Skip to main content

NÓS, POR EXEMPLO | Provocações Abertas Vol 5

Page 1


provocações abertas

NÓS, POR EXEMPLO...

por lucas fróes o show que uniu gil, caetano, bethânia, gal e tom zé

centro de pesquisa e memória do teatro vila velha - nós, por exemplo

provocações abertas

centro de pesquisa e memória do teatro vila velha - nós, por exemplo

ColeçãoProvocaçõesAbertas

Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha - Nós, Por exemplo | Vol. 5

pesquisa e concepção por LUCAS FRÓES com a orientação de GIL MACIEL ROCHA

diretor artístico do centro de pesquisa e memória do teatro vila velha - nós, por exemplo: MARCIO MEIRELLES

coordenação geral do projeto TEMPO: WILSON FRANÇA

orientadores/as das provocações do acervo: ANA DUMAS, GIL MACIEL ROCHA E THIAGO ROMERO

pesquisadores/as das provocações do acervo: DÉBORA DE SOUZA, LUCAS FRÓES, DANIEL ARCADES, DENISE PEREIRA, HEWELIN FERNANDES, DAVID ALBARRACÍN C., CLARA CERQUEIRA E TÚLIO CARAPIÁ

produção executiva do acervo: MILENA NASCIMENTO

Colaboradores AC-DOC

diretora: ALINE CARVALHO

consultor de ti: ALAN BITTENCOURT arquivista supervisor: JOEMERSON SANTOS auxiliar de arquivo: ACATIA SANTOS

auxiliar de arquivo: LINDINEI FERREIRA

auxiliar de arquivo (estagiária): SAWARA SANTANA auxiliar de arquivo (estagiária): LAÍS CORREIA auxiliar de arquivo: TAÍS LOPES

Convênio UFBA

consultoria arquivística: MABEL MOTA consultoria arquivística: DEREK WARWICH

direção de arte: RAMON GONÇALVES

editora de conteúdo e memória: GABRIELA WENZEL

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Fróes, Lucas Nós, por exemplo [livro eletrônico] : o show que uniu Gil, Caetano, Bethânia, Gal e Tom Zé / Lucas Fróes. Salvador, BA :Teatro Vila Velha, 2026. (Provocações abertas ; 5) PDF

ISBN 978-65-83534-11-8

1. Bethânia, Maria, 1946- 2. Costa, Gal, 1945- 2022 3. Ditadura - Brasil - História 4. Gil, Gilberto, 1942- 5. Música brasileira 6. Veloso, Caetano, 1942- 7. Zé, Tom, 1936- I. Título. II. Série. 26-363629.1

Índices para catálogo sistemático:

1. Brasil : Música 780.981

Eliane de Freitas Leite - Bibliotecária - CRB 8/8415

CDD-780.981

NÓS, POR EXEMPLO...

o show que uniu

gil, caetano, bethânia, gal e tom zé

por lucas fróes

Provocações Abertas

Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha - Nós,Porexemplo

Vol.5

provocações abertas

provocações abertas primeira edição

nós, por exemplo… o show que uniu gil, caetano, bethânia, gal e tom zé

A coleção Provocações Abertas surge do desejo de movimentar o acervo do Teatro Vila Velha a partir de uma perspectiva inovadora e artística, adicionando às possibilidades de pesquisa na memória uma camada de inquietação. Movimento. E a rebeldia que é característica desse teatro construído há mais de 60 anos como um movimento cultural que questiona e impulsiona o pensamento para o futuro.

O Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha – Nós, Por Exemplo reúne mais de 200 mil documentos coletados ao longo da história do teatro. São registros que começam no início do século XX e se intensificam a partir da criação do Teatro dos Novos, em 1959, e atravessam décadas. Um conjunto construído por artistas e colaboradores que se preocuparam em registrar o presente para que outras gerações pudessem acessar o tempo de cada era do Vila.

Agora, em 2026, em vias da reabertura da sede do teatro – que se encontra em processo de reforma desde novembro de 2024 -, a coleção Provocações Abertas vem para celebrar e compartilhar com o público as pesquisas realizadas dentro do acervo durante o período de ocupação dos documentos na sede do Banco do Brasil, onde foram higienizados, catalogados por equipe técnica de acervo, e digitalizados, para serem compartilhados gratuitamente e online.

A possibilidade dessas pesquisas surge como fruto da parceria entre o Teatro Vila Velha e a Fundação Banco do Brasil, por meio do projeto TEMPO: Disseminação Cultural e Inclusão Social no Teatro Vila Velha, que busca ampliar o acesso à arte e à cultura a partir do Vila. Como parte essencial deste projeto, está o acervo, e a importância de reverberar a memória e a cultura do teatro no

país. Pensando nisso, em setembro de 2025, o Vila abre a chamada PROVOCAÇÃO ABERTA, e recebe mais de 40 propostas de pesquisas multi linguagens. Originalmente, a chamada receberia apenas quatro pesquisadores, mas o interesse das pesquisas no acervo e as propostas criativas recebidas ampliaram as vagas, e o projeto pode receber sete pesquisas e oito pesquisadores.

O que se apresenta aqui não é apenas resultado, mas percurso. É o registro de um dos processos conduzidos por pesquisadores-artistas que se debruçaram sobre o acervo para fazer emergir histórias, conexões e perguntas que permaneciam latentes.

Orientados por Ana Dumas, Thiago Romero e Gil Maciel, as pesquisas se apresentam em diferentes linguagens. São elas: “Vozes do interior: Teatro de Cabo a Rabo na memória, de Daniel Arcades (artigo, dramaturgia e performance); “O Avesso da atriz - Sonia Robatto”, por Hewelin Fernandes (documentário e roteiro); Um passeio fora da caixa: dos Novos ao Vila”, por Clara Cerqueira & Túlio Carapiá (quadrinho e roteiro); “Instruções para caminhar a contrapelo”, por David Albarracín C. (caderno-colagem e performance); Nós, Por Exemplo… O show que uniu Gil, Caetano, Bethânia, Gal e Tom Zé”, por Lucas Fróes (vídeodocumentário e roteiro); “A multiartista Maria Manuela e o Teatrinho Chique-Chique: poética, política e experiência teatral no Vila”, por Débora de Souza (artigo e livreto); e “Jovens historiadores: a escola vai ao Vila”, por Denise Pereira Silva (prática pedagógica). Todos eles registrados no formato de livros, acessíveis pela plataforma Issuu. Cada proposta se apresenta de uma forma própria, criando novas memórias a partir do acervo. Um acervo vivo e conectado com o futuro. Aproveite a provocação!

Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha – Nós, Por Exemplo

provocações abertas

a memória como arquipélago

nós, por exemplo… o show que uniu gil, caetano, bethânia, gal e tom zé

9

A frase de um poema se impõe no início desta minha apresentação do documentário “Nós, Por Exemplo...” que remonta, para resgatar, a história de um show de música em Salvador, Bahia. Portanto remonta a cidade e o espírito de seu tempo no terrível ano de 1964.

