Teatro Castro Alves. O antigo desejo da elite da cidade de ter um grande teatro, com tapete vermelho, onde pudesse entrar em traje esporte completo para ver seja lá o que fosse, parecia prestes a se realizar. No dia 2 de julho de 1957 foi iniciada a obra, com projeto de Diógenes Rebouças.


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Hélio Ferreira continuava prefeito de Salvador; Antônio Balbino, governador do estado e Juscelino Kubitschek, o presidente bossa nova. Termo que designava tudo inusitado, avançado, de vanguarda. Como o gênero musical – que teve seu marco inaugural quando Elizeth Cardoso gravou “chega de saudade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, com João Gilberto, ao violão. Surgiu em São Paulo, na faculdade de direito do Largo de São Francisco, um dos patrimônios culturais do país: o Grupo de Teatro Oficina. Referência. Inspiração. Evoé, Zé! Em Salvador, quase tivemos a inauguração do Teatro Castro Alves. O projeto de Diógenes Rebouças, já em início de construção, foi abandonado e a construtora que havia iniciado a obra foi descartada em benefício da Odebrecht, que articulou um novo projeto, encomendado à Bina Fonyat e validado por um prêmio na Bienal de São Paulo. O Castro Alves seria inaugurado. Dias antes da inauguração, o governador convidou a população para uma visitação pública. E, dias depois, um incêndio adiou a realização do sonho da burguesia soteropolitana de ter na cidade o seu templo das artes da cena. https://archive.vn/20190310004952/http://www.tca.ba.gov.br/ content/hist%c3%b3rico-tca#selection-1087.0-1097.536 Uma das grandes obras do período desenvolvimentista baiano, foi o Ginásio de Esportes Antônio Balbino, construído ao lado do Estádio Otávio Mangabeira, também com projeto de Diógenes Rebouças. É comparável o papel do arquiteto, em Salvador, com o de Niemayer, em Brasília. Se o baiano não projetou a cidade num plano piloto, redesenhou Salvador. Http://wwwmemoriasdafontenova.blogspot.com/2010/12/ inauguracao-do-ginasio-antonio-balbino.html


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Possivelmente, para a construção do ginásio, foi desapropriada a casa de meu avô na Ladeira da Fonte das Pedras. Fomos provisoriamente para uma casa, a de número oito, na Rua 8 de Dezembro, na Graça. Dessa casa da Graça lembro da entrada, com dois ou três degraus até a porta ladeados por canteiros de avencas. Lembro do estilo arquitetônico, da divisão dos cômodos, da escada e de debaixo da escada, onde ficava o telefone, um daqueles pesados e pretos, as visitas, o quarto dos meus avós dividido ao meio por uma cortina grená, que separava a metade do quarto onde eu dormia. As matinês, com filmes de Tom e Jerry, no Cine Guarany e, ali, o mural de Carybé que, da entrada, se espalhava pelas paredes da grande sala de projeções, com dois andares: a plateia e a galeria.


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Hélio Ferreira saiu da prefeitura em janeiro, sendo substituído por Gustavo Gomes da Fonseca, do Partido Trabalhista Nacional (PTN), cujo mandato como 48o prefeito (interino) de Salvador durou menos de um mês. Ganhamos o nosso 49o alcaide, Heitor Dias, da União Democrática Nacional (UDN), que ficou de abril de 1959 a abril de 1963. Era seu secretário de obras Virgildásio Senna, que muito viria a ajudar na construção do Teatro Vila Velha. Antônio Balbino estava no fim de seu mandato, e foi eleito, como nosso 34o governador, Juracy Magalhães da União Democrática Nacional (UDN). E nosso Presidente Bossa Nova, Juscelino Kubitschek, continuava a construção de Brasília, a nova capital no Planalto Central. O alto custo de vida causado pela inflação, ao longo do ano, gerou cerca de 60 paralizações de trabalhadores de diversos setores, exigindo o aumento salarial devido. Do outro lado da mesa foi criado o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) organização anticomunista e antipopulista, com ligações com a CIA, visando influenciar os debates econômico, político e social do país, por meio de ação publicitária e política. Foi criada a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), com objetivo de potencializar o crescimento da região. Oficiais da força aérea e do exército brasileiros iniciaram a Revolta de Aragarças, um levante militar com vistas à tomada de poder, sem êxito. Entretanto, foi realizado o primeiro sequestro de avião do país. Em 1955, após a luta contra os franceses pela independência


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do seu território, o Vietnã foi dividido. Uma parte ficou sob a influência dos Estados Unidos a outra, da União Soviética. E com a tensão permanente entre ambos, a chamada Guerra Fria, iniciou-se uma guerra real desastrosa, em 1959, que durou duas décadas e foi concluída pela derrota dos EUA, após terem finalmente participado diretamente, entre 1965 e 1973, em intervenções devastadoras. Ho Chi Min, o fantástico líder dos vietcongues, está embalsamado e preservado do tempo num monumento funerário em Hanói, que visitei em 2014, numa viagem inesquecível, onde além do meu herói, no Vietnam, assisti a cinco apresentações do Teatro de Bali, Indonésia. Essa forma dramática que também fez parte do imaginário da minha formação teatral, e a que assisti pela primeira vez em Londres, no LIFT (London International Festival of Theatre), quando estive com o projeto Zumbi. Fidel Castro e Ernesto Che Guevara eram também nossos heróis, habitavam nossas mentes e corações e suas fotos figuravam no meu panteão particular no armário do meu quarto. Lideraram a Revolução Cubana, vitoriosa esse ano em que fiz cinco anos. O movimento armado tirou do poder o ditador Fulgêncio Batista e os estadunidenses que exploravam o país e implantou um novo regime, nova cultura e novo sistema. Claro, isso foi uma reviravolta no mundo, na Guerra Fria, e teve consequências gravíssimas para os cubanos: boicotes, tentativas de interferência e cerco econômico que duram até hoje, mas a Ilha é uma referência positiva na construção de possibilidades para o mundo. Edgard Santos continuava sua missão acadêmica civilizatória para a ex-capital da Colônia. Recebeu e manteve nos porões da Reitoria, o português Agostinho Silva, senão o, um dos formuladores da noção de Lusofonia. Agostinho organizou


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a criação do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO) no contexto do processo de descolonização da África, e integrando a luta antirracista no país. O CEAO, vinculado à Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, é voltado para o estudo, a pesquisa e ação comunitária na área dos estudos afrobrasileiros e das ações afirmativas em favor das populações afrodescendentes, bem como na área dos estudos das línguas e civilizações africanas e asiáticas. No fim do ano letivo, a primeira turma de formandos da Escola de Teatro receberia seus diplomas e seriam atores e atrizes profissionais, formados por uma universidade. Seriam os primeiros no Brasil. Entretanto, havia uma tensão entre um grupo de alunos e professores e o diretor, Eros Martim Gonçalves. Os motivos foram muitos e nenhum que justificasse a ruptura que poderia colocar em jogo a grandeza de termos a primeira escola de teatro universitária do Brasil. Egos inflados talvez. Alguns dos alunos – Carlos Petrovich, Carmem Bittencourt, Echio Reis, Maria Francisca, Othon Bastos, Tereza Sá e Sonia Robatto e o professor João Augusto – planejavam formar uma companhia profissional, representada por uma sociedade de cotas limitada, depois da formatura. A ruptura, consequência dos atritos gerados pela tensão, antecipou a decisão. O relato, de Sonia, confirmado em parte por outros relatos, foi de que em sala de aula houve um confronto entre ela e Martim, ela levantou-se para sair da sala, ele afirmou que ela não voltaria para concluir o curso se saísse. Ela saiu, seguida pelos cinco futuros sócios e por outros colegas. Foram diretamente para a Reitoria, que fica literalmente do outro lado da rua, e informaram Edgard Santos da decisão. Não voltaram, seguiram na decisão de fundar a sociedade.


