Skip to main content

A MULTIARTISTA MARIA MANUELA E O TEATRINHO CHIQUE-CHIQUE | Provocações Abertas Vol 6

Page 1


provocações abertas

A MULTIARTISTA MARIA MANUELA

E O TEATRINHO CHIQUE-CHIQUE:

poética, política e experiência teatral no vila

por débora de souza

centro de pesquisa e memória do teatro vila velha - nós, por exemplo vol.

provocações abertas

centro de pesquisa e memória do teatro vila velha - nós, por exemplo

ColeçãoProvocaçõesAbertas

Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha - Nós, Por exemplo | Vol. 6

pesquisa e concepção por DÉBORA DE SOUZA com a orientação de GIL MACIEL ROCHA

diretor artístico do centro de pesquisa e memória do teatro vila velha - nós, por exemplo: MARCIO MEIRELLES

coordenação geral do projeto TEMPO: WILSON FRANÇA

orientadores/as das provocações do acervo: ANA DUMAS, GIL MACIEL ROCHA E THIAGO ROMERO

pesquisadores/as das provocações do acervo: DÉBORA DE SOUZA, LUCAS FRÓES, DANIEL ARCADES, DENISE PEREIRA, HEWELIN FERNANDES, DAVID ALBARRACÍN C., CLARA CERQUEIRA E TÚLIO CARAPIÁ

produção executiva do acervo: MILENA NASCIMENTO

Colaboradores AC-DOC

diretora: ALINE CARVALHO

consultor de ti: ALAN BITTENCOURT arquivista supervisor: JOEMERSON SANTOS auxiliar de arquivo: ACATIA SANTOS auxiliar de arquivo: LINDINEI FERREIRA auxiliar de arquivo (estagiária): SAWARA SANTANA auxiliar de arquivo (estagiária): LAÍS CORREIA auxiliar de arquivo: TAÍS LOPES

Convênio UFBA

consultoria arquivística: MABEL MOTA consultoria arquivística: DEREK WARWICH

direção de arte: RAMON GONÇALVES

editora de conteúdo e memória: GABRIELA WENZEL

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Souza, Débora de A multiartista Maria Manuela e o Teatrinho Chique-chique [livro eletrônico] : poética, política e experiência teatral no Vila / Débora de Souza. -- Salvador, BA : Teatro Vila Velha, 2026. -- (Provocações abertas ; 6) PDF

ISBN 978-65-83534-13-2

1. Dramaturgia 2. Memória 3. Teatro de bonecos 4. Teatro - Brasil - História I. Título. II. Série. 26-363634.0

Índices para catálogo sistemático:

1. Teatro : Literatura brasileira B869.2 Eliane de Freitas Leite - Bibliotecária - CRB 8/8415

CDD-B869.2

A MULTIARTISTA MARIA MANUELA E O TEATRINHO CHIQUE-CHIQUE:

poética, política e experiência teatral no vila

por débora de souza

Provocações Abertas

Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha - Nós,Porexemplo

Vol.6

provocações abertas

provocações abertas primeira edição

nós, por exemplo… o show que uniu gil, caetano, bethânia, gal e tom zé

A coleção Provocações Abertas surge do desejo de movimentar o acervo do Teatro Vila Velha a partir de uma perspectiva inovadora e artística, adicionando às possibilidades de pesquisa na memória uma camada de inquietação. Movimento. E a rebeldia que é característica desse teatro construído há mais de 60 anos como um movimento cultural que questiona e impulsiona o pensamento para o futuro.

O Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha – Nós, Por Exemplo reúne mais de 200 mil documentos coletados ao longo da história do teatro. São registros que começam no início do século XX e se intensificam a partir da criação do Teatro dos Novos, em 1959, e atravessam décadas. Um conjunto construído por artistas e colaboradores que se preocuparam em registrar o presente para que outras gerações pudessem acessar o tempo de cada era do Vila.

Agora, em 2026, em vias da reabertura da sede do teatro – que se encontra em processo de reforma desde novembro de 2024 -, a coleção Provocações Abertas vem para celebrar e compartilhar com o público as pesquisas realizadas dentro do acervo durante o período de ocupação dos documentos na sede do Banco do Brasil, onde foram higienizados, catalogados por equipe técnica de acervo, e digitalizados, para serem compartilhados gratuitamente e online.

A possibilidade dessas pesquisas surge como fruto da parceria entre o Teatro Vila Velha e a Fundação Banco do Brasil, por meio do projeto TEMPO: Disseminação Cultural e Inclusão Social no Teatro Vila Velha, que busca ampliar o acesso à arte e à cultura a partir do Vila. Como parte essencial deste projeto, está o acervo, e a importância de reverberar a memória e a cultura do teatro no

país. Pensando nisso, em setembro de 2025, o Vila abre a chamada PROVOCAÇÃO ABERTA, e recebe mais de 40 propostas de pesquisas multi linguagens. Originalmente, a chamada receberia apenas quatro pesquisadores, mas o interesse das pesquisas no acervo e as propostas criativas recebidas ampliaram as vagas, e o projeto pode receber sete pesquisas e oito pesquisadores.

O que se apresenta aqui não é apenas resultado, mas percurso. É o registro de um dos processos conduzidos por pesquisadores-artistas que se debruçaram sobre o acervo para fazer emergir histórias, conexões e perguntas que permaneciam latentes.

Orientados por Ana Dumas, Thiago Romero e Gil Maciel, as pesquisas se apresentam em diferentes linguagens. São elas: “Vozes do interior: Teatro de Cabo a Rabo na memória, de Daniel Arcades (artigo, dramaturgia e performance); “O Avesso da atriz - Sonia Robatto”, por Hewelin Fernandes (documentário e roteiro); Um passeio fora da caixa: dos Novos ao Vila”, por Clara Cerqueira & Túlio Carapiá (quadrinho e roteiro); “Instruções para caminhar a contrapelo”, por David Albarracín C. (caderno-colagem e performance); Nós, Por Exemplo… O show que uniu Gil, Caetano, Bethânia, Gal e Tom Zé”, por Lucas Fróes (vídeodocumentário e roteiro); “A multiartista Maria Manuela e o Teatrinho Chique-Chique: poética, política e experiência teatral no Vila”, por Débora de Souza (artigo e livreto); e “Jovens historiadores: a escola vai ao Vila”, por Denise Pereira Silva (prática pedagógica). Todos eles registrados no formato de livros, acessíveis pela plataforma Issuu. Cada proposta se apresenta de uma forma própria, criando novas memórias a partir do acervo. Um acervo vivo e conectado com o futuro. Aproveite a provocação!

Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha – Nós, Por Exemplo

provocações abertas

uma experiência com arquivos e lacunas

9

Esta apresentação existe porque Débora de Souza ama arquivos, as memórias e lacunas que eles guardam. No intervalo entre um documento e outro e nas caixas que guardam vestígios de um algo que existiu antes e que agora pode reexistir, de outro modo. Nos arquivos a memória não está inteira em lugar nenhum. Ela aparece em pedaços e Débora se debruça sobre eles. No caso da pesquisa sobre a atriz, dramaturga e diretora Maria Manuela e o seu Teatro Chique-Chique, Débora compilou programas teatrais, recortes de jornal, fotos antigas, documentos de censura na Ditadura Militar brasileira. Coisas aqui, coisas acolá.

Ao lidar com esses materiais, sua pesquisa assume o gesto crítico e político de olhar para aquelas memórias, inclusive recuperando e registrando a importância o teatro infantil e de uma dramaturgia de autoria feminina, que Manuela e o ChiqueChique encarnaram no Teatro Vila Velha entre os anos de 1960 e 1970.

Uma pesquisa histórica é um trabalho de montagem. Débora montou tanto um ensaio rigoroso, quanto um livreto para crianças, breve e exato, como vocês pode ver nesta publicação. De comum, ambos têm cenas entrecortadas e fragmentos que se articulam para resgatar o possível da história maior da diretora e de seu projeto. Um possível por enquanto, já que Débora pretende continuar essa pesquisa e desdobrar esse possível. Um movimento guarda sempre um gesto para outro.

Aqui, temos o muito que Débora retirou do passado e organizou como informação no presente, resultado de uma prática investigativa que ela compartilha assumindo que toda memória contada, toda narrativa histórica é também montagem. Não dá para estar naquele, passado preenchendo todas as lacunas dentro daquelas caixas, mas é possível encostar nele. Ativando documentos, vozes e outros vestígios para construir relações com nosso presente. Movendose para o futuro.

gil maciel rocha Orientador da pesquisa
nós, por exemplo… o show que uniu gil, caetano, bethânia, gal e tom zé

provocações abertas

o projeto apresentado

política e experiência teatral no vila

A MULTIARTISTA MARIA MANUELA E O TEATRINHO CHIQUE-CHIQUE: por débora de souza poética,

No âmbito do “Eixo 03 – Palavras”, objetivo desenvolver nesta pesquisa estudo sobre o teatro infanto-juvenil na Bahia, na década de 1960, em especial, acerca da dramaturgia de Maria Manuela à frente do grupo Teatrinho Chique Chique, em uma abordagem interpretativa, histórica e interdisciplinar, considerando documentos do Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha: Nós, Por Exemplo (acervo físico e/ou digital) e diálogo com artistas, pesquisadores, profissionais do teatro, com os quais tecerei essa prática de conhecimento, poder e transformação sociocultural.

Algumas perguntas norteiam esta pesquisa:

a) de que maneira o Teatro Vila Velha tem participado da construção de um teatro infantojuvenil na Bahia?;

b) como dar a ler e a conhecer projetos, práticas teatrais, dramaturgias e artistas que atuaram de forma significativa na Bahia, na década de 1960, na cena teatral infanto-juvenil?;

c) quais os pressupostos estéticos e ideológicos da dramaturgia de Maria Manuela e, em especial, do grupo Teatrinho Chique Chique?;

d) como o(a) pesquisador/a da área de Letras pode dialogar com profissionais do Teatro, da História, da Arquivística e da Educação na leitura crítica de documentos do teatro baiano infanto-juvenil, na atualização de uma memória, considerando relações entre passado e presente, no processo de revisão da historiografia teatral brasileira?

A análise da materialidade e historicidade dos textos escritos para o teatro permite-nos dar a conhecer e a ler dramaturgias, às quais estão relacionados documentos, sujeitos, práticas e projetos distintos. A materialidade, em suas

diferentes dimensões (física, textual, histórica e política), é alterada ao longo do processo de transmissão, havendo apagamento e produção de sentidos. Nesse sentido, ao adotar o texto teatral como objeto de estudo, em sua relação com outros documentos do espetáculo, da imprensa, da censura etc., faz-se imprescindível adotar uma metodologia interdisciplinar atravessada por saberes da Filologia textual, Teorias do drama / Práticas teatrais, Sociologia dos textos, História cultural e Arquivologia, e procedimentos metodológicos da Crítica textual e da Crítica Genética / Crítica de Processo, dentre outros.

