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O Vento que Sopra Meu Rosto é o Mesmo que Apaga Meu Rastro

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© 2025 Tauan Gonzalez Sposito e Ana Paula Martos Simão Sposito (Duo

edições musaranho | maringá/pr, jan.2025

Todos os direitos reservados

Ficha técnica

textos, imagens, captação e mixagem de áudio, música, editoração e diagramação Tauan Gonzalez Sposito

revisão, narração, música

Ana Paula Martos Simão Sposito

visite o site: https://oventoquesopra.wordpress.com/

Os textos e as imagens aqui utilizados são de autoria de Tauan Gonzalez Sposito. A versão em áudio do argumento (em forma de obra eletroacústica) é uma composição de Tauan Sposito e Ana Paula Martos Simão Sposito. A voz que narra o texto é da autora, Ana Paula.

A reprodução total ou parcial deste trabalho (incluindo áudios, imagens e textos), por qualquer meio convencional ou eletrônico para qualquer fim, assim como sua representação, montagem, filmagem e/ou qualquer tipo de adaptação para outros meios/formas de expressão não pode ser realizada de forma alguma sem permissão expressa dos autores Tauan Gonzalez Sposito e Ana Paula Martos Simão Sposito.

Favor enviar e-mail a contato.tauansposito@gmail.com para qualquer solicitação.

Ação realizada com recurso da Lei Paulo Gustavo (Lei Federal nº 195/22), através do Edital Paulo Gustavo Maringá – Audiovisual (Chamamento Público 230/2023 – PMM).

Ninho de Guaxo)

Sumário

prefácio

p. 5

argumento p. 7

roteiro

p. 15

Prefácio

O Vento que Sopra Meu Rosto é o Mesmo que Apaga Meu Rastro surgiu em forma de conto, durante uma caminhada. À medida em que os passos eram firmados, a história tomava corpo, primeiro a partir da frase que origina o título, depois com o nome dos personagens, com a trama. Quando retornei à minha casa, no entardecer, anotei a ideia de forma breve.

A anotação, assim como tantas outras, ficou adormecida por bastante tempo. Finalmente, foi escrita como um conto durante certa tarde enquanto eu escutava antigas canções folk, mas continuou engavetada. Em 2023, através do Edital Lei Paulo Gustavo Maringá – Audiovisual (Chamamento Público 230/2023 – PMM), visualizei a oportunidade de dar vida à história: levá-la ao público como um roteiro de curta-metragem. O futuro talvez reserve sua transformação em obra audiovisual, afinal, um roteiro não é um meio para a realização de um filme?

Se o conto foi concebido como uma narrativa, focada em aspectos psicológicos e no desenvolvimento do enredo de forma mais introspectiva, o roteiro teve de ser elaborado visualmente. Para Syd Field (1995, p. XV, grifos do autor), “Um roteiro [...] é uma história contada em imagens. É como um substantivo: isto é, um roteiro trata de uma pessoa, ou pessoas, num lugar, ou lugares, vivendo a sua ‘coisa’”.1

De certo modo, visualizar O Vento que Sopra [...] foi fácil. Mas, como trazer isso para o texto?

A narrativa de O Vento que Sopra [...] investiga temas sensíveis e complexos como a solidão, a violência, e o conceito de realidade. As visualidades do texto precisaram ser reveladas a partir de detalhes sutis, amparados pelo aspecto sonoro, sempre sugerido no roteiro, o que caracteriza uma obra audiovisual.

Um filme, concebido através de imagens e sons, caso destituído de sonoridade, adquire significados por vezes distantes do objetivo inicial. O roteiro de O Vento que Sopra [...] foi concebido como uma relação de comunhão entre imagem e som, entre o que é visto na tela ou imaginado fora do espaço visível e as correspondências, referências e sugestões sonoras.

Como medida de acessibilidade, o argumento para o roteiro de O Vento que Sopra Meu Rosto é o Mesmo que Apaga meu Rastro foi transformado em uma composição musical eletroacústica desenvolvida pelo autor, Tauan Sposito, com narração e colaboração criativa de Ana Paula Simão. O resultado sonoro e a bíblia podem ser acessados pelo site do projeto: https://oventoquesopra.wordpress.com/ Sons, mensagem e sugestões imagéticas podem alçar diferentes voos.

1 FIELD, Syd. Manual do roteiro. Tradução: Alvaro Ramos. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 1995. 223 p.

O vento que sopra meu rosto é o mesmo que apaga meu rastro

(argumento) por

Tauan Gonzalez Sposito

1

Num prédio pequeno, as escadas de poucos degraus conduzem aos apartamentos de portas fechadas. Não há elevador, são apenas alguns lances. As paredes finas compartilham os ruídos de cada morador, ruídos esses ouvidos delicadamente enquanto se sobe os degraus. No alto, destacase o olho mágico no centro da porta, observador. Ele guarda o apartamento de Fernanda.

2

No quarto, Fernanda, uma jovem de vinte e poucos anos, arruma sua pequena mala de viagem. Distraída, escolhe algumas peças de roupa, uma toalha, a escova e a pasta de dente, shampoo, creme de cabelo. Pensativa, relembra a proposta de Rafael: um inesperado convite para viajarem juntos.