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Era setembro. Em dezembro estrearam o primeiro espetáculo: O Auto do Nascimento, texto de Sonia, dirigido por João, com a Companhia Teatro dos Novos: os sócios e outros jovens atores e atrizes convidados entre os colegas que saíram com eles da sala de aulas. Surgia o primeiro grupo de teatro profissional da Bahia. Coincidentemente, no ano seguinte, no dia 26 de maio, data de meu aniversário, efetivou-se a homologação dos estatutos da sociedade. Portanto, nascemos na mesma data. Eu fazia cinco anos, em maio. E uma das festas de aniversário que lembro foi o desse ano, na casa da Graça. Não sei quem decidiu que o bolo e a festa teriam como tema Cinderela, talvez pelo relançamento do filme da Disney, de 1950. Que provavelmente ocorreu no ano anterior, no Brasil, uma vez que a data do primeiro relançamento da película é 1957. E por que lembro desta festa? Por que existem fotos – únicas de um bolo ou festa de algum aniversário meu – muito superexpostas e meio desfocadas do bolo, o que mostra sua importância, que vem da dificuldade que foi sua execução. Lembro do planejamento e do labor de minha avó, minha mãe e de minha tia e sua cunhada, que fazia bolos, e as tentativas e erros, principalmente na construção da carruagem. Primeiro tentaram, como a fada madrinha, transformando uma abóbora verdadeira, com glace. Não deu certo, a abóbora suava e derretia o confeito. Então, Carrera, o marido de minha tia, delegado e artista plástico, fez a estrutura da carruagem com uma caixa de sapatos, que foi belamente confeitada para desempenhar seu papel de carruagem. Também é tudo de que lembro nessa festa: o bolo. E os bonecos representando os personagens, com quem brinquei muito tempo, e os cavalos de louça, magníficos em sua elegância, que passaram, depois da performance no bolo, a adornar a penteadeira de minha tia.


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O cinema sempre me fascinou. Não só os desenhos da Disney. Muitos filmes me marcaram. Um dos primeiros: Marcelino Pão e Vinho, filme espanhol de 1955, lançado no Brasil em 1959, que vi a primeira vez com meu avô ou minha avó ou os dois e depois fui convencendo outras pessoas da família a me levarem de novo. O ator, Pablito Calvo, se parecia comigo. Na rua me paravam e perguntavam se eu era ele. Mas não. Eu era eu. Mesmo que ainda não soubesse exatamente quem era eu e o que me separava de Marcelino/ Pablito e sua história com o escorpião e o Cristo mórbido que o mata para que reencontre sua mãe. https://www.youtube.com/watch?v=RZJbwzYPvE0 E o Dom Quixote que não consegui assistir até o fim com medo das imagens. Revejo agora o filme e descubro que a cena era a que ele é espancado por pessoas da pensão, e que o filme é o Dom Quixote, de Kosintsev (1957), cineasta que me encanta, especialmente com o Hamlet e o Rei Lear que fez em parceria com Shostacovich. No meio do filme, pedi para sair e meu avô me levou pra fora do Cine Excelsior e ficamos passeando na Praça da Sé para esperar meus irmãos mais velhos, que não se assustavam mais com filmes, e quem mais tenha ido conosco. https://www.dailymotion.com/video/x31xndp https://vimeo.com/290052437 O gabinete da casa da Graça era onde meu avô e eu colávamos as figurinhas no álbum Raças e Culturas do Mundo Inteiro (Editora Vechi – 1958). Ele trazia só um pacote a cada dia quando voltava do trabalho. Os pacotinhos eram esperados ansiosamente, e às vezes ele me levava à Praça Municipal para trocar as duplicatas por alguma que ainda não tinha,


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ou comprar por preços altos, as figurinhas escolhidas uma a uma, a retalho, já perto do fim, para completar o álbum. Este álbum se perdeu. Mas ficaram as imagens reproduzidas nos figurinos de muitos trajes recriados em desenhos que fiz, por muito tempo. Comecei a desenhar provavelmente muitos anos antes, mas lembro bem da brincadeira de escola, nesse gabinete onde o desenho, que às vezes evoluía para narrativas gráficas, sempre era incluído como tarefa, além de ir sendo alfabetizado por minha avó, Ady e Acy, mas também por irmãos, avô e primas e tias e visitas e Gracinha, a filha de Dilú. E ainda existem os primeiros registros de meu trabalho artístico, guardados na maioria por minha avó, mas também por Acy e Ady. A maior parte desses documentos não está datada, salvo por alguns raros que dizem “feito por Marcio, aos 5 anos” ou “de meu netinho, com 6 anos”, e podemos estabelecer quando foram produzidos. Por estilos, temas, domínio técnico estou decidindo quando foram feitos os outros. Meio aleatório, sei. Mas como fazer? A maioria dos desenhos são figuras femininas, que talvez tenha a ver com o fato de estar cercado sempre por mulheres, como já disse. Tive quatro mães: Ady – minha mãe biológica, Acy – minha tia e madrinha, Alice – minha avó e Dilú, negra que trabalhava na casa de meu avô e me educou em sua raça e sua tradição, que me deu seu leite cultural santoamarense, que me ajudou a ser um cidadão brasileiro. Entre os desenhos existem algumas narrativas gráficas.


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Pequenas histórias onde um desenho e as letras que contam a história se entrelaçam. Talvez a mais antiga seja esta, onde está registrada a ficha técnica com os créditos de “inventor” e “escritor”, o que significa que eu ainda não sabia escrever e recorria aos que sabiam, no caso meu irmão mais velho, ditando as narrativas para poder ilustrá-las: ANA E O SEU CABELO Era uma vez uma menina chamada Ana, que tinha os cabelos de ouro e um dia passando pela rua da cidade quando encontrou um lindo castelo. No castelo que tinha diversos quartos entrou em um dos quartos que tinha diversos pássaros que esticavam os seus cabelos gritava uai... uai... uai. Que viu um lindo príncipe que casou-se e viveu por muito tempo e teve lindo filhinho. FIM inventor: Marcio escritor: Marcus Existe outra variação mais compacta, também em torno deste universo imaginário e já escrita por mim mesmo, com ou sem ajuda dos mais velhos: A PRINCESA DOS CABELOS DE OURO Era uma vez um rei que tinha uma filha que tinha os cabelos de ouro quando a princesa pentiava os cabelos caia ouro e diamante. Em outra, o título encabeça a página, seguida pela narrativa e logo um desenho onde vemos uma bruxa clichê, com chapéu e nariz de ponta, mexendo num caldeirão. Um cenário


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composto de móveis onde estão jarros, vidros, provetas e potes e o filete de uma estante com alguns livros. Em baixo da ilustração, uma legenda, como nos livros de contos, uma frase tirada do texto: “ela mexia o caldeirão cantando assim”. NAIR SABAQUE Era uma vez uma bruxa feia e com os cabelos esticados que tinha livro de bruxaria e fazia muito feitiço ela mexia o caldeirão cantando assim: mexe, mexe, caldeirão mexe, mexe, até ferver quem beber deste caldinho terá vidaté morre Esta narrativa mostra uma visão de mundo da classe média branca de Salvador, da qual minha família fazia parte. O caso Nair Saback foi um desses casos que duram um tempo, viram uma espécie de reality show na imprensa, várias controvérsias e pontos de vista, sem que eu lembre o desfecho. Nair Saback era uma líder religiosa. Diariamente havia filas de pessoas muito necessitadas, em sua porta, para receberem alimentação. Ela atendia a pessoas com distúrbios mentais ou emocionais e outros problemas. Estariam sendo vítimas de espíritos obsessores, e iam ou eram levados por familiares para serem tratados, pelo que a líder não recebia remuneração. Ao que parece, alguma violência física fazia parte do exorcismo. Ela foi denunciada, acusada e julgada. De alguma forma, fiz eu também o meu julgamento, reflexo do julgamento familiar, que está expresso no conto visual.


