Programa do espetáculo ODISSEIA + PAISAGEM COM ARGONAUTASgonautas
Este espetáculo integra o projeto TEMPO: “Disseminação Cultural e Inclusão Social no Teatro Vila Velha”, projeto 21.792, tem a parceria da Fundação Banco do Brasil, e se destina a promover o acesso de comunidades vulneráveis à arte e à cultura a partir do Teatro Vila Velha.
dramaturgia e encenação de MARCIO MEIRELLES
a partir dos cantos i a viii de “odisséia” de HOMERO de heiner müller com a universidade livre do teatro vila velha
salvador, 06 de março de 2026
AS ODISSEIAS NA ODISSEIA* ÍTALO CALVINO
Quantas odisseias contém a Odisseia? No início do poema, a “Telemaquia” é a busca de uma narrativa que não existe, aquela narrativa que será a Odisseia. No palácio de Ítaca, o cantor Fêmio já sabe os nostoi dos outros heróis; só lhe falta um, o de seu rei; por isso, Penélope não quer mais ouvi-lo cantar. E Telêmaco parte em busca dessa narrativa junto aos veteranos da Guerra de Troia: se a encontrar, termine ela bem ou mal, Ítaca sairá da situação amorfa sem tempo e sem lei em que se encontra há tantos anos.
Como todos os veteranos, também Nestor e Menelau têm muito para contar; mas não a história que Telêmaco procura. Até que Menelau aparece com uma fantástica aventura: disfarçado de foca, capturou o “velho do mar”, isto é, Proteu das infinitas metamorfoses, e obrigou-o a contar-lhe o passado e o futuro. Certamente Proteu já conhecia toda a Odisseia de ponta a ponta: começa a relatar as aventuras de Odisseu do mesmo ponto que Homero, com o herói na ilha de Calipso; depois se interrompe. Naquela altura, Homero pode substituí-lo e continuar a narração.
Tendo chegado à corte dos feácios, Odisseu** ouve um aedo cego como Homero que canta as peripécias de Odisseu; o herói explode em lágrimas; depois se decide a narrar ele próprio. No relato, chega ao Hades para interrogar Tirésias e este lhe conta a sequência da história. Mais tarde, Odisseu encontra as sereias que cantam; o que cantam? Ainda a Odisseia, quem sabe igual àquela que estamos lendo, talvez muito diferente. Este retorno-narrativa é algo que já existe, antes de se completar: preexiste à própria atuação. Já na “Telemaquia”, encontramos as expressões “pensar o retorno”, “dizer o retorno”. Zeus não “pensava no retorno” dos atridas (III, 160); Menelau pede à filha de Proteu que Ihe “diga o retorno” (IV, 379) e ela lhe explica como obrigar o pai a contá-lo, e assim o atrida pode capturar Proteu e pedir-lhe: “Diga-me o retorno, como velejarei no mar piscoso”.
O retorno deve ser identificado, pensado e relembrado: o perigo é que possa ser esquecido antes que ocorra. De fato, uma das primeiras etapas da viagem contada por Odisseu, aquela na terra dos lotófagos, comporta o risco de perder a memória, por ter comido o doce fruto do lótus. Que a prova do esquecimento se apresente no início do itinerário de Odisseia, e não no fim, pode parecer estranho. Se, após ter superado tantos desafios, suportado tantas travessias, aprendido tantas lições, Odisseu tivesse esquecido algo, sua perda teria sido bem mais grave: não extrair experiências do que sofrera,
nenhum sentido daquilo que vivera.
Contudo, pensando bem, a perda da memória é uma ameaça que nos cantos IX-XII se repropõe várias vezes: primeiro com o convite dos lotófagos, depois com os elixires de Circe e mais tarde com o canto das sereias. Em todas as situações Odisseu deve estar atento, se não quiser esquecer de repente... Esquecer o quê? A Guerra de Troia? O assédio? O cavalo? Não: a casa, a rota da navegação, o objetivo da viagem. A expressão que Homero usa nesses casos é “esquecer o retorno”.
Odisseu não deve esquecer o caminho que tem de percorrer, a forma de seu destino: em resumo, não pode esquecer a Odisseia. Porém, mesmo o aedo que compõe improvisando ou o rapsodo que repete de cor trechos de poemas já cantados não podem olvidar se querem “dizer o retorno”; para quem canta versos sem o apoio de um texto escrito, esquecer é o verbo mais negativo que existe; e para eles “esquecer o retorno” significa olvidar os poemas chamados nostoi, cavalo de batalha de seu repertório.
Sobre o tema “esquecer o futuro” publiquei há anos algumas considerações (Corriere della Sera, 10/8/1975) que assim concluíam:
“O que Odisseu salva do lótus, das drogas de Circe, do canto das sereias, não é apenas o passado e o futuro. A memória conta realmente — para os indivíduos, as coletividades, as civilizações — só se mantiver junto a marca do passado e o projeto do futuro, se permitir fazer sem esquecer aquilo que se pretendia fazer,
tornar-se sem deixar de ser, ser sem deixar de tornar-se.”
Ao meu texto seguia-se uma intervenção de Edoardo Sanguineti no Paese Sera (agora no Giornalino 1973-1975, Turim, Einaudi, 1976) e uma réplica de cada um, minha e dele. Sanguineti objetava:
“Porque não se pode esquecer que a viagem de Odisseu não é de jeito nenhum uma viagem de ida, mas de retorno. E então é preciso interrogar-se um momento, exatamente, que tipo de futuro ele tem pela frente: pois aquele futuro que Odisseu anda procurando é de fato o seu passado. Odisseu vence as bajulações da Regressão porque se acha todo voltado para uma Restauração.
Compreende-se que um dia, por despeito, o verdadeiro Odisseu, o grande Odisseu, tenha se tornado aquele da Última viagem: para o qual o futuro não é de modo nenhum um passado, mas a Realização de uma Profecia — isto é, de uma verdadeira Utopia. Ao passo que o Odisseu homérico logra recuperar seu passado como um presente: sua sabedoria é a Repetição e isso pode ser bem reconhecido pela Cicatriz que traz e que o marca para sempre.”
Em resposta a Sanguineti, lembrava eu que (Corriere della Sera, 14/10/1975) “na linguagem dos mitos, bem como na das fábulas e do romance popular, toda empresa portadora de justiça, reparadora de ofensas, resgate de uma condição miserável, vem em geral representada como a restauração de uma ordem ideal anterior; o desejo de um futuro a ser
conquistado é garantido pela memória de um passado perdido”.
Se examinarmos as fábulas populares, verificaremos que elas apresentam dois tipos de transformação social, sempre com final feliz: primeiro de cima para baixo e depois de novo para cima; ou então simplesmente de baixo para cima. No primeiro tipo, existe um príncipe que por alguma circunstância desastrosa se vê reduzido a guardador de porcos ou alguma outra condição miserável, para depois reconquistar sua condição real; no segundo tipo, existe um jovem que não possui nada desde o nascimento, pastor ou camponês e talvez também pobre de espírito, que por virtude própria ou ajudado por seres mágicos consegue se casar com a princesa e tornar-se rei.
Os mesmos esquemas valem para as fábulas com protagonista feminina: no primeiro tipo, a donzela de uma condição real ou pelo menos privilegiada cai numa situação despojada pela rivalidade de uma madrasta (como Branca de Neve) ou de meias-irmãs (como Cinderela) até que um príncipe se apaixona por ela e a conduz ao vértice da escala social; no segundo tipo, se encontra uma verdadeira pastora ou camponesa pobre que supera todas as desvantagens de seu humilde nascimento e realiza núpcias principescas.
Poderíamos pensar que as fábulas do segundo tipo são as que exprimem mais diretamente o desejo popular de uma reviravolta dos papéis sociais e dos destinos individuais, ao passo que as do primeiro tipo deixam aparecer tal desejo de forma mais atenuada, como
restauração de uma hipotética ordem precedente. Mas, pensando bem, os destinos extraordinários do pastorzinho ou da pastorinha representam apenas uma ilusão miraculosa e consoladora que será depois largamente continuada pelo romance popular e sentimental. Todavia, os infortúnios do príncipe ou da rainha desventurada associam a imagem da pobreza com a ideia de um direito subtraído, de uma justiça a ser reivindicada, isto é, estabelecem (no plano da fantasia, onde as ideias podem deitar raízes sob a forma de figuras elementares) um ponto que será fundamental para toda a tomada de consciência social da época moderna, da Revolução Francesa em diante.
No inconsciente coletivo, o príncipe disfarçado de pobre é a prova de que cada pobre é na realidade um príncipe que sofreu uma usurpação e que deve reconquistar seu reino. Odisseu ou Guerin Meschino ou Robin Hood, reis ou filhos de reis ou nobres cavaleiros caídos em desgraça, quando triunfarem sobre seus inimigos hão de restaurar uma sociedade dos justos em que será reconhecida sua verdadeira identidade.
Mas será ainda a mesma identidade de antes? O Odisseu que desembarca em Ítaca como um velho mendigo irreconhecível a todos talvez não seja mais a mesma pessoa que o Odisseu que partiu para Troia.
Não por acaso salvara a vida trocando o nome para Ninguém. O único reconhecimento imediato e espontâneo vem do cão Argos, como se a continuidade do indivíduo só se manifestasse por meio
de sinais perceptíveis para um olho animal.
Para a ama de leite sua identidade é comprovada por uma cicatriz de garra de javali, o segredo da fabricação do leito nupcial com uma raiz de oliveira é a prova para a esposa e, para o pai, uma lista de árvores frutíferas; todos eles signos que não têm nada de régio, que associam o herói com um caçador, um marceneiro, um homem do campo. A esses sinais se acrescentam a força física e uma combatividade impiedosa contra os inimigos; e sobretudo o favor manifestado pelos deuses, que é aquilo que convence também Telêmaco, mas só enquanto ato de fé.
Por seu lado Odisseu, irreconhecível, despertando em Ítaca não reconhece sua pátria. Atena terá de intervir para garantir-lhe que Ítaca é mesmo Ítaca. A crise de identidade é geral, na segunda metade da Odisseia. Só a narrativa garante que as personagens são as mesmas personagens e os lugares são os mesmos lugares. Mas também a narrativa muda. O relato que o irreconhecível Odisseu faz ao pastor Eumeu, depois ao rival Antínoo e à própria Penélope é uma outra odisseia, completamente diversa; as peregrinações que levaram de Creta até ali a personagem fictícia que ele afirma ser, uma história de naufrágios e piratas muito mais verossímil do que aquela que ele mesmo fizera ao rei dos feácios. Quem nos garante que não seja esta a “verdadeira” odisseia?
Mas esta nova odisseia remete a uma outra odisseia ainda: o cretense
encontrara Odisseu em suas viagens; assim, eis que Odisseu narra de um Odisseu em viagem por países em que a Odisseia considerada “verdadeira” não o fizera passar.
Que Odisseu era um mistificador já se sabia antes da Odisseia. Não foi ele quem inventou o grande engodo do cavalo? E, no início da Odisseia, as primeiras evocações de sua personagem são dois flashbacks sobre a Guerra de Troia narrados um depois do outro por Helena e Menelau: duas histórias de simulação. Na primeira, ele penetra com vestimentas falsas na cidade assediada para ali introduzir a chacina; na segunda, é encerrado dentro do cavalo com seus companheiros e consegue impedir que Helena os desmascare induzindo-os a falar.
(Em ambos os episódios, Odisseu se encontra perante Helena; no primeiro como aliada, cúmplice da simulação; no segundo enquanto adversária que imita as vozes das mulheres dos aqueus para induzi-los a trair-se. O papel de Helena é contraditório, mas sempre marcado pela simulação. Do mesmo modo, Penélope também se apresenta como fingidora, com o estratagema do tecido; o bordado de Penélope é um estratagema simétrico ao do cavalo de Troia e, como ele, é um produto da habilidade manual e da contrafação: as duas principais qualidades de Odisseu são também características de Penélope.)
Se Odisseu é um simulador, todo o relato que ele faz ao rei dos feácios poderia ser mentiroso. De fato, suas
aventuras marítimas, concentradas em quatro livros centrais da Odisseia, rápida sucessão de encontros com seres fantásticos (que surgem nas fábulas do folclore de todos os tempos e lugares: o ogro Polifemo, os ventos encerrados no odre, os encantos de Circe, sereias e monstros marinhos), contrastam com o restante do poema, em que dominam os tons graves, a tensão psicológica, o crescendo dramático gravitando sobre um objetivo: a reconquista do reino e da mulher cercados pelos porcos. Também aqui se encontram motivos comuns às fábulas populares, como o tecido de Penélope e a prova de arco-e-flecha, mas estamos num terreno mais próximo dos critérios modernos de realismo e verossimilhança: as intervenções sobrenaturais concernem somente às aparições dos deuses olímpicos, em geral encobertos por feições humanas.
Porém, é preciso recordar que as mesmas aventuras (sobretudo a de Polifemo) são evocadas igualmente em outras passagens do poema, portanto o próprio Homero vai confirmá-las; e não é só isso: os próprios deuses discutem-nas no Olimpo. E que também Menelau, na “Telemaquia”, conta uma aventura com a mesma matriz fabular que a de Odisseu: o encontro com o velho do mar. Só nos resta atribuir as diversidades de estilo fantástico àquela montagem de tradições de diferentes origens transmitidas pelos aedos e depois desembocadas na Odisseia homérica, e que no relato de Odisseu na primeira pessoa revelaria seu substrato mais arcaico.
Mais arcaico? Segundo Alfred
Heubeck, as coisas poderiam ter ocorrido de maneira exatamente oposta. (Ver Omero: Odissea, livros I-IV, introdução de A. Heubeck, texto e comentário de Stephanie West, Milão, Fundação Lorenzo Valla/Mondadori, 1981.)
Antes da Odisseia (incluindo-se a Ilíada), Odisseu sempre fora um herói épico, e os heróis épicos, como Aquiles e Heitor na Ilíada, não têm aventuras fabulares daquele tipo, na base de monstros e encantos.
Mas o autor da Odisseia deve manter Odisseu longe de casa por dez anos, desaparecido, inalcançável para os familiares e para os ex-companheiros de armas. Para conseguir isso, deve fazê-lo sair do mundo conhecido, entrar em outra geografia, num mundo extra-humano, num além (não por acaso suas viagens culminam na visita aos Infernos). Para tal extrapolação dos territórios da épica, o autor da Odisseia recorre a tradições (estas, sim, mais arcaicas) como as peripécias de Jasão e dos argonautas.
Portanto, constitui a novidade da Odisseia ter colocado um herói épico como Odisseu às voltas “com bruxas e gigantes, com monstros e devoradores de homens”, isto é, em situações de um tipo de saga mais arcaico, cujas raízes devem ser buscadas “no mundo da antiga fábula e até de primitivas concepções mágicas e xamanísticas.
É aqui que o autor da Odisseia manifesta, segundo Heubeck, sua verdadeira modernidade, aquela que o torna próximo e atual: se tradicionalmente
o herói épico era um paradigma de virtudes aristocráticas e militares, Odisseu é tudo isso e ainda mais, é o homem que suporta as experiências mais duras, as fadigas, a dor e a solidão. “Certamente ele arrasta seu público a um mítico mundo de sonho, mas esse mundo de sonho se torna simultaneamente a imagem especular do mundo real em que vivemos, no qual dominam necessidades e angústia, terror e dores, e no qual o homem se acha imerso sem escapatória.”