Como resultados, espero, ao final do trabalho, ter: 1. tecido um panorama quanto ao teatro infantojuvenil na Bahia na década de 1960, com base, sobretudo, em documentos consultados no Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha: Nós, Por Exemplo;

2. selecionado um texto teatral de Maria Manuela e outros documentos acerca de sua atuação e produção dramatúrgica; 3. dialogado com pessoas do teatro e da comunidade do Vila Velha; 4. preparado um plano de oficina socioeducativa e interdisciplinar voltado para o público infanto-juvenil, de escolas públicas e/ou espaços comunitários, considerando o material reunido e as trocas realizadas; 5. desenvolvido e apresentado um artigo para divulgação dos resultados alcançados durante a pesquisa, contribuindo quanto ao processo de construção da História e da Memória do Teatro Vila Velha.

a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

CRONOGRAMA

Considerando as ponderações anteriores, proponho o seguinte cronograma específico para desenvolvimento da pesquisa:

ATIVIDADE

- Encontro de orientação e acompanhamento com os artistas-pesquisadores para a definição das táticas do trabalho;

- Pesquisa bibliográfica e elaboração de anotações sobre o teatro infanto-juvenil na Bahia, na década de 1960.

- Pesquisa no Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha: Nós, Por Exemplo (acervo físico e/ou digital) sobre iniciativas/produções infanto-juvenis no âmbito do Teatro Vila Velha, no referido período, em especial, sobre a dramaturgia de Maria Manuela (pressupostos estético e ideológico, grupos de teatro e produções);

- Seleção de um texto teatral de Maria Manuela e outros documentos acerca de sua atuação e produção dramatúrgica no Vila;

- Encontro de orientação e acompanhamento com os artistas-pesquisadores para acompanhamento e avaliação.

- Conversa com pessoas que tenham conhecido e/ou trabalhado com Maria Manuela, quando possível, bem como com profissionais (preferencialmente do Vila) que confecciona(ra)m bonecos para o teatro infantil;

PERÍODO DE EXECUÇÃO

15 a 31 de Outubro de 2025

Novembro de 2025

dezembro de 2025

provocações abertas

- Participação em atividades públicas de apresentação e troca previstas no projeto;

- Leitura crítico-interpretativa do material selecionado acerca de parte da produção e da atuação de Maria Manuela;

- Encontro de orientação e acompanhamento com os artistas-pesquisadores para acompanhamento e avaliação.

- Produção de material final a ser compartilhado com o público na plataforma Issuu: um artigo, contemplando: a) um panorama do teatro infanto-juvenil na década de 1960 e a contribuição do Vila; b) a produção e a atuação de Maria Manuela junto ao grupo Teatrinho Chique Chique; c) leitura crítica de um texto teatral da artista, considerando aspectos materiais e históricos; d) um plano de oficina voltado para o público infanto-juvenil de escolas públicas e/ou espaços comunitários, envolvendo leitura de texto teatral e criação de bonecos;

- Encontro de orientação e acompanhamento com os artistas-pesquisadores para acompanhamento e avaliação.

- Encontro de orientação e acompanhamento com os artistas-pesquisadores para avaliação;

- Finalização, apresentação pública e entrega do material (o referido artigo) para a publicação na plataforma Issuu.

Janeiro de 2026

01 a 15 de fevereiro de 2026

15 a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

JUSTIFICATIVA

A realização desta pesquisa permitirá suprir uma lacuna existente na academia e na sociedade acerca da dramaturgia de autoria feminina, dirigida para o público infanto juvenil, ao trazer à cena a produção dramatúrgica e a atuação de Maria Manuela, sobretudo, na configuração e na consolidação do Teatro Vila Velha, na década de 1960, provocando, por conseguinte, descentramentos do cânone, no que tange à dramaturgia da segunda metade do século XX, e firmando nossa participação no processo de atualização da memória e revisão da historiografia teatral brasileira.

Esta pesquisa é uma forma pessoal de retornar ao Vila Velha, mais experiente, e contribuir com a construção da história do Teatro Vila Velha, agora, na etapa de consolidação do Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha: Nós, Por Exemplo. Digo isso porque em setembro de 2008, eu ainda estudante de graduação da Universidade do Estado da Bahia, bolsista de Iniciação Científica, participei do “Seminário História do Teatro Baiano: décadas de 60, 70, 80 e 90”, promovido por A Outra Companhia de Teatro, Teatro Vila Velha e Baobá Produções Artísticas, como ouvinte e na transcrição dos depoimentos dos palestrantes, junto à Equipe Textos Teatrais Censurados (ETTC), coordenada à época pela Profa. Dra. Rosa Borges, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Depois, como estudante do mestrado do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura (PPGLitCult – UFBA), com mediação da colega Ludmila Antunes, que estudou parte da dramaturgia de João Augusto, participei como voluntária do projeto “Montagem e Informatização do Acervo Documental e Fotográfico do Teatro Vila Velha”, colaborando na higienização dos

documentos, no período de 30 de setembro a 09 de dezembro de 2010, com carga horária total de 30 horas. Participei nesse período também da criação de perfis de artistas para o Acervo Digital do Teatro Vila Velha. No ano seguinte, em 26 de abril de 2011, assisti à mesa-redonda “Teatro baiano: história e memória do Teatro Vila Velha”, no Instituo de Letras da UFBA. O evento contou com a participação de Denise Pereira (da área de História da UFBA), o diretor Márcio Meirelles e a professora Rosa Borges.

Enquanto professora e pesquisadora destaco a importância deste estudo no trabalho desenvolvido por mim no Instituto de Letras da UFBA, quanto à construção de acervos e estudo crítico-filológico de parte da produção dramatúrgica das artistas Lúcia Di Sanctis (1946 – 2013) e Nivalda Costa (1952 – 2016), no âmbito do Arquivo Textos Teatrais Censurados, uma coleção documental digital de responsabilidade da ETTC, atualmente, coordenada de forma partilhada por mim e mais três professoras doutoras do quadro de docentes permanentes da UFBA.

Destaco aqui os estudos desenvolvidos ou orientados por mim, neste momento, acerca do Teatro Infantil na Bahia, envolvendo estudantes da graduação e da pós graduação do Instituto de Letras da UFBA, a saber:

(i) os Planos de trabalho “Acervo Lúcia Di Sanctis: organização documental e estudo filológico de dramaturgia negra” e “Organização de acervos e estudo filológico de textos: o teatro infantil baiano no contexto da ditadura civil-militar”, no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC – UFBA), período 2025 – 2026; (ii) o Trabalho de Conclusão de Curso sobre a

provocações abertas

dramaturgia infantil de Gil Santana (1963 –), na década de 1980, com edição e estudo do texto teatral O peixinho Xexéu e a caixinha do céu / O peixinho Xexéu e a gatinha Fifi, período 2024 –2025; (iii) a dissertação de mestrado sobre a dramaturgia de Sanctis, no PPGLitCult da UFBA, período 2025 –2027.

A consulta aos documentos do Centro de pesquisa e memória do Teatro Vila Velha: Nós, Por Exemplo, em especial, referentes à dramaturgia de Maria Manuela, artista contemporânea a Lúcia Di Sanctis, bem como o diálogo com profissionais do Vila, será de grande relevância para nosso propósito de construir parte da história do teatro infanto-juvenil da Bahia, pelo viés do texto teatral. Nesse sentido, permitirá ampliar nosso olhar para essa cena e tecer novos sentidos nos trabalhos realizados e orientados por mim, além de ter impacto, de forma indireta, quanto aos trabalhos desenvolvidos por outros membros da ETTC.

Esclareço que desde 2006 temos realizado estudos crítico-filológicos e propostas editoriais, em diferentes perspectivas críticas, textual, genética e/ou sociológica, oferecendo à comunidade científica importante contribuição, pois temos discutido teorias e práticas editoriais de textos modernos e contemporâneos, e, em especial, de textos teatrais. Os trabalhos de conclusão de curso, as dissertações e as teses desenvolvidas interessam a diversos pesquisadores, filólogos, historiadores, estudiosos

do teatro, dentre outros, por apresentar, leituras críticas de textos, documentos/testemunhos, do período da ditadura militar.

17 a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

Trazemos à cena manifestações histórico-culturais e políticas de sujeitos/artistas que atuaram de forma significativa no teatro e na sociedade da época, criando espaços de visibilidade e de audibilidade. Desse modo, por meio desses estudos, disponibilizados no repositório institucional da UFBA (https://repositorio.ufba.br/), nós temos oferecido, de forma direta ou indireta, subsídios para (re)construir a memória do teatro baiano.

Portanto, atuar nesta pesquisa será um gesto de retroalimentação, de partilha de saberes e experiências, as quais serão disseminadas para outros sujeitos e contextos, em um movimento importante de afirmação de identidades, disseminação e inclusão cultural, com vistas à revisão de narrativas historiográficas acerca do teatro brasileiro e, por conseguinte, à transformação social.

provocações abertas

desenvolvimento da proposta

A MULTIARTISTA MARIA MANUELA E O TEATRINHO CHIQUE-CHIQUE: poética, política e

experiência teatral no vila

provocações abertas

1. pedra, papel e tesoura: itinerários de uma pesquisa em processo

a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

Quando recebi a mensagem da Equipe do Teatro Vila Velha (Vila), em outubro do ano passado, informando acerca da aprovação de meu projeto de pesquisa, submetido à chamada pública “Provocação Aberta para Pesquisas na Memória do Teatro Vila Velha”, Eixo 03 – Palavras, fiquei muito feliz considerando a possibilidade de acessar novamente o acervo do Vila, com o qual eu tive meu primeiro contato no período de iniciação científica, no âmbito da Equipe Textos Teatrais Censurados1 da Universidade Federal da Bahia (UFBA); de conhecer mais sobre o teatro infantil na Bahia, desenvolvido em contexto de ditadura civilmilitar; de contar a história do Teatrinho ChiqueChique e da artista Maria Manuela; de enriquecer a minha formação como pesquisadora e professora orientadora; de participar do processo de construção da história e da memória do Vila.

Ao consultar diferentes acervos, de forma presencial e à distância, principalmente, o Centro de Pesquisa e Memória do Teatro Vila Velha: Nós, Por Exemplo (em que há documentos do Arquivo Pessoal de Maria Manuela doados pela família após sua morte), o Setor de Periódicos da Biblioteca Central do Estado da Bahia (BCEB) e a Coordenação Regional do Arquivo Nacional no Distrito Federal (Fundo Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), Série Teatro), compreendi o desafio e o chamado uma vez que há uma lacuna na academia, na sociedade e no próprio Vila acerca do Teatrinho Chique-Chique, do Teatro de Bonecos, e da artista Maria Manuela.

Nesse sentido, para contar essa história,

1 Para maiores informações, consultem o site https:// textoecensura.ufba.br/.

tenho empreendido uma leitura minuciosa e política por meio de documentos diversos, sobretudo, do espetáculo, da imprensa e da censura, considerando a materialidade em suas dimensões físicas, textuais, históricas e sociopolíticas, em uma abordagem interpretativa, histórica e interdisciplinar. Este estudo permite colocar em cena a dramaturgia de autoria feminina, dirigida para o público infanto-juvenil, bem como o teatro de animação, em especial, o teatro de bonecos, patrimônio cultural do país, provocando, por conseguinte, descentramentos do cânone, no que tange à segunda metade do século XX.