Troca o vestido leve por camiseta e calça e se dirige à cozinha. Abre o armário, que contém pouca coisa, e seleciona tudo o que restou: amendoins salgados, barra de chocolate, halls preto. Coloca tudo em uma sacola plástica. Na geladeira, também quase vazia, pega a garrafa d’água e as últimas maçãs. Guarda os lanches na mala e senta-se no sofá, com a garrafinha na mão. Liga a TV.

O canal aleatório mostra comerciais aleatórios. Após alguns instantes, desapontada, Fernanda desliga o aparelho. Prefere esperar no silêncio do apartamento. Na quietude, escuta os sons do casal no andar de cima. Sorri timidamente e se afasta em direção ao seu quarto.

Abre o livro da cabeceira folheando a esmo, como se procurasse uma mensagem entre as páginas. Quando encontra alguma coisa, o interfone a interrompe. Num sobressalto, derruba o livro no chão. Lembrase de Rafael e se levanta. Ao lado da porta, o interfone continua insistente. Atende.

Fernanda escuta, em silêncio, para então assentir. Comunica que já desce. Verifica se as janelas estão trancadas; se algo está conectado às tomadas; se as torneiras estão fechadas. Pega a mala, tranca o apartamento – e com ele os rangidos do andar superior. Desce os dois lances de escada. 3

Rafael está no carro, um Chevette caindo aos pedaços. Fernanda duvida

se o automóvel vai funcionar. Comenta o fato de não se verem há tempos, além da surpresa do convite. Rafael diz que tem saudades, que fazendo os planos da viagem pensou em chamá-la. Não sabia se iria aceitar. Afirma estar feliz com sua companhia. Como se pensasse em outra coisa, Fernanda diz que precisava de um tempo, por isso a viagem viera em boa hora.

Rafael dá partida no Chevette, sem dificuldades. Acelera. Conduz tranquilamente, com o olhar distante. Fernanda pergunta se vão ao bosque que já visitaram antes. Rafael confirma, falando sobre algo que encontrou lá, sozinho; algo que Fernanda precisava realmente ver. Ela pergunta o quê, mas Rafael nada responde, olhando com ar de segredo, pequeno sorriso nos lábios. Deixa uma nota diferente no ar, percebida por Fernanda. Os pensamentos dela são interrompidos pela música: o aparelho de som traz a voz de Joni Mitchel.

A case of you: Fernanda sussurra o título da canção. Uma pequena lágrima mareja seus olhos, que atravessam a janela como se estivessem se despedindo da cidade, dando as boas-vindas à estrada ladeada pelas árvores. Comenta algo que Rafael não ouve. Ele a indaga. Fernanda havia ganhado, anos antes, aquele disco da Joni Mitchel de presente de Rafael. Ele relembra: o vinil quase furou de tanto tocar. Pergunta se ela ainda o tem. Um pouco envergonhada, Fernanda responde que não, que havia emprestado a uma amiga. Insinuante, Rafael questiona – mais para si que para Fernanda – se o disco nunca voltou, se Fernanda ao menos chegou a pedi-lo de volta. Ela abaixa os olhos, sentindo que Rafael sabia da mentira. Deixa a resposta em suspenso, aproveitando as últimas notas da melodia. Rafael observa que, afinal, era apenas um disco.

Ficam em silêncio por um momento que parece mais longo do que é. Fernanda abre a janela, segurando outra lágrima. Diz, sem prestar muita atenção: o vento que sopra meu rosto é o mesmo que apaga meu rastro. Rafael pergunta o que disse. Ela responde que nada, que pensou alto. Conversam um pouco sobre outros discos, sobre outros presentes musicais compartilhados.

4

Saindo da rota principal, Rafael segue com o Chevette por uma estrada secundária. Os poucos carros do tráfego são apenas lembrança neste caminho quase deserto. Paira um ar de desolação: a estrada está tão vazia quanto o céu, completamente sem nuvens. O diálogo iniciado deixa Fernanda confusa.

Rafael já queria fazer a viagem há algum tempo, sentia haver algumas pontas soltas pelo caminho, como dizia. Fernanda não compreende. Para Rafael, a história dos dois nunca teve um fim; talvez um

hiato. Ela começa a discordar, mas é interrompida. Ele afirma que descobriu algo no bosque que pode mudar a percepção de Fernanda.

Em silêncio, ela tenta refletir: aceitar a viagem talvez não tenha sido boa ideia. Como que lendo seus pensamentos, Rafael pergunta se Fernanda se arrepende de estar ali. Não arrependimento, ela diz, mas como se se sentisse estranha, um pouco vazia. Segundo Rafael, isso é parte do processo de aceitação. Fernanda se sente ainda mais desconfortável, sem compreender. Em voz baixa, comenta que está com frio. Rafael mantém sua janela completamente aberta, mas fecha a de Fernanda. Para isso, se debruça sobre ela, esbarrando em suas pernas. Fernanda sente um arrepio, como se o toque dele fosse, mesmo por cima da roupa, gelado e escorregadio. Pergunta se existe algo que precisa saber. Rafael confirma, relutante; é algo que pode ser melhor compreendido quando visto. Logo chegariam ao bosque, onde ela poderia tirar suas próprias conclusões. Fernanda fecha os olhos, tentando se aquecer. Pede a Rafael que feche sua janela, também. Ele atende ao pedido, ainda que lentamente.

