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O AVESSO DA ATRIZ – SÔNIA ROBATTO | Provocações Abertas Vol 2

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provocações abertas

O AVESSO DA ATRIZ

– SONIA ROBATTO

um processo de criação a partir do acervo do centro de pesquisa e memória do teatro vila velha: nós, por exemplo centro de pesquisa e memória do teatro vila velha - nós, por exemplo

por hewelin fernandes

provocações abertas

centro de pesquisa e memória do teatro vila velha - nós, por exemplo

ColeçãoProvocaçõesAbertas

Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha - Nós, Por exemplo | Vol. 2

pesquisa e concepção por HEWELIN FERNANDES com a orientação de ANA DUMAS

diretor artístico do centro de pesquisa e memória do teatro vila velha - nós, por exemplo: MARCIO MEIRELLES

coordenação geral do projeto TEMPO: WILSON FRANÇA

orientadores/as das provocações do acervo: ANA DUMAS, GIL MACIEL E THIAGO ROMERO

pesquisadores/as das provocações do acervo: DÉBORA DE SOUZA, LUCAS FRÓES, DANIEL ARCADES, DENISE PEREIRA, HEWELIN FERNANDES, DAVID ALBARRACÍN C., CLARA CERQUEIRA E TÚLIO CARAPIÁ

produção executiva do acervo: MILENA NASCIMENTO

Colaboradores AC-DOC

diretora: ALINE CARVALHO

consultor de ti: ALAN BITTENCOURT arquivista supervisor: JOEMERSON SANTOS auxiliar de arquivo: ACATIA SANTOS

auxiliar de arquivo: LINDINEI FERREIRA

auxiliar de arquivo (estagiária): SAWARA SANTANA auxiliar de arquivo (estagiária): LAÍS CORREIA auxiliar de arquivo: TAÍS LOPES

Convênio UFBA

consultoria arquivística: MABEL MOTA consultoria arquivística: DEREK WARWICH

direção de arte: RAMON GONÇALVES

editora de conteúdo e memória: GABRIELA WENZEL

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Fernandes, Hewelin O avesso da atriz [livro eletrônico] : Sonia Robatto : um processo de criação a partir do acervo do centro de pesquisa e memória do Teatro Vila Velha : nós, por exemplo / Hewelin Fernandes. — Salvador, BA : Teatro Vila Velha, 2026. (Provocações abertas ; 2) PDF

ISBN 978-65-83534-09-5

1. Atrizes - Brasil 2. Memória 3. Teatro brasileiro I. Título. II. Série.

26-363592.0

Índices para catálogo sistemático:

1. Teatro : Literatura brasileira B869.2 Eliane de Freitas Leite - Bibliotecária - CRB 8/8415

CDD-B869.2

O AVESSO DA ATRIZ

– SONIA ROBATTO por

um processo de criação a partir do acervo do centro de pesquisa e memória do teatro vila velha: nós, por exemplo

hewelin fernandes

Provocações Abertas

Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha - Nós,Porexemplo

Vol.2

provocações abertas

provocações abertas primeira edição

A coleção Provocações Abertas surge do desejo de movimentar o acervo do Teatro Vila Velha a partir de uma perspectiva inovadora e artística, adicionando às possibilidades de pesquisa na memória uma camada de inquietação. Movimento. E a rebeldia que é característica desse teatro construído há mais de 60 anos como um movimento cultural que questiona e impulsiona o pensamento para o futuro.

O Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha – Nós, Por Exemplo reúne mais de 200 mil documentos coletados ao longo da história do teatro. São registros que começam no início do século XX e se intensificam a partir da criação do Teatro dos Novos, em 1959, e atravessam décadas. Um conjunto construído por artistas e colaboradores que se preocuparam em registrar o presente para que outras gerações pudessem acessar o tempo de cada era do Vila.

Agora, em 2026, em vias da reabertura da sede do teatro – que se encontra em processo de reforma desde novembro de 2024 -, a coleção Provocações Abertas vem para celebrar e compartilhar com o público as pesquisas realizadas dentro do acervo durante o período de ocupação dos documentos na sede do Banco do Brasil, onde foram higienizados, catalogados por equipe técnica de acervo, e digitalizados, para serem compartilhados gratuitamente e online.