“A memória é uma ilha de edição”, diz Wally Salomão no poema “Carta Aberta a John Ashbery”. Então foi inevitável voltar ao poema e suas imagens duras, para pensar a articulação entre documentos, fragmentos de lembranças, vozes que contam e que esquecem. Fotografias, vídeos e outros objetos em eterno embate contra o apagamento.

A investigação de Lucas para o documentário começa ainda em 2018 e se consolida com sua seleção para integrar o projeto TEMPO –Disseminação Cultural e Inclusão Social, a partir do acervo do Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha: Nós, Por Exemplo. Na apresentação de Lucas, logo depois deste meu texto, ele detalha todo esse tempo com a precisão de um bom jornalista. Aqui importa saber que o documentário edita memórias para que não esqueçamos, vai e volta no tempo, navegando entre momentos e lembranças.

Escrevo “navegando” porque há um outro texto daquele poema que também nos serve: “um arquipélago de fiapos do terno da memória”. É uma imagem terrível essa, de algo que o tempo vai desfazendo.

Ocorre que Lucas navegou esse arquipélago e cerziu aqueles fiapos. Com voz, música, imagens das pessoas e da cidade que existiu, para criar memória em audiovisual e nos oferecer seu

gil maciel rocha

Orientador da pesquisa

testemunho de um tempo, de um show de música e de como ele foi desejado e aconteceu.

Memórias cerzidas em diferentes passados que agora são um arquivo sob a forma de um vídeodoc. E também são esse documento que você lê, onde Lucas apresenta suas próprias memórias, do que ele viu e do que fez com o que viu, onde esteve e o que trouxe para nós. Cada vida um arquivo, cada memória uma seleção e edição, uma montagem. E a linguagem como possibilidade de resgate que a arte nos oferece.

provocações abertas

o projeto apresentado

NÓS, POR EXEMPLO...

o show que uniu

gil, caetano, bethânia, gal e tom zé

por lucas fróes

DESCRIÇÃO

O que você gostaria de desenvolver ao longo da pesquisa?

Ao longo da pesquisa, eu gostaria de desenvolver um vídeo que seja ilustrado pelo material gráfico e fotográfico do acervo do Teatro Vila Velha que esteja relacionado ao show “Nós, por exemplo…”, que foi um dos espetáculos de inauguração do Vila. Isso inclui também o material de outros espetáculos realizados na sequência por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa e Tom Zé, que foram protagonistas do “Nós, por exemplo…”.

Qual eixo temático você escolheu para sua pesquisa?

Eixo 04 - Imagens

Quais questões você pretende investigar, que práticas deseja mobilizar?

Pretendo investigar os detalhes dos primeiros shows musicais no Vila, protagonizados por Gil, Caetano, Bethânia, Gal, Tom Zé e outros, tendo o espetáculo “Nós, por exemplo…” como prioridade investigativa. O acervo do Vila inclui material gráfico, fotográfico, jornalístico e de borderô que vão ajudar a dirimir dúvidas e reconstituir o que aconteceu naqueles shows que foram o início de uma revolução musical no Brasil.

Desejo mobilizar práticas criativas do ramo audiovisual, concatenando o material do acervo do Vila com áudio inédito do meu próprio acervo, ambos relacionados aos fatos históricos que são objetos da minha pesquisa.

Quais são os contextos, motivações e objetivos centrais da sua proposta?

Em 2024, o show “Nós, por exemplo…” e o Teatro Vila Velha completaram 60 anos, sem que todos os detalhes deste show tão importante para a cultura brasileira tenham vindo à tona. Nos últimos anos, alguns membros deste espetáculo faleceram, como Djalma Corrêa, Gal Costa e meu tio Perna Fróes. Neste contexto, tenho a motivação de tornar público detalhes ainda inéditos do espetáculo.

No ano passado, algumas fotos da turma do “Nós, por exemplo…” estiveram na exposição do Vila no MAM. A existência dessas fotos, que pertencem ao acervo de Orlando Senna, foram descobertas por mim, em 2019, e só digitalizadas no ano passado para o acervo do Vila. Agora, gostaria de me aprofundar em todo o material existente no acervo do Vila para dar continuidade à pesquisa que venho desenvolvendo nos últimos tempos.

Os objetivos centrais da minha proposta são contar e eternizar a história do “Nós, por exemplo...”, tornando público ainda mais detalhes do espetáculo, alguns deles pela primeira vez na história, homenageando tanto o “Nós, por exemplo...” quanto o Teatro Vila Velha.

Outro objetivo é projetar uma visão baiana sobre fatos importantes para a cultura nacional e internacional, como esse em questão, tudo isso através da preservação da memória. provocações

CRONOGRAMA

Como você pretende realizar seu trabalho ao longo dos quatro meses de pesquisa? (Organize um cronograma de trabalho em tópicos, mês a mês. Lembre-se de incluir tempo para: pesquisa no Centro de Documentação e Memória do Teatro Vila Velha (acervo físico e/ ou digital); participação nos encontros mensais de orientação e acompanhamento com os artistas-pesquisadores; participação nas atividades públicas de apresentação e troca previstas no projeto; produção do material final a ser compartilhado com o público na plataforma Issuu)

Outubro:

encontro para a definição das táticas do trabalho pesquisa no Centro de Documentação e Memória do Teatro Vila Velha participação nas atividades públicas de apresentação e troca previstas no projeto

Novembro:

encontro mensal de orientação e acompanhamento com os artistaspesquisadores pesquisa no Centro de Documentação e Memória do Teatro Vila Velha participação nas atividades públicas de apresentação e troca previstas no projeto

Dezembro:

encontro mensal de orientação e acompanhamento com os artistaspesquisadores pesquisa no Centro de Documentação e Memória do Teatro Vila Velha participação nas atividades públicas de apresentação e troca previstas no projeto produção do material final a ser compartilhado com o público na plataforma Issuu

Janeiro:

encontro mensal de orientação e acompanhamento com os artistas-pesquisadores pesquisa no Centro de Documentação e Memória do Teatro Vila Velha participação nas atividades públicas de apresentação e troca previstas no projeto produção do material final a ser compartilhado com o público na plataforma Issuu

Fevereiro:

último encontro mensal antes da apresentação pública e entrega do material produção do material final a ser compartilhado com o público na plataforma Issuu entrega do material final participação nas atividades públicas de apresentação e troca previstas no projeto

nós, por exemplo… o show que uniu gil, caetano, bethânia, gal e tom zé

JUSTIFICATIVA DA PROPOSTA

Por que essa pesquisa é importante para você e para o contexto em que está inserida?