Fernanda sente-se cada vez mais afastada de Rafael, que diz algo como “Não será preciso... Do outro lado não precisamos de muito”... Fernanda questiona sobre esses comentários repletos de mistério, ao que ele desconversa. Diz que estão quase lá.

O carro é guiado por algumas curvas e, enfim, encosta acima. Encontram um lugar à beira da estrada e estacionam.

Rafael comenta que podem deixar as bagagens no carro, vão ver primeiro o bosque – ele usa a expressão nosso bosque, com leve sentimento de perda, como uma lembrança há muito passada. Os dois descem do carro.

5

O sol está quente. Rafael continua falando numa linguagem cifrada. Seu riso causa calafrios em Fernanda que, desviando o olhar para o Chevette, percebe que a porta do motorista não foi fechada. Segue Rafael, receosa.

A subida é difícil. Em alguns pontos, seguram-se a troncos e raízes para não se desequilibrarem. O bosque é extenso, mas aquilo que os dois antes chamavam de “bosque” era o espaço de vegetação no alto do morro, de onde se podia ver toda a extensão do bosque de um lado, e a cidade distante, do outro. No topo, Rafael estende a mão para Fernanda, ajudando-a a subir. Dando as costas, segue em frente.

Fernanda pede que a espere. Suas mãos estão suadas e sujas de terra. Inquieta, arrepende-se de ter vindo. Se aproxima de Rafael,

receosa de que ele fosse capaz de empurrá-la do barranco. No entanto, ri do pensamento absurdo.

Ainda sem olhá-la, como se falasse mais para si mesmo, Rafael diz algumas frases que Fernanda não compreende. Ele comenta sobre ela ter se sentido sufocada, ainda estar sufocada: na realidade, sem ar, como se o ar não pudesse encher seus pulmões. Diz que estava confuso antes, por isso voltou ao bosque sozinho para procurá-la. E a encontrou, e teve certeza.

Fernanda pergunta sobre o que ele teve certeza, e sente frio, está trêmula. Se aproxima e, quase sussurrando, repete a pergunta: certeza do quê?

Rafael senta-se no chão e agarra um graveto, distraído. O arremessa morro abaixo, esperando pelo som leve do impacto, segundos depois. Afirma que só há uma certeza e pergunta se Fernanda não se sente sozinha. Ela quer voltar para a cidade, agora. De Rafael, recebe apenas uma frase, dizendo que algumas coisas já não têm volta. Isso a faz sentir-se morta, ou quase. Rafael a convida para finalmente olhar o que encontrou. Levanta-se e desce alguns metros, seguido por Fernanda numa atitude mais de impulso que curiosidade. Ele aponta para um pequeno marco, com algumas flores claramente plantadas por mãos humanas. Aquele montículo se destaca, destoando da paisagem de forma quase antinatural.

Fernanda para amedrontada, pensando reconhecer uma forma levemente familiar.

Rafael pede que não diga nada ainda. Que apenas se aproxime e observe. Como se a confortasse, diz que será rápido. Vira-se e retoma a subida.

6

Abandonada por Rafael, Fernanda se abaixa sobre as flores. Identifica uma lápide. Afasta as pétalas caídas. O nome, antes escondido, se revela nítido e quase sonoro: Fernanda.

Então eu... – começa dizendo, mas se interrompe, reticente. Sente um vazio, o frio aumentando, como se o ar fosse ficando cada vez mais pesado.

7

O sol se põe mais vagarosamente que nunca quando Rafael retorna ao

carro. Ele estranha a porta do passageiro apenas encostada. Olha uma última vez para o bosque no alto, como se esperasse alguém surgindo das árvores.

No banco traseiro do Chevette, uma pequena mala. Encontra uma barra de chocolate, que prontamente abre e come. Se desfaz da mala, colocando-a entre as raízes de uma grande figueira na beira da estrada deserta.

Joga o embrulho do chocolate no chão, limpa as mãos nas calças jeans e entra no carro. Dá partida e, enquanto Linda Perhacs canta Chimacum Rain, segue adiante, deixando para trás apenas a poeira da estrada.

O vento que sopra meu rosto é o mesmo que apaga meu rastro

(roteiro)

por Tauan Gonzalez Sposito

1

INT. ESCADAS PRÉDIO FERNANDA – TRAVELLING – DIA

Subindo os lances de escadas de um prédio de poucos andares, sem elevador. Durante o percurso, SONS OFF delicados e silenciosos: um ou outro ruído oriundo dos apartamentos; algum pássaro na árvore da rua; carro se distanciando; poucos eventos. Em determinado ponto (terceiro andar, aproximadamente), apontando para o alto das escadas, vemos a porta de um apartamento. ZOOM IN: nos aproximamos a ponto de “tocar” o olho mágico.

2

INT. AP. FERNANDA – TRAVELLING – DIA

Recuo, como se a câmera houvesse entrado no apartamento pelo do olho mágico. Continuamos o recuo, percorrendo o apartamento, desde o hall de entrada até o quarto. Luz natural. Através do reflexo do espelho na parede do quarto, vemos FERNANDA, 20 e poucos anos, arrumando uma pequena mala de viagem.