A possibilidade dessas pesquisas surge como fruto da parceria entre o Teatro Vila Velha e a Fundação Banco do Brasil, por meio do projeto TEMPO: Disseminação Cultural e Inclusão Social no Teatro Vila Velha, que busca ampliar o acesso à arte e à cultura a partir do Vila. Como parte essencial deste projeto, está o acervo, e a importância de reverberar a memória e a cultura do teatro no

país. Pensando nisso, em setembro de 2025, o Vila abre a chamada PROVOCAÇÃO ABERTA, e recebe mais de 40 propostas de pesquisas multi linguagens. Originalmente, a chamada receberia apenas quatro pesquisadores, mas o interesse das pesquisas no acervo e as propostas criativas recebidas ampliaram as vagas, e o projeto pode receber sete pesquisas e oito pesquisadores.

O que se apresenta aqui não é apenas resultado, mas percurso. É o registro de um dos processos conduzidos por pesquisadores-artistas que se debruçaram sobre o acervo para fazer emergir histórias, conexões e perguntas que permaneciam latentes.

Orientados por Ana Dumas, Thiago Romero e Gil Maciel, as pesquisas se apresentam em diferentes linguagens. São elas: “Vozes do interior: Teatro de Cabo a Rabo na memória, de Daniel Arcades (artigo, dramaturgia e performance); “O Avesso da atriz - Sonia Robatto”, por Hewelin Fernandes (documentário e roteiro); Um passeio fora da caixa: dos Novos ao Vila”, por Clara Cerqueira & Túlio Carapiá (quadrinho e roteiro); “Instruções para caminhar a contrapelo”, por David Albarracín C. (caderno-colagem e performance); Nós, Por Exemplo… O show que uniu Gil, Caetano, Bethânia, Gal e Tom Zé”, por Lucas Fróes (vídeodocumentário e roteiro); “A multiartista Maria Manuela e o Teatrinho Chique-Chique: poética, política e experiência teatral no Vila”, por Débora de Souza (artigo e livreto); e “Jovens historiadores: a escola vai ao Vila”, por Denise Pereira Silva (prática pedagógica). Todos eles registrados no formato de livros, acessíveis pela plataforma Issuu. Cada proposta se apresenta de uma forma própria, criando novas memórias a partir do acervo. Um acervo vivo e conectado com o futuro. Aproveite a provocação!

Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha – Nós, Por Exemplo

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retalhos e memórias

Para falar de Sonia Robatto, é preciso repetir certas palavras com frequência: talento, teatro, retalhos, memórias, costuras, coragem. E para falar de quem vai falar sobre Sonia também é preciso repetir algumas palavras com frequência: talento, audiovisual, retalhos, memórias, costuras, delicadeza, vocábulos que bem traduzem Hewelin Fernandes. Duas mulheres em um encontro provocado pelo edital Provocações do Vila, que selecionou, dentre os mais de quarenta inscritos, sete projetos de pesquisa. Dentre os selecionados, O Avesso da Atriz - Sonia Robatto, provocação audiovisual de Hewelin Fernandes, que coube a mim (des)orientar.

Conheci um pouco da arte de Sonia quando participei, em 1998, do projeto de um livro sobre o Teatro Vila Velha, em especial sobre o seu começo, quando oito jovens insurgentes, incluindo Sonia, criaram a Cia de Teatro dos Novos e inauguraram um novo modo de se fazer teatro na Bahia: livre, brasileiro, popular, revolucionário. Em O Avesso da Atriz, Sonia não se contém e dá espaço também a escritora e agitadora cultural.

Sobre Hewelin, já conhecia um pouco da sua trajetória no audiovisual baiano, tanto na TV Educativa Bahia, como nas suas produções independentes – Áurea (2021) e Comer, beber e aprender (2025). Ainda assim, me surpreendi com a condução da sua pesquisa-filme, onde firmeza e delicadeza caminharam lado a lado. Hewelin mergulhou no acervo do Vila e virou do avesso a vida de Sonia: fotografias, escritos, borderôs, anotações, roteiros, conversas, pensamentos. Conteúdo e método se misturaram: perante a intimidade profissional de Sonia, Hewelin filmou tudo com celular, sem parafernália eletrônica, sem equipe. Apenas ela, Sonia e os retalhos de

memórias alinhavados com maestria por Hewelin na sua ilha de edição.