Essa pesquisa é importante para mim porque trata do show “Nós, por exemplo…”, um tema que está ligado à minha família, já que minha tia-avó Estella Fróes, e meus tios Fernando e Perna estiveram presentes nos primórdios do Teatro Vila Velha. Perna Fróes participou do “Nós, por exemplo…”, show que Estella Fróes registrou parcialmente em áudio, que foi cedido por mim ao acervo do Vila e digitalizado no ano passado, no marco dos 60 anos do teatro. O “Nós, por exemplo…” já é tema de pesquisas da minha parte, tendo eu publicado matérias na BBC News Brasil, em 2019, e na Folha de S.Paulo, em 2024, a esse respeito.

A iminente reinauguração do Teatro Vila Velha é o contexto ideal para que a história de um dos shows de sua abertura, em 1964, venha à tona. Além disso, foi no “Nós, por exemplo…” que Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa e Tom Zé pisaram juntos num palco pela primeira vez. Trata-se de uma história eminentemente soteropolitana sobre esses cinco artistas que ganharam o mundo, mas cujos primeiros passos não são contados de forma adequada pela imprensa nacional (que os considera apenas a partir dos Festivais de Música) e pela imprensa internacional (que retroage apenas a partir do surgimento da Tropicália).

provocações abertas

desenvolvimento da proposta

POR EXEMPLO...

21 nós, por exemplo… o show que uniu gil, caetano, bethânia, gal e tom zé

Em 1964, um grupo de jovens baianos aspirantes a cantores e compositores sobe junto num palco pela primeira vez. A turma ainda não é conhecida do público, mas a partir do momento em que se apresentam no espetáculo “Nós, por exemplo…”, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa e Tom Zé dão o passo inicial para juntar os seus destinos artísticos e abrir um caminho de sucesso na música popular brasileira que se estende até os dias de hoje.

Sessenta e dois anos depois, trechos do áudio do espetáculo “Nós, por exemplo…” vêm a público pela primeira vez, graças ao trabalho de Djalma Corrêa, baterista do grupo, que gravou as três noites de apresentações e nunca antes mostrou o material para ninguém, nem para os colegas de palco. Uma parte do show também foi gravado pela professora Estella Fróes.

Tudo começa quando o diretor teatral João Augusto, um dos fundadores da Companhia Teatro dos Novos, percebe que a montagem da peça “Eles não usam Bleque-Tie”, de Gianfrancesco Guarnieri, não ficaria pronta a tempo de integrar a série de espetáculos de inauguração do Teatro Vila Velha. Por isso, ele pede a seu aluno Roberto Sant’Ana para que chame seus amigos e façam um show musical no lugar da peça.

Reunidos na varanda da casa da atriz Maria Moniz, a turma de amigos — formada por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Tom Zé, Djalma Corrêa, Roberto Sant’Ana, Perna Fróes, Orlando Senna, Emanoel Araújo, Fernando Lona e Alcyvando Luz — topa o desafio que mudará suas vidas e definirá suas carreiras.

Em um trabalho de investigação e pesquisa

sem precedentes, os detalhes das três noites de apresentações do show “Nós, por exemplo…” são contados pelos próprios participantes do espetáculo através de declarações, a grande maioria delas desconhecidas, dadas por eles em diferentes ocasiões ao longo de décadas, e reunidas em um documentário pela primeira vez na história.

Fotografias dos bastidores do espetáculo “Nós, por exemplo…”, que ficaram guardadas desde 1964, ganham a tela junto com filmagens de Salvador no início da década de 60, sempre guiadas pelas palavras dos participantes e pelas canções do espetáculo, que reúne clássicos da Bossa Nova e da Música Popular Brasileira, além das primeiras composições feitas por Caetano, Gil e companhia. Lembranças daquela época em que tudo começou, da convivência em plena efervescência da juventude e da parceria musical que resultou no espetáculo protagonizado no Teatro Vila Velha, tudo isso tendo como cenário existencial uma Salvador vanguardista que colhia os frutos das políticas culturais do reitor Edgard Santos, se dão na forma de um diálogo feito através dos tempos pelos participantes do “Nós, por exemplo…”.

Resultado de uma minuciosa pesquisa de acervo em materiais de arquivo, incluindo itens inéditos e aliado a material exclusivo, o documentário “Nós, por exemplo…” busca resgatar a história do início da carreira de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa e Tom Zé.

Da junção das declarações, preservando sempre o contexto, forma-se um fio condutor, de maneira que haja um diálogo entre eles para que contem juntos a história do espetáculo que protagonizaram no início de carreira, formando o que se torna uma

grande conversa realizada por eles ao longo das décadas. As próprias palavras dos protagonistas dão a fluidez necessária para a condução da conversa, sem a necessidade de um mediador, como se eles estivessem ditando um roteiro com suas idas e vindas nos assuntos tratados, numa compilação unida por uma sutil costura sonora realizada pelo documentário.

Como apenas o áudio é extraído das entrevistas dos participantes, o documentário se vale de fotos e filmagens de arquivo para ilustrar o que está sendo ouvido. Cartazes dos shows e fotografias da turma do “Nós por exemplo…” tiradas na época do acontecimento são resgatados, em alguns casos de forma inédita, para ganharem a tela e dialogarem narrativamente com as falas dos participantes e do áudio inédito do espetáculo realizado em 1964.

O áudio é ilustrado também com o uso de trechos de filmes baianos que foram lançados durante o período que o documentário “Nós, por exemplo…” retrata, o início dos anos 60. O uso de efeitos na edição permite que uma panorâmica percorra as imagens para mostrá-las inteiramente, dando assim a sensação de movimento. Outro efeito usado para dar dinamismo às fotos ressalta determinados aspectos das fotografias digitalizadas, principalmente para destacar as pessoas que ali aparecem.

Na edição, também são usados elementos de design gráfico pertinentes para a devida transição das fotografias, e entre essas e as filmagens, em consonância com a elegância do aspecto preto e branco do material de arquivo a ser mostrado. As filmagens servem para ambientar o espectador com o cenário em que tudo aquilo se desenvolve, tendo em vista a importância da efervescência cultural na cidade de Salvador naquele período para a formação dos então jovens artistas que foram protagonistas do espetáculo.

provocações abertas 22

nós, por exemplo… o show que uniu gil, caetano, bethânia, gal e tom zé

No documentário, as próprias declarações dos entrevistados servirão para introduzir a necessidade de ouvirmos determinadas músicas do espetáculo, seja pela emoção suscitada pelas histórias que estão sendo contadas, seja porque algumas das canções são citadas nominalmente.