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http://reynivaldobrito.blogspot.com/2012/05/seitas-pregam-oamor-e-praticam-o-odio.html https://docplayer.com.br/56342432-Sagrado-profano-notrato-do-corpo-e-da-saude-na-metropole-negra-salvador-nosanos-1950-1970.html http://armindobiao.blogspot.com/2011/07/o-n-3-tem-nairsaback-sergio-farias.html


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Heitor Dias continuava prefeito, e a Prefeitura apoiava a Companhia Teatro dos Novos, comprando espetáculos para serem apresentados em praças públicas e em bairros mais afastados. Juracy Magalhães, no governo do estado, teria um papel fundamental na construção do Teatro Vila Velha. O presidente, Juscelino Kubitschek, inaugurava Brasília, que substituía o Rio como capital do país. Glauber Rocha anunciava um novo momento do cinema nacional. Em 1960, filmava Barravento, com Antônio Pitanga e Luisa Maranhão. Aviões da Real Transportes Aéreos e da Marinha dos Estados Unidos colidiram. Cairam na Baía de Guanabara e mataram 66 pessoas. Na estrada de ferro Central do Brasil, no Rio de Janeiro, aconteceu o assalto que impactou o país e o acontecimento virou filme, em 1962, dirigido por Roberto Farias: O Assalto ao Trem Pagador, Éder Jofre tornou-se campeão mundial dos pesos-galo, da Associação Mundial de Boxe, ao vencer o campeão mexicano Eloy Sanchez, em Los Angeles, Estados Unidos. O Museu de Arte Moderna foi instalado no foyer do Teatro Castro Alves, por Lina Bo Bardi. A arquiteta tinha um projeto incrível que vale a pena conhecer e refletir. Um programa pedagógico, investigativo, includente, revolucionário. Principalmente revolucionário, propulsor de mudanças radicais na vida da cidade se tivesse vida longa, ou pelo menos média.


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Mas Salvador não conseguiu suportar por mais de cinco anos. Lina veio pra Salvador, talvez por articulação do amigo Martim Gonçalves. Foi ele quem apresentou a ela o Solar do Unhão e sonharam uma universidade popular de arte. Caminharam para isso, transformando o solar no Museu de Arte Moderna e Popular. A reforma projetada por Lina e a criação da escada é pura poesia espacial. É absolutamente emocionante entrar no museu, subir a escada. É das realizações mais sintéticas e bem sucedidas em termos de discurso político e estético. A escada não une apenas os pisos do museu, mas a Bahia ao mundo, o passado escravagista a um futuro libertador, o trabalho operário à arte, nos une numa possibilidade infinita de prazer poético. Mas enquanto esteve acolhido o museu no foyer do teatro, Lina mostrou principalmente a capacidade transformadora da arte. E a mim, de alguma forma também transformou. Quando, para o espetáculo de entrega do Premio Braskem de 2017 que homenageava os 50 anos do Teatro Castro Alves, estudei a intervenção da arquiteta no teatro e vi fotos das exposições que promoveu ali, lembrei que estive em pelo menos uma delas. E o impacto, dessa ou dessas exposições que vi, deixou marcas lindas em mim e no meu trabalho futuro. Recentemente vi um texto de Matilde Matos que compara o fluxo de público na exposição que fiz, naquele espaço, às do Museu de Arte Moderna de Dona Lina, ali. http://enciclopedia.itaucultural.org.br/instituicao14566/ museu-de-arte-moderna-da-bahia-mamba Nesse Museu de Arte Moderna, Lina e Martim Gonçalves fizeram a Ópera de três tostões, de Brecht. Marco da história do teatro brasileiro. http://gthistoriacultural.com.br/VIsimposio/anais/Mateus%20 Bertone%20da%20Silva.pdf


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No Reino Unido, um grupo de quatro jovens músicos foi lançado por um fantástico empresário visionário, para revolucionar ou pelo menos carimbar a face de uma revolução com sua identidade: Os Beatles (John Lennon, Paul Mccartney, George Harrison e Ringo Starr). Banda e movimento que eu só iria conhecer alguns anos depois, em 1965 ou 66, quando minha avó comprou para mim na Mesbla um compacto duplo com a trilha de Help. O cientista estadunidense Gordon Gould, publica pela primeira vez o termo laser para descrever um dispositivo que emite luz por um processo de amplificação ótica baseado na emissão estimulada de fótons. Antes, outros pesquisadores haviam concentrado seus estudos em invenções parecidas. Mas foi em 1960, que Theodore Harold Maiman produziu o primeiro laser, o que fez com que houvesse uma briga pela patente da invenção durante três décadas. No dia 18 de agosto, foi lançado o contraceptivo oral Enovid-10 nos Estados Unidos. Isso mudou o comportamento da humanidade. Vale dizer que a invenção em parte deve sua existência ao esforço da feminista Margaret Sanger e o investimento da milionária Katherine McCormick que lutaram politica e financeiramente contra a igreja e toda a sociedade patriarcal estadunidense pelo direito das mulheres de usarem seu próprio corpo sem o risco de abortos clandestinos ou auto induzidos. É publicado Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada, de Carolina Maria de Jesus, com uma tiragem inicial de dez mil exemplares que esgotou-se em uma semana. Carolina, num clássico, nunca recebeu o que efetivamente deveria receber pelos direitos autorais de sua obra.


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Gosto de pensar que nasci nesse momento de minha província, em que ela pensava que podia ser metrópole. E agia como tal. Capacidade para isso tinha. Através da cultura, da arte, do pensamento, da tradição e, também, das heranças misturadas, africanas, islamitas e cristãs ibéricas. Realmente, a Bahia (Salvador), nesta época, foi uma referência, com tantas pessoas brilhantes. E se comportava assim, com duas gerações de artistas modernistas convivendo e interferindo em projetos urbanísticos na cidade, em monumentos, em construções importantes, em painéis em prédios residenciais, comerciais e institucionais; com bares, galerias, eventos, jornalistas, escritores. Uma geração que inventava a bossa nova e inventaria o cinema novo e a tropicália. Frequentava o Anjo Azul, assistia a peças de teatro no Teatro Santo Antônio, via filmes de arte no Cineclube de Walter da Silveira. Tudo se movia. E quase éramos. E fomos. Mas viria o golpe civil militar e as coisas se transformaram. Mas viria o golpe civil militar e as coisas foram contidas. Freadas. E o possível movimento foi manietado e as coisas não se transformaram tanto assim. Brasília foi inaugurada e meu avô se mudou para uma casa no Jardim Brasil, que fez construir, com projeto de tendências modernistas, de Ronald Lago, que incluía desenho de interior, com móveis criados pelo arquiteto. Uma casa ampla com um espelho d’agua na entrada. Na grande sala de visitas, espaço amplo, com paredes de um surpreendente azul muito escuro e cortinas salmão cobrindo amplas portas de vidro, ficava a radiola ou vitrola onde ouvia os discos de histórias, que sabia de cor, ouvia música e muitas vezes dançava. Eram muitos discos, de muitos gêneros, tinham