NOTA: é importante que Fernanda se mostre distraída, escolhendo peças de roupa, toalha, escova/pasta de dente, cremes para cabelo (sempre a partir da imagem refletida no espelho). Ela está pensativa, relembrando o inesperado convite de Rafael para viajarem juntos.

Troca o vestido por camiseta e calça. Sai do quarto. A câmera se mantém em PLANO FIXO, mostrando o espelho, refletindo o quarto agora vazio. SONS OFF evidenciam movimentação na cozinha: uma louça, portas dos armários se abrindo e fechando.

3 INT. ARMÁRIO COZINHA

Tela escura (câmera fixa de dentro do armário da cozinha). As portas do armário se abrem, inundando a imagem com a luz ambiente, as mãos e o rosto de Fernanda. Percebemos um armário quase vazio – amendoins, halls preto, barra de chocolate. A mão direita de Fernanda tateia, pega as coisas e fecha o armário novamente. Escuridão.

POV: seguimos a mão de Fernanda. Abre a geladeira – praticamente vazia –, pega uma garrafa d’água, depois duas maçãs, fecha a porta. A seguir, em PLANO FIXO: foco na geladeira agora fechada. Enquanto isso, SONS OFF: Fernanda se afasta, sons de zíper se fechando; sons do sofá; sons de estática

(Fernanda liga a TV).

5 INT. SALA – CLOSE TV – DIA

TV ocupando todo o enquadramento. Os canais são trocados, aleatoriamente. Nada de interessante. Apenas comerciais. O aparelho é desligado. Na tela preta da televisão, o reflexo desfocado de Fernanda, sentada no sofá. SONS OFF: rangidos discretos do andar de cima (uma cama ou sofá). Pelo reflexo na TV, vemos Fernanda olhar para o teto. Sorrindo timidamente, se afasta (dirige-se ao quarto). PLANO FIXO na TV desligada, vemos pelo reflexo o sofá vazio e percebemos a claridade que entra pela sacada do apartamento.

6 INT. QUARTO DE FERNANDA – DETALHE LIVRO/CABECEIRA – DIA

A mão de Fernanda entra em campo a partir da direita, pegando o livro na cabeceira. Retira o livro de campo e vemos apenas a cabeceira, agora vazia. Sons do livro sendo folheado, como que aleatoriamente. Agora, uma sequência de cortes abruptos:

PLANO MÉDIO, FRONTAL: Fernanda sentada na cama folheando o livro;

PLONGÉE, POV lâmpada do quarto: Fernanda encontra algo em uma página qualquer do livro;

O próximo corte é sincronizado com o som do interfone tocando:

DETALHE: olhos de Fernanda, apontados para a câmera;

PRIMEIRO PLANO FIXO, ao nível do chão: livro cai no chão; SONS OFF de Fernanda saindo do quarto. O livro em primeiro plano permanece no chão, quase embaixo da cama. Percebemos traços de poeira. SONS OFF de movimentação; os toques de interfone continuam. Fernanda atende e ouvimos sua voz (off), pela primeira vez.

FERNANDA (O.S.) (após um curto momento, escutando a voz inaudível de Rafael pelo interfone. O que ele diz não é revelado)

Claro. Estou descendo.

8

Vemos Fernanda conferindo e trancando tudo no apartamento.

NOTA: aqui, utilizar diferentes cortes evidenciando a atitude quase paranoica de verificar as trancas, as fechaduras e os registros de todo o apartamento: câmera segue Fernanda/ela tranca/CORTE/outro cômodo em plano fixo/ela confere/CORTE/segue Fernanda, que testa a luz/CORTE/ torneiras em detalhe/CORTE etc.

INT. AP. FERNANDA – PLANO FIXO PORTA – DIA

Vemos a porta de entrada do apartamento centralizada na tela. Fernanda cruza a sala, entrando e saindo do campo de visão. Reaparece, após um momento, com a pequena mala pronta. Destranca e abre a porta. Deixa a casa. Fecha a porta. Sons de tranca seguido de passos se distanciando. O rangido do apartamento superior (esquecido por um tempo) aumenta, com efeitos adicionais de eco e sons de objetos da casa que vimos nas imagens anteriores: sons de portas, goteiras, vazamento de gás, trancas, maçanetas, entre outros, todos se acumulando e aumentando gradativamente de intensidade.

9

INT. CHEVETTE RAFAEL - DIA

Corte seco, sincronizando o fim dos sons no apartamento com a porta do CHEVETTE de Rafael batendo alto. O Chevette é um automóvel extremamente danificado, como se estivesse caindo aos pedaços. A câmera mostra a porta se fechando a partir do interior do carro.

10 EXT. CHEVETTE – PARA-BRISAS PRIMEIRO PLANO – DIA

Câmera fixa no capô do carro, enquadrando todo o para-brisas, com RAFAEL, 20 e poucos anos, ao volante. Fernanda está no lado do passageiro.

FERNANDA

Quanto tempo, Rafael... Fiquei surpresa com o convite.

RAFAEL

Fernanda! Estava com saudades de você. Fazendo os planos, pensei em te convidar. Imaginei que fosse recusar. Que bom

que pôde vir!