No mesmo volume, Stephanie West, embora partindo de premissas diferentes das de Heubeck, formula uma hipótese que daria validade ao discurso dele: a hipótese de que tenha existido uma odisseia alternativa, um outro itinerário do retorno, anterior a Homero. Homero (ou quem quer que fosse o autor da Odisseia), considerando esse discurso de viagens muito pobre e pouco significativo, tê-lo-ia substituído pelas aventuras fabulosas, mas inspirando-se nas viagens do pseudocretense.
De fato, no proêmio existe um verso que deveria apresentar-se como a síntese de toda a Odisseia: “De muitos homens vi as cidades e conheci os pensamentos”. Que cidades? Quais pensamentos? Tal hipótese se adaptaria melhor ao relato das viagens do pseudocretense...
Porém, assim que Penélope o reconheceu, no leito reconquistado, Odisseu volta a falar de ciclopes, sereias... Será que a Odisseia não é o mito de todas
as viagens? Talvez para Odisseu-Homero a distinção mentira/verdade não existisse, talvez ele narrasse a mesma experiência ora na linguagem do vivido ora na linguagem do mito, como ainda hoje para nós cada viagem, pequena ou grande, sempre é odisseia.
* Texto publicado na edição da “Odisséia” com tradução de Trajano Vieira (Editora 342011, São Paulo-SP) e, originalmente, no jornal La Repubblica (21/10/1981) e, em versão integral, em Ferruccio Masini e Giulio Schiavoni (orgs.), Risalire il Nilo: mito, fiaba, allegoria (Palermo, Sellerio, 1983). Postumamente integrou a coletânea Perché leggere i classici (Milão, Mondadori, 1991). A tradução é de Nilson Moulin (Por que ler os clássicos, São Paulo, Companhia das Letras, 1993).
** No texto de Ítalo Calvino, o personagem da Odisséia é nomeado Ulisses, nome latino de Odisseu. Aqui foi usado o nome original por questões de coerência com a peça.
O último canto do grou
CHRISTINE RÖHRIG
Paisagem com Argonautas de Heiner Müller é a parte final da obra criada em 1982, juntamente com Margem abandonada e Medeamaterial. Trata-se de um texto polifônico, em memória dos horrores da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e pode ser comparado à obra Guernica de Pablo Picasso, que retrata o bombardeio de Guernica durante a Guerra Civil Espanhola em 1937, num ataque brutal da aviação nazista alemã.
A peça pode ser lida como o retrato em três partes de um “eu” em que o sujeito “Medea” é um “eu” coletivo que escancara o sofrimento e a fúria das mulheres reprimidas ao longo da história. É também o retrato de um futuro apocalíptico ameaçador, como um passado presente marcado pela decomposição e por imagens traumáticas.
A obra é muito atual e premonitória na medida em que explora o crescente potencial destrutivo da humanidade. É um alerta severo sobre catástrofes e o fim dos tempos. O mito dos Argonautas é usado aqui para evocar uma paisagem pós-destruição – um mundo em que a busca (a jornada dos Argonautas) não leva a nada ou termina no apocalipse. É a paisagem sombria e onírica, uma obra lírica de prosa que dissolve a fronteira entre a experiência subjetiva e a catástrofe histórica.
O recurso a padrões mitológicos de ação pode ser observado em todas as fases da obra dramática de Müller. Aqui a reflexão literária sobre os horrores do século XX é examinada por seus paralelos e pré-requisitos.
Com um pequeno sopro de otimismo, espero que Paisagem com argonautas sirva de chamamento, que ainda represente um grito possível contra tantos horrores vividos atualmente pela humanidade, e não o retrato do último suspiro.
Bom espetáculo!
o resto é lírica
MARCIO MEIRELLES
Há muitos anos decidi que faria a transliteração da “Odisséia”, das palavras impressas em livros para sua encarnação no palco. Palavras que no início eram faladas e transmitidas pela memória dos aedos a outros aedos e, um dia, séculos depois de sua primeira emissão sonora/imagética, foi gravada em escritas físicas: deixaram de ser som para ser grafia. Quanto dos mais de 12 mil versos, que contam 41 dias de uma viagem, são originais e se mantiveram íntegros, preservados pelas memórias sucessivas?
A “Odisséia” é uma superposição ou transmutação de narrativas de viagens, numa viagem. O destino: a origem, o lar, Ítaca. A ilha/reino deixada do outro lado de um mar que é o caminho de volta. Mas não há volta. O motivo da ida foi uma guerra e as guerras não têm retorno. Há devastação de territórios e tudo que contêm: valores, vidas, futuro. Só resta o passado, e talvez memória. Que retorno aspira Odisseu depois de ter destruído Troia e o equilíbrio de Ítaca, tomada agora, 20 anos depois de sua partida, por aventureiros, representantes das elites vorazes, que pretendem e disputam o seu trono e o leito de Penélope enquanto dilapidam o patrimônio da casa de Odisseu, acumulado por outras guerras, outras conquistas?
Não há retorno para Odisseu. E o futuro deverá ser um retorno ao início. Mas ao retornar e não reconhecer sua Ítaca, Odisseu articula e executa o extermínio dos pretendentes. E gera uma nova guerra de vingança das famílias dos nobres chacinados. E tudo voltará ao início, se não houver a interferência de Zeus, um deus ex machina que surge e resolve o que nós, humanos, criados à sua imagem e semelhança, não conseguimos. Vivemos em guerras que se sucedem tão logo uma acabe, para solucionar questões econômicas e de poder, hierarquias no sistema geopolítico global.
O momento era este. Nosso kairós. O mundo precisa se repensar. A devastação precisa ser detida. A devastação da natureza vem da devastação de valores, o consumo desenfreado, a fúria do poder pela acumulação. Ou não teremos retorno. As guerras do momento nos dizem isso, O genocídio em troca de espaço no mundo, em troca de poder, em troca de petróleo, em troca de apagamento de delitos graves de pedofilia e tráfico humano.
Para onde vamos sem um deus ex machina? Que retorno nos espera? Que Ítaca sobrevive?
Segundo Ítalo Calvino, no texto “As Odisséias na Odisseia”, o pior que poderia acontecer a Odisseu era perder a memória.
E nós perdemos muitas memórias: do genocídio nazista, do terror da ditadura, de Hiroshima, do Vietnam e de tantos outros episódios assim. Resta o horror, o horror, o horror, como diz o personagem Kurtz, em “Coração das Trevas”/”Apocalipse Now”, diante da miséria da colonização, da guerra, do fim desolador de uma civilização devastada. Vivemos esta civilização devastada, esta Troia destruída pelo ardil de Odisseu: o cavalo oco, recheado com soldados, arma letal para os troianos que, seduzidos pelo enganoso e pluri ardiloso Odisseu e seu artifício, não destruiram o cavalo. Antes, levaram-no para dentro dos muros da cidade enquanto celebravam o que supunham ser a retirada do exército grego.
Depois disso, Odisseu quer voltar para casa e luta de todas as formas para não perder a memória de sua meta, de seu caminho, de seu povo, de seu lar. Tenta salvar-se do esquecimento e de outros monstros e seduções. Tenta salvar-se e a seus companheiros de seus próprios enganos, de suas próprias decisões.
Mas não há mais caminho, nem retorno, só reinvenções da história, só narrativas de sedução e manipulação. Só tentativas de refazer e Odisseu acredita que refazer é recontar e conta e reconta sua história e cada versão é diferente da outra, a depender do que ele quer ou não quer receber em troca. Até nomear-se
Ninguém. Outra mentira/verdade como tudo que fala, como o cavalo oco - cavalo e não cavalo - Ninguém que é muito Alguém.
Era o momento. Queria contar a história das guerras cotidianas e dos guerreiros anônimos do dia a dia, que enfrentam o antagonismo dos deuses e das falhas de suas escolhas.
Era o momento certo. A turma 2025/2026 da universidade LIVRE do teatro vila velha, teve a parceria da Fundação Banco do Brasil, com o apoio do Centro Cultural Banco do Brasil.
O programa de formação para atuadores, que regularmente dura três anos, foi condensado em um ano, com intensa e extensa carga horária, possível graças ao apoio financeiro que os participantes receberam através de bolsas concedidas pelo projeto.
Foram feitas oficinas de seleção para oito turmas de diferentes comunidades. Mais de 200 pessoas se inscreveram e 30 puderam ser escolhidas para experimentar e se formar na linguagem e ofício.
Ninguém forma um ator ou atriz a não ser eles próprios. No programa são mostradas ferramentas e modos de usá-las, e os participantes podem se formar na prática, em cena, encarando a platéia, e em atividades complementares, necessárias ao labor no palco, onde são encarnadas narrativas para encantar e inquietar o público. Este ano, tiveram como colaboradores, repassando técnicas, metodologias, experiências,
repertórios, mais de 60 mestres nacionais e internacionais, com quem puderam trocar saberes, questões e práticas.
Desde as oficinas de seleção souberam que o ponto de inflexão seria a construção da “Odisséia”. Tomar pelo pulso o poema épico - criado há uns três mil anos, numa encruzilhada da civilização, numa Grécia remota onde se entrecruzaram muitos elementos narrativos, mitos, valores, ritos e deuses saqueados ou ofertados por inúmeras civilizações da Ásia e da África - e torná-lo nosso contemporâneo.
Enquanto experimentávamos o poema de várias formas, em várias linguagens: audiovisual, libras, dança, contação de histórias… os participantes da LIVRE também montavam luz e cenários para outros espetáculos e experimentos, visitavam outros teatros e seus equipamentos, participavam da equipe de festivais, contavam a história do Teatro Vila Velha, trabalhavam como estagiários de mediação no “Pé de Feijão”, e no acervo do Vila, dando apoio a pesquisas. E os projetos dialogaram entre si.
Foi uma decisão desde o início que o espetáculo seria bilingüe: portugues e libras. E desde o início dos trabalhos, ainda em março, começaram os exercícios de compreensão dos princípios desta, para muitos, nova linguagem, e sua prática na “Odisséia”, guiados por Cíntia Santos e Elinilson Soares. Especialmente curiosa foi a definição dos nomes próprios dos personagens a partir de conceitos quase gráficos. Fazer o espetáculo falado nas duas línguas foi uma arquitetura
dramatúrgica nova e desafiadora para mim, que já queria fazê-lo há muito: com dobras de personagens, coros em libras traduzidos em português por um corifeu, e várias outras estratégias para não tornar a língua de sinais “legenda” mas parte integrante da narrativa.
Durante a trajetória, apresentamos quatro Experimentos, abrindo o processo para o público. Foi emocionante assistir, num deles, ao coro fazendo em libras a invocação à musa para que ela conte a história do homem multifacetado, do Canto I. Outros cantos foram trabalhados e apresentados nesses experimentos e várias chaves foram criadas aí e se mantiveram no espetáculo, como o coro citado acima, canções, temas musicais. Outros achados ficaram nas apresentações, como os vídeos criados coletivamente, que agora estão no canal do teatro no Youtube.
A medida que avançávamos na montagem ficou claro que precisávamos, em algum lugar, de um corte na narrativa homérica. E esse momento chegou. O próprio Homero, ou seja quem for - ou foram - os aedos que criaram o poema, tiveram que aderir ao personagem na sua natureza multifacetada, inventando e reinventado sua viagem de volta, sendo vários Eus, inclusive Ninguém. Quem é este Eu/Odisseu que conta e reconta sua história? Nada garante que todas elas não sejam criações fabulosas, colagem de várias outras. Mas qual seria a narrativa mais honesta de alguém que vem de uma guerra e trava outras batalhas no caminho de volta, senão a narrativa da destruição deixada? Isso me levava constantemente
à “Paisagem com Argonautas”, e à montagem de “Medeamaterial” que fiz com o Bando de Teatro Olodum, Vera Holtz e Guilherme Leme. Teve algo de retorno à criação do Bando o trabalho com esta turma da universidade LIVRE.
Mas não há retorno, há um ir em frente. Tudo foi novo, novos embates, novos desafios, nada que se comparasse a este processo, nele nos transformamos, os participantes e eu. De alguma forma não somos nem seremos mais as mesmas pessoas. O mundo também mudou drasticamente enquanto trabalhávamos atentos a essas mudanças do mundo, para representá-lo. E a missão terrível que o teatro tem de o representar é medonha, voltando a Kurtz do “Coração das Trevas”: o horror… o horror
Mas o que busca um encenador, depois de 54 anos de estrada, com 128 encenações, senão novos desafios para falar de seu tempo, cada vez mais desafiador. Pois então: devo falar deste tempo ou devo falar de mim Eu quem de quem se fala quando se fala deste tempo
Quando o rei Alcinoo pergunta ao náufrago que está em sua frente, algo como “quem é você” vem Heiner Muller e mostra, em diálogo afiado, de teatro épico para poema épico, “o desembarque infeliz”. Tudo muda na encenação. Há uma virada e as imagens de vídeo que vinham compondo as paisagens geopolíticas que contém os oito cantos explodem e o Eu multifacetado de Odisseu ganha os rostos
dos atores que fizeram o personagem em filmes de épocas diferentes, de 2011 até hoje. As imagens das diversas narrativas cinematográficas - monstros, sereias, penélopes, naus, mares, guerreirosexplodem, numa composição quase cubista de Rafael Grilo, urdindo um amálgama com as imagens de Müller, e um coro onde todos são protagonistas, todas são o Eu de quem se fala, e todos e todas podem falar de si e se perguntar “de quem se fala quando se fala de mim”.
Talvez a única resposta real que Odisseu/Ninguém pudesse dar ao rei quando este lhe provoca - “dizme, estrangeiro, o que tens para me falar” - teria sido este texto da segunda parte, esta descrição de uma paisagem que é prenúncio e relato do que está acontecendo e poderá vir a acontecer.
“O resto é lírica…”.
Salvador, 04/03/2026
mítico artífice
RAMON GONÇALVES
Há uma espécie de magia que tende a se entrelaçar com a movimentação e elaboração de um espetáculo. as vezes essa magia nos atravessa em seu mistério de forma individual, seja porque precisávamos elaborar artisticamente algo subjetivo ou por estarmos, naquele instante, atentos e disponíveis a alcançar o que necessitava ser elaborado. Em outras vezes, sendo essas as mais brutais, o processo artístico acaba iluminando inúmeros aspectos de seu tempo histórico, o que estamos vivenciando enquanto sociedade. em ambos os métodos, se colocou a odisseia.
O mito, a viagem, a travessia. O que se tornam quem e o que restou quando as guerras se colocam. Se instauram. Se transformam, mudam de cheiro, de uniforme e nunca se vão. O que se torna quem aguarda quem foi. Penso também em nossa própria odisseia enquanto artistas que habitam e constroem o teatro vila velha, não na ideia de um esperado retorno — porque somos quem somos onde quer que estivermos; mas sim de percurso, distanciamento, enlace à manutenção e composição da memória enquanto a cultura se esforça para se reestabelecer após sucessivas tentativas de desmanche (seria esse o loop de nossa batalha estética) e a ascensão e recorrência escandalosa de um neofascismo débil, masculinista em sua totalidade e, justamente por isso, absurdamente perigoso.