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os LPs de vinil e os 78 rotações de cera de carnaúba, pesados e frágeis, que se quebravam facilmente. Os discos com histórias ajudaram a formar meu imaginário e minha mitologia pessoal, além de ter me iniciado em noções de dramaturgia e atuação. Reproduzia as inflexões vocais dos atores e atrizes, quando repetia de memória as histórias. E, a partir daí, entendi que o texto falado em teatro é uma construção rítmica e melódica que faz parte da sonoridade geral de uma peça, um dos elementos de sua trilha musical, parte dela. Ouvia baiões, sambas, tangos, fox trotes, sambas canção, tangos canção, valsas, boleros, sinfonias, sonatas, xaxados, frevos, marchas, marchas canção, árias, coros e outros gêneros e ritmos, de muitos artistas nacionais e internacionais, todos juntos e misturados, sem nenhum critério de seleção a não ser o meu gosto pessoal e afinidade eletiva, que fizeram minha educação musical, autodidata, intuitiva, como basicamente foi toda a minha formação artística. Ouvia as músicas com o corpo, sentia e produzia ritmos, melodias e narrativas com os movimentos que também me davam noções de ocupação do espaço. Um dia estava dormindo no sofá da sala, onde provavelmente tinha ouvido músicas ou histórias e escutei, em meio ao quase sono, uma discussão de minha avó com Carrera, o marido de Acy, sobre minha educação. Ele falou ríspida e depreciativamente “ele vai ser bailarino!”. Não fui. Mas dançar as músicas na vitrola da sala de visitas me educou. Contíguo à ampla sala de visitas, ficava um jardim de inverno e entre ambos, a sala de estar. As duas salas se comunicavam com a sala de jantar, com sua grande mesa. Ali havia uma


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porta para um pequeno vestíbulo com um lavabo e duas portas, uma para um banheiro e outra para o quarto de minha bisavó, que passei a ocupar depois que ela morreu. Na outra direção, um corredor que dava para a cozinha e, depois da cozinha, a garagem e os quartos dos empregados. Em cima da garagem e dos quartos, um pátio aberto para estender roupas e uma salinha onde guardavam-se as roupas limpas para serem engomadas e passadas. No segundo andar da casa, o quarto de meus avós, com vestiário e banheiro; o de minha tia e tio, também com banheiro; e, junto da escada, o meu quarto, antes que eu ocupasse o do térreo, de minha bisavó; este quarto também abrigava hóspedes, então eu passava temporariamente para o de meus avós e dormia numa cama de campanha de metal e lona azul escuro. No meio da escada, havia uma espécie de nicho, e nele um praticável, forrado de veludo vermelho, base para uma escultura de gesso. Era uma mulher ajoelhada com o corpo dobrado sobre as coxas. Ninguém, a não ser eu, gostava muito dela. Um dia foi retirada e destruída. Em frente à escada havia o gabinete, com uma estante cheia de livros que ocupava uma parede inteira, em frente às escrivaninhas. Ao fundo, uma porta de vidro se abria para uma varanda, de onde se via o pátio interno e o terraço, onde se estendiam as roupas para secar e quarar. Os livros. Durante a mudança, ainda na Graça, quando arrumaram para selecionar e embalar os livros que iam, me caiu nas mãos uma edição da Divina Comédia, de Dante, ilustrada por Doré. Foi instantânea a fascinação pelas gravuras: os demônios, os anjos, os movimentos coreográficos dos coros gráficos e principalmente as representações do


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inferno, com uma dramaticidade cênica imensa e muitos corpos nus. Fulminante. https://br.pinterest.com/luishansted/gustave-dor%C3%A9-adivina-com%C3%A9dia/ Também fulminante foi Sarita Montiel em La Violetera, filme a que assisti várias vezes e fiz minha tia comprar o long play importado e caro, com a trilha sonora e todas as canções que ela cantava. https://www.youtube.com/playlist?list=PLIxiL61jvy-Rf-BvuFSDdXRbLaCGYx1F Outra paixão, da mesma época, foi por minha primeira professora. Nesse mesmo ano entrei para a escola, um centro educacional familiar, chamado Colégio Maria ngela, em memória da filha da dona da escola. A foto da infanta Maria ngela, colorido manualmente e posto em moldura com quinas arredondadas, figurava na sala de entrada, sempre com flores num jarro triangular preso abaixo do retrato. Flores roxas de saudade. A equipe da escola, além de uma auxiliar, era constituída pela diretora, também professora dos mais velhos, e sua filha, de quem infelizmente esqueci o nome, professora dos mais novos. As duas davam conta de todas as turmas, juntadas em duas ou três salas que elas administravam alternando-se e dando lições e tarefas que fazíamos enquanto passavam tarefas ou lições para a outra turma, do outro lado da sala. Como eu já tinha sido alfabetizado, e estava junto com as turmas mais adiantadas e respondia às questões e fazia os trabalhos dirigidos a elas, diretora e professora, em acordo com minha família, me transferiram do jardim de infância/alfabetização para o primeiro ano A, e logo para o primeiro ano B. Assim, com seis anos estava pronto para entrar no curso primário.


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Gostava tanto que reproduzia a escola em casa. Imagino que fosse uma brincadeira de encenação, porque num caderno onde me exercitava que foi preservado, está escrito em todas as páginas, no cabeçalho, o nome do colégio e a data e, em cada uma, uma série de tarefas que me parecem mais provocações a que eu poderia responder corretamente do que efetivamente provenientes de uma pedagogia escolar. Coisas como “escreva o nome das pessoas que você mais gosta” – onde estão, nesta sequência, Alice (avó) Ady (mãe) Acy (tia) Arnóbio (avô) Mimi (Emília, bisavó) – ou “escreva de 999 a 1000” ou ainda “o nome da moça que ‘perdeo’ (sic) o sapato”. Entre outros textos, há uma narrativa assinada:


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Colégio Maria Ângela, 28 de outubro de 1960 A PRINCESA MELANCÓLICA Era uma vez uma princesa muito triste porque não podia sair com o seu pai o rei ou sua mãe a rainha e um dia seu pai viajou e sua mãe também, mas mesmo não podia sair mas vestiu um vestido da aia e pode sair. FIM Marcio Meirelles Durval


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Entrei para o Colégio 2 de Julho. Saí da escolinha familiar amorosa e acolhedora com a professora apaixonante para uma grande estrutura presbiteriana, dirigida por Dona Jane e pelo reverendo Enoch, com muitos alunos, muitas salas, muitos espaços, grandes banheiros coletivos com cheiro de amônia, auditório/palco, campo de futebol. A sala do 2o ano primário de Dona Edna, por quem seria impossível me apaixonar, o que diminuiu meu rendimento escolar, ficava num segundo andar, num anexo atrás do prédio principal, o Solar do Conde dos Arcos. No solar funcionavam a diretoria, a secretaria, algumas outras salas e dependências. Além das matérias que continuam, havia também música no currículo. E descobri recentemente que era Neyde Moura quem dava as aulas de iniciação musical para todas as turmas do primário, durante o período em que lá estudei, Portanto foi ela minha professora de iniciação músical. Imaginava ter conhecido Neyde, em 1997, como atriz em Barba Azul. Mas tivemos outras vidas antes. Tinha também aulas de religião, quando histórias moralizantes da Bíblia eram contadas. Para meu deleite, às vezes, eram ilustradas num flanelógrafo: um quadro de flanela verde onde eram afixados por uma lixa colada no verso de cada personagem, elemento dos cenários, animais, objetos. Neste quadro era realizada uma encenação, como num teatro bidimensional,. E a encenação era mais importante para mim do que o seu conteúdo, que evidentemente era transmitido fazendo seu papel catequizador, barrado pela formação fortemente católica, principalmente de minha avó. A minha entrada num colégio batista, como a de meus irmãos antes de mim, foi motivo de um certo atrito familiar. Não sei