O Avesso da Atriz é um filme sobre memória. Não aquela memória vista apenas como sinônimo de lembrança ou passado, mas memória entendida como todo registro que se torna vivo quando (re) ativado. Esse é o ponto de partida do programa Provocações do Vila. É o que o Teatro Vila Velha faz diariamente há 60 anos: criar, registrar, organizar e reativar memórias. É o que Hewelin nos mostra com o seu filme e o que Sonia Robatto nos ensina com sua história de vida.

o avesso da atriz - sonia robatto 9
Ana Dumas
Orientadora da pesquisa

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o projeto apresentado

O AVESSO DA ATRIZ – SONIA ROBATTO por hewelin fernandes um processo de criação a partir do acervo do centro de pesquisa e memória do teatro vila velha: nós, por exemplo

o avesso da atriz - sonia robatto

ProvocaçãoAbertaparaPesquisas

naMemóriadoTeatroVilaVelha

Descrição - O que você gostaria de desenvolver ao longo da pesquisa? Qual eixo temático você escolheu para sua pesquisa? Quais questões você pretende investigar, que práticas deseja mobilizar? Quais são os contextos, motivações e objetivos centrais da sua proposta?);

Eu quero desenvolver uma pesquisa de imagens de todos os espetáculos que a atriz e escritora Sonia Robatto participou, com esse material eu vou construir um curta-metragem entre 10 e 15 minutos, “alinhavando” as suas atuações a partir do Eixo 01 – Palcos. Eu pretendo mergulhar no arquivo de todas as montagens que Sonia fez parte no Teatro Vila Velha, assim como cenas de bastidores, buscando trechos que mostram a importância dela como atriz mulher na cena e cultura da Bahia. Tenho como referência para o projeto o documentário “Fernanda Young: Fogeme ao Controle” que foi todo construido a partir de arquivos da atriz e escritora. Quero buscar um recorte poético, numa narrativa que será costurada como uma colcha de retalhos. Na breve pesquisa que fiz, percebi que a colcha é um elemento sempre presente nas suas histórias e por consequências nas peças de teatro, quero trazer a colcha para o documentário. Cada retalho é uma memória, uma passagem da vida de Sonia.

O objetivo principal é reunir essa pesquisa num curta documental, que será base para um projeto maior, que é um documentário sobre Sonia, que vai fala não sobre a atuações dela como atriz, mas também como escritora. Esse projeto, já está sendo desenvolvido por mim desde o ano passado. Então é de muita importância, neste monetjo eu

ter a oportunidade de mergulhar nos arquivos do Vila Velha em busca dessas imagens de Robatto.

Cronograma - Como você pretende realizar seu trabalho aolongo dos quatro meses de pesquisa? (Organize um cronograma de trabalho em tópicos, mês a mês. Lembre-se de incluir tempo para: pesquisa no Centro de Documentação e Memória do Teatro Vila Velha (acervo físico e/ ou digital); participação nos encontros mensais de orientação e acompanhamento com os artistas-pesquisadores; participação nas atividades públicas de apresentação e troca previstas no projeto; produção do material final a ser compartilhado com o público na plataforma Issuu).

Mês 01 – Pesquisa no Centro de Documentação e Memória do Teatro Vila Velha levantando o material visual de Sonia Robatto, assim como material escrito que possa servir de base para pesquisa, para entender melhor o universo de Sonia. Encontro de orientação e acompanhamento com os artistas-pesquisadores para definição das táticas do trabalho

Mês 02 – Roteiro para o curta metragem a partir de tudo que conseguiu recolher com a pesauisa. Encontro de orientação e acompanhamento com os artistas-pesquisadores;

Mês 03 – Edição do curta-metragem. Encontro de orientação e acompanhamento com os artistaspesquisadores;

Mês 04 – Finalização do curta-metragem. Encontro de orientação e acompanhamento com os artistas-pesquisadores. Participação nas atividades públicas de apresentação e troca provocações

previstas no projeto; produção do material final a ser compartilhado com o público na plataforma Issuu).

Justificativa da proposta - Por que essa pesquisa é importante para você e para o contexto em que está inserida?

Falar de Sonia Robatto, é falar de MEMÓRIA. Como diz o saudoso poeta baiano Waly Salomão, “a memória é uma ilha de edição”, é nessa ilha que vamos adentrar para contar a história dessa mulher. A memória é sempre presente em todas as suas histórias e escritas, seja num livro ou peça de teatro infantil, seja numa peça para o público adulto. Na peça O Olho de Deus - O Avesso dos Retalhos, por exemplo, escrita por Sonia onde ela também atuou, falou de temas como memórias individuais, familiares, coletivas. Memórias dolorosas do nosso país. Fala da ditadura, dos nossos desaparecidos, fala dos nossos mortos, pelo regime. Falou do tempo passando e da nossa espera inútil, por aqueles que não voltam mais. Falou da velhice, desta viagem inexorável entre a vida e a morte.