A ideia do estrategista mítico — neste caso específico, odisseu; é o tear febril e desesperado de quem precisa construir uma espécie de pai absoluto e algum conforto épico em seu não retorno. Alguma motivação divina. Assim surgem os mitos: da falta. Assim tende a se criar o espectro homem. Lá fora o mundo se bombardeia. Crianças fazem paisagem de lixo. Nosso país tinge as ruas com sangue feminino. Com um botão se destrói uma escola de meninas. enquanto isso, soldados estrangeiros tiram férias na bahia. Nenhuma novidade nos caprichos norteamericanos. Tudo corre sempre em direção ao fim, mas não a guerra. nunca a guerra. Não o horror. Mais do que nunca, este exerce gélida vigilância. Nos acompanha no bolso. A violência da onda se mostra pelo rastro/escombro que deixa. É impossível atravessar tudo isso de forma intacta.
Assim se constrói a música para a odisseia: uma orquestração épica artificial, trabalhada a partir de insinuações bélicas, instrumentação sintetizada, paisagens sonoras dilatadas, sobreposições/erosão de samples de violinos, violoncelos e mares. Influenciada diretamente pelo trabalho de Hildur Guðnadóttir, Tim Hecker, Ryuichi Sakamoto e William Basinski (artistas que habitam meu inferno de sonhos), a música em muito tem a ver com imagens cinematográficas que arremessam-se umas nas outras e é em sua execução atravessada pela organicidade metálica dos berimbaus, atabaques, alfaia, guitarra e vozes do elenco — o qual colaborou no tema de abertura da peça, assim como nos cantos e proposições percussivas. Compor para esse espetáculo me remeteu imediatamente à direção musical de A Tempestade (Teatro dos Novos — 2019), pelo espaço necessário para a coexistência dos elementos eletrônicos e percussão. Também pelo escopo da montagem, tamanho do elenco e o eco fantasma que pairava politicamente o mundo pré-pandêmico.
A inclusão de Paisagem com Argonautas à odisseia me fez refletir muito sobre os agentes da violência, e em muito sobre a crueza absoluta do olhar sobre um campo de batalha. Além de um espelho a um fluxo de pensamento específico que me acompanha, a costura entre o meio e o final do espetáculo é exatamente o que imagino ser a morte: Fino entre o eu e o não mais eu o casco . É também onde a composição para o espetáculo tem seu ápice num emaranhado de todos os temas que trabalhamos. Um percurso entre o ser e o nada.
abrindo o saco de ventos
Durante a realização dos vídeos projetados no espetáculo me senti um pouco como Odisseu em sua passagem pela ilha Eólia. Nessa ilha, Éolo, o guardião dos ventos, auxilia Odisseu em sua jornada de volta a Ítaca. Ele entrega a Odisseu um saco de couro contendo todos os ventos contrários, permitindo que apenas o vento oeste guie seu navio. Já bem perto de casa, a tripulação da nau abre o saco pensando que ele continha tesouros, provocando uma tempestade que os leva de volta a Eólia.
Embora esse trecho da obra de Homero não conste no espetáculo, tive a oportunidade de fazer uma espécie de releitura audiovisual em curta metragem desse fragmento com a turma da LIVRE que compõe o elenco da peça. Foi o primeiro trabalho coletivo desses atores no Território Audiovisual, uma inciativa que conduzi e que busca instruir a LIVRE sobre a prática audiovisual com a ótica do fazer artístico existente no Teatro Vila Velha. Esse território foi um dos elementos do processo de formação que culmina com a peça.
O curta que realizamos, um falso documentário, composto por depoimentos até dos ventos da história, também resultou na primeira apresentação pública da turma com a Língua Brasileira de Sinais (Libras) incorporada à encenação, sendo proferida pelos atores em cena. Isso foi feito traduzindo um trecho em áudio do curta, foi o embrião da extensiva
RAFAEL GRILO
presença da Libras no espetáculo e fico feliz por fazer parte disso.
Digo que me senti passando por Eólia ao produzir as projeções da peça pois, em alguns momentos, ao me encontrar perto de casa, isto é, achar que estava próximo da conclusão de um conjunto de vídeos, tive que refaze-los, recomeçar a jornada para melhor acomodar o ritmo de cenas à visão do encenador em uma estética que permitisse uma leitura mais eficiente para o público.
Um exemplo de meu retorno para Eólia foi ter precisado usar mais adaptações da Odisseia feitas pelo cinema e TV a fim de deixar mais dinâmicos os vídeos da porção do espetáculo que encena “Paisagem com Argonautas” de Heiner Müller. Assim como o retorno inesperado de Odisseu o possibilitou conhecer o acolhimento dos feácios que forneceram a ele a embarcação que o leva de volta a Ítaca, meu regresso me fez descobrir, entre outras coisas, a beleza e o eficiente uso da linguagem cinematográfica presentes em “Odissea” (1968), minissérie italiana dirigida por Franco Rossi, que até então havia negligenciado o uso.
Minha realização foi uma constante busca por ventos favoráveis, guiada pela esperança de chegar a Ítaca, ou seja, honrar a confiança em mim depositada e compor algo que esteja em harmonia com o trabalho de todos que direta e indiretamente estão envolvidos com a peça e o processo de formação que a concebeu.
odisséia ÉRICK SABOYA
Nasci em Volta Redonda, RJ. Cidade esta que foi criada a partir de uma demanda de guerra. Getúlio Vargas fundou a Companhia Siderúrgica Nacional, CSN, para beneficiar minério de ferro e alumínio na fabricação de artefatos em metal para a segunda guerra mundial em subserviência às demandas da indústria bélica norte americana. Volta Redonda se desdobra em torno dessa usina e sua produção incessante de fumaça tóxica. Sou filho desse lugar que me matava desde que nasci. Meu nariz sangrava toda noite por conta da poluição e o pediatra deu a real para minha mãe: Seu filho só irá melhorar se sair dessa cidade. Dito e feito: aos meus 7 anos, minha família migrou para Salvador e desde então, vivendo aqui, meu nariz nunca mais sangrou. Foi como se eu tivesse fugido da guerra, assim como meus ancestrais que fugiram da Itália para a Bolívia na primeira guerra. A CSN é a própria guerra e também fonte do sustento que boa parte da minha família foi e é dependente. Guerra contra a fome? É onde são fabricadas, até hoje, bobinas de folhas de alumínio para fabricação de latas. Seja de cerveja, refrigerante, suco de tomate ou água com gás. Quase todas no país são fabricadas a partir dessas bobinas produzidas lá, na cidade fruto da guerra: Volta Redonda. Pra mim, toda lata significa guerra. Guerra contra o meio ambiente e contra meu nariz.
É sobre guerra que esse espetáculo trata. A guerra do ser humano contra ele próprio. Odisseia, um texto com mais de 2700 anos, aborda a mesma realidade do homem que, hoje, acorda com o noticiário cheio de manchetes sobre a guerra que acontece agora no oriente médio.
Um minuto de silêncio em honra das centenas de meninas mortas durante aula no Irã.
O que vemos hoje não difere em nada, exatamente nada, do que o texto traz. É mais do mesmo e mais do que está por vir, pois parece que tá só começando essa escalada de horror. Viver esse momento e participar da produção de um espetáculo dentro desse contexto faz com que minha participação na criação da cenografia do espetáculo venha muito mais como um disparador de sensações do que remeter à algum lugar ou ambiente em específico, pois sinto que esse lugar da guerra é inerente à origem, raça, credo. À princípio, propus uma série de varais que deveriam ser base para projeção, dentre outros elementos do cenário, mas que também remetessem ao ambiente coletivo e popular que senti nesse coro-protagonista. Como se escolhesse um elemento que existisse em toda casa independente de classe social ou local. Toda casa tem um varal e precisa secar roupas, mesmo
as mais abastadas terem secadoras que dispensem o uso cotidiano dos varais, toda casa tem um varal. Como todo processo criativo com Marcio Meirelles, ele me traz disparadores que são sínteses e mesclam tudo em alguma coisa única e me atinge profundamente. É uma das poucas pessoas nesse mundo que me atinge tão visceralmente. Nesse caso ele me trouxe como provação o uso de latinhas nesses varais para reforçar essa sensação de escombros, resquícios de guerra, de destruição e também um grande símbolo do sistema capitalista em decadência que é justo o foco central da crítica que “Paisagem com Argonautas” traz. No caso prático da produção do nosso cenário, foram resquícios da guerra do carnaval que coopta os seres para uma catarse banhada à enlatados entorpecentes, que alavancam o estado de euforia coletiva e que reforçam o poder controlador do Sistema sobre nossos corpos. (Esse ano fui um dos cooptados consumindo Beats atrás de
Daniela Mercury no Campo Grande. Ser ou não ser, eis a questão). A guerra da Brahma que loteia as esquinas e propõe baias que servem de moradia temporária para os que dependem da venda desses enlatados para sobreviver em contraste com os controladores do Sistema que se beneficiam disso tudo e têm lugar cativo nos camarotes que sobrevoam a lama de latas, suor, escombros e mijo. É também a guerra dos que catam os restos durante a orgia momesca e que são os responsáveis para Salvador entrar no Guinnes Book como o local onde mais se recicla latinhas no mundo em um evento. A custa de que? Da miséria e fome que fazem as pessoas serem catadores hoje nesse país. Guerra contra a fome?
A colaboração com a universidade LIVRE e o corpo criativo do Teatro Vila Velha, como sempre, me alimenta não só como profissional do teatro que depende de trabalho pra sobreviver e comer, mas nutre também o meu eu que consome arte e que se alimenta do etéreo para continuar vivo, criando e pensando. Me sinto alimentado de diversas formas nesse processo e tenho uma profunda gratidão em fazer parte desse momento que colocamos no mundo uma obra tão sensível, bem-feita, sincera e, sobretudo, disparadora de análises internas pois acredito que o maior propósito do teatro ou cinema é ver através desse espelho ampliado, o espetáculo ou a tela, o que preciso entender melhor em mim e no mundo que me insiro. Que esse nascimento seja fortalecedor para os novos tempos que nos esperam e que essas análises internas sirvam como armas de sobrevivência.
sobre o figurino de odisseia ZUARTE JUNIOR
“Diante de uma imagem – por mais antiga que seja -, o presente nunca deixa cessa de se reconfigurar”, diz o filósofo e professor Georges Didi-Huberman. Ao pensar, sentir e materializar o figurino para “Odisseia”, comungando com as ideias da encenação de Marcio, junto com “a LIVRE”, (adoro esta expressão), perguntas e associações se colocaram instantaneamente, reconfigurando a realidade da história dessa grande saga com a contemporaneidade.
A vontade, advinda com a primeira ideia, seria a de conseguir trazer as vestes dos soldados que estão nas batalhas das guerras atuais, com a carga e vivência real dos conflitos de Gaza, Ucrânia e mais, aliados com roupas comuns das guerras cotidianas do nosso povo. O figurino seria feito dessas roupas. Não conseguimos tal feito, porém esse dado serviu de mote que orientou a criação.
Muitas são as possibilidades na transdução de imagens para a materialidade, que brotam numa criação, e adequar à exequibilidade, mantendo uma força comunicativa via corpos dos atores e atrizes, é sempre um desafio.
Partindo das saias, elemento recorrente e polissêmico na criação de Marcio Meirelles, foi adicionado o casaco militar, resultando na síntese do figurino que partilhamos agora com quem testemunhar nossa “Odisseia”.
Ao tomarmos um fato histórico, sempre será a partir do presente, reconfigurando e remontado a história pelas camadas e camadas de tempo. Penso, com isso, que o figurino levanta questões e corrobora na indagação da vida nesse momento tão perturbador.
carta para a turma do 12o ano da universidade LIVRE do teatro vila velha ou
a catarse da travessia
PANDORA, GUSTAVO DOMINGUES E MARIA CLARA MEDEIROS
No dia 10 de março de 2025, no seu 12o ano, a universidade LIVRE do teatro vila velha desloca-se para além de seu espaço (o teatro) e ocupa o Museu de Arte da Bahia. Desse gesto nasce o caos — um caos que renasce, transgride e colide a partir de então.
Atuar é estar atento ao bailado da vida, rogando aos ventos que os pés estejam em sincronia com a terra e com os céus, simultaneamente. É manter os ouvidos em desassombro e o contato pronto para rasgar-se na existência humana e, enfim, flutuar entre os escombros de corpos históricos e futuros e foi esta a busca central do processo.
Iniciamos atentos a um projeto precursor na cena teatral brasileira, e o dilema iniciático perpetua-se nas entrelinhas de cada integrante do espetáculo. Onde há caos, o NOVO surge para infringir tudo aquilo que veio antes e que já não supre as movimentações humanas. O processo exige, desde o começo, que ultrapassemos a transdisciplinaridade e nos convida a vivenciar a poesia em sua forma espiralar, repleta de reviravoltas, sem fugir - mesmo que por vezes tentando - do cerne que o teatro, desde seu embrião, nos convoca: o encontro.
Ao longo deste um ano, titubeamos, desconhecemo-nos, conectamo-nos e, ao mesmo tempo, burlamo-nos. Tensionamos a todo momento e ousamos dizer que a poética deste processo não se esconde na leveza, mas a encontramos nas lacunas dos olhares que não se tocam, embora se vejam atentos para dar-se as mãos, ainda que momentaneamente, enquanto incendeiam-se.
Agora, não há caminho que fuja do atravessamento. Permeados por um céu repleto de águas longínquas e turbulentas que nunca chegam a banhar nossos corpos, embarcamos rumo ao prelúdio que deixa registrado no espaço cênico nossos processos coletivos e individuais.
Com experiência ou deslumbrado pela novidade do fazer artístico que se desvela diante da possibilidade de estar no palco, o Teatro nos revela o caminho pelo qual a arte se transforma no fim do medo. O Teatro finda o medo de falhar, mas não é o fim da falha porque a falha continua existindo e diversos são os nomes daquilo em que o ator pode se transformar. Até mesmo numa atriz. Ou atroz.
Transitar no próprio medo é o calvário e o maior presente que o ator se dá e divide com as pessoas. Essa brincadeira
de erro, equívoco, repensamento, retrabalho, re-repetição, atraso, avanço, mudança de decisão e etc., exige tempo e ternura e quando o medo se perde no tempo, com o tempo. O Teatro é a dança que todas as células do seu corpo bambeiam pelo espaço.
A universidade LIVRE foi talvez por ironia do destino uma verdadeira odisseia, tivemos a oportunidade de trocar com colaboradores que atravessaram este espaço trazendo suas palavras e seus ensinamentos. Muitos desses ensinamentos nos tocaram profundamente, e sabemos que eles não ficam apenas aqui, mas seguem conosco em nossas escolhas e caminhos como artistas e em nossas vidas: aquilo que nos atravessa de verdade não termina quando o processo acaba, mas permanece cravado.
É difícil medir este processo em números, porque ele abre espaço para existências de artistas independentes e para artistas que ainda estão se descobrindo e que muitas vezes não conseguem se sustentar dentro do próprio fazer artístico.