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por que fomos para aquele colégio. Talvez porque ficasse do outro lado da rua do novo apartamento alugado, para onde minha mãe se mudou. Isso tornava mais lógica a minha mudança também. Como a Escola Maria ngela ficava perto da casa de meus avós, na Barra, e minha mãe morava na Pituba, que era bem distante, para facilitar minha ida à escola eu ficava grande parte do tempo com meus avós. Agora o apartamento de minha mãe e o colégio eram vizinhos, então eu passaria mais tempo com ela, mesmo que meu avô me trouxesse e levasse de carro ás vezes, era mais lógico eu ficar perto da escola. Isso sempre foi uma questão. Onde era minha casa? Na casa de minha mãe e meus irmãos, ou na casa de meus avós e minha tia? Eu, geminiano, tinha duas casas, duas vidas e procedimentos. Nas duas era incentivado a desenhar, fabular, ler histórias. No apartamento de minha mãe tinha um grande armário escuro e em cima dele muitas revistas. Eu subia e passava lá horas sentado lendo quadrinhos: Epopéia, Edição Maravilhosa – série da EBAL (Editora Brasil América Ltda.) que quadrinizava grandes obras da literatura, inclusive Shakespeare, com três tragédias num único número: Romeu e Julieta, Hamlet e Macbeth – Tarzan, Reizinho, Pinduca, Gato Félix, Super Mouse e vários outros títulos. Tudo era fonte de recriação. O incentivo às artes era constante. Brincar de desenhar era uma atividade frequente, e todos se envolviam nela, adultos e irmãos e primos e amigos. Desenhar estava também nas brincadeiras de “escola”, mesmo antes de ingressar numa, daí minha alfabetização ter começado em casa. E o estímulo acontecia não só na produção, mas também na preservação desses trabalhos, na


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guarda e arquivamento deles. Por isso tenho ainda desenhos e narrativas gráficas que fiz desde os cinco anos. E às vezes ainda descubro algum desenho, algum trabalho, um escrito, recorte de jornal, em gavetas, pastas, armários de minha mãe ou minha tia. Meu trabalho como artista começou aí? Ou quando? Quando os desenhos de alguém, as narrativas literárias ou cênicas ou gráficas deixam de ser atividades lúdicas infantis, para ser um trabalho de exercício de linguagem? Quando vira um trabalho de arte? Ou definir isso é uma tarefa do outro? Levo muito a sério os desenhos de meus netos e muitos estão guardados, colecionados, datados e cadastrados como obras de arte, porque entendo que são. Em relação às artes visuais, sempre me pergunto por que algumas obras estão em museus e galerias e fazem parte de um mercado complexo e outros são vendidos como artesanato ou, não vendidos, estão nas casas dos artistas ou de seus amigos e parentes? O que define que determinada obra ou artista deve estar em museus e galerias ou na feira de artesanato, em lojas de decoração? O que de fato é arte e quem define isto? O mercado? A crítica? Ou um conjunto de coisas que passa pela intenção do gesto, o processo de criação e execução, a finalidade do feito, a recepção, entendimento e aceitação de quem recebe e reage? O mercado das artes visuais sempre foi um tema que me interessou, especialmente durante a gestão na Secretaria de Cultura. Por que os artistas baianos (da província) dificilmente estão no mercado internacional? Salvo raras e difíceis exceções. Heitor Dias e Juracy Magalhães continuavam, respectivamente, prefeito de Salvador e governador da Bahia.


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Heitor Dias e Juracy Magalhães continuavam, respectivamente, prefeito de Salvador e governador da Bahia. O presidente Juscelino Kubitschek deu lugar a Jânio Quadros, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTN), que, com discurso contra a corrupção, simbolizado por uma vassoura que varreria a sujeira do Brasil, tornou-se o 22o presidente e ficou no cargo por atribulados, frenéticos, excêntricos, caóticos xx meses. Renunciou em agosto, dando início à crise institucional que culminou na ditadura militar. https://cidadeverde.com/noticias/241078/reportagemespecial-janio-quadros-os-100-anos-de-um-politico-incomum https://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%A2nio_ Quadros#Presidente_da_Rep%C3%BAblica “Um dos motivos para a vitória de Jânio foi o seu típico jeito populista de querer representar ser igual ao povo. Ele falava a linguagem do povo simples, andava com os cabelos despenteados, com o paletó cheio de caspa, e comendo sanduíche de mortadela nos palanques em que fazia seus discursos. Ele dizia ser um católico, anticomunista, a favor da família e da moralização da sociedade”. Diz a internet. E constato o quanto isto continua a se repetir. A saída de Jânio deu lugar ao 23o presidente: Ranieri Mazzilli, do Partido Socialista Democrático (PSD) que ficou no cargo por curtos 14 dias. Mais confusão e ameaças à democracia. Os militares não queriam que João Goulart, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o vice-presidente eleito, assumisse seu papel constitucional e ocupasse o cargo vago. Brizola liderou uma campanha que acabou numa negociação complicada e, no acordo com os militares, foi instalado um parlamentarismo para que Jango assumisse a presidência, sendo o 24o neste cargo.


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Neste período, após 14 anos de rompimento, no contexto da Guerra Fria, o Brasil restabeleceu relações diplomáticas com a União Soviética. Na outra ponta da sociedade, em sua base, Laudelina de Campos Melo lidera a criação da primeira associação de empregados domésticos, para lutar pelos direitos da categoria, em Campinas/SP: a Associação Profissional Beneficente das Empregadas Domésticas, que esteve em várias frentes e lutas, em especial contra o preconceito racial. Mil e duzentas empregadas domésticas estiveram no ato da inauguração da associação, em 18 de maio de 1961. No ano seguinte, Laudelina foi convidada para participar da organização de diversos sindicatos da categoria em outros estados, participando também de movimentos negros e feministas. https://www.youtube.com/watch?v=jyl2ki8itgg Foi com uns seis ou sete anos que assisti a peças de teatro que marcaram minha memória. Antes talvez do que isso, lembro de uma encenação de Chapeuzinho Vermelho, no auditório ou numa sala da Pupileira, talvez feita pelos próprios pupilos e/ou tutores como atividade educacional. A única coisa que lembro desta experiência foi o susto e medo pela passagem do Lobo que vinha do fundo da plateia e atravessava o corredor central entre as poltronas, onde eu estava. É tudo que lembro. Às vezes penso que reconstruo minha memória criando cores e cenários e figurinos e espaços daquela peça... Mas o que lembro de fato é a sensação: de terror e possivelmente posterior piedade – catarse. Meta aristotélica do teatro. Mesmo que houvesse essa experiência com o Lobo na Chapeuzinho, seguramente foi em 1961 que o teatro entrou


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em meu imaginário. Assisti a uma remontagem de Narizinho – musical da Hora da Criança, escrito e dirigido por Adroaldo Ribeiro Costa, no Teatro do ICEIA. O grande teatro, as escadarias, os camarotes, a quantidade de público, todas as circunstâncias em torno me impressionaram mais do que o espetáculo em si, do qual lembro vagamente dos cenários, de que era cantado por muitas crianças e pouco mais. Enquanto escrevia isso, quis restaurar essa memória e rever o espetáculo. Procurei entre amigos aqueles que poderiam ter algum material: nada. Cheguei até a própria Hora da Criança, em seu sítio na internet. Curiosamente, a remontagem de Narizinho, de 1961, não consta na linha do tempo da instituição. Como tinha a certeza de que havia assistido, fui aos seus administradores para confirmar que houve uma remontagem em 1961, embora não esteja na sua linha do tempo e não tenham fotos nem materiais disponíveis. A ausência de documentação e acervos de registros do teatro baiano, embora haja alguns, em parte explica a não inclusão do teatro da província na história oficial do teatro brasileiro. Vale aqui um comentário: Narizinho, em sua estreia, em 1947, inaugurou o teatro brasileiro para crianças. Ao contrário do registro oficial da história de nosso teatro, que dá o mérito de ter lançado “as bases da dramaturgia infantil brasileira” a O Casaco Encantado, de Lúcia Benedetti, escrita um ano depois. A opereta de Adroaldo Ribeiro Costa não consta nessa história. Apesar da presença de Monteiro Lobato na estreia, e a possível consequente repercussão nacional que isso possa ter tido; apesar da importância do projeto poético/pedagógico da Hora da Criança, do qual Narizinho era a ponta de um grande iceberg; essa peça e o projeto aconteceram na província, fora do eixo, portanto dificilmente serão considerados em sua real importância pela metrópole sudestina.