Como criança brincando metaforicamente com pedra, papel e tesoura, em uma perspectiva ensaística, busquei tecer cenas entrecortadas da dramaturgia e da atuação de Maria Manuela frente ao Teatrinho ChiqueChique, no âmbito do Vila, “escovando a história a contrapelo” (Benjamin, 2020, p. 74). Para realizar esse exercício ético de leitura crítico-filológica, em muitos momentos, trago à cena comentários, explicações e relatos de Maria Manuela, em suas próprias palavras, (re)tecendo fios na construção deste texto, ciente de que “[a] pesquisa é compartilhamento, ainda que isso, nem sempre, se dê a ver [...]. Aprende-se, ao fazer, com o outro. O primeiro passo: aprender a ouvir” (Hissa, 2017, p. 17).

2. maria manuela no teatro vila velha

(doces ou

travessuras?): decifrando peças de um grande quebra-cabeça

a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

2 Maria Manuela no Teatro Vila Velha (doces ou travessuras?): decifrando peças de um grande quebra-cabeça

Perdi as contas das vezes que ouvi minha mãe perguntando se tinha mudado de endereço. Se estava morando no Vila. Quinze dias antes da inauguração, simplesmente mal dormia em casa.

[...] Fui a primeira pessoa no Brasil a trabalhar com bonecos articulados. Desenvolvemos uma técnica própria de manipulação (Manuela, 1998)2

Maria Manuela, artista multifacetada, fez parte da Sociedade Teatro dos Novos (STN), criada em 1959, como convidada, assim como Valdemar Nobre, Mário Gusmão, Wilson Mello, Adson Lemos e outros, participando ativamente de diversos projetos, campanhas, festivais e espetáculos. A STN, responsável pela fundação do Vila, em 1964, foi o primeiro grupo de teatro profissional da Bahia, formado, inicialmente, por Echio Reis, Carmen Bittencourt, Othon Bastos, Maria Francisca (Thereza Sá), Carlos Petrovich, Sonia Robatto, Nevolanda Amorim, Mario Gadelha, Martha Overbeck e João Augusto.

O pseudônimo “Maria Manuela” usado por Waldete Miranda Paixão (fevereiro de 1935 – novembro de 2008), consta no registro de artista fornecido pela Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) do Departamento de Polícia Federal (DPF), do Ministério da Justiça, válido, à época, em todo território nacional. Filha de José Santos Paixão e Lindaura Miranda Paixão, soteropolitana, ela cursou Dança, pela Universidade

2 Trecho de entrevista cedida ao Vila, em março de 1998, conservada no Nós, Por Exemplo

Federal da Bahia (UFBA) (1961 – 1964), Letras Vernáculas com Francês, pela Universidade Católica do Salvador (1969 –1972), e Direção Teatral, pela UFBA (1969 – 1971). Ela coordenou, ministrou e participou de diversos cursos, palestras, congressos, festivais e formações, principalmente, nas áreas de Dança, Letras, Educação e Teatro. Atuou também como tradutora de textos em língua italiana para a UFBA.

Ao longo de sua vida, Maria Manuela desempenhou muitas práticas artísticas, culturais e socioeducativas como atriz, adaptadora, diretora, bonequeira, dramaturga, contra-regra, sonoplasta, figurinista, pesquisadora, docente, produtora/ empresária (responsável por contratar recursos teatrais, acertar caches e promover publicidade e propaganda da peça), em diferentes espaços públicos e privados, em teatros, escolas, feiras, clubes e praças, no centro e na periferia, dentro e fora da cidade de Salvador, do estado da Bahia e do Brasil.

Como atriz, ela participou de vários espetáculos, dirigidos, principalmente, por João Augusto, em 1960, História da Paixão; em 1961, História da Paixão do Senhor e O casado Encantado; em 1962, Da necessidade de ser polígamo e Pluft O fantasminha; em 1963, Auto de Anchieta; em 1964, Auto da Independência; em 1965, Eles não usam bleque-tai e O noviço; em 1966, Estórias de Gil Vicente, Romanceiro da paixão e Estórias de Cordel; em 1968, Noite da Jovem Poesia Bahiana; em 1974, Quarto de empregada; dentre outros.

Em relação à Censura vivenciada no período, e à perseguição ao Vila, “centro de resistência à ditadura

figuras 1 e 2

Carteira de estudante, à esquerda, e foto de Maria Manuela e o boneco “Piolim” do Teatrinho Chique-Chique, à direita. Fonte: Nós, Por Exemplo.

25 a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

instalada no país” (Franco, 1994, p. 208), Maria Manuela (1998) explica que

[m]uitas peças do grupo foram censuradas sem explicação. Mas os homens da censura não tinham nenhum conhecimento para julgar os nossos textos.

Só posso imaginar que eles liberaram ‘Eles não usam blequetai’ sem ler. Depois, quando descobriram o teor subversivo dessa obra seria uma desmoralização voltar atrás. [...] Apresentamos muitas peças com a polícia sentada na platéia gravando e fotografando.

Nós sabíamos disso e sempre antes de subir ao palco, imaginávamos que seríamos presos.

Entre 1965 e 1966, Maria Manuela assinou uma coluna no Jornal Indústria e Comércio sobre Teatro de Bonecos e publicou textos sobre essa temática no Jornal da Bahia, por exemplo, “Teatrinho de bonecos remota a tempos remotos do homem”, “Bonecos na Austrália” e “Marionetes francesas”, colocando em cena a figura da pesquisadora, alguém que não somente produzia, mas estudava teatro de bonecos realizado em diferentes épocas, países e culturas. Essa função era reconhecida pela comunidade teatral à época, uma vez que a artista desenvolveu uma pesquisa a pedido do Serviço Nacional de Teatro sobre “Teatro de Fantoches e Marionetes da Bahia ao Amazonas”, conforme registrado em seu Curriculum vitae, conservado no Nós, Por Exemplo.

Em dezembro de 1965, junto à STN, fundou o Teatrinho Chique-Chique, Teatro de Bonecos, na função de diretora. Entre outubro e dezembro de 1967, após premiação no II Festival Nacional de Marionetes e Fantoches, Maria Manuela viajou para a Itália, a fim de realizar curso de História da Arte e Teatro Contemporâneo na Universidade Italiana para Estrangeiros de Perugia. Em seu retorno, com

o encerramento da STN, não vendo mais sentido em continuar no Vila, Maria Manuela informa ter se afastado do Chique-Chique (Manuela, 1998).

Junto à Seção de Rádio e TV da Secretaria de Educação e Cultura do Estado da Bahia (SEC), em 1969, Maria Manuela elaborou aula radiofônica sobre “A importância do Teatro no desenvolvimento da criança para o Programa de Pedagogia Didática de aspectos da evolução infantil”. A partir de 1971, como docente de teatro, educação artística, português e francês, ela trabalhou nos ensinos de 1º grau (atual, fundamental II), em redes privadas; de 2º grau (ensino médio), na rede estadual de educação; e superior, na UFBA e em universidades particulares, em Salvador e em cidades do interior da Bahia. Além disso, em 1972/1973, foi Membro Integrante da Equipe da SEC, encarregada do I Treinamento para professores de 1º grau, de acordo com a Lei 5.692/71, em Salvador, da área de Teatro, do qual a artista Lúcia Di Sanctis participou como professora cursista.

Em janeiro de 1972, a artista fundou a empresa Manco Kapac Comunicações Audio-Visuais LTDA (baixada em dezembro de 2008, CNPJ 13.527.742/0001-11), a partir da qual, ao longo das décadas de 1970 e 1980, encenou e reencenou diversas peças, criadas ou adaptadas por ela mesma, bem como de autoria diversa, em diferentes casas de espetáculos de Salvador, por exemplo, no Teatro Maria Bethânia e no Teatro Castro Alves, atuando de forma significativa na cena baiana na função de produtora teatral, muitas vezes, em parceria com o Vila.

Naquele mesmo ano, Maria Manuela participou da Tournée de Teatro realizada nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, na qualidade de colaboradora de produção, empresária e representante do Instituto Goethe da Bahia (Manuela, [1975]). A iniciativa de abertura de uma empresa era muito comum no período, a exemplo das empresas Yumara Rodrigues Produções e Lúcia Di Sanctis Produções Artísticas criadas por duas artistas contemporâneas a Maria Manuela, uma vez que a classe artística dificilmente tinha apoio financeiro ou ajuda do governo para produzir espetáculos ou desenvolver projetos.

Visando a profissionalização da classe teatral de Salvador, Maria Manuela participou do Projeto Classe Teatral Organizada (CLATOR), liderado por João Augusto, Carlos Petrovich e Jesus Chediak, representantes do Teatro Vila Velha, da Fundação Teatro Castro Alves e do Departamento de Teatro da Escola de Música e Artes Cênicas. Assinaram esse projeto outros artistas, Sóstrates Gentil, Deolindo Checcucci, Rita Maria, Maria Idalina, Francisco Barreto, Lia Robatto, Roberto Assis, Roberto Santana, Renato Simões, Anatólio Oliveira, Manuel Lopes Pontes, Ruy Sandy, Reinaldo Nunes, Leonel Nunes, Arivaldo Barata, Lúcia Di Sanctis e Edivaldo Souza (Leão, 2009). Nesse período, ela também participou de comissões julgadoras de espetáculos teatrais, ao lado de artistas como Nilda Spencer, Francisco Barreto, Sóstrates Gentil, Jesus Chediak, Manoel Lopes Pontes, Carlos Petrovich, Lena França, Cilene Guedes e Alberto Martins (Franco 1994).

Colaborando com a construção da vida cultural de Salvador, Maria Manuela partilhava informações

sobre projetos infantis, por exemplo, com Jurema Penna, em 1977, quando a procurou e informou “que Rosita Salgado Góes, que dirigia o Departamento Cultural da Prefeitura, iria promover um Ciclo de Natal e precisava de um texto infantil” (Penna, 2005, p. 305306). Após conversa com Góes, Penna “acert[ou] montar uma peça com valores nossos, nordestinos” (Penna, 2005, p. 306), criando e dirigindo O bonequeiro Vitalino, espetáculo encenado em vários bairros de Salvador, no período de 1977 a 1979, “experiência emocionante” (Penna, 2005, p. 306).

Em 1975, Maria Manuela tornou-se membro da Associação Brasileira de Teatro de Bonecos (ABTB), fundada oficialmente em 1973, vinculada à Union Internationale de la Marionnette (UNIMA), como representante do estado da Bahia. A partir desse vínculo, provavelmente, a artista intentou difundir no estado O Fantoche, um Boletim Informativo da ABTB, de publicação mensal, remetendo os interessados em tornar-se sócios à Rua Gamboa de Cima, n. 14, Dois de Julho, Salvador – BA, mesmo endereço da empresa Manco Kapac Comunicações Audio-Visuais LTDA.

Dentre essas múltiplas atuações e frentes assumidas por Maria Manuela, neste estudo, colocamos em cena seu papel de diretora, bonequeira e dramaturga, junto ao Teatrinho Chique-Chique, o primeiro projeto teatral da STN voltado para o público infantil, inserido oficialmente em suas atividades artísticas. Os Novos produziram alguns espetáculos para criança antes da inauguração do Vila, contudo, o Chique-Chique, atividade específica, de cunho artístico, cultural, socioeducativo, político, poético e

a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila experimental, era parte integrante da programação do Vila. Essa iniciativa foi também uma forma de reação à condição financeira e à política cultural do governo, em meio ao regime ditatorial, que em 1965 agia progressivamente na construção de instrumentos (leis, portarias e atos) de repressão e Censura (Pacheco, 2005).