A oportunidade de se desenvolver artisticamente construiu e recuperou a autoestima de artistas que vivenciaram, ao longo deste um ano, a evolução de si e dos colegas de turma. O intercâmbio entre os muito, pouco ou não-experientes promoveu a elevação de todes à patamares de percepção, assimilação e
realização de arte com o corpo, voz e orí (cabeça) numa cidade de Salvador, Bahia, encruzilhada de quem aqui nasce, vive e a escolhe como território.
Corpos com almas mobilizam as comunidades da cidade que sobe e desce em ladeiras que lapidam ancas e pernas; carregam arte e cultura nos braços para vales e platôs de antigos engenhos-ilês onde se cultuam os sagrados da natureza; fins de linha de ônibus e festas de largos; favelas que madrugam com os galos, dormem com os anjos e acordam assustados e acostumados com salvas de tiros. E tudo isto se faz cantando e dançando. Na Bahia se caminha gingando, se dobra o joelho em toda sorte de fé, se cria a base que estabiliza o centro de gravidade, para que, mesmo que se envergando, não caia. À quaisquer forasteiros dá-se a umbigada: convite para sambar na roda.
A pé, de buzu, metrô. Vindo de casa, direto do terreiro, chegando às 09:00h de um trabalho, saindo às 17:00h em direção a um próximo. Subúrbio, Orla, Centro. Cidade Baixa, Paralela ou Brotas, o que foi no Pelourinho e ainda é. De Lauro de Freitas, cidade colada ao lado. Da Camaçari, terra industrial que recupera hoje um movimento cultural outrora estagnado; dos interiores do estado da alegria, sul, chapada, outros limites de cidades: através da artista que pega a estrada e migra para Salvador, onde arriscará viver de arte. Quem veio ainda criança, quem veio já gente grande. Os que aqui enfrentam baixa remuneração
no campo das artes, exatamente naquela cidade-celeiro dos mais emblemáticos artistas e movimentos culturais do Brasil. O paradigma do santo de casa batalhando para operar milagres. Tudo isto trouxemos na bagagem e oferecemos ao cantar, dançar, tocar e atuar nas oficinas de seleção.
A universidade LIVRE do projeto TEMPO nos permitiu algo raro: existir em processo, sem a urgência de um mundo que nos obriga apenas a trabalhar para sobreviver, sem que a arte precisasse ser feita apenas para cumprir uma função. Tivemos TEMPO para aprender, errar, para aprimorar o que conhecíamos. Recebemos bolsa como ajuda de custo, o que nos possibilitou uma pequena estabilidade, algo que para o grupo significou a possibilidade de continuar, continuar sendo artista.
Crescemos dentro da estrutura do teatro, dentro de um espaço que nos permitiu experimentar, construir e descobrir. Poder viver isso em um país onde a cultura é massacrada é crucial. A arte sustenta muitas coisas, mesmo quando o cotidiano tenta nos esmagar, mesmo quando o cansaço chega primeiro, mesmo quando parece impossível continuar. No fim, o que permanece é aquilo que criamos, porque existem muitos artistas que só precisam de uma coisa: um espaço real para existir sendo arte.
dramaturgia e encenação de marcio meirelles a partir dos cantos I a VIII da odisséia de homero + paisagem com argonautas de heiner müller com tradução de christine röhrig e marcos renaux
ODISSÉIA
transliteração da odisséia de homero para dramaturgia: marcio meirelles a partir da tradução de frederico lourenço cotejada com as traduções de: antônio pinto de carvalho, christian werner, donaldo schüler, odorico mendes e trajano vieira.
alguns cantos passaram por experimentos dramatúrgicos com os participantes da universidade LIVRE e algumas propostas foram incorporadas à encenação: o canto V foi trabalhado por maria clara mendes; o canto VI por pandora, o canto VII e VIII, por mireh e gisele cristina; e a cena das sereias, do canto XII, não incluído na peça, o foi por virus carinhoso.
do CANTO I ao CANTO VIII
CANTO I ÍTACA
CORIFEU fala - CORO em libras: Fala-me, Musa, do homem multifacetado que tanto vagueou, depois que de Troia destruiu a cidadela sagrada. De muitos homens viu as cidades e a mente conheceu; e foram muitas no mar as dores que sofreu em seu coração para salvar a vida e o regresso dos companheiros. Mas nem os companheiros salvou, embora o quisesse. Pereceram devido às suas próprias loucuras, tolos, que o gado de Hiperíon, o Sol, comeram; e este lhes negou o dia do regresso.
TELÊMACO:
Sou Telêmaco. Penélope me deu à luz. A minha mãe declara que sou filho de Odisseu, mas eu não sei Ninguém da sua filiação pôde nunca saber. Aquele que nasceu o mais infeliz dos homens mortais - é desse que dizem eu ter nascido.
Esteve esta casa outrora para ser rica e irrepreensível, enquanto entre seu povo permanecia Odisseu.
Agora decidiram de outro modo os deuses desfavoráveis, que o fizeram o mais invisível de todos os homens.
CORO:
Vede bem como os mortais acusam os deuses! A partir deles existem os males - dizem - quando são eles, pelas suas loucuras, que têm dores além do destino!
TELÊMACO:
Por ele morto eu não haveria de tanto me entristecer,
se com os camaradas de armas tivesse morrido em Troia, ou nos braços de amigos, depois de ele ter atado os fios da guerra.
Todos os Aqueus lhe teriam erguido um túmulo, e teria para o seu filho enorme glória alcançado para o futuro. Mas sem glória o arrebataram os ventos das tempestades; partiu, invisível, inaudível; e para mim dores e gemidos deixou.
E não sofro, gemendo, só por causa dele: para mim criaram os deuses outras más preocupações.
CORO:
Vede bem como os mortais acusam os deuses! A partir deles existem os males - dizem - quando são eles, pelas suas escolhas, que têm dores além do destino!
TELÊMACO:
Todos os príncipes que regem as ilhas, e todos quantos detêm poderio em Ítaca rochosa, todos esses fazem a corte a minha mãe e me devastam a casa. Por seu lado, ela nem recusa o odioso casamento nem consegue pôr termo à situação; e eles vão devorando a minha casa.
Rapidamente serei eu quem levarão à ruína.
CORO:
Não há dúvida de que tens necessidade do ausente Odisseu; ele que lançaria mão aos pretendentes desavergonhados!
Prouvera que neste momento ele aqui viesse e se colocasse junto do portão, com capacete, escudo e duas lanças.
Prouvera que em tal modo aos pretendentes ele aparecesse!
Rápido seriam seus destinos e amargo o casamento!
A ti recomendo que ponderes como para longe do palácio poderás afastar os pretendentes.
Depois que tal tiveres feito e cumprido, no coração e no espírito reflete em seguida como em tua casa poderás matar os pretendentes, seja com dolo ou às claras.
Pois não deves manter atitudes infantis; já não tens idade para isso.
Vejo como és alto e belo, sê corajoso, para que alguém dos que nascerão ainda fale bem de ti.
Cuida de ti próprio — e medita sobre as minhas palavras.
AEDO:
Ouvi, ó Reis de mãos lavadas
Vou cantar a guerra: morte parida
Que fez da lança uma aurora
E deu ao bronze voz abatida
Foi Troia joia brilhante
De torres em pedras erguidas
Mas a paixão que move a história
Transforma glória em ferida
O que parecia dom era semente do fim
Vieram mil navios em coro ao longe
Como se fosse um trovão sobre o mar
Fúria, lâmina, sangue
Mirando a cidade murada sem saber se irá voltar
O que parecia dom era semente do fim
Odisseu de mente sombria
Fiou em silêncio madeira
Nasceu o cavalo ruim
Espera escuta rasteira
O que parecia dom era semente do fim
Madeira, mentira, silêncio
Quando o sono cobre Tróia
As tábuas cedem se abre o ventre
O que parecia dom era semente do fim
Tróia de ouro, Tróia alta
Tróia cai,Tróia não volta
PENÉLOPE:
Aedo, sabes muitos outros encantamentos de homens, e façanhas de homens e deuses - como as celebram os aedos. Uma delas canta agora, aí sentado; e que em silêncio eles bebam o vinho. Mas cessa já esse canto tão triste.
CORO:
Penélope.
CORIFEU:
Por que razão levas a mal que o fiel aedo nos deleite por onde a mente o incita?
CORO:
Não são os aedos os responsáveis.
CORIFEU:
Não é justo levarmos a mal que ele cante a desgraça dos Dânaos. Que o teu espírito e o teu coração ousem ouvir.
CORO: Em Troia também pereceram muitos outros homens.
TELÊMACO:
Minha mãe, agora volta para os teus aposentos e presta atenção aos teus lavores, ao tear e à roca; e ordena às tuas escravas que façam os seus trabalhos.
PENÉLOPE:
Agora pela última e derradeira vez aqui jantam, vós que sempre vos reunis para destruir toda a riqueza que pertence ao fogoso Telémaco!
De vossos pais não ouvistes anteriormente, ainda crianças, que género de homem era Odisseu entre todos aqueles que vos deram a vida?
Nem ouvistes que ele nada de mal fez, nem disse, a ninguém do povo, como é a prática dos soberanos divinos? Odisseu nunca tratou mal nenhum homem.
Mas o vosso coração e os vossos atos vergonhosos estão à vista: não há gratidão pelo que receberam no passado.
CORO - EURICLÉIA:
Penélope sobe até aos seus aposentos com as escravas, e chora Odisseu, o marido amado.
PRETENDENTES desatam aos gritos no palácio cheio de sombras.
CORO:
Todos desejamos deitar ao seu lado no leito.
TELÊMACO:
Pretendentes de minha mãe, que tendes insolência desmedida, de madrugada para a assembleia iremos sentar-nos todos, para que ousadamente eu vos diga uma
palavra: que saiais do palácio!
CORO – ANTINOO:
Telémaco, na verdade são os próprios deuses que te ensinam a ser um orador arrogante e a falar com audácia.
Que Zeus Crónida nunca te faça rei em Ítaca marinha, coisa que te é devida pela linhagem de teu pai!
TELÊMACO:
Se te irritas com meu modo de falar, consideras então que muitos outros príncipes existem entre os Aqueus, em Ítaca rodeada pelo mar, novos e velhos: um destes poderá ser rei, pois o divino Odisseu morreu.
Mas serei eu o soberano da nossa casa e de tudo que para mim obteve como despojos o divino Odisseu.
CORO – EURÍMACO:
Telémaco, tais coisas descansam sobre os joelhos dos deuses, quem dentre os Aqueus será rei em Ítaca rodeada pelo mar.
CANTO II A ASSEMBLÉIA
TELÊMACO:
Sobre a minha casa se abateu uma dupla desgraça: Na verdade pereceu o regresso de meu pai. Venham donde vierem, já não acredito em notícias, nem dou crédito a profecias.
Mas a outra desgraça é pior, pois em breve toda a minha casa destruirá e a mim tirará os meios de subsistência.
Pretendentes importunam a minha mãe à sua revelia, filhos amados dos homens que aqui têm mais nobreza entram e saem
de nossa casa dia após dia, matando bois, ovelhas e gordas cabras; banqueteiamse e bebem-nos o vinho frisante sem moderação. Muitos bens são gastos; e não há um homem, como fora Odisseu, que consiga afastar da casa a ruína. Pois nós não podemos. Por mim esforçar-meia, se tivesse força para isso. Rogo que vos refreeis e que me deixeis o meu luto amargo.
CORO – PRETENDENTES:
Telémaco, será que nos queres censurar?
CORIFEU:
Pois fica sabendo que não são os pretendentes os culpados, mas a tua querida mãe, ela que sabe muitas astúcias! Pois já vamos no terceiro ano — em breve virá o quarto — em que ela engana os corações dos Aqueus. A todos dá esperança e faz promessas a cada homem, enviando recados;
CORO:
Mas a mente dela volta-se para outras coisas.
CORIFEU:
Também este outro engano congeminou em seu coração: colocando um grande tear nos seus aposentos, pôs-se a tecer. Depois veio declarar:
PENÉLOPE:
Jovens, meus pretendentes! Embora me cobiceis como esposa, visto que morreu o divino Odisseu, tende paciência até que termine esta vestemortalha para o herói Laertes, para quando o atinja o destino deletério da morte irreversível.
Que entre o povo aqueu ninguém me lance a censura de que jaz sem pano quem tantos haveres nos legou.
CORO – PETENDENTES:
Assim falou; e o nosso coração orgulhoso consentiu.
CORIFEU:
Daí por diante durante o dia ela tecia no grande tear, mas de noite desfazia, depois que punha as tochas. Assim durante três anos ocultou o engano e convenceu os Aqueus. Mas quando sobreveio o quarto ano e voltaram as estações, uma das servas, que sabia claramente, contou-nos o sucedido, e encontrámo-la a desfazer a trama maravilhosa.
CORO:
De maneira que a terminou, obrigada, contra sua vontade.
CORIFEU:
A ti dão os pretendentes a seguinte resposta, para que saibas em teu coração, e saibam todos os Aqueus:
CORO:
Manda embora a tua mãe
CORIFEU:
E ordena-lhe que se case com quem o pai quiser e a ela agrade. Mas se ela continuar mais tempo a provocar os filhos dos Aqueus, grande é a fama que para ela alcançará; porém a ti só traz carência dos teus muitos haveres. Nós não iremos para as nossas terras, nem para outro lugar, até que ela despose aquele dentre os Aqueus com quem ela quiser.
TELÊMACO:
Não é possível pôr fora de casa, à sua própria revelia, aquela que me deu à luz e me criou, estando alhures meu pai, vivo ou morto. Se o vosso coração se insurge contra isto, da minha casa devereis sair. Outros festins preparai; devorando os vossos próprios bens, em casa uns dos outros. Se no entanto isto vos parecer preferível e melhor — destruir sem desagravo o sustento de um só homem — destruí! Mas pela minha parte invocarei os deuses imortais; e permita Zeus que aconteçam atos de vingança.
CORO - COREOGRAFIA
CORIFEU:
Duas águias a voar. Durante um tempo voam ambas, levadas pelas rajadas de vento, uma ao lado da outra, de asas bem estendidas. Mas quando sobrevoaram a assembleia repleta de vozes, esvoaçam em torvelinho batendo rapidamente com as asas; e fitam os rostos de todos, com a morte no olhar. Depois com as garras atacam-se uma à outra na cabeça e no pescoço, desviandose em seguida para a direita, através das casas e da cidade dos homens ali presentes.
Assim que as avistaram, todos pasmaram ao ver as águias
ANCIÃO:
Escutai, povo de Ítaca, o que tenho para vos dizer. Aos pretendentes em especial explico e declaro estas coisas: para eles se já aproxima uma enorme desgraça; pois Odisseu não permanecerá longe da família por muito tempo. Não é sem experiência que vos dou esta profecia. Quando embarcaram para Ílion os Argivos
e com eles o astucioso Odisseu: disse-lhe que depois de muito sofrer, de ter perdido todos os companheiros, no vigésimo ano regressaria sem que ninguém o reconhecesse. Tudo isto está para acontecer.
CORO – PRETENDENTES:
Ancião, sobre este assunto as minhas profecias valem mais que as tuas.
CORIFEU:
Pássaros há muitos que sob os raios do Sol para cá e para lá voam; nem todos são aves de agouro. Quanto a Odisseu, morreu lá longe; e quem me dera que com ele tivesses também tu morrido! Não estarias com profecias, a incitar Telémaco na sua fúria, na esperança de obteres algum favor para a tua casa, se ele assim entendesse.