Um dos grandes tesouros guardados da música brasileira, o áudio original do show “Nós, por exemplo…” ganha destaque nos momentos em que surge na tela. O documentário “Nós por exemplo…” é dividido em quatro pequenos capítulos, ordenando o desenrolar dos depoimentos a partir dos assuntos que são abordados.

provocações abertas

NÓS, POR EXEMPLO...

o show que uniu gil, caetano, bethânia, gal e tom zé

nós, por exemplo… o show que uniu gil, caetano, bethânia, gal e tom zé

provocações

abertas

Ouvimos Caetano Veloso assoviar a primeira melodia que compôs na vida

O COMEÇO, POR EXEMPLO…

CAETANO VELOSO

A chegada em Salvador, em 1960, teve um impacto enorme sobre minha vida, quando eu me mudei com Bethânia pra lá pra estudar.

MARIA BETHÂNIA

E nós fomos morar num apartamento lindo, em cima do Dique do Tororó. Eu estudei quase nada porque o Dique ali, eu só queria cantar com Caetano, olhar a Lua, atravessar de barquinho. E à noite nós tentávamos, assim, ver absolutamente tudo que existia na cidade de arte.

CAETANO

Havia uma efervescência muito grande, tanto cultural quanto política. E eu vivenciei aquilo com muita intensidade.

TOM ZÉ

Na nossa universidade tinha um reitor chamado Edgard Santos, que gostava de arte. E então, na Bahia, tinha escola de arte sofisticadíssimas.

TOM ZÉ

Veja, um país pobre, um estado pobre, onde gente morria de fome, tinha uma das melhores escolas de música do mundo. E eu, por descuido, acabei recebendo uma bolsa. Alguém botou um fundo sonoro. Ah, eu tenho horror a fundo sonoro. Eu não ouço bem quando a pessoa tá falando, que tem fundo sonoro. Um dia, meu primo Roberto Sant’Ana, quando ele me disse: “Você vai cantar um programa de calouro que tinha na Bahia chamado Escada para o Sucesso”. Aí entrei, mas,

menina, foi um verdadeiro arromba porque, na primeira gag que tinha, a plateia sorriu. Eu falei: “ganhei a noite”. Cantei tudo, quando acabei era uma festa na Bahia, e eu aí virei artist nesse dia.

CAETANO

Eu conhecia Gil da televisão. O Gil era meu ídolo na televisão. Não, o Gil tocava.

GILBERTO GIL

Eu tocava e cantava já, aos sábados.

CAETANO

Ele tocavaa as harmonias de Bossa Nova.

GIL

Aos sábados, no programa do Jorge Santos, Show dos Novos, que era um programa como Sílvio Santos.

CAETANO

Ficava a tarde toda, com várias sessões. Você era uma das sessões.

GIL

Eu era umas das sessões.

CAETANO

E era a minha seção favorita.

CAETANO

Eu gostava tanto, minha mãe me chamava: “Caetano, venha ver aquele preto que você gosta”.

ROBERTO SANT’ANA

No meu bairro morava um sanfoneiro chamado Gilberto Gil. Edy Star começou a me convidar pra ir numa galeria no Politeama. “Tem um casal de Santo Amaro cantando divinamente”. Eu fui lá ver

nós, por exemplo… o show que uniu gil, caetano, bethânia, gal e tom zé

o casal eram dois irmãos: Bethânia e Caetano.

CAETANO

Eu vim andando pela Rua Chile, perto da Farmácia Chile, aí o Roberto Sant’Ana vinha com o Gil e me chamou, me apresentou ao Gil. Eu fiquei assim, intimidado, achei que eu ia ficar tímido, mas o Gil todo logo comunicativo, todo alegre. Ele me disse que gostou de mim imediatamente, mas eu já gostava dele.

TOM ZÉ

Então, aí o Lona, o Senna, que era assistente de direção, veio falar comigo que eu precisava conhecer o Gil, precisava conhecer o Caetano. E realmente ele falava isso também com Gil e com Caetano, e um belo dia nós começamos a nos encontrar.

GAL COSTA

Eu conheci o Caetano através da televisão local da Bahia. Tinha um programa do Carlos Coqueijo, um programa de música que Caetano cantava algumas canções dele, Bethânia cantava, Gil cantou algumas vezes. Enfim, o pessoal de música ali da Bahia fez aquele programa naquela época.

CARLOS COQUEIJO

Eu sempre fui músico a vida inteira me dediquei a tocar instrumentos: violino, violão, piano. Escrevi crítica musical, escrevi peça musical, escrevi, dirigi programas musicais de televisão na Bahia.

CAETANO

E um pouco depois, já em 64, Maria Laís, que era uma das meninas da Escola de Dança, me disse que tinha uma menina que era vizinha de uma aluna dela na Escola de Dança, que cantava divinamente bem, que eu tinha que ouvir, que ela

cantava como eu gostava, porque eu gostava de João Gilberto e gostava de Gil. Ela me levou na Escola de Dança, me apresentou a Dedé pra Dedé marcar um encontro comigo pra eu conhecer Gal. Eu aí gostei da Dedé, deu vontade de namorar a Dedé, gostei da cara, achei ela linda e com jeito.

GAL

Então Laisinha achou por bem marcar esse encontro com Caetano, e falou com Caetano. Caetano foi, na Bazarte. E eu fui. Ele disse que até foi meio desanimado, ele me contou, porque a Laisinha já tinha apresentado duas garotas que cantavam lá na Bahia e ele não tinha gostado muito, não tinha se entusiasmado muito. Então ele foi meio assim. E chegou lá, eu comecei a cantar, eu comecei a cantar uma música chamada “Vagamente”. Levei meu violão, cantei pra ele e ele gostou muito. E ele ouviu aquilo e virou para mim e fez a seguinte pergunta: “Pra você quem é o maior cantor do Brasil”? Eu falei: “João Gilberto”. E ele disse: “Eu também acho”. Aí pegou o violão e me ensinou uma música dele.

Ouvimos a música “Sim, foi você”, cantada por Gal Costa

CAETANO

Eu me lembro do dia que eu comecei a namorar Dedé e você adivinhou. “Você começou a namorar aquela menina, não é? Tô vendo na sua cara”.

Gilberto Gil dá risada

GILBERTO GIL

Tô vendo na sua cara.

CAETANO

Na Biklou, de noite, eu voltei da Graça, você

tava na Biklou, a gente se encontrou, eu fiquei conversando, Você disse: “Mas você tá com uma alegria, você começou a namorar aquela menina”?

GAL

E um dia, nas noitadas da Bahia, eu tava com Caetano, com Bethânia, todo mundo, encontrei o Gil numa churrascaria chamada Biklou. Aí o Gil veio e eu, quando vi Gil, assim, eu saí correndo, tipo fã, assim, dei um abraço nele.

GIL

Eu conheci Caetano, digamos assim, numa semana, e duas semanas depois, três semanas depois eu já tava conhecendo a Gal. E logo em seguida nos tornamos uma turma. Passamos a viver os fins de semana, saíamos pra beber Malzbier e coisas assim, em Salvador.