FERNANDA

(pensativa, alheia)

Preciso dar um tempo nas coisas. Essa viagem veio na hora certa.

Rafael dá partida no automóvel que, contra as expectativas, funciona perfeitamente. Acelera. Conduz o Chevette tranquilamente. Olhar distante, evitando Fernanda.

FERNANDA

Pelo que entendi, vamos àquele bosque que já visitamos uma vez?

RAFAEL

Isso. Descobri uma coisa lá, da vez que fui sozinho. E não me sai da cabeça. Você precisa ver também.

FERNANDA

E posso saber o que é?

Rafael nada responde. Olha para Fernanda, com ar de segredo, pequeno sorriso nos lábios. Volta o olhar para a pista, deixando uma nota no ar, percebida por Fernanda. Dos alto-falantes, surge a voz de Joni Mitchel.

FERNANDA

(sussurrando o título da canção)

A case of you...

Uma lágrima se forma em seus olhos. Desvia o olhar para a janela, como se despedindo da cidade, preparando a vista para a estrada ladeada pelas árvores.

NOTA: o trajeto de carro, percorrido por Fernanda e Rafael é realizado com diálogos esparsos, entremeados de silêncio. Assim, o espaço percorrido – mostrado a partir do ponto de vista externo ao carro, câmera apontada para o para-brisas, com Fernanda no canto esquerdo (passageiro) e Rafael no canto direito (motorista), evidenciando o espaço “vazio” centralizado entre os dois – é um momento mais de observação e introspecção que de diálogo. É importante deixar no ar a sensação de que entre os dois há algo velado, que nunca fica totalmente aparente ao expectador.

FERNANDA

Você me deu esse disco de presente...

RAFAEL

O que?

FERNANDA

Você me deu esse disco da Joni uns anos atrás, Rafael.

RAFAEL

Ah, sim. Não podia esquecer. Você ouviu até quase furar... Ainda tem?

FERNANDA (envergonhada)

Não, na verdade. Emprestei pra uma amiga, uma vez...

RAFAEL

E o disco nunca voltou? Mas chegou a pedir de volta?

Rafael olha de relance, irônico. Sorriso cínico de lado. As últimas notas da melodia dissolvem-se nos ruídos do vento.

RAFAEL

Afinal, é apenas um disco.

Assunto encerrado. Longo silêncio. Fernanda abre a janela, segurando outra lágrima.

FERNANDA

O vento que sopra meu rosto é o mesmo que apaga meu rastro...

RAFAEL

Que disse, Fernanda?

FERNANDA

Não, só pensei alto. (tentando sorrir)

Você ainda tem o Pink Moon que te dei?

RAFAEL

Claro! Não me separo daquele Nick Drake por nada.

Rafael realiza uma curva.

11

EXT. ESTRADA – PLANO ABERTO – DIA

Vista geral da estrada, tão vazia quanto o céu, completamente sem nuvens. O Chevette, ao longe, sai da rota principal, seguindo por uma estrada secundária. Temos a sensação de desolação de uma estrada abandonada em um mundo abandonado. A partir deste ponto, o diálogo vai deixando Fernanda confusa. Nestas primeiras frases, ouvimos as vozes EM OFF, enquanto vemos o Chevette distanciando-se na estrada:

RAFAEL (O.S.)

Confesso que já queria fazer essa viagem há mais tempo. Ficaram algumas pontas soltas no caminho...

FERNANDA (O.S.)

Em qual sentido?

RAFAEL (O.S.)

Bom, pareceu que nossa história não teve um fim. Ou algo como um fim. Sempre me pareceu um hiato.

O diálogo é feito entre silêncios. As respostas de um ao outro não são rápidas, mas como se refletissem a melhor forma de colocar verbalmente a complexidade do que se passa em seus pensamentos.

12 INT. CHEVETTE – DIA

Vemos Fernanda de PERFIL, a partir do POV de Rafael.

FERNANDA (olhando pela janela)

Vejo de forma diferente...

RAFAEL (O.S.) (interrompe Fernanda. Câmera em PLANO FIXO no perfil de Fernanda. As árvores da estrada passam velozes pela janela)

O que descobri no bosque pode mudar sua percepção.

Fernanda se mantém em silêncio, refletindo. Tira os olhos da janela e olha baixo, para a frente.

RAFAEL (O.S.) (sarcástico)

Se arrependendo da vigem, Fernanda?

Fernanda o encara, incrédula. O ar de incredulidade logo passa, antes de responder, alheia, voltando o olhar ao painel.

FERNANDA

Não sei... Apenas me sentindo estranha, agora. Um pouco vazia...

RAFAEL (O.S.)

Faz parte do processo. A aceitação pode trazer alguns efeitos, digamos, “colaterais”. Uma sensação de vazio é bem comum.

FERNANDA (agora encarando Rafael quase assustada)

Aceitação, Rafael? Como assim?

Rafael de PERFIL, a partir do POV de Fernanda.

RAFAEL

Isso mesmo. Aceitar. (olha para Fernanda) É como perdoar. Todos falamos, mas na nossa vez é muito difícil fazer.

CORTA PARA:

13 EXT. CHEVETTE – VISÃO LATERAL DO AUTOMÓVEL (3/4 À DIREITA) –

DIA

Desse ângulo, vemos Fernanda e Rafael olhando para a frente, enquadrados a partir do lado do motorista.