CORO:
Agora dir-te-ei uma coisa, coisa que se irá cumprir: se por saberes muitas coisas antigas incitares este jovem a sentir-se infeliz e prejudicado, será para ele em primeiro lugar que surgirão dificuldades; e pouco logrará alcançar por causa disso.
TELÊMACO:
Orgulhosos pretendentes, sobre estes assuntos nem imploro nem falo. Estas coisas já os deuses sabem e todos os Aqueus. Mas agora dai-me uma nau veloz e vinte companheiros, que me acompanhem para onde quer que eu vá. Pois irei até Esparta e para Pilos arenosa, para me informar sobre o regresso de meu pai ausente; talvez me fale um homem mortal, ou algum rumor eu ouça de Zeus,
que muitas vezes traz notícia aos homens. Se acerca da sobrevivência e do regresso alguma coisa eu ouvir, então, embora aflito, aguentaria mais um ano. Mas se ouvir dizer que está morto e já não vive — nesse caso voltarei para a minha terra pátria amada: um túmulo erigirei e oferecerei as honras fúnebres devidas com muita abundância, tantas quantas parecer bem; e minha mãe a novo marido oferecerei.
ANCIÃO:
Escutai agora, povo de Ítaca, o que tenho para dizer. Doravante não seja manso e bondoso de sua vontade nenhum rei detentor de cetro, nem pense coisas justas, mas seja antes áspero e pratique atos de maldade, visto que ninguém se lembra do divino Odisseu entre o povo que ele regia, bondoso como um pai. Não levo a mal aos orgulhosos pretendentes o fato de praticarem a violência na má vontade da sua mente. Põem as suas próprias vidas em risco ao dizimarem com violência a casa de Odisseu, que dizem jamais regressar. Mas agora é o resto do povo que censuro, o modo como todos vos sentais em silêncio; nem, abordandoos com palavras, os poucos pretendentes refreais, sendo vós muitos.
Dissolve-se rapidamente a assembleia.
ANCIÃO:
Telêmaco, há esperança de que tenhas êxito. Os pretendentes não sabem da morte e do destino que deles está já perto: morrerão todos num só dia. Para ti não será adiada a viagem que tanto almejas; vou equipar uma nau veloz e acompanharte-ei em pessoa; e eu - entre o povocompanheiros reunirei que se ofereçam
como voluntários. Naus há em abundância em Ítaca rodeada pelo mar, novas e velhas. Todas essas coisas os Aqueus te fornecerão, uma nau e remadores escolhidos, para que depressa chegues à sagrada Pilos para te informares sobre o teu pai.
CORO – PRETENDENTES:
Telémaco está decerto a planejar assassinar-nos. Trará alguns ajudantes de Pilos arenosa, ou então de Esparta, de tal maneira está fora de si, para nos matar a todos.
Mas quem sabe se, indo também ele na côncava nau, não perecerá errante, longe dos amigos, como Odisseu? Só que dessa maneira ainda nos criaria mais dificuldades, pois teríamos de dividir todos os seus bens e dar o palácio à mãe e a quem com ela se casasse.
EURICLÉIA:
Sou Euricleia, que outrora Laertes comprou com os seus bens, sendo eu ainda jovem, pelo preço de vinte bois. Foi a mim que Telémaco falou, chamandome para a câmara. De todas as escravas sou quem mais o ama, pois o amamentei quando era ainda menino. E agora, para ele iluminar, as tochas ardentes seguro.
TELÊMACO:
Ama, irei a Esparta e a Pilos arenosa para me informar sobre o regresso do pai amado, se é que ouvirei alguma coisa.
EURICLÉIA:
Que ideia foi essa, querido filho, que te veio à cabeça, sozinho e bem-amado?
Pois estes homens, assim que te fores, vão planejar maldades, como matar-te à
traição, para dividirem todos estes bens. Não, fica aqui, junto do que é teu; não tens necessidade de passar por sofrimentos no mar nunca vindimado.
TELÊMACO:
Anima-te, ama, pois este plano não surgiu sem um deus. Mas jura-me nada dizeres à minha mãe querida, para que não desfigure o belo rosto com prantos. Arma-se o barco.
CORO – EURICLÉIA:
Então Telémaco embarcou. Os outros largaram as amarras e, embarcando, sentaram-se nos bancos dos remadores. Para eles fez um vento favorável, um alto Zéfiro a cantar sobre o mar cor de vinho.
CORO – REMADORES:
O vento inchou o centro da vela e as ondas de púrpura cantaram em redor da nau em movimento, que por cima das ondas apressava o seu caminho. Depois de terem apertado bem as cordas da escura nau veloz, prepararam taças repletas até a borda de vinho e ofereceram libações aos deuses.
CANTO IV
ÍTACA - PRAIA E PALÁCIO
CORO – PRETENDENTES:
Amigos, esta viagem foi uma grande façanha que Telémaco conseguiu.
CORIFEU:
Pensávamos que nunca seria capaz de a fazer. À revelia de nós todos, o rapaz partiu, apetrechando assim uma nau e escolhendo os melhores jovens entre o povo.
CORO:
Ele já começa a ser um flagelo.
CORIFEU:
Mas que Zeus lhe destrua a força toda, antes que chegue à idade adulta! Dai-me agora uma nau veloz e vinte companheiros, para que no regresso dele eu lhe arme uma cilada e vigie no estreito entre Ítaca e a rochosa Samos: que seja bem triste a viagem que fez por causa do pai.
PENÉLOPE entre as escravas, no palácio: Euricléia, porque se ausentou o meu filho? Que necessidade tinha ele de embarcar em naus velozes, que são corcéis do mar para os homens e atravessam vastas extensões de água? Foi para que entre os homens nem ficasse o seu nome?
EURICLÉIA:
Não sei se foi um deus que o incitou, ou se foi de moto próprio que decidiu ir a Pilos, para que se informasse sobre o regresso de seu pai — ou então sobre o fim que lhe deu o destino.
PENÉLOPE:
Ouvi-me, amigas! A mim deu o Olímpo mais dores do que a qualquer das mulheres que comigo nasceram e foram criadas. Nesta ilha de Ítaca não nasci, venho de Esparta e há muito que perdi o valoroso esposo. Mas agora os ventos das tempestades raptaram do palácio, sem notícia, o meu filho amado; e eu nem ouvi dizer que partia! E tu, desgraçada, não pensastes em me acordar da cama, embora no coração soubésseis perfeitamente quando ele partiu na côncava nau escura! Se eu
tivesse ouvido dizer que ele queria seguir esse caminho, ele aqui teria ficado, por muito que quisesse partir, ou então terme-ia deixado morta no palácio.
CORO – EURICLÉIA:
Minha senhora, mata-me tu com o bronze afiado, ou deixa-me viver no palácio; mas não me calarei. De tudo eu sabia; dei-lhe os víveres que me pediu, pão e vinho doce. Mas com um grande juramento fez-me ele jurar que nada te diria, antes que chegasse o décimo segundo dia; porque se desses pela falta dele ou ouvisses dizer que partira, começarias a chorar e a desfigurar o teu lindo rosto.
PENÉLOPE grita alto; e a deusa ouviu a sua prece.
SEMI CORO – PRETENDENTES levantam um grande alarido: A rainha muito cortejada nada sabe do assassínio que está preparado para o filho.
SEMI CORO – PRETENDENTES:
Tresloucados! Evitai todas as palavras sobremaneira arrogantes, não vá alguém contar o que se passa lá dentro de casa. Levantemo-nos antes em silêncio para pormos em prática o plano que agradou aos corações de todos nós.
CORO:
Embarcaram os pretendentes e navegaram por caminhos aquosos, revolvendo no espírito a íngreme desgraça de Telémaco. Há uma ilha no meio do mar salgado, entre Ítaca e Samos rochosa: Astéride. Não é grande, mas tem portos de ambos os lados, com bons
ancoradouros. E foi aí que os Aqueus armaram a cilada.
CANTO V A ILHA DE CALIPSO
CORO:
Odisseu jaz agora em Ogígia, de bosques frondosos, no palácio de Calipso, que a força o retém,e assim ele não pode regressar a sua terra matria, pois não tem naus equipadas de remos,nem tripulação que o possa transportar sobre o vasto dorso do mar.
Ali habita o mais infeliz de todos os homens que em torno da cidadela de Tróia combateram durante nove anos e, no décimo ano, a saquearam, partindo em seguida para casa. Mas ele foi para aqui trazido pelas ondas e pelo vento. Ele quer rapidamente rever seus parentes e amigos e regressar à sua terra pátria, pois não é seu destino perecer longe de quem ama.
CALIPSO, com as Ninfas, se aproxima de Odisseu:
Vítima do destino, não chores mais. Com boa vontade vou mandar-te embora. Vai agora com um machado de bronze cortar grandes troncos para fazeres uma ampla jangada. E eu enviarei um vento favorável, para que inteiramente ileso tu regresses à terra pátria, se é isso que quer o teu desejo, que o vasto céu detêm, e é mais poderoso do que eu.
ODISSEU:
Não é na despedida que estás a pensar, ó deusa, mas noutra coisa. Tu que me dizes para atravessar numa
jangada o abismo do mar, perigoso e temível — coisa que nem conseguem velozes naus.
Contra a tua vontade, não embarcarei em jangada alguma a não ser que tu, ouses jurar um grande juramento: que não prepararás para mim próprio outro mau sofrimento.
CALIPSO:
Que palavra passou além da barreira de teus dentes?
Não sou cruel e invejosa!
Falam mal das deusas que com homens mortais partilhem seu leito, quando escolhe algum por amante!
Assim sucede agora comigo.
Tomo por testemunhas a terra e o vasto céu por cima dela que não prepararei para ti qualquer outro sofrimento.
As minhas intenções são bondosas. Então para tua casa e para a amada terra mátria queres regressar?
Despeço-me e desejo-te boa sorte.
ODISSEU:
Não te encolerizes contra mim.
Quero e desejo todos os dias voltar a casa. Já anteriormente muito sofri e muito aguentei no mar e na guerra: que mais outra dor, se acaso vier, se junte às outras.
Entrada das árvores com coreografia.
Coreografia da construção do barco.
NARRADOR:
Quando surgiu a que cedo desponta, a Aurora de róseos dedos,
Calipso deu-lhe um grande machado, afiado de ambos os lados e indicou o caminho, até ao extremo da ilha, onde cresciam altas árvores secas de seiva, que flutuariam facilmente. Odisseu cortou vinte árvores e logo as desbastou com o bronze. E depois ajustou as madeiras umas às outras, e terminou a construção da jangada revestindo-a com tábuas compridas. Em seguida fez o mastro e uma verga que se ajustava; fez ainda um leme, com que pudesse dirigir a jangada e com alavancas conseguiu arrastar a jangada para o mar divino.
Calipso mandou-o embora da ilha, fez soprar um vento suave e sem perigo; e a esse vento, com grande regozijo, Odisseu desfraldou as velas.
Coreografia agitação do mar.
NARRADOR:
Durante dezessete dias navegou sobre o mar; e ao décimo oitavo dia apareceram as montanhas sombrias da terra dos Feácios e a terra parecia um escudo no meio do mar brumoso. A noite caiu a pique do céu, o mar agitou, de todos os lados toda a espécie de ventos se inquietou e escondeu com nuvens tanto a terra como o mar.
Coreografia: onda gigante atinge o barco que se desmancha
NARRADOR:
Tal como um vento forte espalha um monte de palha seca, atirando-a por aqui, por ali e por todos os lados assim a onda espalhou as pranchas da jangada.
NARRADOR:
À medida que nadava veio ter à foz de um rio.
Chegou a salvo até à embocadura do rio. Todo o corpo estava dolorido e água salgada corria-lhe da boca e das narinas.
NARRADOR:
Quando voltou a si e ao peito regressou o alento, Odisseu ajoelhou-se num canavial e beijou a terra dadora de cereais. Adormeceu.
CANTO VI e CANTO VII ESQUÉRIA - PRAIA
CORO: Ali ficou a dormir o sofredor e divino Odisseu, vencido pelo sono e pelo cansaço na cidade populosa dos Feácios. O rei era Alcinoo, cujos conselhos igualavam os dos deuses.
NAUSICAA acorda e corre para falar com o pai : Querido pai, não queres mandar aparelhar um carro alto e de boas rodas, para que eu possa levar as lindas roupas ao rio, as que agora estão por aí todas sujas? Aliás a ti também fica bem, quando vais com os príncipes deliberar na assembleia, vestires no corpo roupa lavada.
ALCINO: Não te proibirei, minha filha. Vai.
Nausicaa, com as servas, lavam as roupas no rio. Brincam enquanto ela canta. Odisseu acorda, vai ao encontro delas.
Fogem todas. Nausicaa permanece.
NAUSICAA: Amigas, não vos afasteis. Para onde fugis, por terdes visto este homem?
Não pensais certamente que se trate de um inimigo!
Homem mortal não há, nem haverá, a tal ponto ousado que chegue à terra dos Feácios com intenções hostis.
Mas este homem infeliz até aqui vagueou, dele deveremos tratar, pois todos os estrangeiros e mendigos que nos chegam são mandados e qualquer dádiva, embora pequena, é bem-vinda
ODISSEU: Ajoelho-me perante ti, ó soberana. Nunca com os olhos vi outra criatura mortal como tu, homem ou mulher é reverência que sinto quando olho para ti.
Assim me espanto e me admiro perante ti; consegui fugir ao mar cor de vinho. As ondas e rajadas de vento me levaram. Agora me trazem a esta costa, porventura para que novo mal eu padeça; pois não penso que cesse ainda. Mas tu, ó soberana, compadece-te mostra-me a cidadela, dá-me um farrapo para vestir e que a ti se realize tudo o que teu coração deseja.
NAUSICAA: Estrangeiro, não pareces ser vil nem falho de entendimento. Aos homens é dada a ventura, tanto aos bons como aos maus. A ti, ao que parece, deu este destino. São os Feácios que detêm esta terra. Eu sou Nausicaa, filha do magnânimo Alcinoo,
no qual estão investidos o poder e a força dos Feácios.
As servas vestem Odisseu. Nausica sobe na carroça com as servas.
NAUSICAA: Põe-te agora a caminho, ó estrangeiro, em direção à cidade, para que te indique a casa de meu pai fogoso, onde te prometi vires a conhecer quantos são nobres entre todos os Feácios Estrangeiro, ouve bem as minhas palavras, para que depressa obtenhas junto a meu pai o transporte para o teu regresso. Dirige-te à cidade dos Feácios e lá pergunta pela casa de meu pai, o magnânimo Alcinoo.
CORO: Nós te indicaremos, ó ilustre estrangeiro, o caminho ao palácio de Alcinoo, mas caminha em silêncio. Não olhes para nenhum homem nem coloques perguntas.-
Esta população não é muito amiga de estrangeiros, nem é costume dela dar as boas-vindas a quem chega de longe…
CANTO VIII
ESQUÉRIA - PALÁCIO DE ALCINOO
ALCINOO:
Ouvi, ó príncipes e conselheiros dos Feácios: Este estangeiro, cujo nome não sei, chegou errante a minha casa, vindo do Ocaso. Pede que o transportemos; suplica tal segurança. Concedamos-lhe transporte.