Falar de Sonia é falar de VALORIZAÇÃO AOS

MAIS VELHOS. Com 88 anos, a atriz escritora continua ativa, escrevendo e sendo reconhecida pelos artistas de teatro. Seu livro infantil Casa Barriga, está sendo adaptado para o teatro pela Companhia Novos Novos em homenagem a ela e aos 60 anos do Vila Velha, teatro que ela fundou. A peça fala sobre nascer e a realidade das crianças brasileiras e do mundo, num texto comovente que fala também sobre amor.

Sonia Robatto é uma inspiração para as novas gerações, é olhar para tráz e para frente. Não é a

mulher que foi é a mulher que é. É arquivo vivo do teatro baiano.

A ideia de fazer um documentário sobre Sonia Robatto surgiu a partir do Espetáculo Casa Barriga, da Cia. Novos Novos, livremente inspirado no livro de Sonia Robatto. Sou mãe de duas atrizes da peça, e tive contato com Sonia ainda durante o ensaio da montagem dirigida por Debora Landim. Fiquei comovida e percebi ali conversando com ela e com outras pessoas que fazem parte da trajetória dela a importância de Sonia para a cena baiana. Memória é sempre um tema presente na minha trajetória como documentárista e roteirista. Trabalhei por muito tempo na TVE, sempre resgatando arquivos da memória baiana e sempre me interessei principalmente em projetos de resgate da memória. Roteirizei episódios da série Memórias da Bahia, um deles falando da fotógrafa Lita Cerqueira e da cantora Virginia Rodrigura, fiz também roteiro para a série Travessias Desiguais, no episódio que fala sobre a velhice no Brasil e suas interseccionalidades, e sou roteirista e diretora do curta-metragem premiado Áurea, que mostra o encontro de uma parteira de 97 anos com o médico de 72 anos no Vale do Capão.

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desenvolvimento da proposta

Resumo

Este texto apresenta o processo de criação do curta-metragem “O Avesso da Atriz – Sonia Robatto”, desenvolvido a partir do acervo do Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha. A pesquisa parte de uma abordagem poética e documental, utilizando imagens, documentos e registros sonoros para construir uma narrativa sobre a trajetória da atriz. A metáfora da colcha de retalhos orienta tanto o processo criativo quanto a montagem do filme, articulando memória, tempo e linguagem audiovisual. O texto discute as etapas de pesquisa, seleção de material e edição, evidenciando a relação entre arquivo e criação artística.

Palavras-chave: documentário; arquivo; memória; montagem; processo criativo.

o avesso da atriz - sonia robatto

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1. introdução

“A direção de um filme não começa quando o roteiro está sendo discutido com o escritor, nem durante o trabalho com os atores ou com o compositor, mas no momento em que surge [...] uma imagem do filme.”

A reflexão de Andrei Tarkovski, presente em Esculpir o Tempo, orienta o ponto de partida deste trabalho. A construção do curta-metragem “O Avesso da Atriz – Sonia Robatto” nasce de uma imagem interior, anterior ao roteiro, que conduz todo o processo criativo.

Desde as primeiras investigações, percebi a recorrência da colcha de retalhos na dramaturgia de Sonia Robatto. Essa imagem passou a operar como metáfora central do projeto, associando fragmentos de memória, experiências e narrativas.

Embora eu não domine o ofício da costura, reconheço na montagem audiovisual um gesto semelhante ao bordado. Como afirma Wally Salomão, “a memória é uma ilha de edição”. Nesse sentido, o filme se constrói como um trabalho de costura simbólica, que articula lembranças e registros em uma linguagem audiovisual.

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2. metodologia e processo de pesquisa

2.1 Primeiras aproximações

Desde o início, defini que a pesquisa resultaria em um produto audiovisual. O projeto propunha a construção de um curta-metragem a partir das imagens dos espetáculos de Sonia Robatto, com foco em sua atuação como atriz.

A pesquisa teve início na primeira reunião dos provocadores do Edital Provocação, em outubro de 2025. Nesse contexto, compreendi que o trabalho não se limitaria à trajetória individual da artista, mas também envolveria a memória do Teatro Vila Velha, articulando diferentes temporalidades.

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2.2 Imersão no acervo

As visitas ao Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha foram fundamentais para o desenvolvimento do projeto. Durante esse processo, tive contato com fotografias, documentos e registros que abrangem diferentes momentos da vida de Sonia Robatto: infância, juventude, início da carreira e participação na criação da Companhia dos Novos. Também encontrei materiais que evidenciam o esforço coletivo para a consolidação do Teatro Vila Velha, revelando aspectos históricos e culturais relevantes.