FERNANDA (sussurrando)

Estou com frio.

Rafael mantém sua janela completamente aberta, mas se debruça sobre Fernanda, para fechar a janela do lado do passageiro. Gira a manivela, esbarrando em suas pernas (pelo ângulo da 13

filmagem, não o vemos esbarrar em suas pernas, porém percebemos o que se passa). Fernanda sente um arrepio, como se seu toque, mesmo por cima da roupa, fosse frio. O arrepio é mostrado de forma muito discreta, quase imperceptível, na imagem do filme.

FERNANDA

Aconteceu alguma coisa, Rafael? (olhando-o)

Algo que eu deveria saber?

RAFAEL

Sim, Fernanda. Mas é difícil explicar. (olhando-a)

É mais fácil ver, mesmo. (olhando para a estrada, gesticula)

Já estamos chegando.

Fernanda fecha os olhos, buscando com isso se aquecer.

FERNANDA (ainda de olhos fechados)

Você pode fechar sua janela também, por favor?

Lentamente, Rafael atende ao pedido, abaixando-se um pouco para fechar sua janela.

PAN <=== muito lentamente, mostrando o retrovisor esquerdo e parte do capô do Chevette, até alinhar-se em ângulo reto com a estrada (sempre mostrando parte do automóvel, no canto direito da tela).

RAFAEL

Logo não será mais preciso... (continua na cena seguinte)

TRANSIÇÃO (CROSS DISSOLVE) LENTA PARA:

Vemos a estrada do ponto de vista do capô do Chevette (como em parte da abertura do filme Gerry, de Gus Van Saint). O veículo não cruza com nenhum outro durante o trajeto. Diálogo em OFF de Rafael e Fernanda. 14

RAFAEL (O.S.) (continuação)

Do outro lado não precisamos de muito, mesmo.

FERNANDA (O.S.)

Outro lado do bosque? Já estamos quase lá, não?

RAFAEL (O.S.)

Sim, Fernanda. Quase lá...

Silêncio. Apenas a música da trilha sonora – uma nota sustentada, extremamente grave, no limiar da audição. O carro ainda segue algum tempo, realiza outras curvas, depois encosta à cima, à procura de um lugar para estacionar na beira da estrada. A nota grave perdura durante toda a cena. Estacionam.

15 EXT. BOSQUE/ESTRADA – DIA

Vemos, a partir do bosque e através da janela dianteira direita do carro, os perfis de Fernanda e Rafael. Fernanda, em primeiro plano, esconde ligeiramente a imagem de Rafael.

RAFAEL (com certo sentimento de perda, nostalgia)

Nosso bosque é bem perto. Pode deixar suas coisas aqui no carro. Vamos ver primeiro.

ZOOM OUT para um PLANO MÉDIO. Os dois descem do carro. Sol quente.

CORTA PARA:

Vemos, a partir de um PLANO FIXO FRONTAL, o bosque, situado à esquerda da tela (lado direito do Chevette); o automóvel, ao centro; Fernanda e Rafael, cada um saindo de seu lado do carro; a estrada, à direita da tela.

FERNANDA

Aqui fora está mais quente.

RAFAEL

Sim. O sol, Fernanda. Aqui o sol é mais forte. A verdade também esquenta. 15

FERNANDA

Você fala por cifras.

Rafael ri. Fernanda sente um calafrio. Rafael não fecha a porta do motorista, detalhe importante, notado por Fernanda que, no entanto, nada comenta (mas acha estranho). Ela encosta a porta do passageiro, sem bater. Rafael se dirige ao bosque, Fernanda o segue. O bosque está situado à direita do carro, do lado de Fernanda. Saem do campo de visão. A câmera ainda mostra o carro por um tempo, com SONS OFF de gravetos, folhas secas, passos se distanciando.

TRANSIÇÃO (CROSS DISSOLVE) PARA:

16 EXT. ESTRADA/CHEVETTE/BOSQUE – PLANO FIXO MÉDIO – DIA

A imagem do carro, sozinho na estrada, se transforma em uma no interior do bosque: apenas as árvores. Não há modificação dos sons anteriores: ainda escutamos SONS OFF de passos, gravetos, um ou outro pássaro, vento nas folhagens. Em meio a esses sons e à imagem do bosque, surgem as vozes em OFF de Rafael e Fernanda.

RAFAEL (O.S.)

Quando viemos aqui pela última vez, você me disse que se sentia sufocada.

FERNANDA (O.S.)

Não me lembro disso, Rafael...

RAFAEL (O.S.)

Sim, “sufocada” foi a palavra. Achei que era no sentido literal, alguma dificuldade real de respirar aquele ar seco. Mas depois entendi que não, que você queria dizer outra coisa.

FERNANDA (O.S.)

Não acho que eu tenha dito algo sobre estar sufocada.

Nesse momento, os dois entram no campo de visão, vindos de um ponto atrás da câmera. Fernanda à esquerda da tela com Rafael à direita, caminhando encosta acima. A câmera os mostra de costas.

FERNANDA

Os problemas maiores começaram depois, não? Não foi assim?