Arrastemos uma escura nau até o mar divino.
CORO: IOOOOOOOOOOOOOÓ
O que parecia bom era semente do fim
Tróia de ouro, Tróia alta Tróia cai, Tróia não volta
Odisseu pôe-se a chorar e caminha até a frente
ALCINOO:
Diz-me estrangeiro quem tu és?
O que tens para me falar?
CORO:
Diz-me estrangeiro
O que tens para me falar?
Diz-me sem rodeios
Por onde vagueastes
Em que terras chegastes?
PAISAGEM COM ARGONAUTAS
de heiner müller
tradução: christine rohrig e marcus renaux edição para a cena: marcio meirelles
1 - ODISSEU SE REPORTA A ALCINOO
RAFAEL:
Devo falar de mim
Eu
CORO: Eu Eu
RAFAEL:
Eu quem
De quem se fala quando
Se fala de mim
TATO:
Quem está
Na chuva de excremento dos pássaros
Na pele calcinada
MENDES:
Ou outro
Eu
Eu
Eu
Eu
Eu Eu
CAUÃ: estandarte
RAZGA: Andrajo sangrento desfraldado
PANDORA: Flutuar
VINI:
Entre nada e Ninguém desde que haja vento
VITÓRIA: Eu escarro de homem
ERICK: Eu escarro
De mulher
MENDES: Lugar-comum em cima de lugar-comum
CARLOS:
Eu inferno de sonhos Que leva meu nome acidental
CORO: Eu
CARLOS: medo
Do meu nome acidental
2. ODISSEU EMBARCA APÓS A DERROTA DE TROIA
LEGENDA EM VÍDEO + VOZ DE
COMPUTADOR: MEU AVÔ FOI IDIOTA NA BEÓCIA
CAUÃ: Eu minha viagem marítima
Eu minha anexação
TODOS: Minha Caminhada pelos subúrbios eu
CAUÃ:
Minha morte
TODOS:
Na chuva de excremento dos pássaros na pele calcinada
CAUÃ:
A âncora é o último cordão umbilical
Com o horizonte desaparece a memória da costa
TODOS:
Pássaros são despedida são reencontro
A árvore abatida lavra a cobra o mar
CAUÃ:
Fino entre o eu e o não mais eu o casco
3. PENÉLOPE CIRCE CALÍPSO SEREIAS A MÃE
LEGENDA EM VÍDEO + VOZ DE COMPUTADOR:
O MAR É A NOIVA DO MARINHEIRO
CARLOS:
Os mortos dizem estão no fundo de pé
Nadadores eretos
Descansam até os ossos
Acasalamento dos peixes no tórax estripado
Cracas no crânio
VÍVIAN:
Sede é fogo
Chama-se água o que queima a pele
Fome mastiga a gengiva sal os lábios
CORO:
Obscenidades excitam a carne só
Até que o homem agarra o homem
Calor de mulher é uma cantilena
RAQUEL:
As estrelas sinais frios
O céu exerce gélida vigilância
CORO:
Ou o desembarque infeliz
RAQUEL:
Contra o mar sibila
O estalo das latas de cerveja
LEGENDA EM VÍDEO + VOZ DE COMPUTADOR:
DA VIDA DE UM HOMEM
CARLOS:
Lembrança de uma batalha de tanques
Minha caminhada pelos subúrbios
HOMENS: eu
GISELE:
Entre escombros e entulhos
MENDES: cresce
O NOVO Cubículos para foder com aquecimento central
MIREH:
O tubo de imagem vomita mundo na sala
MEDEIROS
Deterioração faz parte do plano
DAIANA:
O container
Serve de cemitério
MEDEIROS:
Vultos nos escombros
VITÓRIA:
Nativos do concreto
MEDEIROS:
Parada
Dos zumbis perfurados de anúncios
PANDORA:
Nos uniformes da moda de ontem cedo
A juventude de hoje fantasmas
Dos mortos da guerra que acontecerá amanhã
LEGENDA EM VÍDEO + VOZ DE
COMPUTADOR:
MAS O QUE RESTA É PATROCINADO
PELAS BOMBAS
THIAGO:
No esplêndido acasalamento de albumina e zinco
As crianças fazem paisagens de lixo
Uma mulher é o conforto habitual
VIVIAN canta um vocalise que acompanha as falas seguintes
LEGENDA EM VÍDEO + VOZ DE
COMPUTADOR + MULHERES: NO MEIO DAS COXAS
A MORTE TEM UMA ESPERANÇA
MIREH:
Entre estátuas quebradas
GUEDES: em fuga
De uma catástrofe desconhecida
A mãe a reboque
DAIANA: a velha com a cangalha
TODOS: O FUTURO
DURRAY: acompanha em couraça enferrujada
Um bando de atores passa em marcha
LEGENDA EM VÍDEO + VOZ DE COMPUTADOR: VOCÊS NÃO PERCEBEM QUE ELES SÃO PERIGOSOS SÃO ATORES CADA PÉ DE CADEIRA VIVE UM CACHORRO
4. MONSTROS POLIFEMO ETC
CARLOS:
Lama de palavras de meu
Corpo sem dono abandonado
Como sair da mata espessa Dos meus sonhos que cresce lenta
Silenciosa ao meu redor
Um farrapo de Shakespeare
No paraíso das bactérias
TATO:
O céu é uma luva caçando
Mascarado de nuvens de arquitetura desconhecida
Descanso na árvore morta
EMERSON:
As freiras papa-defunto
Meus dedos brincando na vagina
À noite
TATO:
na janela entre cidade e paisagem
Assistíamos a morte lenta das moscas
Como Nero pairava exultante sobre Roma
Até o carro passar
TODOS:
Areia no câmbio
TATO:
Um lobo na estrada quando ele se despedaçou
Viagem de ônibus ao amanhecer
GUEDES:
À direlta e à esquerda
As freiras se evaporando sob o vestido
VITÓRIA:
O meio-dia
Empoava suas cinzas sobre minha pele
RAZGA:
Durante a viagem ouvíamos a tela rasgar
E víamos as imagens se arremessando umas nas outras
As matas ardiam em
LEGENDA EM VÍDEO + VOZ DE COMPUTADOR + TODOS COMO UM ANÚNCIO MEIO CANTAM EM NOTAS
MUSICAIS FAZENDO ESTA ESCALA A SEGUIR:
RAZGA: Mas a viagem não tinha chegada
LEGENDA EM VÍDEO + VOZ DE COMPUTADOR: NO PARKING
RAZGA:
Com um olho Polifemo controlava O trânsito no único cruzamento
RAFAEL escreve o nome no chão com o pé: Eu sou ninguém.
RAZGA e ÉVORA:
Nosso cais era um cinema morto
ÉVORA: As estrelas em concorrência apodreciam sobre a tela Na bilheteria Fritz Lang estrangulava Boris Karloff
O vento sul brincava com velhos cartazes ou
5. VOLTA À ÍTACA
LEGENDA EM VÍDEO + VOZ DE COMPUTADOR: o DESEMBARQUE INFELIZ
CORO: Os negros mortos Cravados como estacas no atoleiro
RAZGA: Nos uniformes de seus inimigos:
VÍDEO: TERRA DEVASTADA SEM VESTÍGIOS DE VIDA - TALVEZ UM CACHORRO PASSE AO LONGE
LEGENDA EM VÍDEO + VOZ DE COMPUTADOR:
DO YOU REMEMBER DO YOU NO I DON’T
Todos pegam os berimbaus como armas e avançam para Rafael que escreve seu nome no chão com o pé. Tocam.
RAFAEL:
O sangue seco
Fumega ao sol
O teatro da minha morte
Estreou quando eu estava entre as montanhas
No meio dos companheiros mortos sobre a pedra
E acima de mim surgiu o esperado avião
Sem refletir eu sabia
Que aquele aparelho era
O que minhas avós chamavam de Deus
A pressão do ar varria os cadáveres do platô
E tiros espocavam em minha fuga cambaleante
Eu sentia
TODOS: MEU
RAFAEL: sangue escapando de
TODOS: MINHAS
RAFAEL: veias
TODOS: E MEU
RAFAEL: corpo se transformando na paisagem
TODOS: DA MINHA
RAFAEL recebe um tiro pelas costas: morte
grita: O PORCO PELAS COSTAS - cai.
LEGENDA EM VÍDEO + VOZ DE COMPUTADOR:
O resto é lírica Quem tem os melhores dentes O sangue ou a pedra
disseminação cultural e inclusão social no
teatro vila velha ANDRÉ MACHADO*
O projeto “Disseminação Cultural e Inclusão Social no Teatro Vila Velha” consolida e amplia a trajetória de três programas estruturantes do Teatro Vila Velha, que há mais de 60 anos atua como um dos principais vetores da política cultural da Bahia. São eles, o “Pé de Feijão – Arte e Educação” que aproxima crianças e adolescentes de comunidades, da rede pública de ensino ao universo das artes, chegando a seus territórios com atividades preparatórias para o encontro com o Teatro, e neste ano mais de 3.500 crianças participaram, além de professores, educadores, líderes comunitários, de 57 instituições; o “Centro de Pesquisa e Memória – Nós por Exemplo”, com seus mais de 200 mil documentos, que contam 100 anos da história da cultura brasileira, sendo organizados indexados e colocados à disposição do público, de pesquisadores e pessoas interessadas nesta história; e a universidade LIVRE que, com esta “Odisseia” marca a qualificação da turma de 2025/2026.
Desenvolvida pela organização social Sol Movimento da Cena, a iniciativa reafirma a missão de fomentar a criação artística coletiva, inovadora e comprometida com a diversidade, ao mesmo tempo em que enfrenta a desigualdade no acesso aos bens culturais e às oportunidades de formação profissional, um dos maiores desafios da cidade de Salvador.
Diante deste cenário, o apoio da Fundação Banco do Brasil e a integração com o Centro Cultural Banco do Brasil são decisivos para a inovação e sustentabilidade do projeto no sentido de viabilizar a ampliação do atendimento a jovens em situação de vulnerabilidade social, garantindo não apenas o ingresso, mas a permanência qualificada desses participantes no programa formativo por meio de pagamento de bolsa para ajuda de custo aos selecionados.
A parceria fortalece a integração entre o Teatro Vila Velha e o CCBB Salvador, promovendo intercâmbio institucional, qualificação profissional e expansão territorial das ações culturais. Com isso, consolida-se um modelo de inclusão efetiva, que alia formação artística, capacitação técnica, preservação da memória e desenvolvimento comunitário.
No contexto de profundas desigualdades socioeconômicas — que atingem especialmente jovens negros e moradores de territórios populares — o projeto assume como objetivo central promover o acesso de comunidades
em situação de vulnerabilidade à arte e à cultura, ampliando oportunidades de qualificação e inserção no mercado cultural.
Para executar o projeto na sua magnitude, a colaboração da Universidade LIVRE com a sistematização de saberes aplicada por ela foi essencial. Ao longo de várias décadas de experiências artísticas e pedagógicas, propôs formação integrada que ultrapassa o palco e abrange dimensões técnicas, gerenciais e de memória cultural. O modelo colaborativo desenvolvido compreende o teatro como prática artística e como ferramenta de reflexão social, promovendo intercâmbio de saberes, experimentação e participação comunitária.
Para o sucesso deste projeto, destacase a estrutura arquitetada em cinco eixos estratégicos:
Descentralização do processo seletivo, com oficinas realizadas diretamente nas comunidades da Gamboa, Vila Brandão, Centro Histórico e Alagados, ampliando o alcance do programa;
Garantia de permanência, por meio da oferta de bolsas de apoio financeiro e logístico a jovens em situação de vulnerabilidade social;
Formação técnica e artística ampliada, com capacitação em dramaturgia, atuação, música, iluminação, sonorização, produção cultural, arquivologia, restauro e digitalização de acervo;
Ações de mediação e multiplicação cultural, incluindo visitas guiadas, contações de histórias, experimentos cênicos, debates e programas como Palco Aberto;
Preservação e difusão da memória, com organização, restauração e digitalização do acervo histórico do Teatro Vila Velha, produção de publicações virtuais, podcasts e exposições, garantindo acesso público e pedagógico ao patrimônio cultural.
Ao celebrar os 60 anos do Teatro Vila Velha, o projeto reafirma a cultura como direito e como instrumento de transformação social. Mais do que formar artistas, a iniciativa forma cidadãos críticos, amplia horizontes profissionais, fortalece identidades e cria um ciclo sustentável de produção, fruição e preservação cultural, beneficiando diretamente comunidades historicamente afastadas dos circuitos formais de acesso à arte.
A Fundação Banco do Brasil celebra com grande satisfação o apoio ao projeto “Disseminação Cultural e Inclusão Social no Teatro Vila Velha”, iniciativa que reafirma nosso compromisso histórico com a promoção da diversidade. Ao fortalecer ações que ampliam o acesso aos bens culturais e às oportunidades de formação profissional, contribuímos para enfrentar desigualdades e abrir novos caminhos para jovens talentos. A Fundação BB parabeniza todos os formandos, desejando que essa conquista seja apenas o início de muitas realizações, e manifesta o desejo de que esta iniciativa siga se multiplicando, inspirando e transformando vidas por muitas outras edições.
*Presidente da Fundação BB
memória, presente e futuro WILSON CHAVES
ODISSEIA + Paisagem com Argonautas é o resultado da odisseia da turma 2025/2026 da universidade LIVRE do teatro vila velha e de todos que trabalharam para que ela acontecesse como o momento presente no projeto “TEMPO: Disseminação Cultural e Inclusão Social no Teatro Vila Velha”, resultado de uma parceria com a Fundação Banco do Brasil e do apoio do Centro Cultural Banco do Brasil.
A ODISSEIA é mais contemporânea do que a idade denuncia: é atemporal. Não começa pelo começo. O relato do trajeto e das dificuldades surge apenas em fase avançada, quando Odisseu passa a narrar. A sua entrega é à rememoração. Além de enfrentar os monstros, é preciso que se lembre, que não ceda ao esquecimento, para que possa voltar à casa, para que tenha futuro. Não é, contudo, a rememoração das felicidades, tristezas ou vitórias pretéritas. Tampouco é aquela do reacionarismo, que busca a restauração do que “antes era melhor”. É, antes, aquela que sabe que a origem é o princípio e a razão do movimento e, por isso, condição para que prosseguir, para que haja futuro.
A mesma lógica moldou o projeto TEMPO: a certeza de que a história do Teatro Vila Velha não é passado, mas memória, que deve ser preservada, que tem valor artístico, histórico e social. O teatro, efêmero por natureza no palco, deve seguir na memória, no contar e no recontar. A partir e através dela é possível viver o presente e moldar o futuro, promovendo o acesso de comunidades vulneráveis à arte, à cultura e aos seus meios de produção, com a convicção de que a ação artística é, em si, uma ação social que contribui para um mundo mais justo.
Enquanto a universidade LIVRE acontecia com formação artística e técnica, a partir de uma experiência prática e até caótica, com os erros e acertos que o real e o caos impõem a quem atua nos bastidores – para que também aprendam – o TEMPO seguia, com os olhos na memória e no futuro, em suas respectivas odisseias.