TOM ZÉ

Nós aí íamos à praia, Caetano, Gil. Íamos à praia a pé dali, que dali é longe, mas se vai a pé. E na volta às vezes almoçava na casa da Gal, dormia lá depois do almoço, todo mundo na sala, aquele negócio de sono depois do almoço e tal.

BETHÂNIA

E esse grupo tinha uma liberdade e uma irmandade muito bonita, inesquecível. Acho que uma fonte, um início de vida artística deslumbrante.

1964, POR EXEMPLO…

GIL

O prospecto era o pior possível. Nós estávamos, enfim, na chegada da ditadura. A expectativa era de dificuldades muito grandes, que acabaram se comprovando verdadeiras, né?

CAETANO

Eu fiz dois anos, menos de dois anos, na Faculdade de Filosofia, mas em 1964, com o golpe militar, eu abandonei a faculdade.

TOM ZÉ

No momento exato, eu era diretor do Departamento de Música do CPC na Bahia. Eu tive a curiosidade de ir no CPC de manhã e de longe já se via que tinha um caminhão do exército e os soldados jogando o material do CPC e as coisas todas dentro do caminhão, como quem joga assim lixo pra cima.

Ouvimos “Maria Tristeza”, cantada por Gilberto Gil

ORLANDO SENNA

Quando aconteceu o golpe militar de 1964, o ovo da serpente da ditadura, eu ainda morava na casa de meus pais, eu e meu irmão, minha irmã. E o outro fato foi que acabamos com esse negócio de esconder porque vimos que não adiantava nada, foi um telefonema de uma pessoa que tava fazendo esses telefonemas toda hora pra minha mãe, com o seguinte teor: “A senhora tem um filho chamado Orlando? Ele tem uma namorada assim assim? Ele tem um Jeep”? “Tem, tem, tem, o que foi”? “Ele acaba de ser fuzilado na saída de Salvador”.

ORLANDO

Eu estive comparecendo ao quartel da Sexta Região Militar em Salvador durante 36 dias seguidos. Tinha de me apresentar às 06h30 da manhã, sem saber que hora eu deveria ir embora. Desses 36 dias seguidos, inclusive sábado e domingo, metade foram de interrogatórios, enormes, longos interrogatórios e outra metade

era não fazer nada, era ficar sentado num banco lá do quartel e eu era liberado sempre a partir de meia noite, nunca antes da meia noite.

TOM ZÉ

Primeiro, eu ia voltar pra Irará quando a ditadura se instalou porque meu emprego era o emprego que o Partido Comunista pagava. Eu era diretor musical do CPC. Quando a ditadura estourou, eu tinha que voltar pra Irará porque não tinha condições de ter emprego, o partido acabou, o CPC acabou, tudo. E nisso o diretor da escola mandou me chamar. Ora, eu só fui chamado por diretor de escola pra receber suspensão, reprimenda e tal. Nesse dia que o professor Widmer me chamou, ele me perguntou: “Você vai embora”? “Vou porque não tenho condições de viver aqui na Bahia”. “E se eu lhe desse uma bolsa”? Rapaz, eu pensava em ouvir tudo, uma bolsa? Eu era um analfabeto.

Continuamos ouvindo “Maria Tristeza”, cantada por Gilberto Gil

O SHOW, POR EXEMPLO…

ROBERTO

Um belo dia, João Augusto, diretor de Vila Velha, vira pra mim e diz assim: “Olha, a peça que eu estou ensaiando para estrear o teatro, inaugurar o teatro, não vai ficar pronta a tempo. Você poderia montar um show com sua turma”. Eu digo: “Olha, eu vou conversar com eles”. Aí fui, falei na casa, na varanda da casa de Maria Muniz, no Boulevard Suíço. E lá, resolveu-se: vamos fazer. Como é o nome do grupo? Aí Caetano, ousadamente, disse “Nós, por exemplo…”.

TOM ZÉ

Eu perguntei a alguém, como vocês tão aí agora.

Tava Bethânia, Gil, Gal, Caetano. Caetano não tava nessa hora. Eu disse assim: “Como é o nome desse show? Aí alguém me disse ‘Nós, por exemplo…’”. Eu tomei um choque, rapaz. Veja, o nome de um show de meia dúzia de cara da Bahia, que se chamava “Nós, por exemplo…”, caramba! Imediatamente eu soube que aquilo era do Caetano porque eu tinha visto outros procedimentos dele, que ele se punha no mundo como habitante do planeta Terra também.

ROBERTO

Mas nós não somos exemplo de nada, rapaz, ainda. “Nós, por exemplo…”; “Nós, por exemplo…” e ganhou “Nós, por exemplo…”, ficou “Nós, por exemplo…”.

ORLANDO

É o primeiro show que era de todo mundo junto, era Gil, Caetano, Tom Zé, Gal, Bethânia e mais outros, Alcyvando Luz, Perna Fróes. Eram oito, né? Fernando Lona.

CAETANO

“Nós, por exemplo…” foi o nome do show, do primeiro show que a gente fez na Bahia. Em conjunto, o grupo formado, quer dizer, não como se fosse um conjunto vocal ou um grupo, mas um grupo de compositores e cantores e instrumentistas. Contou com as participações de Maria Bethânia, Gal Costa, Gilberto Gil, ao se Alcyvando Luz, Tom Zé, Perna Fróes e Djalma Corrêa, além de mim. Djalma Corrêa, Djalma Corrêa totalmente, desde o primeiro show.

DJALMA CORRÊA

“Nós, por exemplo…”? “Nós, por exemplo…” é 1964, Teatro Vila Velha inaugurando. Eu era baterista, mas eu tava metido também com composição,

música eletrônica. E eu me lembro que nesse show, que era uma coisa assim tão aberta, e eu fiz uma peça de música eletrônica. Chamava “Bossa 2000 DC”, Bossa 2000 depois de Cristo.

DJALMA CORRÊA

(áudio original do show “Nós, por exemplo…”) Boa noite. Eu tentei, da última vez, fazer uma experiência de uma montagem de música eletrônica pra solo de bateria. Foi negócio, assim, meio ousado, muito ousado da minha parte, e não funcionou, inclusive o som. Eu vou ousar mais uma vez, vou repetir a coisa, espero que o som dessa vez funcione.

Ouvimos “Bossa 2000 D.C.”, executada por Djalma Corrêa. Áudio original do show “Nós, por exemplo…”

PERNA FRÓES

Ele tem as gravações do “Nós, por exemplo…”. E ele gravou um monte dessas coisas, entendeu? Foi gravar coisa do “Nós, por exemplo…”. Procure lá, com ele, que você vai encontrar muita coisa.