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https://prosas.com.br/empreendedores/3084-hora-da-crianca https://horadacriancabahia.com.br/quem-somos/ Ultimamente há um movimento no sentido de reconstrução da memória do teatro baiano. Muitos projetos estão visibilizando e dando acesso a vários arquivos, registrando vários processos de grupos, encenadores, artistas. Inspirado pela tese de Evani Tavares Lima – Um olhar sobre o Teatro Negro do Teatro Experimental do Negro e do Bando de Teatro Olodum – quando o Bando fez 20 anos, entendendo que o grupo é parte de uma história, eu quis montar uma linha do tempo do teatro negro na Bahia para o programa de Bença. Diante da dificuldade de encontrar registros, acabei me limitando a um apanhado de memórias, minhas e de outros artistas, e de alguns outros dados colhidos aqui ou ali. Muitos não lembravam suas trajetórias e muito menos tinham documentos de suas carreiras, fotos, programas ou textos. https://dlc.library.columbia.edu/catalog/ ldpd:504734/bytestreams/content/ content?filename=Evani+Tavares+de+Lima.pdf Neste momento, o ator João Guizande e seu grupo estão fazendo vídeos e entrevistas de pessoas do teatro baiano para registrar parte de nossa história. No último episódio da web série Memória do Teatro Baiano em Docudrama, João fala de Nilda Spencer, Mário Gusmão e Wilson Melo e lamenta nunca tê-los visto num palco. Pensei: “dirigi os três”. E logo depois tentei lembrar de artistas importantes, como os três que Guisande lamentava não ter visto, que eu não tinha visto no palco. Pouca gente, alguns diretores que passaram por aqui, D’Aversa... atrizes, Nevolanda Amorim, Cilene Guedes... De qualquer jeito, artistas da geração Escola de Teatro. E antes? Quem construiu a base para que tudo acontecesse?


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Os grupos amadores, os artistas que participaram de muitas peças. Onde está a memória desta gente? https://memoriadoteatrodabahia.com.br/#docudrama Nesse ano de 1961 também assisti a Pluft, o fantasminha, de Maria Clara Machado, clássico do teatro infantil brasileiro. Novamente, mais as circunstâncias do que a montagem me impressionaram. A memória da montagem foi restaurada depois. Mas o que lembro, novamente, foi a arquitetura – o Cineteatro Oceania e seu art déco, as grandes colunas, patamares separando degraus etc. – e o camarim. Depois do espetáculo, fui ao camarim, porque Acy era delegada de menores e quem fazia Pluft era Fernando Marcos, um garoto adolescente e, não sei se por motivos profissionais dela ou não, fomos onde a magia se instala e desaparece. A revelação: atores e atrizes que faziam os fantasmas pintados de branco, tirando as perucas e trocando de pele, os piratas e Maribel. E ouvir que o Pluft tinha que ir logo pra casa porque tinha 12 anos e tinha teste na escola no dia seguinte e precisava estudar. Daí a advertência da importância de cumprir seus compromissos. Ele era ator ali, mas tinha uma outra vida de estudante e tinha que dar conta das duas.


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Anos depois, pude reconstruir a memória e agora é como se lembrasse também do espetáculo. Ao arrumar os arquivos no Teatro Vila Velha, em 1998, nos ajustes para a reabertura do teatro renovado, encontrei o panfleto promocional de uma montagem da Companhia Teatro dos Novos, de 1961, no Cineteatro Oceania: Pluft, o fantasminha. Logo depois todas as fotos do acervo fizeram renascer personagens e atores e cenas. Então aquelas pessoas no camarim, tirando as perucas e arrumando os figurinos eram Sonia Robatto, Carlos Petrovich, Othon Bastos e todos aqueles que criaram o grupo que eu iria reconstruir e dirigir. https://www.flickr.com/photos/teatrodosnovos/albums/72157715026033512


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O 49o prefeito, Heitor Dias, continuava em seu posto nesse ano de eleições. Juracy Magalhães, o 34o governador, cedeu, a Título Precário, um terreno no Passeio Público, à Sociedade Teatro dos Novos para que ali fosse construída sua sede e ela pudesse desenvolver suas atividades artísticas. O terreno era o antigo jardim zoológico do parque, depois estrebaria dos cavalos da Polícia Militar, cujo quartel ficava ao lado do Passeio e do Palácio da Aclamação, residência oficial do governador. Portanto o Teatro Vila Velha seria construído no jardim do palácio, ao lado da Galeria Oxumaré, de Odorico Tavares, representante dos Diários Associados, de Assis Châteaubriant, na província da Bahia. E responsável pela inauguração da primeira emissora de televisão local, em 1960, dez anos depois da inauguração da TV Tupi, de São Paulo, primeira da América Latina. https://www.flickr.com/photos/teatrodosnovos/ albums/72157716008356093/with/50352908006/ https://www.flickr.com/photos/teatrodosnovos/ albums/72157716012561597 João Goulart, o 24o presidente, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que havia assumido no ano anterior, continuava presidente de uma república parlamentarista e, nesse ano, entre outras coisas, instituiu o 13° salário para os trabalhadores. Foi fundada a Universidade de Brasília (UNB), criada por Darcy Ribeiro e pelo baiano Anísio Teixeira. Projeto que vinha sendo desenhado desde a construção da nova capital. Anselmo Duarte lançou O Pagador de Promessas, candidato


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ao Oscar e primeiro filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, na França. Filmado no Pelourinho, contou com a participação de atores e atrizes baianos, entre eles, Jurema Pena, Othon Bastos e Antônio Pitanga, além de capoeiristas e vários anônimos que representavam o que de fato eram, a população de Salvador. Eu cursava o terceiro ano primário no Colégio 2 de Julho, e fiz, como atividade do curso, uma peça em que representava um polichinelo e dizia uma fala. O cenário era um quarto de crianças, onde se desenrolava a história, da qual já esqueci, mas lembro que tinha uma menina loira que era a dona de todos nós, os outros personagens, seus brinquedos. Afora isso, continuava a desenhar e fabular criando narrativas, e esses desenhos e narrativas eram guardados nos armários e gavetas de minhas mães.


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Virgildásio de Senna, Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que tinha sido Secretário de Obras de Heitor Dias, tornou-se nosso 50o prefeito. Teve papel importante na construção do Teatro Vila Velha, cedendo material para a obra, inclusive asfalto, material do piso da plateia e paralelepípedos, do saguão de entrada e rampa; além do apoio político. O Vila foi construído a partir do projeto arquitetônico de Silvio Robatto e Alberto Fiuza, que transformou um galpão industrial num espaço de teatro, um lugar de ver a cena e de produzir a cena a partir de encontros de pesquisa de trabalho de artistas. Juracy Magalhães, da União Democrática Nacional (UDN), entrega a Bahia a Antônio Lomanto Jr., do Partido Libertador (PL). nosso 35o governador. João Goulart segue incomodando as elites, como presidente, após um plebiscito que devolveu o presidencialismo ao país, derrubando por vontade popular, o pre golpe do parlamentarismo, O país estava agitado. As forças internas replicavam o clima da política exterior e os interesses internacionais, insufladas pela ruptura ideológico/econômica da Guerra Fria, e vários acontecimentos políticos tiveram lugar, desestabilizando as estruturas institucionais e fortalecendo a reação que viria no ano seguinte. Brasília foi isolada do resto do país, tendo telefones cortados, aeroporto ocupado, prédios públicos tomados e os acessos a rodovias federais bloqueados. A capital foi sitiada pela ação de 630 sargentos, cabos e soldados da Marinha e da Aeronáutica, que prenderam oficiais e autoridades civis, como um ministro do Supremo Tribunal Federal e o presidente interino da Câmara dos Deputados.


