D a d o s I n t e r n a c i o n a i s d e C a t a l o g a ç ã o n a P u b l i c a ç ã o ( C I P )
( C â m a r a B r a s i l e i r a d o L i v r o , S P , B r a s i l )
C a d e r n o s d o v i l a : o t e a t r o d e C a b o a R a b o : d o
v i l a p a r a o i n t e r i o r e v i c e v e r s a [ l i v r o
e l e t r ô n i c o ] : c a d e r n o s d o v i l a / o r g a n i z a ç ã o
M a r c i o M e i r e l l e s . - - 2 . e d . - - S a l v a d o r , B A :
T e a t r o V i l a V e l h a , 2 0 2 5 . - - ( C a d e r n o s d o v i l a ; 3 )
P D F
I S B N 9 7 8 - 6 5 - 83 5 3 4 - 0 4 - 0
1 . A r t e s c ê n i c a s 2 . C r i a t i v i d a d e ( L i t e r á r i a ,
a r t í s t i c a , e t c ) 3 . D r a m a t u r g i a 4 . T e a t r o b r a s i l e i r o
I . M e i r e l l e s , M a r c i o . I I . S é r i e .
2 5 - 3 1 8 3 8 1 . 0 C D D - 7 9 2 . 0 2 6
Í n d i c e s p a r a c a t á l o g o s i s t e m á t i c o :
1 . T e a t r o : A r t e s d a r e p r e s e n t a ç ã o 7 9 2 . 0 2 6
M a r i a A l i c e F e r r e i r a - B i b l i o t e c á r i a - C R B - 8 / 7 9 6 4
O TEATRO
QUE VEM DO INTERIOR (TEATRO DE CABO A RABO)
Relançar Teatro de Cabo a Rabo [Ano I e Ano II] é abrir novamente um livro que não termina: um livro feito de vozes, travessias, risos e silêncios. É voltar a um corpo em movimento, o corpo múltiplo do teatro baiano que, desde o interior, inventa mundos mais possíveis, de um teatro que nasce longe dos grandes centros, mas que pulsa com a mesma frequência e vitalidade, ou talvez com ainda mais urgência, nas cidades, distritos e povoados da Bahia. É reconhecer o vigor criativo do interior, onde a cena também se faz com o que se tem à mão: ruas, becos, escolas, estradas, praças, o corpo, a palavra, e acima de tudo, o desejo de estar junto em coletivo.
Ao relançar Teatro de Cabo a Rabo, rea�rma�se a necessidade de olhar para esse território com a atenção que merece. O interior não é o “fora” da cena, mas é nele que a teatralidade pulsa, se faz carne, que a arte e a vida voltam a se confundir. Relançar essas o�ras é rea�rmar a import�ncia de descentrali�ar o olhar e valorizar a potência criadora das cidades do interior, celebrar o teatro como modo de vida, como exercício de imaginação e de pertencimento. E é desse chão do interior, que o livro se ergue outra vez para lembrar que o teatro é sempre encontro. Encontro com o outro, com a terra, com a palavra, com o gesto, corpo contra corpo. Encontro com a própria ideia de comunidade.
Esse livro reúne anos de práticas, de espetáculos, de encontros que se deram em cidades de nomes sonoros e luminosos. Ano I [2002]: Senhor do �on�m, Ita�una, Feira de Santana, �itória da Conquista e Ilhéus. Ano II [2003]: Santo Antônio de Jesus, São Francisco do Conde e Santo Amaro e em tantos outros lugares onde o palco se ergue na pra�a, o �gurino é costurado � m�o, a iluminação vem do poste, e o público são os vizinhos, amigos, crianças, passantes.
Em suas páginas estão ecos de grupos que marcaram e muitos continuam a marcar o território cultural da Bahia. Ano I [2002]: Teatro Popular de Ilhéus, Nós nas Tripas, Companhia de Teatro Amador Disfarce, Cia. de Teatro Teatrelados, Cia. P afatac. Ano II [2003]: Bando de Teatro Municipal, Grupo Teatral São Ben’Arte, Grupo Teatral Energia Solar, entre tantos outros igualmente pulsantes.

O teatro do interior, aqui, não é sinônimo de ausência ou carência. É presença. Modo de ser e estar. Nasce do chão, da terra, do corpo que dança e pensa, do gesto que reinventa o espaço. É um teatro que se mistura à vida, que transforma o cotidiano em fábula e improviso em linguagem. É, como dizia Peter Brook, o teatro essencial, aquele que precisa apenas de um ator, um espectador e um espaço para que o acontecimento se realize e evoca o percurso inteiro, a entrega total. E é isso que o teatro do interior da Bahia tem feito: atravessar o tempo de ponta a ponta, reinventando-se a cada geração, a cada grupo, a cada cidade que decide fazer da cena uma forma de dizer “estamos aqui”. Esse livro é testemunho de como o Teatro Vila Velha tem participado dessa travessia de artistas, que tecem com as próprias mãos as condições de sua arte, e de grupos que criam coletivamente, pesquisam, formam público, formam pessoas.
Há uma sabedoria em tudo isso. O teatro do interior nos ensina que criar é, também, rebelar-se. Que a arte não se faz apenas onde há estrutura, mas onde há vontade, desejo. Que o ensaio é tão importante quanto a estreia, e que a sala improvisada pode conter mais verdades que o palco equipado. Que o riso e o choro são matérias igualmente políticas. Em cada página, a força do fazer coletivo: companhias que se sustentam na partilha, criadores que pesquisam suas memórias, artistas que transformam o cotidiano em matéria poética, cr�tica e inventiva, ocupando espaços, desa�ando as barreiras e transformando o que é limite em matéria de criação.
Depois daqueles primeiros momentos, houve um longo hiato de quase quinze anos, acrescido de um tempo de silênci o imposto pela pandemia de covid 19 em que, de repente, o ges to que sempre foi de encontro precisou recuar, o corpo pre cisou se afastar. As praças se esvaziaram, os palcos se fech aram, os ensaios foram suspensos. Mas no teatro, esse ofício da presença continuou de outra forma. O intervalo forçado revel ou ainda mais o quanto o encontro é vital. Por isso, durante o período da pandemia, em 2021 e em 2022 retomamos o projeto. Re tomamos o contato com os grupos que participaram das primei ras edições, conhecemos novos �rupos e �zemos juntos uma Mostra Virtual do Teatro de Cabo a Rabo.

2021: As Pelejas de Zezim Siriema e Baltazar na Feira (Grupo de Teatro Mistura/Ibotirama-BA), História de Axé (Terreiro de Asé Terra de Caboclo/Rio de Contas), Dia da Mentira (Companhia de Circo Pétalas ao Vento/Salvador), Zaizá e A História do Tear (Grupo Vira Toco/Rio de Contas), Músicas Para Amar Demais (Pipa Produções/Juazeiro), Toada Crianceira (Canastra Real: contos em cantos/Salvador), Gota D’Água (CIA. Baiana De Teatro Brasileiro/ Salvador), Revoada (Coletivo Trippé/Juazeiro), Jonas: Dentro do Grande Peixe (Coletivo Duo/Salvador), O Alento Mesmo (CircoLaSom/Vale do Capão), ASAS (O Coletivo 7/Ilhéus), “Quem Somos Nós?” (Vixe Companhia de Teatro/Salvador) e a websérie Memória do Teatro Baiano em Docudrama (Memória do Teatro da Bahia em Docudrama/Salvador) �zeram parte desse modo de fazer no qual não estávamos habituados, mas que era o possível para continuar.
2022: Ação Cênica ASAS/ As Pelejas de Zezim Siriema e Baltazar na Feira/ IntimIDADES/ Músicas Para Amar Demais/ Revoada/ Dia da Mentira/ Toada Crianceira: cancioneiro brincante da infância/ Leitura Dramatizada do texto “Quem Somos Nós?”/ Memória do Teatro da Bahia em Docudrama/ O Alento Mesmo/ Zaizá e a História do Tear.
E foi desse tempo de suspensão e de reencontro virtual que renasceu o impulso. Em 2025, retomamos o projeto Teatro de Cabo a Rabo presencialmente, com o apoio �nanceiro do Fundo de Cultura do Estado da Bahia, vinte anos depois, com uma mostra e uma homenagem aos 30 anos do Teatro Popular de Ilhéus, coletivo que participou do projeto em seu primeiro ano e que mantém viva a rebeldia e a reinvenção cotidiana de que o teatro se alimenta.
Que este relançamento seja, portanto, mais que uma celebração. Que seja uma reabertura de caminhos. Que inspire novas criações, novos vínculos, novos modos de estar juntos, porque o teatro que nasce do interior é, e sempre foi, um teatro que fala profundamente o que somos: um povo em movimento, em cena contínua, entre breques e arranques, mas continuando em invenção a todo vaporde cabo a rabo.