DJALMA

Isso tá gravado de uma maneira tão, tão viva. Esse material, de certa forma, eu mantive ele, vamos dizer assim, em segredo. Eles nunca ouviram essa gravação. Eles sabem que eu tenho. Então é esse tipo de material que faz parte do meu acervo. Tá lá, mas tá lá pra gente falar e ver o que quu é possível fazer. Se alguém se interesse em fazer um curta, um média. E aquela coisa bem íntima, como é a intimidade desse show, que é uma coisa, assim, maravilhosa.

Ouvimos “Tema de Candomblé”, executada por Perna Fróes

CAETANO

E foi mais ou menos organizado por Roberto Sant’Ana, que se responsabilizava um pouco pela organização de produção disso. Eu fazia o roteiro e dava as idéias. Fizemos esse primeiro e depois fizemos um outro que se chamava “Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova”, em que a gente fazia um pouco isso que na verdade o João Gilberto fez desde o primeiro disco, né?

BETHÂNIA

Porque era um show de Bossa Nova, não era um show de Música Popular Brasileira, era um show de Bossa Nova. Os meninos eram, os meninos são Caetano e Gil. Eles eram loucos, loucos por Bossa Nova e queriam aprender, seguiam e tal. Compunham também já naquele estilo. Então, Gal era cantora. E eu falava assim: “Eu não sei cantar esse negócio, não é minha praia. Não vou me dar bem com negócio de Bossa Nova, não. Eu quero cantar Noel Rosa, que eu adoro”.

CAETANO

Eu posso até dizer, sem modéstia, nós todos causamos um impacto no público de Salvador, que foi, que lotou o Teatro Vila Velha nesse dia do “Nós, por exemplo…”. A questão é que as pessoas ovacionaram, o impacto que a gente causou nessas pessoas foi muito grande. E na cidade de Salvador todo mundo ficou falando nisso durante muito tempo. Foi uma coisa, assim, muito impressionante.

Ouvimos os aplausos do público. Áudio original do show “Nós, por exemplo…”

TOM ZÉ

E era lindo a gente cantar naquele Teatro Vila Velha. Nós todos jovens e a gente descobrindo

que a gente podia falar com as pessoas, que as pessoas reagiam com alegria ao que a gente dizia. Era uma verdadeira descoberta, assim, gostosa.

Ouvimos “Acarajé”, cantada pelo conjunto. Áudio original do show “Nós, por exemplo…”

GAL

E foi a primeira vez que eu pisei num palco na minha vida assim, com o público na minha frente. E eu cantei “Se é tarde, me perdoa” e outras músicas mais. Foi maravilhoso, inacreditável.

TOM ZÉ Ah, Gal.

GAL

Ah, eu me lembro disso. “Se é tarde me perdoa”, né? Então, eu tinha ensaiado um tom com Gil tocando violão. Gil que me acompanhava. E ele dava um acorde que tinha um ré na última nota. Eu entrei em ré. Era um tom que na época era muito agudo, eu não me lembro. Eu sei que era um tom.

TOM ZÉ

Uma quarta acima. Foi ensaiado em dó, ele aí deu um dó com sétima, você pensou que era dominante, aí entrou em fá, e aí cantou uma quarta acima a música toda, que ninguém podia acreditar.

GAL

E nem eu podia acreditar. Porque eu tava tão nervosa assim, ansiosa, a primeira vez. E eu cantei tudo assim, a minha voz num agudo que eu realmente não sei como eu consegui cantar.

GAL

“Sol Negro” foi uma música que Caetano fez para

esse show, no Teatro Vila Velha, pra Bethânia e eu cantarmos juntas. Ele pensou no registo grave de Bethânia e na minha voz aguda. Então ele fez pra duas regiões. É um lamento, são mulheres de pescadores que lamentam a ida dos maridos, dos seus homens pro mar. E começava com Bethânia numa ponta do palco e eu na outra. Bethânia começava cantando, Caetano no centro com o violão, me lembro perfeitamente. E Bethânia iniciava a canção, eu cantava a minha parte depois dela e depois nós cantávamos juntos. Os cantos se entrelaçam, eles se interpõem.

BETHÂNIA

Caetano já via em mim bem a tragédia grega, a dramaticidade.

CAETANO

E a Bethânia, o mesmo impacto que você sabe que ela causou no Brasil, imediatamente ela causou no primeiro show.

Ouvimos a música “Sol Negro”, cantada por Maria Bethânia

BETHÂNIA

Nós fizemos vestidos iguais, de linho, tubinho. O meu era branco, o dela era preto. Gal adoro vestir preto e eu adoro vestir branco.

Ouvimos a música “Sol Negro”, cantada por Gal Costa

BETHÂNIA

Eu me lembro que fiz, pra a nossa estreia, eu fiz um girassol de cobre. E era o único enfeite que usávamos aqui no peito. Ela e eu, com o mesmo modelo, ela preto e eu branco.

Ouvimos a música “Sol Negro”, cantada por Gal Costa e Maria Bethânia

Ouvimos a música “Clever Boy Samba”, cantada por Caetano Veloso

CAETANO

Eu fiz uma canção que era essa, que era uma gozação com os garotos de Salvador, assim. E é engraçado que tem o nome do pai do Glauber nessa canção, que se chamava Seu Adamastor e tinha uma loja chamada O Adamastor. Eu não sabia que ele era pai do Glauber.

Ouvimos a música “Clever Boy Samba”, cantada por Caetano Veloso

CAETANO

Que era o ponto na Rua Chile onde ficavam boyzinhos da Bahia.

Ouvimos a música “Clever Boy Samba”, cantada por Caetano Veloso

CAETANO

Era isso, é muito engraçado.

TOM ZÉ

E veja bem, Caetano e Gil me aceitaram pra ficar junto deles porque eu era muito diferente. Me aceitaram pela diferença, não éramos parecidos. Eu nunca fui um artista fino e sofisticado como eles sempre foram, que podiam fazer Bossa Nova, como eles faziam. Eu fazia aquela coisa bárbara que muita gente dizia, que muita até dizia: “O que é que você está fazendo junto deles”? Como quem diz: “Você não é digno de estar junto de artistas tão…”. Quando fizemos o “Nós, por exemplo…”, “Velha Bossa Nova, Nova Bossa Velha” e tal.

Ouvimos a música “A Moreninha”, cantada por Gilberto Gil

TOM ZÉ

Ah, e tem mais uma coisa que eu devo acrescentar: quando eu fazia “Maria do Colégio da Bahia” e outras canções no tempo que nós começamos juntos, o Gil dizia assim: “Isso é uma coisa sem tempo”.

Ouvimos a música “Maria do Colégio da Bahia”, cantada por Tom Zé

CAETANO

Eu fiz essa música, “É de manhã”, em 1963, 64, no máximo. Eu era novinho. Cara, essa música foi a primeira gravada. A Bethânia veio pro Rio, já gravou ela, depois o Simonal logo gravou, foi o segundo a gravar. Logo gostou, gravou. As pessoas gostaram dessa música, eu fiquei surpreso. E depois a Elizeth Cardoso gravou. Poxa vida, eu não tô nem acreditando.