Destacamos o pioneirismo de Maria Manuela no trabalho com bonecos articulados, à época, no país, na arte de modelar, pintar, confeccionar/criar e manipular bonecos. Em entrevista cedida ao Vila, em março de 1998, ela explica como tudo começou: um dia acordou com isso na cabeça e decidida a convencer quem preciso fosse. Ela não tinha experiência e no Vila também não havia quem pudesse ensinar. Um dia, rodando numa feira viu a [Companhia] Valença Industrial – primeira fábrica de tecidos do estado. Através do diretor, conseguiu uns bonecos de marionete que estavam expostos como decoração. Com eles, montou seu primeiro espetáculo, que falava de candomblé e se dançava afro. No texto divulgava o pioneirismo da indústria patrocinadora, o que pouca gente sabia.

Nessa época conversou com João Augusto, que a princípio não se interessou. Daí, Maria Manuela decidiu ficar de prontidão, diariamente, na escadaria do Vila. Desta forma terminou conseguindo o patrocínio de um banco, por intermédio de uma das atrizes da Sociedade, e em troca prometeu fazer um espetáculo para as crianças do Sesi. Mas faltavam os bonecos, que precisavam ser confeccionados. Como uma autodidata, Manuela descobriu que enrolando jornal molhado e transformando em uma massa, produzia a matéria-prima dos seus bonecos. Noites e mais noites foram viradas nesse oficio, e logo a feitura dos bonecos passou a integrar as atividades internas do Vila. João dizia para seus atores: ‘Vá trabalhar um pouco as mãos fazendo os bonecos de Maria Manuela’ (Manuela, 1998).

Nesse sentido, Maria Manuela contou com a “valiosa supervisão geral de João Augusto, [...] [e] com a grande ajuda do [...] Prof. Dirceu Câmara Neri [...]” (Manuela, 1966), quanto à criação de cenários e efeitos técnicos em Teatro de Bonecos. Este professor foi enviado pelo Conservatório Nacional de Teatro, cenógrafo e aderecista pernambucano que trabalhou com sua esposa Marie Louise em inúmeros teatros do Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Recife. Em relação a João Augusto, ela relatou: “Ele era um tipo muito interessante. Às vezes, ficava determinado a colocar algum ator para baixo por sadismo ou para mostrar que era ele quem mandava. Mas sou grata às loucuras de João Augusto, ele conseguiu extrair o melhor de mim” (Manuela, 1998).

provocações abertas

teatrinho chique-chique

(jogo de memória):

as aventuras de piolim e sua turma

Cartaz do Teatrinho Chique-Chique. 1965. Fonte: Nós, Por Exemplo.
figura 3
29
a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

provocações abertas

No Boletim intitulado Informação da Semana, n. 27, arquivado no Nós, Por Exemplo, datado de 22 de novembro de 1965, na seção Teatro, Marcelo Franco (1965) informa que “[...] a talentosa e inteligente Maria Manuela do Teatro do Novos está se comprometendo levar todas as quintas, sábados e domingos no Vila Velha o seu Teatro de Marionetes com estreia marcada para o fim do presente mês [...]”.

No Jornal da Bahia, do dia 03 de dezembro daquele ano, conservado no Setor de periódicos da BCEB, registra-se:

O Teatro dos Novos estreará amanhã, às 16 horas, Teatrinho de Bonecos Xique Xique, apresentando as peças ‘Piolim vence a bruxa’, ‘O falso faquir’ (marionetes), ‘A fada encantada’ (fantoches), além de uma dança com todo o elenco de bonecos.

Direção de Maria Manuela, supervisão de João Augusto, cenários de Miguel Calombrero e Luciano Diniz. Haverá espetáculo todas as semanas, às quintas sábados e domingos, às 16 horas. Maria Manuela aceita contatos para festas, aniversários, encerramento de cursos etc.

Todavia, o Teatrinho Chique-Chique estreou na cena baiana somente no dia 12 de dezembro de 1965, uma vez que, de acordo com Maria Manuela (1998),

[n]o dia [5] de dezembro de 1965, a pauta estava marcada para estrear o nosso espetáculo de bonecos, quando Silvinha Teles passou com Caetano e ficaram apaixonados pelos bonecos. Ela me pediu a pauta para fazer um show para crianças. Resultado: Alberto Viana manipulou os bonecos, Caetano fez a voz e Silvinha improvisou os diálogos. Tudo sem ensaio e foi um sucesso. Superlotou. Com isso, o teatro de bonecas não parou mais.

[...] [E]la [Maria Manuela] e seus atores chegavam a fazer cinco espetáculos por dia. Como diretora, ela coordenava cinco equipes. ‘Toda feira que acontecia na cidade, éramos convidados a nos apresentar. Pedia um alto preço e os empresários pagavam’. Ela conta que com esse sucesso, o preconceito foi ficando de lado e começaram a aparecer textos (Manuela, 1998).

O nome “Chique-Chique” remete a uma planta típica do sertão brasileiro, “xique-xique”, presente sobretudo na região nordeste. “Este cacto arbustivo possui tronco ereto, de 1 a 4 m de altura, com diversas ramificações cobertas de espinhos brancos” (Melo, 2024). Planta conhecida por sua resistência e diversidade, ela é fonte de alimento e água para animais e seres humanos, sobretudo, em períodos de estiagem (Melo, 2024). No cartaz do Chique-Chique, exibido acima, há remissão a essa planta na imagem, à esquerda, ao lado do retângulo em que consta a música de abertura do teatrinho de bonecos para crianças, composta em versos com rima (“espinho/teatrinho”; “sertão/irmão”) e em linguagem popular (“pra você que é meu irmão”).

A partir de diversos documentos, sobretudo, da imprensa baiana, é possível construir cenas entrecortadas do Teatrinho Chique-Chique, melhor compreendendo a relevância deste projeto e da atuação de Maria Manuela tanto para a manutenção do Vila Velha quanto para a consolidação do Teatro para e com crianças na Bahia.

a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

31

TEATRINHO CHIQUE-CHIQUE EM CENA

Programação do Teatro Vila Velha – 1ª quinzena de dezembro

Dezembro

Teatrinho Chique Chique

Teatro de bonecos

Direção de Maria Manuela

Período: 5 a 11, às 16 horas

Fonte: Nós, Por Exemplo.

6/12/65 - Informação da Semana, n. 30, Ano I.

Seção Teatro – Autoria: Marcelo Franco

“Ontem, domingo estreou finalmente no Vila Velha o Teatrinho de Fantoches e Marionetes. Chique-Chique de Maria Manuela. De agora em diante o público mirim tem para onde ir às quintas, aos sábados e domingos, às 16 horas. O público infantil está de parabéns. Atitudes como essas só merecem elogios e aplausos de nossa parte.”

“Maria Manuela muito animada com seu elenco em fantoches e marionetes estreou ontem. [...]”.

Fonte: Nós, Por Exemplo

Jornal não identificado [12/1965]

“[...] cenários de Miguel Calombrero e Luciano Diniz, confecção de Maria Manuela, Lúcia Margarida, Flora Vasconcelos, participação de todo o grupo na apresentação do espetáculo Quatro peças e um número de dança estão sendo apresentados neste primeiro espetáculo. Funções às quintas, sábados e domingos às 16 horas, no Vila Velha, podendo o Chique Chique ser contratado para clubes, aniversários, festinha, tudo mais.”

Fonte: Nós, Por Exemplo.

Jornal não identificado [12/1965]

“Teatrinho Chique-Chique

Trata-se de um teatrinho de bonecos (fantoches e marionetes), cuja apresentação é feita em verso [...].

No programa de estreia, [...] foram apresentadas as peças de marionetes Piolim vence a bruxa e O falso faquir e as peças de fantoches A fada encantada e As falsas baianas, terminando com uma dança de todos os bonecos. Os bonecos foram feitos por Miguel Calombrero, Flora Vasconcelos, Valdiná, Lúcia Margarida Luciano Diniz e Fernando Peltier, sob a direção de Maria Manuela, que também dirige o Chique-Chique, sob a supervisão de João Augusto.

Na montagem das peças todo o elenco do Teatro dos Novos participa”.

Fonte: Nós, Por Exemplo

INÍCIO

De acordo com o plano do Grupo dos Novos, esta iniciativa marcará o começo de uma fase de apresentações teatrais para as crianças. ChiqueChique, portanto, abrirá uma nova perspectiva à encenação de peças infantis que, no momento, têm sido encaradas como objeto útil e necessário por vários grupos locais.

Já na primeira etapa de apresentações, as crianças poderão ver as aventuras de “Zé Baiano vence a Bruxa” (marionetes), “A fada encantada” (fantoches) e O falso mágico” (marionetes). Além dessas três peças, o programa promete ‘diversos números surpresas’, que certamente agradarão bastante à gurizada que comparecer ao Teatro Vila Velha.

Futuramente o Teatrinho Chique-Chique nos dará novas atrações no gênero, entre as quais já estão sendo boladas: sombras, mam[u]l[e]ngos e outras modalidades de bonecos.

ORIENTAÇÃO

O Teatrinho Chique-Chique, iniciativa do Grupo dos Novos, apresentação do Teatro Vila Velha, traz no seu rótulo, como recomendação, a supervisão de João Augusto, jovem diretor teatral cujos conhecimentos e capacidade comprovadas aliam-se à dedicação e carinho de Maria Manuela, a quem está entregue a direção do espetáculo infantil.

A estes dois nomes, juntam-se as colaborações de Miguel Calombrero como cenarista, colaborando na execução e pintura dos bonecos [...] Valdiná, Flora, Luciano, Olga, Lúcia, Jota, Luís, Peltier e Cláudia, uma turma que bem orientada vem procurando fazer coisa séria e boa, para atender ao nosso público adulto e agora também ao público infantil.

figura 4

Fonte: Jornal da Bahia, 12 e 13 dez. 1965. BCEB.

a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila 16, 17, 18 e 19/12/65 – Jornal da Bahia [Roteiros de divulgação]

Vila Velha

“Às 17 horas Teatrinho Chique-Chique, bonecos para crianças no Teatro Vila Velha, cumprindo com sua programação para a presente quinzena de dezembro [...]”

Fonte: BCEB.

Jornal não identificado [1966]

“[...] Trata-se de teatro de bonecos (marionetes) para crianças. Bonecos que falam, cantam e dançam. No seu repertório três pequenas peças: Piolim vence o Zé Feiticeiro, Dona Baratinha e As aventuras de Piolim. As reservas deverão ser feitas a partir das 14h, inclusive para festinhas particulares, batizados, casamentos etc.

O Teatrinho de Maria Manuela (direção) é realmente engraçado e diverte a petizada Antes de os bonecos viverem cada uma das três pecinhas que deliciam as crianças dois rapazes (Piti ao violão e outro) e uma moça (Marilda) cantam números infantis de que a meninada participa subindo no palco para ficar ao lado dos atores.

[...] [O] Teatrinho Chique-Chique agrada a todos e consegue fazer as crianças participarem também do espetáculo como o seu personagem central [...].

Os bonecos são vividos por três vozes: Othon Bastos, Martha [...] e Piti”.

Fonte: Nós, Por Exemplo

Março e Abril de 1966 - Informação da Semana, n. 46

Seção Teatro – Autoria: Marcelo Franco

“Aos sábados e domingos, às 16 horas, atendendo aos diversos apelos feitos por este colunista, Maria Manuela resolveu levar à cena o seu Teatrinho Chique-Chique. [...].”