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O mundo estava turbulento. O presidente estadunidense, John Kennedy, do Partido Democrata – que foi responsável pela invasão da Baía dos Porcos e pela construção do muro de Berlim – apoiou as ações do seu embaixador no Brasil, fomentando, inclusive financeiramente, o golpe que viria. Kennedy, quarenta e seis dias antes de ser assassinado em Dallas, no Texas, indagou, em reunião na Casa Branca, se os Estados Unidos poderiam “intervir militarmente” no Brasil para depor o então presidente João Goulart. John Kennedy: Será que Goulart vai agir? Lincoln Gordon: Sim, ele pode agir, como Perón fez na Argentina, um ditador populista. Kennedy: Podemos fazer algo contra Goulart? Gordon: Sim, acho que podemos. Kennedy: Qual será nossa atitude? Gordon: O fundamental é organizar as forças políticas e militares para reduzir o seu poder e, em um caso extremo, afastá-lo. http://g1.globo.com/politica/50-anos-do-golpemilitar/noticia/2014/03/kennedy-cogitou-acaomilitar-contra-goulart.html https://nsarchive2.gwu.edu/NSAEBB/NSAEBB465/ https://www.youtube.com/watch?v=4ajnWz4d1P4 Em 2014, montamos Jango – uma tragedya, de Glauber Rocha, que reconta esta história e, como Cassandra, tentávamos alertar para o que viria em 2016 e em sequência.... A beleza brasileira venceu, em Miami: Ieda Maria Vargas tornou-se a primeira brasileira a conquistar o título do Miss Universo. Novamente Carmen Miranda?


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Entrei para a Escolinha de Arte da Bahia, de Rosita Salgado Góes. Iniciação artística. Contato com muitas técnicas: desenho, pintura, xilogravura, monotipia. Em casa me exercitava bastante no desenho, com grafite, lápis de cor e aquarela. Com essas técnicas criava mais facilmente as imagens dos personagens de minha mitologia particular. Era ela formada por três grupos de seres: os acolhidos por mim de vários lugares: minha família, bailarinas, espanholas e outros personagens dos Trajes e costumes do mundo todo, sereias; os vindos de outras mitologias: deuses, heróis, seres e mitos greco-romanos, nórdicos e judaico-critãos, anjos e madonas e cristos; os da Disney: personagens dos filmes e livros e histórias em quadrinhos. E fazia sucesso na família e na escola e entre os amigos do bairro, com esses trabalhos. Esse conforto e sucesso como artista precoce, com os desenhos, rejeitava um pouco o método da Escolinha de Arte, que era o da experimentação, da libertação de ícones e padrões, para a criação de texturas e imagens abstratas, universos paralelos, com técnicas com as quais não tinha intimidade e, portanto, não podia ainda domar para construir meu imaginário, como vinha fazendo, no meu estilo e poética. Isso me desestruturava e me tirava do eixo. E foi muito importante pra mim. Pois bem, hoje reconheço e agradeço os dois anos que frequentei a Escolinha, graças, possivelmente, a Acy, que me matriculou. Ter convivido nessa fase com Rosita Salgado Góes, que me fazia um pouco de medo, foi fabuloso. Depois mais velho, já entrando para o mundo das artes, tive outros encontros com


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Rosita, como gestora municipal da cultura e vários eventos. Era uma mulher admirável. Seu olhar sobre as culturas populares e as artes era absolutamente avançado e coerente com todo o movimento do Avant Garde na Bahia, relatado por Antonio Risério em seu livro. https://www.researchgate.net/ publication/313788634_Avant-garde_na_Bahia http://koellreutter.ufsj.edu.br/modules/acervo/ brtacervo.php?cid=5748 http://www.bvanisioteixeira.ufba.br/artigos/ obrigada.htm Com a Escolinha de Arte da Bahia, participei de uma exposição coletiva de arte infantil, no Museu de Arte Moderna da Bahia de Dona Lina, no Teatro Castro Alves. Memória. Palimpsesto.


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O presidente João Goulart fez seu famoso discurso na Central Do Brasil, no qual defendeu as reformas de base e a democracia. E foi impossível deter o que viria depois: o ódio das elites, gerado no medo da diminuição de privilégios para que a justiça, o bem estar, a comida, fossem melhor distribuídos. A imprensa, as igrejas, os ricos e seus guardiões orientados pelo capital estrangeiro agiram e destruíram – provisoriamente, temporariamente – as conquistas suadas. Com a participação de 500 mil pessoas, ocorreu em São Paulo a Marcha da Família com Deus pela Liberdade que pedia intervenção militar no país. Marinheiros da baixa oficialidade se revoltaram contra as péssimas condições de vida e contra seus superiores, apoiando as reformas de base do presidente João Goulart. Essa revolta foi liderada pelo Cabo Anselmo, agente duplo da ditadura militar. E vários elementos atuaram nesta dramaturgia. Até que, no dia 31 de março de 1964, a quinta república brasileira se instalou durante 20 anos, 11 meses e 13 dias – de dois de abril de 1964 a 15 de março de 1985 – a partir da ditadura civil-militar. Com o pretexto de evitar a instauração do comunismo no Brasil, e com o apoio dos EUA, a ditadura durou 21 anos, tendo perseguido, torturado e assassinado artistas, intelectuais e opositores ao regime. Com a derrubada de João Goulart, tivemos um novo presidente, o 25o, por 13 dias. Mais uma vez Ranieri Mazzilli, do PSD, ainda presidente da Câmara dos Deputados, para dar um ar constitucional a tudo aquilo, ocupava o cargo vago por Jango. A primeira vez foi em 61, quando o vice deveria suceder ao excêntrico Janio Quadros, que renunciou. Mas o legítimo


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sucessor estava em visita oficial à China, e o presidente da Câmara o substituiu. O que se seguiu foi toda uma movimentação, visando um golpe, controlada por um contra movimento liderado por Brizola, com lances espetaculares até ser conseguida a restituição do cargo ao presidente. Daí a história do golpe brando parlamentarista, também revertido depois pelo plebiscito em 1963. Depois dos 13 dias de fama do 25o, assume o 26o presidente do Brasil: o General Humberto Castelo Branco, da ARENA. Nesse cargo ficou até 1967. Nosso 50o prefeito: Virgildásio De Senna, um democrata humanista íntegro culto e civilizado do partido de Getúlio, Jango e Brizola, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) foi caçado e substituído por Antonino Cazaes, 51o, da Aliança Renovadora Nacional (ARENA) que respondeu neste cargo durante 18 dias. Até que fosse nomeado o 52o prefeito: Nelson de Sousa, também do mesmo partido e ficou gerenciando a cidade até 1.º de fevereiro de 1967. Antônio Lomanto Jr., foi incorporado à nova república e foi mantido no posto como nosso 35o governador. Com a ditadura implantada no país, e o imediato apoio oficial dos EUA, houve de pronto o alinhamento do novo governo àquele país, vários sinais foram dados, como o rompimento das relações diplomáticas com Cuba. Enquanto isso, a atriz francesa Brigitte Bardot passeava em Búzios, Rio de Janeiro, onde estava desde 13 de janeiro e ficou até 28 de abril, pouco depois do golpe, chamando atenção da imprensa nacional e internacional para o local e ajudando a distrair um pouco do que aqui acontecia. Ela estava com seu