Ouvimos a música “É de manhã”, cantada por Maria Bethânia

ROBERTO

Um mês depois, ensaiando pra outro show, “Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova, com direção do Caetano, Carlos Coqueiro Costa, que também era compositor, levou pra nos visitar Nara Leão. Ela ficou lá, a gente ensaiando e tal. Depois saímos, fomos jantar numa casa de lanches ali chamada Manon, sanduíchinho, ninguém tinha dinheiro. Quinze dias depois, chegou o chamado pra Bethânia substituir Nara Leão no show “Opinião”.

BETHÂNIA

Bom, mas desembarquei no Rio de Janeiro às

11h da manhã e tínhamos que ir para o Teatro Opinião. Caetano falou: “Vamos pegar um táxi e vamos para o teatro”. Aí pintamos no táxi. Quando chegamos no teatro, o táxi foi exatamente o valor que nós tínhamos no bolso.

SAUDADES, POR EXEMPLO…

Ouvimos a música “Felicidade vem depois”, cantada por Gilberto Gil.

GIL

Fazia anos que eu tava tentando lembrar essa música.

PERNA Você gravou, rapaz.

GIL

Não gravei, não. Quem lhe disse que eu gravei?

PERNA É, eu tenho uma gravação.

GIL

Você deve ter porque eu cantava lá. Mas não gravei, não. É, como é que é? É “Felicidade vem depois”. E era bem Bossa Nova pura, bem ali naquele mundo.

BETHÂNIA

Acho que é impossível se repetir aquilo, entende? Eu não posso ver, no mundo de hoje, aquele núcleo tão vivo, tão quente, tão amoroso e tão despretensioso. E assim, e amigável. Era muito feliz, era muito feliz.

GIL

Éramos jovens, todos, impetuosos, sonhadores,

felizes e cheios de energia. Então é uma época que me traz recordações maravilhosas, né?

BETHÂNIA

Era muito solto, era muito livre, era muito encantado. Era uma delícia, você não pode calcular.

Ouvimos a música “Saudade sem nome”, cantada por Fernando Lona.

DJALMA

Aconteceu de ter um grupinho que a gente se encontrava sempre, mas sem nenhuma intenção, nunca houve nenhuma intenção, assim, de show. Que era Gil, que tocava sanfona, Caetano tocando violão, as composiçõeszinhas dele legais, assim, as primeiras composições de Caetano. Gal, que chamava Maria da Graça. A gente se encontrava sempre. Então era aquela coisa gostosa de tocar e cantar, aquela coisa bem, bem despretensiosa, né?

ROBERTO

Mas ali eu formei um grupo pra ouvir e estudar um movimento musical importantíssimo para a cultura brasileira, nascida de um violão de um baiano de Juazeiro chamado João Gilberto, a Bossa Nova. E nós, todos duros, nos cotizávamos pra comprar um disco de Sérgio Ricardo, um disco de Carlos Lyra, um disco do Vinicius, do Tom, enfim, Chico Feitosa e etc.

BETHÂNIA

E essa coisa sem compromisso, era compartilhar, a gente ouvia uma música que alguém assoviava, ouvia no rádio. A gente ficava louco pra encontrar, pra mostrar, pra dizer e pra o Gil traduzir aquilo em acordes e o Caetano dar opiniões. Então era

uma escola, eu acho que a escola mais saborosa de se estudar.

MARIA MONIZ

Eu já conhecia Caetano e Bethânia de meninos aqui da rua, garotos, né? Quando Álvaro montou a peça Boca de Ouro, Bethânia cantava e off, no palco. Caetano acompanhava Bethânia pra ele não vir sozinha pra cá, nem nada. Quando acabava o espetáculo, nós vinhamos praqui pra nos divertir um pouco, aqui para casa, depois do espetáculo. E aí rolava sopa e batidas e tudo, entendeu? Sopa de ervilha, de legume, de lentilha. Aí já veio logo Bethânia, Lona e Caetano. Aí Caetano encontrou Gil. Aí depois veio o Tom Zé, aí foi vindo Alcyvando Luz, Perna Fróes.

TOM ZÉ

Porque existia, naquele tempo, grupos que tavam chocando a Bossa Nova. Um no Rio de Janeiro, outro em São Paulo. E dizer “Nós, por exemplo…” eranos incluir naquilo tudo. Parecia uma pretensão imensa, e ele tinha toda razão.

GAL

Ainda estava em Salvador, não tinha saído de Salvador, morava lá ainda, e Caymmi fez um show na boate do Hotel da Bahia, em Salvador. E eu fui com Caetano, fomos nós dois só. E eu assisti o show. Aí depois, Caymmi, ao sair da boate, nós esperamos e ficamos conversando com ele. Caetano, eu e ele de noite, conversando, assim. Foi um encantamento.

GIL

Minha iniciação no Rock n Roll foi com os Beatles. Só chegou para mim quando eu vi “I want to hold your hand” tocando, eu passando, descendo de bonde a Ladeira da Praça, 64, loja de disco. “I want

to hold your hand, I want to hold your hand, mas o que é isso”? Som alucinante. Aí foi que a história, mais um som alucinante, me pegou. E foi aí, foi 64.

BETHÂNIA

Violão, o Gil começou a me ensinar violão. Mas eu era muito deslumbrada, eu sentia uma capacidade infindável, assim, musical nele. Eu gostava tanto, eu admirava tanto, que eu tinha para mim que ele era meu namorado.

Ouvimos a música “Maria (Me perdoe, Maria”, cantada por Gilberto Gil

CAETANO

Salvador, Salvador me ensinou. Cidade da Bahia. Muita coisa, o que eu vivi aqui a partir dos 18 anos, numa época em que a gente, em qualquer lugar, tem que aprender muito. E a Bahia é realmente uma cidade muito concentrada, uma cidade que tem muito caráter.

BETHÂNIA

Você imagina, nesse momento, nós saindo do interior, os dois do interior para Salvador e a vida mudando ali, formando a gente daquele jeito, quando a Bahia era o esplendor do Brasil artisticamente.

GIL

Ainda tô nessa situação até hoje, indo da Bahia pro mundo e voltando do mundo pra Bahia.

TOM ZÉ

Eu nunca escolhi isso, rapaz, eu nunca escolhi porque em qualquer cidade eu era infeliz. Quando o reitor Edgar Santos, que foi um homem que abriu a Bahia, até hoje a Bahia deve a ele coisas em impagáveis. Impagáveis significa outra coisa,

né? Mas tudo bem.

CAETANO

Eu devo a base intelectual da minha vida a essa experiência na Salvador do período áureo da Universidade da Bahia.