Fonte: Nós, Por Exemplo

Abril/66 - Informação da Semana

Seção Teatro – Autoria: Marcelo Franco

“Para a criançada tanto “O Chapeuzinho Vermelho”, às sextas, sábados e domingos na Escola de Teatro, como o “Teatrinho Chique Chique” no Vila Velha são ótimas pedidas.”

“Já em plena atividade o Teatrinho Chique Chique com Piolim e sua turma fazendo miséria para a garotada aos sábados e domingos às 16 horas. Todos lá criançada.”

Fonte: Nós, Por Exemplo

33

Programação do Teatro Vila Velha 1966

Abril/Maio

Em cartaz - Teatrinho Chique Chique

Bonecos para crianças

Todos os sábados e domingos, 17h

Aventuras de Piolim

Fonte: Nós, Por Exemplo

23/05/66 - Informação da Semana, n. 54

Seção Teatro – Autoria: Marcelo Franco

“O Chique-Chique? Vai bem, obrigado, com Piolim e sua turma encantando a todas as crianças que vão vê-lo aos sábados e domingos a partir das 17 horas lá no Vila. Lá, Piolim e Sua turma dirigidos por Maria Manuela sabem prender a atenção da garotada presente. Em matéria de Teatro para crianças é uma ótima pedida.”

Fonte: Nós, Por Exemplo

Programação do Teatro Vila Velha 1966

Maio

Polim e o jacaré / D. Baratinha / O ladrão amarelento

Teatrinho Chique Chique

Direção de Maria Manuela

Período: sábados e domingos, 17h

Fonte: Nós, Por Exemplo

provocações abertas

Fonte: Jornal da Bahia, 16 jun. 1966. BCEB.
figura 5

Programação do Teatro Vila Velha 1966

Junho e Julho

26/06, 03/07 e 10/07 (domingo), 17h, Teatrinho Chique Chique

Fonte: Nós, Por Exemplo.

28 e 29/06/66 – Jornal da Bahia [Roteiros de divulgação]

Teatro Vila Velha

Passeio Público - Teatrinho Chique-Chique (novas atrações)

Aos domingos, 17 horas.

Fonte: BCEB.

Programação do Teatro Vila Velha 1966

Julho

Fantoche para criança

Teatrinho Chique Chique

Direção de Maria Manuela

Período: sábados e domingos, 17h

Fonte: Nós, Por Exemplo

01, 02, 06, 07, 08/07/66 – Jornal da Bahia [Roteiros de divulgação]

Teatro Vila Velha

Teatrinho Chique-Chique

Todos os domingos às 17 horas.

Teatrinho Infantil.

Fonte: BCEB. 35 a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

figuras 6 e 7

Fonte: Jornal da Bahia, 31 jul. e 01 ago. 1966, à esquerda, 28 e 29 ago. 1966, à direita. BCEB.

37 a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

Programação do Teatro Vila Velha 1966 Novembro “O Teatrinho Chique Chique, teatro de fantoches (bonecos) para crianças prepara nova temporada para Natal. Aguarde.”

Fonte: Nós, Por Exemplo

Programação do Teatro Vila Velha do ano de 1966 “Teatrinho Chique Chique - Várias peças infantis adaptadas e dirigidas por Maria Manuela (Teatro de fantoches).”

Fonte: Nós, Por Exemplo

8, 9 e 10

Fontes: Jornal da Bahia, 03 ago. 1967. BCEB Centro Brasileiro Teatro para a Infância e Juventude.
figuras

Programação do Teatro Vila Velha 1967

Setembro

Boi de carro

Teatro de Bonecos

Teatrinho Chique Chique

Autor: Guimarães Rosa

Direção: Maria Manuela

Fonte: Nós, Por Exemplo

provocações abertas

Destaco também dados sobre o Teatrinho Chique-Chique registrados no Curriculum vitae de Maria Manuela [1975], texto datiloscrito à máquina mecânica, incompleto, com quatro (4) folhas, contendo dados pessoais (nome, pseudônimo, nacionalidade, identidade, funções e residência) e registros que datam do período de 1960 a 1975, a saber, atividades teatrais como atriz; outras atividades no teatro; histórico sobre o Teatrinho Chique-Chique; cursos e atividades didáticas realizadas; trabalhos publicados.

figura 11

Fonte: Nós, Por Exemplo.

provocações abertas

Nesse histórico, fica patente a atuação do Teatrinho Chique-Chique em Salvador e em cidades do interior do estado (“sendo este um dos melhores meios para difundir o teatro” (Teatrinho [...], 1967)), em diferentes espaços, contratado por instituições públicas e privadas. Para a realização de excursões e de espetáculos, o grupo contava com contratos, ajuda de empresas privadas, valor adquirido por meio de bilheteria e patrocínio da SEC. Além disso, ressaltase a versatilidade, a qualidade e a popularidade do Teatrinho Chique-Chique, o que tem repercussão na quantidade expressiva de apresentações realizadas ao longo dos anos.

Em solicitação enviada aos Diretores da Fábrica de brinquedos Estrela S/A, em 13 de dezembro de 1965, a STN informa sobre o início das atividades do Teatrinho Chique-Chique e solicita a cooperação no sentido de doação de brinquedos, para serem sorteados nos espetáculos, nos quais visa-se “dar às crianças da Bahia, um divertimento de fins culturais” (Solicitação, 1965).

figura 12

Fonte: Nós, Por Exemplo.

No texto de apresentação do Projeto “Peça Infantil Os três porquinhos”, datado de 1987, Maria Manuela posiciona-se quanto ao teatro desenvolvido para e com o público infantil, ao longo de mais de vinte (20) anos, remetendo ao período em que tudo começou junto ao Teatrinho Chique-Chique, encerrado em 1976, quando passou a trabalhar com atores humanos:

13 45 a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

Fonte: Nós, Por Exemplo.
figura

Entretanto, Franco (1994), no livro O Teatro na Bahia através da imprensa: século XX, informa que o Teatro Chique-Chique foi responsável pela produção de duas peças, em 1977 e em 1978, respectivamente: O consertador de brinquedos, voltada para o público infantil, encenada no Teatro do Senac, tendo como elenco Fernando Neves, Vieira Neto, Sarbélia Assunção, Jô Ledoux, Rita Maria, Eduardo Moraes, com patrocínio da Secretaria Municipal de Educação e Cultura; e Em moeda corrente do país, encenada no Cemitério de Sucupira (atualmente, Praça Municipal de Salvador), com elenco constituído por Frieda Guttman, Maria Manuela, Antonio Livino, Raimundo Carvalho, Tânia França; cenografia e figurino de Eduardo Tudella Guetz; iluminação e sonoplastia de Domingos Moreira.

De acordo com o processo de censura arquivado na COREG-AN-DF (DCDP), esta última adaptação foi proibida para menores de 14 anos, comprovando que o “Teatrinho Chique-Chique é um Teatro de Bonecos para qualquer público” (Teatrinho [...], 1967), afirmação encontrada no Programa da peça Boi de Carro, conservado no Nós, Por Exemplo, embora tenha sido projetado, inicialmente, para crianças. É importante enfatizar, consequentemente, a relevância deste Teatrinho para a sobrevivência do Vila, espaço que passava por crises financeiras, fato constantemente divulgado na mídia, por exemplo, no Jornal da Bahia, no dia 21 de dezembro de 1965:

figura 14 provocações abertas

Fonte: BCEB.

a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

Embora tenha havido pausas, momentos breves de cortinas fechadas, o Teatrinho ChiqueChique sempre esteve vivo no universo da artista Maria Manuela, que, nos anos 2000, registrou em sua agenda, conservada no Nós, Por Exemplo, este movimento de revitalização, de reinvenção: “Estou tentando voltar a trabalhar com Teatro de Bonecos. Pretendo trabalhar numa casa de espetáculo – Centro Cultural dos Comerciários – Teatro Dias Gomes – Atrás do Colégio da Bahia – Central” (Manuela, 2000).

Nessa agenda, há ainda registro, datado de 22 de novembro de 2003, relativo à peça Bento, que Bento? É o Frade, texto de Ana Maria Machado, adaptado por Maria Manuela, em uma produção do Teatrinho Chique-Chique. Além disso, constam informação sobre profissionais, serviços e contratos, escolas da rede privada de Salvador e nomes de cidades do interior do estado, anotações da produtora e diretora, mulher de teatro, responsável por equipes e funções diversas.

figura 15

Fonte: Nós, Por Exemplo.

provocações abertas

2.2 brincando de esconde-esconde com piolim, tutuca e aninha: pecinhas, textos e montagens

51 a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

O Teatrinho Chique-Chique configurou-se como um teatro para (e com) crianças, em que profissionais adultos manipulavam marionetes (bonecos movidos a fio) e fantoches (bonecos de luva). Tinha-se a intenção de ampliar as modalidades/ técnicas, como informado no Jornal da Bahia, dos dias 12 e 13 de dezembro de 1965: “[f]uturamente o Teatrinho Chique-Chique nos dará novas atrações no gênero, entre as quais já estão sendo boladas: sombras, mam[u]l[e]ngos e outras modalidades de bonecos”. Entretanto, o Chique-Chique consolidou-se como teatro de fantoches (Teatrinho [...], 1967).

figura 16

Alguns bonecos do Teatrinho Chique-Chique. Fonte: Nós, Por Exemplo.

provocações abertas

Nas apresentações realizadas, inicialmente, às quintas, sábados e domingos, às 16 horas, havia passagens/números específica/os com as crianças, antes e após as apresentações, bem como nos intervalos das pecinhas, com canto, dança, brincadeira e surpresa, junto aos bonecos. A música e a dança são partes integrantes do teatro de bonecos. Conforme afirma Santos (1979), a música pode funcionar como elemento de ligação entre as cenas; suporte/pano de fundo para as cenas de briga ou de dança; e/ou recurso para os personagens identificarem-se perante o público. Os números de dança também são utilizados, frequentemente, para ligação entre as diversas passagens que compõem o espetáculo.

figura 17

Lista de algumas brincadeiras do Teatrinho Chique-Chique, à mão, por Maria Manuela. Fonte: Nós, Por Exemplo.

53 a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

No Brasil, o teatro de bonecos “nos foi trazido pelos colonizadores europeus nos séculos XVI, XVII e XVIII pois existem informações esparsas de ter sido usado pelo jesuíta José de Anchieta em sua catequese com os índios” (Amaral, 1994, p. 15). “Os presépios de fala, assim como os pastoris (representações dramáticas com danças e cantos populares), no início uma manifestação religiosa, foram aos poucos tornando-se cada vez mais descontraídos e profanos” (Amaral, 1994, p. 18).

O teatro de bonecos (movidos a fio, luva ou vara), como um teatro de forma animada (Amaral, 1996), vinculado a diversos gêneros dramáticos, pode ser associado ao gênero revista, ao teatro de variedades, em que “uma sucessão de passagens com assuntos cômicos, sociais, morais, religiosos, etc, se sucedem como sketches, incorporando elementos que pertencem ao gênero dos musicais e ao gênero do circo” (Santos, 1979, p. 143). Nessa atividade teatral, há um grande investimento em imagem e movimento, explorando as linguagens verbal (em falas de personagens), plástica (na figura de bonecos) e gestual (a partir de manipulação feita pelo ator), as quais se fundem na constituição do espetáculo, conforme público específico.