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namorado, Bob Zagury, um marroquino, que o Brasil adotou como brasileiro, porque tinha um apartamento em Copacabana, e trouxe para cá o símbolo sexual do cinema internacional. Em contra ataque, Glauber Rocha vai ao Festival de Cannes para exibir Deus e o Diabo na Terra do Sol, seu filme-revelação. O raio X de um Brasil oposto em tudo e complementar a tudo aquilo, o mesmo país que vivia essas contradições e tantas outras.   Outro contra ataque vinha sendo preparado, como uma intuição de artistas há meia década pelo menos. O Teatro Vila Velha, que vinha sendo construído para abrigar os encontros de artistas com o público, de artistas com artistas, de artistas com idéias e lutas que levariam ao seu público instalados no lugar de onde se vê – o teatro – é inaugurado, no dia 31 de julho, quatro meses depois do golpe. Fundado pela Sociedade Teatro dos Novos, além da associação de cotas limitadas com seus seis sócios, um coletivo maior de artistas, liderados por João Augusto Azevedo, artistas que compartilhavam do desejo de inventar caminhos ao caminhar. O Vila foi aberto com uma programação de 12 espetáculos, que mostravam a diversidade cultural da Bahia, com dança, recital de operetas, espetáculo folclórico e, além de outros, o show Nós por Exemplo, que juntava pela primeira vez num palco, Maria Bethânia, Maria da Graça (Gal Costa), Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Djalma Correia, Alcyvando Luz, Fernando Lona. https://www.bbc.com/portuguese/geral-47361618. amp?fbclid=IwAR0Oe0xgfTOye4KNc4cWAYEc7yC9aBCYTk5J8tDJhenxNp0APmk2HWavoUI http://galcostafatal.blogspot.com/search/label/1964%20 -%20SHOW%3A%20N%C3%93S%20POR%20EXEMPLO https://www.flickr.com/photos/ teatrodosnovos/albums/72157716008235591


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A atriz Jurema Pena era amiga de minha mãe e de minha tia. Tinham sido colegas desde o ginásio. Seguiu colega de minha tia na Faculdade de Direito, formaram-se ambas advogadas no ano do centenário de Ruy Barbosa (1949). A nova turma de bacharéis participou das celebrações da data, inclusive da recepção dos restos mortais de Ruy e do cortejo de sua condução até a deposição no Fórum, que levou o seu nome e foi inaugurado naquele dia. Evento registrado em filme por Alexandre Robatto, pai de Sonia, onde Acy e Jurema aparecem no meio da multidão do cortejo. Os círculos seguem girando. Jurema ia às vezes lá em casa. E era um acontecimento: uma atriz na minha casa. Corriam em nossa família as histórias do sucesso de Jurema, sua participação no Cortejo dos Quatro Séculos de Salvador, de celebração do quarto centenário da cidade, e no Auto de Graça e Glória da Bahia, a versão do cortejo para palco também dirigida por Chianca de Garcia, fazendo o papel de um menino que vê, e narra a um velho cego, a chegada de D. João VI a Salvador. Além das peças da Escola de Teatro e dos filmes onde atuou: Mandacaru Vermelho (Nelson Pereira dos Santos - 1961), O Pagador de Promessas (Anselmo Duarte - 1962), Tocaia no Asfalto (Roberto Pires - 1962), Sol Sobre a Lama (Alex Viany - 1963) e Seara Vermelha (Alberto D’Aversa - 1963). Depois fez mais filmes e novelas e peças e projetos fundantes, deixando um legado importantíssimo para a cultura brasileira. http://bahiacomhistoria.ba.gov.br/?artigos=cortejo https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/21137/1/2016%20Alan%20Passos.pdf Tínhamos uma ligação especial, ela e eu, alguma coisa forte nos identificava. A percepção da atriz via alguma coisa germinando ali, nas casas de suas ex-colegas de ginásio. E minha intuição dizia que havia ali uma mão que


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abriria a porta entre o camarim e o palco. Na verdade, esta porta já estava entreaberta desde que fui ver o elenco da Companhia dos Novos, no camarim de Pluft, no Cine Teatro Oceania. Mas o exemplo, os conselhos, a atenção da atriz e educadora para aquele garoto que eu era foram fundamentais na minha caminhada. Em 64, minha mãe foi convidada por Jurema a produzir o espetáculo Mambembando que a sua Companhia Baiana de Comédias iria montar. Minha mãe aceitou e foi minha entrada nos mistérios dos bastidores. Ia com ela em visitas de pedido de apoio a lojas, empresas e empresários; negociações de permutas por publicidade em troca de materiais para cenário, figurino e outros insumos e serviços; no acompanhamento das execuções das roupas e dos cenários e arquibancadas de um espaço cênico construído para as apresentações, na Biblioteca Pública do Estado da Bahia, na Praça Municipal; e nos ensaios... nos preparativos nos camarins. Participavam do elenco, além dos atores da companhia, o ator Edy Souza, que virou Edy Star, cantor pop que fez sucesso nos anos 1970, e Simone Raimunda (Nonata do Sacramento) – que se transformou em Luana, a primeira modelo negra brasileira e das primeiras do mundo, que trabalhou com Yves Saint Laurent e Cristian Dior e se tornou Condessa de Noailles – Ver atrizes e atores se maquiando, conversando e construindo seus personagens era fascinante. Especialmente Luana me encantava, era linda e negra e pintava as pálpebras com uma sombra escandalosamente azul turquesa. E todas e todos me tratavam com muito carinho. Era uma espécie de mascote. Outra lembrança muito forte dessa peça foi ter entrado pela primeira vez na Escola de Teatro e subido até o último andar onde ficava o “laboratório” de caracterização e conhecer João


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Gama e vê-lo fazer as perucas do espetáculo. João Gama é um dos maiores atores que já vi. Assisti a vários espetáculos em que ele trabalhava e quando escrevia para o jornal A Tarde, fiz uma longa entrevista com ele que foi para mim uma realização, e creio que para ele também, porque logo depois da entrevista publicada, ele me ligou e pediu que voltasse à sua casa e me deu de presente toda sua biblioteca de teatro. Sobre Jurema e a CBC: “(...) com Leonel Nunes, Reinaldo Nunes e Sóstrates Gentil, ( Jurema Penna) fundou a Companhia Baiana de Comédias – CBC, que ocupava um pequeno palco no prédio da Biblioteca Pública do Estado da Bahia. A companhia foi criada, na década de 1960, a partir do desejo de se fazer um teatro profissional na Bahia, que também se preocupasse em levar a arte a lugares desfavorecidos, como periferias e penitenciárias. Essa preocupação social se estendia à formação cultural de sua plateia, assim a CBC promovia diversas palestras acerca dos temas abordados em cada espetáculo, no intuito de fazer um teatro que se preocupasse com o estético e o político. (...)” https://www.facebook.com/media/ set/?set=a.1546938835628503.1073741989.1531727787149608&type=3&uploaded=14 De alguma forma carrego este DNA. Que se manifestou na minha primeira produção para a cena ainda naquele ano. Provavelmente na mesma época, escrevi, desenhei os figurinos, preparei o cenário, representei os três papéis masculinos: o cavalheiro, o mago e o gênio, convoquei o elenco feminino, tia Vivi e Dulce, irmã e cunhada de minha avó, e Gracinha,


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filha de Dilú, que era negra e usava também uma sombra escandalosamente azul turquesa. O título e o argumento se perderam de minha memória, o texto escrito também, sobreviveu o desenho dos figurinos masculinos, por isso lembro que fiz os três papéis. 1964 foi o meu último ano no Colégio 2 de Julho, onde terminei o curso primário com média suficiente para entrar no ginásio sem precisar fazer o exame de admissão. Na festa de formatura participei de alguma representação cênica dos estados brasileiros, onde me vesti de gaúcho, com chapéu de couro sertanejo. No 2 de Julho foi onde soube da existência de Glauber Rocha, que já tinha feito Deus e o Diabo, porque sua irmã, Ana Lucia, era minha colega e cúmplice de brincadeiras; foi onde Neyde Moura me deu aulas de canto; onde presenciei, no dia 1o de abril daquele 1964, através da reação de outras crianças, a posição da classe média brasileira em relação à possibilidade de um Brasil socialmente mais justo e economicamente equilibrado.


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O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.


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apoio financeiro


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UM ARTISTA DE PROVÍNCIA - PARTE I - DE ONDE VIERAM AS POSSÍVEIS IMAGENS E CAMINHOS (1954-1964) by Teatro Vila Velha - Issuu