GIL

A gente tinha isso tudo aqui na Bahia.

CAETANO

Você é um retórico, né?

GIL

É, exatamente, eu sou uma figura de retórica. Eu sou a frase de um discurso de paraninfia.

CAETANO

O que faz de você ainda mais baiano.

GIL

Da turma de bacharelandos da Universidade da Bahia.

CAETANO

Quando eu conheci logo você, a gente ficou, naqueles anos, em 63, 64, 65, a gente tinha muita convivência e companheirismo.

GIL

Tanto é que eu deixei de ir pro Estados Unidos, fazer o pós-graduação de administração de empresa porque vocês foram pra São Paulo?

BETHÂNIA

Gil, aquele disco funcionou em algum lugar, do “Nós, por exemplo.”? Que eu queria ouvir.

GIL

Aquilo é de computador.

BETHÂNIA

Ah, tá bom.

GIL

É no computadorzinho que funciona.

GAL

E eu me lembro que eu tava um dia com eles, ali em Nazaré, eu tava morrendo de fome.

CAETANO

Mas saí daqui tendo realizado uns espetáculos aqui, com músicas compostas.

GIL

Primeiro porque Carlos Coqueijo não ia inventar isso da cabeça dele. Segundo, porque eu sou chorão mesmo.

MARIA

Depois de algum tempo que já tava todo mundo cantando, Carlos Coqueijo Costa já tinha…

ROBERTO

De repente, a juventude na época estava sedenta de ouvir algumas novidades, que a Bahia produzisse alguma coisa.

TOM ZÉ

E eu sempre disse que Roberto manda em qualquer lugar do mundo.

DJALMA

Todo brasileiro é um percussionista nato.

CAETANO

Esse aqui é o Teatro Vila Velha.

GAL

Uma pessoa extremamente tímida como eu era.

CAETANO

Aqui na Bahia, antes da gente sair.

BETHÂNIA

E eu tinha saudade, um pouco, daquele tempo na Bahia quando fazíamos juntos.

PERNA

Eu quero falar com vocês! Agora, também, eu vou mostrar o resultado desse estudo que eu fiz.

GAL

Eu resolvi tomar uma cerveja pra matar a fome.

CAETANO Berré.

BETHÂNIA

Hein? É o Djalma, é o Djalma.

Ouvimos a música “Nós, por exemplo”, cantada pelos Doces Bárbaros.

Ouvimos um trecho original do show “Nós, por exemplo…”

DJALMA

Eu sou Djalma Corrêa.

ALCYVANDO LUZ

Eu sou Alcyvando Luz.

PERNA

Eu sou Antonio Renato.

GAL

Eu sou Maria da Graça.

GIL

Eu sou Gilberto Gil.

CAETANO

Eu sou Caetano Veloso.

BETHÂNIA

Eu sou Maria Bethânia.

TOM ZÉ

Eu sou Antonio José.

Ouvimos a música “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas”, cantada por Caetano Veloso. Áudio original do show “Nós, por exemplo…”

frame mostrando Perna Fróes em cena do filme “Meteorango Kid”, 1969, com legendas do documentário “Nós, por exemplo... O Show que uniu Gil, Caetano, Bethânia, Gal e Tom Zé”.

frame do documentário “Nós, por exemplo... O Show que uniu Gil, Caetano, Bethânia, Gal e Tom Zé” mostrando a dançarina Maria Laís Salgado. Memorial de Dança da UFBA.

frame do documentário “Nós, por exemplo... O Show que uniu Gil, Caetano, Bethânia, Gal e Tom Zé” mostrando o baterista e percussionista Djalma Corrêa.

frame do documentário “Nós, por exemplo... O Show que uniu Gil, Caetano, Bethânia, Gal e Tom Zé” mostrando o letreiro do título.

frame do trailer do documentário “Nós, por exemplo... O Show que uniu Gil, Caetano, Bethânia, Gal e Tom Zé” mostrando foto de Gilberto Gil e Caetano Veloso ensaiando no Teatro Vila Velha, 1964. [Orlando Senna] - Acervo Orlando Senna e Conceição Senna.

provocações abertas

sobre lucas fróes

nós, por exemplo… o show que uniu gil, caetano, bethânia, gal e tom zé

Lucas Fróes é formado em Comunicação Social pela UFBA. Já colaborou com publicações nos jornais “A Tarde” e “Correio”, além de “Folha de S.Paulo”, “DW Brasil” e “BBC News Brasil”, entre outros. Autor dos vídeos “Cinema Velho” e “Setaro 64”. Idealizador da página cartaz100.com, exposição virtual dos trabalhos de seu avô Renato Fróes, cartazista de anúncios de cinemas. Durante o projeto, percebi que a turma que fez o o show “Nós, por exemplo...”, no Teatro Vila Velha era como uma extensão do Centro Popular de Cultura da UNE que, àquela altura, havia sido fechado pela ditadura militar.

FICHATÉCNICA

“Provocações Abertas” é parte das ações do projeto “TEMPO: Disseminação Cultural e Inclusão social no Teatro Vila Velha”, projeto 21.792, que tem a parceria da Fundação Banco do Brasil.

coordenação geral do projeto TEMPO: WILSON CHAVES DE FRANÇA

FICHA TÉCNICA TEATRO VILA VELHA

diretor artístico: MARCIO MEIRELLES coordenadora de projetos institucionais: CRISTINA CASTRO gestor de projetos: HUGO BASTOS coordenadora financeira: VÂNIA PAIXÃO diretor de planejamento e gestão: SERGIO ROTH analista administrativo financeiro: HELENA PEIXOTO MEIRELLES gerência operacional: MENIKY MARLA coordenadora de produção: CLARA TORRES produtora: ANA CLARA VERAS assistente de produção: PÂMELA MALTA técnico de iluminação: MARCOS DEDÊ cenotécnico: JOILSON BATISTA técnico de som: THIAGO VINÍCIUS núcleo de formação: CHICA CARELLI núcleo audiovisual: RAFAEL GRILO coordenadora de comunicação: DIANDRA ROCHA assessor de imprensa: ARLON SOUZA social media: JEAN TEIXEIRA diretor de arte: RAMON GONÇALVES produtora do acervo: MILENA NASCIMENTO editora de conteúdo e memória: GABRIELA WENZEL

gestão do teatro vila velha: SOL - MOVIMENTO DA CENA presidente: HUGO BASTOS vice-presidente: VÂNIA PAIXÃO

o teatro vila velha foi construído e é mantido pela SOCIEDADE TEATRO DOS NOVOS sócios: MARCIO MEIRELLES e SONIA ROBATTO

o Teatro Vila Velha tem apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia.

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
NÓS, POR EXEMPLO | Provocações Abertas Vol 5 by Teatro Vila Velha - Issuu