As ações de Acervo e Memória, ainda em execução, dedicam-se a preservar, organizar, higienizar, restaurar, digitalizar e indexar os milhares de documentos do acervo do Teatro Vila Velha, desenvolvendo sistemas de conservação e facilitando o acesso aos interessados. Em breve será entregue à sociedade um espaço virtual em uma plataforma digital para disponibilizar o acervo além da fisicalidade e haverá divulgação através de correspondência direta a universidades, centros de pesquisa, escolas e
cursos de artes cênicas, além de redes sociais e mídia geral.
O futuro foi semeado em pelo menos 3.591 pessoas, entre crianças, professores e trabalhadores, com as ações do Projeto Pé de Feijão – Arte e Educação, sob a batuta de Cristina Castro, sua criadora e diretora. O Pé de Feijão é um projeto de formação do Teatro Vila Velha para as infâncias, com foco na iniciação artística de crianças e adolescentes; conecta arte e educação por meio de atividades como visitas ao teatro, apresentação de espetáculos, oficinas e vivências criativas incentivando a expressão artística e o encantamento pela cultura. O Pé de Feijão promove acessibilidade e inclusão social. Todas suas atividades são oferecidas gratuitamente ao público através de mediação e com escolas, comunidades e organizações sociais em prol da infância e juventude.
A ODISSEIA + Paisagem com Argonautas é a justa celebração da formatura da turma 2025/2026 da universidade LIVRE do teatro vila velha, o presente no Projeto TEMPO. Viver e incomodar-se no espetáculo do presente, enfrentando todas as adversidades e injustiças, é fundamental, mas só é efetivamente possível se retivermos e disseminarmos o passado, construindo memórias, e se projetarmos um futuro, com o plantio de muitos pés de feijão.
Salvador, 04/03/2026
tempo CLARA TORRES*
E então chegamos ao fim do tempo. Ou ao início de um novo tempo.
“O tempo não é linear, é um maravilhoso emaranhado onde, a qualquer instante, podem ser escolhidos pontos e inventadas soluções, sem começo nem fim”
Lina Bo Bardi
Falar da universidade LIVRE é falar em si de uma Odisseia.
Atravessar um lugar conhecido, que se refez e de certo modo é hoje um novo projeto. A LIVRE existe em um outro lugar, com outras novas possibilidades e muitos outros desafios. Aqui também estive eu aceitando um novo desafio: tentar organizar o caos.
Fui universidade LIVRE e sou universidade LIVRE.
Da ponta de cá, da produção que estrutura o caminho, observo enquanto bastidor; assisti como plateia viva, de perto e de dentro, o arco dessa história.
Vi o processo árduo e bonito de cada um, um começo sem fim.
A primeira parte da nossa Odisseia foi conseguir criar um coro diverso, em que fosse possível unir suas potências individuais.
E já no primeiro experimento entendemos que ali se formava um grupo notável. Que mesmo com todas as divergências nos mostrava em cena a beleza da confluência de cada um em um grande coro.
E então, a cada experimento se via ali um fim que abria mais um começo. O maior enfrentamento era o de entender que a construção se dá em etapas, dia após dia, tijolo por tijolo. Canto por Canto. E o de confiar que cada peça daquele jogo era um passo nessa construção. a LIVRE possibilitou o contato com colaboradores das mais diversas trajetórias: daqui, do Ceará, do Togo, São Paulo, Rio Grande do Norte... Uma incorporação de ferramentas que forjam e aprimoram o ator numa formação plural do corpo, na dança, na voz, no teatro, através da história, da linguagem, da vida e da troca. Atuar é estar disposto a viver e a trocar, é arte que se faz no encontro com o outro, no atrito com o outro, no conflito. É transformar a dureza e fazer brotar a beleza.
Foram muitas as desventuras nesse caminho de retorno.
Para chegar à Odisseia, vivemos muitas histórias. vivemos a história da universidade LIVRE, a história do Teatro Vila Velha, a história de cada um que entrou nesse barco rumo ao abismo da criação e do ofício do ator.
E cá estamos agora, em Ítaca.
06/03/2026
*Coordenadora de produção da universidade LIVRE
sobre o vila GABRIELA WENZEL
O Teatro Vila Velha é uma instituição artística pioneira no Brasil e uma das principais referências na formação de artistas e plateias no país. Sua história começa na primavera de 1959, quando estudantes da primeira turma da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia rompem com a direção da escola e, liderados pelo professor e diretor João Augusto, fundam a Sociedade Teatro dos Novos: a primeira companhia profissional de teatro da Bahia.
Depois de uma intensa busca por um espaço próprio, o grupo constrói o Teatro Vila Velha, inaugurado em 31 de julho de 1964, quatro meses após o golpe civil-militar que instaurou uma ditadura de 21 anos no Brasil. Fruto da contracultura e do tropicalismo, o Vila abrigou movimentos estudantis, grupos como o Teatro Livre da Bahia, e também abriu palco para uma cena que começava a se formar. A abertura foi marcada pela apresentação da Escola de Samba Juventude do Garcia, e pouco tempo depois, estreava o histórico espetáculo musical Nós, Por Exemplo, que revelou ao país Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa e Tom Zé e a montagem de Eles Não Usam Blequetai. Desde então, o Vila se afirma como território de invenção, liberdade e criação coletiva, sendo a “pia batismal” de artistas como os Novos Baianos, Virgínia Rodrigues, Lázaro Ramos, Wagner Moura e tantos outros, outras, que atuam dentro e fora dos palcos.
O Vila movimenta a cultura potencializando também carreiras de produtores, iluminadores, cenotécnicos, mediadores culturais, comunicadores, cinegrafistas, escritores e criadores de diversas linguagens, com um projeto de formação artística que possibilita a conexão e a experiência em todos esses territórios de criação.
O Teatro Vila Velha é um laboratório de formação artística. Mantém três programas contínuos e ações educativas ao longo do ano: a universidade LIVRE do teatro vila velha, que oferece a possibilidade de formação artística e a prática com o desenvolvimento de habilidades técnicas em iluminação, audiovisual, produção, comunicação e acervo; a mediação voltada para crianças, jovens, educadores e mediadores, fortalecendo o vínculo entre arte, educação e comunidade, por meio dos projetos Pé de Feijão e o Festival Vilerê; e oficinas formativas que ampliam as oportunidades de vivência com artistas de outros estados, países e linguagens.
É também um centro de referência na formação e intercâmbios artísticos internacionais através das Residências Artísticas, promovendo a troca de saberes e práticas entre artistas, grupos e instituições da Bahia, do Brasil e do mundo, e consolidando o Vila como um polo de conexão global para criação e aprendizado.
Organizar, preservar e disponibilizar, gratuitamente, o acervo acumulado e adquirido ao longo da história do Teatro é também um de seus objetivos. O Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha: Nós, Por Exemplo preserva mais de 200 mil documentos que contam muito da história do teatro brasileiro.
Hoje, enquanto nossa sede histórica no Passeio Público passa por um processo de requalificação, em obra realizada pela Prefeitura de Salvador/ Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, o Teatro Vila Velha continua em movimento pela cidade por meio do projeto O VILA OCUPA A CIDADE, reafirmando a relevância da programação cultural que a Casa oferece ao público e aos artistas. Nesse período de travessia, ocupamos o Museu de Arte Moderna da Bahia, na celebração dos 60 anos do teatro, com a exposição: Vila Velha, Por Exemplo: 60 anos de um teatro do Brasil, que contou com o apoio pioneiro do CCBB Salvador, recém chegado na cidade.
Quando tivemos que fazer de fato a primeira saída da sede, o Museu de Arte da Bahia abrigou a nossa programação, equipe de produção e equipamentos cenotécnicos, além do núcleo de formação da universidade LIVRE e das oficinas do teatro.
Em 2025, o Teatro Vila Velha inaugura uma parceria histórica com a Fundação Banco do Brasil, com apoio do CCBB, por meio do projeto TEMPO: “Disseminação Cultural e Inclusão Social no Teatro Vila Velha”. Esse projeto fomenta o teatro em três eixos: memória, presente e futuro. A memória é constituída pelo acervo do teatro, onde a parceria possibilitou a catalogação, acondicionamento e digitalização profissional dos arquivos, bem como a formação técnica para seguir o trabalho de preservação da história do teatro. O presente é celebrado com a universidade LIVRE do teatro vila velha, que pela primeira vez pode oferecer bolsas para os artistas em formação, e ampliou as seletivas para diversos pontos da cidade (como Gamboa, Vila Brandão, Alagados, Pelourinho e Centro), criando mais possibilidades de acesso à formação artística e profissional de artistas e trabalhadores da cultura. O futuro do projeto TEMPO são as crianças e os adolescentes, no Projeto Pé de FeijãoArte e Educação, onde o Vila se conecta com as infâncias, pensando na formação de plateias, artistas, mediadores, educadores, e novos adultos sensíveis e conectados com o coletivo.
Esse movimento acontece em um mundo marcado por tensões profundas: guerras, disputas de narrativas e tentativas recentes de enfraquecimento das políticas culturais no Brasil, que ainda reverberam nas incertezas do futuro político do país. Diante desses desafios, o Vila reafirma a arte como espaço de imaginação coletiva, pensamento crítico e liberdade. Um lugar onde é possível experimentar as diversas formas de existência, reconhecer o outro e transformar a experiência comum.
Em 2026, o Teatro Vila Velha retorna ao seu prédio completamente renovado. A nova sede foi pensada como um espaço ainda mais aberto à cidade: mais acessível, sustentável e inclusivo, com a instalação de elevador para todos os pavimentos e rampa de acesso conectada ao Passeio Público. O projeto incorpora princípios de acessibilidade universal, com eliminação de barreiras arquitetônicas, recursos de comunicação acessível e estrutura preparada para acolher artistas e públicos diversos.
Mais do que um edifício, o Teatro Vila Velha é um movimento cultural. Um espaço onde artistas, estudantes e público se encontram para experimentar novas formas de imaginar o mundo.
Fazer Teatro Vila Velha é construir, mesmo à contragosto do individualismo em vigência, a arte como prática de liberdade radical, como espaço de convivência com as alteridades e como movimento permanente de formação de plateias e artistas. Quem passa por aqui — “pista de pouso e decolagem” — raramente sai igual. O teatro oferece paredes imagéticas onde cada pessoa pode experimentar algo novo sobre si e sobre o outro.
Porque o sol é para todos e o Teatro Vila Velha segue de braços abertos às espirais do TEMPO: de todos que passaram, passam e ainda passarão por aqui.
livre no tempo: formação como permanência (2013-2025) THIAGO CARVALHO
A universidade LIVRE do teatro vila velha — LIVRE, constitui-se, desde 2013, como um dos mais consistentes programas de formação continuada em artes cênicas no contexto do Teatro Vila Velha, em Salvador. Desde sua criação, a proposta não se estruturou como curso convencional, mas como experiência de imersão e residência artística, baseada na convivência prolongada com o fazer teatral. A formação acontece no interior do próprio funcionamento do teatro, articulando prática, reflexão crítica, produção cultural e criação pública. Aprender e fazer tornam-se, assim, dimensões indissociáveis.
A LIVRE nasce em um momento de reconfiguração das pedagogias artísticas no Brasil, propondo um modelo de currículo aberto em que o conhecimento não é transmitido de forma vertical, mas construído na experiência compartilhada. O percurso formativo organiza-se a partir de arcos conceituais anuais que atravessam a cena e estruturam investigações dramatúrgicas, corporais e políticas. O espetáculo, nesse contexto, não é meta isolada, mas consequência de uma trajetória coletiva de pesquisa.
Entre 2013 e 2019 consolidou-se uma metodologia que articula processo criativo continuado, estudo de textos clássicos e contemporâneos, criação autoral e diálogo constante com a cidade. Cada edição aprofunda uma pergunta central, convertendo-a em prática cênica. Os trabalhos realizados nesse período revelam um campo de experimentação amplo, atravessando dramaturgias históricas, reescrituras críticas e criações originais. A recorrência de determinados títulos ao longo dos anos não indica repetição, mas revisitação, gesto pedagógico que compreende a obra como campo aberto de interpretação e reinvenção.
É a partir dessa base metodológica que se insere a memória sistematizada dos espetáculos e processos desenvolvidos, permitindo visualizar a densidade produtiva do programa ao longo do tempo.
espetáculos / processos criados ou desenvolvidos
Ciclo inicial de constituição do programa
Frankenstein; O Sexo da Mulher como Campo de Batalha; Por que Hécuba; O Último Godot; Fora de Casa; Bonde dos Ratinhos; Jango – Uma Tragédia
Agorafobias; A História dos Ursos Pandas; Fronteiras; Deserto; Hamlet + Hamlet; Machine; Macbeth
Romeu e Julieta; Através do Espelho e o que Alice por Lá Encontrou; Sete contra Tebas; GA_trans_LÁ_cri_XI_a_ção; Notícias de Godot
Luzes da Boemia; A Besta; Pseudônimas; (Re)fluxos; Reflexos; O Auto da Barca de Camiri
Jango – Uma Tragédia (reposição); Temporal; Os Demônios; Por que Hécuba (reposição); Hamlet + HamletMachine (reposição)
A Tempestade; Ensaio sobre a Democracia; Os Demônios; Por que Hécuba (reposição); Teatro Baiano Não é Gincana
Quem Não Morre Não Vê Deus; Oficina de Criação de Espetáculo Teatral
Utopia Gonduanesa; Antologia dos Mares
Josefina, a dos Ratos; Caravana Livre
A visualização desse percurso evidencia não apenas a quantidade de trabalhos realizados, mas a pluralidade de abordagens dramatúrgicas e estéticas experimentadas. Clássicos revisitados convivem com criações autorais, investigações performativas e exercícios públicos. Mantém-se uma tensão constante entre tradição e contemporaneidade, entre herança teatral e urgência política.
O ano de 2020 inaugura uma inflexão decisiva. A impossibilidade do encontro presencial, em razão da pandemia da COVID-19, suspende o formato tradicional das montagens, mas não interrompe o processo formativo. A LIVRE responde com experimentos digitais, leituras públicas remotas e investigações audiovisuais. O teatro desloca-se temporariamente do edifício para as telas, preservando o princípio fundamental da convivência possível. A transição reafirma o caráter adaptativo do currículo aberto: a pedagogia não depende exclusivamente do espaço físico, mas da ética do trabalho coletivo.
Em 2021, o retorno gradual das atividades presenciais permite rearticular a criação cênica, ainda marcada por protocolos sanitários e por um contexto social fragilizado. A formação passa a incorporar, de maneira mais explícita, reflexões sobre luto, vulnerabilidade e reconstrução de vínculos. O processo criativo assume também a função de recomposição comunitária.
Em 2017 observa-se uma expansão territorial da proposta. A criação do espetáculo Auto da Barca de Camiri, no Campo Grande, aponta para um deslocamento do centro formativo em direção à cidade, ampliando a noção de palco e transformando o espaço urbano em extensão pedagógica. O teatro deixa de ser apenas lugar de apresentação para tornar-se ponto de partida de circulação. Formar artistas implica, nesse horizonte, inseri-los criticamente no território em que atuam.
A edição de 2025 marca outro momento de transformação estrutural: a implementação de bolsas para participantes. Historicamente sustentada por mensalidades e por trocas de trabalho nos setores do teatro, a formação passa a reconhecer financeiramente o tempo de dedicação artística. A mudança reposiciona a LIVRE no campo das políticas de permanência, ampliando o acesso e reconhecendo estudo e criação como trabalho legítimo.