Esse trabalho artístico e cultural desenvolvido por meio do teatro de bonecos é explorado por Maria Manuela na notícia intitulada Marionetes Francesas, publicada no Jornal da Bahia, em 28 e 29 de agosto de 1966. Após tratar sobre o Teatro de Bonecos, principalmente, Marionetes, na França, durante os séculos XVII, XVIII, XIX e XX, a artista e pesquisadora

destaca a função social e educativa desta arte bem como o Teatro de Bonecos na Bahia, apresentando informações sobre o Teatrinho Chique-Chique:

Os marionetistas parisienses, que exercem conscientemente um trabalho pouco remunerador, porém apaixonante, sabem que seu trabalho é social. Eles não precisam senão ser encorajados para se tornarem antes de tudo Educadoras de um futuro público adulto.

Na Bahia, existe o Teatrinho ChiqueChique há quase um ano. Naturalmente que ainda não podemos compará-lo com nenhum Teatro de Bonecos da Europa. Ainda não possuímos recursos financeiros para obter materiais de equipamento, nem material humano que se disponha a esta arte. Mas aos poucos estamos em boa marcha, uma vez que temos dado continuidade ao trabalho sem nenhuma ajuda dos poderes públicos. Contamos apenas com bilheteria (Manuela, 1966).

“No teatro de bonecos as crianças entram em contato com diversas histórias. E sem que elas percebam vão lhes incutir uma série de princípios e um começo de discernimento no que há de verdadeiro e errado...” (Cardoso, 1966). No Teatrinho ChiqueChique, “[d]e início, estão sendo levadas pe[ç]as leves com a finalidade de divertir a criançada e ajudá-la, por meio de exemplos, a ver o que é certo e errado. Com o passar do tempo [...], serão levadas peças [...] mais importantes. [...]” (Cardoso, 1966).

Por meio do Teatrinho Chique-Chique, a STN buscava tanto formar cidadãos criativos, atuantes e críticos, quanto impulsionar a formação de um público de teatro no estado:

provocações abertas

[a] necessidade de se fazer Teatro sério para um público infantil, (adulto de amanhã) faz com que o Teatrinho saia de um Teatro que lhe dá boas condições de trabalho e parta para os locais mais distantes e menos confortáveis. Isto não só populariza o Teatrinho, como educa a criança a participar dos movimentos culturais da cidade (Teatrinho [...], 1967).

Em notícia publicada no Jornal da Bahia, em 31 de julho e 01 agosto de 1966, somos informados que o Teatrinho Chique-Chique “[...] apresentará três pecinhas e durante o intervalo de uma para outra, o público infantil poderá subir ao palco, brincar de roda com os bonecos ou fazer qualquer outra coisa que lhe agrade sempre em companhia de Piolim, Tutuca, Aninha e demais participantes da peça”. Além disso, há um breve esclarecimento quanto às pecinhas:

A primeira peça que será apresentada, hoje, chama-se “O Menino que Salvou a Cidade[”]. Esse menino é o Tutuca, amigo de Piolim e companheiro de Aninha. Aninha é uma menina que resolve passear sozinha sem saber dos perigos que estão em seu redor. Ela não sabe que tem um dragão, solto pelas ruas da cidade. Seu amigo Tutuca lhe diz: “Não vá pata rua, menina... Volte para casa, que eu vou [pre]nder o dragão”. Aí surgem as confusões, mas [Tut]uca resolve tudo direitinho. E no final da história... Eu não vou contar o final da história. Vocês verão hoje no teatro.

[...] A segunda história é do Porquinho Lula que foge de casa para visitar os amigos sem permissão de sua mãe e por isso é Castig[ado].

E a última é a do grande herói Piolim que entra em apuros com a bruxa e daí também surgem tantos problemas

que só são resolvidos com a ajuda do Cachorrinho Mágico.

Não se pode contar aqui esta história porque Piolim disse que só as crianças indo ao Vila Velha para ajudá-lo a salvar-se de tanta encrenca. [...] (Jornal da Bahia, 1966).

Nesse sentido, as estorinhas do Chique-Chique eram simples, curtas, cheias de ação e improviso, atraindo a atenção e a participação do público, o que exigia muita habilidade e sensibilidade por parte dos profissionais envolvidos (apresentador, músico, atormanipulador, diretora etc.). A estrutura teatral/dramática era composta por pequenas peças, entremeadas por números/passagens de canto, dança e brincadeiras, de forma independente, provavelmente, de duração variável, conforme local de encenação (palcos, escolas, clubes, feiras, aniversários, associações recreativas, bairros populares, dentre outros) e contrato firmado.

Os personagens, como em muitos teatrinhos de bonecos do Norte e do Nordeste, eram inspirados nos arquétipos do povo, representando seres humanos (por exemplo, Piolim, Zé Baiano, Aninha, D. Antônia, Zequinha), animais (porco, boi e jacaré) e personagens fantásticos (fada e bruxa), que passam por situações lúdicas, inusitadas, fantasistas. Dentre esses, destacou-se o boneco Piolim, que estreou no show de Silvinha Teles, em 1965, configurando-se como “o grande herói do Teatrinho Chique-Chique. [Ele] [j]á representou em mais de 100 espetáculos, para mais de 20 mil espectadores” (Teatrinho [...], 1967).

Assim, os bonecos, objetos esculturais, sem vida e estáticos, quando levados à cena, animado por

55 a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

um artista, transformam-se em personagens com temperamento e personalidade que encantam todas as classes sociais (Santos, 1979). Logo, o teatro de bonecos, por sua natureza, configura-se como um teatro de participação, social, educativo, político, artesanal, acontecimento, em que sempre se procura transformar a realidade vivenciada (Amaral, 1994).

Em relação à peça Boi de Carro, adaptação do conto literário Conversa de Bois, de Guimarães Rosa, por Maria Manuela, em 1967, que também dirigiu e produziu o espetáculo, temos informações sobre a premiação no II Festival Nacional de Marionetes e Fantoches, no Rio de Janeiro, e a repercussão no país, conforme noticiado em jornais e relatado em entrevista por Maria Manuela:

Adaptei o texto de Guimarães Rosa, ‘Conversa de Bois’, no qual os bois falam como humanos. Com muita luta, conseguimos levar para o Festival de Teatro de Bonecos do Rio. Fui a primeira pessoa no Brasil a trabalhar com bonecos articulados. Desenvolvemos uma técnica própria de manipulação. Um cenário tão grande que precisou ir todo desmontado. Ganhamos a menção honrosa, mas que não tinha prêmio em dinheiro. Sem ter como voltar a Salvador, recorri ao próprio Guimarães Rosa, que ficou tão alegre com a adaptação ‘feita na Bahia’ que me liberou de cobrar os direitos autorais. Nessa época ele era Ministro das Relações Exteriores. O apoio em dinheiro que ele nos prometeu nunca chegou, porque ele morreu um dia antes (Manuela, 1998).

O espetáculo realizado por meio de fantoches foi considerado o “[...] mais folclórico[,] mais intelectual e de cenário mais bonito [...]” (Jornal da Bahia, 1967). “O fantoche é versátil e espontâneo. Sua manipulação, feita com a mão do ator, traz facilmente emoções à tona. As peças são em geral curtas, [...], mas às vezes também se prolongam numa estrutura de peça mais

dramática” (Amaral, 1996, p. 165).

Maria Manuela explicou:

[...] Nosso espetáculo foi realmente teatral enquanto os demais constaram de shows com números separados sem sequência e alguns fizeram seus roteiros com histórias anônimas. O texto de Guimarães Rosa adaptado com ‘Boi de Carro’, durou 30 minutos fugindo ao tempo regulamentar mas o júri entendeu que para o tipo de espetáculo a duração foi ideal. Nunca nossa equipe trabalhou com tanta homogeneidade, interesse e disposição, sem medir sacrifício, sem descanso, sem interrupção, praticamente [...].

[...] O elenco de ‘Boi de Carro’ foi composto de Brabagato, Buscapé, Canindé, Namorado, Rodapião, Tiquinho e Totonhe, bonecos manipulados por Alberto Viana, Luiz Roberto, Maria Idalina, Moacir Albuquerque e Piti. A música de cena foi um aboio1 autêntico recolhido no interior do Estado, com Tom Zé ao violão. Valdiná Cardoso fez os figurinos e Rita Maria a iluminação e som. Como cenarista e modelador funcionou Miguel Calombrero. [Contra-regra, Rita Maria e Diretor de cena, Alberto Viana] (Jornal da Bahia, 1967).

No período de 1965 a 1969, foram encenadas diversas pecinhas, dentre as quais listo os seguintes títulos a seguir, em ordem alfabética, reunidos a partir de informações coletadas em diversos documentos, sobretudo, em jornais e no programa do espetáculo Boi de Carro:

1 “O aboio é um canto melódico, longo e cadenciado, geralmente entoado durante a lida com o gado”. Fonte: https://ne9. com.br/aboio-a-poesia-cantada-dos-vaqueiros-que-ecoa-pelosertao-nordestino/

Títulos de pecinhas do repertório do Chique-Chique

A fada encantada

A inveja da bruxa Dudu

A margarida

A prece do menino Tiquinho

As aventuras de Piolim

As falsas baianas

Boi de Carro Catita e seus amigos

Dona Baratinha

Dr. Espacinho

O falso faquir

O ladrão amarelento / O ladrão amarelento do Rio Vermelho

O menino que salvou a cidade

O menino que virou diabo

O soldado e a princesa

Piolim e o falso mágico

Piolim e o velho pastor

Piolim vai à escola

Piolim vence o Zé Feiticeiro

Piolim vence a bruxa

Polim vence o jacaré

Porquinho intrometido

Porquinho Lula

Tiquinho intrigado com Papai Noel

Zé Baiano vence a bruxa

Zé Bodega

Zeca vence a bruxa

Fonte: elaborado pela autora.

Até o momento de feitura deste trabalho, não encontrei textos teatrais nem informações quanto à autoria dessas peças nos arquivos consultados (que inclui também a Sociedade Brasileira de Autores

Teatrais – Bahia (SBAT)), embora já existisse o Serviço de Censura e o controle por parte do DPF. Considerando a natureza dessa forma teatral, acredito que as pecinhas do Chique-Chique, datadas de 1965 a 1967, embora possuíssem um roteiro básico relativo à história, ao enredo, nunca foram escritas/documentadas, e tão pouco foram submetidas aos órgãos de Censura. As

pecinhas, muito provavelmente, foram construídas oralmente, de forma coletiva, improvisada e experimental, durante ensaios e espetáculos.

Em relação a isso, Maria Manuela relata que, com o tempo e com o sucesso alcançado, “o preconceito foi ficando de lado e começaram a aparecer textos. Adaptei o texto de Guimarães Rosa, ‘Conversa de Bois’ [...]” (Manuela, 1998). Posteriormente, Maria Manuela adaptou também contos de Hans Christian Andersen e dos irmãos Grimm. Segundo Amaral (1996, p. 74), o teatro de bonecos não se apoia em ações e palavras, o que exige uma dramaturgia específica. Baseada na improvisação, “desse tipo de dramaturgia pouca coisa se tem documentado, e as razões são várias”. Portanto, “[a] cada etapa, ou a cada nova apresentação, tudo se inicia. Dentro de uma arte já efêmera como o teatro, o de bonecos é ainda mais efêmero” (Amaral, 1996, p. 75).