Optei por registrar parte desse material com o celular, buscando uma aproximação mais orgânica com o acervo. Esse gesto incorpora ao filme não apenas o conteúdo dos arquivos, mas também o meu próprio movimento de pesquisa.

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3. construção narrativa e seleção de material

A construção do documentário envolveu um extenso processo de escuta e seleção. Decidi que a narrativa seria conduzida pela própria Sonia Robatto, por meio de entrevistas, áudios e trechos de peças. Durante essa etapa, identifiquei registros significativos, como imagens de ensaio e depoimentos em que a artista reflete sobre seu processo criativo. Esses materiais contribuíram para delinear os eixos temáticos do filme: o amor pela profissão, a Companhia dos Novos e o Teatro Vila Velha, o contexto da ditadura e a passagem do tempo. “Eu gosto do processo todo, pra mim ele é muito rico, porque tem tudo isso de eu ser duas em um né! em uma, em uma peça, eu autora e eu atriz, mas eu gosto mais da atriz, é mais divertido” - Sonia Robatto.

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4. processo de edição

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4.1 Estruturação inicial

Antes de iniciar a montagem, realizei a decupagem do material, revisitando os registros e identificando elementos que expressassem a essência da artista.

A partir desse levantamento, organizei o filme em quatro eixos narrativos:

01. Atriz; 02. Cia Novos; 03. Teatro Vila Velha; 04. Passagem do tempo.

A edição foi orientada pela concepção de montagem como organização do tempo, conforme proposto por Tarkovski. Nesse processo, a metáfora da colcha de retalhos se consolidou como princípio estruturante.

“A montagem reúne tomadas que já estão impregnadas de tempo, e organiza a estrutura viva e unificada inerente ao filme; no interior de cujos vasos sanguíneos pulsa um tempo de diferentes pressões rítmicas que lhe dão a vida” – Tarkovoski.

4.1 Revisões e aprofundamento

A apresentação do primeiro corte permitiu avaliar a recepção do público, revelando a potência emocional do material. As reações contribuíram para a manutenção de determinadas escolhas narrativas, incluindo a exposição do próprio processo de edição.

Na etapa seguinte, retornei ao acervo em busca de materiais mais específicos. Entre os achados, destaca-se uma certidão de capacitação profissional, interpretada como símbolo de um novo nascimento da atriz.

“As pessoas nascem, mas elas não nascem só da barriga da mãe, elas nascem também no teatro” – Sonia Robatto.

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Visita ao Vila Velha em construção

Ainda durante estes 5 meses e meio, tivemos a oportunidade de visitar as obras do Vila Velha ao lado do diretor Marcio Meirelles. Enquanto eu visitava, a voz de Sonia, dizendo que o Vila Velha estava novamente renascendo”. E com essa voz na cabeça, fiz algumas imagens do teatro que foram usadas no corte final do documentário, praticamente foi as únicas imagens fora do acervo que eu usei. A inclusão de imagens do Teatro Vila Velha em reforma ampliou a dimensão simbólica do filme, associando memória e renovação.

Com essas imagens o segundo corte do filme estava pronto, pulou de 6 minutos para 13 minutos. Mas ainda faltava eu definir duas coisas o nome e a colcha.

A definição do título ocorreu durante o processo de revisão do material, quando identifiquei a palavra “avesso” na peça O Olho de Deus – O Avesso do Retalho. O conceito remete ao que não é imediatamente visível, orientando a proposta do filme de revelar dimensões internas da atriz.

O título O Avesso da Atriz – Sonia Robatto sintetiza essa intenção. Sua materialização no filme ocorreu por meio do bordado realizado na colcha pela minha filha de 13 anos, reforçando a relação entre linguagem visual e conceito.

provocações abertas

O Avesso da Atriz

– Sonia Robatto

Hewelin Fernandes
o avesso da atriz - sonia robatto 33

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Fade in Abertura

Fotos de Sonia Robatto, no espetáculo Pé de Guerra em fusão com um tecido sendo costurado.

Sonia Robatto (V.O)

É uma coisa mágica. Quando você entra em cena, entra em outra dimensão, onde tudo é possível. É muito livre. Saí do teatro livre internamente e você se apaixona por esse estado. Pelo menos é o que aconteceu comigo. Me apaixonei.

Entra o título costurado numa colcha de retalhos.

SEQUÊNCIA

01

Trecho da peça Pé de Guerra

Sonia Robatto

Cadê a guerra, hein?

Corô Que guerra, menina?

Imagem da folha do roteiro da peça, todo rabiscado de caneta.

Sonia Robatto (V.O)

Dona Nair continua vestida de baiana. As babás continuam levando os bebês pra passear. O armazém de Seu Gradim tá cheio de coisa gostosa. O Porto da Barra está cheio de gente tomando banho de mar. Os barbeiros continuam trazendo coisas do Recôncavo: abacaxis, cachos e cachos de banana, pinha, manga, sapoti, caranguejo, saguis, porcos, galinhas, perus, pote de barro, gamela.

Imagem da peça Pé de Guerra

Sonia Robatto (V.O)

Eu gosto do processo todo e, pra mim, ele é muito rico, porque tem tudo isso de eu ser dois em um, em uma peça: ter a autora e a atriz. Mas eu gosto mais da atriz. É mais divertido.

Trecho da peça Pé de Guerra

Sonia Robatto

eu não estou prestando atenção direito nas aulas? Pode ser que esteja nos ensinando assim, de uma forma disfarçada, e quando a gente vê já tá com ódio, irado. Então a gente pega o inimigo, cola ele e passa pimenta malagueta.

Imagem do ensaio da peça Olho de Deus – O Avesso do Retalho

Sonia Robatto (V.O)

Eu gosto muito do diretor ao lado te conduzindo, que é uma visão externa. Então você tem muita confusão na cabeça quando os personagens tomam conta da gente. É difícil nosso trabalho. Tudo é difícil, mas é bom.

Eu adoro ensaiar. Não sei o que eu gosto mais: de realmente representar com o personagem feito ou ver um personagem nascendo, nascendo, nascendo. E eu, com a minha querida irmã dos Anjos, dancei uma valsa. Olha, eu gostei tanto de dançar aquela valsa, porque desde menina eu queria dançar aquela valsa. Dancei.

Trecho da peça O Olho de Deus – O Avesso do Retalho com música e vozes.

Imagens de uma ilha de edição, a diretora do

documentário escolhendo o trecho que vai usar.

Sonia Robatto (V.O)

É possível mudar alguma coisa que aconteça? A gente se encoraja aí. A gente tem coragem. A gente era muito jovem, muito corajoso. A gente tinha coragem. A gente era muito jovem, muito corajoso e muito amante de fazer teatro.

Imagens de fotos da exposição do Vila Velha no Mam, em comemoração aos 60 anos do Teatro.

Sonia Robatto (V.O)

Teatro, para nós, se tornou vital. Nós precisávamos contar e dizer uma série de coisas às pessoas. Então é muito mágico. A coisa é uma coisa mágica.

Sonia Robatto

Nós éramos bastante jovens, bastante rebeldes, não gostávamos muito que ninguém tomasse conta da gente. Saímos e fundamos, oito pessoas, o Teatro dos Novos. E não tinha em lugar nenhum onde representar.

Imagens de documentos e fotos do acervo do Vila que mostram eles se apresentando em vários pontos da cidade.

Sonia Robatto (V.O)

Então nós ficávamos em praça pública, representando, sempre com coisas religiosas de criança, porque aí a prefeitura comprava o espetáculo, porque precisávamos montar. Nós éramos pobres, não tínhamos com o que montar o palco.

Então nós corremos essa cidade toda. A gente vinha do interior, e cidade do interior era assim: contratava um caminhão e ia de dois em dois em cima do caminhão, porque também tinha uma lona,

que quando chovia a gente ficava debaixo. Às vezes a gente chegava nos lugares, como em Santa Maria, batendo de porta em porta, vendendo.

Imagens da planta do Passeio Público Vila Velha e imagens de fotos que mostram a construção do Teatro.

Sonia Robatto (V.O)

Tinha um terreno abandonado. Nós passamos, olhamos e dissemos: “Meu Deus, isso aqui é um lugar que dá para fazer o teatro.” E aí falamos com o arquiteto, meu irmão, arquiteto Sílvio Lobato. Ele veio ver e disse: “Dá para fazer um prédio aqui, para representar um teatro.”

Então nós fomos falar com o governador Juracy Magalhães. Nós temos o direito de uso do teatro. O teatro é um personagem livre. O teatro é livre e nós todos. Isso é muito bom para nós. O governo nos deu uma estrutura metálica que eles tinham guardado. Não sei por quê nos deu a estrutura e um tanto de dinheiro, mas muito pouco para a gente construir.

Imagens de fotos da exposição do Vila Velha no Mam, em comemoração aos 60 anos do Teatro, e de fotos do acervo do Vila Velha.

Sonia Robatto (V.O)

Então a gente fez campanha de tudo. Tinha uma campanha que era para montar espetáculo, que a gente dizia assim: “Os Novos aceitam tudo o que é velho.”

Então começou todo esse movimento. E o que era muito bonito era a ligação com o povo. Eu não sei se foi por a gente estar em praça pública, representar muito em praça pública, que eles ficaram mais íntimos da gente.

Nós estávamos muito perto de Caetano, Bethânia… Bethânia pediu autógrafo… Maria Bethânia também.

Marcio Meirelles (V.O)

E agora tem uma foto dela aí na plateia, quando ela acabou, de cabelo preto, assistindo.

Sonia Robatto (V.O)

E ela disse que nós fomos os primeiros atores e o primeiro teatro que ela viu na vida.

Trecho de Maria Bethânia

Essa foi a primeira canção que eu cantei aqui nesse palco do Vila Velha. Recebi uma crítica, e ele falou uma coisa bonita: “Perdemos Bethânia a partir desse número que eu fiz.” Assim eu fui embora daqui.

Sequência 01

Fade in, entra trilha sonora com alusão a repressão. Imagens do catálogo de 1964 da peça “Eles Não Usam Bleque-Tai”.

Sonia Robatto (V.O)

Nós estávamos montando, e não pensem que tudo isso… era ditadura. Aqui era um ponto de resistência. Era perigoso montar. Nós tínhamos certeza disso.

Trecho da peça Espelho para Cegos

Sonia Robatto

Os que tentarem escapar da lavagem cerebral serão declarados inimigos da harmonia social.

Entrevista que Sonia deu para o jornalista Edson Rodrigues.

Sonia Robatto

A gente vivia muito perigosamente, porque a qualquer momento chegava uma pessoa. Teve vezes que a gente tinha que sair correndo de onde estava ensaiando, peça que tivesse qualquer problema, porque nós tínhamos que mandar as peças para a polícia ver. Sem poder, não podia montar.

A gente montava de qualquer maneira. Então várias vezes tivemos que correr, fugir, tirar roupas… Era muito violento. Nós queríamos, com o que a gente tinha — que era fazer teatro — dizer um basta.

Trecho da peça Espelho para Cegos

A lavagem cerebral nos oferece um porto seguro contra os pesadelos de todos os tipos, contra a loucura e contra a dupla personalidade. Os melhores especialistas estarão naturalmente ao seu dispor.

SEQUÊNCIA 03

Um mosaico de fotos de várias épocas e pessoas que passaram pelo teatro Vila Velha.

Sonia Robatto (V.O)

Eu estou pensando em todos que passaram por ali, todos e todas que passaram pelo Vila Velha por um motivo próprio. Cada pessoa procurava, não era um motivo só, mas todos tinham uma união. Nós éramos um só.

Nós estávamos juntos, acreditávamos no mundo. Acreditávamos que era preciso fazer alguma coisa na sociedade. Acreditávamos que as crianças deviam vir ficar conosco. Era uma coisa muito bonita.

Sonia Robatto

Eu fico muito emocionada de falar disso, porque aconteceu tudo isso. Aconteceu de verdade.

Imagens do Vila Velha em obras gravadas pela diretora.

Sonia Robatto (V.O)

O Vila nunca quer ser igual. Ele inventa, e agora ele vai ser novamente novo. Mesmo a gente que é mais velho, que trabalha aqui dentro, tem que abrir o coração para o momento que a gente vive. O Vila sempre viveu em relação ao mundo que você vive.

Imagens do documento de capacitação profissional de Sonia, que atesta ela como atriz. Uma nova certidão.

Sonia Robatto (V.O)

O teatro nasceu. Não foi feito. As pessoas também nascem. Não é só na barriga da mãe. As pessoas no teatro nascem muitas vezes. Eu acho que nascem muitas vezes.

Imagem da peça “Um Tal de Dom Quixote”

Sonia Robatto (V.O)

Eu tenho alguns personagens que eu fiz que realmente são melhores do que eu.

Trecho da peça “Um Tal de Dom Quixote”

Sonia Robatto

Muitas graças pela vossa cortesia. Oxalá neste malicioso século essa luz dê origem a toda uma estirpe de nobres guerreiros com metade da vossa grandeza. Fique em paz, cavaleiro, e que a jornada seja leve.

Imagens

da peça Um Tal de Dom Quixote

Sonia Robatto (V.O)

Tem personagens em que tudo é possível. Eu acho que deve dar à criança e a todo mundo a possibilidade de abertura mental e emocional. Ter uma abertura na cabeça: “Por que eu não posso fazer isso?” Eu posso. Nós vamos ver.