A escolha de trabalhar A Odisseia a partir dos Cantos I a VIII de Homero intensifica essa dimensão simbólica da travessia. Nesses cantos iniciais, Ulisses ainda não regressa; ele é ausência evocada, memória narrada por outros, jornada construída na espera e na busca. Sua identidade não se apresenta pronta, mas se delineia nas provas enfrentadas, nas tempestades, na hospitalidade e na resistência ao esquecimento. Antes do retorno, existe o tempo da errância.
De modo análogo, a formação na LIVRE afirma-se como percurso em que o artista se encontra em constituição. Aprende-se a atravessar, a sustentar a duração, a compreender que o sentido não reside apenas na chegada, mas no caminho compartilhado. Ítaca, nesse horizonte formativo, não é ponto final: é força que organiza o movimento.
Ao observar o conjunto da produção entre 2013 e 2025, evidenciase que a LIVRE constrói uma memória simultaneamente artística e pedagógica. Cada espetáculo é vestígio de um processo maior, e cada processo inscreve marcas na cultura teatral da cidade. A repetição de alguns títulos ao longo dos anos revela que o programa compreende o repertório como laboratório contínuo, não como obra encerrada. Revisitar é aprofundar, tensionar, atualizar.
A trajetória da LIVRE não pode ser compreendida apenas como sequência cronológica de montagens, mas como construção de um campo formativo permanente. Permanência entendida não como imobilidade, mas como insistência em sustentar um espaço de experimentação crítica dentro de uma instituição histórica. O Teatro Vila Velha torna-se, nesse sentido, mais que sede: converte-se em território pedagógico.
Entre consolidações e reinvenções, a universidade LIVRE afirma a formação como prática pública, coletiva e política. O teatro emerge como experiência
compartilhada de pensamento e ação. A memória organizada ao longo desses anos revela a espessura dessa experiência e reafirma que a LIVRE não se resume aos trabalhos apresentados ao final de cada ciclo, pois se constrói na duração, na convivência e na continuidade das perguntas que atravessam gerações sucessivas de artistas.
E, como toda odisseia, não se define apenas pelo retorno, mas pela coragem de permanecer em viagem.
ficha técnica
dramaturgia e encenação: MARCIO MEIRELLES a partir dos cantos I a VIII da ODISSÉIA, de HOMERO, na tradução de frederico lourenço, cotejada com as traduções de: antônio pinto de carvalho, christian werner, donaldo schüler, odorico mendes e trajano vieira. paisagem com argonautas: HEINER MÜLLER
tradução: CHRISTINE ROHRIG e MARCOS RENAUX libras integrada à cena: CÍNTIA SANTOS e ELINILSON SOARES colaboração em dramaturgismo: PANDORA alguns cantos passaram por experimentos dramatúrgicos com os participantes da universidade LIVRE e algumas propostas foram incorporadas à encenação: o canto V foi trabalhado por maria clara mendes; o canto VI por pandora, o canto VII e VIII, por mireh e gisele cristina; e a cena das sereias, do canto XII, não incluído na peça, o foi por vírus carinhoso.
elenco: universidade LIVRE do teatro vila velha (2026) CARLOS ARAÚJO, DAIANA RAMOS, DURRAY CARVALHO, EMERSON PINHEIRO, ERICK BISPO, ÉVORA, GISELE CRISTINA, GUEDES LINS, GUSTAVO DOMINGUES, MARIA CLARA MEDEIROS, MARIA CLARA MENDES, MIREH, NAIARA, OGCAUA, PANDORA, RAPHAEL RUVENAL, RAQUEL JESUS, RUDÁ, TATO SEIXAS, THIAGO NASCIMENTO, VICK MELO, VIVIAN DE ASSIS e VINNI BISPO. preparação de elenco: CHICA CARELLI (técnicas de atuação) e EDI MONTECCHI (técnicas vocais) preparação de atuação: CAW BONFIM (jogos teatrais), CHICO HENRIQUE / trupe motim - ceará (oficina de máscaras), LUCIANA SANTOS (jogos teatrais), NAOMI SILMAN / grupo lumesão paulo (processo do ator) preparação de narrativas: ANNY GRONDIN (contação de histórias tradição griot), EGBOMI CICI (contação de histórias na tradição de ifá), FÁBIO VIDAL (contação de histórias), GRAEME PULLEYN - portugal (dramaturgia) HENRIQUE FONTES / casa da ribeira - RN (dramaturgia), ORDEP SERRA (a odisséia - texto, linguagem e mito), VANDA MACHADO (contação de histórias na tradição yorubá), VÍRUS CARINHOSO (poética rítmica), THIAGO ROMERO (contação de histórias),
assistência de direção, direção de movimento, coreografia e preparação corporal: ROBERTO MONTENEGRO dramaturgia do movimento (zootomia): ARIEL RIBEIRO preparação corporal: ALINE CARVALHO (dança), ANANI DODII SANOUVI - togo (curversas multitradução), GERSON MORENO - ceará (danças contemporancestrais), MESTRE NENEL + MESTRA PREGUIÇA + MESTRE SIMBA + INSTRUTOR BOCHARRA (capoeira), NEGRIZU (dança afro contemporânea).
direção musical e trilha: RAMON GONÇALVES tema da navegação: VICTOR SANTÊS canto do aedo: PANDORA lamento maritimo: EMERSON PINHEIRO e MARIA CLARA MENDES canto de alcinoo: TATO SEIXAS colaboração na trilha: CARLOS ARAÚJO, DAIANA RAMOS, DURRAY CARVALHO, EMERSON PINHEIRO, PANDORA, TATO SEIXAS, THIAGO NASCIMENTO, VICK MELO, VICTOR SANTÊS, VINNI BISPO e VÍVIAN DE ASSIS
preparação musical: MANUELA RODRIGUES (canto), BIRA MONTEIRO, ÍCARO SÁ e MÁRCIO SÁ (percussão), MESTRE EVERALDO BRITO (claves dos toques sagrados yorubá), MESTRE NENEL + MESTRA PREGUIÇA + MESTRE SIMBA (berimbau) desenho de som e operação da trilha: THIAGO VINÍCIUS
direção e roteiro de vídeo, seleção e edição de imagens, mapeamento e operação: RAFAEL GRILO imagens obtidas a partir das seguintes fontes: l’odissea (1911) direção: francesco bertolini, giuseppe de liguoro e adolfo padovan ulysses (1954) direção: mario camerini odissea (1968) direção: franco rossi the odyssey (1997) direção: andrei konchalovsky odysseus & the isle of mists (2008) direção: terry ingram troy the odyssey (2017) direção: tekin girgin the return (2024) direção: uberto pasolini the odyssey (2026) direção: christopher nolan excelentissimos (2018) direção: douglas duarte o processo (2018) direção: maria ramos acervo tv câmara acervo do site pexels.com território do audiovisual da LIVRE: DAIANA RAMOS, MARIA CLARA MENDES, RAPHAEL RUVENAL, VICTOR SANTÊS
cenário: ERICK SABOYA
desenhos técnicos: GISELE CRISTINA execução do cenário: CLÁUDIO CARIJÓ, GEORGE SANTANA e JOSÉ NILSON
cenotécnico do teatro vila velha: JOILSON BATISTA costura cênica: SARAÍ REIS
figurino: ZUARTE JUNIOR
assistência de tratamento de figurino: RICARDO FERNANDES confecção do figurino: DORA MOREIRA e LETÍCIA SANTOS
desenho e operação de luz: MARCOS DEDE plano de trabalho do território: VALMYR FERREIRA responsável pelo território: CHICA CARELLI território de iluminação da LIVRE: TATO SEIXAS, EMERSON PINHEIRO, RUDÁ, THIAGO NASCIMENTO, DURRAY CARVALHO colaboradores do território: IRMA VIDAL (iluminação), LUCIANO REIS (equipamentos), DANIEL GODINHO (montagem de luz - teatro gamboa), JOILSON BATISTA (manutenção de equipamentos), MARCOS ANTÔNIO (montagem de luz - sala do coro), MARCOS DEDÊ (iluminação e equipamentos), PEDRO RIBEIRO (eletricidade básica) e VALMYR FERREIRA (iluminação) eventos em que participaram os participantes do território: VILERÊ, PALCO ABERTO, MELANINA ACENTUADA, TEATRO DE CABO A RABO, EXPOSIÇÃO “VILA, UM TEATRO EM CONSTRUÇÃO”.
coordenação de produção e produção executiva: CLARA TORRES produção da universidade LIVRE: VINICIUS VARJÃO assistência de produção: ANA CLARA VERAS e PÂMELA MALTA gerência operacional: MENIKY MARLA plano de trabalho do território: CLARA TORRES território de produção da LIVRE: GUEDES LINS, GISELE CRISTINA, VICK MELO, VINNI BISPO e MARIA CLARA MEDEIROS colaboradores do território de produção: ANA CLARA VERAS (produção), BEATRIZ ALBUQUERQUE (produção), CLARA TORRES (planejamento), CRISTINA CASTRO (planejamento de projetos), JOSIE NOVAES (produção), MENIKY MARLA (receptivo de eventos), VINICIUS VARJÃO (produção) eventos em que participaram os participantes do território: CINE SESI, VILERÊ, FALAVILA, PALCO ABERTO, MELANINA ACENTUADA, TEATRO DE CABO A RABO
coordenação de comunicação e mediação: GABRIELA WENZEL
assistência de comunicação: DIANDRA ROCHA assessor de imprensa: ARLON SOUZA
redes sociais: JEAN TEIXEIRA diretor de arte: RAMON GONÇALVES
assistência de design: MARIANA VIVEIROS plano de trabalho do território: GABRIELA WENZEL território de comunicação da LIVRE: OGCAUA, PANDORA e GUSTAVO DOMINGUES
colaboradores do território de comunicação: GABRIELA WENZEL, MARIANA VIVEIROS, JEAN PEIXOTO, MARLON CHAGAS, BEATRIZ ZACHARIAS e DIANDRA ROCHA. eventos em que participaram os participantes do território: CINE SESI, VILERÊ, FALAVILA, PALCO ABERTO, MELANINA ACENTUADA, TEATRO DE CABO A RABO
plano de trabalho do território: VINICIUS VARJÃO
território de mediação da LIVRE: CARLOS ARAÚJO, MIREH, VÍVIAN DE ASSIS e RAQUEL SOUZA colaboradores do território da mediação: POLIANA BICALHO (mediação cultural), VINICIUS VARJÃO (mapeamento e mediação cultural) eventos em que participaram os participantes do território: CINE SESI, VILERÊ, PÉ DE FEIJÃO, FALAVILA, PALCO ABERTO, MELANINA ACENTUADA, TEATRO DE CABO A RABO
plano de trabalho do território: ALINE CARVALHO responsável pelo território: MILENA NASCIMENTO território do acervo da LIVRE: ERICK BISPO, EVORA, MONALISA AZEVEDO e NAIARA ALVIN.
primeira temporada: 6 a 22 de março de 2026 espaço cultural da barroquinha - salvador/ba
realização: TEATRO DOS NOVOS / TEATRO VILA VELHA
ficha técnica
odisseia é o resultado do processo 2025/26 da universidade LIVRE do teatro vila velha - uma das ações do projeto “TEMPO: disseminação cultural e Inclusão social no teatro vila velha”, projeto 21.792, que tem a parceria da FUNDAÇÃO BANCO DO BRASIL.
fazem parte também do projeto TEMPO outras duas ações:
PÉ DE FEIJÃO - ARTE E EDUCAÇÃO
direção, curadoria e coordenação geral: CRISTINA CASTRO coordenação de produção: BERGSON NUNES produção executiva: SILARA AGUIAR assistência de produção: LUCAS OLIVEIRA, MENIKY MARLA e VINICIUS VARJÃO
coordenação de mediação cultural: POLIANA BICALHO mediadores culturais: ALMIR GAIATO, CAMILA SILVA, DANILO ERÊ, TARIANA COSTA
estagiários de mediação cultural: DURRAY CARVALHO, GISELE CRISTINA, ERICK BISPO, ÉVORA, MARIA CLARA MEDEIROS, NAIARA, RAQUEL JESUS, RUDÁ, MIREH, THIAGO NASCIMENTO, VICK MELO, VINNI BISPO, VIVIAN DE ASSIS consultora de audiodescrição: IRA VILARONGA
audiodescrição: JUREMA ÍRIS
monitoria de acessibilidade: FERNANDA PEDREIRA e LARISSA RODRIGUES tradução em libras: DÊ UM SINAL técnico: MARCOS DEDÉ cenotécnico: JOILSON BATISTA bombeiro profissional civil: HERBERT MACEDO e ZULEIDE NASCIMENTO coordenação de comunicação: GABRIELA WENZEL assistência de comunicação: BIA ZACHARIAS e DIANDRA ROCHA assessor de imprensa: ARLON SOUZA redes sociais: JEAN TEIXEIRA e MARLON CHAGAS direção de arte: RAMON GONÇALVES assistência de design: MARIANA VIVEIROS registro videográfico: RAFAEL GRILO registro fotográfico: ANANDA IKISHIMA, DIANDRA ROCHA, GABRIELA WENZEL, IBSEN SANTOS, JEAN TEIXEIRA e NAYADE BIANCHI gestão financeira: LAÍS LIMA realização – BAOBÁ PRODUÇÕES ARTÍSTICAS e TEATRO VILA VELHA e a publicização do
CENTRO DE PESQUISA E MEMÓRIA DO TEATRO VILA VELHA - NÓS, POR EXEMPLO produção executiva do centro MILENA NASCIMENTO território da memória da LIVRE: ERICK BISPO, ÉVORA e NAIARA colaboradores do território de memória: ACATIA SANTOS - auxiliar de arquivo (AC-DOC), ALAN BITTENCOURTconsultoria de TI (AC-DOC), ALINE CARVALHO - coordenação (AC-DOC),
DEREK WARWICH - consultoria Arquivística (UFBA), JOEMERSON SANTOS - arquivista (AC-DOC), LAIS CORREIA - estagiária (AC-DOC), LINDINEI FERREIRA - auxiliar de arquivo (AC-DOC), MABEL MOTA - consultoria arquivística (UFBA), SAWARA SANTANA - estagiária (AC-DOC) e TAIS LOPES - auxiliar de arquivo (AC-DOC)
coordenação geral do projeto TEMPO: WILSON CHAVES DE FRANÇA gestão do teatro vila velha e do projeto TEMPO: SOL - MOVIMENTO DA CENA presidente: HUGO BASTOS vice presidente: VÂNIA PAIXÃO diretor de planejamento e gestão: SÉRGIO ROTH analista administrativa: HELENA PEIXOTO MEIRELLES assessor jurídico: WILSON CHAVES DE FRANÇA
o teatro vila velha foi construído e é mantido pela SOCIEDADE TEATRO DOS NOVOS sócios: MARCIO MEIRELLES e SONIA ROBATTO
O VILA INTEGRA A PAVIO: UMA REDE DE GRUPOS DE TEATRO, PESQUISA E AÇÕES CONTINUADAS NO NORDESTE.
O VILA ASSINA O CERTIFICADO DE COMPROMISSO SOCIAL: “RACISMO, AQUI NÃO”.