Segundo Benedetti (1969, p. 55), “[a]s peças dos teatrinhos de bonecos não eram escritas. Elas eram ‘repetidas oralmente’.” A autora chama à atenção para a relação do teatro de bonecos com a literatura oral, problematizando como muitas vezes os titereiros, profissionais que dão vida aos bonecos, são esquecidos:

o titereiro tem passado pela história da literatura sem que lhe sejam prestadas as devidas honras. De todos os anônimos, tem sido ele o mais anônimo de todos. Mas, nem por isso, o menos importante. Nem o menos ativo e fiel na preservação das velhas histórias, os velhos tipos populares e na marcha da educação através da humanidade (Benedetti, 1969, p. 56).

figura 18

Fonte: Nós, Por Exemplo.

57 a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

Lembremos que “[n]a virada do século [XIX – XX], lutas em prol da escolarização em massa acarretam reivindicações por um novo estatuto para a criança e o jovem, criando-se assim condições para o surgimento de uma literatura voltada para a infância, matriz da especificidade do teatro infantil” (Guinsburg; Faria; Lima, 2006, p. 159). Esse reconhecimento exige uma literatura, uma dramaturgia, um teatro específicos, com elementos artísticos, poéticos, culturais, socioeducativos e políticos próprios. Nesse sentido, precisamos considerar o “caráter relativamente recente da infância como fase da vida merecedora de cuidados distintos daqueles dispensados à idade

adulta” (Pupo, 2013, p. 417). “Infância” é uma categoria social, histórica e cultural, situada no tempo e no espaço, assim como as instituições vinculadas a essa noção (Pupo, 2013, p. 417).

Em requerimento de Censura, datado de 14 de outubro de 1969, assinado por Maria Manuela, tendo como destinatário o Chefe do Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP) do DPF, informa-se a respeito do encaminhamento dos textos escritos das peças O porquinho intrometido, D. Baratinha, O ladrão amarelento e Piolim vence a bruxa para apreciação censória, visando apresentações no período de

provocações abertas

outubro a dezembro de 1969 e em janeiro de 1970, por parte do Teatrinho Chique-Chique, a fim de “divertir as crianças em sentido didático” (Requerimento, 1969). Todavia, esses textos também não constam na COREGAN-DF (DCDP) e nem na SBAT.

É preciso considerar ainda que, nesse período ditatorial, o Teatro de Bonecos destinado a adultos, em especial, o mamulengo2, foi encarado como uma “manifestação perigosa e subversiva” (Amaral, 1994), devido à “convivência entre atores e plateia [, o que] lhe valeu a vigilância da censura oficial” (Amaral, 1994).

Nesse sentido, ainda há muito a investigar acerca da relação do Teatrinho Chique-Chique com os órgãos de Censura, da Bahia e do Distrito Federal; da avaliação censória quanto aos textos, peças, teatro de bonecos, STN e Maria Manuela; e da não submissão ou do não arquivamento desses processos nas instâncias envolvidas.

No âmbito do Teatrinho Chique-Chique, Maria Manuela apresentou ainda a peça Chapeuzinho vermelho, provavelmente, em 1972, na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, conforme cartaz e texto teatral conservado no Nós, Por Exemplo. Essa peça foi reencenada em 19803, no Vila, com produção da Manco Kapac Comunicações Audio-Visuais LTDA (Franco, 1994).

2 O mamulengo é uma forma de teatro de bonecos movidos por vara, muito comum, sobretudo, em alguns estados do nordeste, em que se representa o dia a dia do povo de uma região. Por meio dos bonecos, “o povo se identifica com suas alegrias e suas tristezas, com seus temores [...], com seus tipos matreiros e seus elementos repressores, com o esmagamento de seus direitos e a sua ânsia de liberdade” (Santos, 1979, p.11).

3 Nesta remontagem participaram do elenco Narcival Rubens, Sarbélia Assunção, Newtinho Silva, Maria Manuela, Juliana Veloso, Zé Carlos e Cláudia Moreira. Na iluminação, Gatto (Franco, 1994, p. 376).

59 a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

figuras 19 e 20

Cartaz da peça Chapeuzinho vermelho de [1972] e foto de encenação no Nós, Por Exemplo, de 1980, respectivamente. Fonte: Nós, Por Exemplo.

Ano Título

1975 Cazumbá (texto conservado no Nós, Por Exemplo e na COREG-AN-DF (DCDP))

1976 O pato e o girassol (texto conservado no Nós, Por Exemplo)

1999 E uma luz se abriu (projeto para ser realizado em escolas municipais de Salvador, conservado no Nós, Por Exemplo)

2003 Bento, que Bento? É o Frade (registro do projeto em agenda conservada no Nós, Por Exemplo, com menção ao Teatrinho Chique-Chique).

Para Teatro de Bonecos, Maria Manuela escreveu/adaptou também:

Fonte: elaborado pela autora.

Em relação ao Teatro para e com crianças por meio de atores humanos, destaco também alguns textos escritos/adaptados por Maria Manuela:

Ano Título

1979 Fato fátuo

1980 Liquidação para entrega das chaves

1981 A grande feira

1982 Arca de Noé (musical infantil)

O pequeno polegar

1985 Alegria de palhaço

1986 Estórias de lenços e ventos

O despertador da floresta

1987 Branca de neve e os Sete anões

Os três porquinhos

1984 Balão mágico (elenco formado, em sua maioria, por crianças (Franco, 1994))

Putz, A menina que buscava o sol

1989 No tempo do corre corre

1997 Qualquer um ninguém [197- ou 198-] Pinochio

O mágico de oz

Fonte: elaborado pela autora.

provocações abertas

Alguns desses textos, datados de 1975 a 1987, encontrei no Nós, Por Exemplo e na COREG-AN-DF (DCDP). Em sua maioria, são textos datiloscritos, à máquina mecânica, completos, com marcas de revisão e/ou reescrita, à mão, em caneta esferográfica, a tinta azul e/ou preta, e/ou a lápis, realizadas por diferentes sujeitos para além de Maria Manuela. Apresentam marcas de grampo enferrujado e perfurações, à margem esquerda; manchas, causadas devido à ação do tempo; rasgos que não comprometem a leitura; e carimbos do Vila, da SBAT, da Superintendência Regional (SR) da Bahia e da DCDP, referentes a processos de censura e de arquivamento. Há também folhas soltas, datiloscritas e manuscritas, com rasuras.

Na COREG-AN-DF (DCDP), há processos de Censura (lacunares) relativos somente às peças

Cazumbá e Alegria de palhaço (de autoria de Maria Manuela), Arca de Noé, O pequeno polegar e Branca de neve e os Sete anões (adaptadas pela referida artista), Putz, A menina que buscava o sol (provavelmente, adaptação coletiva). Há ainda processos relativos às peças O consertador de brinquedos e Em moeda corrente do país, em que Maria Manuela assina somente como produtora.

Nesses processos constam reproduções dos documentos capa, ofício, requerimento assinado por Maria Manuela (como produtora teatral, produtora de teatro infantil ou produtora e diretora de teatro, em alguns casos, vinculada à Manco Kapac Comunicações Audio-Visuais LTDA), texto teatral, parecer, ficha de protocolo e certificado. Em relação às seis primeiras peças, destinadas ao público infantil, os técnicos

ao avaliarem os textos e o ensaio geral julgaram a linguagem como “simples”, “acessível”, “poética”, “adequada ao público-alvo”, “própria às crianças”, “lírica” e “coloquial, sendo a mesma isenta de termos chulos e palavrões”.

Quanto à mensagem, avaliaram ser “positiva”, “despretensiosa com a finalidade de entretenimento infantil”, “com o intuito de alegrar e descontrair o público a que se destina”, “tem o objetivo de divertir, unir e ensinar às crianças a convivência amistosa com os bichinhos”, “ação, movimento e alegria proporcionada às crianças”, “de afetividade”, “de amor”, “entretém e diverte o público infantil”, “de descontração e alegria”, “de entretenimento sadio”, “positiva, vitória do amor e do bem sobre o mal”. Nesse sentido, indicaram a classificação LIVRE, sem cortes.

Esclareço, contudo, que nas adaptações de contos dos irmãos Grimm, por Maria Manuela, há uma reconfiguração do antagonismo tradicional do “bem” contra ou vencendo o “mal”, ao longo e ao final da história, por exemplo, quando é apresentado um lobo “bonzinho”, que não devora a vovozinha nem tenta comer Chapeuzinho Vermelho, bem como quanto aos personagens lacaio “Botafora” e “Rainha”, que têm seus corações devolvidos e realizam boas ações, em Branca de Neve e os Sete anões.

Assim, os personagens são caracterizados como seres que não são ruins em sua essência, mas que brincam, se atrapalham, tiveram o coração arrancado, reinventando-se, por conseguinte, os enredos, pois não há dois lados, o do bem e do mal. Juntos, os personagens

buscam resolver as dificuldades e todos terminam contentes. Além disso, há acréscimo de personagens, por exemplo, em Chapeuzinho Vermelho, quanto a “Tiquinho”, provavelmente, personagem criado em homenagem a um dos gatos de Maria Manuela, amigo querido, para quem ela escreveu cartas após a morte.

61 a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila africanos nas terras de origem ou lutas das monarquias e reinos africanos entre si e contra o colono invasor (Ramos, 1954), que, no Brasil, como elemento de sobrevivência histórica, foram reconfigurados a partir do contato cultural com portugueses e indígenas. Com estrutura diversa, o auto ou o brinquedo dos Congos, ganhou versões distintas conforme lugar e tempo, contudo, historiadores indicam partes, enredos e personagens característicos, os quais foram considerados por Maria Manuela.

Dentre as peças censuradas, há uma curiosidade a respeito do processo censório de Cazumbá, que apresenta somente capa, ofício de encaminhamento do texto (assinado pelo Chefe do SCDP – SR do Rio de Janeiro (RJ) ao Diretor da DCDP, em 16 de dezembro de 1975) texto teatral e ofício do Diretor da DCDP ao Chefe do SCDP – SR/RJ, datado de 22 de dezembro daquele ano, informando nada constar no Serviço de Censura sobre a referida peça teatral.

Neste texto de autoria de Maria Manuela, com música de Lindemberg Cardoso, para Teatro de Bonecos, em um ato, apresenta-se um auto popular, tomando por base os Cucumbís da Bahia (autos populares do Congo) e Quilombo dos Palmares. O auto é uma “denominação popular genérica dada às representações teatrais na Península Ibérica desde o século XIII. Aplicava-se indistintamente às composições dramáticas de caráter religioso, moral ou burlesco” (Guinsburg; Faria; Lima, 2006, p. 47).