Imagens de fotos de várias fases de Sonia Robatto em fusão com uma colcha de retalhos que balança ao vento.

Sonia Robatto (V.O)

O tempo passa muito depressa. Lá para a minha gloriosa idade agora, vejo que ele passou e eu nem vi.

Mas então aquelas duas senhoras, uma das quais era eu também, atriz, costuravam as suas lembranças numa colcha de retalhos, querendo costurar o passado para que ele não fugisse, para que ficasse sempre ali.

Entra créditos 01

Sonia Robatto

Nós estamos muito felizes de estarmos aqui juntas, terminando ou começando um trabalho maravilhoso. Então, é só realmente dizer: merda, merda.

Entra créditos 02

FIM

provocações abertas

sobre hewelin fernandes

Jornalista, editora, roteirista, produtora e diretora. Trabalhei por mais de 20 anos, em emissoras de televisão em Salvador (TV Bahia/Globo, TV Aratu/SBT, TVE, Band), como editora chefe, produção e direção. Criadora, roteirista e diretora da série “Na Trilha do Cinema” (2024), canal Curta. Criadora, roteirista e diretora de produção da série infantojuvenil “Comer , Beber e Aprender” (2024), do Canal Futura. Roteirista e diretora do curta documental “O Manto da História” (2024). Roteirista e diretora do curta-metragem “Áurea” (2019), premiado como melhor documentário no Festival de Cinema de Muriaé, Menção Honrosa no 25 Cine PE, Melhor Curta Nacional no Festival Alter do Chão. Roteirista e diretora do documentário “Fotográficas”, TVE, (2016). Formada no curso de extensão da Usina do Drama, UFBA, além de outros cursos livres de roteiro. Semifinalista do Prêmio Cabíria de Roteiro 2021 na categoria piloto de série de não-ficção com “Mulheres do Campo”. Roteirista de episódios da série “Memórias do Brasil”, produtora Tem Dendê (2024) e da série “Travessias Desiguais”, produtora Maranha (2025). Assistente de direção da série “Agbara Dudu – Narrativas Negras”, produtora Truque (2025) Professora de audiovisual na ONG TV Pelourinho, em Salvador (2025). Pesquisa para o documentário “Soy Loco Por Ti Capinan” (2025). Diretora da série de Interprogramas “Eu Leitora” para a TVE Bahia (2025). Pesquisadora associada da PAVIC, Pesquisadores de Audiovisual, Iconografia e Conteúdo. Selecionada para o “Provocação Aberta do Vila Velha”, pesquisa e realização de um curta sobre a atriz Sonia Robatto (2025).

FICHATÉCNICA

“Provocações Abertas” é parte das ações do projeto “TEMPO: Disseminação Cultural e Inclusão social no Teatro Vila Velha”, projeto 21.792, que tem a parceria da Fundação Banco do Brasil.

coordenação geral do projeto TEMPO: WILSON CHAVES DE FRANÇA

FICHA TÉCNICA TEATRO VILA VELHA

diretor artístico: MARCIO MEIRELLES coordenadora de projetos institucionais: CRISTINA CASTRO gestor de projetos: HUGO BASTOS coordenadora financeira: VÂNIA PAIXÃO diretor de planejamento e gestão: SERGIO ROTH analista administrativo financeiro: HELENA PEIXOTO MEIRELLES gerência operacional: MENIKY MARLA coordenadora de produção: CLARA TORRES produtora: ANA CLARA VERAS assistente de produção: PÂMELA MALTA técnico de iluminação: MARCOS DEDÊ cenotécnico: JOILSON BATISTA técnico de som: THIAGO VINÍCIUS núcleo de formação: CHICA CARELLI núcleo audiovisual: RAFAEL GRILO coordenadora de comunicação: DIANDRA ROCHA assessor de imprensa: ARLON SOUZA social media: JEAN TEIXEIRA diretor de arte: RAMON GONÇALVES produtora do acervo: MILENA NASCIMENTO editora de conteúdo e memória: GABRIELA WENZEL

gestão do teatro vila velha: SOL - MOVIMENTO DA CENA presidente: HUGO BASTOS vice-presidente: VÂNIA PAIXÃO

o teatro vila velha foi construído e é mantido pela SOCIEDADE TEATRO DOS NOVOS sócios: MARCIO MEIRELLES e SONIA ROBATTO

o Teatro Vila Velha tem apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia.

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O AVESSO DA ATRIZ – SÔNIA ROBATTO | Provocações Abertas Vol 2 by Teatro Vila Velha - Issuu