Rafael para. Olha para Fernanda, pensativo. Então, recomeça a caminhada. A subida da encosta é difícil. Em alguns pontos, seguram-se a troncos e raízes para não se desequilibrarem. O bosque é extenso. Os dois se encaminham para o alto do morro, de onde se pode ver a grande extensão de árvores de um lado, e a cidade distante, do outro. A câmera passa a segui-los em um TRAVELLING com CÂMERA NA MÃO. Fernanda e Rafael continuam subindo o morro. Um tempo relativamente longo depois, Rafael diz algo.

RAFAEL

Não. Não foi assim, Fernanda. (silêncio) Os problemas começaram bem antes. Talvez você ainda não compreenda.

Chegam ao topo. Rafael estende a mão para Fernanda, ajudandoa a subir, no final. Dando as costas, segue para o lado que dá para a outra parte da vegetação. Aqui, a câmera se movimenta com mais liberdade, mostrando-os nem sempre a partir de um PLANO TRASEIRO, porém diversificando os ângulos, de maneira não abrupta.

FERNANDA

Me espera, Rafael.

Suas mãos estão suadas e sujas de terra. Inquieta, arrependese de ter vindo. Se aproxima de Rafael, receosa de que ele fosse capaz de empurrá-la do barranco, agora visível. No entanto, ri do pensamento absurdo.

RAFAEL

(sem olhar para Fernanda, como que falando para si mesmo. Rafael se move em diferentes direções, como se estivesse monologando no palco de um teatro) Você se sentiu sufocada porque estava realmente sufocada. Você não percebe? Ainda está sufocada... Quero dizer, sufocada não, mas sem ar. O ar não pode mais encher seus pulmões. Sabe, fiquei perplexo quando descobri... achei que

tinha descoberto. Uma dúvida cresceu em mim, e eu me questionava como pude ser tão ingênuo. Como não tinha visto... visto algo tão à minha frente. Por isso voltei aqui, sozinho, pra procurar. Pra te procurar, Fernanda. (encara Fernanda. ZOOM IN em seu rosto, aproximando-se cada vez mais. Silêncio)

E encontrei. Então tive certeza. (desvia o olhar)

A câmera se afasta de Rafael, que se senta de costas para Fernanda, ainda de pé. Ela se aproxima de Rafael, timidamente. A vemos em primeiro plano.

FERNANDA

Certeza de que, Rafael?

17 EXT. BOSQUE – DIA

Corte, assim que Fernanda se destaca na imagem anterior, após a fala: “Certeza de que, Rafael?”. Vemos os dois de frente, em um PLANO CONJUNTO. Rafael sentado, Fernanda se aproximando, logo atrás. Fernanda está com frio, tremendo um pouco, braços cruzados. Finalmente, abaixa-se ao lado de Rafael.

FERNANDA

(quase sussurrando, implorando)

Certeza do quê?

Rafael agarra um graveto, distraidamente. O arremessa morro abaixo, esperando o som leve do impacto.

RAFAEL

Só há uma certeza. Uma única certeza. Você não se sente sozinha? Não tem passado quieta, ultimamente? (e sem esperar pela resposta de Fernanda)

Está diferente, eu sinto. Mas quero que entenda, também. Em certos estágios, fica complicado saber o que é real. Não torne isso mais difícil do que é. Venha...

FERNANDA

Quero voltar, Rafael.

RAFAEL

Algumas coisas já não têm volta.

FERNANDA

Você faz eu me sentir morta... Ou quase.

Rafael se levanta e desce alguns metros. TRAVELLING: câmera RECUA mais lentamente que os passos de Rafael, que se aproxima enquadrado pelo lado direito da tela. Fernanda o segue, impulsionada pela curiosidade (lado esquerdo da tela). Assim que os dois passam pela câmera e saem do campo de visão, a imagem os segue a partir de uma PAN ===>. Desta vez, são enquadrados aproximadamente a 3/4, de costas. Ao fim da descida, Rafael aponta para algo que está fora do campo de visão. A câmera se movimenta em um TRAVELLING CIRCULAR À ESQUERDA, ao redor de Rafael e Fernanda, respectivamente, posicionandoos ao centro, em MEIO PRIMEIRO PLANO FRONTAL. Os dois observam algo que está fora do enquadramento. O rosto de Fernanda aos poucos assume uma expressão de estranhamento.

RAFAEL

(olha para Fernanda, um quase imperceptível sorriso cínico em seu rosto)

Não diga nada, Fernanda. Apenas se aproxime e veja. Será rápido, eu prometo.

ZOOM IN no rosto de Fernanda, ocupando a tela em um GRANDE CLOSE UP. Ao fundo, desfocado, percebemos os movimentos de Rafael, subindo novamente a encosta, se distanciando, deixando Fernanda no bosque, saindo do campo de visão.

TRANSIÇÃO (CROSS DISSOLVE) PARA:

Assim que Rafael sai do campo de visão: do rosto de Fernanda, a imagem vai se transformando em uma espécie de marco, com flores claramente plantadas por alguém, em meio ao bosque. O montículo se destaca, destoando da paisagem de forma antinatural, agora completamente visível na tela. Ouvimos os sons fora de campo dos passos de Fernanda, que se aproxima e entra em quadro, surgindo por trás da câmera. Ela caminha para o marco, se abaixa sobre as flores. Revira as plantas e identifica uma LÁPIDE. O posicionamento de Fernanda nos permite 18

a observarmos afastando as pétalas de sobre a lápide. Os elementos da imagem estão claramente expostos na tela.

19 EXT. BOSQUE – PLONGÉE DETALHE LÁPIDE – DIA

Vemos a lápide, de cima. Na pedra, lemos um nome, antes escondido, agora revelado de forma nítida e quase sonora: FERNANDA. A lápide denota a ação do tempo: musgo, sinais de infiltração, evidências de que há muito está ali, no bosque. As letras, entalhadas, estão enegrecidas pela poeira e pela água das chuvas. Manchas do acúmulo das folhas também são perceptíveis.

FERNANDA

Então eu...

TRANSIÇÃO (CROSS DISSOLVE) PARA: 19

20 EXT. BOSQUE – CLOSE ROSTO/OLHOS FERNANDA – DIA

Aqui, duas transições em CROSS DISSOLVE ocorrem, em sequência e em velocidade moderada:

LÁPIDE/ROSTO: das letras do nome FERNANDA, transição para o rosto da personagem, ocupando todo o espaço vertical da tela. Nas extremidades esquerda e direita, ainda percebemos de forma desfocada o bosque, agora silencioso. É importante que o rosto de Fernanda permaneça imóvel, apenas com o movimento dos olhos/ pálpebras/respiração/suor, em contraste com movimentos mais amplos da vegetação, desfocada ao fundo.

ROSTO/OLHOS: a segunda transição é do rosto aos olhos de Fernanda. Olhos mostrados em DETALHE, sobrepondo-se à imagem em transição do rosto, aproximadamente a partir do mesmo ponto da tela em que os olhos estavam enquadrados na imagem anterior (do rosto completo). Vemos com maior clareza o brilho de seus olhos, a pele, o suor, as pálpebras se movendo em piscadas sem ritmo fixo. Percebemos a dificuldade que Fernanda tem em focar sua visão, como se observasse em intervalos curtos de tempo objetos em diferentes distâncias.

As transições ocorrem sempre com o SOM OFF do bosque agregado à memória dos sons do apartamento, crescendo muito lentamente. Proporcionalmente ao crescendo dos sons, da trilha sonora, a imagem vai perdendo o tom, escurecendo (FADE OUT), como se o ar se tornasse cada vez mais frio e pesado.

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EXT. PÔR DO SOL – PLANO ABERTO – DIA

Corte seco. A imagem de um fabuloso pôr do sol surge na tela, interrompendo tanto a cena escurecida dos olhos de Fernanda quanto os sons em maior intensidade do bosque e do apartamento. Vemos o sol se pondo, a partir de um ponto alto da estrada, um grande descampado no horizonte. SONS OFF, quase silenciosos: vento distante na copa das árvores; um ou outro rangido de troncos no bosque. O som de um graveto partindo se destaca na quietude.

22 EXT. BOSQUE – PLANO FECHADO AO NÍVEL DO CHÃO – DIA

Corte sincronizado com o som do graveto: ao nível do chão, vemos um pé pisando o graveto. É Rafael retornando ao carro. Quando o pé se levanta, percebemos o Chevette, logo abaixo. A câmera, posicionada no chão, está direcionada do bosque para a estrada. Vemos Rafael de costas, descendo a encosta, se afastando até ser mostrado por inteiro, aproximando-se do carro. Aos poucos, Rafael vai se tornando cada vez mais desfocado, ao passo em que os gravetos pisados, próximos à lente, entram em foco.

23 EXT. ESTRADA/BOSQUE – PLANO MÉDIO TRASEIRO CHEVETTE – DIA

Carro visto por trás, Rafael ao lado direito da imagem, terminando a descida, em direção ao Chevette. Ele estranha a porta do passageiro, apenas encostada. Olha uma última vez para o bosque, como se esperasse algo ou alguém surgindo das árvores. Pela porta do passageiro, mexe em algo no banco traseiro do carro. Retira uma barra de chocolate, que prontamente abre e come. Pega a pequena mala de viagem e a coloca entre as raízes de uma grande figueira na beira da estrada deserta. Joga o embrulho do chocolate no chão displicentemente e limpa as mãos nas calças jeans. Contorna o carro por trás e entra pelo lado do motorista, com a porta escancarada. Dá a partida. Fecha (bate) a porta. Ouvimos a voz de Linda Perhacs cantando Chimacum Rain, pelos alto-falantes. O carro segue adiante, deixando para trás apenas a poeira da estrada. FADE OUT para o branco à medida em que o veículo se distancia, assim como FADE OUT no som: carro e música vão desaparecendo. Na TELA BRANCA, ouvimos o silencioso som do vento.

TRANSIÇÃO (CROSS DISSOLVE) PARA:

Do completo branco, transição mostra a copa das árvores balançando (do chão para o alto). Sons de vento continuam. Surge o TÍTULO, em letras centralizadas na tela, seguido dos créditos. A imagem da copa das árvores com os sons perdura até o fim dos créditos. Então, longo FADE OUT para o preto e para o completo silêncio.

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O Vento que Sopra Meu Rosto é o Mesmo que Apaga Meu Rastro by Tauan Gonzalez Sposito - Issuu