Em documento conservado no Nós, Por Exemplo, há registro quanto a informações pesquisadas nos livros O folclore negro do Brasil, de Artur Ramos (1954), e A Bahia de outrora, de Manuel Querino (1946), a respeito de autos populares do Congo. Do início do século XVII, são representações teatrais de coroação de monarcas

figuras 21 e 22

Fontes: COREG-AN-DF (DCDP). Nós, Por Exemplo.

a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

Em Alegria de palhaço, por sua vez, Maria Manuela apresenta um circo, com personagens que remetem a animais e a profissionais deste universo, como apresentador, palhaços, leões, domador, cigana, dançarino e dançarina, equilibrista, malabarista, contorcionista, dentre outros. Há remissão para personagens de Monteiro Lobato (Narizinho, boneca Emília, Carochinha) e Ziraldo (O Menino Maluquinho), além de contos dos irmãos Grimm, como A bela adormecida, e indicação de música e dança, ao longo do texto.

No Correio da Bahia, em 02 outubro de 1985, foi publicada a seguinte crítica à montagem dessa peça: Maria Manuela comprova mais uma vez que simplicidade e bom gosto podem chegar a um produto final dos mais interessantes, prova disso é o seu mais recente espetáculo infantil, Alegria de palhaço (...). A experiência, o dito popular, a singeleza foram os ingredientes para que a Montagem criasse o universo do circo. O resultado, um trabalho cativante e gostoso de ver (...) (Franco, 1994, p. 335).

Nesse sentido, a dramaturga, atravessada pela pesquisadora e pela diretora, escreveu e adaptou textos diversos e ricos. Atuante no âmbito do Teatro para e com crianças, junto ao Teatrinho ChiqueChique ou ao teatro com atores humanos, sobretudo, no período de 1965 a 1985, Maria Manuela promoveu muitas produções para o público infanto-juvenil, em tempos de ditadura. Ela, à época, assim como Manoel Lopes Pontes, Yumara Rodrigues, Lúcia Di Sanctis e Gil Santana, dentre outros artistas, estabeleceu relevante parceria com o Vila, contribuindo financeiramente para a sua sobrevivência e para a fomentação do teatro, da arte e da cultura no estado da Bahia.

63

provocações

abertas

quebra-pote”: para rememorar maria manuela e o teatrinho chique-chique

65 a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

Ao longo deste texto, como criança buscando “quebrar o pote”, sendo conduzida por muitas vozes, com corpo em constante movimento, desenvolvi a pesquisa sobre parte da história da artista Maria Manuela e do Teatrinho Chique-Chique, a partir de leitura nas entrelinhas de diversos documentos, consultados em muitos arquivos. Maria Manuela desenvolveu distintos projetos no campo do teatro, por meio de diferentes manifestações artísticas, todavia, considero o Teatrinho Chique-Chique o mais permanente e frutífero deles, projeto idealizado e concretizado, sobretudo, junto à STN.

Maria Manuela participou de todas as etapas de construção do Teatrinho Chique-Chique, da idealização, do planejamento, da confecção de bonecos, da direção e produção de pecinhas, da adaptação e criação de textos, de contratos firmados, dos momentos de reinvenção do projeto, assim como do arquivamento dos poucos documentos/registros desta atividade. Ela foi a cabeça, o trono e os membros do Chique-Chique, o que fica muito explícito ao consultar os documentos conservados no Nós, Por Exemplo: na pasta relativa à artista, há documentos relativos ao Chique-Chique, muitos do seu arquivo pessoal, colocados em cena neste texto; na pasta da STN, consta somente um envelope sobre o Teatrinho Chique-Chique, com um ofício e alguns recortes de jornais, em sua maioria, roteiros de divulgação datados de 1965; na pasta de João Augusto, nada encontramos sobre este tema.

Nesse movimento de autoarquivamento, Maria Manuela, mais uma vez, atua no processo de resistência, de política de presença, alimentando e impulsionando trabalhos como este aqui apresentado, por meio do qual contamos parte significativa da história da artista,

do Teatrinho Chique-Chique, do Teatro de Bonecos, do Vila, do Teatro para e com crianças na Bahia, do Teatro Brasileiro.

O Chique-Chique foi uma iniciativa pioneira, artesanal, criativa e ousada da SNT, de natureza artística, cultural, social, educativa, política, poética e experimental, configurando-se como uma (re)ação de resistência e de luta daquele grupo, por um lado, quanto à dificuldade financeira vivenciada no âmbito do Vila, por outro lado, quanto ao governo ditatorial, à sua política cultural esmagadora. Lembremos que, em 1965, o governo começava a colocar em ação uma série de instrumentos legais de Censura e repressão, sobretudo, à classe artística, às pessoas de teatro, aos estudantes, professores, jornalistas e intelectuais.

Para rememorar/reavivar a artista e o projeto, contemporaneamente, “quebrei o pote”, mas sei que ainda há muito a investigar e a interpelar, por isso darei continuidade à pesquisa, considerando (i) a artista Maria Manuela (dramaturga, diretora, pesquisadora, bonequeira e docente); (ii) seus textos e adaptações (temáticas, apropriações de textos/ autores, linguagens artísticas, teorias dramáticas e práticas teatrais); (iii) seu pioneirismo no trabalho com bonecos articulados; (iv) cruzamentos entre educação e teatro; e (v) relações com outro(a)s artistas e com os órgãos de Censura, à época. Por conseguinte, é possível pensarmos na possibilidade e viabilidade de (re)encenação desses textos em palcos, escolas e/ou espaços comunitários bem como na realização de oficinas de leitura dramática e criação de bonecos de luva, fantoches, a partir de textos da artista, com material reciclado e gratuito, para crianças e adolescentes.

67 a multiartista maria manuela e o teatrinho chique-chique: poética, política e experiência teatral no vila

ALÔ GAROTADA! Piolim, Tutuca e Aninha esperam vocês para ver a peça, cantar e brincar. Jornal da Bahia, Salvador, 31 jul. e 01 ago. 1966.

AMARAL, Ana Maria. Teatro de formas animadas: máscaras, bonecos, objetos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996.

AMARAL, Ana Maria. Teatro de bonecos no Brasil e em São Paulo de 1940 a 1980. São Paulo: COM-ARTE, 1994.

BENEDETTI, Lúcia. Aspectos do teatro infantil. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1969.

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história Organização e tradução de Adalberto Muller e Márcio Seligmann-Silva. São Paulo: Alameda, 2020.

CARDOSO, Maria. Teatrinho Chique-Chique: Arte feita para crianças. Jornal da Bahia, Salvador, 16 jun. 1966.

“CHIQUE-CHIQUE” é pau de espinho e ganha menção honrosa no Festival. Jornal da Bahia, Salvador, 03 ago. 1967.

FRANCO, Aninha. O teatro na Bahia através da imprensa: século XX. Salvador: FCJA; COFIC; FCEBA, 1994.

FRANCO, Marcelo. Informação da Semana, Salvador, n. 27, 22 nov. 1965.

GENTIL, Sóstrates TVV poderá ruir. Jornal da Bahia, Salvador, 21 dez. 1965.

GUINSBURG, Jacó; FARIA, João Roberto; LIMA, Mariângela Alves de. Dicionário do teatro brasileiro: temas, formas e conceitos. São Paulo: Perspectiva, 2006.

HISSA, Cássio Eduardo Viana. Entrenotas: compreensões de pesquisa. Belo Horizonte: EDUFMG, 2017.

LEÃO, Raimundo Matos de. Transas na cena em transe: teatro e contracultura na Bahia. Salvador: EDUFBA, 2009.

LEMOS, Geraldo. Chique-Chique, o Pau de Espinho do Sertão é Teatrinho Infantil. Jornal da Bahia, Salvador, 12 e 13 dez. 1965.

MANUELA, Maria. Marionetes francesas. Jornal da Bahia, Salvador, 28 e 29 ago. 1966.

MARIONETE é contemporânea do primeiro berço. Jornal da Bahia, Salvador, 03 ago. 1967.

MELO, Aline Melo. Xique-xique: conheça o cacto comestível do nordeste brasileiro. Revista Casa e Jardim, São Paulo, 20 fev. 2024. Disponível em: https://revistacasaejardim.globo.com/paisagismo/ noticia/2024/02/xique-xique-conheca-o-cactocomestivel-do-nordeste-brasileiro.ghtml. Acesso: 15 jan. 2025.

PACHECO, Tania. O teatro e o poder. In: NOVAES, Adauto (org.). Anos 70: ainda sob a tempestade. Rio de janeiro: Aeroplano: Senac Rio, 2005. p. 260-289.

PENNA, Jurema. Meu mundo encantado de Vitalino. In: GUERRA, Guido. A noite dos coronéis: entrevistas. Salvador: Academia de Letras da Bahia; Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, 2005. p. 305-306.

PUPO, Maria Lúcia de Souza Barros. O teatro para a infância e juventude. In: FARIA, João Roberto (org.). História do teatro brasileiro: vol II, do modernismo às tendências contemporâneas. São Paulo: Perspectiva: Edições SECSP, 2013. p. 416-433.

RAMOS, Artur. O folclore negro do Brasil. Rio de Janeiro: Editora da Casa do Estudante do Brasil, 1954.

SANTOS, Fernando Augusto Gonçalves. Mamulengo: o teatro de bonecos popular do Nordeste. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1979.

provocações abertas

sobre débora de souza

nós, por exemplo… o show que uniu gil, caetano, bethânia, gal e tom zé

Possui graduação em Letras, Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade do Estado da Bahia (2009), especialização em Estudos Linguísticos pela Universidade Estadual de Feira de Santana (2010) e em História e Gestão de Acervos pela Universidade de Passo Fundo (2024), mestrado (2012) e doutorado (2019) em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). É Professora Adjunta do Instituto de Letras da UFBA, pesquisadora e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura da UFBA, na linha de pesquisa Crítica e Processos de Criação em diversas linguagens. Integra o Grupo de Pesquisa Nova Studia Philologica, Equipe Textos Teatrais Censurados.

FICHATÉCNICA

“Provocações Abertas” é parte das ações do projeto “TEMPO: Disseminação Cultural e Inclusão social no Teatro Vila Velha”, projeto 21.792, que tem a parceria da Fundação Banco do Brasil.

coordenação geral do projeto TEMPO: WILSON CHAVES DE FRANÇA

FICHA TÉCNICA TEATRO VILA VELHA

diretor artístico: MARCIO MEIRELLES coordenadora de projetos institucionais: CRISTINA CASTRO gestor de projetos: HUGO BASTOS coordenadora financeira: VÂNIA PAIXÃO diretor de planejamento e gestão: SERGIO ROTH analista administrativo financeiro: HELENA PEIXOTO MEIRELLES gerência operacional: MENIKY MARLA coordenadora de produção: CLARA TORRES produtora: ANA CLARA VERAS assistente de produção: PÂMELA MALTA técnico de iluminação: MARCOS DEDÊ cenotécnico: JOILSON BATISTA técnico de som: THIAGO VINÍCIUS núcleo de formação: CHICA CARELLI núcleo audiovisual: RAFAEL GRILO coordenadora de comunicação: DIANDRA ROCHA assessor de imprensa: ARLON SOUZA social media: JEAN TEIXEIRA diretor de arte: RAMON GONÇALVES produtora do acervo: MILENA NASCIMENTO editora de conteúdo e memória: GABRIELA WENZEL

gestão do teatro vila velha: SOL - MOVIMENTO DA CENA presidente: HUGO BASTOS vice-presidente: VÂNIA PAIXÃO

o teatro vila velha foi construído e é mantido pela SOCIEDADE TEATRO DOS NOVOS sócios: MARCIO MEIRELLES e SONIA ROBATTO

o Teatro Vila Velha tem apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia.

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook